Em seus últimos dias de vida, Victor Hugo, o colosso da poesia, escreveu essas palavras num pedaço de papel:
"Aimer, c`est agir".
Foram as últimas palavras que redigiu. Nessa curta sentença condensou todo o sentido de sua obra e de sua vida; aí estão La légende des siècles, Les misérables, Hernani, o exílio, a ação política...
É um testamento ético para todos nós, um imperativo ideológico, um convite moral profundo. O ser que ama, age no mundo. Não existe verdadeiro amor sem ação. Amor sem ação é apenas uma palavra vazia, uma pieguice sem substância.
Se você ama sua família, aja.
Se você ama seus amigos, aja.
Se você ama seu povo, aja.
Se você ama a humanidade, aja.
Ame sempre, aja sempre!
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quinta-feira, 15 de agosto de 2013
"Amar é agir"
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sexta-feira, 6 de maio de 2011
Perfil - Gandhi e a cultura ocidental
Não pretendo apresentar aqui uma biografia desse fantástico personagem, tanto pelo espaço insuficiente quanto por minha incapacidade de tentar algo nesse sentido. O objetivo desse post é apenas traçar pequeno esboço das relações de Mahatma Gandhi com a cultura ocidental, geralmente ignoradas ou esquecidas em favor de suas raízes hinduístas.
Ao contrário do que geralmente se acredita, o pensamento ocidental representa parte importantíssima de sua formação. Nesse sentido, convém lembrar que toda sua instrução formal foi de caráter ocidentalizante, tendo mesmo cursado o ensino superior na Inglaterra, onde se formou advogado. Por sinal, o próprio Gandhi se lamentava de seu conhecimento superficial a respeito de alguns ramos da filosofia hinduísta, como a ioga.
Duas influências devem ser particularmente ressaltadas sob esse aspecto. Uma delas é a do escritor russo Léon Tolstói, cuja leitura foi essencial na formação moral do ativista indiano. Para se ter uma ideia, em 1910, quando fundou uma comunidade de caráter utópico na África do Sul, muito antes de sua militância pela independência indiana, Gandhi a batizou como "Quinta Tolstói". De fato, muito de seu pensamento político, social e econômico (outra faceta pouco conhecida do líder) é tributário à leitura do russo. Aliás, segundo Pierre Meile, um de seus biógrafos já era leitor assíduo de Tolstói dez anos antes de sua primeira leitura do Bhagavad-Gita, um dos mais importantes textos da tradição religiosa hinduísta, como se sabe.
Outra leitura essencial em sua formação foi o pensador americano Henry David Thoreau, verdadeiro criador da noção de resistência passiva, conceito essencial da ação de Gandhi ao longo de toda sua vida política, desde as primeiras manifestações contra a obrigatoriedade do registro de indianos na África do Sul até sua longa luta pela independência da Índia. De fato, o consagrado termo Satyagraha ("busca da verdade") foi inicialmente pensado como "tradução" indiana da ideia de resistência passiva. Obviamente o conceito passou por amplos refinamentos posteriores, enriquecido por afluências de matriz hindu; contudo, seu ponto de partida estava em Thoreau.
Apenas a título de curiosidade, cabe apontar que um dos pensadores indianos mais admirados por Gandhi seria justamente o poeta Rabindranath Tagore, que chegou a qualificar como "o Sol da Índia". Também o genial Tagore entreteve profundas relações com a cultura ocidental, tendo feito estudos na Inglaterra e, ainda mais importante, sendo o primeiro escritor não-europeu a ganhar um Nobel de Literatura.
Certamente não se trata de afirmar que o pensamento de Gandhi era mera tradução "hinduizante" de conceitos ocidentais, como já li anos atrás em certo artigo da revista francesa Historia, o que seria banalizar sua situação de hibridismo cultural. Aliás, me parece que outro dos pilares de sua atuação, a noção de Ahimsa ("não-violência"), deve muito mais a seu contato com a cultura oriental, caminhando nos limites do hinduísmo e do budismo. Contudo, é muito instigante pensar sobre o grande alcance das reflexões que Gandhi pôde propor à cultura do século XX, a partir de sua estratégica posição na encruzilhada de diversas tradições culturais.
