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Mostrando postagens com marcador Animais. Mostrar todas as postagens
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segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Era outra vez no Rio de Janeiro - A esperança resgatada por um gato

A vida tem maneiras curiosas de agir. Na última semana, minha esposa e eu tivemos o desprazer de testemunhar uma estarrecedora situação de caos e brutalidade urbana. Hoje, a Mui Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro nos mostrou outra face, mais amável e benigna.

Desde a noite passada, por volta das 19 horas, se fez incessantemente ouvir um miado de gato filhote nas cercanias de nosso prédio. O bichano causava dó, miando e miando, ao que tudo indica durante a madrugada inteira. Quando despertamos hoje, por volta das 6 da manhã, o felino continuava com sua lamúria.

Mesmo preferindo cães a gatos, minha esposa e eu ficamos preocupados com o bichinho. Por volta das 9 da manhã os moradores da casa em frente saíram à rua em busca do animal. Da janela, vimos quando eles localizaram o animal, aparentemente preso dentro do capô de um carro. Eles tentaram resgatar o gato de várias maneiras - em vão. Cerca de meia-hora mais tarde, quando as tentativas de resgate de nossos vizinhos não alcançaram êxito, buscamos os serviços públicos.

Primeiro tentamos contato com a Prefeitura, pelo 1746. Fomos muito bem atendidos por uma simpática moça que, todavia, não tinha como ajudar, pois os abrigos municipais já se encontram lotados. Buscamos então o Corpo de Bombeiros. O atendente foi muito solícito ao tomar nota sobre o caso e avisou que o quartel mais próximo entraria em contato conosco assim que possível.

No meio da manhã, o gato parou de miar. Pensamos que talvez tivesse conseguido escapulir, estivesse dormindo ou, infelizmente, estivesse morto. No entanto, enquanto preparávamos o almoço, o "fulano" voltou a seu insistente miado. Cogitamos da possibilidade de empreender, nós mesmo, o resgate. No entanto, consultando sites de organizações de proteção aos animais, vimos que isso seria pouco aconselhável - poderíamos acabar nos machucando, ou ao animalzinho. A recomendação que encontramos era que se recorresse a serviços especializados, como os bombeiros ou a polícia.

Liguei novamente para a central dos bombeiros. Desta vez, pouco minutos depois recebi uma ligação: era um cabo do Corpo de Bombeiros, pedindo mais detalhes sobre o caso. Assim que passei as informações, ele disse que comunicaria o fato a sua oficial, que deliberaria sobre os procedimentos.  Para nossa imensa surpresa, menos de meia-hora depois um caminhão e uma caminhonete dos bombeiros paravam à frente de nosso prédio. Enquanto me arrumava para descer, minha esposa foi à varanda falar com os bombeiros.

Chegando à rua, os vizinhos da casa em frente já estavam na calçada, e um morador de nosso prédio também se aproximou para ajudar. Os cinco bombeiros se puseram a examinar o carro com uma lanterna, em busca do gato - na verdade, ele se movimentava livremente dentro do motor, assustado conosco. Meu vizinho de prédio conhecia o dono do automóvel (outro morador de nosso prédio) e, para abreviar a história, conseguiu entrar em contato telefônico com ele, que se encontrava muito longe e impossibilitado de vir abrir o capô do carro, mas autorizava os bombeiros a arrombarem o veículo para o resgate - o que, conforme um dos bombeiros esclareceu, eles poderiam legalmente fazer, com ou sem autorização.

Nesse ínterim eu encontrara o porteiro de nosso prédio, que afirmou que mais cedo outra moradora tentara regata-lo. A senhora teria colocado um pouco de comida, fazendo com que ele saísse de seu esconderijo, mas retornando logo depois, quando ela avançou para apanha-lo. Um outro passante relatou que o animal de fato não estava preso, pois também o tinha visto saindo e retornando ao motor. Diante dessas informações, os bombeiros acharam melhor não arrombar o carro, já que o gato conseguia sair por conta própria.

