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Mostrando postagens com marcador Democracia. Mostrar todas as postagens
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quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Criminosas lealdades de caserna

Segundo a revista Veja, ao sair da cadeia, o coronel Mauro Cid teria feito curiosa declaração: “A gente é leal ao superior, mas protege o subordinado” - formulação estranha, para dizer o mínimo. 

A única lealdade lícita e legítima que se espera de um militar é ao povo brasileiro, às instituições republicanas e à Constituição.

A relação entre superior e subordinado é um vínculo profissional e impessoal, regida apenas pela hierarquia militar e pela cadeia de comando; para além disso, nenhuma "lealdade" é necessária. Se o superior age de modo legal e legítimo, cabe o dever profissional; se o superior age fora da lei, qualquer lealdade é traição à República, ao povo brasileiro e às próprias Forças Armadas que, em suas atribuições institucionais, só podem ser prejudicadas por espúrios pactos particulares de lealdade.

Semelhante lealdade só se entende em função das mesquinhas picuinhas de caserna, tristemente comuns ou, pior, de inconfessáveis mutretas - igualmente comuns; não raro, picuinhas e mutretas caminham de mãos dadas. Nesse sentido, o leal subordinado aceita de bom grado a posição de cúmplice dos mal-feitos de seu superior, em detrimento dos interesses legítimos pelos quais se espera que trabalhe.

Por outro lado, que tipo de proteção um subordinado pode esperar em troca de sua lealdade? Proteção contra o que, ou contra quem?

Só se compreende tal proteção em termos de apadrinhamento para todo tipo de bocadas e peixadas das quais muitos militares se valem para obter promoções, cargos, indicações, transferências e outros benefícios. Tais relações de apadrinhamento tampouco servem à missão institucional das Forças Armadas, que precisam sempre das pessoas mais competentes no desempenho de cada função, e não das melhor relacionadas na caserna.

Em que outras circunstâncias um subordinado leal precisaria da proteção dos superiores? Quem age corretamente está devidamente protegido pela probidade de sua própria conduta; só se precisa de proteção especial para o cometimento de atos ilícitos, imorais ou indecorosos.

A equivocada fala de Mauro Cid parece mais adequada no âmbito de relações feudais, regidas pelos vínculos entre senhor e vassalo - o que pode ser muito bonito em romances de cavalaria, mas é completamente inadequado no contexto da ordem militar moderna.

Mas a declaração também remete a outra prática, quiçá mais afim à casta de militares à qual pertence o coronel Cid: lembra tremendamente as relações de "omertà" que se esperam entre mafiosos, unidos por laços de extremada lealdade contra as forças da Justiça. 

Pensando melhor, a fala de Cid não é nada estranha - é exatamente o tipo de coisa que se espera ouvir de um coronel que sai da prisão, devidamente ataviado por uma tornozeleira eletrônica...



quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Perfectivelmente imperfeita

À cidade dos homens cabe ser exatamente como é: tola, cruel e mesquinha, na exata medida em que somos tolos, cruéis e mesquinhos - tristonha resultante de abandonados planos, esquecidas promessas, desmentidas profecias e perdidas oportunidades; imperfeitamente perfectível, perfectivelmente imperfeita, atormentado reflexo do que somos e daquilo que gostaríamos de ser. E, no entanto, se move...

terça-feira, 29 de agosto de 2023

O que o povo gosta

 Em doze anos mantendo esse blog aprendi uma coisa: moderação, racionalidade, concisão e simplicidade não geram (muito) engajamento; o público, via de regra, quer opiniões bombásticas, verborragia tonitruante e explicações convenientes. Alguns dos textos com maior repercussão na história desse blog são justamente aqueles cuja qualidade menos me agrada; c'est la vie...

sábado, 1 de julho de 2023

Zelensky em guerra pela "democracia"

Eis que o Sr. Volodymyr Zelensky, comediante feito presidente, anuncia o cancelamento das eleições na Ucrânia "até o fim da guerra", Deus sabe quando. Tudo em nome da nobre luta pela democracia, obviamente. Os bravos guerreiros do Batalhão Azov devem estar contentes (embora talvez não tão contentes, devido à ascendência judaica do Sr. Zelensky). A suspensão de eleições provavelmente não será motivo de maiores questionamentos por parte da OTAN e seus mercadores de armas, tão compenetrados no combate à autocracia russa - afinal de contas, o show não pode parar...



segunda-feira, 12 de junho de 2023

Escola em disputa

Reflexão certeira do Prof. Vinicius Borges

Esquerda e direita no Brasil estão se especializando em usar a escola como um "campo de luta" onde tudo é mais importante do que a escola e os que nela trabalham e estudam.

sábado, 25 de fevereiro de 2023

"Me pergunto se, a pretexto de odiarmos ideias, não acabamos por desprezar pessoas - principalmente as que nem sabemos que existem”.

