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Mostrando postagens com marcador Leituras. Mostrar todas as postagens
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quarta-feira, 23 de junho de 2021

Depuis six mille ans la guerre

Poema de Victor Hugo

Depuis six mille ans la guerre
Plait aux peuples querelleurs,
Et Dieu perd son temps à faire
Les étoiles et les fleurs.

Les conseils du ciel immense,
Du lys pur, du nid doré,
N'ôtent aucune démence
Du coeur de l'homme effaré.

Les carnages, les victoires,
Voilà notre grand amour ;
Et les multitudes noires
Ont pour grelot le tambour.

La gloire, sous ses chimères
Et sous ses chars triomphants,
Met toutes les pauvres mères
Et tous les petits enfants.

Notre bonheur est farouche ;
C'est de dire : Allons ! mourons !
Et c'est d'avoir à la bouche
La salive des clairons.

L'acier luit, les bivouacs fument ;
Pâles, nous nous déchaînons ;
Les sombres âmes s'allument
Aux lumières des canons.

Et cela pour des altesses
Qui, vous à peine enterrés,
Se feront des politesses
Pendant que vous pourrirez,

Et que, dans le champ funeste,
Les chacals et les oiseaux,
Hideux, iront voir s'il reste
De la chair après vos os !

Aucun peuple ne tolère
Qu'un autre vive à côté ;
Et l'on souffle la colère
Dans notre imbécillité.

C'est un Russe ! Egorge, assomme.
Un Croate ! Feu roulant.
C'est juste. Pourquoi cet homme
Avait-il un habit blanc ?

Celui-ci, je le supprime
Et m'en vais, le coeur serein,
Puisqu'il a commis le crime
De naître à droite du Rhin.

Rosbach ! Waterloo ! Vengeance !
L'homme, ivre d'un affreux bruit,
N'a plus d'autre intelligence
Que le massacre et la nuit.

On pourrait boire aux fontaines,
Prier dans l'ombre à genoux,
Aimer, songer sous les chênes ;
Tuer son frère est plus doux.

On se hache, on se harponne,
On court par monts et par vaux ;
L'épouvante se cramponne
Du poing aux crins des chevaux.

Et l'aube est là sur la plaine !
Oh ! j'admire, en vérité,
Qu'on puisse avoir de la haine
Quand l'alouette a chanté.


sábado, 27 de março de 2021

quarta-feira, 10 de março de 2021

Nunca perca seu precioso tempo lendo um texto com graves erros de concordância verbo-nominal a cada dois parágrafos. A vida é curta demais para semelhante desperdício de tempo.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Mais uma pequena tragédia parisiense

No breve período em que minha esposa e eu moramos em Paris, as livrarias Gibert Joseph e Gibert Jeune estavam entre nossos refúgios preferidos, constituindo paradas obrigatórias em muitas de nossas andanças.

Depois de devidamente instalados, impossível esquecer de nosso primeiro passeio. Uma visita a Notre Dame, oportunamente concomitante a uma feira de gastronomia. Almocei um delicioso sanduíche "jambon-beurre", e um sanduíche de creme de cereja por sobremesa. 

Após as subidas e descidas pela catedral que tanto me encantava, atravessando o Sena, passando pela monumental fonte de São Miguel, penetramoa no mágico mundo de Gibert Jeune, com seus muitos andares. Saímos de lá carregados de livros (dois dos quais tenho diante de mim enquanto escrevo), especialmente os dois últimos volumes de "Nausicaa do Vale do Vento", de Hayao Miyazaki, cuja publicação brasileira fora interrompida anos antes pela Conrad. Passei a noite lendo a tão aguardada conclusão da magnífica obra de Miyazaki.

Atendidos por Sévérine...


Nos tornamos assíduos frequentadores de Gibert Jeune e dos primosoncorrentes, Gibert Joseph - com sua magnífica papelaria, onde compramos boa parte dos materiais de desenho e pintura que ainda hoje usamos. Excetuando o banheiro e a cozinha, não há cômodo em nossa casa sem algum butim dos Gibert.

Me recordo de nossa última visita a Gibert Jeune, quando deixei de comprar um livro de Roland Mousnier, cujo preço me pareceu à época exagerado, mas que depois muito me arrependi de não ter adquirido.

Hoje leio, com muita tristeza, a notícia de que Gibert Jeune fecha as portas - uma catástrofe afetiva comparável ao incêndio de Notre Dame, sendo a catedral e a livraria tão intimamente vinculadas em minha memória emocional.

Posso suportar a ideia de jamais rever Paris, mas é intolerável pensar que, visitando Paris, não poderei mais subir as escadarias de Gibert Jeune.

Cada livraria que fecha é uma luz que se extingue e deixa o mundo um pouco mais frio e sombrio.

Perder a velha e gloriosa Leonardo Da Vinci, a efêmera Livraria Cultura da Senador Dantas, a antiga Casa Mattos do Méier, a FNAC do Barra Shopping e agora Gibert Jeune são duros golpes em minha vida de leitor e bibliomaníaco, disposto a devaneios em qualquer lugar, brega ou chique, onde se vendam livros.

Uma das coisas que mais me entristecia em Paris era passar pelo Palais Royal, outrora ninho fulgurante das melhores livrarias da Europa, frequentado por grandes figuras literárias dos séculos XVIII e XIX e constatar que ali não se vendem mais livros, sendo necessário atravessar a rua para visitar a discreta e simpática livraria Dellamain - se é que ela ainda existe. 

