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Mostrando postagens com marcador Século XIX. Mostrar todas as postagens
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terça-feira, 6 de agosto de 2019

"Rematada tolice"

"Uma rematada tolice que foi a tal república. No fundo, o que se deu em 15 de novembro foi a queda do Partido Liberal e a subida do Conservador, sobretudo da parte mais retrógrada dele, os escravocratas de quatro costados".
Lima Barreto

sábado, 19 de novembro de 2016

Barbárie, sensacionalismo e mídia

Em 2011, escrevi um texto lamentando as comemorações em torno da morte de Osama Bin Laden. Alguns meses depois, tétricas imagens do cadáver de Gaddafi correram o mundo e a Internet, usadas até em piadas e memes.

Guardadas as devidas proporções, nos últimos dias a prisão de Garotinho e Cabral se tornou centro de um grande circo midiático. A patética (nos dois sentidos) imagem de Garotinho arrastado de uma maca pela polícia se tornou objeto de riso escarninho e, obviamente, muitos memes. Embora seja uma pessoa muito debochada e ainda mais raivosa, não conseguir ver graça. As lágrimas e gritos de Clarissa Garotinho não me alegram, não quitam as dívidas do Estado do Rio, nem pagam as minhas contas.

A decadência humana normalmente não me faz rir. Não rio de um menor infrator amarrado a um poste, e não vejo tampouco razões para rir de um ex-governador arrastado pela polícia. Opressor e oprimido são seres humanos, e a compaixão não deve, ou não deveria, conhecer limites. Há que se permanecer sensato, mesmo em tempos de insensatez.

Em épocas passadas, execuções eram espetáculos públicos e os cadáveres de criminosos eram esquartejados e seus pedaços expostos em ruas e praças. Na França, a gordura de "hereges" chegou a ser leiloada durante as Guerras de Religião. Na Inglaterra, até meados do século XIX, a pele de condenados era usada para fabricar carteiras, vendidas a bom preço como souvenirs. Durante a Revolução Francesa, cabeças cortadas eram exibidas como troféus e bijuterias em forma de guilhotina eram vendidas por comerciantes espertos.

Desde o século XVI gravuras de execuções e cordéis com histórias sanguinolentas sempre constituíram êxitos editoriais, sucessivamente transpostos para todo tipo de mídia consumida com volúpia. As mídias digitais são apenas a parte mais recente dessa história.

Mas a História mostra que, felizmente, o que outrora foi costume, às vezes se torna barbárie. Tenho esperanças...

Achei essa imagem no Google; não descobri data ou autoria, mas aparenta vir do mundo anglófono, entre as últimas décadas do século XIX e as primeiras do XX.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Do perdão aos tiranos: Sobre Garotinho, Cabral e Napoleão III

Napoleão III foi um dos maiores tiranos dos últimos séculos. Matou milhares de pessoas apenas em 1851, para se tornar imperador.

Seu maior rival foi Victor Hugo, que do exílio lançou-lhe terríveis invectivas em verso e prosa. O grande poeta jurou que só poria os pés de volta no solo francês quando o tirano fosse embora.

Depois de duas décadas no poder e da terrível Guerra Franco-Prussiana, Napoleão III fugiu sorrateiramente da França, temeroso da revolta popular. Victor Hugo retornou imediatamente à terra que tanto amava, ovacionado em Paris menos de 48 horas após a fuga do tirano.

Muitas vozes indignadas se ergueram, exigindo a punição máxima. Napoleão III deveria ser caçado, trazido de volta à França e decapitado em praça pública, como criminoso que era.

Hugo, poeta e exilado fez um apelo ao povo francês: que não sujasse as mãos com o sangue do déspota. Que a França não se rebaixasse à vileza do mesquinho imperador. Que Napoleão III arrastasse a vergonha pelo resto de sua vida miserável. Já era punição suficiente.

Os argumentos do poeta acabaram prevalecendo.

Garotinho e Sérgio Cabral são pessoas vis. Colheram o que plantaram e agora devem ser punidos com todo o rigor da lei. E isso basta. Não nos rebaixemos ao mesmo nível que eles.

Não precisamos tripudiar deles e de suas famílias, embora saibamos bem que eles não fariam o mesmo em nosso lugar. Não precisamos linchá-los moralmente em nossas conversas ou nas redes sociais.

