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quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Qual era realmente o problema do comunismo?

Tradução do interessante relato de Viktor T. Toth, profissional de TI, físico em “meio período”

Como cresci em um país comunista, a Hungria do “comunismo goulash”, me sinto inclinado a oferecer meus pensamentos, apersar do fato de que já há algumas excelentes respostas aqui [no site], como a de Dima Vorobiev. Debato comigo mesmo se posto ou não esta resposta, pois será longa, tortuosa e bastante pessoal. Todavia... talvez seja útil. Em todo caso, vocês estão avisados.

Antes de chegar aos problemas com o comunismo, permitam-me apontar as poucas coisas que eram bem feitas. Essas são as coisas que tornam um monte de pessoas nostálgicas pelo comunismo.

A Hungria do “comunismo goulash” em que nasci no início dos anos 60 não era um lugar desagradável, certamente. Os dias de terror comunista linha dura tinham passado. O regime stalinista de Rákosi tinha sido deposto em 1956, e as retaliações do regime de Kádár terminaram por volta de 1962, quando muitos prisioneiros políticos foram libertados. No tempo em que me tornara consciente do mundo ao meu redor, no jardim-de-infância, o medo não era mais um fator na vida cotidiana.

Tampouco pobreza ou privação. Não, não éramos ricos. Mas não víamos mendigos nas ruas. Até o fim dos anos 60 não era incomum ver, por exemplo, viúvas da guerra (centenas de milhares de soldados húngaros morreram, lutando principalmente do lado de Hitler na II Guerra), licenciadas pelo todo-poderoso Estado totalitário, operando barraquinhas de cigarros ou de legumes ou similares, ganhando a vida nas ruas; mas mendigos de verdade? Não me lembro de jamais ter visto algum. Nem havia filas na vida diária. Ocasionalmente, é claro, quando alguma loja de hortifruti tinha recebido um carregamento inesperado de bananas ou outras comidas de luxo. Mas se tudo que você quisesse fosse simplesmente um pão, leite, manteiga, algumas fatias de mortadela, talvez legumes da estação ou uma maçã... tudo isso era abundante, facilmente disponível até nas menores cidades.

Crimes eram raros. Você podia andar pelas ruas mal iluminadas de Budapeste até tarde da noite. Crime organizado, particularmente, não existia – minha opinião é que um regime cuja própria natureza era criminosa, para começo de conversa, não tolerava competição.

A educação pública funcionava bem. Claro, aulas de História, especialmente quando se tratava do período posterior à Revolução Industrial, era manchado com o dogma Marxista-Leninista, e por alguma razão, aulas de língua estrangeira eram fracas em todo lugar, ao menos baseado em evidência anedótica que ouvi e minha experiência pessoal, mas havia escolas, elas eram funcionais, e até o ensino superior era gratuito; ou você passava nas provas ou você estava fora, mas dinheiro não comprava um diploma.

A saúde pública funcionava. Podiam faltar equipamentos modernos e brilhantes, mas sempre que precisei de cuidados médicos, eram prontamente disponíveis. Quando eu ficava doente, ainda criança, nosso pediatra fazia consultas domiciliares. Mais tarde, eu simplesmente entrava na clínica central do 6º distrito de Budapeste se eu sentisse necessidade de consultar um especialista. Isso incluía atendimento odontológico e oftalmológico. Vacinas não eram opcionais; nós todos recebíamos as vacinas requisitadas na idade indicada na escola, sem solicitação de autorização familiar. Da mesma forma, até adultos eram obrigados a realizar exames pulmonares regularmente – assim foi eliminada a tuberculose.

Quando eu comecei a escola houve um crescimento explosivo no número de automóveis no país. Carros Lada importados da União Soviética eram parcialmente responsáveis por isso. Conseguimos nosso primeiro Lada de uma das primeiras fornadas, em 1970 ou 1971, creio -Um VAZ-2101 “Zhiguli” branco. Era um carro básico, mas um bom carro. Um confiável burro de carga. A última vez que vi aquele carro foi nos anos 90, com um novo dono, obviamente, mas ainda tinha a velha placa (aquelas velhas placas eram designadas para o carro, não para o proprietário), e ainda que gasto, funcionava.

Nossas noites frequentemente se passavam em frente a uma TV em preto-e-branco, assistindo o único canal nacional (um segundo canal, originalmente chamado o canal “a cores”, foi lançado, mas no começo tinha apenas algumas horas semanais de programação, e como transmitia em UHF, aparelhos de TV mais velhos, como o nosso, só recebiam o sinal com um adaptador externo). A programação diária, excetuando umas poucas horas de programação para as escolas durante a manhã, começava no final da tarde. O início da noite tinha documentários, talvez uma série cômica importada ou algum programa sobre atualidades. Então, às 19:15 toda criança no país com acesso a televisão assistia “Urso da TV”, um urso-fantoche muito amado, que apresentava os programas infantis noturnos: geralmente uma animação, incluindo alguns deliciosos desenhos animados poloneses e tchecoslovacos.

O telejornal principal vinha a seguir, e então um filme ou algum seriado importado, séries policiais sendo bastante populares. Eu assisti muitos episódios de Kojak, Columbo, Inspetor Maigret (da França) e outras séries com dublagem húngara (argh, dublagem! Não espanta que o ensino de línguas fosse fraco). As transmissões diárias encerravam por volta das 23:00, depois de alguma programação adicional e um segundo telejornal, mais curto. Até os anos 80 não havia transmissão de TV às segundas. Reza a lenda urbana que Kádár defendia pessoalmente que não houvesse TV às segundas, para que as pessoas passassem a noite com a família. Contudo, quando eu cumpri o serviço militar obrigatório no Exército Popular da Hungria, as noites de segunda eram oficialmente noites de cinema. Pequenas instalações usavam projetores de filme convencionais, enquanto uma base maior onde servi durante um tempo tinha sua própria programação noturna às segundas, em TV de circuito fechado.

Então... um breve registro pessoal da vida na Hungria nos anos 70, início dos 80, sob o “comunismo goulash”. Não parece ruim, parece? Então porque alguém como eu aos 23 anos iria pegar sua mala, atravessar a Cortina de Ferro, pedir reconhecimento como refugiado e tentar começar uma nova vida do zero no Ocidente?

Ah... Eu fui mimado. Terrivelmente mimado. Veja, no início dos anos 70, quando eu tinha 10 anos, minha mãe decidiu fazer a jornada de uma vida e visitar minha tia, que vivia aqui em Ottawa, Canadá, me trazendo junto.

Não foi fácil. Naquela época, viagens para o Ocidente eram estritamente controladas. Cidadãos comuns podiam viajar uma vez por ano, mas apenas se eles tivesse uma carta de convite válida de alguém como um parente, disposto a sustenta-los no exterior. A economia do país passava por uma crise monetária, então havia limites muito restritos sobre quanto dinheiro um viajante poderia trocar. E quero dizer limites realmente muito restritos; segundo me lembro, o máximo permitido a minha mãe e eu era de 30 dólares (!) para férias de seis semanas. Mas essa era apenas a questão financeira. Os pré-requisitos para obter um visto de saída eram muito restritos. Recebemos a visita de um inspetor de polícia (!) que inspecionou nossa casa e anotou nossas circunstâncias, para garantir que nós não estávamos, na verdade, planejando deixar o país para sempre. No fim, foi um processo de meses para obter um visto de saída antes mesmo de podermos começar a solicitar um visto canadense de entrada e que nossos parentes pudessem comprar nossas passagens (que, obviamente, eles tinham de comprar para nós, pois não recebemos permissão de gastos suficientes para cobrir os custos de nossa viagem).

Mas, finalmente, nós embarcamos num voo da Swissair, de Zurique para Montreal, e chegamos no Canadá em uma tarde de verão quente e úmida.

E aquilo... aquilo era como visitar um outro planeta.

A riqueza! A variedade de carros nas estradas! A variedade de comida e outros produtos nas lojas! A alta tecnologia, como calculadoras eletrônicas! Eu já era um nerd de matemática. O respeito entre as pessoas! A polidez com que você era tratado em todo lugar! Era... impressionante.

Vejam bem, é realmente isso. A vida na Hungria do “comunismo goulash” não era ruim. Era até melhor que tolerável. Mas as pessoas sabiam. Elas sabiam quão melhor podia ser a vida, se não fosse pelas restrições arbitrárias e barreiras artificiais do regime. Elas sabiam o que estava ausente das lojas.

Algumas pessoas encontraram maneiras de ultrapassar as barreiras. Pequenos empreendedores, cujos negócios floresciam dentro dos limites impostos pelo Estado comunista. Meu amigo, que realmente tinha não um, mas dois ótimos e brilhantes BMWs em sua garagem dupla, e que foi uma das primeiras pessoas na Hungria a ter um computador pessoal Commodore-64. Mas até ele teve que esperar muitos, muitos anos para que uma linha telefônica fosse instalada em sua casa; até na cidade de Budapeste (uma das primeiras cidades do mundo, por volta de 1930, a ter uma rede completamente automatizada de telefonia) linhas telefônicas levavam mais de 20 anos para serem realizadas.

Nós chamávamos a Hungria “o mais feliz dos quartéis”. Porque em muitas maneiras (incluindo as condições muito reguladas sob as quais cada um recebia permissão para deixar brevemente o paraíso socialista) ela nos lembrava a vida de soldados em serviço.

Por que o regime era tão terrível? Por que ele desperdiçava potencial humano tão deliberadamente?

Eu culpo a premissa básica da doutrina marxista. A ideia de que o “homem socialista” trabalhará sem compensação até o melhor de suas habilidades, e consumir apenas de acordo com suas necessidades, simultaneamente preocupando-se com as necessidades dos outros. A ideia de que o verdadeiro valor dos bens e serviços é determinado pela quantidade de trabalho envolvida, não pela sua necessidade e por sua escassez.

Uma vez brinquei que se essa doutrina fosse tomada literalmente, o produto de meus esforços no vaso sanitário deveria ser muito valioso, pois eu certamente me esforço bastante para produzi-lo. Embora de gosto duvidoso, esta piada ilustra perfeitamente quão ilógico e mal orientado era o dogma comunista.

Agora muitos tentarão convencer você de que o que teve lugar na Europa Oriental ou na União Soviética não era “verdadeiro” comunismo. Que ele desviara de seus princípios centrais logo no começo, ignorando os avisos de pessoas como Trotsky. Bobagem, eu digo. Quando você repete o mesmo experimento sob diferentes circunstâncias e, de novo e de novo, você obtém o mesmo resultado: um Estado policial totalitário com uma economia ineficaz, é hora de parar para pensar.

Mas talvez mais que qualquer outra coisa, os sucessos do comunismo mencionados acima mostram que esses Estados não abandonaram aqueles princípios comunistas centrais. A razão pelas quais Estados no bloco comunista normalmente tinham bons resultados em áreas como educação e saúde pública é precisamente porque essas são áreas que não podem ser medidas usando apenas estatísticas econômicas. Um sistema eficiente de saúde pública não maximiza lucros e minimiza custos; ele maximiza a saúde da população. De modo similar, um sistema educacional eficiente maximiza níveis de letramento e outros índices de escolaridade, não renda.

