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domingo, 30 de julho de 2023

Acolhendo a paz

"Eu achava que a gente ficava em paz indo até ela, quando na verdade as coisas que dão significado pra gente acabam trazendo essa paz".

Tiago Peixoto

sábado, 17 de junho de 2023

"One measure of a civilised society is the freedom and cheapness with which it encourages ideas to be communicated"

Ian McKellen

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Escola em disputa

Reflexão certeira do Prof. Vinicius Borges

Esquerda e direita no Brasil estão se especializando em usar a escola como um "campo de luta" onde tudo é mais importante do que a escola e os que nela trabalham e estudam.

sábado, 25 de fevereiro de 2023

"Me pergunto se, a pretexto de odiarmos ideias, não acabamos por desprezar pessoas - principalmente as que nem sabemos que existem”.

Rodrigo Watzl

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

"C'est pour cela que je suis née"

"Je ne crains pas les gens de guerre, car j’ai mon chemin tout aplani; et, s’il se rencontre des hommes d’armes, j’ai Dieu, mon Seigneur, qui saura bien me frayer la route pour aller jusqu’à messire le dauphin. Car c'est pour cela que je suis née".

Atribuído a Joana d'Arc




segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Bolsonaro perdeu - E agora?

A derrota de Bolsonaro é algo a comemorar, mas superestimá-la significa um grave erro. Convém agora abandonar quaisquer delírios triunfalistas e encarar as duras realidades. Grandes desafios se anunciam para os próximos dias, semanas, meses e anos.

Tudo indica que teremos dois meses de turbulenta transição até a posse de Lula.

Bolsonaro foi derrotado, mas o "neo-lacerdismo" que ele cavalgou continua vivo e perigoso. As eleições para o poder Legislativo foram uma tragédia, com destaque para o Senado. O mesmo pode ser dito de inúmeros governadores eleitos ou reeleitos.

Nunca é demais lembrar que Bolsonaro foi derrotado por um triz e a troca de presidente, por si, não sanará os problemas que a presente gestão nos trouxe, com sua sanha autoritária, flagrante desrespeito à Constituição e menosprezo pelas instituições democráticas.

Com ou sem Bolsonaro, o antipetismo seguirá sendo uma força social relevante e o clima de polarização sociopolítica pode se agravar, se não formos vigilantes. Nosso maior desafio para os próximos quatro anos é desarmar essa bomba. Isso requer abrir mão de certo senso de superioridade moral que parte da esquerda há muito cultiva.

Precisamos entender, com a máxima clareza, que os eleitores de Bolsonaro são nossos concidadãos, e não nossos inimigos. 

É chegado o momento de baixar armas, construir pontes e buscar novas vias de diálogo com esses milhões de brasileiros que pensam de modo diferente de nós. Me recuso a acreditar que todos os eleitores de Bolsonaro sejam racistas, misóginos e homofóbicos com inclinações fascistóides. Suponho que boa parte deles votou mais contra Lula que a favor de Bolsonaro. Uma parcela desse eleitorado certamente adere completamente ao discurso odiento de Jair Messias Bolsonaro, mas quero crer que sejam uma minoria. Tendo a concordar com a lúcida fala do rapper Mano Brown em 2018:

Não consigo acreditar que pessoas que me tratavam com tanto carinho, que me respeitavam, me amavam, me serviam café, atendiam meu filho no hospital, se transformaram em monstros. Não posso acreditar nisso. Essas pessoas não são tão más assim. Se em algum momento a comunicação do pessoal aqui falhou, vai pagar o preço. Se não conseguir falar a língua do povo vai perder mesmo. Falar bem do PT pra torcida do PT é fácil. Tem uma multidão que não está aqui que precisa ser conquistada ou vamos cair no precipício. Errou, vai ter que pagar mesmo. Não gosto de clima de festa. O que mata a gente é a cegueira. Deixou de entender o povão já era.