Rodrigo Watzl

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

De linhas e barganhas

Há uma tênue linha que separa o pragmatismo do cinismo - o nome dessa linha é integridade.

A integridade consiste em se manter leal a seus próprios princípios, não se deixar comprometer, seja por medo de represálias, seja em troca de vantagens de qualquer natureza.

Hoje soube que uma das ministras nomeadas pelo presidente Lula é suspeita de envolvimento com milícias.

Suspeita obviamente não significa necessariamente culpa e a presunção de inocência é um dos mais básicos direitos civis.

No entanto, a presunção de inocência é um princípio que visa proteger o cidadão de punição arbitrária, não garantir o direito a nomeações ministeriais. A cautela recomenda manter longe do poder pessoas sobre as quais pesam suspeitas tão graves.

Passamos os últimos quatro anos justamente protestando contra o inegável envolvimento do clã Bolsonaro com esse tipo de organização criminosa; indicar uma pessoa sob semelhantes suspeitas - em nome da "governabilidade" - é atitude tremendamente contraditória, beirando a hipocrisia.

Quem clama por justiça para Marielle Franco não pode aceitar semelhante situação com a consciência tranquila.

Tal atitude significa cruzar a linha que separa pragmatismo e cinismo. Significa ceder algo que deveria ser inegociável e assumir compromissos inaceitáveis. Significa abrir mão da integridade - até onde e o que estamos dispostos a barganhar?

A barganha de Fausto - Gravura do século XVIII



domingo, 18 de dezembro de 2022

Omnia mutantur

Tarde, tarde, tarde.

Jair já vai.

Já foi. 

Já era.

Nem deveria ter sido. 

Tarde, tarde, tarde.



segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Bolsonaro perdeu - E agora?

A derrota de Bolsonaro é algo a comemorar, mas superestimá-la significa um grave erro. Convém agora abandonar quaisquer delírios triunfalistas e encarar as duras realidades. Grandes desafios se anunciam para os próximos dias, semanas, meses e anos.

Tudo indica que teremos dois meses de turbulenta transição até a posse de Lula.

Bolsonaro foi derrotado, mas o "neo-lacerdismo" que ele cavalgou continua vivo e perigoso. As eleições para o poder Legislativo foram uma tragédia, com destaque para o Senado. O mesmo pode ser dito de inúmeros governadores eleitos ou reeleitos.

Nunca é demais lembrar que Bolsonaro foi derrotado por um triz e a troca de presidente, por si, não sanará os problemas que a presente gestão nos trouxe, com sua sanha autoritária, flagrante desrespeito à Constituição e menosprezo pelas instituições democráticas.

Com ou sem Bolsonaro, o antipetismo seguirá sendo uma força social relevante e o clima de polarização sociopolítica pode se agravar, se não formos vigilantes. Nosso maior desafio para os próximos quatro anos é desarmar essa bomba. Isso requer abrir mão de certo senso de superioridade moral que parte da esquerda há muito cultiva.

Precisamos entender, com a máxima clareza, que os eleitores de Bolsonaro são nossos concidadãos, e não nossos inimigos. 

É chegado o momento de baixar armas, construir pontes e buscar novas vias de diálogo com esses milhões de brasileiros que pensam de modo diferente de nós. Me recuso a acreditar que todos os eleitores de Bolsonaro sejam racistas, misóginos e homofóbicos com inclinações fascistóides. Suponho que boa parte deles votou mais contra Lula que a favor de Bolsonaro. Uma parcela desse eleitorado certamente adere completamente ao discurso odiento de Jair Messias Bolsonaro, mas quero crer que sejam uma minoria. Tendo a concordar com a lúcida fala do rapper Mano Brown em 2018:

Não consigo acreditar que pessoas que me tratavam com tanto carinho, que me respeitavam, me amavam, me serviam café, atendiam meu filho no hospital, se transformaram em monstros. Não posso acreditar nisso. Essas pessoas não são tão más assim. Se em algum momento a comunicação do pessoal aqui falhou, vai pagar o preço. Se não conseguir falar a língua do povo vai perder mesmo. Falar bem do PT pra torcida do PT é fácil. Tem uma multidão que não está aqui que precisa ser conquistada ou vamos cair no precipício. Errou, vai ter que pagar mesmo. Não gosto de clima de festa. O que mata a gente é a cegueira. Deixou de entender o povão já era.

