Newsletter

Sua assinatura não pôde ser validada.
Você fez sua assinatura com sucesso.

Oficina de Clio - Newsletter

Inscreva-se na newsletter para receber em seu e-mail as novidades da Oficina de Clio!

Nous utilisons Sendinblue en tant que plateforme marketing. En soumettant ce formulaire, vous reconnaissez que les informations que vous allez fournir seront transmises à Sendinblue en sa qualité de processeur de données; et ce conformément à ses conditions générales d'utilisation.

Mostrando postagens com marcador Permanências culturais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Permanências culturais. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Montruosidades Messiânicas

 "Eu vi seu carisma.

Ele o perdeu.

Esfacelou-se diante de todos.

Esse é o problema em criar monstros.

O controle é difícil.

O importante é as pessoas nunca sentirem medo ou fraqueza em você.

Isso é um erro fatal.

Se fraquejar, elas se voltam contra você.

Monstros exigem que seus messias sejam fortes.

Eles detestam ser enganados".

Jim Starlin (em Batman - O Messias - no original, The Cult)


Diácono Blackfire, o "messias", incitando seus seguidores à violência.


quarta-feira, 9 de março de 2022

O pecado de pensar

 "Com a justiça dos anjos e dos santos, nós excomungamos, excluímos, maldizemos e anatematizamos Baruch de Espinosa. [...] Que ele seja maldito de dia e maldito de noite. Que ele seja maldito no sono e maldito na vigília. Que ele seja maldito fora e maldito por dentro. Que o Senhor não perdoe. Que a cólera e a fúria do Senhor caiam de agora em diante sobre este homem e derramem sobre ele todas as maldições escritas no livro da Lei. Que o Senhor destrua seu nome sob o sol".


Trecho do ato solene de banimento por heresia do filósofo Baruch Spinoza, pelos anciãos da sinagoga de Amsterdã em 27 de julhos de 1656 (citado por Frédéric Lenoir em Sobre a felicidade - Uma viagem filosófica).




quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Jerusalém Libertada

 Hoje tive um sonho.


Sonhei contigo, Jerusalém, "três vezes santa": santa para judeus, santa para cristãos, santa para muçulmanos. Santa para todos os povos de Abraão.

Jerusalém sofredora, Jerusalém atormentada. Três vezes santa, três vezes desejada, muitas e muitas vezes disputada!

Jerusalém, Jerusalém, quanto sangue já correu, corre e ainda correrá por ti! Quantas lágrimas vertidas, quanto ranger de dentes, quanto bater de espadas!

Até quando, Jerusalém, os povos de Abraão lutarão por ti? Até quando, três vezes santa Jerusalém, serás pedra de tropeço para aqueles que dizem te amar?

Embriagados pelo vinho da ira, sorvido em poluídos cálices, teus pretendentes te cortejam violentamente, tomando por amor aquilo que não passa de vulgar paixão. Te idolatram, pensando te adorar. Pois, infelizmente, Jerusalém, te tornaste ídolo no coração daqueles que julgam te amar - e é como idólatras sanguinários que te disputam.

Antes de Abraão e seus herdeiros eras Salém, reino do misterioso Melquisedec. Generoso, hospitaleiro Melquisedec, que acolheu Abraão fatigado dos combates.

Abraão foi teu hóspede, jamais teu dono, Jeru-Salém, cidade, antes de tudo, hospitaleira. Acolheste em teu seio a Arca daquela Aliança que diz: "Não matarás".

Quão iludidos estão aqueles que se entrematam em teu nome! Aqueles que deveriam te santificar, te profanam, derramando sangue sobre o solo de Melquisedec.

Onde estás, onde estás, Jerusalém? Estás nos céus ou estás na terra? Em todo lugar ou lugar nenhum? Estás, antes de tudo, nos corações de todos aqueles que amam?

Que podes significar, Jerusalém, de mais nobre, digno e elevado, senão o Amor?

