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Mostrando postagens com marcador Filosofia. Mostrar todas as postagens
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domingo, 31 de julho de 2022

Da genealogia do pensamento

Dedicado aos amigos Tiago Ribeiro e Vinicius Borges, interlocutores de parte dessas inquietações


O exercício profundo da autocrítica é algo trabalhoso. 


Em primeiro lugar, devo conhecer minhas próprias ideias, o modo como elas se articulam e, tarefa sempre complicada, identificar suas contradições e paradoxos. 


Em outro nível, devo buscar os contextos, épocas e lugares em que essas ideias foram engendradas, e examinar as distâncias entre a realidade que vivo e as realidades em que as ideias que ora me habitam foram pensadas. 


Por fim, e talvez mais complicado, preciso entender de que maneira essas ideias chegaram a mim, através de que caminhos e descaminhos elas palmilharam a distância entre o presente que vivo e o passado em que emergiram, em um longo processo em que foram interpretadas, filtradas, traduzidas e modificadas por uma miríade de intermediários. 


Tais são as condições mediante as quais preciso examinar a mim mesmo, em sentido amplo e profundo. Através dessas operações intelectuais posso, talvez, chegar a superar as contradições e paradoxos que percebo em mim...

quarta-feira, 9 de março de 2022

O pecado de pensar

 "Com a justiça dos anjos e dos santos, nós excomungamos, excluímos, maldizemos e anatematizamos Baruch de Espinosa. [...] Que ele seja maldito de dia e maldito de noite. Que ele seja maldito no sono e maldito na vigília. Que ele seja maldito fora e maldito por dentro. Que o Senhor não perdoe. Que a cólera e a fúria do Senhor caiam de agora em diante sobre este homem e derramem sobre ele todas as maldições escritas no livro da Lei. Que o Senhor destrua seu nome sob o sol".


Trecho do ato solene de banimento por heresia do filósofo Baruch Spinoza, pelos anciãos da sinagoga de Amsterdã em 27 de julhos de 1656 (citado por Frédéric Lenoir em Sobre a felicidade - Uma viagem filosófica).




terça-feira, 2 de novembro de 2021

O "Eu" que não fala de mim

Dedicado a minha prima Leilane

Semana passada completei 38 anos de idade. No dia de meu aniversário recebi por WhatsApp a fotografia abaixo, enviada por minha prima Leilane e acompanhada de um meigo comentário: "Para aquecer seu coração, diretamente do túnel do tempo, o Luiz do passado vem saudar o Luiz do presente".

Nesta foto eu tinha cerca de um ano de idade (minha prima sequer era nascida). Não sei dizer se o local da fotografia era a varanda da casa de minha avó ou de seu irmão - ambos moravam na mesma vila e as fachadas das respectivas casas ainda permaneciam como originalmente construídas, em meados dos anos 50. A ausência de vasos de plantas, todavia, sugere que se trate da casa de meu tio-avô. Ao fundo da foto se percebem os contornos de dois adultos da família. Quem seria? Impossível identificar. A julgar por minha roupa, era uma ocasião festiva.

Mais que pela fotografia, em um primeiro momento me senti muito tocado pelo comentário de minha prima sobre o encontro entre o "Luiz do passado" e o "Luiz do presente". Um encontro entre eu e eu mesmo.

Olhando para o menino na foto e pensando na fala de Leilane, me peguei meditando sobre uma indagação de Derrida em uma antiga entrevista: "qui est ce 'Moi' qui parle de moi-même"? Embora não seja apreciador da obra de Derrida, assistindo a entrevista, a formulação do questionamento, um tanto perdida na algaravia costumeira ao filósofo, me pareceu muito feliz: quem é o "Eu" que fala de mim mesmo? 

Evocando o questionamento de Derrida, a singela fotografia me pareceu a um só tempo extraordinariamente familiar e curiosamente estranha. Quem era esse "Luiz do passado", com o indicador na boca, como a cutucar um dente, contemplado pelo "Luiz do presente"?

À época da foto eu já caminhava e, segundo fontes fidedignas, falava pelos cotovelos. A crer nas pessoas de minha família, fui muito precoce no desenvolvimento da fala. Em pouco tempo usava um vocabulário considerável e falava com uma articulação e desenvoltura incomuns para minha idade.

E, no entanto, que falava esse menino da fotografia? Mais ainda, que pensava ele? Com o dedo na boca e a encarar a lente da câmera, que pensava ele? Ou ainda, como pensava ele? Que tortuosos processos cognitivos se arranjavam na mente daquele ser falante? Quem era aquele "Eu" que não sou mais? Impossível saber.

Apesar da linguagem supostamente desenvolta, aquela mente pensante deixou poucas memórias nítidas. E, no entanto, a mente que redige essas linhas necessariamente partilha de muita coisa pensada por esse "Luiz do passado". Ao distinguir esta e aquela mente penso como Heráclito - a mente em devir nunca é igual a si mesma; talvez o próprio fato de pensar em si mesma já a faça diferente, gerando cada vez mais instâncias de metacognição, como uma imagem refletida por infinitos espelhos ou como uma gravura de Escher.