Pedi mil desculpas aos bombeiros por tê-los feito vir à toa, mas eles foram muito simpáticos ao se despedirem. Um deles me tranquilizou afirmando que eu os chamara "por uma boa causa". Do episódio ficou a excelente impressão de que nossos bombeiros estão realmente a postos para ajudar, com dedicação e empatia, em ocorrências grandes ou pequenas - e isso não é pouca coisa!

Mas a história não estava concluída. O animal passou o resto da tarde miando e, por volta das 17 horas, um bocado de pessoas se mobilizou para resgatar o felino. Da janela, minha esposa e eu acompanhávamos ansiosamente. Nessa segunda tentativa, nove pessoas chegaram a se mobilizar pelo animal.

Após cerca de uma hora e inúmera peripécias que seria cansativo descrever, o animal foi resgatado. Um filhotinho bem pequenino, de pelo malhado, um pouco assustado com tanta gente a seu redor - e, ainda assim, estranhamente dócil, aconchegado no casaco emprestado por uma adolescente que ajudava na "operação". Os bravos salvadores tiraram uma selfie com o animal, enquanto minha esposa e eu aplaudíamos de nossa janela.

Um final feliz de vez em quando é bom para alegrar o coração e acalentar a esperança - especialmente após o medonho episódio de confronto urbano de dias atrás.

Há algo indescritivelmente belo em ver tantos seres humanos mobilizados pelo bem-estar de um simples animalzinho. Ao longo do dia, nada menos que dezesseis pessoas se reuniram para ajudar o gatinho, em um gesto de solidariedade que atravessa as fronteiras entre espécies.

Do episódio me ficam dois pensamentos esperançosos: o primeiro é que, apesar de todo o sucateamento e caos na administração fluminense, nossos serviços públicos (e seus servidores) ainda conseguem agir em prol da coletividade; o segundo, e mais importante, o lembrete de que podemos ser mais que bestas furiosas, quando as circunstâncias despertam o melhor que há em cada um de nós. 

Quando abrimos nosso coração ao pequenino, ao vulnerável, quando nos mobilizamos em favor do necessitado, quem quer que seja ele, algo insondavelmente poderoso se manifesta em nós - a potência oculta, muitas vezes esquecida ou menosprezada, que costumamos chamar de "Amor".

Há algo de profundamente simbólico no gatinho encurralado dentro do motor de um automóvel - a natureza como que aprisionada no coração dos mecanismos de nossa civilização moderna. Mais que nunca, fico com a certeza de que apenas no Amor podemos encontrar as forças para vencer os tremendos desafios que nosso mundo impõe, com suas engrenagens frias e, muitas vezes, cruéis.

Como dizia Victor Hugo, "amar é agir", e na ação amorosa (com um pouquinho de paciência e engenhosidade) se manifesta uma força capaz de libertar o menor dos seres dos mais opressivos grilhões.




quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Primatologia, Desigualdade e Capitalismo

Não simpatizo com Sader, mas achei essa formulação simples, direta e elegante - preciosa, enfim. Creio que Pickety aprovaria.

E faz pensar no que os índios Tupinambá visitando a França no século XVI disseram a Montaigne: não conseguiam compreender como os miseráveis franceses toleravam a opulência da nobreza, nem como uma criança (Carlos IX) podia ser o "chefe" de um povo tão numeroso. 

Não à toa é nesse mesmo ensaio que Montaigne profere uma de suas frases mais célebres: "Cada um acha bárbaro o que não é seu hábito".



quarta-feira, 8 de abril de 2020

Cinocracia

Cinocracia - Regime político onde os cães governam o mundo. Uma ideia que valeria a pena experimentar...


segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Humildes Catedrais

Fazendo da raiz alicerce, emergem, pouco a pouco, grão a grão, singelas, frágeis, humílimas catedrais. Há algo de assombrosamente majestoso nesses pequenos colossos, erguidos por tão ínfimas construtoras. Há algo de sublime nesses edifícios que se erguem plácida e silenciosamente, sem qualquer sombra de vaidade, orgulho, cupidez ou ambição. Cândida grandiosidade, instintiva proeza de desapaixonado impulso vital. Fosse eu uma cigarra, cantaria o glorioso triunfo arquitetônico das formigas.








domingo, 13 de setembro de 2015

Leituras - "O cachorro e seu menino", de Eva Ibbotson

Literatura infanto-juvenil é coisa muito séria. Precisamos oferecer a nossas crianças e jovens obras de boa qualidade, para a formação das pessoas sensíveis e críticas de que nosso mundo tanto necessita.