Todos aqueles que amam, hospitaleira Jerusalém, acolhem a ti, no fundo de seus corações e almas. Te acolhem e te possuem, em Espírito e Verdade! Pois és mais que pedra, és um sonho, um ideal, tantas vezes destruído, pisoteado, aviltado. Em Espírito e Verdade te encontras em toda parte, como disse o galileu à samaritana.

Aprisionada choras, Jerusalém, mas venho oferecer-te consolo.

Sonhei contigo, Jerusalém, como sonham os profetas, os visionários e os poetas. Sonhei como sonham os esperançosos, aqueles que teimam em sonhar!

Em meu sonho, Jerusalém, todos aqueles que se matam por ti depuseram as armas. Os povos de Abraão finalmente se entendiam como irmãos, após séculos de encarniçado ódio. Ismael e Isaac se estreitavam em infinito abraço; Caim, Abel e Set partilhavam o banquete da paz. Moisés, Jesus e Maomé sorriam.

E depondo suas armas, te libertavam do cruel jugo em que tanto sofres. Amando uns aos outros, te libertavam. Renunciando a toda paixão possessiva, se encontravam juntos sob a reluzente tenda de Melquisedec.

Mais uma vez eras Salém, a simples, humilde e hospitaleira Salém. Rejuvenescida, revigorada, renovada, resplandecias para todos os povos da Terra, como sonhava Salomão. Todos aqueles que amam se encontravam em ti, em Espírito e Verdade.

Salém, três vezes santa, muitas vezes santa, acolhias crentes e descrentes. Tua luminosa tenda era um santuário de paz, um sagrado recinto onde ninguém ousaria derramar o sangue do irmão.

Mais uma vez governada pelo sábio, misterioso Melquisedec, acolhias todos aqueles fatigados das guerras, dos prantos e do ranger de dentes.

Sob o cetro de Melquisedec, a amorosa e zelosa hospitalidade se tornava tua primeira e única lei. Eras verdadeira e plenamente a Terra Prometida, onde não mais se ouviam os ecos das espadas, lanças, flechas ou canhões. Soava apenas um silencioso cântico de paz, murmurado em cada coração.

Sonho acordado, bem sei, Jerusalém. Mas o sonho é irmão da esperança, e a esperança é mãe de milagres.

Segundo a segundo, minuto a minuto, dia a dia, se aproxima o dia de tua libertação, Jerusalém...

Inspirado pela Águia de Patmos e por Victor Hugo; dedicado a Priscila, minha Sara

Encontro de Melquisedec e Abraão; pintura atribuída a Peter Paul Rubens (séc. XVII)


quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Esperanças para uma humanidade esvaziada - Pensamentos de Martin Luther King

Fábricas imensas comandadas por computadores, cidades que engolem a paisagem e atravessam as nuvens, aviões que desafiam a noção de tempo - todas essas são coisas impressionantes, mas não podem ser espiritualmente inspiradoras. Nada em nossa resplandecente tecnologia pode elevar o homem a novas alturas, porque o crescimento material foi transformado num fim em si mesmo, e, na ausência de propósitos morais, o próprio homem se torna menor à medida que suas obras se tornam maiores. Indústria e governo gigantescos, combinados num intrincado mecanismo computadorizado, deixam as pessoas de fora. O senso de participação é perdido, o sentimento de que indivíduos comuns podem influenciar decisões importantes desaparece, o homem fica excluído e diminuído.

Quando um indivíduo não é mais um verdadeiro participante, quando não se sente mais responsável por sua sociedade, o conteúdo da democracia é esvaziado. Quando a cultura é degradada e a vulgaridade entronizada, quando o sistema social não gera segurança, mas induz perigo, o indivíduo é inexoravelmente impelido a se afastar dessa sociedade sem alma. Esse processo produz alienação - talvez a característica mais disseminada e insidiosa da sociedade contemporânea.

***

Muitas vezes me pergunto se a educação está ou não atingindo seu objetivo. A grande maioria das pessoas ditas instruídas não pensa de maneira lógica e científica. Até a imprensa, a sala de aula, os palanques e o púlpito, em muitos casos não nos dão verdades objetivas e imparciais. Salvar o homem do pântano da propaganda, em minha opinião, é um dos principais objetivos da educação. A educação deve permitir que a pessoa examine e pese as evidências, tenha discernimento para diferenciar o verdadeiro e o falso, o real e o irreal, os fatos e a ficção.