Hoje só se encontram no Palais Royal antiquários hiper-sofisticados, lojas de grifes internacionais e uns poucos restaurantes careiros "au nez en l'air" (exceção feita ao velho restaurante outrora frequentado por ninguém menos que Voltaire, "sans trôp de chichi").

Vivemos em um século bárbaro, em que se fecham tantas livrarias. Sunt lacrimae rerum.



quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Revolução à brasileira

Trecho de Euclidiana - Ensaios sobre Euclides da Cunha, de Walnice Nogueira Galvão [grifos meus]

"O positivismo se casava tão conaturalmente com o abolicionismo e o republicanismo que o lema da nova bandeira vai ser, como é até hoje, Ordem e Progresso. Benjamin Constant pregava que o soldado deveria ser antes de tudo um cidadão armado, com uma missão ao mesmo tempo civilizatória, humanitária e moral. Esses princípios viriam mais tarde a se institucionalizar na reforma da Escola Militar, de que foi autor, em 1900. Ora, tal concepção tinha sido uma criação da Revolução Francesa, só que ao contrário: eram os cidadãos que tinham se armado para propagar os ideais revolucionários pelo mundo, para civilizar o mundo ainda oprimido pelo Antigo Regime, e não para militarizá-lo. Estava pronto para ser usado - como de fato o foi, até para legitimar a chacina dos pobres em Canudos - o mito da Revolução Francesa à moda da casa".

Sargento Pincel - exemplo de cidadão armado em missão civilizatória, humanitária e moral.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Línguas, Livros, Caminhadas e Travessias

Nos últimos dias empreendi uma empolgante travessia: pela primeira vez li, de capa a capa, um livro inteiro em Alemão, 270 páginas, uma de cada vez.

Não li como quem caminha sobre uma ponte, mas como quem atravessa um rio com água até os joelhos.

O livro, obviamente era "Krabat", de Ottfried Preußler, uma de minhas obras favoritas de fantasia, que descobri quase por acaso, na Bienal de 2007, num balcão de livros encalhados.

Ainda no ônibus, retornando para casa, abri o livro e o devorei em menos de 48 horas. Assim é a prosa de Preußler. Nos anos seguintes li "Krabat" mais duas vezes, ainda na língua de Camões.

Em 2012, quando Priscila e eu partimos para nosso inesquecível verão europeu, um de meus objetivos era trazer para casa um exemplar de "Krabat" na língua original.

Iniciei minha busca desde o primeiro passo em solo germanófono, na insossa Zurique, provavelmente a cidade mais prosaica, chata e pequeno-burguesa do mundo. Em Zurique avistei quantidade de carros de alto luxo como em nenhum outro lugar, mas as livrarias eram escassas, e não havia exemplar de "Krabat"em nenhuma delas, para minha grande decepção.

Felizmente Zurique (onde jamais pretendo zurückgehen) era apenas uma escala. Dali tomamos um trem noturno para Viena com seus mil encantos. Assim que descemos na Hauptbahnhof e tomamos nosso Frühstück, procuramos a livraria da estação. Em meu sempre claudicante alemão, me dirigi à balconista:

"Guten Morgen! Haben Sie 'Krabat', bitte?"

A moça arregalou seus olhos azuis:

"'Krabat'?! Von Preußler?!"

Me senti como quem perguntasse se havia pão na padaria. Retruquei:

"Ja. 'Krabat', von Ottfried Preußler. Haben Sie es...?!"

"Natürlich!"

Sem delongas, a moça atravessou a livraria na diagonal e em poucos segundos eu tinha a relíquia em minhas mãos, como um Parsifal que houvesse encontrado seu Santo Graal:

"Danke schön! Ich liebe 'Krabat'!"

Meu Alemão era insuficiente para expressar adequadamente minha gratidão, mas imagino que o sorriso tenha sido mais que expressivo. A moça sorriu de volta, com uma longa frase, da qual pouco entendi.

Meses depois, de volta ao Brasil, finalmente tomei meu exemplar germânico de "Krabat" para, supostamente, me deleitar com a prosa de preußleriana original. Em vão. Após muitas consultas ao dicionário e à tradução brasileira, desisti da tarefa que se revelou ingrata.

Com imensa frustração entreguei "Krabat, von Preußler" a uma prateleira. Havia viajado meio mundo atrás daquele livro, mas agora que o tinha em minhas mãos, não conseguia juntar as palavras, frases, parágrafos e páginas para fazer um romance. Eu enxergava as árvores, mas a floresta escapava a meus olhos. Me senti como um Parsifal que houvesse encontrado o Santo Graal, mas permanecesse incapaz de contempla-lo em sua ofuscante luminosidade.

Sempre tive facilidade para aprender línguas - a começar pela Portuguesa. Dizem meus familiares que comecei a falar com espantosa fluência com menos de um ano de idade. Alfabetizado, logo comecei a buscar livros cada vez maiores. Aos sete anos encasquetei de ler os dois imensos volumes de "Moby Dick" que tínhamos em casa: "Chamei-me Ismael". Naufraguei como os tripulantes do Pequod; pior, parei no meio do caminho para Nantucket, antes mesmo de embarcar rumo à trágica aventura.

