quinta-feira, 2 de novembro de 2023
sexta-feira, 21 de outubro de 2022
Chaves, Chapolim e as eleições de 2022
Em quem votariam os queridos personagens de Roberto Gomez Bolaños?
Chapolim Colorado - Sempre atrapalhado e indeciso, Chapolim se deixa enganar facilmente. Votaria em Bolsonaro, depois mudaria para Lula, mas acabaria se atrapalhando com a urna e anulando, mas não daria o braço a torcer - "seus movimentos são friamente calculados".
Dr. Chapatim - Adepto de terapias controvertidas e nada ortodoxas, o ilustre médico viraria entusiasta da cloroquina e votaria em Bolsonaro.
Jaiminho, o carteiro - Sempre evitando a fadiga, não pesquisaria melhor sobre as fake news recebidas via WhatsApp e decidiria votar em Bolsonaro. No dia da eleição não apareceria para votar - para evitar a fadiga, obviamente.
Godinez - Pragmático, decidiria o voto no cara-ou-coroa pouco antes de entrar na cabine eleitoral. Bolsonaro se desse cara, Lula se desse coroa - e nulo caso a moeda caísse de pé... Assobiando "Cielito Lindo", como de costume. Chamado pelo mesário, indagaria: "Mas por que eu, se eu não fiz nada?"
Pópis - Sempre ingênua, cairia na lábia de Michelle Bolsonaro; se o governo for ruim, é culpa da Serafina - "Feia, feia, feia"!
Nhonho - Perderia a hora de votar, pois pararia no meio do caminho para comprar uma melancia.
Dona Clotilde - Eternamente difamada como "Bruxa do 71", votaria em Lula, para evitar perseguição por Damares Alves e proteger a vida de seu querido Satanás.
Professor Girafales - Apesar de certa arrogância elitista, Mestre Linguiça é ferrenho opositor de todo tipo de obscurantismo e truculência, defensor do método científico e da importância da educação para o futuro da sociedade; conhecedor de Botânica, valoriza a biodiversidade e reconhece a importância da Amazônia no combate às mudanças climáticas. Votaria em Lula (escondido de Dona Florinda).
Dona Florinda - Apoiaria Bolsonaro incondicionalmente, pois defende a família, a moral, os bons costumes e acredita na violência como melhor forma de lidar com a "gentalha". Morre de medo do Comunismo e do fim da propriedade privada, embora não seja proprietária sequer da casa que habita. Vive de pensão, mas apoia a reforma da Previdência. Dona de um pé sujo, mas acha que merece estar no Guia Michelin. Emoldurou e pendurou na parede um retrato de Sérgio Moro. Nem percebe que a conta na venda da esquina fica cada semana mais alta - e não por culpa do Seu Madruga!
Quico - Um menino de bom coração, mas não pensa com a própria cabeça, seguindo cegamente a opinião da mãe - votaria em Bolsonaro. Start-upeiro bancado pela mamãe, atribui o suposto sucesso de sua "Super de Quico" ao superministro Paulo Guedes.
Chiquinha - Esperta e sagaz, a pragmática defensora dos "direitos da mulher feminina" não teria dúvidas de que Lula é a melhor opção - mesmo não sendo grande coisa.
Seu Madruga - Constante vítima de arbitrariedades e violência, não poderia em sã consciência votar no candidato da "Valentona do 14". Seu Madruga aprende com as pancadas que a vida lhe dá e não pretenderia passar mais quatro anos de perrengue nas mãos de Bolsonaro - iria de Lula, com certeza.
Seu Barriga - Rico proprietário de imóveis, antenado na política internacional e entendido de economia, Seu Barriga jamais cairia nas lorotas e desculpas esfarrapadas de Paulo Guedes - o fracasso econômico brasileiro não é culpa da pandemia, da guerra e muito menos dos energéticos. Acostumado a lidar com dólares, sente saudades de Lula.
Dona Neves - Ativa defensora dos trabalhadores, vinculada a importantes grêmios como DNVR, UTPJ E APDF, Dona Neves jamais apoiará um presidente que diz que o trabalhador deve abrir mão de direitos se quiser emprego!
Chaves - Não entende nada de política, mas lembra que na época de Lula o desjejum era mais farto na casa de Seu Madruga. Bolsonaro nem pensar!
quarta-feira, 9 de junho de 2021
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021
Mente x Máquina - Vitória impossível?
John Henry, well, he told his captain
“Captain, a man, he ain’t nothing but a man
Before I let your steam drill
beat me down
I’m gonna die with a hammer
in my hand, Lord, Lord
I’ll die with a hammer in my hand
A lenda do bravo trabalhador John Henry sempre me encantou desde a primeira vez em que ouvi falar dela em um gibi do Supernan, com meus 10 anos de idade. O fascinante personagem folclórico é um trabalhador negro que não aceita a supremacia da máquina e morre vitorioso em uma competição contra uma perfuratriz a vapor, usando apenas seu martelo.
Na última semana travei meu próprio duelo à la mort, com uma máquina e realizei mais de uma vez algo que sempre julgara impossível: vencer um jogo eletrônico em modo "gauntlet".
Como se sabe, o modo "gauntlet" consiste em lutar contra sucessivas ondas de adversários, com poucos recursos (ou nenhum) para recuperar os danos da batalha: o que significa um árduo confronto até a derrota, sem a menor chance de vitória - exceto uma, como me dei conta ontem.
Embora já tivesse jogado inúmeros games em "gauntlet", me tornei um aficcionado pela modalidade com meus 13 ou 14 anos, jogando o arquiclássico Golden Axe em meu então poderoso Pentium 166. Em minha ignorância, eu imaginava que após determinado número de ondas inimigas derrotadas, haveria algo como um final surpreendente ou um prêmio. Após inúmeras tentativas descobri que estava terrivelmente equivocado. Quanto mais longe prosseguia, mais adversários enfrentava, até a inevitável "morte" no campo de honra. Essa constatação me deixou imensamente frustrado, especialmente após todo o esforço que dedicara à empreitada guerreira.
Nunca mais retornei a Golden Axe (exceto em exposições de games antigos), mas o modo gauntlet permaneceu em minha vida. Durante alguns anos, apenas como um passa-tempo bônus após a conclusão de algum game. No entanto, amadurecendo, percebi que enfrentar gauntlets significava enfrentar a mim mesmo e superar meus próprios limites.
Para se manter de pé onda após onda, cada vez mais longe, são necessários foco e determinação a resistir "sobrevivendo" até a derrota. O momento crucial de um gauntlet é o final da partida, em que a barra de energia (ou o que o valha) se encontra praticamente esgotada e qualquer golpe adversário significa o fim da daquela batalha. Nesse momento prevalece a clareza mental de que a derrota está próxima, mas emerge a firme determinação de resistir por quantas ondas ainda for possível. A iminência da destruição e a resolução de resistir, combinadas, levam a um paradoxal estado de espírito, serenamente tenso, em que conta apenas fazer o melhor possível pelo tempo possível. Quando o "golpe mortal" finalmente chega, é recebido com a tranquiliidade de quem fez o melhor a seu alcance em uma luta onde nunca houve a mínima chance de vitória. Chegou-se tão longe quanto possível em uma jornada infinita.