A função da educação, portanto, é ensinar a pensar intensamente e a pensar criticamente. Mas a educação que se contenta com a eficiência pode se provar a maior ameaça à sociedade. O criminoso mais perigoso pode ser o homem dotado de razão, mas não de moral.

Devemos lembrar que inteligência não é o bastante. Inteligência mais caráter - esta é a meta da verdadeira educação. A educação completa dá à pessoa não somente poder de concentração, mas objetivos dignos em que se concentrar. A educação ampla transmitirá, portanto, não só o conhecimento acumulado da raça [?], mas também a experiência acumulada da vida social.

***

O progresso humano não é nem automático nem inevitável. Mesmo uma olhadela superficial na história revela que nenhum avanço social chega sobre as rodas da inevitabilidade. Cada passo rumo à meta da justiça requer sacrifício, sofrimento e luta, requer os esforços incansáveis e o interesse apaixonado de indivíduos dedicados. Sem esforço persistente, o próprio tempo torna-se um aliado das forças insurgentes e primitivas do emocionalismo irracional e da destruição social. Não é hora para apatia ou complacência. É hora para ação vigorosa e positiva.

***

Devemos trabalhar apaixonada e infatigavelmente para transpor o golfo entre nosso progresso científico e nosso progresso moral. Um dos grandes problemas da humanidade é que sofremos de uma pobreza do espírito que contrasta obviamente com nossa abundância científica e tecnológica. Quanto mais ricos nos tornamos materialmente, mais pobres nos tornamos moral e espiritualmente.

Todo homem vive em duas esferas, a interna e a externa. A interna é a esfera dos fins espirituais expressos na arte, na literatura, na moral e na religião. A externa naquele complexo de aparelhos, técnicas, mecanismos e instrumentalidades por meio dos quais vivemos. Nosso problema hoje é que deixamos o interno se perder no externo. Permitimos que os meios pelos quais vivemos suplantassem os fins para os quais vivemos.

Martin Luther King com seus filhos Yolanda e Martin


quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

"Autor: Deus"

Navegando em um famoso site de compras, minha esposa esbarrou por acaso em uma edição da Bíblia. No campo "autor", o vendedor preencheu simplesmente "Deus". Me parece muito emblemático do papel que a Bíblia ainda ocupa no imaginário ocidental e na sociedade brasileira. Para além das sutilezas teológicas que geralmente retratam a Bíblia como escritura divinamente inspirada, há quem entenda (e não pouca gente) a noção de "palavra de Deus" em um sentido bastante literal. Uma persistência cultural ao mesmo tempo fascinante e inquietante...



segunda-feira, 27 de setembro de 2021

O declínio de Cosme e Damião?

Tendo a pensar que a distribuição de doces de Cosme e Damião pode se extinguir, pelo próprio desinteresse dos católicos. 

Em minha família, todos que ofereciam doce já morreram ou, pela idade, não distribuem mais. Os católicos mais jovens não se interessam pela prática - o próprio hábito da promessa, em sentido geral, parece estar desaparecendo do catolicismo popular. Em certo sentido, a dinâmica psicológica subjacente à promessa tem migrado do catolicismo para o neopentecostalismo, embora sob expressões religiosas distintas, desta vez de inspiração veterotestamentária ("jejum de Daniel", vigílias, "subir o monte", entre outras). 

De todo modo, puxando pela memória, no meu círculo familiar havia seis pessoas ou casais que distribuíam doces. Desses, quatro morreram e duas não o fazem mais - de seis para zero. Uma mudança quantitativa drástica que,  penso eu, reflete um quadro social mais amplo. 

Avanço a hipótese de que, hoje, a prática ainda se mantém viva sobretudo entre praticantes de religiões afrobrasileiras - afinal de contas, a festa sempre teve forte conotação "afrocatólica".