Como Acab, fiquei obcecado por abater Moby Dick - o livro, não o cachalote. Pouco mais tarde, com 13 anos, fortalecido pelas jornadas no Mississipi ao lado de Tom Sawyer, Huckleberry Finn e Mark Twain e por outras aventuras com Emília, Narizinho, Pedrinho e Monteiro Lobato, finalmente resolvi minha velha rixa com Melville e seu temível cachalote branco. Conheci Queequeg, embarquei no Pequod, atravessei o Cabo Horn, e sobrevivi ao naufrágio com Ismael, agarrado a um caixão. Era um livro denso para um leitor imaturo. Ainda assim, impressionante. É um clássico ao qual ainda preciso retornar (agora, na língua original).

Alfabetizado em Português, outros horizontes linguísticos me acenavam. Em criança, um de meus livros favoritos era "O Pato Poliglota" - e eu sonhava em ser como aquele pato! Me encantavam os recuerdos em diversas línguas, colecionados por meu avô em seus tempos de marinheiro globe-trotter.

Na escola primária, "aulinhas" de Inglês. No cinema e nos VHSs eu tentava (com pouco sucesso) encontrar correlações entre as legendas e as falas dos filmes. Com Collor, Itamar e FHC nosso mercado foi se abrindo cada vez mais às importações e chegavam a minhas mãos produtos com rótulos e manuais de instruções em várias línguas (era no tempo em que manuais de instruções eram longos, minuciosos e impressos; altre tempi). Às vezes passava horas e horas debruçado sobre essas preciosidases. Eram minhas pedrinhas de roseta; minha avó caçoava de meus rudimentares exercícios de linguística comparativa, mas é uma mania que ainda hoje me acompanha.

Logo mais chegavam ao Brasil os caríssimos "trading cards" de super-herois - um pequeno luxo que minha suburbana família de classe média baixa podia me conceder de vez em quando. Avidamente colecionados, me proporcionaram duradoura experiência com a língua de Shakespeare. Lia e relia os cartõezinhos coloridos como um dedicado epigrafista, acompanhado de um pesado dicionário Inglês-Português. Certa vez meu avô cometeu a insensatez, duramente censurada por minha mãe, de me satisfazer o capricho de comprar um gibi importado do Batman por R$ 40,00 - quase meio salário mínimo à época...! Os games e, mais tarde, os livros, completaram minha introdução à anglofonia. "Treasure Island", de Robert Louis Stevenson foi o primeiro livro que li em inglês (em barata edição da "Penguin Classics", must be said).

Entrei no Colégio Pedro II no tempo em que os ginasianos tinham o luxo de ter aulas de Inglês, Francês e Latim. Je suis tombé follement amoureux de la langue française. Aos 13 anos, enquanto lia Moby Dick, ingressei na Aliança Francesa, cujas mensalidades minha mãe pagava com algum aperto (mesmo depois que meu bom desempenho me garantiu um desconto de 40% nas mensalidades). Foi nessa época que descobri a Livraria Leonardo Da Vinci  (a autêntica). Com o real valorizado e o franco não-tanto, iniciei uma vasta coleção de Astérix e, mais importante, completei minha coleção das aventuras de Tintin et Milou. Logo descobri as aventuras de Arsène Lupin, que devorei na Mediateca da Maison de France.

O portunhol falamos todos de berço, e me iniciei na língua de Cervantes e Bolaños com "El Lazarillo de Tormes". Com um bom dicionário, me viro na língua do Lácio e adquiri alguma fluência na língua de Dante acompanhando o Giro d'Italia pela Internet, na Gazzetta dello Sport, especialmente o fabuloso Giro de 2004, com a inesperada conquista da Maglia Rosa pelo "Piccolo Principe" Damiano Cunego - mesmo ano da epopeia de Thomas Voeckler no Tour de France, que durante várias etapas se agarrou heroicamente ao Maillot Jaune tomado na lendária Trouée d'Arenberg.

Português, Francês, Inglês, Espanhol, Italiano e um pouco de Latim. Mas o desafio maior, a montanha mais alta, o castelo mais inexpugnável, resistia, e resiste ainda, a minhas investidas: o Alemão.

Tinha meus 15 anos quando me caiu entre as mãos um CD da "Paixão segundo João", de ninguém menos que Johann Sebastian Bach, devidamente acompanhado por um encarte bilíngue, em Alemão e Francês - era no tempo em que CDs vinham acompanhados de robustos encartes - vergangenen Zeiten. Tomei a temerária decisão de aprender Alemão fazendo uma xerox do dito encarte. Mais fácil planejar que fazer - faltou combinar com os alemães! Um recuo estratégico se fez necessário.

Anos mais tarde, em 2003, um maduro cavalheiro em seus 20 anos e graduando em História (nada mais arrogante que um graduando), resolvi empreender meu ataque definitivo contra Deutschenschloss. Munido de dicionários, um livreco de conversação para viajantes e uma pasta repleta de textos impressos da Internet, comecei a estudar Alemão com alguma seriedade e muita irregularidade.

Após alguns anos de inconstantes esforços, conseguia ao menos ler gibis em Alemão - retornando de Veneza, inclusive, passei uma agradável manhã na estação de Munique, lendo gibis (uma chuva torrencial desencorajava qualquer tentativa de passeio). Em Munique embarcamos em um trem da Deutsche Bahn que, por dentro, parecia um cenário de Star Wars; em Düsseldorf tomamos um trem da SNCF onde degustei o couscous marroquino mais saboroso de que me lembro. Só chegamos em Paris à noite, cansados, sedentos e famintos, devido a um terrível acidente ferroviário que nos reteve por horas, esgotando todo o estoque da lanchonete - quase como a bande dessinée "Le Transperceneige", exceto pela antropofagia. Tudo isso com "Krabat, von Preußler" na bagagem.

