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Mostrando postagens com marcador Sexualidade. Mostrar todas as postagens
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segunda-feira, 29 de junho de 2020

Chaves, Café e Erotismo


No primoroso livro "O diário do Chaves", Roberto Goméz-Bolaños faz insinuações bem sugestivas sobre as famosas "xícaras de café" na casa 14 da vila. O menino Chaves, narrando em primeira pessoa, se pergunta ingenuamente o que Prof. Girafales e Dona Florinda passavam tanto tempo fazendo sozinhos lá dentro. 

No próprio seriado há um episódio em que o  Professor entra na casa de Dona Florinda e logo manda Quico desligar a TV e ir brincar na vila. O garoto protesta, mas a mãe diz que ela e Girafales precisavam "descansar"...

Eu era adulto quando li "O diário do Chaves" e confesso que fiquei um tanto... abalado. Especialmente porque a obra é do próprio Bolaños, então parece que a coisa sempre foi proposital, mais que uma insinuação tardia. Talvez uma piada para os adultos, inclusive porque no México não era um programa propriamente infantil; era transmitido pela Televisa para uma audiência ampla, nas noites de sábado. 

Chaves e Chapolim foram televisionados como programas "infantis" no Brasil, por opção do SBT. No entanto, inúmeros episódios possuem insinuações de caráter sexual, geralmente sutis. Há discretas referências a pornografia (as tais revistas do Seu Madruga), homossexualidade (especialmente no episódio em que vários personagens suspeitam de envolvimento homoerotico entre Seu Madruga e Prof. Girafales) e até a sadomasoquismo (o beliscão acidental de Prof. Girafales na "Bruxa do 71").

Minha geração era criança e cresceu vendo tudo com o mesmo olhar inocente. Mas imaginar que enquanto as coisas se passavam no pátio da vila havia gente (figurativamente) "haciendo amor" nos bastidores... Perturbador.

Nos choca perceber tardiamente que a relação entre Girafales e Florinda fosse além dos platônicos buquês de flores e xícaras de café...

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Gandhi era um misógino pervertido?

Volta e meia surgem acusações polêmicas, sensacionalistas e pouco fundamentadas em torno da interessantíssima figura de Mohandas Karamchand "Mahatma" Gandhi (1869-1848). Algumas delas são sobre racismo (tema que não será tratado aqui) e outras o qualificam como misógino, pervertido, abusador de mulheres em seus polêmicos "testes de castidade", praticante de violência doméstica, entre outras menções pouco edificantes. Os exemplares dessas correntes polêmicas são inúmeros, como essa superficial e tendenciosa resenha do autobiográfico Minha vida e minhas experiências com a verdade; ou esta sensacionalista matéria sobre o legado de misoginia deixado por Gandhi, que atormentaria ainda hoje as mulheres indianas; ou ainda esse texto que pinta Gandhi como um verdadeiro bicho-papão e circula na Internet há alguns anos, respondido por uma crítica interessante, mas que não dá conta de todo o assunto.

Curiosamente, a maior parte dos (supostos) "podres" de Gandhi foi exposta por ele mesmo em seus escritos públicos. De resto, muitas atitudes dele podem soar hipócritas para nós, ocidentais, mas possuem um contexto na mística Brahmacharya, que ele seguia. Existem muitos aspectos complexos, contraditórios e paradoxais na vida de Gandhi, e ele mesmo nunca fez questão de escondê-los, mas esses aspectos volta e meia são usados em polêmicas sensacionalistas e maniqueístas cujos objetivos são mais de difamar sua imagem e seus pensamentos que de compreender o homem Gandhi em toda sua fascinante complexidade. Estudo profundamente a trajetória de Gandhi há quase 20 anos e já li um bocado sobre o assunto; o presente texto é uma tentativa de alinhavar uma análise crítica, mas generosa, sobre o personagem.
Geralmente pensamos em Gandhi apenas a partir de sua queda de braço com o Império Britânico, mas ele também foi um profundo crítico da Índia de seu tempo - o que já dá muito que pensar. Foi a figura mais visível a combater o sistema de castas (isso não é pouca coisa), teve uma preocupação vital e visceral em garantir a integração dos párias à sociedade, foi um severo crítico da miséria em que a maior parte da população da Índia vivia, explorada pelas próprias elites indianas. 