O medo paranoico de coisas como a instauração de um regime comunista ou da "cristofobia" (para ficar apenas com alguns exemplos) não corresponde a objetos reais, mas é uma realidade subjetiva para aqueles que o vivenciam. Atacar essas pessoas ou rotulá-las de modo pejorativo só tende a reforçar e confirmar essas paranoias - justamente o oposto do que necessitamos.

O desejo de revidar é certamente forte, mas devemos resistir a ele com todas nossas forças. Precisamos cultivar a paciência necessária para ouvir o que cada um tem a dizer (por desagradável que nos pareça) e responder com serenidade - não com a pretensão de convencer ou converter ninguém, mas simplesmente de reduzir o terrível nível de tensão social que tanto tem intoxicado as relações sociais nas mais diferentes esferas de convívio. 

A democracia não existe sem diálogo com o diferente e sem a busca de pontos de interesse comum que permitam a coexistência pacífica entre os cidadãos. A polarização que vem solapando nossa democracia se alimenta do ódio, da discórdia e da desconfiança; o primeiro lugar em que devemos buscar extinguir essas emoções é dentro de nós mesmos. Pouco adianta afirmar o triunfo do amor se estivermos, nós mesmos, repletos de ódio.

Como disseram algumas pessoas, "derrotamos Bolsonaro, agora precisamos derrotar o bolsonarismo" - e a única ferramenta para isso é cuidar das feridas que trazemos. Não se apaga um incêndio com gasolina, nem se cultiva a paz com palavras rancorosas. Ofensas, zombaria e menosprezo nunca cativaram ninguém.

Precisamos entender que estamos todos em um mesmo barco chamado República Federativa do Brasil, um barco que atravessa uma tempestade e cujo naufrágio só pode ser evitado se houver entendimento entre seus tripulantes.

Precisamos restaurar e reconstruir, laboriosamente, tudo que foi arruinado nesses últimos anos. Não existe caminho para superar nossos problemas coletivos sem passar pela reconciliação. Nesse sentido, um grande exemplo para nós deve ser Nelson Mandela que evitou cuidadosamente tomar atitudes revanchistas após a abolição do apartheid na África do Sul, contribuindo para a superação de uma terrível divisão histórica, marcada pela mais brutal segregação.

Vale sempre lembrar as palavras de uma das maiores lideranças políticas do século XX, Martin Luther King, que também entendia muito sobre o poder do rancor e a importância da reconciliação:

Ódio e amargura nunca podem curar a doença do medo; só o amor o pode fazer. O ódio paralisa a vida; o amor a liberta. O ódio confunde a vida; o amor a harmoniza. O ódio escurece a vida. O amor a ilumina.

Convém ressaltar que, para Luther King, o "amor" não era questão de sentimentalismo piegas, mas sim de uma atitude desafiadora, de uma radical abertura ao outro, com suas contradições, mesmo as mais abomináveis:

É muito difícil gostar de algumas pessoas. O gostar é controlado pelo sentimento e é muito difícil gostar de alguém que bombardeia sua casa; é muito difícil gostar de alguém que ameaça seus filhos; é difícil gostar de congressistas que passam todo o seu tempo tentando derrotar os direitos civis. Mas Jesus nos diz para amá-los, e amar é mais sublime que gostar.

Muitos de nós passaram os últimos meses afirmando que o amor venceria o ódio; mas esse não é o tipo de vitória que se alcança e conquista nas urnas, como em um passe de mágica. Para que o amor realmente vença o ódio, precisamos promover essa vitória dentro de nós mesmos e fazer com que ela alcance aqueles que estão ao nosso redor em nossa vida cotidiana - caso contrário, o ódio permanecerá vitorioso sobre o amor, e tudo não terá passado de um slogan eleitoral vazio como tantos outros.



sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Chaves, Chapolim e as eleições de 2022

Em quem votariam os queridos personagens de Roberto Gomez Bolaños? 

Chapolim Colorado - Sempre atrapalhado e indeciso, Chapolim se deixa enganar facilmente. Votaria em Bolsonaro, depois mudaria para Lula, mas acabaria se atrapalhando com a urna e anulando, mas não daria o braço a torcer - "seus movimentos são friamente calculados".

Dr. Chapatim  - Adepto de terapias controvertidas e nada ortodoxas, o ilustre médico viraria entusiasta da cloroquina e votaria em Bolsonaro.