Qual era exatamente a extensão do vocabulário dessa criança seria impossível dizer, mas foi certamente nessa época que aprendi muitas das palavras que ainda hoje emprego. Esse núcleo mais primário da linguagem, alguns verbos, substantivos, advérbios faz parte do patrimônio que compartilhamos - mais ainda, do patrimônio cognitivo a mim legado por esse "Luiz do passado".

Duas palavras que certamente já deviam integrar meu vocabulário a essa altura eram os advérbios "sim" e "não". Mas que significavam essas palavras para esse "Luiz do passado"? Antes de tudo, suponho, instrumentos para manifestar ao mundo sua vontade. No "sim" e no "não" há uma consciência que emerge para a vida, um aceitar e um recusar certos modos de se relacionar com o mundo ao redor.

Segundo minha mãe, ao começar a falar, passei a rejeitar sistematicamente certos alimentos que antes consumia passivamente (entre os quais peixe e banana, aos quais voltarei). Como toda criança, descobria e formava meu paladar. A descoberta, ou mais propriamente revelação, dos alimentos que nos agradam ou não talvez seja um de nossos primeiros passos rumo ao autoconhecimento e à consciência de nós mesmos. Mas, muito antes da consciência de nós mesmos, um gesto de recusa ativa ao que o mundo - aí manifesto pela família - nos oferece e impõe. 

Um gesto primordial em que começamos o lento, incessante e interminável movimento pelo qual demarcamos um espaço entre o "eu" e os "outros". Obviamente permanecemos na condição de dependentes e comensais daqueles que nos alimentam. No entanto, deixamos gradativamente nossa posição de receptores passivos. 

A recusa é também um gesto de seleção. Uma seleção intuitiva, mas um vago despertar do "eu" que se demarca do "outro" através de uma vontade que ainda não se sabe vontade, mas que já se manifesta - mesmo sem palavras, muito antes das palavras. Na primeira vez que cada um de nós cospe um alimento desagradável se esboça instintivamente uma reação contra uma vontade que se impõe a nós - uma vontade à qual provavelmente antes cedíamos incondicionalmente, inconscientes de nossa capacidade recusar.

O cuspir do alimento tem algo de qualitativamente distinto do choro do recém-nascido. Nesse primeiro chorar se manifesta um vago descontentamento de sede, fome ou dor, mas que não reconhece bem o objeto de sua desdita. O alimento que cuspimos, todavia, é algo muito concreto, um corpo estranho cujo contato nossa língua repudia. 

Assim como o Atoun de certa cosmogonia egípcia criava Geb, Nut e Rá - Terra, Céu e Sol - através de uma cusparada no "tempo da primeira vez", nessa cusparada a um tempo instintiva e voluntária iniciamos o parto de nós mesmos, sempre incompleto e provisório. Eis a maiêutica primordial, incessantemente repetida pela maioria dos seres humanos desde o alvorecer da humanidade - e provavelmente antes, por incontáveis hominídeos, mamíferos e sabe mais quantas categorias de seres que habitam esse mundo. 

Quando meu cão cospe ou afasta o focinho de um alimento que o desagrada estamos unidos por algo muito profundo, entrelaçado talvez em nosso DNA - possivelmente uma aquisição evolutiva para evitar a ingestão de substâncias potencialmente tóxicas. Em todo caso, o cuspir do bebê humano tem algo de filogenético e ontogenético - muito individual, mas que, em muitos sentidos, transcende nossa individualidade e mesmo nossa espécie.

Nessa rejeição se manifesta o "Não", mas se inscreve também o "Sim" - "não" e "sim" que a poética taoísta tantas vezes associa ao yang e ao yin. Talvez aceitação e rejeição constituam nosso mais visceral modelo de relacionamento com a realidade, possivelmente as forças que mais nos movem em nosso cotidiano e pelas quais se tramam as redes de nossa sociedade. Em mim há alguma consciência tanto daquilo que aceito quanto do que recuso. Atração e repulsa constituem boa parte do que somos. Quando não gostamos de algo, há indubitavelmente parte desse algo em nós.

"Sim" e "Não" são as bases de nossas escolhas, o próprio caminho de nossas vidas, desde seus primeiros estágios. Mas é superando tanto o "sim" quanto o "não" que somos mais plenamente livres. Bergson diferenciava liberdade e livre-arbítrio de modo muito curioso. Segundo ele, o livre-arbítrio seria meramente nossa capacidade de escolher entre opções que a vida nos oferece. A  liberdade em sentido mais pleno só emergiria realmente nos raros momentos em que criamos algo, nas situações em que entrevemos algo além das possibilidades que a vida põe diante de nós.

De certo modo é o que temos feito ao longo de toda nossa história. O ser humano é um ser que cria todo tipo de coisas novas, de artefatos a canções - homo faber; mas esse gesto de criar livremente é também um modo de driblar as limitações que a realidade nos impõe, um jogar no qual somos também homo ludens. O brincar é certamente um de nossos primeiros modos de interagir com o mundo e com nossos semelhantes, sempre anterior à fala. E também o brincar, ressaltava Huizinga, é algo que partilhamos com boa parte dos animais. Em seu magistral "Homo ludens", Huizinga sustenta que o jogar é onde nos fazemos mais plenamente humanos - "spielen", "jouer", "to play" são verbos que as línguas alemã, francesa e inglesa relacionam às mais diversas atividades - o jogo propriamente dito, mas também a música, o teatro, a adivinhação, o ritual - atividades em que nos sentimos quase sempre absortos, distanciados das atividades ordinárias da subsistência, em que nossas mentes se sentem libertas e envolvidas pela imaginação. Durante o momento do jogo, o que mais importa é o próprio folguedo, que nos absorve e envolve. 