Não desçamos ao lodaçal onde eles se arrastam e nem mergulhemos nossa consciência em suas torpezas. Que eles sofram a vergonha de seus atos, mas poupemos nossos corações do veneno que exala de suas pessoas.

É muito cômodo tomar os governantes como bodes expiatórios de nossos problemas sociais, mas devemos questionar nosso próprio papel como cidadãos ao longo de seus respectivos mandatos. Fomos cidadãos vigilantes ou omissos? Cobramos deles sempre que deveríamos? Nos mobilizamos quanto podíamos? Fizemos nossa parte ou lavamos nossas mãos? Criticamos ou fechamos os olhos para os vergonhosos pactos que os políticos e partidos que elegemos fizeram com os dois ex-governadores? Justificamos esses pactos em alguma medida?

Enfim, estamos contentes com o cumprimento da justiça ou nos sentimos meramente aliviados do peso de nossas omissões?

Cada um investigue sua consciência e procure suas respostas...

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

imperadores, Povos e Poetas

Apesar de nabucodonosor, herodes, nero, gengis khan, torquemada, napoleão iii, hitler, stalin, pinochet, thatcher e tantos outros, o Sol nunca parou de nascer, as Estrelas nunca pararam de brilhar e a Lua nunca cessou suas perpétuas transformações. Há Forças maiúsculas, apesar das pessoas minúsculas.

Existiram Sócrates, Jesus, Gandhi... Houve Bonaparte e houve bonaparte. As nuvens bloqueiam os Astros, mas não podem destrui-los. trump, temer, pezão, crivella... apenas nuvens. O Povo é um Vento que sempre volta a soprar. O Povo, dizia Victor Hugo, é um Oceano cujas marés, cedo ou tarde, afogam todos os tiranos. 

napoleão iii, "o pequeno" foi eleito em 1848 e cometeu seu golpe de Estado em 1851, mas foi escorraçado em 1870. O imperador sob sua coroa tremia ante a voz do Exilado sobre seu Rochedo. 

Amanhã haverá amanhã - e depois de amanhã, também: enquanto houver Povo, enquanto houver Profeta, enquanto houver Poeta, enquanto houver Pranto, enquanto houver Riso, enquanto houver Coração... Enquanto houver pesares, haverá Apesares... Enquanto houver nós, haverá Nós - e desataremos... 

A Semente desce à Terra para germinar - e enquanto houver Sementes, haverá Flores e aguardaremos os Frutos.

domingo, 11 de setembro de 2016

Reis, povos e museus

Trecho (mal) traduzido de La guía del Prado, de autoria de Alberto Pancorbo

"A instituição que hoje conhecemos como Museu do Prado abriu suas portas ao público em 19 de novembro de 1819 com o nome de Museu Real de Pinturas, dado que se havia criado por iniciativa e sob o patrocínio do rei Fernando VII. Em 1793 se inaugurara o Museu do Louvre, o primeiro dos museus públicos e modelo de todos os criados posteriormente. Em que pese seu caráter real, o Prado partilhava com o Louvre o objetivo de trazer à luz tesouros artísticos até então conhecidos e desfrutados somente por um grupo muito reduzido de pessoas pertencentes à realeza, à aristocracia ou à Igreja. Esta ideia de tornar pública a arte tinha uma raiz ilustrada e um desenvolvimento revolucionário e, como muitas outras ideias, se difundiu por toda a Europa graças às invasões napoleônicas. Já em começos do século se manifestou na Espanha a necessidade de criar na corte um museu que reunisse as obras artísticas de importância que não eram adequadamente conservadas em outras partes do país. Mas a iniciativa mais séria de criar um museu de pinturas chegou depois da invasão napoleônica e pela mão de José Bonaparte, que em 1809 promulgou um decreto pelo qual se criava em Madri um museu de pintura, que denominar-se-ia Museu Josefino.

[...]