Com o passar do tempo, comecei a ver os gauntlets como uma alegoria da própria vida: um combate incessante onde o que conta é a determinação de enfrentar reoluta e graciosamente cada nova onda de desafios que chega. Cada onda vencida sem danos, ou com danos mínimos, pode ser considerada, em si, uma vitória. E, com efeito, um gauntlet consiste em uma longa sucessão de vitórias contra dezenas, até centenas de adversários, até a queda. O mais importante é tirar o máximo proveito dos limitados recursos oferecidos no início da jornada para superar os desafios encontrados.
No entanto, para minha imensa surpresa, na última semana, após tantos anos, consegui o impossível - venci o modo gauntlet.
Em minha postagem anterior, "Acidentalmente épico", registrei o momento em que, pela primeira vez, atingira a 75ª onda de atacantes no modo gauntlet do jogo Thor - God of Thunder, um excelente "beat'em-up" retrô produzido pela Wayforward para o Nintendo DS. Adquiri o jogo em dezembro de 2012 e, desde então, tenho jogado muitas vezes, tanto no no modo "story" quanto no modo "gauntlet" (ou "survival", na terminologia própria do jogo). No entanto, no preciso momento em que superava meus limites, a máquina encontrava os seus, e travou - o que frustrou minhas expectativas de lutar "até a morte", muito embora deixando uma bela imagem residual.
No entanto, encorajado por meus progressos e determinado a vencer ao menos 100 ondas, nos dias seguintes vim jogando e, quanto mais ondas de adversários eu conseguia superar, mais ocorriam problemas técnicos. Por mais duas ou três vezes o jogo travou e, em outras ocasiões o áudio experimentou falhas cumulativas - em geral, os efeitos sonoros de ataque e feedbacks diversos iam desaparecendo, até que sobrava apenas a trilha sonora de fundo.
Somente ontem, no mais árduo dos confrontos, me dei conta de algo: nos últimos dias eu vinha derrotando não apenas o software Thor - God of Thunder em seu modo gauntlet, mas também o próprio hardware do sistema Nintendo 3 DS - especialmente, imagino eu, sua memória RAM.
A partida de ontem foi aquela onde não apenas alcancei, mas superei minha meta, derrotando 104 ondas e sendo abatido na seguinte. Durante o confronto os efeitos sonoros se foram completamente e, em minha imaginação, comparei a situação à de um combatente ensurdecido pelo ruídos do campo de batalha. A analogia tem lá seu fundamento, uma vez que a perda do feedback sonoro durante a partida causa certo desconforto e desorientação, pela perda das costumeiras pistas auditivas.
Por volta da nonagésima onda me questionei se valia a pena seguir adiante, temeroso de que o sistema de meu DS, com seus mais de 8 anos de operação não resistisse ao esforço. Ainda assim, achei que valia a pena experimentar e a partida veio a bom termo, com minha derrota no centésimo quinto round.
Mas que pensar, efetivamente, de minha "vitória" sobre a máquina? Certamente há que se pensar em suas condicionantes. A principal delas, creio eu, é que o sistema, com oito anos de uso, já não opera mais em sua máxima potência - afinal de contas, cedo ou tarde a entropia se faz sentir. Nesse sentido, há que se pensar mais em derrota do sistema que em vitória do usuário.
No entanto, ainda aqui há uma curiosidade: meu "hardware", por assim dizer, tem 28 anos de "uso".a mais que meu Nintendo. Não obstante, em nossas respectivas capacidades de processamento de informação, via interface de jogo, eu permaneci funcional, enquanto o console entrou em colapso sistêmico.
Por banal que seja esse episódio, me parece quase alentador "vencer a máquina" em tempos em que muitos advogam a substituição do humano em tantas tarefas demasiadamente humanas. Certo contemporâneo de Ford dizia que eram necessários trabalhadores baratos para operar máquinas caras. Infelizmente notamos que a mentalidade industrial pouco mudou nesses últimos 100 anos.
Apenas tardiamente me dou conta de que tanto Thor quanto John Henry travam suas respectivas batalhas usando martelos - uma das mais arcaicas, simples e eficientes ferramentas humanas.
Não estranha que os antigos escandinavos e os trabalhadores dos EUA tenham associado o martelo a seus heróis míticos e folclóricos - afinal de contas, há pouco de heroico nas aventuras de uma perfuratriz a vapor, mas um humano com um martelo apela à imaginação, ainda que se trate apenas do Chapolim Colorado com sua marreta biônica. Não contavam com nossa astúcia!
segunda-feira, 29 de junho de 2020
Chaves, Café e Erotismo
Eu era adulto quando li "O diário do Chaves" e confesso que fiquei um tanto... abalado. Especialmente porque a obra é do próprio Bolaños, então parece que a coisa sempre foi proposital, mais que uma insinuação tardia. Talvez uma piada para os adultos, inclusive porque no México não era um programa propriamente infantil; era transmitido pela Televisa para uma audiência ampla, nas noites de sábado.
Minha geração era criança e cresceu vendo tudo com o mesmo olhar inocente. Mas imaginar que enquanto as coisas se passavam no pátio da vila havia gente (figurativamente) "haciendo amor" nos bastidores... Perturbador.
segunda-feira, 1 de junho de 2020
Pandemia na Vila do Chaves
Ficou em casa, pedindo delivery da venda na conta da Dona Florinda.
Chiquinha
Fugiu pela janela, mas só pegou catapora.
Seu Barriga
Como tem um coração imenso, suspendeu a cobrança do aluguel durante a quarentena.
Chaves
Internado por COVID-19, mas feliz: no hospital tem desjejum, almoço, lanche, jantar e ceia garantidos, todo dia.
Dona Florinda
Abriu o restaurante, porque a economia não pode parar. Tomou cloroquina e teve um piripaque colateral.
Quico
Em isolamento domiciliar com COVID-19.
Professor Girafales
"Não me passa isso, moleque!"
Dona Clotilde
Ficou em casa com Satanás.
Jaiminho
Evitou a fadiga e chegou atrasado para a pandemia...
Dona Neves
Já saiu da Gripe Espanhola imunizada contra tudo e contra todos, de pandemias a senhorios.
Godinez
"Quarentena? Que quarentena?!"
quinta-feira, 16 de abril de 2020
Evitando a fadiga - e a pandemia
Outra emblemática imagem do momento presente: a estátua erigida em honra ao carteiro Jaiminho, no Estado de Michoacán, México, sendo higienizada contra o COVID-19.
Como bem sabe a maioria dos latino-americanos de minha geração, o carteiro Jaiminho (ou Jaimito) é um personagem introduzido tardiamente no seriado mexicano Chaves ou, no original, El Chavo del Ocho.
O personagem, encarnado pelo ator Raúl "Chato" Padilla, passou a integrar o elenco após a saída de dois atores e personagens de peso, Ramón Valdés e Carlos Villagrán, que viviam respectivamente Seu Madruga e Quico (ou Don Ramón e Kiko, conforme se prefira).
O bonachão Jaiminho aparece então como o novo carteiro da vizinhança, natural da (então) obscura localidade de Tangamandápio. A característica mais saliente do personagem é seu firme empenho em "evitar a fadiga". A maioria das gags envolvendo o personagem gira em torno de sua lentidão e sua preguiça, que muitas vezes o levam a ser folgado e abusado.