Esse "Luiz do passado" que encontro na fotografia era já um ser brincante. Como brincava? Não sei, mas brincava.  Brincadeiras e brinquedos constituem as memórias mais vividas e intensas de minha infância - e suponho que se dê o mesmo para maioria de nós. No brincar nos fazemos plenamente livres, no sentido bergsoniano. Para a criança que brinca, a realidade se faz trampolim para a imaginação. Tudo pode ser qualquer coisa - uma vassoura se faz cavalo, um balde se faz cachorro, uma pedra pode ser uma motocicleta...

Com efeito, uma das memórias mais vívidas de minha primeira infância remete a uma viagem ao município fluminense de Santo Antônio de Pádua. Ao entardecer eu costumava brincar em uma pracinha onde uma pedra achatada, em minha imaginação, se transformava em uma potente moto - perfeitamente estática, mas ainda assim em intenso movimento, veloz como um meteoro. A pedra-moto e eu nos movíamos imaginariamente - e não tão imaginariamente, sincronizados que estávamos com os movimentos de rotação e translação planetária. 

Coisa estranha, uma moto-pedra! Como nossos ancestrais pré-históricos eu via uma pedra, e naquela pedra imaginava algo mais. E quantas coisas somos capazes de ver no perfil de pedras, montanhas, sombras, objetos e reflexos. Em nossa imaginação podemos sempre ver e criar um "algo mais". Com sua criatividade incendiada e flamejante, o homo ludens vislumbra um potencial que, com muito esforço, o homo faber faz emergir como algo concreto. Talvez naquela pracinha de Santo Antônio de Pádua, minha mente realizasse processos não muito diferentes daqueles de nossos ancestrais na Garganta de Olduvai.

Talvez a tal pedra ainda esteja por lá até hoje. Quantas outras crianças antes e depois de mim não projetaram sobre aquela pedra seus mais acalentados desejos? 

Em minha casa, no Rio, eu tinha meu velocípede, que em minha imaginação também se transformava em motocicleta. E, no entanto, as limitações do velocípede ficavam sempre evidentes, por mais vigorosas que fossem minhas pedaladas. A ilusão talvez se tornasse um pouco mais palpável quando descia a ladeira da vila, freando com os chinelos. Ladeira abaixo, o velocípede corria velozmente e sem esforço, mas a descida era breve, e a realidade logo se impunha. Qual pequeno Sísifo, precisava de novo e de novo puxar o velocípede ladeira acima para gozar daqueles vertiginosos segundos.

A moto-pedra, pelo contrário, por sua própria condição física, só podia se mover por virtude da imaginação, que desconhece limites. Em seu contorno achatado, vagamente reminiscente de uma motocicleta, a pedra se tornava suporte para o exercício ilimitado da imaginação.

Mas o "Luiz do passado" que desvairadamente passeava em sua moto-pedra era um outro "Luiz do passado", não o mesmo da fotografia. E, no entanto, o "Luiz do presente" consegue ao menos se recordar das sensações evocadas pelos passeios em moto-pedra - o sentar-me no "assento", o inclinar-me para frente, o agarrar os guidões imaginários, o estático acelerar, as onomatopeias emitidas, o balançar-me de um lado para outro, ao sabor das curvas fantasiadas... Sensações que, mesmo sentado diante do computador, meu corpo adulto consegue, de certa maneira, emular.

Em sua moto-pedra, aquele "Luiz do passado", sem o saber, era também ator e plateia, tudo de uma vez - um tanto como o "Luiz do presente" com os videogames que não consegue abandonar. Homo semper ludens. Do berço ao túmulo, de certo modo, o viver em sociedade é um perpétuo role playing game - daí talvez boa parte do fascínio que os RPGs, em suas mais diversas modalidades, exercem sobre os jogadores.

Mas, para além do patrimônio mental partilhado, que mais nos une, "Luiz do passado" e "do presente"? Luzes olhares.

No momento, contemplo não apenas uma fotografia, mas uma fotografia de uma fotografia - mais precisamente, uma fotografia digital de uma fotografia analógica. Jogo de luzes a se perpetuar por quase quatro décadas. Em algum momento, por volta de 1984 alguém apontou uma câmera para o "Luiz do passado" e, com um clique, fez com que o filme dentro do aparelho fosse impressionado pela luz que penetrava pela lente, tendo antes "tocado" o corpo daquele menino, assim como o espaço e as pessoas ao redor. Em um laboratório, por procedimentos químicos, a frágil imagem formada no filme foi transposta para papel fotográfico, guardando o registro daquela criança naquele efêmero instante.

Guardada por anos, a fotografia foi novamente fotografada, desta vez por minha prima que sequer era nascida na época em que o retrato original fora feito, provavelmente através da câmera de seu smartphone, desta vez impressionando um delicado "fotorreceptor" capaz de registrar a luz como pixels, codificados eles mesmos através do código binário, usando o padrão .jpeg, elaborado e convencionado pela indústria do software. Enquanto escrevo, visualizo essa imagem como luz projetada pela tela de meu notebook. 