Jaiminho, o carteiro - Sempre evitando a fadiga, não pesquisaria melhor sobre as fake news recebidas via WhatsApp e decidiria votar em Bolsonaro. No dia da eleição não apareceria para votar - para evitar a fadiga, obviamente.

Godinez - Pragmático, decidiria o voto no cara-ou-coroa pouco antes de entrar na cabine eleitoral. Bolsonaro se desse cara, Lula se desse coroa - e nulo caso a moeda caísse de pé... Assobiando "Cielito Lindo", como de costume. Chamado pelo mesário, indagaria: "Mas por que eu, se eu não fiz nada?"

Pópis - Sempre ingênua, cairia na lábia de Michelle Bolsonaro; se o governo for ruim, é culpa da Serafina - "Feia, feia, feia"!

Nhonho - Perderia a hora de votar, pois pararia no meio do caminho para comprar uma melancia.

Dona Clotilde - Eternamente difamada como "Bruxa do 71", votaria em Lula, para evitar  perseguição por Damares Alves e proteger a vida de seu querido Satanás.

Professor Girafales - Apesar de certa arrogância elitista, Mestre Linguiça é ferrenho opositor de todo tipo de obscurantismo e truculência, defensor do método científico e da importância da educação para o futuro da sociedade; conhecedor de Botânica, valoriza a biodiversidade e reconhece a importância da Amazônia no combate às mudanças climáticas. Votaria em Lula (escondido de Dona Florinda).

Dona Florinda - Apoiaria Bolsonaro incondicionalmente, pois defende a família, a moral, os bons costumes e acredita na violência como melhor forma de lidar com a "gentalha". Morre de medo do Comunismo e do fim da propriedade privada, embora não seja proprietária sequer da casa que habita. Vive de pensão, mas apoia a reforma da Previdência. Dona de um pé sujo, mas acha que merece estar no Guia Michelin. Emoldurou e pendurou na parede um retrato de Sérgio Moro. Nem percebe que a conta na venda da esquina fica cada semana mais alta - e não por culpa do Seu Madruga!

Quico - Um menino de bom coração, mas não pensa com a própria cabeça, seguindo cegamente a opinião da mãe - votaria em Bolsonaro. Start-upeiro bancado pela mamãe, atribui o suposto sucesso de sua "Super de Quico" ao superministro Paulo Guedes.

Chiquinha - Esperta e sagaz, a pragmática defensora dos "direitos da mulher feminina" não teria dúvidas de que Lula é a melhor opção - mesmo não sendo grande coisa.

Seu Madruga - Constante vítima de arbitrariedades e violência, não poderia em sã consciência votar no candidato da "Valentona do 14". Seu Madruga aprende com as pancadas que a vida lhe dá e não pretenderia passar mais quatro anos de perrengue nas mãos de Bolsonaro - iria de Lula, com certeza.

Seu Barriga - Rico proprietário de imóveis, antenado na política internacional e entendido de economia, Seu Barriga jamais cairia nas lorotas e desculpas esfarrapadas de Paulo Guedes - o fracasso econômico brasileiro não é culpa da pandemia, da guerra e muito menos dos energéticos. Acostumado a lidar com dólares, sente saudades de Lula.

Dona Neves - Ativa defensora dos trabalhadores, vinculada a importantes grêmios como DNVR, UTPJ E APDF, Dona Neves jamais apoiará um presidente que diz que o trabalhador deve abrir mão de direitos se quiser emprego! 

Chaves - Não entende nada de política, mas lembra que na época de Lula o desjejum era mais farto na casa de Seu Madruga. Bolsonaro nem pensar!



quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Carta a um amigo indeciso

Caro amigo,

Você diz ser difícil escolher entre Lula e Bolsonaro. Embora, como você, não tenha votado em nenhum dos dois no primeiro turno, a meu ver, a decisão é muito simples. 

É a escolha entre o candidato suspeito de corrupção cujo partido passou 14 anos no poder respeitando a Constituição (e fazendo um governo razoável) e um candidato suspeito de corrupção com aspirações escancaradamente ditatoriais que passou 4 anos tentando derrubar e enfraquecer as instituições democráticas de todas as maneiras imagináveis - e, além disso, teve um desempenho trágico enquanto governante. 

Não é uma escolha difícil para mim. É como escolher entre levar um tiro no pé ou um tiro na cabeça - desnecessário dizer o que seria preferível. 

Não sei se a República e a Constituição aguentam mais quatro anos de Bolsonaro - e caso a democracia sobreviva a outro mandato de Bolsonaro, sairá tremendamente debilitada. 