Um dos maiores feitos de Jaiminho foi, sem sombra de dúvida, fazer com que milhões de espectadores descobrissem a existência de Tangamandápio. Em tempos anteriores à Internet, muito se especulava sobre a real existência da localidade. O fato é que o lugarejo não apenas existe como há alguns anos erigiu uma estátua em homenagem ao personagem e seu intérprete, em gratidão pelo renome internacional que trouxe ao povoado. Por sinal, o mero fato de que a pandemia, saindo de Wuhan, tenha chegado a um "fim-de-mundo" latino-americano como Tangamandápio é muito emblemático do mundo hiperconectado em que vivemos.
A bem dizer, Jaiminho é um personagem um tanto apagado e nunca parei para refletir mais detidamente sobre ele em minhas meditações chavológicas. A imagem acima e o contexto de pandemia e quarentena, no entanto, me convidam a pensar melhor sobre Jaiminho, o carteiro.
Com seu ar pacato e imperturbável, Jaiminho é um verdadeiro subversivo. Para evitar a fadiga, burla as normas dos Correios e mesmo o decoro comum - sem jamais se mostrar agressivo ou raivoso (afinal de contas, a raiva também cansa).
É interessante notar que um dos adereços do personagem é sua bicicleta. Uma escolha de figurino brilhante, pois Jaiminho jamais a usa. Na verdade, o carteiro oculta da empresa de correios o fato de que não sabe andar de bicicleta - o que acarretaria em sua demissão, como explica aos demais personagens em diversas ocasiões. Desse modo, Jaiminho arrasta sempre consigo sua inútil bicicleta, oferecendo oportunidades para várias gags.
Vale refletir melhor sobre a relação entre Jaiminho e sua bicicleta. O veículo serviria para que o carteiro, atendendo às urgentes necessidades da sempre apressada modernidade, executasse seu trabalho com maior rapidez, mas é precisamente o contrário que ocorre - longe de auxiliar, a bicicleta se torna um estorvo, um fardo adicional que acaba atrasando o trabalho de Jaiminho.
Desse modo, a singela bicicleta acaba encarnando todas as traquitanas e bugigangas modernas que, em teoria, deveriam simplificar a vida, mas a tornam apenas mais complicada. A bicicleta de Jaiminho é um pouco como tantos sistemas informatizados atabalhoadamente introduzidos tanto pela iniciativa pública quanto privada que, longe de facilitar a vida dos profissionais, só reduzem sua eficiência e os distraem de tarefas mais importantes.
A pesada pasta carregada por Jaiminho também convida a refletir. Quanto daquela correspondência, tão penosamente transportada pelo carteiro, é realmente relevante? Faz pensar nos megabytes de e-mails e mensagens que recebemos e emitimos diariamente, drenando nosso tempo, muitas vezes a troco de nada.
Pensando bem, em muitos aspectos, a figura de Jaiminho ressoa em outra modulação muitos dos temas que perpassam a caracterização de Seu Madruga. Apesar das disparidades de temperamento, o pacato carteiro tem muito em comum com o explosivo malandro-biscateiro-faz-tudo. O zeloso empenho do tangamandapiano em evitar a fadiga ecoa a madruguiana sabedoria: "Não existe trabalho ruim - ruim é ter que trabalhar".
Aprofundando o paralelo, tanto Madruga quanto Jaiminho pertencem ao universo de figuras deliberada ou involuntariamente marginalizadas da modernidade, por deserção ou inadaptação. Madruga é o malandro da periferia urbana, pouco letrado, sobrevivendo às margens do emprego formal. Jaiminho é o homem egresso do interior, de um lugarejo rural como Tangamandápio à selva urbana da Cidade do México.
Sua mansidão no falar é muito característica de tantos interioranos transplantados à pressa louca da cidade grande. Me lembra um bocado meu antigo e querido barbeiro, Seu Virgílio, que já conheci sexagenário. Viera em sua juventude de Tupaciguara, lugarejo de Minas Gerais, para viver nos subúrbios do Rio de Janeiro; depois de tantos anos, perdera o sotaque mineiro, mas não a fala mansa.
Embora muito laborioso, Seu Virgílio trabalhava sem pressa, com esmero e, mais importante, com uma conversa inteligente e agradável, em prosa mansa e vivaz, transmitindo uma serenidade e uma alegria de viver revigorantes. Sua humilde barbearia era um oásis de tranquilidade nesse mundo inquieto e ansioso.
Para evitar a fadiga do leitor, encerro por aqui esse texto, com um convite: que a pandemia e a quarentena que ora experimentamos nos ajudem a viver um pouco mais como Jaiminho, com menos pressa e sofreguidão, no ritmo de Tangamandápio...
Dedico esse texto ao meu amigo Fernando, que me enviou a imagem acima.
terça-feira, 3 de setembro de 2019
Prioridades: a sabedoria de Madruga
sexta-feira, 30 de agosto de 2019
Um lápis apontado muitas vezes
segunda-feira, 1 de maio de 2017
Chaves, Dona Florinda e os direitos dos trabalhadores
Em certo episódio, o restaurante é invadido por Dona Neves, acompanhada por representantes da Associação Pró Direitos Femininos (APDF ou "Alfafa para Dona Florinda), do Diretório Nacional dos Veteranos em Restaurantes (DNVR ou "Dona Neves Velha Reumática) e União dos Trabalhadores Pró Juventude (UTPJ ou "Uma Torta para Jaiminho").
Segue-se um simulacro de greve e negociação trabalhista, onde Chaves sucessivamente serve e retira a torta do carteiro Jaiminho, cliente do restaurante. Dona Florinda se mostra inflexível perante as reivindicações legais apresentadas em favor do pequeno garçom. Ao fim e ao cabo, após inúmeros desentendimentos e aborrecimentos, Dona Neves e os demais manifestantes batem em retirada, deixando Chaves entregue à própria sorte e aos desmandos de sua patroa.
Até aqui, a trama segue de perto a vida real. Um trabalhador, inconsciente de seus direitos ou incapaz de reivindicá-los efetivamente, se submete à exploração fora das determinações legais. Organizações sindicais e sociais barulhentas e ineficazes encampam um simulacro de luta trabalhista, ao mesmo tempo que não concedem qualquer espaço ao próprio trabalhador para se expressar ou deliberar, falando por ele e não com ele. No fim das contas, o trabalhador permanece alijado de seus direitos e impotente perante a situação.
Em seus minutos finais, todavia, o roteiro de Roberto Goméz-Bolaños se desvia da realidade. Num repentino e inexplicável surto de consciência, Dona Florinda (que odeia a gentalha) se decide a conceder voluntariamente o cumprimento dos direitos de Chaves.
Apesar de moralmente edificante, o episódio é socialmente desalentador. O trabalhador está à mercê dos caprichos e da boa vontade de seu empregador, que decide unilateralmente se cumpre ou não a legislação trabalhista vigente. Sabemos que esses finais felizes são raros na maioria dos casos.
Temos hoje às nossas portas uma proposta de reforma da lei trabalhista que fragiliza ainda mais a situação dos trabalhadores brasileiros, especialmente na ideia de fazer prevalecer o contratado sobre o legislado. O trabalhador estará livre para negociar com seu empregador - tão "livre" quanto um coelho que "negocia" com um lobo.