Mas em cada etapa desse processo, ao longe de tantos anos, luz, sempre luz, impressionando tanto esses engenhosos artefatos humanos quanto, mais importante, nossas retinas e mobilizando nosso aparato cerebral, para que nossas mentes atribuam significado essa imagem de um menino. Convertida e reconvertida, sempre luz.

Mais importante que a luz, no entanto, é o olhar, menos como potência fisiológica que como modo de interação com o mundo. Através dessa imagem, como em um espelho mágico, o "Luiz do presente" contempla o "Luiz do passado". No entanto, alguém em 1984 olhou para aquele menino, apontou a câmera em sua direção e, com um clique, registrou aquele instante preciso, naquele exato ângulo. Quem era exatamente o fotógrafo? Difícil dizer; em todo caso, era alguém que tinha interesse e carinho por aquela criança, uma das inúmeras pessoas com as quais cresci e convivi.

E, naquele exato momento, o "Luiz do passado" olhava para aquela pessoa que fotografava, com um misto de atenção e curiosidade, como quem é repentinamente chamado, como se faz normalmente para fotografar crianças pequenas. A posição dos pés esquerdo e direito, apontando em direções ligeiramente diferentes sugere a interrupção do caminhar. Provavelmente ele não tinha muita consciência de que naquele exato momento se formava uma imagem dele mesmo em um filme fotográfico. Nos anos que se seguiriam, por sinal, câmeras fotográficas permaneceram para mim objetos muito cobiçados aos quais, todavia, os adultos me negavam acesso; só muito mais tarde me foi permitido e manusear câmeras - um objeto frágil e caro, assim como relativamente caro era o próprio filme que registrava as imagens; nenhuma pose devia ser desperdiçada, algo inimaginável nesse tempo em que podemos produzir milhares de fotografias por dia a custo irrisório, fotografias cuja proliferação quase descontrolada, pulsional até, parece tornar menos e menos preciosas.

O menino fotografado ainda permitia que seus cabelos fossem penteados, e estes eram muito mais claros do que se tornaram ao longo dos anos, acompanhando as mudanças de seu metabolismo. O "Luiz do presente" começa a ter fios brancos un peu partout e uma calvície que começa a se mostrar com mais veemência. Ao longo dos anos fez as pazes com as bananas, mas continua muito reticente e seletivo no que diz respeito ao consumo de peixes. Algumas das barreiras que erguemos entre nós e o mundo ao longo da vida são mais duradouras que as outras. É através das pequenas e grandes aquiescências e desobediências que, ao longo da vida, tecemos nossa alma em sua singularidade. A cada "sim" e a cada "não" negociamos nossas fronteiras, sempre imaginárias, com o mundo e a vida.

Como a simbolizar essas barreiras e fronteiras, a emoldurar e separar o antes do agora, é possível perceber nas partes superior e inferior da imagem a superfície sobre a qual a antiga fotografia foi pousada para ser novamente fotografada. "Ceci n'est pas cela".

Há muita coisa que me aproxima e distancia deste "Luiz do passado" capturado pela fotografia. E é nesse constante movimento de aproximação e distanciamento que emerge "o 'Eu' que fala de mim mesmo", o pensamento que pensa a si mesmo. No entanto, todo esse pensamento se elabora a partir de um olhar composto por afetos sobrepostos - do misterioso fotógrafo, da prima carinhosa, do próprio "Luiz do presente". Olhar sempre portador de pensamentos, muitas vezes inconscientes, que não pensam a si mesmos - em certo sentido, o Eu que não fala de mim e, para bem ou para mal, permanece alheio a si mesmo... Virando a indagação de Derrida de ponta-cabeça, quem é o Eu-mesmo que permanece sempre além de mim?

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Sublimação?

Sórdido, grosseiro, tosco, frívolo, impiedoso, insano, brutal, esse mundo é mera refração das penadas almas que somos - sórdidas, grosseiras, toscas, frívolas, impiedosas, insanas, brutais. 

Recipiente puro e cristalino, nosso mundo meramente transparece o pestilento veneno humano que contém. E não é mau que seja assim - muito pelo contrário. Do veneno nascem remédios. Todo pharmakon é bicéfalo. 

Talvez esse purgatorial mundo seja apenas ínfima peça de um inimaginável alambique, capaz de operar fabulosas transformações. E se todos os vícios forem paradoxais ingredientes de um virtuoso elixir? E se o profundo abismo for berço de arcanjos? E se a Terra que pisamos for gigantesca pedra filosofal em celeste carreira ao redor do dinâmico fogo solar? 

O sublime nasce do grotesco de maneiras que mal sonham nossas grotescas consciências...

Viaduto de Madureira, Hell de Janeiro, 24 de agosto de 2018, sexta-feira



quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Cogito, ergo...

"Se Descartes nos ensinou, a nós modernos, a dizer 'eu penso, logo existo' - a dizer, portanto, que a única vida ou existência que consigo pensar como indubitável é a minha própria -, o perspectivismo ameríndio começa pela afirmação duplamente inversa: 'o outro existe, logo pensa'. E se esse que existe é outro, então seu pensamento é necessariamente outro que o meu. Quem sabe até deva concluir que, se penso, então também sou um outro. Pois só o outro pensa, só é interessante o pensamento enquanto potência de alteridade".
Eduardo Viveiros de Castro





quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Intelectualidade, crítica e dialética

O exercício do intelectual é a crítica. Custe o que custar, doa a quem doer. 