Saudoso da Ditadura, Bolsonaro representa o que há de pior em nossas Forças Armadas e na sociedade brasileira, como um todo. 

Bolsonaro é moralmente pior que a própria Ditadura Militar, pois defende a tortura e o extermínio com entusiasmo, enquanto a Ditadura torturava às escondidas, com vergonha, e demorou anos para admitir publicamente a existência da tortura - sem nenhum orgulho, quase pedindo desculpas à sociedade brasileira. 

Figuras como Ustra eram um constrangimento para o Regime Militar; Bolsonaro homenageou o torturador em pleno Congresso Nacional - não consigo imaginar afronta maior à democracia.

Considero Lula um  político manipulador, de caráter dúbio. Mas Bolsonaro é algo muito pior: é um político PERVERSO, que mal esconde sua índole sádica.

Como cristão, não posso votar em um vendilhão do templo que se apropriou da fé para manipular os sentimentos de milhões de cristãos do Brasil. 

Que tipo de cristão sincero interrompe uma oração para puxar um coro de "Imbrochável", diante de uma multidão onde  havia crianças ouvindo essa obscenidade?

Trazendo a coisa para o plano pessoal, meu amigo, acho você e sua esposa pessoas maravilhosas e cristãos exemplares, que tentam viver a mensagem do Evangelho com toda sinceridade. Jamais deixarei que a política interfira em nossa amizade. Mas, com toda honestidade, me entristece muito vê-los caindo na armadilha desse fariseu chamado Jair Messias Bolsonaro. 

Vocês são pessoas infinitamente melhores que Bolsonaro. Uma pessoa perversa e hipócrita como ele está longe de representar vocês da mínima maneira que seja.

Caso votem em Bolsonaro respeito a escolha de vocês, mas você não tem ideia do quanto ela realmente me entristece. Vocês já fizeram isso em 2018 e conhecemos bem o resultado. 

Se vocês detestam Lula a ponto de ser impossível votar nele, talvez fosse melhor anular o voto que entregá-lo mais uma vez Bolsonaro. Não se deixem cegar pelo antipetismo. Não se trata de votar no menos pior - é questão de votar no desagradável ou no perigoso. Bolsonaro representa um risco imenso para todos nós. 

Por favor, pensem nisso com carinho.

Não podemos deixar a presidência do Brasil nas mãos desse homem perverso e desequilibrado por mais quatro anos. 

Grande abraço,

Luiz Fabiano

[Adaptado de comunicação pessoal]




quarta-feira, 5 de outubro de 2022

"Nada mais capitalista do que ganhar a qualquer custo"

Reflexão de um amigo que generosamente oferece sua voz a muitos através do anonimato

O mundo é muito doido. Vejo gente tentando combater bolsonaristas no Twitter, no Facebook... Enfim, na Internet. Luta, gasta energia com alguém que não conhece e que vive pela frustração e não nota que o pai, a mãe e o tio votaram no Bolsonaro. Muitas vezes essa galera só quer ser ouvida porque está com medo. 

Aqui em casa é um exemplo. O meu pai adorava o Lula e, depois de tudo que aconteceu no governo e no pós Dilma, pegou uma antipatia pelo PT. 

A conversa é constante e nunca tem um ponto final. 

Ele votou no Ciro e, se eu fosse seguir o modus operandi da Internet, já tinha a frase feita "Você está contribuindo para o fascismo". Depois do resultado ele veio com uns dados sobre o Bolsonaro e depois de alguma conversa veio a frase: "Eu voto no Lula, fica tranquilo". 

Ainda não é o suficiente porque estava fazendo por mim e não por ele. É necessário paciência e sou da opinião que primeiro é necessário arrumar a própria casa. 

Só que aí ficam as perguntas:

Por quanto tempo teremos que elucidar, explicar ou até mesmo justificar o voto no Lula?

Um novo nome ou uma nova linha é arriscado demais? 

É um risco necessário para a mudança?

Aproveito este momento para fazer um desabafo que me é muito caro.

No começo fui um dos que tive medo. A minha família é simples, tradicional. Vivi sem Internet e depois de um certo tempo no novo mundo o medo tomava conta de mim ao frequentar tudo que cercava a cultura Pop. 

Comecei a ser chamado de estuprador, racista e homofóbico pelo simples fato de existir. 