Em 2013 (re)comecei a estudar Alemão usando o excelente e gratuito aplicativo Duolingo, mas uma série de compromissos acadêmicos e problemas familiares me impediram de manter a disciplina adequada.

Iniciei 2020 firmemente decidido ao assalto definitivo contra Deutschenschloss. Estava determinado a ler em Alemão com desenvoltura até dezembro. Das oder nichts! E assim tenho feito, estudando Alemão quase diariamente, mit mein ganzen Herz.

Há alguns dias terminei de ler "Soie", tradução francesa de "Seta", de Alessandro Baricco, um delírio elsevírico magistralmente ilustrado pela maravilhosa Rébecca Dautremer, com capa artesanal impressa "a quente" num ateliê parisiense, diagramação impecável, papel de textura indescritível, impresso e encadernado numa seleta tipografia de Barcelona.

Ainda aturdido por semelhante fantasia editorial, lida em duas madrugadas, me pus a percorrer minhas estantes em busca de nova leitura.

Foi então que Krabat me chamou.

Timidamente peguei o livro. Ist mein Kraft jetzt genug? Findo o primeiro capítulo, me senti confiante, prosseguindo, com uma ou outra dificuldade, através das 270 páginas, sem recorrer a nenhum dicionário. Wunderschön! Dreimal Hurrah!

Ler "Krabat" em Alemão, apreciando a prosa de Preußler até em sua poética descrição dos tons de verde da grama primaveril foi a realização de um sonho.

Uma breve travessia, após uma longa, exaustiva e, por vezes, desanimadora caminhada. Dezessete anos de esforços foram necessários para ler estas 270 páginas. Mas esta foi apenas uma etapa de uma longa jornada, que espero prosseguir em outros anos e outras páginas.

Finalmente penetrei nos jardins de Deutschenschloss. Ainda há muitos recantos a explorar nesse castelo...


quinta-feira, 23 de abril de 2020

Breves considerações sobre Slavoj Zisek

Posso estar redondamente enganado, mas considero Zisek uma das maiores fraudes intelectuais do século XXI - simplesmente não consigo levar esse sujeito a sério.

Acabo de saber que ele já está lançando um livro sobre o COVID-19, o colapso capitalista etc. Rápido no gatilho, como sempre; eis um comunista que sabe faturar no mundo capitalista. E, em terras btasileiras, a Boitempo junto com ele. Um autor oportunista com uma editora igualmente oportunista - parceria perfeita. Por sinal, a julgar pelo preço dos livros, a Boitempo me parece curiosamente desinteressada em ser lida pelo "proletariado". Sequer consigo imaginar um trabalhador que viva de salário mínimo comprando um livro da Boitempo.

A bem dizer, acho que uma boa HQ de Alan Moore vale uns dez ensaios de Zisek - e nem precisa ser um clássico como V de Vingança; pode até ser um daqueles Contos do Robocão, do comecinho da carreira.

Para mim, Zisek já começa perdendo por ser lacaniano; não dá para levar Lacan a sério. Até Lévi-Strauss, que era amigo pessoal de Lacan dizia que não o lia, maroto como sempre, por se confessar "incapaz de entender a obra de Lacan". Além do mais, nunca entendi muito bem a necessidade de evocar a psicanálise lacaniana para ornamentar as platitudes zisekianas. 

Pensando melhor, é realmente necessário: platitudes intelectuais só transmitem alguma aparência de relevância quando devidamente ornamentadas, para seduzir aquele tipo de leitor que se encanta por qualquer coisa que lhe soe hermética - exatamente o tipo de pessoa que gosta de citar Wittgenstein ou Lacan a torto e a direito. 

Enfim, vejo Zisek quase como uma caricatura do "intelectual engajado". Muita verborragia, pouco conteúdo, repertório de ideias quase monomaníaco, sempre a mesma lenga-lenga. Uma versão melhorada de Marcia Tiburi.

Há que se reconhecer, no entanto, o mérito de Zisek em se tornar o esloveno mais famoso do mundo; só espero, sinceramente, para bem de seu povo, que a Eslovênia tenha gente mais interessante que ele. A vizinha Sérvia ao menos produziu Petkovic, futebolista com ares de pensador, sempre capaz de deixar desconcertados os jornalistas esportivos brasileiros...


sábado, 29 de fevereiro de 2020

Sou Mestre, não és nada

"Mein ist das Wort und das Wort ist das Wissen.
Das Wissen ist Macht und Macht ist entrissenes Recht...

Denn ich bin dein Meister
Denn ich bin dein Meister
Ja, ich bin dein Meister
Und du bist nichts
Denn ich bin dein Meister
Denn ich bin dein Meister
Ja, ich bin dein Meister
Und du bist nichts
Nichts als mein Knecht!"