Sem crítica, não há diálogo, ficamos nos monólogos e solilóquios, falando para nossos umbigos. Nesse sentido sou voltairiano à outrance: posso discordar completamente da sua opinião, mas lutarei até a morte pelo seu direito de manifesta-la (e até farei algum esforço para ouvi-la, entende-la e responder educadamente). 

Infelizmente, a cultura da "lacração", do "cancelamento" e similares caminha no sentido oposto. Recorre à estética vitoriana do vexame para impor formas de censura tácita. Enfim, é o tipo de manifestação que não me agrada, nem me interessa
.
Por sinal, ponderar honestamente sobre as críticas dos "inimigos" é um ótimo exercício de autocrítica. Muitas vezes o "inimigo" sinaliza defeitos que o amigo prefere ocultar. Às vezes o inimigo pode ter alguma dose de razão. 

Como dizia Sócrates, "A verdade não está COM os homens, está ENTRE os homens". É no espaço relacional e dialógico do "entre" que a dialética se faz possível.



quarta-feira, 28 de abril de 2021

Do monopólio da sensatez

 Se você acredita que apenas pessoas que pensam exatamente da mesma maneira que você são sensatas, provavelmente você é um insensato, com os olhos vendados por suas ilusões. Nenhum de nós é absolutamente sensato, embora haja pessoas de considerável sensatez e outras de rematada tolice. O mais importante é aprender a reconhecer, antes de tudo, a insensatez que habita em nós - tarefa muito mais difícil e desconfortável que se imagina. A constante autocrítica é o único caminho para amenizar a incontornável insensatez que há em cada um de nós.




sábado, 20 de fevereiro de 2021

"É na escuridão que mais claramente vemos" - entrevista com o escritor Rodrigo Watzl

Entre as obras de ficção científica que li nos últimos anos, uma das mais instigantes e surpreendentes é Herdeiros da Eternidade, de Rodrigo Watzl. Tive a oportunidade - e o imenso prazer - de ler o romance ainda no manuscrito, mas o livro já se encontra publicado, pela Editora Gana. Nesta entrevista, o criador permite entrever o que há de tão fascinante na criatura...


Um dos aspectos literários mais fascinantes de Herdeiros da Eternidade - ao menos para mim - é o modo complementar e paralelo com que a trama política e aquela de ficção científica se desenrolam. A meu ver, o romance é quase um híbrido de sci-fi e thriller político. Como você desenvolveu essa simbiose temática? Era algo previsto desde a concepção ou foi emergindo com o desenvolvimento da obra?

Luiz, em primeiro lugar, obrigado pela oportunidade que você está me oferecendo. De verdade. Bem, a coisa toda foi a seguinte: eu estava em uma festa de ano novo (isso foi em 2005/2006) e houve um momento em que o céu capturou a minha atenção. Ali, veio a ideia inicial que tem relação com a parte da ficção científica propriamente dita, embora de uma forma ainda muito superficial. Embora não fosse tão novo nessa época (eu tinha vinte e sete anos), minhas preocupações tinham outra natureza (principalmente trabalho e estudos). Mas o tempo prosseguiu em sua marcha e, é claro, ninguém passa por isso impunemente. Meu pensamento foi mudando, fui dedicando mais atenção a aspectos mais mundanos do ambiente social. E os primeiros capítulos, ou melhor, seus primeiros esboços, foram rabiscados em 2009. Eu entendo esse processo como um início de "fermentação" da ideia no "caldo" do inconsciente. E o protagonista era um alto funcionário de Estado em um país fictício. Quando se pensa em escrever uma história assim, é natural (ou pelo menos esperado) que o desenvolvimento exija essa abordagem em um cenário correspondente. Não fazer isso seria, acredito, escrever uma história com, vamos dizer assim, "pouca densidade". Afinal, indivíduos e contextos se afetam reciprocamente, seja na ficção, seja no mundo real. Ainda assim, a ideia estava a quatro mil anos luz do que foi se tornando. E a referência à distância, você deve entender, foi intencional.

Fascinante - como diria o Sr. Spock. Pelo que você diz, o processo criativo foi, em boa medida, "dialético". Suponho que isso tenha em alguma medida ajudado o desenvolvimento das dimensões filosóficas da obra, que ficam mais evidentes na relação entre os personagens Vera e João Paulo. Mas você mesmo tem um grande interesse por filosofia. Indagar se esse interesse influenciou a obra seria, talvez, trivial. Me sinto mais curioso para saber se, de alguma maneira, o processo de criação do romance afetou a sua maneira de encarar a filosofia. E ainda: qual foi a maior dificuldade que você enfrentou ao escrever os diálogos entre Vera e João Paulo?