Isso me deu medo, mas o aprofundar na cultura e a procura por mentes que ensinavam através da calma e não da culpa me fizerem entender como as minorias precisam de ajuda porque nunca tiveram espaço ou incentivo. Todo este conhecimento era para ser usado nas eleições e a frustração amarga era engolida a seco. Era até a construção deste texto onde me permito confessar.

Em posição de destaque não vejo candidatos negros, LGBT ou que moram atualmente nas periferias. Para eles são dados poucos segundos. Há exceções, mas a exceção não basta. Nem como vice existe qualquer resquício da representatividade. 

A todos vocês, meu amigos desabafo:

Sinto que as leituras, o escrever e o conversar sobre a cultura é em vão, se esvai.

Ao ver mais uma eleição, sinto a voz de um ser sedento pelo poder dizer:

"Temos que ganhar! Vamos ganhar a qualquer custo e depois vamos pensar em representatividade. Depois vamos dar um jeito, depois será mais fácil, depois de tirar o burguês (Aécio), depois de tirar o fascista (Bolsonaro), depois, depois...depois". 

Nada mais capitalista do que ganhar a qualquer custo.

Se eu estiver errado, por favor, me corrijam. Posso ser um maluco, mas são tempos malucos. 

Se tivesse um preto, pobre, gay e cheio de verdade em vez de promessa, seria diferente? Se ele fosse apoiado com o mesmo entusiasmo dado ao Lula, seria diferente? 

Acho que estou sonhando demais...

A verdadeira ameaça

Petardo de um escritor pesaroso

Eu não gosto do Lula não. Muito pelo contrário. Votei nele sem nenhuma vontade, unicamente porque preferiria que a eleição tivesse acabado anteontem.

O Bolsonaro é alguém que me provoca nojo, desprezo e horror. 

Não tem nenhum apreço pelas instituições republicanas e, à reboque disso ameaça a democracia, propaga mentiras que mataram muita gente (“viva a cloroquina, abaixo a vacina”), incentivou a imunidade de rebanho por contágio (que não produziu imunidade, mas matou muita gente e ajudou o vírus a mudar mais). 

Também promoveu um desastre ambiental (inclusive com garimpos), desmatando florestas e esmagando populações nativas, dilapidou o patrimônio público com a venda de uma carteira de crédito do Banco do Brasil, avaliada em 3 bilhões por míseros 300 milhões. Abriu uma linha de crédito de um trilhão e duzentos bilhões de reais para bancos emprestarem dinheiro para o povo, em vez de eliminar o atravessador e fazer a mesma coisa (resultado: bancos ainda mais ricos). Fora o escândalo de precificação da vida humana com o caso das vacinas (propina de um dólar por vacinas que jamais seriam entregues), que só não foi levado a cabo por causa do trabalho da CPI da pandemia, além do aparelhamento dos órgãos de investigação para proteger familiares e a si mesmo. 

Menção especial e necessária também à montanha de incompententes que assumiram pastas ministeriais para as quais jamais estiveram e jamais estarão qualificados, envergonhando o país em todos os aspectos, inclusive perante a comunidade internacional.

Há muito mais ainda a comentar. Não houve um único dia nesses quase quatro anos em que não tivesse havido uma crise absolutamente desnecessária, alguma ridícula palhaçada ou, pior, demonstração de descaso para com a vida humana.

Mas, sobretudo, Bolsonaro me inspira nojo, desprezo e horror por enganar pessoas com essa história de “ameaça socialista” no Brasil. Pessoas provavelmente boas, como você, que o apoiam.

"O que mata a gente é a cegueira"

Polêmica e lúcida fala do rapper Mano Brown em comício de Fernando Haddad em 2018; as críticas parecem ter encontrado ouvidos moucos...


"Não consigo acreditar que pessoas que me tratavam com tanto carinho, que me respeitavam, me amavam, me serviam café, atendiam meu filho no hospital, se transformaram em monstros. Não posso acreditar nisso. Essas pessoas não são tão más assim. Se em algum momento a comunicação do pessoal aqui falhou, vai pagar o preço. Se não conseguir falar a língua do povo vai perder mesmo. Falar bem do PT pra torcida do PT é fácil. Tem uma multidão que não está aqui que precisa ser conquistada ou vamos cair no precipício. Errou, vai ter que pagar mesmo. Não gosto de clima de festa. O que mata a gente é a cegueira. Deixou de entender o povão já era. Se somos partido dos trabalhadores, partido do povo, temos que entender o que o povo quer. Se não sabe, volta pra base e vai procurar saber. Minha ideia é essa."

terça-feira, 27 de setembro de 2022

O cálice envenenado

Hoje de manhã houve uma altercação sobre política na portaria do meu prédio, envolvendo quatro pessoas. Em 13 anos morando aqui é a primeira vez que vejo algum bate-boca. O triste é saber que essa polarização não vai acabar depois das eleições. Talvez até piore.