Nesse sentido, O cachorro e seu menino, da austríaca radicada na Inglaterra Eva Ibbotson, é altamente recomendável, reunindo boa história e escrita sofisticada. A trama é muito simples: Hal é um menino rico, que deseja ardentemente ter um cachorro. No entanto, sua frívola mãe não quer um animal que estrague sua impecável e luxuosa casa. O livro narra as aventuras de Hal para permanecer ao lado de Pintado, seu amigo de quatro patas. A narrativa alterna momentos cômicos, comoventes, melancólicos, irônicos ou ternos, sem jamais pender para o histriônico ou o piegas. Para maiores detalhes, leia o livro!

O que vale destacar aqui é a maestria literária com que Eva Ibbotson desenvolve essa trama tão simples. Com linguagem sutil, delicada e acessível ao público infantil, a autora traça profundas reflexões e críticas sobre a sociedade de consumo e a superficialidade e efemeridade das relações humanas no tempo em que vivemos, sem jamais soar grandiloquente ou entregar ao pequeno leitor uma moral embrulhada para viagem, deixando à criança espaço para pensar por contra própria. Essas críticas são magnificamente conduzidas através dos inúmeros personagens, nobres ou sórdidos, que aparecem ao longo da trama, sempre elaborados de modo convincente, caracterizados através de suas motivações e desejos profundos. A riqueza de caracterização dos personagens quase faz pensar num Tolstói para crianças! Vale também ressaltar que essa postura crítica e irônica da autora jamais se faz de modo cínico, ácido ou mordaz, sempre temperada por boas doses de compaixão, compreensão e bom humor.

Eva Ibbotson faleceu em 2010, aos 85 anos, deixando uma extensa e premiada obra. Fiquei interessadíssimo em conhecer outros livros da autora. Recomendo O cachorro e seu menino para todas as crianças leitoras - inclusive aquela criança que existe dentro de cada adulto!

domingo, 26 de julho de 2015

Chapolim, herói subversivo

Apesar de seu cada vez mais estrondoso sucesso mundial, o gênero artístico "super-herói" parece ser um fenômeno exclusivamente ianque. Raramente um super-herói sério produzido fora dos Estados Unidos obtém sucesso. Por incrível que pareça, acho que o Chapolim Colorado é o único grande êxito internacional do gênero criado fora dos EUA, ou pelo menos um dos maiores êxitos - mas, obviamente, não se trata de uma obra séria. Talvez seja, justamente, uma exceção que confirma a regra. Mas como explicar esse êxito? Uma explicação tentadoramente simples é que nós, latinoamericanos, não levamos nossos respectivos países a sério, fazendo sentido que nosso herói seja uma figura picaresca. Contudo, me parece possível explorar mais profundamente o pitoresco personagem.

Para tanto, lancemos primeiro nosso olhar sobre seus equipamentos, a começar pela famosa "marreta biônica". Um martelo de combate é uma arma de natureza violenta e brutal, destinada ao esmagamento de carnes e ossos. No caso de Chapolim, o malho representa uma imagem nitidamente inofensiva, composto de plástico em cores berrantes. Não transmite ideia de peso ou dureza. Parece um brinquedo, pois é, com efeito, um brinquedo. Provoca o riso, evoca certo distanciamento da realidade, e convida o espectador à brincadeira. Ninguém vai se machucar de verdade. Nenhum crânio será esmagado. Uma cabeça realmente contundida provoca medo, piedade, censura, mas um golpe da "marreta biônica" nos faz rir.