Vale ainda lembrar que a própria festa sofreu muitas transformações ao longo do século XX, ao menos nos subúrbios cariocas. As mesas de doces nas residências particulares momentaneamente abertas para estranhos gradativamente perdeu espaço para os saquinhos de doces embalados para viagem e os próprios doces caseiros foram sendo substituídos por guloseimas industrializadas, normalmente adquiridas em comércio atacadista. Os banquetes comunitários também foram se tornando menos comuns, de certo modo "migrando" para as feijoadas de São Jorge. 

Curiosamente, a devoção por Ogum-São Jorge tem crescido nas últimas décadas, enquanto a festa de Cosme e Damião parece minguar.

Mudanças culturais entre gerações, o ritmo cada vez mais acelerado da vida urbana, permutas simbólicas no campo da própria religiosidade, tudo parece contribuir para o deslocamento da Festa de Cosme e Damião enquanto prática social - ainda que não necessariamente à sua extinção. 

Em certo sentido me lembra as reflexões de Peter Burke sobre o "triunfo da quaresma" na Idade Moderna; a religiosidade e a cultura popular sempre se transformam, às vezes drasticamente, em períodos de intensas mudanças sociais. 

Damião, Cosme e Doces

Observações do historiador Fred Oliveira

Hoje, aqui pelo Rio, devido à recusa e grosseria de algumas pessoas (geralmente evangélicas), as pessoas (geralmente católicas) que distribuem doces de Cosme e Damião chegam cada vez mais acanhadas para perguntar se alguém teria interesse em receber um saquinho de guloseimas... 

Até os anos 90 a data ainda produzia um alvoroço, se distribuindo doces e sorrisos entre todos. Era uma felicidade, e mesmo quem não queria (por crença ou gosto diferente) não demonstrava desagrado, levando numa boa, mesmo sem aceitar o doce oferecido, a farra daquela festiva e popular tradição. 

Porém de lá pra cá algo mudou na nossa sociabilidade... 

Atualmente (e já vi ocorrer) algumas pessoas fazem questão de reclamar do oferecimento do pacotinho de doces e outros mesmo falam contra aquela fé... Infelizmente católicos também tratam evangélicos de modo desrespeitoso em relação a outras questões. 

Por causa dessa luta de vetos, ainda se diluirão muitas práticas do costume!



sábado, 25 de setembro de 2021

Sobre a "ocupação" da BOVESPA pelo MTST

Essa semana o MTST "ocupou" a BOVESPA em protesto contra o desemprego, a carestia, a miséria e as profundas desigualdades sociais no Brasil. Segundo as lideranças do movimento, seria uma maneira de fazer ouvir a voz do povo no maior reduto de especuladores financeiros e rentistas no Brasil. Houve quem saudasse o acontecimento como a irrupção do "Brasil Real" na fortaleza da alta finança - óbvio exagero triunfalista.

Não sou contra o protesto, em si, mas não sei se o timing foi bom. Justamente em um momento em que várias entidades ligadas ao mercado estão se manifestando pela democracia e contra Bolsonaro, acho que não foi o instante mais oportuno. Prioridades precisam ser pensadas de acordo com as circunstâncias. Cultivar antagonismos nunca é bom e, em um contexto de acentuada tensão social, pouco contribui para a superação da crise que vivemos. 

Qualquer ação pública precisa ser pensada em termos do impacto intentado. Atos que pregam aos convertidos e geram ruído para com os que estão "de fora" só agravam o isolamento político da esquerda em um momento em que se faz essencial construir pontes.

Há que se levar em conta que vivemos em um país de mentalidade muito conservadora (mais no sentido social que político) e há muita gente apavorada com o "bicho-papão" do comunismo. Não faltou quem, nas redes sociais, identificasse o MTST como "braço terrorista" (sic) do PSOL. 

Vivemos em uma sociedade em que políticos de extrema-direita podem vociferar as piores grosserias e barbaridades sem causar grande comoção, mas em que um protesto pacífico por parte da esquerda logo ganha ares de "ato terrorista". Essa falta de critério - ou melhor, esse critério distorcido - é certamente lamentável, mas é um dado cultural de nossa sociedade com o qual se faz necessário lidar com ponderação e sobriedade.