A maioria dos trabalhadores se encontra em situação tão precária quanto a do pequeno Chaves, mas haverá por aí tantos patrões dispostos à generosidade de Dona Florinda?! Olhe à sua volta, caro leitor...
[Durante a greve de 2013 da Educação municipal do Rio de Janeiro tracei analogias ligeiramente diferentes em torno desse episódio, no contexto específico da ocasião, disponíveis no post "Retire a torta!"-Chaves e a greve dos professores, onde o leitor também encontra a íntegra do episódio.]
segunda-feira, 17 de outubro de 2016
Madruga e Girafales: 2 professores
O dia dos professores passou. Como diria a Chiquinha: "Sim. E daí?!" Logo, vale a pena falar sobre essa cena que pra mim é um baita exemplo do "que fazer" e do que "não fazer" com o conhecimento e com o que tudo que se decide "passar" ao aluno. E serve para uma reflexão sobre o que é ser professor.
Ela é muito conhecida de quem gosta de Chaves, desde sempre me marcou muito e hoje, revendo tudo, algumas coisas fizeram sentido. Não, meu exemplo de professor ideal não é o Seu Madruga. Nem o Girafales. O que eu não entendia era porque ele estava falando sobre aquele assunto em uma sala de aula. Acho que depois de 14 anos dando aula (sim... Comecei novo no ofício) eu comecei a perceber que tanto o "utilitarismo" rasteiro do seu Madruga quanto o êxtase do prof. Girafales são importantes para um professor.
Durante toda a série o Girafales tenta ensinar aos alunos conteúdos que pra eles não fazem sentido. Claro que para um catecúmeno eles nunca fazem, mas é tarefa do professor organizar uma narrativa que faça sentido para eles. Seja um professor de História que está falando sobre as revoltas do Brasil Colônia seja um baterista que está falando sobre paradiddles. O problema do Girafales é que ele está mais preocupado com a "bagunça" dos alunos e não percebe que em todas as suas outras aulas eles estão atentos, quietos (claro que as vezes esporros são necessários...) e tentam compreender a importância e a utilidade de tudo o que está sendo transmitido. Por exemplo, no episodio sobre a "Chinfurínfula", Chaves vai fundo na pergunta: até onde vão os limites na arte? E quando a Chiquinha reclama que "já me bastam os problemas que tenho na vida" e o Nhonho chora porque "matou as Antilhas", o que temos são os alunos dando dois recados ao mestre: afinal, porque estamos estudando isso? Será que você não percebeu que nossa imaginação é muito mais ampla do que o seu plano de aula diz que é? Planos de aula, assim como na guerra, só funcionam até tudo começar.
Aí vem o seu Madruga.
Com uma retórica veloz, uma interpretação cômica mas que espuma seriedade e para o deleite de todos - inclusive do professor Lingui... digo, Girafales - ele traz um assunto que faz sentido. Os alunos foram fisgados. Bingo! Se a aula tivesse continuado, eles poderiam perguntar sobre diversos porquês: qual a composição química do tal veneno? Porque afinal, tomamos choque? A aula poderia ser de Química, poderia ser de Física... E também não poderia. De repente eles poderiam se surpreender: o assunto da aula poderia ser o Nazismo. Sim! Se o Madruga estendesse o raciocínio ele poderia dizer que, como alguém que vê uma caveira numa garrafa e ignora o aviso que explica o seu conteúdo assim aconteceu na Alemanha da década de 30. E pode acontecer no Brasil de hoje. "Porquê a pessoa quis beber a garrafa professor?!" Chaves perguntaria. "Porque sim, tonto!" diria Kiko. Aí entraria o conteúdo que apenas Girafales possui: ideologia, as massas e a prática política, o "veneno" que foi o totalitarismo nazista, as leituras de Hannah Arendt, a semiótica aplicada a caveira do aviso, enfim... A aula - e a mente - estaria nos trilhos.
Seu Madruga é divertido, mas seu utilitarismo tem limites. Professor Girafales é um erudito, mas cuja sabedoria nem sempre é como os cafés que ele toma com a dona Florinda: ela nem sempre é compartilhada.
Muitos professores repudiam o tipo de conhecimento e a vivência que os alunos têm. Muitos preferem se posicionar como os sabichões eruditos e ignoram as necessidades dos alunos. Muitos são escravos do currículo. Muitos estão ali pra "complementar a renda, meu negócio é tocar". Muitos querem apenas "bombar" o Lattes. Mas muitos, apesar da infeliz situação em que nosso país se encontram buscam ser híbridos. Unem em uma única pedagogia a metodologia"madrugoniana" com o referencial teórico "girafaleano". São "monstros", mas monstros do bem. E são eles que me inspiram até hoje.
O mestre que não se importa em enumerar todos os faraós do Egito mas prefere mostrar como o poder baseado na religião é um veneno e aqueles que mostram que melhor do que ter um paradiddle veloz é saber que aquilo é apenas "uma" palavra das diversas possíveis e que em certos momentos "falar rápido" é ridículo - é justamente para esses que eu desejo, com muito atraso, um feliz dia nosso.
Por mais professores como esses.
sábado, 3 de setembro de 2016
O Brasil segundo Chapolim Colorado
***
Chapolim Colorado é nosso herói: se aproveitam de nossa nobreza...!
***
"Nossos movimentos são friamente calculados!" - Cúpula do PT, sobre o pacto de governabilidade.
***
"Não contavam com minha astúcia!" - Eduardo Cunha, sobre o Impeachment.
***
"Suspeitei desde o princípio!" - Cidadão que não se sentia confortável com o pacto de governabilidade.
***
"Uende está o donde?" - Cidadão tentando compreender a vertente jurídica do Impeachment.
***
Meu salário está ficando viciado em pílulas de polegarina!
***
Palma, palma! Não priemos cânico!
domingo, 26 de julho de 2015
Chapolim, herói subversivo
Para tanto, lancemos primeiro nosso olhar sobre seus equipamentos, a começar pela famosa "marreta biônica". Um martelo de combate é uma arma de natureza violenta e brutal, destinada ao esmagamento de carnes e ossos. No caso de Chapolim, o malho representa uma imagem nitidamente inofensiva, composto de plástico em cores berrantes. Não transmite ideia de peso ou dureza. Parece um brinquedo, pois é, com efeito, um brinquedo. Provoca o riso, evoca certo distanciamento da realidade, e convida o espectador à brincadeira. Ninguém vai se machucar de verdade. Nenhum crânio será esmagado. Uma cabeça realmente contundida provoca medo, piedade, censura, mas um golpe da "marreta biônica" nos faz rir.
Por outro lado, temos a pílula de polegarina (ou nanicolina). Em geral, os heróis buscam instrumentos que os tornem mais fortes e poderosos, que os engrandeçam, ao passo que as pílulas reduzem o Chapolim, tornam-no fraco e vulnerável. Um gato ou um rato tornam-se ameaças temíveis para o encolhido herói. Outra inversão, ou subversão.
Para encerrar a questão dos equipamentos, lembremos a "corneta paralisadora", cujas aparições são raras, porém marcantes. Ao realizar seu efeito paralisante, constitui uma negação do movimento, enquanto as capacidades da maioria dos super-heróis tendem normalmente à ampliação do movimento, como a força do Hulk, a velocidade do Flash ou a capacidade de voo do Superman. Se, em grande medida, os super-heróis constituem pessoas "ampliadas", o Chapolim, pelo contrário, pode ser considerado, em sentidos tanto simbólicos quanto literais, uma pessoa "reduzida".