O medo paranoico de coisas como a instauração de um regime comunista ou da "cristofobia" (para ficar apenas com alguns exemplos) não corresponde a objetos reais, mas é uma realidade subjetiva para aqueles que o vivenciam. Atacar essas pessoas ou rotulá-las de modo pejorativo só tende a reforçar e confirmar essas paranoias - justamente o oposto do que necessitamos.

O desejo de revidar é certamente forte, mas devemos resistir a ele com todas nossas forças. Precisamos cultivar a paciência necessária para ouvir o que cada um tem a dizer (por desagradável que nos pareça) e responder com serenidade - não com a pretensão de convencer ou converter ninguém, mas simplesmente de reduzir o terrível nível de tensão social que tanto tem intoxicado as relações sociais nas mais diferentes esferas de convívio. 

A democracia não existe sem diálogo com o diferente e sem a busca de pontos de interesse comum que permitam a coexistência pacífica entre os cidadãos. A polarização que vem solapando nossa democracia se alimenta do ódio, da discórdia e da desconfiança; o primeiro lugar em que devemos buscar extinguir essas emoções é dentro de nós mesmos. Pouco adianta afirmar o triunfo do amor se estivermos, nós mesmos, repletos de ódio.

Como disseram algumas pessoas, "derrotamos Bolsonaro, agora precisamos derrotar o bolsonarismo" - e a única ferramenta para isso é cuidar das feridas que trazemos. Não se apaga um incêndio com gasolina, nem se cultiva a paz com palavras rancorosas. Ofensas, zombaria e menosprezo nunca cativaram ninguém.

Precisamos entender que estamos todos em um mesmo barco chamado República Federativa do Brasil, um barco que atravessa uma tempestade e cujo naufrágio só pode ser evitado se houver entendimento entre seus tripulantes.

Precisamos restaurar e reconstruir, laboriosamente, tudo que foi arruinado nesses últimos anos. Não existe caminho para superar nossos problemas coletivos sem passar pela reconciliação. Nesse sentido, um grande exemplo para nós deve ser Nelson Mandela que evitou cuidadosamente tomar atitudes revanchistas após a abolição do apartheid na África do Sul, contribuindo para a superação de uma terrível divisão histórica, marcada pela mais brutal segregação.

Vale sempre lembrar as palavras de uma das maiores lideranças políticas do século XX, Martin Luther King, que também entendia muito sobre o poder do rancor e a importância da reconciliação:

Ódio e amargura nunca podem curar a doença do medo; só o amor o pode fazer. O ódio paralisa a vida; o amor a liberta. O ódio confunde a vida; o amor a harmoniza. O ódio escurece a vida. O amor a ilumina.

Convém ressaltar que, para Luther King, o "amor" não era questão de sentimentalismo piegas, mas sim de uma atitude desafiadora, de uma radical abertura ao outro, com suas contradições, mesmo as mais abomináveis:

É muito difícil gostar de algumas pessoas. O gostar é controlado pelo sentimento e é muito difícil gostar de alguém que bombardeia sua casa; é muito difícil gostar de alguém que ameaça seus filhos; é difícil gostar de congressistas que passam todo o seu tempo tentando derrotar os direitos civis. Mas Jesus nos diz para amá-los, e amar é mais sublime que gostar.

Muitos de nós passaram os últimos meses afirmando que o amor venceria o ódio; mas esse não é o tipo de vitória que se alcança e conquista nas urnas, como em um passe de mágica. Para que o amor realmente vença o ódio, precisamos promover essa vitória dentro de nós mesmos e fazer com que ela alcance aqueles que estão ao nosso redor em nossa vida cotidiana - caso contrário, o ódio permanecerá vitorioso sobre o amor, e tudo não terá passado de um slogan eleitoral vazio como tantos outros.



quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Via Expressa para a Danação Eterna

"Se o pastor ou padre da sua 'igreja' te dizem que 'você vai para o inferno' se não votar em que eles querem, antecipe-se: mande o padre, o pastor e a 'igreja' pro inferno".