Gandhi incomodou muita gente - britânicos e indianos, hindus e muçulmanos e por aí vai. Ele nunca foi uma unanimidade, mas provavelmente ele era a rainha no lado indiano do xadrez (para desagrado de muitos de seu próprio "lado"). 

Acho triste o modo como muita gente, por agendas ideológicas variadas ou por puro deleite iconoclasta, tenta diminuir e depreciar a figura de Gandhi. Mas isso faz parte do jogo de extremos com que sua figura foi historicamente construída: parece que só conseguimos pensar em Gandhi enquanto um santo imaculado ou o mais sórdido dos pecadores - ele mesmo, como escreveu muitas vezes, sabia que não era nem uma coisa, nem outra. O apelido de "Mahatma", "Grande Alma", o incomodava profundamente, por conhecer seus próprios defeitos.

Já em 1949 o célebre escritor Geroge Orwell publicou um hoje clássico texto sobre Gandhi, onde o tratava de maneira crítica, mas extremamente respeitosa e equilibrada. Ainda hoje, escrever sobre o pitoresco personagem indiano de maneira ponderada é uma tarefa difícil para historiadores e biógrafos.

Começando pelas acusações de violência doméstica, nunca vi nenhum biógrafo sério mencionando isso. Gandhi e Kasturba casaram muito cedo, num matrimônio arranjado. Ele tinha 13 anos e ela era ainda mais nova. Eles brigavam literalmente por causa de brinquedos (dizem). De qualquer forma, o próprio Gandhi, em seus escritos autobiográficos, sempre profundamente autocríticos, reconhece que era um marido imaturo e mesquinho nos primeiros anos de matrimônio. Em todo caso, a afirmação de que ele batia na esposa carece de fundamentos historiográficos, até onde vão meus conhecimentos.

Quanto à misoginia, vale lembrar que Gandhi sempre destacou a centralidade de sua mãe em sua formação moral e espiritual. Ela era uma mulher muito religiosa e devota, e deixou marcas indeléveis em sua personalidade nesse sentido. Ele tinha verdadeira veneração pela mãe, em sentido muito profundo. As palavras que escreveu sobre sua mãe dificilmente caracterizariam uma personalidade misógina. Em sentido mais amplo e genérico, em escritos públicos e privados, Gandhi falava sobre as mulheres de modo muito positivo, em sentidos inclusive espirituais. Ele considerava mesmo ter características de personalidade femininas muito desenvolvidas e afirmava que gostaria de reencarnar como mulher.

Por outro lado, a cultura hinduísta tinha (e ainda tem) posturas muito ambíguas acerca da mulher e de sua pureza, como salienta a antropóloga Mary Douglas. Cabe (ou cabia) à mulher, em grande medida, a preservação da pureza ritual de toda a família, em termos sexuais, alimentares, entre outros. Em grande medida isso estava ligado ao sistema de castas, cabendo à mulher preservar a família da contaminação de impurezas derivadas do contato com castas inferiores; esse importante papel, por outro lado, acarretava pesadas cobranças por parte da família e da sociedade, em diversos aspectos. É interessante notar aqui que Gandhi foi certamente o principal defensor, ao menos o mais visível e notório, da abolição legal do sistema de castas e isso provavelmente impactou direta e indiretamente na condição social e na vivência cotidiana das mulheres na Índia (mas aqui já estou conjecturando, nunca li nada explorando essa questão específica).

Ora, Ghandi foi educado numa cultura repleta de ambiguidades sobre a mulher e seus papeis sociais e, obviamente, algumas dessas ambiguidades se refletiriam em suas próprias posturas e atitudes pessoais. Para se ter uma ideia da complexidade do contexto em que ele nasceu e cresceu, oito anos antes de seu nascimento ainda se praticava a cremação de viúvas (vivas!) junto com seus falecidos maridos em algumas regiões da Índia. A lei permitindo um segundo casamento para viúvas datava de apenas 13 anos antes. 

Feitas todas as contas, o modo como ele se expressava acerca das mulheres era bastante "progressista" - se podemos dizer assim. Em tudo isso devemos ter sempre em mente que seus anos de formação universitária na Inglaterra e seu contato com a cultura ocidental tiveram grande importância para ele, um homem que viveu entre diversas encruzilhadas culturais e cujo pensamento e vida resultavam de uma complexa síntese entre todos esses díspares elementos. Durante seu período de estudante em terras britânicas Gandhi pôde conviver com o emergente movimento feminista.