Os bordões do personagem também são indícios interessantes para interpretá-lo. "Meus movimentos são friamente calculados" e "suspeitei desde o princípio" são frases que geralmente pontuam situações onde se passa justamente o contrário, ou seja, quando Chapolim mostra menos destreza ou perspicácia, onde ele se mostra a antítese do super-herói, desastrado e tolo.
Em muitos episódios, Chapolim é vítima de abusos verbais ou físicos, e reage, encarando o espectador: "Se aproveitam de minha nobreza". O bordão também costuma ser empregado quando o personagem se vê pressionado a agir de determinada maneira. Ambas as situações denotam a vulnerabilidade do protagonista, bem como seu papel muitas vezes passivo, ao contrário do que normalmente se passa nas narrativas de super-heróis - por exemplo, Batman e Superman, dois dos arquétipos máximos desse universo raramente perdem o controle da situação, enquanto Chapolim parece quase sempre ser um joguete das circunstâncias. Por sinal, o herói mexicano muitas vezes não age movido por seus princípios, precisando ser insistentemente coagido, ao que responde com seus clássicos "sim, eu vou..." ou "sim, eu faço..."
Por vezes, o personagem consegue, numa reviravolta, dominar os problemas, pronunciando seu vitorioso "não contavam com minha astúcia". No entanto, é bom salientar que essa astúcia do Chapolim jamais se configura como as hábeis e meticulosas manobras do Batman, mas sempre como fruto de um feliz improviso. É uma astúcia de malandro, de pícaro, não de estrategista.
Em seus atos e palavras Chapolim parece sempre agir às avessas do que se espera de um super-herói. Talvez por isso viva confundindo a sabedoria comum articulada pelos ditados e provérbios, invertendo e distorcendo sua lógica e valores. O caráter confuso e caótico do personagem talvez se expresse em sua forma mais eloquente através do bordão "Palma, palma, não priemos cânico!", subversão extrema dos códigos linguísticos, que também revela o ambíguo código de ética do Chapolim, onde os termos se subvertem: o herói se dispõe a ajudar os vilões, ou pior ainda, põem-se a agredir as próprias pessoas que viera ajudar. Definitivamente, o Chapolim não é confiável.
Por fim, todas essas características parecem convergir para a própria emblemática do personagem. Chapulines são pequenos insetos da América do Norte.
No entanto, há que se ressaltar uma peculiaridade: trata-se de um inseto consagrado a usos culinários, geralmente cultivados para consumo. Sua forma de consumo mais comum é torrado e temperado com sal, alho e suco de lima.
A maioria dos super-heróis ou vilões de inspiração animal usa como "totem" alguma espécie grande ou ameçadora: morcego, tigre, carcaju ("wolverine"), lince, leopardo, urso, lobo, tubarão, rinoceronte, águia, falcão, gavião... Mesmo nos casos de pequenos insetos ou artrópodes, trata-se de animais relativamentes agressivos, como aranhas, escorpiões ou vespas. Em uma palavra, os emblemas no universo dos super-heróis remetem normalmente a espécies de predadores. Os chapulines são justamente o contrário, isto é, presas, animais destinados ao consumo e à alimentação humana. Animais que os seres humanos comem, não animais que temem. Retornamos, de certo modo, à imagem da "marreta biônica": uma arma inofensiva, que não inspira medo.
Mais ainda, animais criados em cativeiro, os chapulines são criaturas domésticas, inofensivas dominadas pelo ser humano, enquanto a maioria dos emblemas animais usados no mundo dos super-heróis remete a espécies selvagens, que escapam ao nosso domínio e controle. Não temos um Homem-Cachorro, uma Mulher-Vaca, um Super-Cavalo, um Garoto-Bode ou uma Menina-Ovelha. Tais figuras não inspirariam temor ou respeito, mas riso - como o Chapolim. Sob esse aspecto, a figura da Mulher-Gato parece bastante reveladora: é uma personagem perpetuamente dividida entre o mundo da lei e da justiça e o submundo do crime, tal como os gatos são animais semi-domesticados, imperfeitamente domados e controlados, imprevisíveis, divididos entre o lar e a rua, a meio caminho entre a cultura e a natureza.
Assim, esse pequeno ensaio sobre o Chapolim nos conduz a uma dupla conclusão: é um herói latinoamericano não apenas porque rimos dele, mas porque o associamos a uma série de imagens culturalmente arraigadas, cristalizadas e reificadas acerca da própria América Latina: fraco, tolo, desastrado, passivo, malandro, paralisado, vulnerável, pouco confiável. E assim, o aceitamos como nosso herói, porque consideramos a nós mesmos dignos (apenas?) do riso, da caçoada, do deboche. Parafraseando De Gaulle, não somos "países sérios".
Por outro lado, o contraste entre o Chapolim e os super-heróis "sérios" expõe melhor algumas das raízes desse gênero: o selvagem, o indomável, o natural, aquilo que não pode ser controlado. Não seria Superman uma verdadeira força da natureza? Fruto de uma cultura industrial, os super-heróis revelam o quanto de "arcaico" ou "primitivo" ainda persiste em nosso espírito, o quanto tais emblemas ainda constituem uma mitologia apelativa a nossas sensibilidades. Como já dizia Lévi-Strauss, o "pensamento selvagem" continua presente entre nós e em nós...
sábado, 23 de agosto de 2014
Gentalha - Seu Madruga e a violência na América Latina
Recentemente me dei conta de um detalhe revelador: Seu Madruga é o fulcro da violência em Chaves, através do qual se articulam as agressões intencionais praticadas na vila, atuando como ponto de convergência entre o mundo das crianças e o dos adultos. Recontrapuxa!
Comecemos pelo mundo dos adultos. Não são incomuns as agressões entre adultos em Chaves, mas na maior parte das vezes são acidentais - como o significativo beliscão do Prof. Girafales em Dona Clotilde (cujas conotações sexuais não pretendo discutir aqui) ou as eventuais pancadas de Dona Florinda em Seu Barriga ou Prof. Girafales. O único adulto agredido de forma intencional e consistente é Seu Madruga: pelos mais variados motivos, o pobre homem já apanhou de praticamente todos os adultos da série, como Prof. Girafales, Seu Barriga, Dona Glória e até mesmo da apaixonada "Bruxa do 71"; sua principal agressora, desnecessário lembrar, é Dona Florinda. E lembremos: ela bate nele por ser gentalha. Homem pobre, sem instrução e habitualmente desempregado (por opção), Seu Madruga é por excelência a vítima de agressões no mundo dos adultos.
Certa situação é particularmente elucidativa: em determinado episódio, Seu Barriga agride Quico acidentalmente, mas, como de costume, Dona Florinda reage batendo em Seu Madruga. O equívoco é desfeito logo depois, mas a zelosa mãe não pede desculpas, apenas murmurando entre dentes que "errar é humano". Ainda mais sugestivo é o fato de, devidamente esclarecida, ela não agredir Seu Barriga. O pobre Madruga é passível de agressão, mas não Barriga, proprietário do cortiço; ele não é gentalha. Não é difícil perceber o paralelo com a violência nas sociedades latino-americanas.