Sim, foi. E acredito que essa dialética tenha uma relação bastante próxima com uma tentativa de compreensão do ambiente, enquanto autor. Algo como encaixar a realidade em uma moldura teórica, sem precisar sucumbir a um preciosismo filosófico que tornaria a narrativa provavelmente muito cansativa. Nesse sentido, e respondendo à sua primeira pergunta, acredito que sim. Há ali uma intenção ontológica, porque se trata de uma tentativa de compreender o real, o ser. É, portanto, uma exposição da apreciação da realidade de uma forma que preserva a "superfície", e mesmo a materialidade, do ser enquanto tal, mas que procura entender sua essência sob um ponto de vista um pouco... diferente. Como indivíduo, eu carrego uma bagagem de crenças e algumas destas foram consideravelmente reformuladas com o objetivo de usar a história para transmitir a mensagem que me interessava. É curioso pensar que não apenas os livros que lemos, mas os que escrevemos também têm a propriedade de nos modificar.

Respondendo à sua segunda pergunta, as dificuldades foram consideráveis. Aliás, eu levei anos para concluir o livro não apenas porque havia aperfeiçoamentos a serem feitos, detalhes para "amarrar", contradições para corrigir, etc., mas também porque, em se tratando dos diálogos entre João Paulo e Vera, estamos falando aqui de uma conversa entre um humano e a criatura mais poderosa do universo. Alguém dotada de um conhecimento absoluto. Mas também é justo e honesto dizer que o trabalho somente foi possível, porque passou por um longo processo de "fermentação" no caldo do inconsciente, como respondi antes.

Seu comentário sobre as modificações que um livro pode suscitar em seu leitor me fazem pensar em minha própria experiência ao ler Herdeiros. Como já conversamos em outra ocasião, a leitura não apenas me ofereceu temas para semanas de ruminação como me parece ser o tipo de livro que exige ao menos uma segunda leitura para ser plenamente fruído. Que tipo de reações, como autor, você espera que Herdeiros suscite entre os leitores?

Eu costumo criar aforismos. Não é algo como um trabalho programado, que me exija o pensamento e a atenção direcionados a um assunto específico. É um processo bem diferente e que, um dia, eu tive a sorte de perceber acontecendo. Funciona da seguinte maneira: alguma coisa banal desperta minha atenção. Pode ser um idoso na rua com dificuldade para andar, uma criança se comportando mal, alguém que maltrate um garçom, etc. Enfim, você terá compreendido a ideia da banalidade a que eu me refiro. Pois bem, essa situação trivial captura minha atenção e dispara, sabe-se lá o motivo, alguns processos mentais: lembranças, ideias e conceitos que aprendi, conclusões anteriores (minhas ou de outros). Tudo vai se combinando na minha cabeça. É como a "fermentação" de que falei outras vezes. Finda a etapa, eu enuncio um aforismo.

Então, respondendo a sua pergunta, acho que vale a pena pensar nos papeis que a filosofia e a arte exercem nas vidas das pessoas. A arte, assim entendo, exerce uma papel profilático: ela nos impede de sucumbir às pressões, oferecendo-nos a sensação de encantamento. É como dizer: "amigo, você está vivo e isso é extraordinário". Ao mesmo tempo, veja que interessante, a razão, instrumento cardeal da filosofia, exerce um papel diametralmente oposto. Dialeticamente, e parece impossível evitá-la, sob este ponto de vista, é a antítese do encantamento.

E é aqui que começa a fazer sentido a razão pela qual mencionei os aforismos. Um deles, foi este aqui: "a razão existe como remédio diante do espanto, como antídoto para o encantamento. O que, se você pensar bem, é espantoso e a torna encantadora".

É esta síntese aquilo que eu desejo ao leitor.

Adorei sua reflexão sobre o processo de alquimia aforismática; daria que pensar até a La Rochefoucauld. Eu diria que essa resposta me pôs em xeque. Assim sendo, meu lance final é perguntar sobre o engenhoso uso de epígrafes em cada capítulo do romance, cujo efeito narrativo me impressionou vivamente. Aqui passo a você a responsabilidade de realizar o xeque-mate para finalizar essa entrevista.

Quero novamente agradecer pela oportunidade, Luiz, de me fazer conhecido dos leitores do seu blog. Você foi muito generoso.

Respondendo a pergunta, eu entendo o cenário não apenas como uma parte do romance no qual a ação se desenvolve, mas como um personagem em si. Não sei se é uma abordagem muito original da minha parte, mas é a ideia fundamental e foi com base nela que as epígrafes foram concebidas. É, entretanto, a razão mais superficial, por assim dizer. Nesse sentido, acho que posso afirmar que o recurso foi utilizado com o objetivo de situar o leitor no ambiente sujo, degradado, cínico, mesquinho e calhorda da história, sem que, para isso, eu precisasse me estender no desenvolvimento dos outros personagens pelo narrador.

Aqueles canalhas são o que são e, nas epígrafes, mostram bem por que são.

Seja como for, o entendimento do cenário como personagem também está imbuído de uma razão filosófica mais profunda e que estaria arruinada se eu a explicasse aqui em detalhes. Perceba que eu me refiro à razão, não exatamente ao romance. É que, embora este, em larga medida, dependa daquela, seria uma pena privar o leitor da possibilidade de aproveitar esta oportunidade. Para compreendê-la, e aqui está a intenção do autor, o leitor deve apreciar a obra. Talvez encontre lá muito mais do que eu, o autor, entendo que esteja dito.

É este o meu convite.