Infelizmente, uma sociedade saudável e vibrante exige muito mais que saúde e educação. O que talvez tenha inspirado o dito algo críptico (de origem desconhecida para mim ou para o Google) de que “o socialismo é uma coisa boa, mas numa névoa densa, tarde da noite, o capitalismo pode ser melhor”[1].

Com efeito, lembrem como o grande experimento comunista acabou, no fim, não com uma explosão, mas com um mero gemido. A Hungria abrindo suas fronteiras, em particular permitindo a fuga de cidadãos da Alemanha Oriental. A Alemanha Oriental pega despreparada, primeiro tentando restringir as viagens de seus cidadãos até para “países socialistas irmãos” e depois, apressadamente abrindo suas próprias fronteiras de maneira desordenada, levando ao colapso do Estado e à reunificação alemã. A União Soviética de Gorbachev que, depois de sua derrota no Afeganistão e seus próprios problemas internos, não tinha apetite para intervir militarmente, deixando ainda mais valentes esses Estados satélites, que silenciosa, mas rapidamente, se afastaram de ditaduras monopartidárias. Finalmente, o mal aconselhado e mal preparado golpe tentado por grupos de linha-dura, a falha do qual apressou não apenas o colapso do regime comunista, mas a imprevista fragmentação da própria União Soviética.

Aqueles tempos eram um pouco assustadores. Estavam acontecendo eventos que, em thrillers políticos da era da Guerra Fria, geralmente representavam o caminho para o Armageddon nuclear. Em vez disso, houve apenas algumas mortes, por exemplo, na Romênia e na Lituânia, mas a transição, embora rápida, foi bastante pacífica.

Duas imagens desse período permanecem em minha mente. Primeiro, os incontáveis carros da Alemanha Oriental, Wartburgs e Trabants, abandonados na Hungria, perto da fronteira com a Áustria. Seus proprietários devem ter passado anos, senão décadas, na lista de espera antes de obter esses veículos. No entanto, eles também estavam muito conscientes de que aqueles carros eram lixo sem valor no mercado livre. Eu vi isso como um símbolo: como os regimes comunistas desperdiçaram o trabalho, o talento, a criatividade e a vida das pessoas. Essa impressão foi reforçada quando apareceram imagens do protótipo do primeiro ônibus espacial soviético sendo transformado em atração de um parque de diversões, apenas para ser seguida pela visão ainda mais trágica de um hangar mal conservado desabando em cima do próprio ônibus espacial, que realizara um voo espacial não tripulado, mas que nunca tivera a chance de levar cosmonautas ao espaço.

Esse era o problema com o comunismo. É simplesmente um projeto com fundamentos falhos**[2]. Você pode remendar aqui e ali, tentando governar através da polícia secreta, jogando gente em campos de reeducação, instilando terror e um sistema ditatorial de liderança, mas nada disso consertará um sistema se sua premissa básica tiver uma falha profunda. Por outro lado, você pode manter tudo acima: a polícia secreta, os campos de prisioneiros, a ditadura monopartidária, contanto que você jogue fora a doutrina marxista defeituosa e a substitua por uma economia de mercado funcional, como foi feito na China e no Vietnã.



E isso também pode explicar porque as falhas do comunismo são rapidamente esquecidas por gente que se encontrou no lado perdedor do capitalismo frequentemente selvagem que se seguiu ao colapso soviético. De que servem lojas cheias de produtos se você não tem dinheiro para compra-los? Por que você deveria se consolar com condomínios de luxo quando você é expulso do pequeno e desconfortável apartamento onde você cresceu? Por que você deveria se impressionar com um novíssimo aparelho de ressonância magnética quando seus dentes estão apodrecendo porque você não tem meios de pagar um dentista? E se você lembra (ou sabe pela lembrança de seus pais ou avós) como era quando o direito a sua residência era garantido pelo Estado, quando a cesta básica estava sempre disponível a preços que até aqueles de menor renda podiam pagar, quando atendimento médico era realmente universal e gratuito... você não se sentiria nostálgico? Você não sentiria inclinado a ferchar os olhos para a natureza totalitária do regime que garantia tudo isso, mesmo com suas ineficiências e falhas manifestas?



No fim das contas, o que é melhor: um Tesla Roadster que você não pode comprar, ou um Zighuli desajeitado e sedento de gasolina, mas confiável, que você pode adquirir, mesmo que ele não tenha câmbio automático?






[1] Desde então eu perguntei a minha mãe sobre esse dito. Ela acredita que ouviu isso no rádio nos anos 60, em um programa de sátira política (sim, havia sátira política no “comunismo goulash”). Era uma piada envolvendo uma conversa entre dois pequenos empreendedores bem-sucedidos, óbvios beneficiários do regime. Um deles se queixa: “Você sabe, quando eu dirijo por aquela grande avenida de Budapeste em uma névoa densa, numa noite escura, eu sempre me perco. Antes da guerra, você podia identificar onde estava pelas placas de lojas conhecidas. Mas hoje? Todas as placas de lojas estatais são iguais e você nunca sabe onde está; todas as esquinas parecem iguais”. Seu amigo concorda e responde: “Sim, acho que você está certo. Porque o socialismo é uma coisa boa. Mas numa névoa densa, tarde da noite, o capitalismo é melhor”.


[2] Alguém, em uma conversa, sugeriu que sou um anticomunista juramentado. Não sou. Eu vivi sob o comunismo e não gosto dele, apenas isso. Eu hoje vivo no capitalista Canadá. Eu não sou cego às falhas desta sociedade, mas é uma sociedade incomparavelmente mais decente. Mas às vezes nós toleramos as falhas de uma sociedade fundamentalmente boa menos que aquelas de uma sociedade defeituosa desde a base. Uma outra piada me vem à cabeça, esta de um livro do imortal (não realmente; ele morreu de tifo em um batalhão de trabalho forçado em 1943, onde ele foi recrutado devido a sua ascendência judaica) Jenö Reitö, cujos romances, em sua maioria escritos nos anos 30 e muitos deles passados na Legião Estrangeira Francesa, são deliciosas leituras ainda hoje, engraçados como os de Douglas Adams. Esta piada envolve um cozinheiro gourmet que acaba em um batalhão penal, mas depois se encontra em uma base onde acontece um cambalacho colossal. Para manter os prisioneiros quietos, no entanto, eles são mantidos em conforto, o que inclui acesso a comidas luxuosas. O protagonista acaba enrascado de qualquer maneira, e quando seus amigos perguntam por que, ele responde: “Lá em Manson [cidade africana fictícia], eles apenas cozinhavam comida de má qualidade. Isso posso tolerar. Mas aqui, eles cozinham mal comida de boa qualidade, e isso é insuportável”.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Getúlio Vargas e o Brasil na II Guerra Mundial

Extratos do livro Uma História do Brasil, de Thomas Skidmore

Em torno de 1934, o tipo de confronto geopolítico europeu já estava se tornando claro. A Alemanha nazista tinha seus olhos não apenas em seus vizinhos europeus, mas também sobre a crescente influência no Hemisfério Ocidental. Ela identificava o Brasil como um importante parceiro comercial e começava a exercer influência sobre essa relação bilateral, por meio de um mecanismo que consistia numa moeda alemã especial usada para pagar pelas exportações brasileiras, que podia ser resgatada apenas pela compra de exportações alemãs, criando uma forma de comércio amarrado. [...] Entretanto, os alemães estavam interessados em mais do que comércio. Eles também queriam atrair o Brasil para a sua esfera político-militar, e cultivavam sistematicamente a amizade com oficiais do Exército brasileiro, conhecidos como admiradores da destreza militar alemã, bem como ofereciam ao Brasil armas e treinamento técnico. Do mesmo modo que no período pré-Primeira Guerra Mundial, o governo dos EUA preocupava-se com essa estratégia alemã, tendo o Departamento de Estado denunciado a política comercial alemã como discriminatória. Os militares americanos tentaram agir contra as ofertas alemãs de armas e treinamento, mas fracassaram neste esforço. Getúlio havia tentado obter equipamento militar americano antes, mas o Congresso dos EUA, um corpo bastante isolacionista durante a década de 1930, proibira a venda de armas no exterior pelos Estados Unidos.

[...]

A opinião pública brasileira era o alvo em uma batalha sobre que lado apoiar na guerra que se aproximava na Europa. O sentimento da elite favorecia fortemente os Aliados por razões culturais, e, até sua supressão em 1935, os comunistas também haviam sido eficazes em promover opiniões antinazistas. Mas alguns brasileiros, como em 1914, eram favoráveis à Alemanha, não obstante os laços culturais históricos.

Getúlio mostrava-se inclinado a procurar os Estados Unidos para laços militares, tentando, como já citamos, comprar armas deles antes de se voltar para a Alemanha. Em 1937 ele também oferecera ao presidente Roosevelt o uso de bases litorâneas no Brasil, oferta esta que foi recusada, presumivelmente porque Roosevelt não podia permitir-se contrariar o Congresso isolacionista, dando a impressão que se preparava para a guerra. E uma oferta brasileira de comprar destroieres excedentes dos EUA foi igualmente recusada quando as autoridades americanas cederam aos protestos da Argentina contra a venda. Quando a guerra finalmente eclodiu em 1939, Getúlio e seus generais, lembrando essas rejeições, preferiram permanecer neutros até que os Estados Unidos estivessem preparados para pagar um preço justo pelo apoio brasileiro. Além disso, os brasileiros continuavam a cultivar relações com as potências do Eixo como parte do jogo de usá-las contra os Estados Unidos.

O Brasil não declarou guerra até meados de 1942, quando os que estavam em cima do muro puderam ver que a sorte militar havia virado para o lados dos Aliados. A invasão da Rússia em 1941 havia apanhado a Wermacht em um feroz inverno russo, e os submarinos alemães sofriam pesadas perdas na batalha do Atlântico. O Brasil não podia esperar mais se pretendia obter alguma compensação atraente por entrar na guerra.

O Brasil tinha ao menos dois trunfos de que os Aliados precisavam. Um era matéria-prima, incluindo borracha natural, quartzo (essencial para comunicações por rádio) e outros minerais. O outro era seu litoral, que oferecia bases aéreas e marítimas em pontos estratégicos no Oceano Atlântico. Getúlio conseguiu um acordo atraente, pelo qual o país concordava em fornecer a matéria-prima e as bases aos EUA, apenas em troca de equipamento militar, assistência técnica e financiamento para uma usina siderúrgica brasileira (localizada em Volta Redonda). Essa aliança fez do Brasil o mais evidente parceiro latino-americano dos Estados Unidos na guerra. Além disso, estabelecia precedente para o apoio do governo americano à industrialização de base em um país do Terceiro Mundo.