Quanto aos polêmicos "testes de castidade" a  que o personagem se submeteu em alguns momentos de sua vida, é necessário destacar que o binômio sexualidade-castidade sempre foi complexo para Gandhi, devido a uma experiência traumática de sua juventude. 

Assim que casou (aos 13 anos, lembremos), o jovem Mohandas desenvolveu intensa compulsão sexual, um comportamento realmente obsessivo - conforme ele mesmo relata. Pouco tempo depois, seu pai caiu doente, em estado gravíssimo. Em certa noite ficou encarregado de tomar conta do pai acamado, mas no meio da madrugada sua compulsão sexual o assaltou de tal forma que, sentindo-se incapaz de resistir aos impulsos, foi para junto da jovem esposa para satisfazer seu desejo. Durante sua breve ausência, seu pai passou pela crise final e faleceu inteiramente sozinho, sem qualquer socorro. 

O jovem Gandhi, em seus 14 ou 15 anos de idade, naturalmente, se sentiu extremamente culpado, passando a partir daí a viver sua sexualidade de modo bastante conflituoso, lutando para obter controle sobre o impulso que o afastara do pai no leito de morte. Como hindu fervoroso que era, graças à influência materna, o caminho natural era que ele buscasse as respostas para sua incontinência sexual entre as possibilidades que a tradição hindu lhe oferecia - e, como se sabe, ao longo dos milênios, o hinduísmo desenvolveu diversas correntes ascéticas que, ainda hoje, exercem grande influência social.

Durante os anos seguintes, até a maturidade, Gandhi passou a desenvolver um rigoroso ascetismo alimentar - passou a simplificar cada vez mais sua alimentação (era vegetariano desde a infância), passando a evitar temperos e condimentos, reduzindo severamente sua ingestão diária de alimentos e praticando jejuns prolongados. Em certo momento, passando por uma crise depressiva, assumiu voto de silêncio, se abstendo de falar durante um dia inteiro por semana - hábito que manteve até o fim da vida. Finalmente, Gandhi fez votos de pobreza e se desfez de todos os seus bens materiais - segundo ele, as posses mundanas que mais dificultaram essa decisão foram seus preciosos livros, pois ele era dono de uma considerável biblioteca à qual se sentia muito apegado.

Um dos aspectos essenciais do ascetismo de Gandhi era ligado à noção de responsabilidade: o indivíduo precisava assumir as consequências de seus prazeres, fossem eles alimentares ou sexuais. Por exemplo, ele considerava uma atitude errada que uma pessoa se alimentasse excessivamente e depois tentasse escapar das consequências ingerindo medicamentos (nada de Engov!). 

Da mesma forma, sustentava que, estando a sexualidade diretamente ligada à procriação, o uso de métodos contraceptivos também seria uma forma de fugir das consequências da sexualidade. Vale notar que ele adotava essa conduta para si mesmo, mas não a impunha a ninguém como norma geral (embora não saibamos se sua esposa pensava da mesma forma). 

Devido a essa atitude, ele e Kasturba chegaram a ter muitos filhos (cerca de sete, se não me engano). A certa altura, ficou muito difícil equilibrar o sustento e o cuidado de uma família cada vez maior com uma vida pública que se tornava cada vez mais intensa. Para conciliar essas dificuldades, só lhe restavam duas opções: usar métodos contraceptivos (o que ia contra seus princípios) ou partir para a abstinência sexual integral (o que exigia controlar seus intensos impulsos genésicos). Sempre fiel a seus princípios, Gandhi ficou com a segunda opção, embora fosse certamente a mais difícil e a mais dolorosa para ele e para sua esposa. Muito se discute sobre essa decisão, afirmando-se que Gandhi a tomou unilateralmente, contra a vontade de Kasturba. Lendo e relendo seus escritos, não sei se é verdade; é fato que ele não enfatiza muito a participação da esposa nessa deliberação e não sei se existem registros mais precisos sobre a reação dela a essa decisão.

Mas a questão não se resume a esses aspectos pragmáticos, e fica ainda mais complexa. Em paralelo a toda essa trajetória, Gandhi, que desde criança sempre fora muito religioso e devoto, passou a desenvolver grande interesse pela experiência mística em sentido mais profundo. Durante muitos anos empreendeu intensas buscas existenciais, com leituras aprofundadas sobre Cristianismo, Islamismo, Teosofia, entre outros assuntos e vertentes religiosas. Os dois textos que desde esse momento se tornaram a base para sua vida pública e fundamento para suas concepções de Satyagraha e Ahimsa foram o Sermão do Monte e o Baghavad Gita. 