Quando passamos ao mundo das crianças, a situação se inverte: Seu Madruga é o principal agressor adulto. São raras as ocasiões em que outros adultos batam nas crianças, mas ele distribui pancadas entre Chiquinha, Quico e Chaves. Por vezes suas agressões são muito violentas, como os murros que aplica na cabeça de Chaves ou quando apaga um cigarro (!) na mão de Quico. Ora, Seu Madruga raramente reage à violência dos adultos, mas canaliza sua raiva para as crianças - lembrando as reflexões de Foucault sobre a "microfísica do poder". Também não é situação muito diferente do que vivenciamos na América Latina - geralmente a corda arrebenta para o lado dos mais frágeis socialmente, especialmente as crianças e mulheres; o quadro muitas vezes se agrava entre as camadas menos instruídas da população. E, de fato, não são raros os episódios em que Seu Barriga e principalmente o Prof. Girafales repreendem Seu Madruga, homem menos "esclarecido", pela violência que usa contra as crianças. Reside aí profunda ironia, já que os mesmos não se poupam de agredir o próprio Madruga, e muito menos se incomodam com a cruzada de Dona Florinda contra a gentalha. Pelo contrário, em algumas situações Prof. Girafales aconselha sua amada a não bater no pobre homem apenas para não "sujar suas mãos com semelhante porcaria".
No entanto, a relação de Seu Madruga com o mundo infantil é marcada por outra inversão: a única criança que agride deliberadamente um adulto é Quico; ainda por cima, essa violência é praticada de modo sistemático. "Gentalha, gentalha!" - os gritos do menino não poderiam ser mais expressivos. Desde criança, Quico aprende que a gente "da alta" pode bater na gentalha. Por sinal, a violência exercida pelo garoto é extremamente significativa, à medida que em muitas ocasiões ele sabe que Seu Madruga é inocente, mas o agride instintivamente ao ouvir as palavras mágicas de sua mãe: "Vamos, Quico...". Em muitas situações a violência de Dona Florinda contra Seu Madruga é gratuita, e o filho a segue pelo mesmo caminho. Seu Madruga, Quico e Dona Florinda constituem o tripé que sustenta a violência em Chaves, numa dinâmica estribada nas relações sociais tensas vividas na América Latina. Na verdade, vejo Quico como um menino de bom coração, mas que recebe de sua mãe uma educação extremamente preconceituosa, arrastado a um precoce aprendizado da violência - nesse sentido, vale lembrar algumas observações de Gilberto Freyre no clássico Casa-grande & senzala.
Concluo esse já longo texto lembrando uma das cenas mais belas, brutais e pungentes do seriado. Em certo episódio, Chaves faz um comentário jocoso a respeito de Dona Florinda, provocando risos descontrolados em Seu Madruga. A mulher bate nele repetidas vezes, com agressividade crescente, mas o homem continua gargalhando, com intensidade cada vez maior, indiferente à violência de que é vítima. Irritada e cansada, Dona Florinda se retira, acompanhada por Quico - não sem seu habitual "gentalha, gentalha"! Seu Madruga continua rindo, triunfante. Há um quê de metalinguístico nessa cena, onde o seriado humorístico celebra a gargalhada vitoriosa contra a violência, o espírito inabalável ante a força, o riso em seu pleno potencial libertador.
Possa a gentalha latino-americana rir cada vez mais escancaradamente na cara dos tiranos de plantão.
domingo, 25 de agosto de 2013
"Retire a torta!" - Chaves e a greve dos professores
Desde sexta-feira venho me sentindo um pouco como o Chaves no famoso episódio em que Dona Neves promove uma manifestação trabalhista no restaurante de Dona Florinda. Vejamos.
Dona Florinda, assim como Eduardo Paes, Cláudia Costin e companhia, se mostraram irredutíveis desde o começo - mas agora começam a ceder.
Dona Neves equivale à atual direção do SEPE - tenta estabelecer uma parceria com Chaves, mas há muitos ruídos na comunicação.
Nós, professores, somos o Chaves.
Os alunos e a comunidade escolar são o Jaiminho.
Nos encontramos agora diante de um dilema: servimos a torta, ou retiramos a torta? Assim como Chaves, todos nós desejamos profundamente servir a "torta" da Educação de qualidade. Mas que torta? Nesse momento, só temos uma tortinha mixuruca, com massa ruim e recheio podre. Não satisfaz a fome dos nossos alunos. Faz até mal, provoca indigestão.
Por enquanto, nos próximos dias, acho melhor para os "jaiminhos" de nossas escolas, retirar a torta. Se avançarmos em nossas reivindicações, eles e seus filhos terão uma torta MUITO melhor para comer depois...
Por outro lado, precisamos cuidar melhor do diálogo entre a categoria e a direção do SEPE, para evitar o desentendimento e prosseguirmos juntos até o final, ao contrário do que acontece entre Chaves e Dona Neves!
O que não podemos deixar é acabar como o episódio de Chaves, cuja mensagem é conservadora - no fim das contas, não há conquistas do jovem trabalhador, mas concessões patronais "espontâneas" derivadas de uma conscientização da Dona Florinda. Até porque já vimos que não podemos esperar nada nesse sentido...
Por isso, colegas professores, meu grito na segunda-feira será: "Retire a torta"!
sábado, 22 de junho de 2013
"V de Vingança" ou "C de Chapolim"?
As apropriações culturais mais interessantes são quase sempre fruto de manobras criativas e imprevisíveis. É o caso do percurso trilhado pela obra V de Vingança ("V for Vendetta", no original).
A máscara de Guy Fawkes (rebelde inglês do século XVII) durante séculos foi objeto de execração em comemorações anuais na Inglaterra, ao estilo da nossa "malhação do Judas". No início dos anos 80, o quadrinista britânico Alan Moore se apropriou da imagem para a impactante caracterização do personagem V, numa obra que criticava o contexto das reformas neoliberais empreendidas na "Era Thatcher". Cerca de três décadas depois, a máscara de V/Guy Fawkes foi tomada como símbolo de manifestações populares contra o mesmo sistema neoliberal, em sua fase mais avançada, em que os sinais de deterioração sociais decorrentes se tornam nítidos ao redor do mundo. Até onde sei, essa apropriação da imagem começou em Nova York, com o movimento de ocupação em Wall Street. Depois de tímidas aparições em solo brasileiro, chega com toda força a nossas ruas.
Com certeza, Alan Moore deve estar muito satisfeito com essa trajetória. Ouso dizer que Guy Fawkes também, com a eclosão de seu legado simbólico, após tantos séculos.
No entanto, vale observar que muitas pessoas estão usando a imagem de modo um tanto vazio. Provavelmente não leram a história em quadrinhos e talvez nem tenham assistido o filme. Usam a máscara de V, mas articulam discursos totalmente incongruentes com as críticas elaboradas pela obra de Moore. Muitos talvez nem saibam de onde o símbolo saiu. Por outro lado, há aqueles que talvez até tenham lido - usam fantasias completíssimas inclusive - mas apenas balbuciam palavras de ordem banais e propostas superficiais.
Enfim, o que temos visto por aí combina muito pouco com V, personagem coerente, analista preciso da realidade, dono de um discurso orgânico e planejador astuto e sagaz. Enfim, nada a ver com muitos setores que têm frequentado as ruas brasileiras, defendendo plataformas ocas, repetindo bordões e entoando cantorias de significado duvidoso.