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

"Imbrochável" - O imaginário sociopolítico brasileiro

7 de setembro de 2022, Abolição, Rio de Janeiro, cerca de 23 horas.

No boteco de minha esquina, um cidadão entusiasmado berra: "Hoje é dia de Flamengo e Bolsonaro"! Não era exatamente o brado retumbante que eu esperaria ouvir no bicentenário da Independência.

***

Lá se vão mais de vinte anos, a empregada de minha avó relatava, encantada e vivamente emocionada, o encontro com o prefeito de seu município na Baixada Fluminense: "Imagina, Dona Nair, uma pessoa importante apertando a mão de uma pessoa como eu"! 

Ficava ali evidente a noção de que ela não era uma pessoa importante - não se via no mesmo patamar existencial que o prefeito; já era muito que ele mantivesse algum contato físico com uma pessoa "como ela": doméstica, analfabeta, retirante, moradora de um bairro periférico. Seu encantamento revelava tanto uma visão autodepreciativa quanto uma surpresa imensa com o extra-ordinário fato de que, por um breve instante, uma "pessoa importante" a tivesse tocado, rompendo (mas não muito) uma barreira social.

Por volta da mesma época, ela era fiel eleitora da Família Garotinho. Em certa ocasião, comentava que valia a pena votar para ver "um casal tão bonito" como Rosinha e Garotinho. Àquele casamento idealizado evidentemente se contrapunha sua própria relação com um marido alcoólatra, que não trabalhava e maltratava os enteados. Votar era um modo de participar, de alguma maneira incompreensível, quase mística, da aparente felicidade conjugal daquelas "pessoas importantes".

Nessa vivência profundamente afetiva da política se articulavam mecanismos de projeção, intensificados pela precariedade da vida e pela autodepreciação, em uma sociedade em que historicamente, sempre se esperou que cada um soubesse se colocar "em seu devido lugar", em um país cuja Independência mantivera a escravidão e forjara um Império cujo monarca era o próprio sucessor da coroa lusitana, onde é necessário que as coisas mudem para que se mantenham as mesmas.

***

7 de setembro de 2022, Brasília, manhã.

Perante uma multidão, o Presidente da República, homem cristão, defensor da família, da moral e dos bons costumes ora, agradecendo a Deus por ter lhe concedido uma "segunda vida". No meio da oração, um pequeno coro começa a gritar algo um tanto inadequado para um momento de louvor e adoração: "Imbrochável! Imbrochável! Imbrochável!"

Longe de ignorar essa espúria manifestação popular, o dito presidente cristão interrompe a oração para, sorridente, puxar ele mesmo, ao microfone, o coro: "Imbrochável! Imbrochável! Imbrochável!", sem grande adesão da multidão ali reunida, talvez consternada. Sem hesitar, o presidente retoma sua oração.

Me ponho a imaginar uma criancinha ali presente perguntado para a encabulada genitora: "Mamãe, o que é 'imbrochável'?"

Tudo isso na Pátria Amada em que a família e a moral se encontram ameaçadas por uma esquerda endemoninhada, que planeja sexualizar as crianças e distribui "kit gay" e mamadeiras eróticas nas escolas...

"Brasil acima de tudo. Deus acima de todos". Amém.

***

"Imbrochável, imorrível e incomível", já se declarou inúmeras vezes o presidente, como parte de uma infindável litania marcada por certo ideal de virilidade, celebrando o arqui-macho brasileiro, herdeiro do lusitano "furor femeeiro", como diria Gilberto Freyre. Bolsonaro, afinal de contas, é o homem das armas e bravatas, com sua infatigável "arminha", gesticulação eleitoral cujo teor fálico parece difícil negar. Assim como a empregada de minha avó se projetava no casamento de Rosinha, é mais que provável que milhares de machões deste Brasil Varonil se projetem no Presidente Imbrochável com sua obsessão armamentista. Como sarcasticamente cantavam os Beatles, "happinness is a warm gun".

"Imbrochável" é o presidente que faz questão de ostentar sua esposa-troféu, muitos anos mais jovem. Mais que troféu, no entanto, Michelle Bolsonaro tem sido usada como trunfo eleitoral, em uma campanha que visa arrebanhar o eleitorado evangélico feminino. A "varoa" recatada que ora pelo marido em sua cruzada contra o Mal. Bolsonaro, pai do jovem que "pegou metade do condomínio" tenta ao mesmo tempo se vender como varão cristão e garanhão "imbrochável" para diferentes parcelas do eleitorado, por mais contraditório e contraintuitivo que isso possa parecer.