Rodrigo Watzl

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Pobre gente rica

"Quem nasce na elite brasileira só tem dinheiro; e quem só tem isso vive na mais pavorosa miséria".

Rodrigo Watzl

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

"Nada mais capitalista do que ganhar a qualquer custo"

Reflexão de um amigo que generosamente oferece sua voz a muitos através do anonimato

O mundo é muito doido. Vejo gente tentando combater bolsonaristas no Twitter, no Facebook... Enfim, na Internet. Luta, gasta energia com alguém que não conhece e que vive pela frustração e não nota que o pai, a mãe e o tio votaram no Bolsonaro. Muitas vezes essa galera só quer ser ouvida porque está com medo. 

Aqui em casa é um exemplo. O meu pai adorava o Lula e, depois de tudo que aconteceu no governo e no pós Dilma, pegou uma antipatia pelo PT. 

A conversa é constante e nunca tem um ponto final. 

Ele votou no Ciro e, se eu fosse seguir o modus operandi da Internet, já tinha a frase feita "Você está contribuindo para o fascismo". Depois do resultado ele veio com uns dados sobre o Bolsonaro e depois de alguma conversa veio a frase: "Eu voto no Lula, fica tranquilo". 

Ainda não é o suficiente porque estava fazendo por mim e não por ele. É necessário paciência e sou da opinião que primeiro é necessário arrumar a própria casa. 

Só que aí ficam as perguntas:

Por quanto tempo teremos que elucidar, explicar ou até mesmo justificar o voto no Lula?

Um novo nome ou uma nova linha é arriscado demais? 

É um risco necessário para a mudança?

Aproveito este momento para fazer um desabafo que me é muito caro.

No começo fui um dos que tive medo. A minha família é simples, tradicional. Vivi sem Internet e depois de um certo tempo no novo mundo o medo tomava conta de mim ao frequentar tudo que cercava a cultura Pop. 

Comecei a ser chamado de estuprador, racista e homofóbico pelo simples fato de existir. 

Isso me deu medo, mas o aprofundar na cultura e a procura por mentes que ensinavam através da calma e não da culpa me fizerem entender como as minorias precisam de ajuda porque nunca tiveram espaço ou incentivo. Todo este conhecimento era para ser usado nas eleições e a frustração amarga era engolida a seco. Era até a construção deste texto onde me permito confessar.

Em posição de destaque não vejo candidatos negros, LGBT ou que moram atualmente nas periferias. Para eles são dados poucos segundos. Há exceções, mas a exceção não basta. Nem como vice existe qualquer resquício da representatividade. 

A todos vocês, meu amigos desabafo:

Sinto que as leituras, o escrever e o conversar sobre a cultura é em vão, se esvai.

Ao ver mais uma eleição, sinto a voz de um ser sedento pelo poder dizer:

"Temos que ganhar! Vamos ganhar a qualquer custo e depois vamos pensar em representatividade. Depois vamos dar um jeito, depois será mais fácil, depois de tirar o burguês (Aécio), depois de tirar o fascista (Bolsonaro), depois, depois...depois". 

Nada mais capitalista do que ganhar a qualquer custo.

Se eu estiver errado, por favor, me corrijam. Posso ser um maluco, mas são tempos malucos. 

Se tivesse um preto, pobre, gay e cheio de verdade em vez de promessa, seria diferente? Se ele fosse apoiado com o mesmo entusiasmo dado ao Lula, seria diferente? 

Acho que estou sonhando demais...

A verdadeira ameaça

Petardo de um escritor pesaroso

Eu não gosto do Lula não. Muito pelo contrário. Votei nele sem nenhuma vontade, unicamente porque preferiria que a eleição tivesse acabado anteontem.

O Bolsonaro é alguém que me provoca nojo, desprezo e horror. 

Não tem nenhum apreço pelas instituições republicanas e, à reboque disso ameaça a democracia, propaga mentiras que mataram muita gente (“viva a cloroquina, abaixo a vacina”), incentivou a imunidade de rebanho por contágio (que não produziu imunidade, mas matou muita gente e ajudou o vírus a mudar mais). 