Enfim, estão mais perto do desorientado Chapolim Colorado que do metódico V.
Como sabem quase todos que cresceram no Brasil nos anos 80 e 90, o nosso querido herói latino nem sempre age de modo muito consistente. De fato, mete os pés pelas mãos, "esclarecendo" em seguida que seus movimentos são friamente calculados...
Pior ainda, apesar de seus nobres sentimentos, o ingênuo Chapolim é facilmente ludibriado. Pior ainda, o Polegar Vermelho adere a qualquer causa sem pedir maiores esclarecimentos. Em diversos episódios o vemos ajudando cientistas malucos a realizar experimentos inescrupulosos, bandidos a saquear casas, espiões a roubar documentos, e por aí vai... Muita gente tem andado por nossas ruas levantando bandeiras que não sabem exatamente de onde saíram nem aonde querem ir. De fato, não conto com a astúcia dessas pessoas.
Enfim, fica o recado: "Chapolins" de todo o Brasil, fiquem atentos e usem melhor suas anteninhas de vinil para detectar a presença do inimigo - e não colabore com ele!
sexta-feira, 3 de maio de 2013
A História segundo Chaves e Prof. Girafales
"O Professor Girafales nos contou que a História começou a ser escrita há milhões de anos. Ou seja: já tiveram tempo suficiente para acabar de escrevê-la, não? Porque, nesse ritmo, não vão acabar nunca.
Depois escreveu uma coisa no quadro e mandou que a gente copiasse. Foi isso que eu copiei:
'Devemos estudar História sem gerar sentimentos de ódio; sem espírito de vingança. Não para piorar as coisas, e sim para melhorá-las. Em uma palavra: com Amor.'
E como não entendemos muito bem o que ele queria dizer, depois nos explicou que há livros e professores que, com suas lições de história, o que fazem é nos ensinar a odiar o próximo. Por exemplo: os espanhóis, por terem conquistado o México; os americanos, por terem ficado com a metade do território mexicano; os franceses, por terem nos imposto um imperador que não era daqui etc. Mas isso é muito ruim. Não devemos odiar ninguém.
E, menos ainda, odiar uma pessoa pelo que seus antepassados fizeram de errado. Por exemplo: sabe-se que entre os espanhóis que conquistaram os mexicanos havia de tudo: maus, regulares e bons. Os maus levaram todo o ouro e toda a prata que podiam, além de terem maltratado os índios, que tinham de fugir escondendo-se na mata virgem (aliás, o professor explicou que se chama 'mata virgem' aquela em que o Homem não entrou. Ou seja: depois que chegaram os espanhóis, nem a mata ficou virgem). Mas os bons, por outro lado, defendiam os índios e lhes ensinavam a fazer coisas úteis. Os melhores eram os missionários, que, além de tudo, ensinavam aos índios o que fazer pra manter a alma limpa (os índios, por sua vez, ensinavam aos espanhóis o que fazer pra manter o corpo limpo).
Mas ainda que levássemos em conta só os maus, os espanhóis de hoje não são mais aqueles que nos conquistaram. Portanto, não devemos odiar alguém pelo que seus antepassados fizeram. Ou seja: é como se o Quico se odiasse porque seus pais o fizeram tão feio.
Depois o Professor Girafales nos disse que também não devemos odiar os americanos (que continuam sendo os gringos) por terem tirado a metade do território do México (aliás, Seu Madruga contou que tiraram a melhor parte, ou seja, onde estão as melhores estradas e tudo o mais). Porque o professor disse que não foi culpa só deles, mas também de muitos mexicanos que preferiam lutar entre si a se defender deles. E isso está errado, porque, se entram na sua casa pra roubar, o mais importante é se defender dos ladrões, antes de brigar com seus irmãos.
E, de qualquer jeito, acho que aqueles gringos também não são os mesmos de hoje. Ou seja: é pra rezar e pedir a Deus que os de hoje não sejam piores do que aqueles.
Depois o professor nos explicou a história do imperador que os franceses puseram no México: chamava-se Maximiliano, mas o mais curioso é que não era francês, e sim australiano*. E dizem que ele nasceu na ambulância**, porque era da família dos Absurdos***. Aí, Godines disse que, por outro lado, quem fora francês era Pancho Villa, mas o professor lhe perguntou de onde ele tinha tirado a ideia de que Pancho Villa era francês, e Godines disse que era Francês-co Villa.
Depois a Chiquinha perguntou o seguinte: se Maximiliano não era francês, por que se dizia que era uma invasão dos franceses? E o professor respondeu que quem enviara Maximiliano havia sido o imperador da França, que se chamava Napoleão. Aí a Chiquinha disse que esse ela conhecia, pois tinha ficado muito famoso pela sua pobreza. Mas o professor disse que não, que Napoleão não tinha sido pobre, e a Chiquinha respondeu:
-Mas eu vi que ele andava com uma mão na frente e outra atrás! - (E disse isso rindo, sabe-se lá por quê). E o Professor Girafales lhe disse que em primeiro lugar, ela estava falando de Napoleão Primeiro (e escreveu assim: Napoleão I), e que ele estava se referindo a Napoleão Terceiro (e escreveu assim: Napoleão III). Aí perguntei se não eram a mesma pessoa. E o professor me disse que não. Como é que o primeiro podia ser o mesmo que o terceiro? É que eu achava que eram a mesma pessoa, só que iam colocando tracinhos conforme ele fazia aniversário.
Aí o professor deu um suspiro e pediu que tornássemos a copiar o que estava no quadro.
E, portanto, tornei a copiar:
'Devemos estudar História sem gerar sentimentos de ódio; sem espírito de vingança. Não para piorar as coisas, e sim para melhorá-las. Em uma palavra: com Amor.'"
-------
* É óbvio que o Chaves ouviu mal quando o professor disse 'austríaco' (N. do A.).
** O professor deve ter dito que Maximiliano nasceu na "opulência" (N. do A.).
*** Não há dúvida: o professor só pode ter dito "Habsburgos" (N. do A.).
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Chapolim Colorado no reino de Clio
A princípio, me parece que as aventuras do Chapolim Colorado constituem um universo ainda mais rico para a pesquisa do historiador, por diversos motivos. Como meus movimentos são friamente calculados, explorarei apenas alguns deles.
Uma possibilidade bastante instigante é utilizar os episódios "históricos" de Chapolim para estudar História e Memória na cultura popular. Afinal de contas, como sabemos, Chapolim é um grande contador de histórias, tendo já narrado as façanhas de Cristóvão Colombo, Leonardo da Vinci, Júlio César, entre muitos outros. Aliás, não podemos esquecer que geralmente essas histórias não são narradas isoladamente. Pelo contrário, os relatos de Chapolim são sempre feitos em função dos problemas vivenciados por algum personagem, geralmente desempenhando uma utilidade exemplar, numa perspectiva de "historia magistra vitae", o que por si só já daria um interessante estudo sobre os usos da História na cultura contemporânea. Também não podemos esquecer das inexplicadas viagens no tempo realizadas pelo Vermelhinho, que permitiriam abordagem semelhante, caso de suas aventuras no Velho Oeste, entre piratas, etc.