Por outro lado, temos a pílula de polegarina (ou nanicolina). Em geral, os heróis buscam instrumentos que os tornem mais fortes e poderosos, que os engrandeçam, ao passo que as pílulas reduzem o Chapolim, tornam-no fraco e vulnerável. Um gato ou um rato tornam-se ameaças temíveis para o encolhido herói. Outra inversão, ou subversão.


Para encerrar a questão dos equipamentos, lembremos a "corneta paralisadora", cujas aparições são raras, porém marcantes. Ao realizar seu efeito paralisante, constitui uma negação do movimento, enquanto as capacidades da maioria dos super-heróis tendem normalmente à ampliação do movimento, como a força do Hulk, a velocidade do Flash ou a capacidade de voo do Superman. Se, em grande medida, os super-heróis constituem pessoas "ampliadas", o Chapolim, pelo contrário, pode ser considerado, em sentidos tanto simbólicos quanto literais, uma pessoa "reduzida".


Os bordões do personagem também são indícios interessantes para interpretá-lo. "Meus movimentos são friamente calculados" e "suspeitei desde o princípio" são frases que geralmente pontuam situações onde se passa justamente o contrário, ou seja, quando Chapolim mostra menos destreza ou perspicácia, onde ele se mostra a antítese do super-herói, desastrado e tolo.

Em muitos episódios, Chapolim é vítima de abusos verbais ou físicos, e reage, encarando o espectador: "Se aproveitam de minha nobreza". O bordão também costuma ser empregado quando o personagem se vê pressionado a agir de determinada maneira. Ambas as situações denotam a vulnerabilidade do protagonista, bem como seu papel muitas vezes passivo, ao contrário do que normalmente se passa nas narrativas de super-heróis - por exemplo, Batman e Superman, dois dos arquétipos máximos desse universo raramente perdem o controle da situação, enquanto Chapolim parece quase sempre ser um joguete das circunstâncias. Por sinal, o herói mexicano muitas vezes não age movido por seus princípios, precisando ser insistentemente coagido, ao que responde com seus clássicos "sim, eu vou..." ou "sim, eu faço..."

Por vezes, o personagem consegue, numa reviravolta, dominar os problemas, pronunciando seu vitorioso "não contavam com minha astúcia". No entanto, é bom salientar que essa astúcia do Chapolim jamais se configura como as hábeis e meticulosas manobras do Batman, mas sempre como fruto de um feliz improviso. É uma astúcia de malandro, de pícaro, não de estrategista.

Em seus atos e palavras Chapolim parece sempre agir às avessas do que se espera de um super-herói. Talvez por isso viva confundindo a sabedoria comum articulada pelos ditados e provérbios, invertendo e distorcendo sua lógica e valores. O caráter confuso e caótico do personagem talvez se expresse em sua forma mais eloquente através do bordão "Palma, palma, não priemos cânico!", subversão extrema dos códigos linguísticos, que também revela o ambíguo código de ética do Chapolim, onde os termos se subvertem: o herói se dispõe a ajudar os vilões, ou pior ainda, põem-se a agredir as próprias pessoas que viera ajudar. Definitivamente, o Chapolim não é confiável.

Por fim, todas essas características parecem convergir para a própria emblemática do personagem. Chapulines são pequenos insetos da América do Norte.



No entanto, há que se ressaltar uma peculiaridade: trata-se de um inseto consagrado a usos culinários, geralmente cultivados para consumo. Sua forma de consumo mais comum é torrado e temperado com sal, alho e suco de lima.


A maioria dos super-heróis ou vilões de inspiração animal usa como "totem" alguma espécie grande ou ameçadora: morcego, tigre, carcaju ("wolverine"), lince, leopardo, urso, lobo, tubarão, rinoceronte, águia, falcão, gavião... Mesmo nos casos de pequenos insetos ou artrópodes, trata-se de animais relativamentes agressivos, como aranhas, escorpiões ou vespas. Em uma palavra, os emblemas no universo dos super-heróis remetem normalmente a espécies de predadores. Os chapulines são justamente o contrário, isto é, presas, animais destinados ao consumo e à alimentação humana. Animais que os seres humanos comem, não animais que temem. Retornamos, de certo modo, à imagem da "marreta biônica": uma arma inofensiva, que não inspira medo.