Durante esse período ele também se aproximou de diversos praticantes de correntes místicas do hinduísmo, com eles mantendo ativa correspondência. Resumindo muito, foi justamente a troca epistolar com um desses "gurus" (o qual, salienta Gandhi, era casado e não praticava abstinência sexual) que lhe despertou a ideia de que o amor matrimonial mais profundo exigiria abstinência sexual, à medida que a expectativa de retribuição e gratificação sexual emprestariam aos demais gestos de afeto, carinho e cuidado um viés interesseiro; apenas onde não houvesse expectativa de retribuição sexual o amor poderia ser plenamente espiritual e desinteressado - isso diz muito sobre como Gandhi vivenciava sua sexualidade, mas não vamos nos aprofundar nesse caminho.

Resumindo, seu trauma de juventude, sua situação familiar e suas experiências místicas acabaram conduzindo Gandhi, após muita hesitação, a fazer votos de "Brahmacharya". Normalmente traduzido como "castidade", Brahmacharya é uma noção muito antiga e passível de múltiplas interpretações e variadas práticas dentro do hinduísmo, do budismo e do jainismo. Não sou profundo entendedor do complexo assunto, e não me arrisco além dos meus limitados conhecimentos. 

Para todos os efeitos, em determinada altura da vida Gandhi se tornou um brahmachari. Os famosos e polêmicos "testes de castidade" aos quais Gandhi se submeteu em vários momentos de sua vida não eram uma maluquice ou uma esperteza tirada da sua cabeça; eles faziam parte de antigas práticas ligadas ao Brahmacharya, que já começavam a se tornar raras à época de Gandhi. 

Esses testes se davam com conhecimento público; Gandhi, como qualquer outro brahmachari, nunca os fez às escondidas, sorrateiramente. Como se sabe, o teste para o praticante da castidade consistia em passar uma noite inteira nu, deitado na companhia de uma ou mais mulheres nuas; durante essa prova, o praticante não deveria ter sequer uma ereção ou pensamentos "impuros". Vale ressaltar que as mulheres que participavam desse tipo de teste o faziam com pleno consentimento; algumas das que passaram por esse gênero de experiência com Gandhi eram casadas com amigos dele, inclusive. Enfim, me parece difícil caracterizar tal situação como "abuso sexual" ou algo semelhante.

Para nós, ocidentais, esse tipo de exercício místico pode soar como impostura ou hipocrisia, mas o fato é que existem inúmeras práticas similares, sempre com conotação sagrada, dentro do universo místico hinduísta; como bem discute Victor Turner, um dos maiores antropólogos do século XX, tais práticas "bizarras" fazem todo o sentido em seu universo cultural e religioso específico. 

Qualificar Gandhi como um pervertido aproveitador simplesmente por participar desse tipo de "teste", que não foi inventado por ele e fazia parte de um contexto cultural muito mais amplo é uma atitude etnocêntrica de nossa parte. Fato é que muitos de seus amigos e companheiros o criticaram por essas decisões e tentaram dissuadi-lo, temerosos das possíveis repercussões negativas que tais práticas poderiam atrair, arranhando a imagem de Gandhi e, por conseguinte, desacreditando o movimento político do qual fazia parte. 

Fosse como fosse, Gandhi seguiu em frente com essas práticas "exóticas", que acreditava serem necessárias a sua prática como brahmachari, sem se importar com suas eventuais consequências políticas. Tal postura, da parte de um homem que abandonou todas as suas posses materiais, que jamais hesitou em se deixar surrar violentamente sem reagir durante protestos, que passou vários anos de sua vida encarcerado e que enfrentou longos jejuns que o levaram à beira da morte pela causa da emancipação indiana, permite supor que esses "testes de castidade" eram para ele algo muito sério, um ato místico-religioso realizado com profunda sinceridade. Ao longo de sua vida ele ofereceu testemunhos muito concretos de sua seriedade diante da vida; Gandhi era o tipo de pessoa que botava seus bens, seu corpo e sua alma em jogo destemidamente.