Esse tipo de protesto satisfaz certo público de esquerda, mas não contribui para um diálogo mais amplo com outros setores da sociedade brasileira - setores muitas vezes desdenhados como "pobre de direita", "classe mérdia" e por aí vai. 

É o eterno problema de boa parte da esquerda brasileira, que se preocupa mais com a perpetuação de uma estética supostamente revolucionária que com a viabilização de programas políticos.

Guilherme Boulos, liderança mais destacada do MTST, me parece um sujeito bem-intencionado, bem articulado, mas muito dado a exageros retóricos que me soam contraproducentes. Alguém que chegou ao segundo turno nas eleições para prefeito da maior cidade do Hemisfério Sul precisa ser mais cuidadoso em suas estratégias de comunicação com o público. Para bem ou para mal, Boulos conquistou uma posição de grande visibilidade na política nacional, e é de se esperar que adquira mais sagacidade política do que tem demonstrado até agora. 

A esquerda brasileira, definitivamente, precisa abandonar a mentalidade de DCE para encontrar meios mais amplos de diálogo com a sociedade brasileira, em toda sua complexidade. O Brasil não se reduz a hashtags e slogans.

Cada vez que alguém usa o termo "burguesia" morre uma fada...



sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Monstruosos moralismos

Eis agora um paladino da moral e dos bons costumes que estupra a neta - depois de outra que matou o próprio marido e um terceiro que espancou uma criança até a morte. "Tutti buona gente".

A pretexto de salvar a "família tradicional brasileira", combater "a roubalheira do PT" e deter "a ameaça comunista", colocamos no poder sociopatas hipócritas da pior índole possível - afinal de contas, "happiness is a warm gun".

Me sinto cada vez mais desgostoso e enojado dessa sociedade cínica, ignorante, grotesca, fanfarrona, delirante, idólatra, fanática e farisaica, "temente a Deus", mas abraçada com o que há de mais diabólico e sinistro - "dragões vomitados do Inferno", para citar os versos de Anchieta.

A caixa de Pandora está aberta e seus horrores não param de sair. O fundo do poço é a última esperança - se fundo houver. 

O cinismo por aqui é tamanho que Medusa admira orgulhosa seu próprio reflexo, moralmente incapaz do pudor da petrificação.



quarta-feira, 5 de maio de 2021

A "Ordem" brasileira - Paternalismo, autoritarismo e messianismo político

Texto originalmente rascunhado em janeiro de 2019

"Ordem e Progresso" - diz nossa bandeira. 

Ordem e desordem são categorias muito presentes no imaginário brasileiro, embora pouco se reflita sobre seus respectivos significados. A "ordem" de uns pode ser a "desordem" de outros. Sob esse aspecto, um de nossos maiores problemas é que a categoria "ordem" costuma ser sempre apresentada sob conotações positivas ou negativas, raramente sendo pensada de forma neutra. "Ordem" tanto pode nos trazer segurança coletiva quanto privação de liberdade individual. Por outro lado, o que desejamos, muitas vezes, é apenas aparência de ordem, para que melhor possamos nos deleitar na desordem. 

Para nossa reflexão, convém definir "ordem" como mero conjunto de relações entre as partes de um sistema complexo e compósito. Nesse sentido, de variados conjuntos de relações podem emergir variados gêneros de "ordens", onde suas respectivas partes gozem de maior ou menor grau de autonomia. 

Nesse sentido, há tanta ordem na parada militar quanto no desfile de escola de samba, ambos aparentados esteticamente à procissão religiosa e ao cortejo nobiliárquico - ocasiões em que coletividades se dão a ver pelo ordenado desfile de seus componentes, alas atrás de alas, segundo prioridades, precedentes ou hierarquias. Todo desfile, por mais sério que pareça, comporta muitas dimensões figurativas ou alegóricas. O desfile em via pública não apenas manifesta visualmente a existência da coletividade, mas expressa os valores e anseios que deseja exibir e dos quais, via de regra, se orgulha. O tanque pode ser tão alegórico quanto o carro da escola de samba.