Mais ainda, animais criados em cativeiro, os chapulines são criaturas domésticas, inofensivas dominadas pelo ser humano, enquanto a maioria dos emblemas animais usados no mundo dos super-heróis remete a espécies selvagens, que escapam ao nosso domínio e controle. Não temos um Homem-Cachorro, uma Mulher-Vaca, um Super-Cavalo, um Garoto-Bode ou uma Menina-Ovelha. Tais figuras não inspirariam temor ou respeito, mas riso - como o Chapolim. Sob esse aspecto, a figura da Mulher-Gato parece bastante reveladora: é uma personagem perpetuamente dividida entre o mundo da lei e da justiça e o submundo do crime, tal como os gatos são animais semi-domesticados, imperfeitamente domados e controlados, imprevisíveis, divididos entre o lar e a rua, a meio caminho entre a cultura e a natureza.

Assim, esse pequeno ensaio sobre o Chapolim nos conduz a uma dupla conclusão: é um herói latinoamericano não apenas porque rimos dele, mas porque o associamos a uma série de imagens culturalmente arraigadas, cristalizadas e reificadas acerca da própria América Latina: fraco, tolo, desastrado, passivo, malandro, paralisado, vulnerável, pouco confiável. E assim, o aceitamos como nosso herói, porque consideramos a nós mesmos dignos (apenas?) do riso, da caçoada, do deboche. Parafraseando De Gaulle, não somos "países sérios".

Por outro lado, o contraste entre o Chapolim e os super-heróis "sérios" expõe melhor algumas das raízes desse gênero: o selvagem, o indomável, o  natural, aquilo que não pode ser controlado. Não seria Superman uma verdadeira força da natureza? Fruto de uma cultura industrial, os super-heróis revelam o quanto de "arcaico" ou "primitivo" ainda persiste em nosso espírito, o quanto tais emblemas ainda constituem uma mitologia apelativa a nossas sensibilidades. Como já dizia Lévi-Strauss, o "pensamento selvagem" continua presente entre nós e em nós...

terça-feira, 16 de julho de 2013

Cães, lobos e homens - Histórias entrelaçadas

Extratos de Os cães sonham?, de Stanley Coren

"Existem mais lobos do que cães?

Atualmente o planeta Terra é dominado por seres humanos. Para que uma espécie animal sobreviva, precisa não apenas se reproduzir com êxito, mas se relacionar e talvez conquistar a proteção dos seres humanos. Considerando esse fato, a resposta para a pergunta acima é óbvia.

É difícil imaginar que em algum momento os lobos já tenham sido os mamíferos mais populosos do planeta. Eles podiam ser encontrados nos ambientes mais extremos, do calor do deserto à tundra gelada do Ártico. Eram numerosos nas savanas e nas pradarias, assim como nas selvas e florestas. No entanto, como lobos e humanos competiam pelo mesmo tipo de comida - carne -, e os lobos viam os animais domésticos como alvo legítimo, os seres humanos tomaram medidas contra os lobos; nos últimos quinhentos anos, as populações de lobos foram massivamente reduzidas. Há mais de quatrocentos anos os lobos desapareceram das Ilhas Britânicas, e muitas áreas da Europa Ocidental estão sem lobos há vários séculos. Avalia-se que a população total de lobos na França, Alemanha e Itália seja inferior a quinhentos indivíduos.

Além da pressão exercida pelos humanos, o padrão de reprodução típica dos lobos contribui para manter os números baixos. Na matilha de lobos, o acasalamento geralmente ocorre apenas entre os líderes - o macho e as fêmeas alfas. Eles se reproduzem apenas uma vez por ano, e a fêmea raramente tem a primeira ninhada antes dos dois ou três anos de idade. O tamanho médio da ninhada é de quatro a seis filhotes. A taxa de mortalidade entre esses filhotes gira em torno de 50%, o que significa que todo ano cada matilha tem mais dois ou três novos membros, ficando muito pouco acima do necessário para substituir aqueles que morrem.