Quanto aos resultados de tais "testes", segundo as mulheres que deles participavam, Gandhi teria conseguido se manter sexualmente impassível em todas as ocasiões. Podemos confiar no testemunho delas ou sentir-se-iam intimidadas a revelar a verdade pela projeção social do "Mahatma"? Impossível saber com absoluta certeza o que se passou efetivamente nessas noites misteriosas (que, por sinal, não foram muitas). De qualquer forma, o ônus da prova cabe a quem desconfia desses relatos - e não o contrário. Ainda que, hipoteticamente, em alguma dessas ocasiões Gandhi tenha eventualmente cedido a pensamentos "impuros", tido uma ereção ou mesmo chegado a manter intercurso sexual, ficaria provada apenas sua incapacidade de se manter impassível diante de tentações às quais a maioria dos homens sucumbiria - não significando necessariamente que ele teria agido de modo desonesto e astucioso desde o começo. 

Usar isso para desqualificar toda a trajetória de Gandhi me parece intelectualmente desonesto. Eu, particularmente, acredito que ele teria possibilidades muito mais simples de manter relações sexuais ou cometer adultério às escondidas, através de subterfúgios variados, que inventando uma elaboradíssima e arriscada desculpa místico-religiosa EM PÚBLICO. Me parece pouco verossímil imaginar um homem que se desfaz de todos os seus bens, se entrega à pobreza, entrega seu corpo aos golpes do inimigo, se deixa encarcerar para depois inventar pífias desculpas para se entregar, por umas poucas horas, aos prazeres da carne, sabendo as repercussões daninhas que isso poderia trazer à sua reputação e, ainda mais importante, à obra de toda uma vida de pungentes sacrifícios - uma obra que ele sabia ser muito maior que ele mesmo. 

Em suma, Gandhi é uma das personalidades mais complexas, paradoxais, desconcertantes e fascinantes do século XX. Quaisquer que fossem suas falhas e limitações enquanto ser humano, ele deixou um rico e importante legado de pensamento e ação para a humanidade, fundamentada numa criativa síntese de linhagens intelectuais e religiosas do mundo inteiro. O belíssimo Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos é um dos frutos nascidos de sua semeadura, como sempre destacou Martin Luther King. 

Gandhi é uma figura histórica que deveríamos avaliar com toda a generosidade, e não buscando encontrar (ou mesmo inventar) fissuras com as quais derrubar tudo que ele nos deixou.

Gandhi em um de seus inúmeros jejuns político-religiosos, com que tantas vezes desafiou as autoridades britânicas ou apaziguou os ânimos dos indianos excessivamente revoltados.

quinta-feira, 31 de março de 2016

O véu, a nudez e o erotismo



Foto muito interessante, para além de suas conotações meramente políticas. 

A palavra revelar (do latim velum, "véu") tem uma ambiguidade curiosa, à medida que remete tanto ao que se mostra removendo o véu quanto àquilo que se percebe através do véu, especialmente de seus volumes. Todo véu oculta algo e exibe outra coisa ao mesmo tempo. Há um poema espetacular de Victor Hugo em que ele explora essa ambiguidade, no que tange à revelação religiosa. 

Nesse sentido, qualquer roupa "revela" alguma coisa e se torna passível de algum grau de decodificação erótica, me parece. Me faz lembrar uma passagem de Montaigne, onde ele falava justamente sobre a erotização do que se furta ao olhar, a cotejar a outra passagem, de Jean de Léry, em que ele salientava/defendia que a nudez das índias era muito mais despida (trocadilho) de erotismo que as vestimentas das europeias (ressoando, obviamente, os conceitos de decência enfatizados pela Reforma). 

Mais ainda, remete à pergunta que um aluno do ensino médio me fez certa vez em sala de aula: se bikinis e lingeries (calcinha e "soutien") são praticamente a mesma coisa, por que os primeiros são considerados aceitáveis em público, e os últimos não? Na ocasião, a pergunta me pareceu curiosa, mas só consegui pensar naquela resposta banal que o estudioso de humanidades sempre utiliza quando não tem ideia: "é uma questão cultural". De qualquer forma, fiquei com a pulga atrás da orelha. De lá para cá, chego à conclusão que, para além da cultura, há também uma questão de contexto e expectativa: ambiente público (praia) x ambiente privado (quarto), perspectiva de satisfação sexual adiada ou imediata. 