Além desses episódios "históricos" não podemos esquecer dos literários, que trazem versões chapolinescas de clássicos da literatura como Fausto, "Juleu e Romieta", Pigmaleão, etc. Esses episódios me parecem muito instigantes como fontes para o estudo das relações entre cultura popular e erudita, fornecendo material para Chartier nenhum botar defeito!
Por outro lado, existem outros aspectos instigantes a investigar, como os inúmeros episódios de Chapolim que fornecem alguma representação de situações contemporâneas à época de produção do seriado, especialmente da Guerra Fria, notadamente das corridas armamentista e espacial, como é o caso dos episódios com tramas de espionagem, viagens espaciais, ou armamentos e inventos mirabolantes, como o "extrato de energia volatium" ou o "debilizador potencial". Mas... "Palma, palma, não priemos cânico"! É importante lembrar que essas alusões ao contexto coetâneo nunca são diretas e explícitas, o que, na verdade, só torna seu estudo ainda mais interessante. Além disso, as referências são sempre distorcidas, exageradas, como convém à linguagem humorística, obviamente. Contudo, o que tornaria mais rica essa análise é justamente o caráter periférico de Chapolim, como produção mexicana, oferecendo uma perspectiva diferente do que podemos encontrar num filme de James Bond, por exemplo.
Nesse sentido convém destacar talvez a possibilidade de pesquisa mais significativa em torno do Chapolim. Não podemos esquecer que "El Chapulin Colorado" é um super-herói, notadamente um super-herói latino; por sinal, o único bem sucedido comercialmente, o que diz muita coisa. Afinal de contas, as aventuras de super-heróis são um gênero tipicamente ianque que não costuma encontrar muito sucesso em produções estrangeiras, apesar do evidente sucesso do material exportado dos EUA, como as bilheterias de cinema da última década comprovam fartamente. Uma análise detalhada da figura do Chapolim, de seus poderes, equipamentos, vilões, tramas e valores pode ser muito enriquecedora em termos da reflexão sobre as identidades na América Latina, sobre o modo como nós latino-americanos nos vemos, de que maneira o Chapolim simboliza nosso papel no mundo, etc. Afinal de contas, o papel dos super-heróis é justamente encarnar valores, como estão aí para comprovar Superman ou Capitão América. Por sinal, uma pesquisa como essa deveria necessariamente discutir outra curiosa figura, o Super Sam, "Oh, yeah"! O cotejo entre o Polegar Vermelho e sua contraparte ianque certamente daria oportunidade a reveladoras análises.
Esses dois posts foram apenas uma breve aproximação ao tema. Há muito a se aprofundar e pretendo explorar melhor o universo CH sob as luzes de Clio em outras ocasiões. Aliás, fica a dica para quem se interessar pelo tema; há um vastíssimo território por descobrir! "Não contavam com minha astúcia! Sigam-me os bons"!
domingo, 9 de outubro de 2011
Chaves & Chapolim - Objeto de estudo da História Cultural
Mas voltemos ao tema do post. Ultimamente têm sido publicados alguns livros sobre Chaves. Embora curiosos, a meu ver apenas um tem valor acadêmico apreciável, "Foi sem querer querendo", de Luís Joly, Fernando Thuler e Paulo Franco, fruto de uma pós-graduação em Comunicação Social. Na área de História, nada. Pretendo aqui ventilar algumas sugestões sobre como Chaves e Chapolim podem proporcionar vasto campo de estudos, sendo riquíssimas fontes primárias. Na verdade, Chapolim ficará para outra ocasião, pois há muito, muitíssimo a se falar. "Pois é, pois é, pois é"!
O universo de Chaves é um esplêndido microcosmo que representa de forma estilizada, distorcida e refratada uma complexa constelação de relações muito comuns nas grandes cidades latinoamericanas. De fato, a vila do Chaves é muito interessante pelas dinâmicas relacionais que apresenta, carregadas de tensão e ambiguidade.
Uma das relações que mais me fascina na série é aquela mantida entre Seu Madruga e Prof. Girafales, magistralmente sintetizada no famoso discurso de apresentação da peça das crianças no Festival da Boa Vizinhança, onde Girafales fala sobre Seu Madruga com uma fabulosa mistura de menosprezo, complacência e, talvez, uma ponta de inveja (vide citação nos comentários do post). Os diálogos entre os dois personagens são frequentemente marcados por certa reverência de Seu Madruga ao conhecimento e posição social do professor, apesar de certo desrespeito latente e dissimulado; por outro lado, é nítida a atitude de superioridade de Prof. Girafales, sem falar de seu ostensivo e explícito desprezo por Madruga, mal disfarçado pelas regras de civilidade. No entanto, essa relação tem seu reverso, e muitas vezes, sempre reticente e encabulado, Girafales recorre aos conselhos de Madruga, que diz ser um homem "mais vivido". A relação entre os personagens se baseia toda nas distâncias culturais, no abismo a separar cultura oral e letrada, instrução formal e aprendizado empírico, erudição e malandragem. De fato, sua inserção no mundo do trabalho diz muito: um é o funcionário público especializado e qualificado, o outro o biscateiro faz-tudo, sem emprego ou renda fixa, devendo seus famigerados 14 meses de aluguel... Um episódio onde essas distâncias culturais são exploradas de modo muito interessante é aquele onde os dois ensinam Chaves e Quico a "violar tocão"; as diferentes posturas e métodos dos dois em suas aulas mostram atitudes diversas em relação à cultura musical.
Outra relação interessante é a de Chaves e Seu Barriga, onde a tônica dominante é a benevolência do dono da vila em relação ao menino de rua. Sem dúvida, esta tem muito de ideológico. Barriga é um homem rico, que vive de rendas, mas ao mesmo tempo é bonachão e sempre que possível ajuda Chaves de alguma forma. Além disso, tolera estoicamente os meses de aluguel atrasado de Seu Madruga sem despejá-lo. Essas relações exploram as ambiguidades das relações de classe na América Latina de modo igualmente ambíguo. Nesse sentido é bom lembrar que todos se compadecem da condição miserável de Chaves, muitas vezes fazem algo para mitigar suas necessidades, mas jamais algo definitivo. Por sinal, Dona Florinda o emprega em seu restaurante, mas como trabalhador informal, não fosse a valorosa atuação da União dos Trabalhadores Pró-Juventude, da Associação Pró-Direitos Femininos e do Diretório Nacional dos Veteranos em Restaurantes (os outros significados para as siglas dessas respeitáveis instituições vocês já conhecem); aliás, no fim das contas, não é Chaves que conquista seus direitos, mas Dona Florinda, conscientizada, que os concede, de cima para baixo. Soa familiar, hermanitos?
Há muitas, muitas outras possibilidades a explorar, mas por hoje é só. "Sigam-me os bons"!
%2015.45.47_47086eba.jpg)
%2015.46.31_704fe7dd.jpg)
%2021.09.33_16d72ee2.jpg)
%2015.03.54_0ac6dc69.jpg)
%2022.44.22_4b030048.jpg)
%2023.25.30_b27a7693.jpg)
%2010.04.52_1a94d240.jpg)
%2010.09.58_41241258.jpg)
%2021.51.28_6c858fee.jpg)
%2022.28.48_f9f5cb04.jpg)
%2007.05.26_ea02afd9.jpg)
%2012.26.00_95dd8f9d.jpg)
%2012.51.57_6b2602c7.jpg)

