"Procissão do Fogaréu", tradicional em Goiás.

Autonomia não é sinônimo de desordem. Um sistema ordenado com muitas partes autônomas e cooperativas pode funcionar até melhor que um sistema rigidamente hierarquizado. Por sinal, hierarquias demasiadamente rígidas podem conduzir à desordem a médio ou longo prazo, mesmo que pareçam eficientes para finalidades imediatas.

Sub-ordinação é apenas um tipo de co-ordenação, e nem sempre é o mais adequado. O excesso de sub-ordinação fragiliza um sistema, formando gargalos e pontos de tensão cuja ruptura pode comprometer severamente a integridade do sistema - como diz um antigo provérbio com muitas versões, "por falta de um prego, perdeu-se a ferradura; por falta da ferradura, perdeu-se o cavalo; por falta do cavalo, perdeu-se o cavaleiro; por falta do cavaleiro, perdeu-se a batalha; por perder a batalha, perdeu-se o reino inteiro".

Uma corrente é uma estrutura extremamente sub-ordinada e, como diz a sabedoria popular, é tão forte quanto seu elo mais fraco - e quanto mais longa a corrente, maior o número de elos potencialmente fracos, candidatos à ruptura. Uma malha bem co-ordenada, todavia, pode resistir bravamente à ruptura de vários de seus elos, redistribuindo as tensões sem comprometer a própria malha; os elos que circundam o elo rompido tendem a se adaptar de modo autônomo e interdependente, emulando a própria forma do elo perdido. Co-ordenação e fractalidade se combinam de modo mutuamente reflexivo em semelhante dinâmica: o conjunto se rearticula de modo a preservar a função da parte perdida.


Um exemplo interessante desse dinamismo seria talvez a fascinante arquitetura de Gaudí com seu uso de arcos catenários. Não à toa, talvez, o genial catalão projetava suas obras de ponta-cabeça, de modo que cume e base se confundem em suas funções. Tal modelo redistribui as tensões de modo extraordinariamente harmonioso, tanto para cima quanto para baixo.

Maquete "de ponta-cabeça" original de Gaudí, preservada em La Pedrera


Refletida em um espelho, a  maquete revela a forma do edifício "de cabeça para cima"

Numa estrutura bem co-ordenada, a autonomia se torna uma virtude capaz de garantir a ordem mesmo em situações de grande tensão; por outro lado, uma estrutura demasiadamente sub-ordinada acumula tensões de tal maneira que a autonomia pode se tornar um defeito, exigindo estrita conformidade das partes para evitar a tão temida "desordem" - o mínimo desvio dos padrões pode comprometer todo o sistema.

Não é à toa que sociedades muito hierarquizadas tendem a ser autoritárias, baseadas em rígida disciplina, muitas vezes mantida à custa da brutalidade contra suas partes mais autônomas. Em casos semelhantes a autonomia, não raro, é equiparada a grave vício moral. Sinais de autonomia pessoal são vistos com desconfiança e desencorajados de modo suave ou violento conforme sua gravidade percebida - gravidade essa que pode ser muito mais simbólica que efetiva, aferida mais por sua visibilidade que por sua real capacidade de afetar a coletividade; para uma rígida hierarquia, o menor gesto de autonomia pode parecer um ato de traição.

Não raramente, no entanto, a punição rigorosa e sistemática de determinados traços autônomos pode lhes conferir visibilidade ainda maior: espalha o fogo, em vez de apagá-lo; transforma a quarentena em vetor de contágio. Dependendo do caso, tal difusão pode trabalhar em favor dos disciplinadores, contanto que a subversão mantenha sua forma, mas se esvazie de seu conteúdo. O mártir transformado em santo pode mesmo se tornar um alicerce da hierarquia.