O fim da Guerra de Independência espanhola, a saída dos franceses e a chegada a Madri de Fernando VII em maio de 1814 como rei, longe de fazer naufragar a iniciativa de criar um museu de arte, a favoreceu. Nos meses imediatamente posteriores a sua chegada, o rei dispôs o necessário e finalmente o Prado nasceu sob o patrocínio do rei Fernando VII e pago de seu bolso. Deste modo, se não por suas intenções, o Museu do Prado se distinguia claramente do Louvre pela forma em que se originou. Este último foi criado em pleno auge revolucionário com as obras nacionalizadas da coroa e as confiscadas da Igreja e dos nobres. Pelo contrário, os fundos do Museu do Prado se constituíram com as obras artísticas da Coleção Real".

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

"Porre ideológico"

Trecho de Os bestializados, de José Murilo de Carvalho:

"A República não produziu correntes ideológicas próprias ou novas visões estéticas. Mas, por um momento, houve um abrir de janelas, por onde circularam mais livremente ideias que antes se continham no recatado mundo imperial. Criou-se um ambiente que Evaristo de Moraes chamou com felicidade de porre ideológico, e que poderíamos também chamar, sob a inspiração de Sérgio Porto, de maxixe do republicano doido. Nesse porre, ou nesse maxixe, misturavam-se, sem muita preocupação lógica ou substantiva, várias vertentes do pensamento europeu".

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Paradoxos da escravidão no Brasil

Extrato de Cidadania no Brasil - O longo caminho, de José Murilo de Carvalho

"O aspecto mais contundente da difusão da propriedade escrava revela-se no fato de que muitos libertos possuíam escravos. Testamentos examinados por Kátia Mattoso mostram que 78% dos libertos da Bahia possuíam escravos. Na Bahia, em Minas Gerais e em outras províncias, dava-se até mesmo o fenômeno extraordinário de escravos possuírem escravos. De acordo com o depoimento de um escravo brasileiro que fugiu para os Estados Unidos, no Brasil 'as pessoas de cor, tão logo tivessem algum poder, escravizariam seus companheiros, da mesma forma que o homem branco'.

Esses dados são perturbadores. Significam que os valores da escravidão eram aceitos por quase toda a sociedade. Mesmo os escravos, embora lutassem pela própria liberdade, embora repudiassem sua escravidão, uma vez libertos admitiam escravizar os outros. Que os senhores achassem normal ou necessária a escravidão, pode entender-se. Que libertos o fizessem, é matéria para reflexão. Tudo indica que os valores da liberdade individual, base dos direitos civis, tão caros à modernidade europeia e aos fundadores da América do Norte, não tinham grande peso no Brasil

[...]

As consequências da escravidão não atingiram apenas os negros. Do ponto de vista que aqui nos interessa - a formação do cidadão -, a escravidão afetou tanto o escravo como o senhor. Se o escravo não desenvolvia a consciência de seus direitos civis, o senhor tampouco o fazia. O senhor não admitia os direitos dos escravos e exigia privilégios para si próprio. Se um estava abaixo da lei, o outro se considerava acima. A libertação dos escravos não trouxe consigo a igualdade efetiva. Essa igualdade era afirmada nas leis mas negada na prática. Ainda hoje, apesar das leis, aos privilégios e arrogância de poucos correspondem o desfavorecimento e a humilhação de muitos".

sábado, 10 de janeiro de 2015

Futebol, canibais, terroristas e nuvens

Dedicado a meu sogro e minha esposa

Por que algumas pessoas matam por futebol? Porque têm fortes laços de identidade com seus respectivos clubes, passaram e passam por um radical processo de identificação (no sentido psicológico do termo). No entanto, outros torcedores – a maioria, felizmente – não seriam capazes de fazer a mesma coisa, pois não se identificam com seus respectivos clubes de modo tão extremo. Alguns torcedores, eventualmente, perdem até seus interesse pelo esporte ao longo do tempo, num processo de tendencial desidentificação – mais uma vez, no sentido psicológico.

Em cada um desses casos, temos perspectivas específicas e diferenciadas em jogo. Algumas dessas perspectivas são mais próximas ou mais distantes entre si. Mas como se forjam tais perspectivas? A partir de trajetórias específicas, tanto pessoais quanto coletivas, formuladas no tempo e no espaço – históricas, portanto. Essas trajetórias podem apontar em sentido convergente (identificação crescente) ou divergente (desidentificação crescente). Assim, a experiência de torcer (e matar) se configura a partir da trajetória pessoal e individual de cada torcedor quanto de uma trajetória coletiva e social – a história do esporte, a história do clube, a história da região, do país, do mundo, etc. Existe hoje uma Copa do Mundo e campeonatos nacionais porque a partir do século XIX tivemos tanto a emergência do esporte e do Estado-nação como os conhecemos. Assim, o torcedor assassino chega a tal perspectiva homicida através de uma trajetória que é ao mesmo tempo pessoal e coletiva. Temos então identidade e perspectiva como processo desenvolvido no tempo e no espaço.