Em 1941 Getúlio começou a mover-se em direção aos Aliados ao aprovar um projeto da Pan American Airways (sob contrato do exército dos EUA) para modernizar aeroportos no Norte e Nordeste. Em janeiro de 1942, na conferência do Rio de Janeiro, onde o apoio latino-americano para a entrada na guerra agora prevalecia, graças ao ataque japonês a Pearl Harbor, o Brasil rompeu ostensivamente com o Eixo. O ingresso do Brasil na guerra tinha uma importante implicação para a política interna. A decisão de unir-se às democracias era um golpe contra os autoritaristas que alegavam que a democracia não tinha lugar no Brasil, e supunham que Getúlio concordava com eles. Este e seus generais, ao questionarem essa suposição, estavam montando o cenário para um debate que iria terminar com o fim da ditadura getulista.

Com a entrada do Brasil na guerra, uma onda de funcionários norte-americanos, tanto militares como civis, veio ao Brasil. [...] Em 1943, brasileiros e norte-americanos construíram uma rede de modernas bases militares aéreas e marítimas no litoral do Nordeste.

Junto com a ofensiva militar dos EUA no Brasil veio uma ofensiva cultural. O presidente Roosevelt designou o multimilionário Nelson Rockefeller para dirigir um novo escritório cujo objetivo era promover a melhoria das relações culturais com a América Latina, tendo o Brasil como alvo principal. O escritório de Rockefeller recrutou talentos como Orson Welles e Walt Disney para fazerem filmes voltados ao fortalecimento da opinião pró-EUA.

[...]

Por trás dessas atividades jaziam objetivos d elongo prazo dos EUA: sendo um deles o aumento de sua penetração econômica no país. Embora o investimento norte-americano no Brasil já superasse o investimento britânico, investidores norte-americanos ansiavam por novos progressos. [...] A colaboração durante a guerra oferecia uma base excelente para a ofensiva econômica norte-americana posterior. Aviões norte-americanos passaram a dominar não apenas o uso militar, mas também o civil.

[...]

O desejo de Getúlio de identificar o Brasil com a causa dos Aliados levou-o a oferecer três divisões do Exército brasileiro, cujos oficiais se entusiasmaram com a ideia, para combater os alemães no cenário de guerra do Mediterrâneo. Getúlio tinha dois importantes propósitos ao insistir no papel militar brasileiro: um era enfatizar a posição do Brasil como único país latino-americano a enviar forças terrestres sob sua própria bandeira para a guerra [...]; e o segundo era despertar o orgulho brasileiro e dar ao público uma razão patriótica para apoiar o governo.

Para enfatizar que se tratava de um esforço nacional, Getúlio queria efetivos recrutados por todo o país e insistiu para que todo estado fosse representado, independentemente da qualidade dos recrutas locais. A força resultante era altamente heterogênea, carecendo de treinamento comum e desprovida por completo de experiência de combate. [...] Os comandantes [brasileiros] esperavam combater na África do Norte, portanto as tropas receberam uniformes de verão, mas a Força Expedicionária Brasileira, ou FEB, foi designada para operar com o Quinto Exército dos EUA, que combatia contra a renhida defesa alemã em terrenos montanhosos ao norte de Roma, exatamente quando se iniciava um rigoroso inverno. Os brasileiros foram lançados à batalha com a missão de escalar um precipício no qual os alemães estavam com os canhões em posição dominante. Apanhados no fogo cerrado, sofreram pesadas baixas e retiraram-se desordenadamente.

Embora difícil de surpreender, [...] o fracasso nesse primeiro combate foi extremamente perturbador para os comandantes brasileiros, que recorreram aos norte-americanos para ajuda e orientação. As tropas nacionais passaram por rápido retreinamento e logo retornaram ao combate. Seu desempenho foi significativamente melhor, e eles ajudaram a capturar Monte Cassino, o monastério histórico que assinalava a principal posição alemã. O registro do combate brasileiro na Itália tornou-se ulteriormente objeto de amarga controvérsia: os relatos oficiais enfatizavam o autêntico heroísmo depois do retreinamento, mas os críticos (incluindo alguns oficiais brasileiros) enfatizavam o fracasso inicial pelo qual eles injustamente culpavam comandantes incompetentes.

O engajamento do Brasil no combate deixou um legado significativo. Primeiro, forneceu uma base para a reivindicação do país de um papel importante no pós-guerra [...]. Segundo, o envio da força expedicionária aumentou imensamente o prestígio do Exército brasileiro. Como os únicos latino-americanos a terem lutado na Europa, os brasileiros podiam manter a cabeça erguida entre os Aliados. Terceiro, o combate conjunto na Itália fortaleceu os laços entre os militares norte-americanos e brasileiros, mesmo considerando-se que o Brasil permanecia claramente como o sócio menor.

Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, Rio de Janeiro

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

"Doutores", cidadãos e "elementos" no Brasil

Extrato de Cidadania no Brasil - O longo caminho, de José Murilo de Carvalho

"A parcela da população que pode contar com a proteção da lei é pequena, mesmo nos grandes centros. Do ponto de vista da garantia dos direitos civis, os cidadãos brasileiros podem ser divididos em classes. Há os de primeira classe, os privilegiados, os 'doutores' que estão acima da lei, que sempre conseguem defender seus interesses pelo poder do dinheiro e do prestígio social. Os 'doutores' são invariavelmente brancos, ricos, bem-vestidos, com formação universitária. São empresários, banqueiros, grandes proprietários rurais e urbanos, políticos, profissionais liberais, altos funcionários. Frequentemente, mantêm vínculos importantes nos negócios, no governo, no próprio Judiciário. Esses vínculos permitem que a lei só funcione em seu benefício. Em um cálculo aproximado, poderiam ser considerados 'doutores' os 8% das famílias que, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 1996, recebiam mais de 20 salários mínimos. Para eles, as leis não existem ou podem ser dobradas.

Ao lado dessa elite privilegiada, existe uma grande massa de 'cidadãos simples', de segunda classe, que estão sujeitos aos rigores e benefícios da lei. São a classe média modesta, os trabalhadores assalariados com carteira de trabalho assinada, os pequenos funcionários, os pequenos proprietários urbanos e rurais. Podem ser brancos, pardos ou negros, têm educação fundamental completa e o segundo grau, em parte ou todo. Essas pessoas nem sempre têm noção exata de seus direitos, e quando a têm carecem dos meios necessários para os fazer valer, como o acesso aos órgãos e autoridades competentes, e os recursos para custear demandas judiciais. Frequentemente, ficam à mercê da polícia e de outros agentes da lei que definem na prática que direitos serão ou não respeitados. Os 'cidadãos simples' poderiam ser localizados nos 63% das famílias que recebem entre acima de dois a 20 salários mínimos. Para eles, existem os códigos civil e penal, mas aplicados de maneira parcial e incerta.

Finalmente, há os 'elementos' do jargão policial, cidadãos de terceira classe. São a grande população marginal das grandes cidades, trabalhadores urbanos e rurais sem carteira assinada, posseiros, empregadas domésticas, biscateiros, camelôs, menores abandonados, mendigos. São quase invariavelmente pardos ou negros, analfabetos, ou com educação fundamental incompleta. Esses 'elementos' são parte da comunidade política nacional apenas nominalmente. Na prática, ignoram seus direitos civis ou os têm sistematicamente desrespeitados por outros cidadãos, pelo governo, pela polícia. Não se sentem protegidos pela sociedade e pelas leis. Receiam o contato com agentes da lei, pois a experiência lhes ensinou que ele quase sempre resulta em prejuízo próprio. Alguns optam abertamente pelo desafio à lei e pela criminalidade. Para quantificá-los, os 'elementos' estariam entre os 23% de famílias que recebem até dois salários mínimos. Para eles vale apenas o Código Penal".

sábado, 12 de setembro de 2015

Livros queimados e outros atos de barbárie

Extrato do discurso do Capitão Beatty no visionário Fahrenheit 451, clássico de Ray Bradbury, que em 1953 imaginava um futuro onde a função dos bombeiros (firemen) não seria apagar incêndios, mas queimar livros...

"Todo bombeiro, cedo ou tarde, passa por isso. Eles só precisam compreender, saber como as rodas giram. Precisam conhecer a história de nosso ofício. Essa história não é contada para os recrutas, como costumavam fazer. Uma grande lástima. [...] Hoje, só os bombeiros-chefes se lembram disso. [...]

Você pergunta: quando tudo começou, esse nosso trabalho, como surgiu, onde, quando? Bem, eu diria que ele realmente começou por volta de uma coisa chamada Guerra Civil, embora nosso livro de regras afirme que foi mais cedo. O fato é que não tivemos muito papel a desempenhar até a fotografia chegar à maioridade. Depois, veio o cinema, no início do século vinte. O rádio. A televisão. As coisas começaram a possuir massa. [...]

E porque tinham massa, ficaram mais simples. [...] Antigamente, os livros atraíam algumas pessoas, aqui, ali, por toda parte. Elas podiam se dar ao luxo de ser diferentes. O mundo era espaçoso. Entretanto, o mundo se encheu de olhos, cotovelos e bocas. A população duplicou, triplicou, quadruplicou. O cinema e o rádio, as revistas e os livros, tudo isso foi nivelado por baixo, está me acompanhando? [...]

Imagine o quadro. O homem do século dezenove com seus cavalos, cachorros, carroças, câmera lenta. Depois, no século vinte, acelere sua câmera. Livros abreviados. Condensações. Resumos. Tablóides. Tudo subordinado às gags, ao final emocionante. [...]

Clássicos reduzidos para se adaptarem a programas de rádio de quinze minutos, depois reduzidos novamente para uma coluna de livro de dois minutos de leitura, e, por fim, encerrando-se num dicionário, num verbete de dez a doze linhas. Estou exagerando, é claro. Os dicionários serviam apenas de referência. Mas, para muitos, o Hamlet, certamente você conhece o título, Montag; provavelmente a senhora ouviu apenas uma vaga menção ao título, senhora Montag, o Hamlet não passava de um resumo de uma página num livro que proclamava: Agora você finalmente pode ler todos os clássicos; faça como seus vizinhos. Está vendo? Do berço até a faculdade e de volta até o berço; este foi o padrão intelectual nos últimos cinco séculos ou mais. [...]

Acelere o filme, Montag, rápido. Clique, Fotografe, Olhe, Observe, Filme, Aqui, Ali, Depressa, Passe, Suba, Desça, Entre, Saia, Por Quê, Como, Quem, O Quê, Onde, Hein?, Ui! Bum! Tchan! Póin, Pim, Pam, Pum! Resumos de resumos, resumos de resumos de resumos. Política? Uma coluna, duas frases, uma manchete! Depois, no ar, tudo se dissolve! A mente humana entra em turbilhão sob as mãos dos editores, exploradores, locutores de rádio, tão depressa que a centrífuga joga fora todo pensamento desnecessário, desperdiçador de tempo! [...]