Também promoveu um desastre ambiental (inclusive com garimpos), desmatando florestas e esmagando populações nativas, dilapidou o patrimônio público com a venda de uma carteira de crédito do Banco do Brasil, avaliada em 3 bilhões por míseros 300 milhões. Abriu uma linha de crédito de um trilhão e duzentos bilhões de reais para bancos emprestarem dinheiro para o povo, em vez de eliminar o atravessador e fazer a mesma coisa (resultado: bancos ainda mais ricos). Fora o escândalo de precificação da vida humana com o caso das vacinas (propina de um dólar por vacinas que jamais seriam entregues), que só não foi levado a cabo por causa do trabalho da CPI da pandemia, além do aparelhamento dos órgãos de investigação para proteger familiares e a si mesmo. 

Menção especial e necessária também à montanha de incompententes que assumiram pastas ministeriais para as quais jamais estiveram e jamais estarão qualificados, envergonhando o país em todos os aspectos, inclusive perante a comunidade internacional.

Há muito mais ainda a comentar. Não houve um único dia nesses quase quatro anos em que não tivesse havido uma crise absolutamente desnecessária, alguma ridícula palhaçada ou, pior, demonstração de descaso para com a vida humana.

Mas, sobretudo, Bolsonaro me inspira nojo, desprezo e horror por enganar pessoas com essa história de “ameaça socialista” no Brasil. Pessoas provavelmente boas, como você, que o apoiam.

"O que mata a gente é a cegueira"

Polêmica e lúcida fala do rapper Mano Brown em comício de Fernando Haddad em 2018; as críticas parecem ter encontrado ouvidos moucos...


"Não consigo acreditar que pessoas que me tratavam com tanto carinho, que me respeitavam, me amavam, me serviam café, atendiam meu filho no hospital, se transformaram em monstros. Não posso acreditar nisso. Essas pessoas não são tão más assim. Se em algum momento a comunicação do pessoal aqui falhou, vai pagar o preço. Se não conseguir falar a língua do povo vai perder mesmo. Falar bem do PT pra torcida do PT é fácil. Tem uma multidão que não está aqui que precisa ser conquistada ou vamos cair no precipício. Errou, vai ter que pagar mesmo. Não gosto de clima de festa. O que mata a gente é a cegueira. Deixou de entender o povão já era. Se somos partido dos trabalhadores, partido do povo, temos que entender o que o povo quer. Se não sabe, volta pra base e vai procurar saber. Minha ideia é essa."

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Aos vencedores a vergonha

 "Prefiro me queixar de minha fortuna que me envergonhar de minha vitória".

Dito atribuído a Alexandre Magno, mencionado por Michel de Montaigne

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Brasil - A pústula e os esparadrapos

Poética constatação do historiador Ivan Silva


Caiu por terra nosso verniz de democracia e civilidade. Bolsonaro é o olho da pustula social brasileira que explodiu, apesar de encoberta sob os esparadrapos mal cheirosos de nossa trajetória histórica de desmandos e desigualdades.

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Hipocrisia, retórica e princípios

"Thomas Jefferson was a hypocrite when he penned ‘all men are created equal.’ Jefferson’s slave-owning doesn’t discredit the principles he articulated. Rather, the principles give us language with which to criticize Jefferson".

Jeet Heer - Crítico literário

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Tolstói - Religião, ciência e as imposturas do poder

 Passagens de Carta a um hindu, de Leon Tolstói (grifos meus)