Nesse processo se forjam conexões mais ou menos fortes, convergentes ou divergentes, no âmbito de cada grupo. Essas identidades e alteridades se formulam em redes, de modo complementar, interdependente e dinâmico, por retroalimentação. Como uma dança complexa, onde os participantes se movimentam, determinando suas perspectivas a partir de suas posições e distâncias respectivas, sua dêixis, em perpétua mutação, às vezes imperceptível. As trajetórias se cruzam e interferem umas nas outras, momento a momento. Os ritmos da dança se alternam sem cessar. Alguns dançarinos saem, e entram outros, continuando a dança como a encontraram. Temos aí uma dimensão mereológica, fractal, onde cada dançarino é parte da dança e interfere na dança inteira. Um simples tropeço repercutirá de modo mais ou menos intenso em todo o conjunto. Como diria Sonmi-451, do filme Cloud Atlas,

“Existir é ser percebido, então conhecer a si mesmo só é possível através dos olhos dos outros. A natureza de nossas vidas imortais está nas consequências de nossas palavras e atos, que vão em frente e se impulsionam através dos tempos. Nossas vidas não são nossas. Do berço ao túmulo, estamos ligados a outros, no passado e no presente. Através de cada crime e de cada ato generoso, nós damos nascimento a nosso futuro”.

Tais dinâmicas se aplicam à torcida de futebol, mas também às religiões, aos gêneros, às nações – em suma, a quaisquer identidades. Mas como se elabora no tempo uma linguagem do “nós”? Como se forma um “nós” vascaínos? Como surge um “nós” tupinambá? Como se elabora um “eles” flamenguistas ou margaiá? Por que algumas pessoas soltam pipa e outras, nascidas no mesmo bairro, fazem pós-doutorado?

No fundo, cada identidade se formula em “nuvens de probabilidades”, emergindo de situações específicas, reconfiguradas a cada compasso na melodia do tempo. Possibilidades e probabilidades se entrecruzam o tempo inteiro, gerando novas realidades potenciais, mudando trajetórias a cada interação. Esse texto mesmo emerge de vários encontros. Ele não existiria se os tupinambá não comessem carne humana, se Hans Staden não tivesse escapado da morte, se eu não fosse casado com minha esposa, se ela não fosse filha de meu sogro, se meu sogro não fosse vascaíno, se não tivessem inventado e popularizado o futebol, se não existisse o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, se eu não tivesse preguiça de ir a Niterói, se eu nunca tivesse morado em Paris, se David Mitchell não tivesse escrito Cloud Atlas, se esse livro não fosse adaptado para as telas, se eu não tivesse sido covardemente reprovado em um concurso, se eu não desejasse praticar yoga, se não houvessem brigas de torcida nem atentados em Paris, se eu não sofresse de TOC. Mas esse texto emergiu dessa improvável “nuvem de probabilidades”.

Seriam todos os fatos e atos humanos o produto de uma imensa e improvável “nuvem de probabilidades” em “eterna recorrência” e mutação no tempo e no espaço, uma grandiosa e mal-coordenada coreografia de moléculas, átomos e partículas, talvez conduzidas por um regente invisível? Seria possível reunir História, Antropologia, Física, Meteorologia e Filosofia para resolver todas essas questões, para desenhar um atlas dessas nuvens?

sábado, 27 de dezembro de 2014

Poder e violência

Extratos de O Reino de Deus está em vós, de Tolstói:

"Se o trabalhador não tem terra, se ele é privado do direito mais natural, o de extrair do solo seu sustento e de sua família, não é porque o povo assim queira, mas porque determinada classe - os proprietários fundiários - tem o direito de contratar ou não o trabalhador. E esta ordem de coisas contra a natureza é mantida pelo exército. Se as imensas riquezas acumuladas pelo trabalho são consideradas pertencentes não a todos, mas a alguns; se o pagamento dos impostos e seu uso são abandonados ao capricho de alguns indivíduos; se as greves dos operários são reprimidas e as dos capitalistas protegidas, se determinados homens podem escolher as formas de educação (religiosa ou leiga) dos jovens; se certos homens têm o privilégio de fazer leis às quais todos os outros devem se submeter, e de assim dispor dos bens e da vida de cada um, tudo isso acontece não porque o povo queira e porque deve acontecer naturalmente, mas porque os governos e as classes dirigentes assim querem, para seu proveito, e o impõem por meio de uma violência material.