Trecho da canção Denn ich bin der Meister, do álbum Zaubererbruder, da banda ASP, baseado no encantador clássico infanto-juvenil Krabat, de Ottfried Preussler. Seguem minha vexaminosa tradução e a canção propriamente dita: 

"Minha é a palavra e a palavra é saber.  Saber é poder e poder é direito usurpado.../Então sou teu Mestre/Então sou teu Mestre/Sim, sou teu Mestre/ E não és nada/.../Nada senão meu servo".


quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Amor Cristão

"Uma vez que tínhamos a bandeira da cruz e lutávamos por nossa fé e pelo serviço de nossa sagrada majestade, Deus concedeu-nos tal vitória e matamos muitas pessoas".
Cortés

"Quem poderá negar que utilizar pólvora contra os pagãos é como queimar incenso para Nosso Senhor?"
Oviedo


Hermenêutica bíblica à moda colonial: "índio bom é índio morto".

terça-feira, 2 de outubro de 2018

"Eu sou fascista"

"Meu nome é Adam Susan. Eu sou o líder.

Líder dos perdidos. Governante das ruínas.

Eu sou um homem como qualquer outro.

Eu conduzo o país que amo para fora da desolação do século vinte. Acredito na sobrevivência. No destino da raça nórdica. Eu acredito no fascismo.

Oh, sim. Eu sou fascista. O que é fascismo? Uma palavra. Um termo cujo significado se perdeu no resmungo dos fracos e traidores.

Os romanos inventaram o fascismo. Um feixe de gravetos era seu símbolo.

Um graveto sozinho podia ser partido. O feixe resistiria. Fascismo... Força da União.

Eu acredito na força. Eu acredito na união.

E se a força, a união de propósitos, exige uniformidade de pensamentos, palavras e feitos, que assim seja.

Eu não ouvirei súplicas por liberdade. Sou surdo aos apelos por direitos civis. Eles são luxos. Eu não acredito em luxos.

A guerra escorraçou os luxos. A guerra escorraçou a liberdade.

A única liberdade que resta ao povo é passar fome. A liberdade de morrer... de viver num mundo caótico.

Devo conceder a eles tal liberdade?

Creio que não.

Reservo a mim a liberdade que nego aos outros? Não. Eu me restrinjo à minha cela e sou apenas um servo. Eu, que sou mestre de tudo que posso ver.

Eu vejo a desolação. Contemplo as cinzas. Possuo tanto e tenho tão pouco.

Eu não sou amado, nem de corpo nem de alma. Jamais conheci o murmúrio da ternura. Nunca senti a paz que reside por entre as coxas de uma mulher.

Mas eu sou respeitado. Sou temido. E isso é o bastante..."

Monólogo mental do personagem Adam Susan, da ficção distópica V de Vingança, de Alan Moore e David LLoyd - originalmente publicada em 1981, no Reino Unido, mas sinistramente atual...


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Conquistadores do Ar

Cenas dos primórdios da aviação e da RAF na deliciosa prosa de T.E. Lawrence em A matriz:

Nós somos de muita utilidade aos olhos de todos aqueles que aceitam nossas premissas, isto é, que a conquista do ar é o primeiro dever da nossa geração.

Uma parcialidade cara da natureza que, através dos tempos, reservou para nós a conquista do seu último elemento! Nossa época será admirada pelo modo como desempenhamos essa tarefa única de uma nova e grande conquista. Para aqueles de visão curta ou política, há nisto só um aspecto de patriotismo: é o impulso a ser dado aos nossos sucessores, que dependerão das técnicas de aviação para a reforma do nosso exército do século XVIII e dos nossos navios ridículos.

Não imaginem que nós sentimos todos a mesma coisa e no entanto sentimos ainda mais do que isso. Estamos diante de algo que domina e ultrapassa a nossa imaginação. Cada um sabe que cem mil homens, seus semelhantes, trabalharão nisto com toda a força, durante gerações, e ainda longe do fim entrevisto. Meu espírito vivo tem limite para as suas palavras. O extremo cuidado que temos no nosso trabalho vai mais além. Não é trabalho mercenário nem feito por obrigação. A aviação e o soldo são pulgas para coçar no nosso entusiasmo.

Não pensem também que estou querendo dizer que somos pretensiosos; pecamos como todo mundo, orientados para um ponto extremo, por um único motivo: estamos preocupados com uma coisa maior do que a gente. Traduzimos isto em termos de roscas e cilindros, para uso diário. Se um de nossos ferros-velhos não pode voar por culpa nossa, a esquadrilha baixa a cabeça, sentindo-se desonrada.

Se você disser a Tug que, na regulagem dele, ficou alguma coisa por acabar, ou a Pitaine, que o motor não está tão bem conservado como deveria, corra depois, porque se eles acreditarem que você está dizendo a verdade, vão matá-lo.

Lawrence e seus companheiros teriam se orgulhado do clássico Harrier "Jump Jet", uma das obras-primas da aviação militar britânica...

domingo, 22 de outubro de 2017

Estamos todos bem

Poema do Fred Oliveira (dedicado a mim - que honra!)