Tudo isso, obviamente, envolve códigos culturais que são aprendidos desde a infância, através de vários canais de comunicação. Em suma, independentemente de qualquer mensagem política, a imagem sugere o quanto o desejo erótico, sua (de)codificação e suas im/expressões fazem parte de aprendizados culturais complexos. Ao longo de suas vidas, esses dois homens certamente aprenderam a "enxergar" o corpo feminino por baixo do véu. Um dia ainda escreverei um artigo mais detalhado sobre o tema.

P.S.: Uma amiga acaba de compartilhar a imagem abaixo, que de alguma forma tem tudo a ver com o texto acima, embora ainda não tenha ideia de como fechar as conexões... Uma imagem "monstruosa", nos vários sentidos que o termo possa ter. Culpa dos algoritmos?


quinta-feira, 16 de julho de 2015

Quem oprime?

Hoje, em sala de aula, um aluno deu vários tapas nas nádegas de uma colega. Ela reclamou, solicitando minha intervenção

Detalhes: o aluno em questão é negro, bastante pobre e é tratado pela família com grande descaso, frequentando a escola com roupas encardidas, por vezes exalando odores característicos de falta de higiene. A aluna pertence ao sexo feminino (obviamente), é branca e parece ter condição social e familiar consideravelmente melhor que a do menino; pela linguagem que anda por aí, poderíamos dizer que ela goza de "privilégios".

Educadamente, solicitei INÚMERAS vezes ao aluno que parasse de agredir sexualmente a colega e que a tratasse com o devido respeito, mas precisei falar com rispidez para que ele finalmente atendesse. Discuti brevemente a questão ("você gostaria que fizessem isso com a sua mãe, etc"), mas creio que minhas ponderações "entraram por um ouvido e saíram pelo outro".

Meu aluno é oprimido ou opressor? Ou desempenha ambos os papéis? E a aluna, branca, de classe média baixa, "privilegiada" - oprimida ou opressora? E eu, professor, homem-branco-heterossexual-de-classe-média, tentando ensinar o menino a respeitar as mulheres, tal como me ensinara meu avô (homem-branco-etc), sou opressor?

É muito fácil criar rótulos e estereótipos. Difícil mesmo é lidar com a complexidade da realidade.

domingo, 27 de outubro de 2013

Tempo e medo

Interessante passagem do romance Menino de lugar nenhum (Black Swan Green) de David Mitchell, situado na Inglaterra em 1982, que nos lembra que até nossos medos são datados. Também nos lembra o quanto adolescentes ocidentais do sexo masculino costumam ser idiotas...

"Por algum motivo, o assunto mudou e virou 'a pior maneira de morrer'.

Ser mordido por uma mamba verde - opinou Gilbert Swinyard. - É a cobra mais mortal do mundo. Os órgãos explodem e o mijo se mistura com o sangue. Pura agonia.

-Pura agonia, sim - fungou Grant Burch -, mas você morre bem rápido. Quer saber o que seria pior? Ter a pele arrancada como se fosse uma meia. É isso que os índios apaches fazem com você. Os melhores levam uma noite inteira pra fazer isso.

Pete Redmarley contou que tinha ouvido falar de um tipo de execução vietcongue. - Eles tiram sua roupa, amarram você e enfiam queijo processado no seu rabo. Aí trancam você num caixão que tem um cano. Aí botam uns ratos esfomeados dentro do cano. Os ratos comem o queijo todinho e depois continuam mastigando você por dentro.

Todo mundo olhou pro Tom Yew, esperando uma resposta. - Tem uma coisa que eu sempre sonho - ele demorou um século pra dar uma tragada no cigarro. - Eu estou com o último grupo de sobreviventes depois de uma guerra atômica. A gente está caminhando por uma estrada. Não tem carro nenhum, só mato. Toda vez que olho pra trás vejo menos gente. A radiação vai pegando um por um. - Deu uma olhada pro Nick, o irmão dele, e depois pro lago congelado. - Não é morrer que me incomoda. O problema é saber que eu vou ser o último.

Ninguém falou nada por um tempinho.

Ross Wilcox chegou perto da gente. Levou um século pra dar uma tragada no cigarro, cheio de pose. - Se não fosse o Winston Churchill, todos vocês iam estar falando alemão.