Todos sabem disso, ou, se não o sabem, saberão à primeira tentativa de insubordinação ou de mudança nesta ordem de coisas.

[...]

Os governos afirmam que os exércitos são necessários, por toda parte, para a defesa externa. É falso. São principalmente necessários contra os próprios cidadãos, e cada soldado participa à revelia das violências do Estado sobre os cidadãos.

Para convencer-se desta verdade basta lembrar o que se comete em cada Estado, em nome da ordem e da tranquilidade do povo, servindo-se sempre do exército como instrumento. Todas as brigas internas de dinastias ou de partidos, todas as execuções capitais que acompanham essas agitações, todas as repressões de revoltas, todas as intervenções da força armada para dissipar os grupos ou para impedir as greves, todas as extorsões de impostos, todos os obstáculos à liberdade do trabalho, tudo isto é feito diretamente com a ajuda do exército ou da polícia, apoiada pelo exército. Cada homem que cumpre o serviço militar participa de todas essas pressões que, às vezes, lhe parecem ambíguas, mas, na maior parte do tempo, absolutamente contrárias à sua consciência".

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Contradições: vida e consciência

Extratos de O Reino de Deus está em nós (1895), de Tolstói:

"O operário de nosso tempo, ainda que seu trabalho seja menos penoso do que o do escravo antigo, ainda que obtenha a jornada de oito horas e o salário de poucos rublos por dia, não deixaria de sofrer porque, fabricando objetos dos quais não usufrui, trabalha não para si e voluntariamente, mas por necessidade, para a satisfação dos ricos e dos ociosos, e para o proveito de um só capitalista, proprietário de fábrica ou de indústria.  Sabe que isto ocorre num mundo em que é reconhecida a máxima científica de que só o trabalho alheio é uma injustiça, um delito punido por lei, num mundo que professa a doutrina de Cristo, segundo a qual somos todos irmãos, e que não se reconhece ao homem outro mérito senão o de vir em auxílio do próximo, em vez de explorá-lo.

Ele sabe tudo isso e não pode deixar de sofrer devido a essa flagrante contradição entre o que é e o que deveria ser.

[...]

O homem da classe que se diz culta sofre até mais com as contradições da vida. [...] O homem dotado de uma consciência impressionável não pode deixar de sofrer com tal vida. O único meio para livrar-se desse sofrimento é impor silêncio à própria consciência; mas se alguns conseguem isso, não conseguem impor silêncio a seu medo.

[...]

Mas todos sabemos como são feitas essas leis. Estivemos todos nos bastidores: sabemos que são geradas pela cobiça, pela astúcia, pela luta entre os partidos; que nelas não há e não pode haver justiça real. Por isso, os homens de nosso tempo não podem crer que a submissão às leis sociais e políticas satisfaça às exigências da razão e da natureza humana. Os homens de há muito sabem que é irracional submeter-se a uma lei cuja verdade é dúbia e, portanto, não podem deixar de sofrer ao se submeterem a uma lei cujo bom-senso e cujo caráter obrigatório eles não reconhecem.

[...]

Cada homem de nosso tempo, se penetrarmos na contradição entre sua consciência e sua vida, encontra-se na mais cruel situação. [...] Essa contradição, requinte de todas as outras, é tão terrível que viver participando dela só é possível caso não pensemos, caso a esqueçamos. [...] Só essas razões podem explicar a intensidade terrível com a qual o homem moderno procura entorpecer-se com o vinho, o fumo, o ópio, o jogo, a leitura dos jornais, com viagens e com toda espécie de prazeres e espetáculos. [...] E todos os homens de nosso tempo encontram-se nessa situação; todos vivem numa contradição constante e flagrante entre sua consciência e sua vida".

sábado, 14 de maio de 2011

Lugares - Confeitaria Cavé

A ideia dessa nova "rubrica" é convidar os queridos leitores a visitar lugares que remetam ao passado, fugindo, contudo, dos itinerários mais convencionais, como museus ou monumentos. Afinal, a História está em todos os lugares, basta enxergar com olhos curiosos.