Antigamente, o principal  método de justificar o uso da violência e assim infringir a lei do amor era reivindicar um direito divino para os governantes: czares, sultões, rajás, xás e outros chefes de Estado. Porém, quanto mais a humanidade vivia, mais fraca se tornava a crença nesse direito peculiar dado ao governante por Deus. Ela murchou da mesma maneira e quase simultaneamente no mundo cristão e no brâmane, assim como nas esferas budista e confucionista. Nos últimos tempos, ela desapareceu de tal forma que não prevalece mais contra a compreensão razoável do homem e o verdadeiro sentimento religioso. As pessoas viam cada vez mais claramente, e agora a maioria vê de maneira nítida, a falta de sentido e a imoralidade de subordinar os outros às suas vontades, quando são obrigados a fazer o que é contrário não apenas aos seus interesses, mas também ao seu senso moral. E assim, alguém poderia supor que, tendo perdido a confiança em qualquer autoridade religiosa para uma crença na divindade de potentados de vários tipos, as pessoas tentariam se libertar da sujeição a ele. Os governantes, que eram considerados seres sobrenaturais, se beneficiaram por sujeitar os indivíduos, mas infelizmente não foram os únicos beneficiários. Como resultado da crença e durante o governo desses seres pseudodivinos, grupos cada vez maiores de pessoas se uniram e se estabeleceram ao redor deles, que sob a aparência de governo tiraram vantagem do povo. Quando o velho engodo de uma autoridade sobrenatural e designada por Deus diminuiu, a única preocupação desses homens passou a ser inventar uma nova enganação que tornasse possível manter o povo em servidão a um número limitado de governantes, como fez a antecessora.

[...]

Agora, novas justificativas surgiram no lugar das antiquadas, obsoletas e religiosas. Elas são tão inadequadas quanto as antigas, mas, como são novas, a maioria dos homens não consegue reconhecer sua futilidade imediatamente. Além disso, aqueles que desfrutam do poder propagam esses novos sofismas e os apoiam com tanta habilidade que eles parecem irrefutáveis, até mesmo para muitos que sofrem com a opressão que essas teorias procuram explicar. Essas novas justificativas são chamadas de "científicas", mas pelo termo "científico" entende-se exatamente o que antes era conhecido como "religioso", era considerado inquestionável simplesmente porque era chamado assim, agora tudo que é denominado "científico" é acatado de maneira inconstestável. A justificativa religiosa obsoleta da violência consistiu no reconhecimento da personalidade sobrenatural do governante ordenado por Deus ("não há poder senão o de Deus"). Isso foi substituído pela justificativa "científica".


Em primeiro lugar, a "ciência" apresenta a afirmação de que, como a coerção do homem pelo homem tem existido em todas as épocas, é uma consequência de que ela deva continuar a existir. Essa afirmação de que as pessoas devem continuar a viver como nas eras passadas, e não como sua razão e consciência indicam, é o que a "ciência" chama de "lei histórica".


A segunda justificativa "científica" está na afirmação de que, como há uma luta de constante pela existência entre plantas e animais selvagens que sempre resulta na sobrevivência do mais apto, uma disputa semelhante deve ser realizada entre os seres humanos. Isso apesar do fato de que os humanos são dotados de inteligência e amor, capacidades que faltam em criaturas inferiores, sujeitas à luta pela existência e sobrevivência das mais qualificadas.


A terceira, mais importante e, infelizmente, a mais difundida justificativa é apenas uma pequena alteração da desculpa religiosa milenar: na vida pública, a supressão de alguns para a proteção da maioria não pode ser evitada. Isso torna inevitável a coerção, por mais desejável que seja apenas a confiança no amor nas relações humanas. A única diferença nessa justificação pela pseudociência consiste no fato de que ela agora dá uma resposta distinta daquela dada pela religião ao porquê de algumas pessoas não terem o direito de decidir contra quem a violência pode e deve ser usada. A religião declarou que o direito de decidir era válido porque as pessoas detentoras do poder divino o pronunciavam. A "ciência" afirma que essas decisões representam a vontade do povo, que, sob uma forma constitucional de governo, deve encontrar expressão em todas as decisões e ações daqueles que estão no comando no momento.