A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas? [...] O zíper substituiu o botão e o homem não tem muito tempo para pensar ao se vestir pela manhã; uma hora filosófica e, por isso, melancólica. [...] A vida se torna um grande tombo de bunda no chão, Montag; tudo é pum, rá e uau! [...]

Tirar tudo dos teatros, exceto os palhaços, e instalar nas salas paredes de vidro e nelas fazer passar muitas cores alegres, como confetes, sangue, vinho tinto ou branco. Você gosta de beisebol, não gosta, Montag? [...] Mais esporte para todos, espírito de grupo, diversão, e não se tem de pensar, não é? Organizar, tornar a organizar e superorganizar super-superesportes. Mais ilustrações nos livros. Mais figuras. A mente bebe cada vez menos. Impaciência. Rodovias cheias de multidões que vão pra cá, pra lá, a toda parte, a parte alguma. Os refugiados da gasolina. Cidades se tornam motéis, as populações em surtos nômades, de um lugar para o outro, acompanhando as fases da lua, vivendo esta noite no quarto onde você dormiu hoje até o meio-dia e eu a noite passada. [...]

Agora tomemos as minorias de nossa civilização, certo? Quanto maior a população, mais minorias. Não pise no pé dos amigos dos cães, dos amigos dos gatos, dos médicos, advogados, comerciantes, patrões, mórmons, batistas, unitaristas, chineses de segunda geração, suecos, italianos, alemães, texanos, gente do Brooklyn, irlandeses, imigrantes do Oregon ou do México. Os personagens desse livro, dessa peça, desse seriado de tevê não pretendem representar pintores, cartógrafos, engenheiros reais. Lembre-se, Montag, quanto maior seu mercado, menos você controla a controvérsia! Todas as menores das menores minorias querem ver seus próprios umbigos, bem limpos. Autores cheios de maus pensamentos, tranquem suas máquinas de escrever! Eles o fizeram. As revistas se tornaram uma mistura insossa. Os livros, assim diziam os malditos críticos esnobes, eram água de louça suja. Não admira que parassem de ser vendidos, disseram os críticos. Mas o público, sabendo o que queria, com a cabeça no ar, deixou que as histórias em quadrinhos sobrevivessem. E as revistas de sexo em 3D, é claro. Aí está, Montag. A coisa não veio do governo. Não houve nenhum decreto, nenhuma declaração, nenhuma censura como ponto de partida. Não! A tecnologia, a exploração das massas e a pressão das minorias realizaram a façanha, graças a Deus. Hoje, graças a elas, você pode ficar o tempo todo feliz, você pode ler os quadrinhos, as boas e velhas confissões ou os periódicos profisssionais.

-Sim, mas onde entras os bombeiros nisso tudo? - perguntou Montag.

-Ah - Beatty inclinou-se, varando a rala névoa de fumaça de seu cachimbo. - Nada mais simples e fácil de explicar! Com a escola formando mais corredores, saltadores, fundistas, remendadores, agarradores, detetives, aviadores e nadadores em lugar de examinadores, críticos, conhecedores e criadores imaginativos, a palavra "intelectual", é claro, tornou-se o palavrão que merecia ser. Sempre se teme o que não é familiar. Por certo você se lembra do menino de sua sala na escola que era excepcionalmente "brilhante", era quem sempre recitava e dava as respostas enquanto os outros ficavam sentados com cara de cretinos, odiando-o. E não era esse sabichão que vocês pegavam para cristo depois da aula? Claro que era. Todos devemos ser iguais. Nem todos nasceram livres e iguais, como diz a Constituição, mas todos se fizeram iguais. Cada homem é a imagem de seu semelhante e, com isso, todos ficam contentes, pois não há nenhuma montanha que os diminua, contra a qual se avaliar. Isso mesmo! Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma. Façamos uma brecha no espírito do homem. Quem sabe quem poderia ser alvo do homem lido? Eu? Eu não tenho estômago para eles, nem por um minuto. E assim, quando as casas finalmente se tornam à prova de fogo, no mundo inteiro [...], já não há mais necessidade de bombeiros para os velhos fins. Eles receberam uma nova missão, a guarda de nossa paz de espírito, a eliminação de nosso compreensível e legítimo senso de inferioridade: censores, juízes e carrascos oficiais. Eis o nosso papel, Montag, o seu e o meu. [...]

Você precisa entender que nossa civilização é tão vasta que não podemos permitir que nossas minorias sejam transtornadas e agitadas. Pergunte a si mesmo: O que queremos nesse país, acima de tudo? As pessoas querem ser felizes, não é certo? Não foi o que você ouviu durante toda a vida? Eu quero ser feliz, é o que diz todo mundo. Bem, elas não são? Não cuidamos para que sempre estejam em movimento, sempre se divertindo? É para isso que vivemos, não acha? Para o prazer, a excitação? E você tem de admitir que nossa cultura fornece as duas coisas em profusão. [...]

Os negros não gostam de Little Black Sambo. Queime-o. Os brancos não se sentem bem em relação à Cabana do Pai Tomás. Queime-o. Alguém escreveu um livro sobre o fumo e o câncer de pulmão? As pessoas que fumam lamentam? Queimemos o livro. Serenidade, Montag. Paz, Montag. Leve sua briga lá para fora. Melhor ainda, para o incinerador. Os enterros são tristes e pagãos? Elimine-os também. Cinco minutos depois que uma pessoa morreu, ela está a caminho do Grande Crematório, os incineradores atendidos por helicópteros em todo o país. Dez minutos depois da morte, um homem é um grão de poeira negra. Não vamos ficar arengando os in memoriam para os indivíduos. Esqueça-os. Queime tudo, queime tudo. O fogo é luminoso e o fogo é limpo. [...]

Não se pode construir uma casa sem pregos e madeira. Se você não quiser que se construa uma casa, esconda os pregos e a madeira. Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum. Deixe que ele se esqueça de que há uma coisa como a guerra. Se o governo é ineficiente, despótico e ávido por impostos, melhor que ele seja tudo isso do que as pessoas se preocuparem com isso. Paz, Montag. Promova concursos em que vençam as pessoas que se lembrarem da letra das canções mais populares ou dos nomes das capitais dos estados ou de quanto foi a safra de milho do ano anterior. Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com "fatos" que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente "brilhantes" quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia. Todo homem capaz de desmontar um telão de tevê e montá-lo novamente, e a maioria consegue, hoje em dia está mais feliz que qualquer homem que tenta usar a régua de cálculo, medir e comparar o universo, que simplesmente não será medido ou comparado sem que o homem se sinta bestial e solitário. Eu sei porque já tentei. Para o inferno com isso! Portanto, que venham seus clubes e festas, seus acrobatas e mágicos, seus heróis, carros a jato, motogiroplanos, seu sexo e heroína, tudo o que tenha a ver com reflexo condicionado. Se a peça for ruim, se o filme não disser nada, estimulem-me com o teremim, com muito barulho. Pensarei que estou reagindo à peça, quando se trata apenas de uma reação tátil à vibração. Mas não me importo. Tudo que peço é um passatempo sólido".

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Quero menos

Consumimos demais. Para isso, produzimos demais, e então trabalhamos demais, poluímos demais e vivemos de menos.

Precisamos de muito menos. Consumir menos, para produzir, trabalhar e poluir menos. E então nossa vida será muito, muito mais!

Como dizia Gandhi, "a civilização, no sentido real da palavra, não consiste na multiplicação, mas na vontade de espontânea limitação das necessidades. Só essa espontânea limitação acarreta a felicidade e a verdadeira satisfação".

Quero menos!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Eles

Eu tenho medo. Muito medo.


Eles são muito perigosos. Eles são violentos e cruéis. Eles odeiam nossa civilização, Eles odeiam nossos valores. Eles querem destroçar, esmagar e queimar tudo que amamos. Eles desejam matar nossos anciãos, estuprar nossas mulheres, escravizar nossas crianças. Eles sonham em dançar sobre nossos túmulos.


Por que Eles nos odeiam tanto?

Eu tenho medo. Muito medo.


De dia, Eles perturbam meus pensamentos. À noite, Eles povoam meus pesadelos. Eu sei, eles estão lá, em seus esconderijos, planejando dia e noite como acabar conosco. Eles tramam suas teias como aranhas famintas e maldosas. Eu sei, eu sei. De dia, Eles pensam em nossa destruição; à noite, Eles sonham com nossa ruína.


Por que Eles nos odeiam tanto?

Eu tenho medo. Muito medo.



Precisamos fazer alguma coisa, antes que Eles nos destruam. Temos que agir mais rápido que Eles, temos que atacar primeiro. É a única maneira de sobreviver, de evitar nosso fim, de preservar nossa civilização, nossas crenças, nossos valores. A guerra é a única solução contra Eles. É lamentável, eu sei, mas Eles não deixam outra escolha. Não é possível dialogar com Eles. Eles são irracionais, perversos, traiçoeiros. Alguns entre nós discordam... Cegos... Sonhadores... Traidores! A guerra é terrível, mas necessária. Quem não está conosco, está com Eles, está contra nós. Contra Nós!


Por que Eles nos odeiam tanto?

Imagens: Detonação da bomba de Hiroshima (1945); Massacre de São Bartolomeu (Paris, 1572); Holocausto; Cruzadas; Perdas territoriais palestinas; Atentados do 11 de Setembro (2001)

sábado, 23 de agosto de 2014

Gentalha - Seu Madruga e a violência na América Latina

Como já discuti em outros posts, a querida vila do Chaves me parece um ótimo reflexo das dinâmicas sociais na América Latina. Ultimamente tenho prestado bastante atenção às representações da violência na obra de Bolaños; por sinal, a "boa vizinhança" é ambiente extremamente violento, em que pese a estética caricata e estilizada sob a qual essa violência se apresenta. A priori, vale ainda observar que o seriado apresenta normalmente dois tipos de agressão, que podemos classificar respectivamente como intencional e acidental. Como veremos, essa distinção é bastante relevante.

Recentemente me dei conta de um detalhe revelador: Seu Madruga é o fulcro da violência em Chaves, através do qual se articulam as agressões intencionais praticadas na vila, atuando como ponto de convergência entre o mundo das crianças e o dos adultos. Recontrapuxa!

Comecemos pelo mundo dos adultos. Não são incomuns as agressões entre adultos em Chaves, mas na maior parte das vezes são acidentais - como o significativo beliscão do Prof. Girafales em Dona Clotilde (cujas conotações sexuais não pretendo discutir aqui) ou as eventuais pancadas de Dona Florinda em Seu Barriga ou Prof. Girafales. O único adulto agredido de forma intencional e consistente é Seu Madruga: pelos mais variados motivos, o pobre homem já apanhou de praticamente todos os adultos da série, como Prof. Girafales, Seu Barriga, Dona Glória e até mesmo da apaixonada "Bruxa do 71"; sua principal agressora, desnecessário lembrar, é Dona Florinda. E lembremos: ela bate nele por ser gentalha. Homem pobre, sem instrução e habitualmente desempregado (por opção), Seu Madruga é por excelência a vítima de agressões no mundo dos adultos.