As consequências são inevitáveis. Mesmo que juntássemos todas as espécies de lobos de todos os países do mundo, teríamos cerca de 400 mil indivíduos, enquanto o número de cães chega a 525 milhões. Em outras palavras, para cada lobo vivo atualmente, há mais de 1300 cães vivendo no mundo.

[...]

Por que existem tantos cães no mundo?

Quando Charles Darwin falou a respeito da sobrevivência do mais apto, não estava se referindo às espécies maiores e mais fortes. Estava falando da sobrevivência das espécies mais bem-sucedidas na reprodução e sobrevivência de seus descendentes para se reproduzirem. Ele diria que a medida do sucesso de uma espécie é a quantidade de indivíduos vivos e capazes de se reproduzir. Para alcançar esse sucesso, os indivíduos precisam 'adaptar-se' ao seu ambiente.

O ambiente em que vivem os cães é o mesmo em que vivem os humanos. Por isso os cães têm êxito como espécie, pois se encaixam bem nosso nicho. Os cães se saíram muito bem na tarefa de adaptar-se. Eles se adequaram tão bem às nossas vidas que nós os alimentamos, cuidamos deles e nos preocupamos tanto com sua saúde e cuidados médicos que vivem vidas longas e muitos deles têm a oportunidade de se reproduzir. Além disso, os cães não têm predadores naturais (embora os carros e caminhões possam desempenhar esse papel nas regiões em que os cães podem correr livremente).

Como a procriação e a reprodução são as medidas do sucesso, é interessante observar que, como um subproduto da nossa domesticação dos cães, nós mudamos seus padrões de procriação de maneira decisiva. Entre os caninos selvagens, como os lobos, as fêmeas entram no cio (quer dizer, ovulam e se tornam férteis) apenas uma vez por ano. Com exceção de algumas raças mais primitivas (como o basenji), os cães entram no cio duas vezes por ano, o que lhes permite produzir o dobro de descendentes em relação aos seus primos selvagens.

Agora está montado o cenário para explicarmos porque a população de cães é tão grande. Começaremos pelo fato de que a fêmea pode ter sua primeira ninhada com apenas cinco a dezoito meses de idade (dependendo da raça). Demora 58 a 65 dias para dar à luz os filhotes. O número de filhotes em uma ninhada varia de acordo com a raça e o tamanho da cadela, mas a média geral fica em torno de seis a dez filhotes. A maioria das fêmeas pode ter duas ninhadas por ano. Se a metade for formada por fêmeas, elas também poderão ter filhotes quando estiverem com cinco a dezoito meses de idade. Faça as contas e você descobrirá que uma fêmea e seus filhotes podem produzir 4372 filhotes em sete anos! Os machos não têm sequer a limitação das duas ninhadas por ano, pois podem procriar sempre que encontram uma cadela no cio.

O lado negativo de tudo isso é que os cães estão tendo êxito demais e em alguns lugares sofrem com a superpopulação. A maioria das pessoas não parece entender o tamanho desse problema. Nos Estados Unidos, por exemplo, entre 4 a 6 milhões de cães estão sendo sacrificados todos os anos simplesmente por falta de pessoas para adotá-los e de espaço em abrigos para animais. Por isso, os seres humanos devem se tornar agentes da seleção natural para manter as populações de cães sob controle".

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Peps, Fips e Wagner

Extrato de Os cães sonham?, de Stanley Coren

"Richard Wilhelm Wagner, mais conhecido como o compositor das quatro óperas que compõem O anel do Nibelungo, valorizava bastante o gosto musical dos cães. Em seu estúdio havia um banco especial para Peps, seu cavalier King Charles spaniel. Enquanto compunha, Wagner tocava piano ou cantava passagens nas quais estava trabalhando. O compositor ficava de olho no cão e modificava frases musicais de acordo com sua reação. Wagner reparou que Peps reagia de modo diferenciado às melodias, de acordo com os tons musicais. Certas passagens em um tom poderiam provocar um suave balanço da cauda, enquanto passagens em outros tons poderiam causar uma reação agitada. Esse fenômeno semeou na mente de Wagner o germe da ideia que o levaria a adotar o "motivo musical" [leitmotiv].