Com efeito, as epígrafes cumprem essa tarefa com perfeição. Excelente artimanha literária. Como trickster existencial que sou, e genjutsushi amador, fingirei que não houve xeque-mate e prolongarei um pouco mais nossa entrevista. Como seu comentário anterior deixou claro, a ambientação da trama é sórdida e alguns personagens - Sérgio e Magno, particularmente - chegam a ser mais que canalhas. No entanto, de tanta sordidez, você tira, como um mago do chapéu, coisas sublimes - como o leitor terá o prazer de descobrir. Essa mistura entre o sórdido e o sublime, na medida certa, era o que almejava Victor Hugo em sua prosa e sua dramaturgia - bem como, evidentemente, em sua obra poética. Hugo, em boa medida, encontrou esse caminho pelas vias da dor e da compaixão. Como você diria que esse processo se dá para você? Como você olha para tanta coisa vil e mesquinha e encontra ali matéria para a busca do excelso?

Como estamos usando metáforas do xadrez, essa pergunta se assemelha ao famoso, e poderoso, "Cavalo do Kasparov". No xadrez, fala-se em temas: o "garfo" (quando o adversário ataca duas peças ao mesmo tempo), as colunas abertas para as torres, o xeque duplo, o xeque a descoberto, etc. Eu acho que, quanto ao livro e ao processo para escrevê-lo, trata-se do tema do "alívio". Como te falei antes, minhas ideias foram sofrendo modificações muito profundas com o passar dos anos. Eu costumava me definir como um otimista, um "entusiasta da raça humana". Pobre de mim... Passei, porém, e por razões que não consigo compreender, tampouco lhe explicar, a dedicar muita atenção aos vícios, à maldade. Só que é preciso levar a sério a lição de Nietzsche e tomar cuidado com isso. Então, voltando ao tema do "alívio", a ideia foi, primeiro, pintar o cenário e seus atores com as piores e, entendo, as mais realistas tintas possíveis para poder, depois, sentir o prazer visceral de respirar ar puro. E acho que é um processo natural, na verdade. É preciso ver a beleza do devir, a impermanência do mal, ou, pelo menos, acreditar nisso. Porque, no fundo, se você pensar bem, talvez concorde comigo que o pessimista não passa de um otimista amargo.

Muito bem. Me dou por vencido e convencido. Agradeço a agradável entrevista. Que tal um aforismo para encerrar a conversa?

Quem agradece sou eu, Luiz. Gostaria de dizer algumas palavras finais e que se relacionam com o aforismo que você me pediu. É que boa parte de Herdeiros, como o leitor talvez perceba, é sobre o conhecimento. No sentido mais amplo possível. E o conhecimento tem como condições o que percebemos e o que sabemos de antemão, ainda que este saber também tenha dependido, antes, da percepção. É, em última análise, algo que se fundamenta na dualidade do “ser”: sujeito e objeto. Isso em um sentido hegeliano, por assim dizer. Não pretendo, com isso, antecipar nada, embora, provavelmente esteja fracassando miseravelmente neste propósito. Espero que o leitor me compreenda e me perdoe.

Dito isso, encerro com o seguinte aforismo: “é na escuridão que mais claramente vemos”.



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Sobre tédio, foco, estruturas, hábitos e métodos

Não creio que as sociedades e culturas humanas possuam uma "estrutura", para além de um nível meramente figurativo.

Tendo a seguir Bergson, quando qualifica o ser humano como um animal dotado do hábito de adquirir hábitos.

Com efeito, adquirimos hábitos de maneiras, no mínimo, curiosas. Após um mês na casa de minha mãe, usando o notebook dela, tenho sentido dificuldades ao utilizar o meu próprio, embora me acompanhe desde meados de 2017. Ao ligar o aparelho, meu primeiro impulso é de digitar a senha de minha mãe. Às vezes percebo o lapso no meio do caminho e corrijo a tempo, mas em outras recebo a resposta do sistema: "senha incorreta".

Não sou, decerto um estruturalista, no entanto reconheço que a análise estruturalista, em suas várias vertentes, ofereceu ao campo das humanidades valorosas contribuições - ao passo que os ditos "pós-estruturalistas" me parecem, via de regra, cronicamente perdidos em cacofônicas e pedantes reflexões, como cães correndo atrás dos próprios rabos, em estranhas misturas de niilismo e solipsismo.

Não à toa Nietzsche, padroeiro dos pós-estruturalistas encerrou seus escritos com uma carta a Jacob Burckhardt, onde afirmava que - contrariamente a seus projetos - fora impedido de tornar-se professor universitário pela necessidade de virar Deus. Logo depois foi hospitalizado em uma instituição psiquiátrica e, até onde se sabe, não escreveu mais uma linha sequer.

Em todo caso, há que se reconhecer que o mérito maior da abordagem estruturalista é seu rigor metodológico - embora, em alguns casos, tenha um que de rigor mortis.

Retornando a Bergson, me encanta notar o modo discreto, mas constante e consistente, com que figura na obra de Lévi-Strauss. Me pergunto se o autor das "Mitológicas" chegou a frequentar os cursos do célebre Nobel de Literatura no Collège de France - cronologicamente falando, é não apenas possível como muito provável.

Concluo, muito provisoriamente, que uma das grandes conquistas do projeto estruturalista foi esquadrinhar com rigoroso método, não exatamente o modo pelo qual nós, humanos, adquirimos e desenvolvemos hábitos, mas ao menos os complexos,  variados e dinâmicos fenômenos sociais e culturais que emergem de nossos hábitos desenvolvidos.