Certa situação é particularmente elucidativa: em determinado episódio, Seu Barriga agride Quico acidentalmente, mas, como de costume, Dona Florinda reage batendo em Seu Madruga. O equívoco é desfeito logo depois, mas a zelosa mãe não pede desculpas, apenas murmurando entre dentes que "errar é humano". Ainda mais sugestivo é o fato de, devidamente esclarecida, ela não agredir Seu Barriga. O pobre Madruga é passível de agressão, mas não Barriga, proprietário do cortiço; ele não é gentalha. Não é difícil perceber o paralelo com a violência nas sociedades latino-americanas.


Quando passamos ao mundo das crianças, a situação se inverte: Seu Madruga é o principal agressor adulto. São raras as ocasiões em que outros adultos batam nas crianças, mas ele distribui pancadas entre Chiquinha, Quico e Chaves. Por vezes suas agressões são muito violentas, como os murros que aplica na cabeça de Chaves ou quando apaga um cigarro (!) na mão de Quico. Ora, Seu Madruga raramente reage à violência dos adultos, mas canaliza sua raiva para as crianças - lembrando as reflexões de Foucault sobre a "microfísica do poder". Também não é situação muito diferente do que vivenciamos na América Latina - geralmente a corda arrebenta para o lado dos mais frágeis socialmente, especialmente as crianças e mulheres; o quadro muitas vezes se agrava entre as camadas menos instruídas da população. E, de fato, não são raros os episódios em que Seu Barriga e principalmente o Prof. Girafales repreendem Seu Madruga, homem menos "esclarecido", pela violência que usa contra as crianças. Reside aí profunda ironia, já que os mesmos não se poupam de agredir o próprio Madruga, e muito menos se incomodam com a cruzada de Dona Florinda contra a gentalha. Pelo contrário, em algumas situações Prof. Girafales aconselha sua amada a não bater no pobre homem apenas para não "sujar suas mãos com semelhante porcaria".

No entanto, a relação de Seu Madruga com o mundo infantil é marcada por outra inversão: a única criança que agride deliberadamente um adulto é Quico; ainda por cima, essa violência é praticada de modo sistemático. "Gentalha, gentalha!" - os gritos do menino não poderiam ser mais expressivos. Desde criança, Quico aprende que a gente "da alta" pode bater na gentalha. Por sinal, a violência exercida pelo garoto é extremamente significativa, à medida que em muitas ocasiões ele sabe que Seu Madruga é inocente, mas o agride instintivamente ao ouvir as palavras mágicas de sua mãe: "Vamos, Quico...". Em muitas situações a violência de Dona Florinda contra Seu Madruga é gratuita, e o filho a segue pelo mesmo caminho. Seu Madruga, Quico e Dona Florinda constituem o tripé que sustenta a violência em Chaves, numa dinâmica estribada nas relações sociais tensas vividas na América Latina. Na verdade, vejo Quico como um menino de bom coração, mas que recebe de sua mãe uma educação extremamente preconceituosa, arrastado a um precoce aprendizado da violência - nesse sentido, vale lembrar algumas observações de Gilberto Freyre no clássico Casa-grande & senzala.


Concluo esse já longo texto lembrando uma das cenas mais belas, brutais e pungentes do seriado. Em certo episódio, Chaves faz um comentário jocoso a respeito de Dona Florinda, provocando risos descontrolados em Seu Madruga. A mulher bate nele repetidas vezes, com agressividade crescente, mas o homem continua gargalhando, com intensidade cada vez maior, indiferente à violência de que é vítima. Irritada e cansada, Dona Florinda se retira, acompanhada por Quico - não sem seu habitual "gentalha, gentalha"! Seu Madruga continua rindo, triunfante. Há um quê de metalinguístico nessa cena, onde o seriado humorístico celebra a gargalhada vitoriosa contra a violência, o espírito inabalável ante a força, o riso em seu pleno potencial libertador.

Possa a gentalha latino-americana rir cada vez mais escancaradamente na cara dos tiranos de plantão.

domingo, 10 de agosto de 2014

A sociedade dos invejosos

Há mais de um ano tenho observado certa tendência na cultura cotidiana, através das conversas de meus alunos, de diálogos entreouvidos nos transportes coletivos, da publicidade e mesmo do tal funk ostentação (que todos temos o desprazer de conhecer): estamos vivendo numa cultura obcecada pela inveja. Volta e meia vejo pessoas se queixando de que são invejadas por fulano ou beltrano, pelos motivos mais diversos e mais estapafúrdios. Obviamente não se trata de novidade, mas creio que estamos atingindo um nível patológico.

Em que pese o tom quase sempre queixoso, tenho a nítida impressão de que muitas pessoas desejam provocar inveja em terceiros e se sentem (quase) secretamente lisonjeadas por esses sentimentos. De fato, nossa cultura me parece nutrir e estimular um desejo vagamente consciente e inconfessável por ser invejável e, de preferência, invejado. Nessa escala de valores, a inveja alheia quase equivale a uma homenagem involuntária, certidão pública de sucesso - não ser invejado por ninguém equivale a um fracasso na sociedade de ostentação.

Não é difícil relacionar essa tendência ao estímulo da publicidade e das mídias sociais. Por um lado, a inveja sempre foi muito usada na propaganda - lembram da tesourinha do Mickey? Por outro lado, as redes sociais e suas dinâmicas de superexposição e autopromoção constituem outro impulsionador - muita gente busca essas redes mais para ser visto que para ver; cada foto postada implora por atenção, admiração e, no limite, inveja.

No fundo, tudo isso nos remete à questão sempre presente do culto e cultivo intensivo da imagem pessoal, que se torna cada vez mais o frágil sustentáculo da autoimagem e da autoestima. A inveja do outro se torna mais um dos espelhos de Narciso buscados com tanta avidez pela gente de nosso tempo. Não à toa a propaganda de certo automóvel atualmente veiculada usa o slogan: "O carro onde você quer se ver"...

E aí entra outra questão problemática: a inveja é sentimento raramente confessado e declarado abertamente; o (suposto) invejoso é quase sempre imaginado como tal pelo (suposto) invejado, sem muita objetividade. Em suma, as pessoas estão neuróticas por um sentimento cuja existência social só se manifesta publicamente em terceira pessoa.

Concluindo, nessa cultura de espetacularização da vida privada e da imagem pessoal, inveja e exibicionismo caminham lado a lado - Freud provavelmente explica...

domingo, 3 de agosto de 2014

Brasil: entre ditadura e tirania

Por razões óbvias, o termo "ditadura" ocupa lugar de destaque no vocabulário politico brasileiro. No entanto, já faz algum tempo que o termo me incomoda, como uma muleta conceitual que muitas vezes limita nossos debates e obscurece diversas questões.

De fato, há poucos anos tive a oportunidade de assistir excelente conferência do Prof. Mario Turchetti em que ele criticava justamente o empobrecimento do léxico político contemporâneo, que poderia ser enriquecido e revitalizado pelo reencontro com tradições mais antigas do pensamento ocidental. É justamente o que proponho aqui: recuperar a noção de "tirania" para pensar o contexto brasileiro atual.

A meu ver, um dos maiores inconvenientes da terminologia em torno de "ditadura" é seu forte teor legalista, que só nos deixa duas opções: ou temos um contexto em que o sistema legal e político se configura claramente como uma ditadura, ou usamos a noção como mera figura de linguagem, cada vez mais empobrecida de significados.

A noção de "tirania" me parece apontar caminhos para além desse dilema. Como observa Arlette Jouanna, trata-se de problema muito discutido desde a Antiguidade até a Idade Moderna. É interessante observar que a escolástica medieval, especialmente João de Salisbury e Tomás de Aquino, teve o cuidado de diferenciar dois gêneros de tirania: existiriam o "tirano de usurpação" e o "tirano de exercício".

A tirania por usurpação seria caracterizada pela tomada violenta e ilegítima do poder, aproximando-se assim da ideia de ditadura justamente pela ênfase nos aspectos legais. Por outro lado, a tirania por exercício se dá quando uma autoridade legalmente instituída realiza mau exercício do poder, levando-nos da problemática legalista à problematização moral.

Nesse sentido, me parece rico pensar o contexto atualmente vivido no Brasil como uma tirania por exercício, à medida que nossas autoridades eleitas dentro das leis vigentes vêm nitidamente usando seu poder em detrimento dos direitos civis e políticos dos cidadãos, especialmente através de inúmeros abusos cometidos na esfera estadual com absoluta conivência das autoridades federais.

Nosso país não tem hoje de fato uma ditadura, mas os tiranos estão no poder.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Professores, traficantes e o mito de Prometeu

"Cuide do seu filho, antes que um professor de História ou de Filosofia o adote".

A infeliz citação reproduz (aproximadamente) o discurso de uma suposta poetisa, psicanalista e filósofa em recente debate radialístico. Como muitos devem ter percebido, trata-se de paráfrase de um slogan que saiu de moda, mas fazia muito sucesso alguns anos atrás:

"Cuide do seu filho, antes que um traficante o adote".

A comparação entre professor (de História ou Filosofia) e o traficante é triste, mas esclarecedora, à medida em que condensa de forma exemplar uma gama complexa de discursos que vêm sendo formulados desde a explosão de manifestações que ganharam as ruas do Brasil desde junho de 2013. Vamos por partes.

Em primeiro lugar, temos o discurso que tende a criminalizar as manifestações e as reivindicações populares, confundindo-as propositalmente com o vandalismo, que ocorre pontualmente - geralmente num circuito de retroalimentação e interdependência com a violência policial. Aliás, embora seja professor de História, não apoio a ação violenta, nem a tática black bloc. Assim, no dizer da distinta "pensadora" brasileira o manifestante é confundido com o vândalo, que por sua vez é confundido com o traficante, criminoso por excelência no imaginário brasileiro.

Por outro lado, a fala da poetisa [sic] também traduz um velho discurso que tende a ver os professores da área de humanas como "revolucionários" e subversivos em potencial. Mais ainda, temos visto uma postura nitidamente persecutória em relação ao magistério, perceptível desde a violência policial contra professores, prisão política de diversos profissionais da área, tentativa de associar o sindicato dos profissionais da Educação aos "vândalos" fabricados pela mídia ou projetos como o famigerado "Escola sem Partido", do pequeno Bolsonaro. Assim, o professor se equipara ao manifestante, ao vândalo e, por fim, ao traficante - todos criminosos.

Talvez esse discurso seja bastante influenciado pelas grandes greves do magistério em 2013, e todo o circo midiático, político e policial montado em torno delas, com direito a Cinelândia cercada e bombardeio aéreo de lacrimogênio: tudo pela Educação! No entanto, creio que a ferida é ainda mais profunda, ligada ao movimento geral de sucateamento da educação pública e de desvalorização da profissão docente. Mais ainda, revela o pavor que os poderosos sentem contra a educação e o esclarecimento das massas.