Os motivos associam tons musicais específicos a determinadas emoções ou estados de espírito no drama operístico. Na ópera Tannhäuser, por exemplo, o tom do mi bemol maior está ligado ao conceito de amor sagrado e salvação, enquanto o mi maior está ligado à notação de amor sensual e devassidão. Em todas as suas óperas posteriores, Wagner fez uso de motivos musicais para identificar personagens importantes e outros aspectos do drama. Quando Peps morreu, Wagner ficou arrasado e teve dificuldade para se concentrar na composição até conseguir outro cão da mesma raça. Fips logo ocupou seu lugar em um banquinho especialmente estofado próximo do piano de Wagner, de onde podia colaborar com seu conhecimento musical e crítico sempre que necessário".

sábado, 27 de abril de 2013

Leituras - "Monstro de Deus", de David Quammen

Depois de uma qualificação e dois artigos, de volta ao velho blog!

Nesse meio tempo, tive oportunidade de ler alguns livros maravilhosos em minhas horas vagas, dentre os quais o interessantíssimo Monstro de Deus, cujo esclarecedor subtítulo em Português é "Feras predadoras: história, ciência e mito". A obra constitui um excelente exemplo do quanto um bom trabalho de divulgação científica, escorado em pesquisa sólida e questionamentos criativos pode oferecer perspectivas intelectuais extremamente instigantes.

David Quammen elabora uma interessante abordagem interdisciplinar, unindo ciências humanas e biológicas para discutir as relações entre as culturas humanas e os grandes predadores ou, como os denomina, os "predadores-alfa", animais capazes de atacar e devorar sozinhos um ser humano, como leões, ursos, crocodilos, tigres, entre outros.

Sua análise explora a temática em diversos sentidos, por exemplo, discutindo as relações entre mitologia e ecologia, explorando as relações entre as feras mitológicas e as interações entre os homens e seus ecossistemas em épocas arcaicas. Para tanto, recorre a textos como a epopeia de Gilgamesh, o Nibelungenlied, a saga de Beowulf ou a Bíblia. Como bem observa Quammen, Humbaba ou Leviatã eram mais que monstros - eram a personificação da fragilidade humana ante uma natureza poderosa e incontrolável, povoada por grandes animais realmente capazes de reduzir indivíduos à condição de refeição... Como sintetiza o autor, "uma morte no trânsito é um infortúnio banal que não choca a consciência pública com a mesma força que um urso homicida, devorador de carne. Uma coisa é estar morto. Outra coisa é transformar-se em carne".

Um dos pontos altos do livro é a discussão do artigo Being Prey ("Ser presa"), da filósofa australiana Val Plumwood, sobrevivente de um ataque de crocodilo em sua juventude:

"'Se a morte ordinária é um horror, a morte nas mandíbulas de um crocodilo é o horror supremo', testemunha Plumwood. Seu horror mais profundo deriva daquelas 'quebras de fronteiras proibidas' que combinam 'decomposição do corpo da vítima com a reviravolta da vitória sobre a natureza e a materialidade que a morte cristã representa. A predação de crocodilos sobre humanos ameaça a visão dualista do domínio  humano sobre o planeta no qual somos predadores mas não podemos nunca ser presas. Podemos consumir diariamente outros animais aos bilhões, mas nós mesmos não podemos ser comida para vermes e certamente não carne para crocodilos'".

De fato, tornar-se presa é a antítese radical de nossas antropocêntricas ilusões sobre o cosmo - e nosso lugar no cosmo. É assumir um papel que há muito nos recusamos a representar, especialmente em nossa sociedade hedonista, que procura inutilmente expulsar da vida as dimensões de sofrimento. É lembrar humildemente que não somos o centro do universo.

Quammen explora magistralmente as ramificações políticas, econômicas e sociais dessa questão em vários contextos históricos, formando um complexo quadro sobre a importância dos animais em nossas vidas e em nosso imaginário. Um livro indispensável para todos aqueles que se interessam pela ecologia e por nossas relações com o mundo natural.