Que eu aprenda na escola o que é a vida
Que eu escolha bem os meus amigos
Que eu saiba de cor cantar o hino
Que eu vá à Igreja aos domingos
Que eu apague a luz do quarto e durma.
Que eu faça a coisa certa
Que eu peça licença ao sair da mesa
Que eu tenha a tabuada na cabeça
E torça para algum dos times
Que eu não quebre o protocolo
E nunca seja inconveniente.
Que eu não brinque com coisa séria
Que eu seja alguém na vida
Que eu não coma carne em dia santo
Que eu não insista nos meus erros
E não deixe para amanhã o que posso fazer hoje
Que eu feche os olhos e diga só coisas bonitas.
Que eu conheça ao menos um trecho da Bíblia
Que eu leia, acredite e jamais duvide
Que eu não entre na briga e nem xingue
Que eu aguente firme apesar de tudo.
Que eu seja comedido na minha ira
Que eu saiba distinguir joio e trigo
Que eu não faça aos outros o que não quero que façam comigo
Que eu não diga à plateia o que sentimos
Que eu consiga um emprego subalterno como os outros da fila.
Que eu me aliste no exército aos 17 anos
Que eu não seja ateu
Que eu ame uma menina e não a um menino
Que eu constitua uma família e tenha muitos filhos
Que eu chore no enterro como todo mundo.
Que eu aceite o que não gosto com um sorriso
Que eu tema o Inferno e queira o Paraíso
Que eu me acostume a demagogiazinha nossa de cada dia
Que eu tenha juízo
E agradeça a Deus o pão à mesa.
Que eu acompanhe o ritmo
E dance conforme a música
Que eu meça as palavras e seja eu mesmo
Que eu fique em casa nos dia de chuva
Que eu viva em paz com a minha consciência.
Que eu pregue um diploma na parede
Que eu cumpra todos os meus compromissos
Que eu não falte com a esmola ao mendigo
Que eu me arrependa dos meus pecados
E me orgulho de ser pobre, honesto e faminto
E se alguém perguntar como estamos
Eu diga: - Estamos todos bem!
 ...................
In: Quase Poesia, de Fred Oliveira
...................
Para Luiz Fabiano Tavares

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

"Porre ideológico"

Trecho de Os bestializados, de José Murilo de Carvalho:

"A República não produziu correntes ideológicas próprias ou novas visões estéticas. Mas, por um momento, houve um abrir de janelas, por onde circularam mais livremente ideias que antes se continham no recatado mundo imperial. Criou-se um ambiente que Evaristo de Moraes chamou com felicidade de porre ideológico, e que poderíamos também chamar, sob a inspiração de Sérgio Porto, de maxixe do republicano doido. Nesse porre, ou nesse maxixe, misturavam-se, sem muita preocupação lógica ou substantiva, várias vertentes do pensamento europeu".

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Leituras recomendadas sobre o Brasil do Impeachment

Muito se tem escrito sobre o processo de Impeachment de Dilma Roussef, mas pouca coisa de real interesse. Destaco alguns textos que me pareceram interessantes, curiosos ou esclarecedores.


1) Moral é artigo em falta tanto em algozes quanto em apoiadores de Dilma - o jornalista Raphael Tsavkko Garcia traça comentários interessantes sobre o conflito, numa síntese que não poupa nenhum dos lados, para além das polarizações e maniqueísmos do momento.

2) A merda é o ouro dos espertos - a sempre excelente Eliane Brum contrapõe as imagens conflitantes do Brasil "Olímpico", entre a euforia de 2009 e as frustrações de 2016.

3) 12 argumentos pró e contra o impeachment - rica em links para aprofundamento, a didática reportagem da Agência Pública sintetiza os principais argumentos alinhavados de cada lado, ajudando a entender (um pouco) melhor o labirinto judicial desse processo.

4) Acabou o flá-flu - Renato Janine Ribeiro oferece algumas reflexões e perspectivas oportunas contextualizando o processo de Impeachment em relação aos últimos 20 anos de política brasileira, destacando as complexas interações entre PT, PSDB e PMDB durante o período.

5) Impeachment, golpe e democracia - lúcida análise proposta pelo historiador Daniel Aarão Reis.

6) O mergulho no mundo virtual do pós-PT - apesar da linguagem empolada e de certo esquematismo pós-modernoso, o artigo tece algumas considerações interessantes sobre o modelo de esquerda sustentado pelo PT no poder, e sua (in)viabilidade. Do mesmo autor, E agora, José? e A estratégia zumbi e o fim de um projeto também apresentam algum interesse.

7) Não alimente as cobras - a historiadora Rejane Hoeveler discute a crise atual à luz da trajetória do PT (em inglês).

sexta-feira, 13 de maio de 2016

"Não se rende à chuva"

Poema de Miyazawa Kenji

Não se rende à chuva
Não se rende ao vento
Não se deixa render por neve nem calor de verão
Tem um corpo forte e robusto
Não tem nenhum desejo
Nunca perde a paciência
Está sempre calmo a sorrir
Come quatro porções de arroz integral,
Missô e alguns vegetais por dia
Em todas as coisas
Não se importa consigo próprio
Aprende de ver e ouvir os outros
E nunca se esquece
Vive numa cabana coberta de palha
À sombra da floresta de pinheiros dos campos
Se houver uma criança doente no leste
Vai até lá e cuida dela
Se houver uma mãe cansada no oeste
Vai até lá e carrega-lhe o feixe de arroz
Se houver alguém prestes a morrer no sul
Vai até lá e diz-lhe para não ter medo
Se houver discórdia e litígio no norte
Vai até lá e diz-lhes para parar pois não vale a pena
No tempo de seca, derruba lágrimas
No verão frio, caminha todo confuso
É chamado por todos de "Cabeça de Bagre"
Nunca é elogiado
Ninguém se preocupa com ele
Este é o tipo de pessoa
Que eu almejo me tornar

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Religião X espiritualidade: entre o dogma e a libertação

Extrato do livro Deus - Sua história na epopeia humana, do filósofo Frédéric Lenoir