Se nos movemos em um constante "élan vital", como diria Bergson, a metodologia estruturalista ao menos foi (e ainda é) capaz de realizar um minucioso registro dos momentos que compõem esse movimento, um pouco como a câmera fotográfica, no abrir e fechar de seu obturador, consegue capturar, nos limites de seu quadro, um trecho de uma realidade mais ampla, embora sempre evanescente.

Por sinal, o próprio nome "obturador" dá o que pensar - a função da peça é ambígua: preservar o filme fotográfico de exposição à luz durante a maior parte do tempo. Um obturador permanentemente aberto só pruziria fotos "vazias" de imagens e significados. Para ser eficaz, a abertura do obturador precisa ser realizada apenas no instante correto.

Vale notar ainda que, assim como as antigas câmeras analógicas só revelavam sua "presa" muito após o clique, não é senão longas e maduras reflexões que conseguimos entender aquilo que se passou conosco ou com nossos semelhantes, em algum momento-lugar do sempre fluido espaço-tempo.

Como seres paradoxais que somos, é por paradoxos que nos conhecemos. Quando eu finalmente estiver bem afinado com a senha de meu próprio computador provavelmente cometerei lapsos com a senha do dispositivo de minha mãe. Talvez, até lá, o "obturador" de minha mente esteja funcionando melhor.

Finalizo citando uma instigante reflexão do crítico literário Colin Wilson com a qual "esbarrei" há poucas horas:

"Boredom is one of the great mysteries of psychology. It seems to be a matter of focusing, like focusing a very powerful microscope or telescope; and we are just not very good at focusing. 'Focusing' occurs in moods of serenity or of creative excitement. Its greatest enemy is the ordinary, noisy distractions of everyday reality".




quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Vida como jogo

"Se Deus é digno da suprema seriedade, e o homem não passa de um joguete de Deus, e esse é o melhor aspecto de sua natureza. Portanto, todo homem e mulher deve viver a vida de acordo com essa natureza, jogando os jogos mais nobres, contrariando suas inclinações atuais [...] Pois eles consideram a guerra uma coisa séria, embora não haja na guerra jogo ou cultura dignos desse nome, justamente as coisas que nós consideramos mais sérias. Portanto, todos devem esforçar-se ao máximo por viver em paz. Qual é, então, a maneira certa de se viver? A vida deve ser vivida como jogo, jogando certos jogos, fazendo sacrifícios, cantando e dançando, e assim o homem poderá conquistar o favor dos deuses e defender-se de seus inimigos, triunfando no combate".
Platão

Gregos jogando para seus deuses

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Humanos, cobaias e cientistas

"Meu caro Ido... Neste mundo existem apenas dois tipos de seres humanos... As cobaias e os cientistas que têm o direito de dissecá-las".
Dr. Desty Nova [Battle Angel Alita]

quinta-feira, 25 de junho de 2020

O fluir e refluir do tempo

"This past [...] stretching all the way back to its origin, instead of pulling us back, pushes us forward, meaning that, contrary to what might be expected, it is the future that propels us back into the past."
Hannah Arendt

quarta-feira, 24 de junho de 2020

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Ruy Fausto - Uma perda

Acabo de receber a notícia de que hoje perdemos um grande acadêmico e intelectual brasileiro, o filósofo Ruy Fausto, aos 85 anos.

Nos últimos dois anos mantivemos correspondência por e-mail e tive oportunidade de vê-lo pessoalmente uma vez.

Para além da impressionante erudição e da argúcia intelectual patentes em seus escritos, era um cavalheiro muito cortês, cordial, afável e espirituoso.

Em tempos de polarização e fanatismo, Ruy era uma das poucas vozes lúcidas, sensatas e críticas na esquerda brasileira.

Ruy nos deixa de forma muito poética, tocando piano em sua casa, no Dia dos Trabalhadores.

Que seu legado se mantenha vivo entre nós e que as sementes que plantou possam germinar, florescer e frutificar.


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

"Sempre se pode mencionar Wittgenstein, já que ele é suficientemente vago para sempre parecer relevante".
Nassim Nicholas Taleb

Viral

"Repetirei o seguinte até ficar rouco: o que determina o destino de uma teoria na ciência social é o contágio, não sua validade".
Nassim Nicholas Taleb


sexta-feira, 10 de maio de 2019

Engenharia ou Filosofia?


Esse povo tem um pensamento binário de uma pobreza pavorosa. Como se só fosse possível investir em uma coisa OU na outra... Santa Falácia, Batman! Se o camarada que produziu esse meme tivesse a mínima noção de Filosofia, perceberia bem quão falaciosa é a argumentação sugerida. 

De resto, de que adianta um monte de edificações luxuosas, se as mentes de seus ocupantes está mal mobiliada? Como diria Bergson, pouco importa a qualidade do chapéu, se não há grande coisa DENTRO da cabeça... 

O ser humano é uma criatura complexa, com necessidades igualmente complexas. A tecnologia é imprescindível para os cuidados do corpo, mas as humanidades são essenciais para o cultivo do espírito. Como ponderava Rabelais, "ciência sem consciência é apenas ruína da alma"...