Tais são as justificativas científicas do princípio da coerção. Elas não são apenas fracas, mas absolutamente inválidas, e ainda assim são tão necessárias para aqueles que ocupam posições privilegiadas que acreditam nelas tão cegamente como antes acreditavam na Imaculada Concepção, e as propagam com a mesma confiança. E a infeliz maioria dos homens está tão deslumbrada com a pompa com a qual essas "verdades científicas" são apresentadas que, sob essa nova influência, aceita essas idiotices científicas como verdade sagrada, assim como anteriormente aceitava as justificativas pseudorreligiosas. E essa infeliz maioria continua a se submeter aos atuais detentores do poder, que são tão crueis, mas agora mais numerosos do que antes.


Deckard e Batty - para os poderosos, caçando ou caçados, somos todos "replicantes"; toda desobediência precisa ser punida.


quarta-feira, 6 de abril de 2022

Montruosidades Messiânicas

 "Eu vi seu carisma.

Ele o perdeu.

Esfacelou-se diante de todos.

Esse é o problema em criar monstros.

O controle é difícil.

O importante é as pessoas nunca sentirem medo ou fraqueza em você.

Isso é um erro fatal.

Se fraquejar, elas se voltam contra você.

Monstros exigem que seus messias sejam fortes.

Eles detestam ser enganados".

Jim Starlin (em Batman - O Messias - no original, The Cult)


Diácono Blackfire, o "messias", incitando seus seguidores à violência.


quarta-feira, 9 de março de 2022

O pecado de pensar

 "Com a justiça dos anjos e dos santos, nós excomungamos, excluímos, maldizemos e anatematizamos Baruch de Espinosa. [...] Que ele seja maldito de dia e maldito de noite. Que ele seja maldito no sono e maldito na vigília. Que ele seja maldito fora e maldito por dentro. Que o Senhor não perdoe. Que a cólera e a fúria do Senhor caiam de agora em diante sobre este homem e derramem sobre ele todas as maldições escritas no livro da Lei. Que o Senhor destrua seu nome sob o sol".


Trecho do ato solene de banimento por heresia do filósofo Baruch Spinoza, pelos anciãos da sinagoga de Amsterdã em 27 de julhos de 1656 (citado por Frédéric Lenoir em Sobre a felicidade - Uma viagem filosófica).




domingo, 27 de fevereiro de 2022

"There is no propaganda as potent or powerful as war propaganda. It seems that one must have lived through it at least once, as an engaged adult, to understand how it functions, how it manipulates and distorts, and how one can resist being consumed by it".

Glenn Greenwald

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Gandhi e a Democracia nos EUA

Trecho de resposta de Gandhi a um americano, publicada no jornal Harijan, em 18 de maio de 1940

Minha noção de democracia é que, sob ela, os mais fracos devem ter a mesma proteção que os mais fortes. Isso não pode acontecer jamais a não ser através da não violência. Atualmente, nenhum país no mundo mostra uma consideração condescendente com os vulneráveis. O mais fraco, como é dito, vai para o paredão. Observe o seu próprio caso: sua terra pertence a alguns proprietários capitalistas. O mesmo se aplica à África do Sul. Essas grandes propriedades só podem ser sustentadas pela violência velada, ou até mesmo aberta. A democracia ocidental, como funciona hoje, é diluída no nazismo ou no fascismo. Na melhor das hipóteses, é apenas uma capa para esconder as tendências nazistas e fascistas do imperialismo. Por que existe a guerra hoje, se não para a satisfação do desejo de compartilhar os despojos? Não foi através de métodos democráticos que a Grã-Bretanha colonizou a Índia. Qual é o significado da democracia sul-africana? Sua própria Constituição foi elaborada para proteger o homem branco contra o homem negro, o ocupante natural. Sua própria história é talvez ainda mais sombria, apesar do que os estados do Norte fizeram pela abolição da escravidão. A maneira como vocês têm tratado os negros apresenta um registro desonroso. E é para salvar essas democracias que a guerra [II Guerra Mundial] vem sendo travada. Há algo muito hipócrita nisso.
Exemplo de segregação racial institucionalizada no sul dos EUA através das chamadas "Leis Jim Crow".