Tudo isso nos leva ao mito grego de Prometeu, o titã que roubou o fogo dos deuses, símbolo da luz do conhecimento, entregando-o aos mortais. A punição para esse grave crime é uma das mais severas e cruéis registradas pela mitologia: o titã foi acorrentado a um rochedo no alto do Cáucaso, sendo diariamente visitado por um abutre que devora seu fígado, que cresce durante a noite apenas para renovar seu sofrimento no dia seguinte, por toda a eternidade.

Na Grécia antiga, como no Brasil atual, oferecer o fogo do conhecimento ao povo é crime grave, tão grave quanto traficar drogas, praticar atos de vandalismo ou exercer pacificamente o direito democrático de reivindicar.

terça-feira, 1 de abril de 2014

A Marcha da Família e o Muro de Berlim

Felizmente a Marcha da Família organizada no domingo retrasado foi um belíssimo e retumbante fiasco. Confesso que o resultado me deixou aliviado, mas também bastante surpreso. Não imaginei que o movimento seria tão esvaziado, especialmente considerando as opiniões que vemos por aí, de um conservadorismo quase chulo. Não consigo deixar de me indagar: por quê?

Alinhavar explicações de ordem causal é sempre complicado em História - aliás, no campo das humanidades, em geral. No entanto, parece-me oportuno traçar algumas considerações acerca da situação, especialmente comparando a marcha original e seu triste remake.

Antes de tudo, me parece essencial lembrar a diferença das conjunturas internacionais em torno dos dois episódios, aspecto que me parece de altíssima relevância. Afinal de contas, a marcha de 64 se deu em plena Guerra Fria, em meio à atmosfera de polarização ideológica que se sabe. A "ameaça comunista" era muito mais tangível e, em certo sentido, real. A Revolução Cubana estava logo na esquina, ora bolas! Creio que faltou à versão atualizada esse apelo de perigo iminente. Em tempos em que a maior potência "socialista" fabrica i-phones, quem vai dar crédito aos psicóticos delirante que vêm o neoliberalíssimo PT como um antro de "stalinistas bolivarianos" [sic]? O Muro de Berlim caiu, mas os "marchadeiros" não parecem ter percebido.

Por outro lado, acho que faltou UDN! Os partidos de oposição foram suficientemente espertos para não endossarem essa roubada, assim como a grande mídia. Nos tempos que correm, nem a Globo quer segurar essa batata quente; eles sabem que a verdade é dura... Também vale lembrar que a Dilma não é exatamente um Jango.

Por fim, o panorama religioso do Brasil mudou muito nos últimos 50 anos. Em 1964, a Igreja Católica era claramente hegemônica, em todos os sentidos: no número de fiéis, em sua relevância política e social, em seu prestígio cultural arraigado. Vivemos hoje num país sem identidade religiosa prediminante, marcado por ampla diversidade de credos e cultos. Por sinal, a própria Igreja Católica mudou muito em suas relações com a política nacional, mantendo uma presença muito mais sutil. Além disso, os católicos não são mais os mesmos; o processo de secularização da cultura brasileira se encontra muito mais acentuado. Ouso imaginar que haja hoje muito menos católicos "praticantes" e que esses "pratiquem" muito menos que os de 64.

Em suma, acho que a marcha de 2014 evidencia muitas das mudanças políticas, sociais e culturais vividas  nas últimas décadas, no Brasil e no mundo.

domingo, 16 de março de 2014

A estranha vida dos ocos

O mundo está cheio de ocos.

Eles constituem 90% da população mundial ou mais. Não espanta: eles são fabricados em massa, produção industrial por maquinário publicitário. A fachada às vezes muda, mas por dentro são todos iguais.

Os ocos são movidos por dinheiro e dívidas; isso faz parte do design, eles são fabricados apenas para consumir, gastar, fazer dívidas e exibir o dinheiro que não têm, do berço ao túmulo, pelo máximo de gerações possíveis. Aliás, não importa o nível de renda, todo oco é endividado, porque nunca há dinheiro suficiente para satisfazer seus desejos ocos, que brotam a cada novo surto publicitário. Ele não sai do shopping sem uma nova ambição oca; sua droga favorita é o cartão de crédito.

São escravos do pior tipo: pensam que são livres - estamos na era do grilhão virtual.

Os ocos não gostam de pensar, satisfeitos em fazer parte de uma mente coletiva burra. Pensar é um perigo para o oco: ele pode desconfiar que é oco, consome coisas ocas, segue padrões ocos e tem uma cabeça oca. E aí ele tem que optar: muda? Continua oco? E o que pensará o resto da gente oca? Melhor cortar o mal pela raiz, não pensar nunca, ou pensar só pela metade - para ter a ilusão de que pensa alguma coisa. Por sinal, ele pode se lembrar que os ocos não são imortais, que amanhã ele será um oco velho e, depois de amanhã, um oco morto.

Mas no fundo, o oco é apenas um eco de outros ocos, eles vivem para a reverberação mútua e mecânica, para ser o oco dos ecos, o eco dos ocos, o eco do eco do oco dos ocos.

Os ocos mais funcionais são grandes glosadores, sabem imitar com tamanha originalidade que até parecem pensar de verdade.

Mas não confunda. Há ocos em todo canto, no mundo inteiro, em todas as classes sociais, da favela a Manhattan.

Há ocos de todos os níveis de escolaridade, categoria profissional e filiação espiritual: ocos analfabetos, ocos médicos, ocos lixeiros, ocos doutores, ocos evangélicos, ocos espíritas, ocos de direita, ocos bacharéis, ocos professores, ocos pedreiros, ocos engenheiros, ocos católicos, ocos de esquerda, ocos com MBA (e haja oco com MBA - quanto mais oco, mais ele precisa acumular MBAs), ocos artistas, ocos "intelectuais" (também são muitos), etc, etc, etc...

Ocos gostam muito de títulos, que exibem e exigem como rótulo, ajudam a saber o que "pensar" de cada um. Nesse sentido, nada pior que um oco com pós-doutorado.

E quem governa os ocos? Outros ocos, é claro! Ocos gostam de mandar e obedecer, especialmente quando a coerção é suave. Assim oco que manda pode pensar que é bonzinho e oco que obedece pode pensar que é livre. Alguns ocos são políticos, muitos não suportam política, e outros precisam pensar - e dizer, e berrar - que são "politizados".

O oco do século XXI adora viajar, apenas para poder ecoar os clichês de outros oco-turistas investidos de maior autoridade. O oco viajante volta de qualquer lugar com uma renovada bagagem de lugares-comuns, baseados nas quase experiências que tiveram. Ele nunca encontra nada digno de interesse, porque seu olhar já está pronto antes de pisar no aeroporto. Ele já sabe o que vai ver, o que vai dizer do que verá e, principalmente, passará longas horas de sua quase-viagem postando dúzias de fotos dessa quase-aventura, para que todos seus quase-amigos saibam como ele está quase (mas apenas quase) se divertindo. A diversão propriamente dita será quantificada depois, pelo número de curtidas na sua foto.

Mas quem é oco? Eu sou oco. Você também. Não nos enganemos.

Parafraseando Buda, todos somos ocos - só varia a medida. Uns são mais, outros menos; alguns quase totalmente, outros quase nada. Mas podemos ser menos ocos a cada dia que passa...

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A mentira nas redes sociais

Depois de longa ausência, finalmente entreguei minha tese; a oficina volta a funcionar.

Hoje minha esposa comprou um livro delicioso: Como ter uma vida normal sendo louca, de Camila Fremder e Jana Rosa. Li inteirinho no caminho para casa - sim, sou pobre, ando de ônibus e fiquei preso no engarrafamento! As autoras abordam várias situações do cotidiano com um humor que vai desde o nonsense à mais fina ironia, fazendo rir e refletir ao mesmo tempo. Resolvi transcrever integralmente o último (e melhor) capítulo do livro.

"Este ensinamento não deveria ter esse título redundante, porque não existem redes sociais sem mentiras.

Todos que já viram fotos do Orkut Büyükkökte (o criador do Orkut) e do Mark Zuckerberg (criador do Facebook) entendem o porquê do esforço de criar um mundo onde podemos ser mais bonitos, ricos e magros dentro de uma banheira tomando champanhe.

No começo até nos esforçávamos para falar a verdade quando entrávamos em comunidades do Orkut, ingenuamente, conversando com pessoas do mundo inteiro sobre assuntos que, muitas vezes, queimavam o filme, sem nenhum cuidado com o que escrevíamos e nenhum medo de nos expor.

Talvez pelo layout mais clean do Facebook e pelas pessoas que começaram a usar o Orkut para fazer perfis maldosos, ameaças e aceitar testimonials sem noção, quando chegamos no Face nos sentimos mais intimidadas para abrir a vida. Tudo começou a ficar mais difícil, com mais links, mais páginas e mais funções, além de pela primeira vez ser muito restrito, apenas para quem conhecíamos.

Nos últimos anos fomos treinadas a agir de caso pensado. Abandonamos aqueles amigos que nunca vimos da comunidade "Remédio tarja preta" e todas as fotos sem maquiagem e de roupa feia que tirávamos em câmeras digitais, e nos tornamos pessoas que só podem ser felizes, bonitas, críticas, viajadas e entendidas de música.

Hoje, se você escrever em uma rede social que está chateada, as pessoas vão te achar depressiva, e depressiva é muito distante de chateada, como você e todos os psicólogos do mundo bem sabem. A verdade é que você tem que estar feliz, muito feliz, mais feliz do que o normal de feliz, mais feliz do que se sente quando nasce um filho seu, todos os dias, o tempo todo. E tem que ser feliz besta, amorosa, do tipo que gosta de todo mundo e manda corações o tempo todo, para qualquer pessoa que tem preguiça na vida real.

Inclusive o coração, que no passado já foi um símbolo do amor, hoje é usado para mandar respostas rápidas para alguém que você não está a fim de escrever qualquer palavra.

Quando começamos a usar o Twitter, ainda tínhamos um resto de ingenuidade do Orkut, que nos fazia contar o que almoçávamos, como estávamos nos sentindo e quando levávamos um pé na bunda, com detalhes e nomes. Também falávamos mal do emprego, do chefe, de pessoas conhecidas, de minorias e de famosos, porque achávamos que era uma terra de ninguém, e era mesmo.

Hoje ninguém conta na timeline que está triste porque terminou - as pessoas mandam indiretas. Ninguém fala o que realmente está sentindo, pois todos se sentem bem, maravilhosos, fingem que estão programando a próxima viagem, frequentando festas exclusivas, dando check-in nos lugares que vão, como se fosse interessante saber quem foi onde.

Se você falar mal do chefe ou do emprego, não só fica desempregada como também nunca mais arruma um trabalho na vida, em nenhum outro país, porque as redes sociais também mostram quem conhece quem. Mesmo se você for para a Romênia tentar recomeçar a vida, alguém vai conhecer alguém que conhece alguém que conhece seu ex-chefe, e vai contar por inbox que você o criticou na internet.