Nesse país onde tudo é possível, o defensor da "família tradicional brasileira" acumula casamentos e divórcios mais que litigiosos, marcados por escândalos públicos; como deputado federal, declarava empregar o auxílio-moradia "para comer gente".

"Deus, Pátria e Família". Não espanta que a Ditadura Militar também tenha sido a era áurea da pornochanchada brasileira.

***

"Jair, o Imbrochável" é também, não esqueçamos, o "incomível", para não deixar dúvidas quanto a sua heterossexualidade. Poucas coisas parecem abalar o clã Bolsonaro mais que dúvidas sobre sua masculinidade. 

Não espanta tal necessidade de se afirmar "incomível" por parte de alguém que sai do sério ao ser chamado de "Tchutchuca do Centrão"!

Espantoso, todavia, é o modo como "Jair, o Incomível" inúmeras vezes recorre a metáforas de teor homoerótico para descrever seus relacionamentos políticos - namoro, "casamento hetero" e por aí vai. 

Not least, vale lembrar a pitoresca fala do "Incomível" ao ex-galã pornô Alexandre Frota pouco antes de sua ruptura política: "Fecha essa matraca, puta que pariu, eu quero continuar transando com você".

Freud explica.

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Comemorações, especialmente em datas redondas, costumam ser momentos interessantes para se promover a reflexão coletiva sobre aquilo que se comemora. Constituem oportunidades para repensar nosso passado, com suas contradições, e pensar o futuro, com seus desafios. Nesse sentido, as comemorações do Bicentenário da Independência foram um fracasso lastimável.

Apenas a título comparativo, as comemorações do Bicentenário da Revolução Francesa em 1989 começaram a ser preparadas com seis anos de antecedência, marcados por instigantes debates públicos acerca do legado da Revolução para o povo francês. O que tivemos aqui foi um improviso histriônico, muito revelador da sociedade que somos e, mais ainda, do momento que vivemos.

Seria tentador citar Charles de Gaule e dizer que "o Brasil não é um país sério", mas a triste verdade é que já fizemos melhor em outras ocasiões, como os 500 anos do "descobrimento" do Brasil e os duzentos anos da vinda da Família Real, ambas ocasiões marcadas pela organização de grandes exposições, eventos acadêmicos e publicação de livros. A indigência com que comemoramos o Bicentenário da Independência diz muito mais sobre o contexto que vivemos, marcado por uma polarização política enlouquecedora e pela negligência quase criminosa do atual governo em relação a tudo que diz respeito a políticas públicas na área de cultura (para dizer o mínimo).

O "Imbrochável" se apropriou descaradamente da ocasião para fazer campanha eleitoral. Começou o dia com os pífios eventos em Brasília e terminou no Maracanã, assistindo ao jogo do Flamengo pela Taça Libertadores da América, em outro gesto eleitoreiro. No fim das contas, tudo pareceu seguir a cartilha salazarista dos 3 Fs: "Futebol, Fado e Fátima".

Nesse sentido, o grito no boteco da minha esquina estava mais que certo: ontem foi dia de Flamengo e Bolsonaro - e nada mais.







segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Dois vícios

Tendo a crer que tanto petismo quanto bolsonarismo se tornaram vícios, em muitos sentidos do termo. No entanto, há considerável diferença; tomando especificamente a dependência química como analogia, o petismo seria como a cachaça e o bolsonarismo seria algo tão grave quanto o crack.

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Fabricantes de Mitos

"Nós criamos nosso mito. O mito é uma fé, uma paixão. Ele não precisa ser uma realidade. Ele é uma realidade no sentido de que é um estímulo, é esperança, é fé, é coragem. Nosso mito é a nação, nosso mito é a grandeza da nação! E a esse mito, essa grandeza, que queremos traduzir em uma realidade total, nós subordinamos todo o resto. [...] No fundo, [o Fascismo] é um nacionalismo apaixonado".

Benito Mussolini, 1924



sábado, 30 de julho de 2022

Picaresco paradoxo brasileiro

A triste verdade é que estamos vivendo uma grande farsa eleitoral, no sentido teatral do termo. Um processo eleitoral  absolutamente esvaziado de discussão democrática pelo medo de que Bolsonaro acabe com a democracia. Seria cômico se não fosse trágico.