Ah, claro. Como se Ross Wilcox tivesse alguma chance de evitar ser capturado e liderar um grupo de resistência. Morri de vontade de falar pra aquele tapado que, na verdade, se os japoneses nunca tivessem bombardeado Peal Harbour, os Estados Unidos nunca teriam entrado na guerra, a Grã-Bretanha teria passado fome até se render e Winston Churchill teria sido executado como criminoso de guerra. Mas eu sabia que não podia fazer isso. Tinha uma coleção inteira de palavras traváveis nisso tudo e naquele janeiro o Carrasco andava bem impiedoso. Aí eu falei que ia dar uma volta pra mijar, me levantei e caminhei um pouco pela trilha que levava até a vila. -Ei, Taylor! - berrou Gary Drake. - Se você sacudir o pinto mais de duas vezes, já virou sacanagem! - Isso fez Neal Brose e Ross Wilcox morrerem de rir. Fiz um sinal da vitória com os dedos sem nem me virar pra trás. Esse papo de sacudir o pinto é a mania do momento. Não confio em ninguém a ponto de perguntar o que significa".

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Sexualidades ibéricas

Extrato de O espelho enterrado, de Carlos Fuentes

"A pretensão de ser algo distinto parece ser uma das marcas das sociedades urbanas barrocas, divididas entre ricos e pobres, ordens eclesiásticas em disputa, namoros apaixonados e rejeições igualmente apaixonadas do sexo e do corpo. Ao que parece, coexistiram na época colonial um estrito puritanismo e uma explosão de libertinagem. Roland Barthes escreveu que o sadismo prevalece sobretudo nas regiões subdesenvolvidas. A crueldade sexual pode exercer-se facilmente em sociedades de estritas delimitações sociais, em que o parceiro sexual pode ser facilmente recrutado (nas legiões de criados), o objeto de prazer facilmente desprezado, e a impunidade desfrutada, ainda que praticamente em lugares escondidos. As cidades da América colonial espanhola possuíram todos esses atributos, a que se acrescentou a dimensão - de impunidade e esconderijo - do mundo religioso, de conventos e mosteiros.

O escritor mexicano Fernando Benítez, num livro delicioso chamado Los demonios en el convento, relata muitas das 'alucinantes ficções' que deram às sociedades da América Latina, junto com as suas práticas libertinas, o correspondente erotismo repressivo. O arcebispo do México nos tempos de sóror Juana, Aguiar y Seixas, tinha tamanho ódio às mulheres que não as permitia em sua presença e, se acidentalmente defrontava uma, logo cobria o rosto com as mãos. Seu horror à água (outra fobia hispânica e católica) era igualmente cáustico e, em sua fúria, havia ainda o fato de que caminhava ajudado por muletas, e as usava com violência, como o ficou sabendo o poeta Carlos de Sigüenza y Góngora, amigo e protetor de sóror Juana, quando o arcebispo lhe quebrou os óculos e lhe cortou o rosto no meio de uma contenda teológica. Aguiar y Seixas também conseguiu reprimir as brigas de galo, o jogo, os romances e, obviamente, sempre que possível, as mulheres.

Numa época dominada por prelado tão implacável, responsável pelo aniquilamento de sóror Juana, outros puritanos, inferiores ao arcebispo, mas igualmente zelosos, atuaram com presteza. Um certo padre Barcia, ao redor do final do século XVII, decidiu reunir todas as mulheres da cidade do México e encerrá-las no convento de Belém, onde jamais seriam vistas por nenhum homem. Certamente, o padre Barcia logrou apenas reunir um grande número de prostitutas, atrizes e artistas de circo. Tão logo, porém, pôde trancá-las no convento, os amantes dessas mulheres tentaram libertá-las e matar Barcia. Sitiaram o local, e quando as mulheres se rebelaram, dizendo ao bom padre que, se era aquele o céu, bem preferiam o inferno, Barcia enlouqueceu e tentou suicidar-se mediante a introdução, no reto, de supositórios de água benta.

Num tempo assinalado pela tríplice tensão do sexo proibido, do ideal de esposar Cristo e ideal da maternidade virginal, muitas freiras mexicanas, horrorizadas com seus próprios corpos, vedavam-se os olhos, transmitindo assim o seu desejo de serem cegas e surdas; lamberam o piso de suas celas até formar uma cruz com a saliva; foram açoitadas por suas próprias criadas; e se lambuzaram com o sangue dos seus próprios mênstruos. Paralelamente, os monges e sacerdotes, diz Benítez, também teriam sido chicoteados e golpeados como são Juan de la Cruz, pois viam nisso uma compensação pelos sofrimentos de Cristo no calvário".