Já estava de bom tamanho a paranoia que criamos no Twitter, fingindo o tempo todo sermos engraçadas, críticas, inteligentes e ocupadas, e aí apareceu o Instagram para acabar com tudo.

Nossa vida, que ainda era 30% real, virou uma completa mentira. Nossa pele nunca mais teve cor de pele, ela agora é Valecia, mas muitas vezes é Earlybird. Nossos cachorros não são mais o melhor amigo do homem, são objetos de exposição para competir quem tem o cão mais fofinho. Os filhos também servem para isso, e quem tiver um bebê gordinho e sorridente será eterno naquele aplicativo ou eterno enquanto o bebê não crescer e se tornar um adolescente desproporcional.

Pedimos comida pensando em tirar foto: muitas vezes trocamos um risoto por cheeseburger, só porque o cheeseburger é muito mais fotogênico, além de risoto parecer vômito. E engordamos muitos quilos, de tantas sobremesas que clicamos e comemos. Depois emagrecemos, só pra poder frequentar a academia e tirar fotos no espelho dela. Ninguém nunca mais se concentrou no pilates, porque estamos muito preocupadas tirando fotos de ponta-cabeça para colocar o filtro Brannan e criar hashtags do tipo #pilates #instavibe #saúde #justme #projetoverão.

Namorar também nunca mais foi a mesma coisa, porque cada estágio do relacionamento do casal precisa ser registrado. Desde o primeiro beijo até a primeira viagem com a família. Desde o presente que ele traz quando viaja até o anel do noivado, o casamento, a lua de mel em detalhes. E se rolar um divórcio precoce, não nos desesperamos mais, é só postar a foto de um livro de autoajuda e uma paisagem bonita que todos vão acreditar que está tudo bem.

Mas passamos tantas horas por dia mentindo sobre ser feliz que nós mesmas começamos a acreditar. Agora não conseguimos nem mais encontrar os amigos e curtir o momento, porque estamos muito ocupados olhando o celular e bolando um post para mostrar na próxima foto o quanto somos felizes, legais e conversamos quando estamos juntos, sendo que cada um está olhando para uma telinha e contando o número de likes que recebeu em uma foto ou frase, para saber se é querido ou não.

E mesmo sabendo tudo isso, e nos achando loucas, não pretendemos mudar. Muito pelo contrário, queremos mentir muito mais. Vai que pensando dessa forma tão otimista e positiva e fingindo que somos maravilhosas, absolutamente felizes e ricas, não nos tornamos isso finalmente?"

sábado, 31 de agosto de 2013

Impressões sobre a Bienal do Livro

1) Minha casa fica menor a cada Bienal...

2) Tenho achado cada Bienal mais fraca que a anterior. A quantidade de editoras com estande diminui sempre mais. Também achei o movimento de público muito reduzido, comparado a outros anos.

3) Me impressionou a quantidade imensa de estandes de editoras religiosas, dos mais variados credos. No terceiro pavilhão, eram esmagadora maioria. Não acho isso muito positivo...

4) Achei curioso o significativo aumento das obras de referencial marxista expostas nessa Bienal. É interessante perceber que no atual contexto mundial, na falta de alternativas novas, muita gente vem buscando orientação em antigas referências. Mesmo não sendo marxista e recusando o rótulo de "esquerdista", acho muito positivo.

5) Paralelamente à impressão anterior, é igualmente interessante observar o quanto as críticas à "economia ortodoxa" vêm ganhando espaço no pensamento econômico desde 2009. Me parece que vêm se fortalecendo ricos e plurais questionamentos entre economistas, oferecendo novas alternativas, no sentido de um saber econômico mais crítico e menos ideológico.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Receita para uma saborosa democracia

Ingredientes:
-Generosas porções de educação pública e gratuita de primeira qualidade em todos os níveis;
-Fartas doses de liberdade de expressão;
-Uma intelectualidade criativa e participativa;
-Centenas de dúzias de organizações civis independentes e atuantes;
-Milhões de cidadãos críticos, conscientes e vigilantes;
-Um governo transparente e aberto à participação dos cidadãos, previamente temperado com muita laicidade;
-Tolerância, compreensão, respeito à opinião alheia, empatia, fraternidade e amor ao próximo a gosto (quanto mais, melhor);

Modo de preparo:
Misturar todos os ingredientes numa grande panela. Cozinhar com muita paciência durante décadas, em forno brando. Periodicamente elevar a temperatura até levantar fervura, para apurar o sabor.

Rendimento:
Alimenta um país inteiro.

Observações importantes:
-A educação pública de qualidade é o ingrediente mais importante; com ela, todo o resto fica melhor;
-Atenção ao preparar a liberdade de expressão; deve ser pulverizada de modo adequado, evitando a concentração de oligopólios ou monopólios midiáticos;
-Um pouco de fervura é importante para o prato, mas o excesso de ebulição pode deixar um sabor amargo;
-São necessários muitos cidadãos para vigiar a receita, tomando cuidado com o oportunismo de cozinheiros manipuladores...

domingo, 30 de junho de 2013

Maracanã - Um crime contra o patrimônio cultural da humanidade

Dedicado aos meus queridos adoradores desse templo, Priscila, Caio, Tiago e Vinicius

Não gosto de futebol. Creio que isto só qualifique ainda mais minhas críticas.

Só estive duas vezes no Maracanã: uma vez, em 2001, com meus primos Caio e Alzimar, alvinegros doentes; a outra, em 2007, com minha esposa, vascaína fanática.

Na primeira vez em que pus meus pés no estádio, fui tomado por verdadeiro estupor, ante sua monumentalidade. A rampa, as arcadas, tudo ali parecia construído para uso de gigantes, não de seres humanos. Ao mesmo tempo, não se tratava de um gigantismo genérico, mas que falava de um momento muito específico de nossa história, enquanto país e cidade, assim como da arquitetura contemporânea. Uma grandiosidade rústica, ressoando talvez discursos arquitetônicos que andavam no ar, como o "brutalismo", de Le Corbusier.

Um Maracanã que era monumento das glórias e misérias do nosso país nesse longo século XX. Um estádio que nos falava não apenas da paixão do povo brasileiro pelo futebol, mas também do nacional-desenvolvimentismo pós-Vargas e do ufanismo nacionalista da Ditadura Militar, do crescimento econômico, do desenvolvimento tecnológico e da industrialização de nosso país, assim como das vivas contradições de nossa sociedade, que faziam com que um morador da Mangueira e outro do Leblon pudessem ali estar lado a lado por efêmeros 90 minutos de um domingo, para depois retornarem aos velhos preconceitos na segunda-feira.

Ontem pude ler as sensatas críticas do jogador Arbeloa. De fato, essa já era minha impressão sempre que passava em frente ao estádio durante suas recentes obras. Do trem. então, o panorama era lamentável. Contudo, vou além das críticas do craque espanhol. Não foi apenas um ato de vandalismo contra um estádio mítico e histórico. Não deformaram cruelmente apenas um templo do futebol. Destroçaram uma parte da história do povo brasileiro, apagaram as marcas de um século de nossas lutas e dores por entrar no mundo moderno. Isso ofende a todos nós, não apenas aos aficionados do esporte.

Onde estavam o IPHAN e a UNESCO durante todo esse processo?!

No entanto, o Maracanã continua sendo um monumento, acrescentando mais uma camada de significados e memória. A partir de agora, e por muito tempo, será o monumento das iniquidades cometidas contra o povo do Rio de Janeiro por Sérgio Cabral, Eduardo Paes, Eike Batista, Fernando Cavendish e tantos outros, sob o olhar conivente da FIFA e de Dilma Rousseff. Um monumento para o futuro, a nos lembrar das violências contra toda a população carioca, das desapropriações criminosas ocorridas em todo o país, das tristes alianças políticas de nossa época, da emergência do Brasil como potência mundial e, mais ironicamente, do momento em que o futebol motivou a conscientização política do povo brasileiro, depois de tantas décadas de uso instrumental para alienação da população...

sábado, 22 de junho de 2013

"V de Vingança" ou "C de Chapolim"?

Dedicado aos amigos Roger Marques e Tiago Ribeiro


As apropriações culturais mais interessantes são quase sempre fruto de manobras criativas e imprevisíveis. É o caso do percurso trilhado pela obra V de Vingança ("V for Vendetta", no original).

A máscara de Guy Fawkes (rebelde inglês do século XVII) durante séculos foi objeto de execração em comemorações anuais na Inglaterra, ao estilo da nossa "malhação do Judas". No início dos anos 80, o quadrinista britânico Alan Moore se apropriou da imagem para a impactante caracterização do personagem V, numa obra que criticava o contexto das reformas neoliberais empreendidas na "Era Thatcher". Cerca de três décadas depois, a máscara de V/Guy Fawkes foi tomada como símbolo de manifestações populares contra o mesmo sistema neoliberal, em sua fase mais avançada, em que os sinais de deterioração sociais decorrentes se tornam nítidos ao redor do mundo. Até onde sei, essa apropriação da imagem começou em Nova York, com o movimento de ocupação em Wall Street. Depois de tímidas aparições em solo brasileiro, chega com toda força a nossas ruas.

Com certeza, Alan Moore deve estar muito satisfeito com essa trajetória. Ouso dizer que Guy Fawkes também, com a eclosão de seu legado simbólico, após tantos séculos.

No entanto, vale observar que muitas pessoas estão usando a imagem de modo um tanto vazio. Provavelmente não leram a história em quadrinhos e talvez nem tenham assistido o filme. Usam a máscara de V, mas articulam discursos totalmente incongruentes com as críticas elaboradas pela obra de Moore. Muitos talvez nem saibam de onde o símbolo saiu. Por outro lado, há aqueles que talvez até tenham lido - usam fantasias completíssimas inclusive - mas apenas balbuciam palavras de ordem banais e propostas superficiais.

Enfim, o que temos visto por aí combina muito pouco com V, personagem coerente, analista preciso da realidade, dono de um discurso orgânico e planejador astuto e sagaz. Enfim, nada a ver com muitos setores que têm frequentado as ruas brasileiras, defendendo plataformas ocas, repetindo bordões e entoando cantorias de significado duvidoso.

Enfim, estão mais perto do desorientado Chapolim Colorado que do metódico V.

Como sabem quase todos que cresceram no Brasil nos anos 80 e 90, o nosso querido herói latino nem sempre age de modo muito consistente. De fato, mete os pés pelas mãos, "esclarecendo" em seguida que seus movimentos são friamente calculados...

Pior ainda, apesar de seus nobres sentimentos, o ingênuo Chapolim é facilmente ludibriado. Pior ainda, o Polegar Vermelho adere a qualquer causa sem pedir maiores esclarecimentos. Em diversos episódios o vemos ajudando cientistas malucos a realizar experimentos inescrupulosos, bandidos a saquear casas, espiões a roubar documentos, e por aí vai... Muita gente tem andado por nossas ruas levantando bandeiras que não sabem exatamente de onde saíram nem aonde querem ir. De fato, não conto com a astúcia dessas pessoas.