"Com o período axial podemos falar verdadeiramente de espiritualidade. Como vimos, a religião liga [em francês, lie, "amarra"]. Ela reúne os seres humanos através de uma crença coletiva num invisível que os ultrapassa. Por isso, Régis Debray utiliza muito adequadamente o termo 'comunhões humanas' para falar de religiões. Inicialmente, porém, eu diria que a espiritualidade, a busca pessoal do espírito, desliga [em francês, délie, "desamarra"]. Ela liberta o indivíduo de tudo o que o prende e o aprisiona em visões errôneas: ignorância, a priorismos, preconceitos etc, mas ela também o liberta do grupo. Ela o liberta do peso da tradição, do coletivo, para levá-lo a si mesmo, à sua verdade interior. Em seguida, se a espiritualidade começa desligando o indivíduo, ela tem como fim último ligá-lo de maneira justa aos outros. Dito de outra forma, a espiritualidade desliga para melhor ligar; ela liberta o indivíduo para ensiná-lo a amar. Uma espiritualidade que deságua na indiferença ou no desprezo pelos outros não tem nada de autêntico. É uma neurose que oferece o espiritual como álibi.

Todas essas correntes de sabedoria e espiritualidade que nascem durante o primeiro milênio de nossa era têm como objetivo permitir que o indivíduo seja de maneira plena, desenvolvendo a parte divina ou transcendente que o habita. De fato, o indivíduo se emancipa em grande parte dos rituais e das crenças coletivas para ter acesso direto ao divino ou ao Absoluto. Pelo viés da razão, da experiência interior, da oração, da meditação, ele procura a verdade. Essa busca interior e pessoal frequentemente o deixa numa situação ambígua em relação às tradições religiosas que privilegiam o interesse do grupo, do povo, da tribo, da cidade. Assim é que Buda atrai o ódio dos brâmanes cujos ritos sacrificiais inúteis ele denuncia. Sócrates é condenado à morte por impiedade, e Jesus, por ter ameaçado o poder sacerdotal. E seus acusadores não se enganaram: esses três personagens contribuíram enormemente para emancipar o indivíduo da religião dominante. Inicialmente, colocando-o numa relação direta com Deus, o Absoluto, ou o princípio divino. Pela oração  (Jesus), a filosofia (Sócrates) ou a meditação (Buda), o homem pode operar sua salvação sem passar pelos ritos sacrificiais pregados pela tradição. Em seguida, o ensinamento deles rompe com o caráter aristocrático das sociedades tradicionais. Para eles, não há diferença fundamental entre os seres humanos. Todos: ricos ou pobres, escravos ou homens livres, homens ou mulheres podem ascender à libertação ou à salvação. Não há mais hierarquia, casta, povo eleito. Todos os seres humanos são iguais porque todos possuem uma alma imortal que lhes permite desenvolver uma vida espiritual que os torna livres. A partir daí, a nobreza da alma importa mais do que a nobreza de nascimento. A espiritualidade é radicalmente democrática. Consequentemente, ela enfraquece qualquer instituição religiosa que afirma que a salvação passa pela lei ou pelos rituais coletivos impostos por uma casta privilegiada: a dos sacerdotes. Mesmo que frequentemente nasçam e se desenvolvam no seio de tradições religiosas, as correntes espirituais introduzem uma forte contestação de tais tradições, chegando por vezes até mesmo a produzir cismas, como o budismo em relação ao hinduísmo, o cristianismo em relação ao judaísmo ou, no seio mesmo do cristianismo, o protestantismo em relação ao catolicismo. Porque o cristianismo logo se desviou de sua contestação inicial do legalismo religioso para recriar um legalismo e um clericalismo tão pesados quanto o que foi denunciado por Jesus. Assim, há um série de reformas sucessivas, dentre as quais a de Lutero, no século XVI, que pretende se emancipar do poder dos clérigos e do papado para voltar aos principais fundamentos do evangelho: a pobreza, a relação direta com Deus, a igualdade entre todos. Muito antes de Lutero, porém, as ordens religiosas e as correntes místicas permitiram que numerosos cristãos se emancipassem, pela interioridade, do pesado fardo da instituição.

As correntes espirituais que professavam uma ortodoxia doutrinal, criticando simultaneamente o poder ou a corrupção dos clérigos, foram de certo modo assimiladas pela instituição e muitas vezes contribuíram para a reforma interna. Foi o caso das ordens monásticas. É o que vemos com Bernardo e os cistercienses, ou Francisco de Assis e os franciscanos. Mas aqueles que se desviaram do dogma foram erradicados pela Inquisição. É o caso dos cátaros e de numerosos movimentos místicos, como o das beguinas, mulheres adeptas do 'livre espírito'. Lutero também questionará aspectos do dogma, mas, na sua época, a Igreja não tinha mais os meios para lutar contra as correntes contestatárias. Ele foi protegido por um príncipe alemão convencido de suas ideias, que se recusou a entregá-lo ao papa. A Reforma protestante rapidamente conquistou numerosos príncipes e reis, por demais felizes em, desse modo, se libertarem do domínio de Roma. O Renascimento, com a descoberta do humanismo grego, teve um impacto decisivo sobre a religião cristã, redirecionando-a para suas origens que são muito próximas do ideal democrático e da autonomia do sujeito, da libertação do indivíduo em relação ao grupo".

domingo, 15 de novembro de 2015

"Amor", medo e violência

Extrato do artigo "To love and to fear us": Intercultural violence in the English Atlantic, de Melanie Perrault (tradução minha)

"Na Inglaterra dos séculos XVI e XVII havia três categorias gerais para a justa violência: punição sancionada pelo Estado ou ação militar, ações tomadas em defesa dos padrões da comunidade (inclusive hierarquias sociais, econômicas ou de gênero), e violência em nome da religião. Obviamente, tanto os perpetrados quanto as vítimas de violência buscavam construir relatos de comportamento violento em seu favor, apresentando a si mesmos como claros exemplos de Englishness e seus oponentes como perturbadores da paz. Confrontos físicos rapidamente eram transformados em uma disputa de palavras negociadas numa corte de justiça ou em uma das inúmeras formas de divulgação da palavra impressa. Nessas disputas literárias, os americanos nativos da Virgínia ou da Nova Inglaterra se envontravam decididamente em desvantagem, não tendo a oportunidade de ditar uma resposta escrita livre de um viés inglês.