Talvez seja bastante produtivo pensá-lo como um indiano educado no seio da cultura ocidental e que, justamente por isso, foi capaz de reencontrar e interpretar a cultura indiana, especialmente hinduísta, de modo tão criativo e produtivo, dando origem a um dos movimentos mais inspiradores da história humana.
Ao contrário do que geralmente se acredita, o pensamento ocidental representa parte importantíssima de sua formação. Nesse sentido, convém lembrar que toda sua instrução formal foi de caráter ocidentalizante, tendo mesmo cursado o ensino superior na Inglaterra, onde se formou advogado. Por sinal, o próprio Gandhi se lamentava de seu conhecimento superficial a respeito de alguns ramos da filosofia hinduísta, como a ioga.
Duas influências devem ser particularmente ressaltadas sob esse aspecto. Uma delas é a do escritor russo Léon Tolstói, cuja leitura foi essencial na formação moral do ativista indiano. Para se ter uma ideia, em 1910, quando fundou uma comunidade de caráter utópico na África do Sul, muito antes de sua militância pela independência indiana, Gandhi a batizou como "Quinta Tolstói". De fato, muito de seu pensamento político, social e econômico (outra faceta pouco conhecida do líder) é tributário à leitura do russo. Aliás, segundo Pierre Meile, um de seus biógrafos já era leitor assíduo de Tolstói dez anos antes de sua primeira leitura do Bhagavad-Gita, um dos mais importantes textos da tradição religiosa hinduísta, como se sabe.
Outra leitura essencial em sua formação foi o pensador americano Henry David Thoreau, verdadeiro criador da noção de resistência passiva, conceito essencial da ação de Gandhi ao longo de toda sua vida política, desde as primeiras manifestações contra a obrigatoriedade do registro de indianos na África do Sul até sua longa luta pela independência da Índia. De fato, o consagrado termo Satyagraha ("busca da verdade") foi inicialmente pensado como "tradução" indiana da ideia de resistência passiva. Obviamente o conceito passou por amplos refinamentos posteriores, enriquecido por afluências de matriz hindu; contudo, seu ponto de partida estava em Thoreau.
Apenas a título de curiosidade, cabe apontar que um dos pensadores indianos mais admirados por Gandhi seria justamente o poeta Rabindranath Tagore, que chegou a qualificar como "o Sol da Índia". Também o genial Tagore entreteve profundas relações com a cultura ocidental, tendo feito estudos na Inglaterra e, ainda mais importante, sendo o primeiro escritor não-europeu a ganhar um Nobel de Literatura.
Certamente não se trata de afirmar que o pensamento de Gandhi era mera tradução "hinduizante" de conceitos ocidentais, como já li anos atrás em certo artigo da revista francesa Historia, o que seria banalizar sua situação de hibridismo cultural. Aliás, me parece que outro dos pilares de sua atuação, a noção de Ahimsa ("não-violência"), deve muito mais a seu contato com a cultura oriental, caminhando nos limites do hinduísmo e do budismo. Contudo, é muito instigante pensar sobre o grande alcance das reflexões que Gandhi pôde propor à cultura do século XX, a partir de sua estratégica posição na encruzilhada de diversas tradições culturais.
Talvez seja bastante produtivo pensá-lo como um indiano educado no seio da cultura ocidental e que, justamente por isso, foi capaz de reencontrar e interpretar a cultura indiana, especialmente hinduísta, de modo tão criativo e produtivo, dando origem a um dos movimentos mais inspiradores da história humana.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Perfil - Victor Hugo
Todos conhecem Victor Hugo, especialmente através de suas mais célebres obras, "Os miseráveis" e "Notre Dame de Paris" (mais conhecida como "O Corcunda de Notre Dame"). Contudo, menos famosas são as profundas relações entre o autor e a História.
De fato, a História ocupa importante papel na estética e na formulação das obras de Hugo, apaixonado adorador de Clio. Para se ter uma ideia, quando viajava, um de seus principais passatempos era percorrer ruínas de castelos pelos campos, muitas vezes sozinho. Ele podia passar um dia inteiro fazendo isso, como mostram seus biógrafos. Uma de suas mais belas peças, "Os Burgraves" nasceu justamente de passeios como esse que empreendeu em sua viagem pelo Reno: a história se passa em um castelo, mais especificamente um dos castelos em ruínas que explorou.