Para começar, que tal uma deliciosa "pesquisa de campo" na Confeitaria Cavé, no Centro do Rio? Situada na Rua Sete de Setembro, 137, a casa foi fundada em 1860 pelo francês Charles Auguste Cavé, sendo a confeitaria mais antiga da cidade ainda em funcionamento. Diz-se que era frequentada por grandes personalidades do Brasil da época, embora não ficasse na Rua do Ouvidor, mais badalada.

É interessante visitar o salão de chá, e imaginar o que permanece de original e o que mudou ao longo do tempo. Uma peculiaridade importante é a presença do logis, pequena sala envidraçada, separada do resto do salão, comum nos restaurantes europeus da época. Ali os clientes podiam se sentar com maior privacidade, talvez a cortinas fechadas. A crer nas narrativas de Eça de Queirós, também eram usados para encontros mais "íntimos". Atualmente só é utilizado com reserva prévia e cardápio pré-determinado.

Também é imprescindível prestar atenção ao menu, observando o que ficou e o que mudou. E não esqueça de pedir os deliciosos bem-casados!

domingo, 1 de maio de 2011

Leituras - "Cartas de meu moinho", de Alphonse Daudet

Um livro apaixonante, embora pouco conhecido no Brasil. Trata-se de uma antologia de contos do autor do mais conhecido Tartarin de Tarascon, publicada em 1866, sob a forma de folhetins, no jornal L`Événement. Na verdade, Lettres de mon moulin, Cartas de meu moinho, foi o trabalho que lançou sua carreira literária, tendo grande repercussão entre o público francês da época.

O livro se apresenta como conjunto de memórias ficcionais sobre o suposto período em que o autor teria vivido no Sul da França em um moinho desativado, comprado por ele para "seus trabalhos de poesia". Curiosamente, ainda hoje muitas pessoas acreditam que se trate de experiência verídica. Há inclusive um moinho na aldeia de Fontvieille conhecido como "Moinho de Alphonse Daudet", bastante visitado, e que hoje abriga um museu em homenagem ao autor.

Mas vamos aos contos, que são pequenas pérolas literárias, ao mesmo tempo encantadoras e envolventes. As narrativas transportam o leitor a outro tempo, ao cotidiano provinciano da França meridional no século XIX, desfilando diante do leitor personagens pitorescos, paisagens bucólicas e situações que vão desde o humorístico ao melancólico. Seria impossível falar aqui de todos; vou destacar apenas dois de meus favoritos.

O primeiro é "O segredo de mestre Cornille", que conta a história do moleiro Cornille, antigo dono do moinho de Daudet. Trata-se de simpático velhinho inconformado com a substituição dos moinhos de vento pelas máquinas de moagem a vapor. Seu segredo, que ninguém compreende, é de onde sai o trigo que continua triturando em seu moinho, que insiste em rodar... Mas isso não vou contar! É um conto belíssimo, que explora com grande sensibilidade o impacto da industrialização sobre a vida cotidiana das pessoas.

O outro é "As estrelas", que narra em primeira pessoa a paixão de um pastor de ovelhas pela "bela Stéphanette", filha de seu patrão. Um feliz acaso faz com que os dois passem uma noite juntos sob o céu estrelado dos Alpes. Para distrair a moça, o pastor começa a lhe falar das estrelas e de suas histórias, até que a moça dorme com a cabeça apoiada em seu ombro. Além de seu tocante e ingênuo romantismo, a história é muito interessante pelo modo como apresenta um saber astronômico popular, lembrando-nos de uma época em que o conhecimento científico acadêmico ainda não se impunha com a força que conhecemos, ou talvez, em que a Ciência ainda não havia se tornado uma religião...

Por fim, é sempre bom lembrar que, como qualquer obra, não se trata de janela transparente para a cultura popular do século XIX, mas de uma visão refratada através do autor. De qualquer forma, um livro extraordinário.