Enfim, fica o recado: "Chapolins" de todo o Brasil, fiquem atentos e usem melhor suas anteninhas de vinil para detectar a presença do inimigo - e não colabore com ele!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Leituras - "V de Vingança", de Alan Moore

Esta semana finalmente consegui adquirir e ler V de Vingança, de Alan Moore e David LLoyd, um dos maiores clássicos dos quadrinhos. Para quem não conhece, a HQ se passa nos anos de 1997 e 1998 - sendo que fôra publicada no início dos anos 80, ou seja, os autores projetavam um futuro próximo.

Felizmente o mundo ao fim dos anos 90 era muito diferente do que Moore e LLoyd imaginavam. O "futuro" apresentado na história é bastante sombrio. No fim dos anos 80, uma terrível guerra nuclear destruíra boa parte do mundo ocidental. Na Europa, apenas a Inglaterra escapara da catástrofe. No entanto, o país se encontrava entregue à desordem e ao caos. Um grupo fascistóide, "Nórdica Chama", chega ao poder, instalando um Estado policial racista, homófobo e repressor, onde toda liberdade é sacrificada em nome da ordem e da segurança.

Eis que surge V, um homem misterioso, cuja máscara lembra Guy Fawkes, que no século XVII tentara explodir o Parlamento no chamado "Gunpowder Plot" (atualmente efígies de Fawkes são destruídas anualmente num rito semelhante à nossa "Malhação do Judas"). V inicia um movimento de contestação, marcado por intervenções literal e simbolicamente "bombásticas" - começando pela explosão do Parlamento.

Seria impossível dar conta da trama complexa com suas reviravoltas, seus ricos personagens e sua contundente análise das relações entre medo, poder e liberdade. A arte de LLoyd é fantástica, dando à trama um clima retrô, quase como um film noir. O texto de Moore é sempre sensacional, especialmente as falas de V. Transcrevo alguns dos belíssimos discursos proferidos pelo personagem. Garanto que após a leitura vocês correrão para as livrarias!

"Não se deve contar com a maioria silenciosa, pois o silêncio é algo frágil. Um ruído alto... e está tudo acabado.

O povo está amedrontado e desorganizado demais. Alguns podem ter tido a oportunidade de protestar, mas foram como vozes gritando no deserto.

O barulho é relativo ao silêncio que o precede. Quanto mais absoluta a quietude, mais devastadoras as palmas.

Nossos governantes não ouvem a voz do povo há gerações, Evey, e ela é muito mais alta do que eles se recordam".

"A anarquia está sola sobre o mundo.

A ordem involuntária gera insatisfação, mãe da desordem, prima da guilhotina. Sociedades autoritárias são como a formação de crostas de gelo. Intrincadas, mecanicamente precisas e, acima de tudo, precárias. Sob a frágil superfície da civilidade, o caos se convulsiona e há locais onde o gelo é traiçoeiramente fino.

A autoridade, quando detecta o caos pela primeira vez em seus calcanhares, fará as coisas mais vis para preservar a fachada de ordem, mas, como sempre, ordem sem justiça, sem amor ou liberdade, não pode deter a derrocada de seu mundo para o holocausto.

A autoridade admite dos papéis: o torturador e o torturado. Ela transforma as pessoas em manequins amorfos que temem e odeiam, enquanto a cultura mergulha no abismo.

A autoridade deforma completamente a educação das crianças, tornando seu amor um arremedo...

O colapso da autoridade permeia o leito, as diretorias, a igreja e a escola. Tudo é mal gerido. A igualdade e a liberdade não são luxos a serem levianamente desprezados. Sem elas, a ordem não pode persistir antes de alcançar grandes profundezas".

"A anarquia deve abraçar o estrondo das bombas e canhões, todavia, deve amar ainda mais a doce música".

"Com a ciência, as ideias podem germinar num leito de teorias, formas e práticas que auxiliam seu crescimento... Mas nós, como jardineiros, devemos estar atentos, porque algumas sementes são de ruína... E os botões mais iridescentes são geralmente os mais perigosos".

"A anarquia ostenta duas faces, a criadora e a destruidora. Destruidores derrubam impérios, fazem telas com os destroços, onde os criadores erguem mundos melhores.

Os destroços, uma vez obtidos, tornam as ruínas irrelevantes. Fora com os explosivos, então!

Fora com os destruidores, eles não têm lugar em nosso mundo melhor. Brindemos a todos os nossos bombardeiros, a nossos bastardos mais desprezíveis e odiosos. Bebamos a sua saúde, e depois não os vejamos mais".

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Sobre senhores e escravos

"O homem não é livre nem quando escravo nem quando senhor".
Joaquim Nabuco

Embora a frase de Nabuco se referisse ao contexto específico da escravidão no Brasil, me pergunto o quanto ela tem de universal - ou pelo menos, o quanto se aplica ao nosso presente. Creio que em grande medida, os políticos, magnatas, "celebridades" e demais detentores de poder e influência são eles mesmos vítimas das quimeras banais e vazias com que manipulam as massas. São prisioneiros do consumismo e dos desejos que fomentam; vivem na mesma superficialidade e falta de significado que os demais, sob o azorrague de suas ambições vazias e mesquinhas.

Os senhores rastejam na mesma lama que os escravos, embalados em tristes alucinações de liberdade...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Direitos humanos no Brasil - uma síntese interessante

Trecho muito interessante de "Uma História do Brasil", do brasilianista Thomas E. Skidmore. Vale esclarecer que os parágrafos a seguir se situam num capítulo sobre o regime militar.  Grifos meus.

"Embora a elite tenha sempre preferido ver seu país como fundamentalmente não-violento, esta é uma leitura muito imprecisa da história brasileira. A escravidão, por exemplo, fora baseada na brutalidade física que incluía mutilação, espancamentos impiedosos e execução, e havia se mantido no Brasil até 1888 (o trabalho forçado de índios amazônicos continuou por ainda mais tempo), durando mais do que em qualquer outro lugar nas Américas. No Brasil do início da década de 1960, maus-tratos físicos por parte da polícia eram prática corrente em relação a cidadãos comuns, o que em parte era uma herança da violência que cercava a escravidão. Mas era também inerente à manutenção da sociedade altamente hierárquica que a República brasileira herdara. Desde o início da República em 1889 o governo recorreu repetidamente à declaração de estado de sítio, permitindo, assim, a suspensão das garantias judiciais. Durante os protestos populares contra a vacinação compulsória no Rio em 1904, por exemplo, as multidões eram bombardeadas por artilharias. Mais de trezentos dos detidos foram então deportados, sem nenhum procedimento judicial, para campos distantes no Amazonas. Táticas de internamento semelhantes foram empregadas na esteira da revolta naval de 1910.

Maus-tratos policiais em relação à elite, por outro lado, eram raros, mesmo porque os policiais eram membros das classes que não pertenciam à elite e temiam seus superiores sociais. Exemplos de comportamento diferenciado eram fáceis de encontrar. Qualquer preso que tivesse um diploma de curso superior, por exemplo, tinha por lei (criada pelo Código Penal de 1941) direito a melhores acomodações carcerárias do que os presos comuns. Qualquer membro da elite que tivesse problemas com as autoridades podia contar com rápida ajuda de sua rede de contatos. Um indicador básico da aplicação desigual da justiça era a complacência patente para com criminosos de colarinho branco como trapaceiros da bolsa de valores, que raramente sofriam alguma punição significativa, enquanto os suspeitos comuns podiam geralmente esperar o pior.

Esse sistema de justiça diferenciada era bem entendido por todos os brasileiros. Ele reforçava a estrutura social hierárquica que era fechada mas não impermeável. Quando o Brasil crescia economicamente, sua elite expandia-se, mas essa mobilidade não alterava a hierarquia em si.

A eleite sempre fora capaz de permanecer na ignorância do verdadeiro funcionamento do sistema de justiça criminal, o que mudou com a guinada altamente autoritária em 1968, uma vez que o movimento de guerrilha era liderado principalmente por jovens insatisfeitos da elite, não por trabalhadores. Os nacionalistas radicais militantes, descontentes com o golpe, eram o principal material recrutado para a oposição armada. Muitos deles vinham de organizações de jovens católicos de esquerda e de grupos políticos universitários (predominantemente da elite em sua origem). As forças de segurança interrogavam todos os suspeitos da guerrilha com os métodos que eram normais para criminosos comuns mas não praticados com a elite. Um deles era o pau-de-arara, em que a vítima era pendurada nua numa vara horizontal e submetida a espancamento e choques elétricos. Um outro consistia em submergir a vítima em água suja e disparar uma arma bem sobre sua cabeça quando o corpo vinha à tona. Para casos particularmente difíceis, isto é, quando a confissão ou a prova incriminadora não estava próxima, a eletricidade era aplicada nos órgãos genitais, ouvidos e outros orifícios do corpo. Elite e não-elite tinham o mesmo tratamento. Quando relatos desse tratamento brutal vazavam, as famílias das vítimas da elite ficavam verdadeiramente chocadas. Mesmo filhos de generais enfrentaram o horror da tortura.

Essa repressão indiscriminada fez com que muita gente na elite reconsiderasse seu apoio ao governo militar. A ameaça à segurança justificaria realmente a barbaridade do governo? Eles não haviam imaginado que se chegaria a isso.

Lentamente, as instituições da elite começaram a reagir. A mais bem situada era a Igreja Católica, cujos bispos estavam chocados com os maus-tratos dispensados a membros de seu clero. Mesmo bispos conservadores que haviam endossado entusiasticamente o golpe agora denunciavam a tortura. Uma segunda instituição da elite que reagiu, ainda que lentamente, foi a Ordem dos Advogados do Brasil. Os poucos advogados criminalistas que defendiam prisioneiros políticos e sabiam em primeira mão da tortura tentavam, agora, levar seus colegas à ação. Os advogados, a nata da elite, começaram a descobrir um novo sentido para o domínio da lei. Contudo, nem a Igreja, nem os advogados tinham poder contra os militares. O melhor que podiam fazer era divulgar mensagens discretas entre a elite ou passar informações para amigos no exterior.

Mesmo entre os militares havia sinais de intranquilidade. A maioria dos oficiais aceitara a linha oficial (admitida interna mas nunca publicamente) de que a tortura era usada imediatamente após a prisão para obter informação "quente" que "salvaria" vidas. Mas os torturadores às vezes continuavam seu trabalho por semanas ou mesmo meses depois da prisão da vítima, quando já não havia nenhum propósito tático para tal brutalidade. O comando militar negava de forma categórica qualquer excesso, embora informalmente oficiais deixassem claro que "guerra é guerra". A curto prazo, não havia recurso contra os torturadores; mas havia uma questão mais ampla: se o governo militar terminasse, a elite brasileira reconheceria que a tortura fora de fato a última expressão de um sistema repressivo mantendo a hierarquia social que a beneficiava há tanto tempo?"