As categorias mais polêmicas de violência justificável também eram as mais fluidas - enquanto a violência sancionada pelo Estado era facilmente identificável como tal, e a violência religiosa oferecia uma distinção relativamente clara entre o status de insider e outsider, a violência para manutenção dos padrões da comunidade se baseava em um conjunto de hierarquias mutuamente acordado que se encontrava constantemente sob negociação. A questão se qualquer ato individual de violência seria considerado justificável dependia em grande medida da relação entre os participantes. Violência entre iguais, embora desencorajada, era aceita como uma parte natural da condição humana. Violência administrada por uma pessoa de status superior a seus inferiores era tida como um meio necessário de impor as normas sociais, uma responsabilidade que não deveria ser objeto de abusos através de punição excessiva. A forma mais ameaçadora de distúrbio da comunidade envolvia dependentes - criados, filhos ou mulheres - usurpando a posição de seus mestres atacando violentamente seus corpos ou bens.

Num esforço para justificar sua presença no Novo Mundo, a retórica inglesa consignava todos os índios, inclusive homens adultos, ao status de dependente, tornando qualquer ato de violência dos índios uma força potencialmente desestabilizadora com implicações para toda a missão colonial. Uma vez que os nativos americanos entendessem seu adequado papel subordinado nas terras recentemente civilizadas, a violência não seria eliminada, mas seria relegada como um aspecto menos importante da vida. [...]

Para ser legítima, todavia, a violência deveria ser usada apenas como um último recurso e tinha de ser restrita. Quando administrada adequadamente, a violência física deveria supostamente ser recebida como um castigo amoroso, destinado a restaurar a ordem no ambiente doméstico. Violência aleatória ou excessiva não era tolerada, pois minava o legítimo uso da força. Vizinhos monitoravam o comportamento uns dos outros, num esforço para assegurar que punições aceitáveis não deslizariam para o abuso, embora tal regulação informal deixasse oportunidades significativas para maus-tratos. [...]

Era desse contexto que homens e mulheres ingleses atravessaram o Atlântico em meados do século XVI. Atitudes profundamente arraigadas em relação à violência deram forma aos primeiros encontros com povos nativos de diferentes culturas, oferecendo um parâmetro para a classificação dos estranhos e um conjunto de normas para regular as interações. [...] Evidentemente, observadores ingleses acreditavam que eles eram os árbitros definitivos do que constituía violência legítima, tanto para si mesmos quanto para os nativos que eles encontravam".

domingo, 25 de outubro de 2015

Burocracia da Vingança

Extrato de O cavaleiro inexistente, de Ítalo Calvino

"Rambaldo dirigiu-se ao pavilhão da Superintendência para Duelos, Vinganças e Máculas à Honra. Já não se deixava enganar pelas couraças e elmos emplumados: percebia que atrás daquelas mesas as armaduras encerravam homenzinhos mirrados e poeirentos. E se devia agradecer quando havia alguém dentro!

- Com que então, quer vingar seu pai, marquês de Rossiglione, patente de general! Vejamos: para vingar um general, o melhor procedimento é eliminar três majores. Poderíamos indicar-lhes três fáceis e tudo em ordem para você.

-Não me expliquei bem: quem devo matar é Isoarre, o emir. Foi ele em pessoa quem derrubou meu glorioso pai!

-Sim, sim, entendemos, mas você não se iluda porque derrubar um emir não é coisa simples... Quer quatro capitães? Podemos garantir-lhe quatro capitães infiéis durante a manhã. Note que quatro capitães valem um general de exército e seu pai era apenas general de brigada.

-Vou procurar Isoarre e arrancar-lhe as tripas! Ele, e só ele!

-Você vai acabar preso, sem ir ao campo de batalha, pode ter certeza! Reflita um pouco antes de falar! Se criamos obstáculos em relação a Isoarre é porque temos boas razões... Se, por exemplo, o nosso imperador tivesse alguma negociação em curso com Isoarre...

Mas um dos funcionários que até aquele momento mantivera a cabeça enfiada nos mapas levantou-se contente:

-Tudo resolvido! Tudo resolvido! Não é preciso fazer nada. Nada de vingança, nem é preciso! Outro dia, Ulivieri, pensando que seus dois tios haviam morrido em combate, vingou-os! Contudo, eles estavam bêbados debaixo de uma mesa! Acabamos ficando com duas vinganças de tio a mais, uma boa trapalhada. Agora está tudo certo: uma vingança de tio podemos contar como meia vingança de pai; é como se tivéssemos uma vingança de pai completa, já executada.

-Ah, meu pai! - Rambaldo quase tinha um ataque.

-Mas o que tem você?"