Da mesma forma, era assíduo frequentador de arquivos e bibliotecas, onde passava muito tempo compulsando material para suas obras. O trabalho de elaboração de "Notre Dame de Paris" é significativo: o escritor pesquisou inúmeras fontes arquivísticas para ressuscitar a Paris do outono medieval. Aliás, é importante salientar que praticamente todos os personagens do romance existiram de verdade, uma vez que Hugo tirou seus nomes, ocupações e laços de parentesco das contas do prebostado de Paris (espécie de prefeitura da época). Apesar disso, suas respectivas personalidades foram inteiramente criadas pelo autor.
A temática histórica perpassa boa parte de sua obra, e seria impossível enumerar todos os casos. Dignas de destaque são as peças "Hernani" e "Ruy Blas", passadas na Espanha dos séculos XVI e XVII, constituindo uma espécie de "bilogia", examinando a ascensão e a decadência da casa dos Habsburgo espanhóis, sob a perspectiva de dois homens do povo, Hernani e Ruy Blas.
Também é interessante o belíssimo romance "Quatre-vingt-treize", ou "Noventa e três", que aborda o crucial ano de 1793, onde a Revolução Francesa atingiu seu ápice de popularização, culminando no Terror. A narrativa é centrada em três marcantes personagens, apaixonados por seus ideais: Cimourdain, padre extremista, entusiasta revolucionário; o marquês de Lantenac, implacável líder reacionário e o jovem militar Gauvain, oriundo da nobreza, porém defensor da Revolução. Cuidadosamente pesquisado, o livro é um verdadeiro compêndio sobre a Revolução Francesa.
Por fim, é impossível ignorar "A lenda dos séculos", a mais longa antologia poética do autor, onde aborda toda a trajetória humana, desde as origens míticas até o século XIX (e o futuro), propondo instigantes reflexões sobre o homem e a sua caminhada.
Concluindo, Victor Hugo é leitura obrigatória para todo historiador!
De fato, a História ocupa importante papel na estética e na formulação das obras de Hugo, apaixonado adorador de Clio. Para se ter uma ideia, quando viajava, um de seus principais passatempos era percorrer ruínas de castelos pelos campos, muitas vezes sozinho. Ele podia passar um dia inteiro fazendo isso, como mostram seus biógrafos. Uma de suas mais belas peças, "Os Burgraves" nasceu justamente de passeios como esse que empreendeu em sua viagem pelo Reno: a história se passa em um castelo, mais especificamente um dos castelos em ruínas que explorou.
Da mesma forma, era assíduo frequentador de arquivos e bibliotecas, onde passava muito tempo compulsando material para suas obras. O trabalho de elaboração de "Notre Dame de Paris" é significativo: o escritor pesquisou inúmeras fontes arquivísticas para ressuscitar a Paris do outono medieval. Aliás, é importante salientar que praticamente todos os personagens do romance existiram de verdade, uma vez que Hugo tirou seus nomes, ocupações e laços de parentesco das contas do prebostado de Paris (espécie de prefeitura da época). Apesar disso, suas respectivas personalidades foram inteiramente criadas pelo autor.
A temática histórica perpassa boa parte de sua obra, e seria impossível enumerar todos os casos. Dignas de destaque são as peças "Hernani" e "Ruy Blas", passadas na Espanha dos séculos XVI e XVII, constituindo uma espécie de "bilogia", examinando a ascensão e a decadência da casa dos Habsburgo espanhóis, sob a perspectiva de dois homens do povo, Hernani e Ruy Blas.
Também é interessante o belíssimo romance "Quatre-vingt-treize", ou "Noventa e três", que aborda o crucial ano de 1793, onde a Revolução Francesa atingiu seu ápice de popularização, culminando no Terror. A narrativa é centrada em três marcantes personagens, apaixonados por seus ideais: Cimourdain, padre extremista, entusiasta revolucionário; o marquês de Lantenac, implacável líder reacionário e o jovem militar Gauvain, oriundo da nobreza, porém defensor da Revolução. Cuidadosamente pesquisado, o livro é um verdadeiro compêndio sobre a Revolução Francesa.
Por fim, é impossível ignorar "A lenda dos séculos", a mais longa antologia poética do autor, onde aborda toda a trajetória humana, desde as origens míticas até o século XIX (e o futuro), propondo instigantes reflexões sobre o homem e a sua caminhada.
Concluindo, Victor Hugo é leitura obrigatória para todo historiador!
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