Não à toa os cristãos martirizados pelo Império ROMANO seriam igualmente cultuados pela Igreja Católica, Apostólica e... ROMANA - igreja mais imperial que apostólica, talvez: travestido como apóstolo, o imperador se converte em papa, a cúria romana reencarna a corte imperial. Nesse sentido, é curioso, mas não exatamente surpreendente que alguns dos maiores santos e místicos católicos tenham sido eventualmente vistos por seus contemporâneos com desconfiança, como São Francisco de Assis, ou mesmo frequentado os cárceres inquisitoriais, como São João da Cruz. Como já sinalizava Bergson, as relações entre religião dinâmica e estática são muitas vezes paradoxais.

Provavelmente não é à toa que as mesmas religiões (tanto transcendentes quanto seculares) que mutilam os corpos de seus hereges também cultuam os corpos mutilados de seus próprios mártires. Por sinal, como bem demonstram os conflitos entre católicos e protestantes na Idade Moderna, a diferença entre "herege" e "mártir" sempre depende de pontos de vista: o herege de uns é mártir para outros, e vice-versa. Joana d'Arc, convém lembrar, foi canonizada como santa pela mesmíssima Igreja que outrora a condenara como herege à fogueira - resta saber se é rigorosa e exatamente a mesma igreja que condena e canoniza: provavelmente não, a seguir a máxima de Heráclito, de que um homem não mergulha duas vezes no mesmo rio.

As igrejas, como todas as coletividades e rios, fluem no tempo: todo rio e toda coletividade modificam o próprio leito onde fluem, pela natureza mesmo do fluir, pelo atrito entre a dinâmica água e o estático solo - para retomar as categorias bergsonianas. Com o inexorável escoar dos dias, anos e séculos, toda coletividade em fluxo tende a erodir seus próprios dogmas ao longo do tempo. As coletividades mudam, inclusive com a fútil intenção de continuar as mesmas; e muitas vezes, nesse processo, acidental ou providencialmente, podem mudar para melhor. As coletividades, ao converter seus mártires em santos, se deixam imperceptivelmente subverter por eles: é um processo de mão dupla, incontornavelmente dialético.

A razão hierárquica apresenta grave tendência a perverter a ordem em seus esforços para evitar a desordem: autoritárias autoridades se persuadem, de boa ou má fé, que seus interesses são exatamente equivalentes aos da coletividade. A pretexto de encarnarem a voz da coletividade, da divindade ou da coletividade divinizada, fazem com que ela se cale.

A autoridade autoritária, em seu ilusório esforço por personificar a coletividade se degenera em grosseiro e grotesco personalismo. Iludidas ovelhas seguem seu pastor até o matadouro; não percebem que o pastor é apenas mais uma ovelha, com coração de lobo: "um rei é como um tubarão que anda sobre a terra", diz o provérbio havaiano.

Toda hierarquia, por melhores que sejam suas intenções ou pretextos, é potencialmente predatória; hipertrofiada e descontrolada, devora a carne ou a alma de seus próprios membros, inclusive daqueles em posição de autoridade: como bem dizia o abolicionista Joaquim Nabuco, o homem na condição de senhor ou escravo nunca é livre. De fato, tanto o senhor quanto o escravo estão presos na própria hierarquia que gera as respectivas posições de senhorio e escravidão, hierarquia essa que os ultrapassa e priva de sua autonomia. Não há casa-grande sem senzala, e vice-versa.

Não espanta, assim, que o espectro da escravidão ainda assombre a servil alma senhorial do povo brasileiro, tão dado a tendências autoritárias e paternalistas. Nada disso é acidental, dada nossa formação cultural, onde as figuras do pai e do senhor sempre se confundiram ou tentaram, com maior ou menor sucesso, se confundir, como mostra eloquente trecho do padre Antonil, redigido no século XVIII:

Os escravos são as mãos e os pés do senhor do engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente. E do modo com que se há com eles, depende tê-los bons ou maus para o serviço. [...] O que pertence ao sustento, vestido e moderação do trabalho, claro está, que se lhes não deve negar, porque a quem o serve deve o senhor, de justiça, dar suficiente alimento, mezinhas na doença e modo com que decentemente se cubra e vista [...] e deve também moderar o serviço de sorte que não seja superior às forças dos que trabalham, se quer que possam aturar. [...] Costumam alguns senhores dar aos escravos um dia em cada semana, para plantarem para si, mandando algumas vezes com eles o feitor, para que não se descuidem; e isto serve para que não padeçam fome nem cerquem cada dia a casa de seu senhor, pedindo-lhe a ração de farinha. Porém, não lhes dar farinha, nem dia para a plantarem, e querer que sirvam de sol a sol no partido, de dia e de noite com pouco descanso no engenho, como se admitirá no tribunal de deus sem castigos? Se negar a esmola a quem com grave necessidade a pede é negá-la a Cristo Senhor nosso, como Ele o diz no Evangelho, que será negar o sustento e o vestido ao seu escravo? [...] O certo é que, se o senhor se houver com os escravos como pai, dando-lhes o necessário para o sustento e vestido, e algum descanso no trabalho, se poderá também depois haver como senhor, e não estranharão, sendo convencidos das culpas que cometeram, de receberem com misericórdia o justo e merecido castigo. (André João Antonil, padre italiano, Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas).

Agora, como outrora, os populismos brasileiros confundem fartamente paternidade com senhorio, servidão com filiação. Enredada no imaginário do pai-senhor, a cultura política brasileira é uma máquina configurada para converter indignação em bonapartismo em suas complementares engrenagens de paternalismo e autoritarismo. O brasileiro, de "esquerda" ou "direita" busca perpetuamente em seu governante um pai-senhor, em Lula, Bolsonaro ou no próximo que vier.

Mas o pai-senhor também precisa ser Messias, por força de nossa formação lusitana, católica e irremediavelmente sebastianista. A pátria brasileira precisa de salvação, como a alma católica - e não há salvação sem eleição, como tanto enfatizam os protestantismos. Assim, a cada quatro anos, a não-tão-laica liturgia política brasileira precisa passar por um processo de eleição-salvação - ou salvacionismo eleitoral, conforme se prefira. Ao grado das circuntâncias escolhe-se o próximo salvador da pátria - depois de Lula, a bola da vez, muito significativamente, é Jair MESSIAS (!) Bolsonaro.

No entanto, não há Messias sem crucificação. Como o povo de Jerusalém entre o Domingo de Ramos e a Sexta-Feira da Paixão, o povo brasileiro sacrifica periodicamente seus salvadores-eleitos. Todo novo D. Pedro vai de seu glorioso 7 de setembro à sua melancólica noite das garrafadas. O suicídio de Vargas, a renúncia de Quadros, o impeachment de Collor e aquele de Dilma, a prisão de Lula, se sucedem como rimas finalizando estrofes de um longo e enfadonho poema escatológico, anunciando o D. Sebastião que virá na estrofe seguinte, em eterno retorno.

O discurso eucarístico de Lula na missa (!) celebrada em São Bernardo do Campo antes de se entregar à Polícia Federal não poderia ser mais sugestivo. Uma verdadeira autobiografia messiânica em versos barrocos, desde a encarnação humilde, passando pelos milagres presidenciais, a traição da classe-média brasileira, o martírio judicial, a paixão-apoteose encenada no próprio palanque e a promessa de ressurreição político-pneumática no corpo eucarístico-patriótico brasileiro: “Eu não sou mais um ser humano, eu sou uma ideia misturada com as ideias de vocês. Minhas ideias já estão no ar e ninguém poderá encerrar. Agora vocês são milhões de Lulas”.

Bolsonaro e seus seguidores, por outro lado, em muitas conjunturas críticas, têm se valido do imaginário do martírio e da efusão de sangue, evocando o atentado sofrido pelo atual presidente durante a campanha eleitoral. A imagem-meme da camisa ensanguentada se tornou como uma verdadeira relíquia para a idolotria bolsonarista.


Nada ou muito pouco de nossa vida política parece se passar fora desse imaginário político-familiar-colonial-religioso do pai-senhor-messias. Apesar do vocabulário, das instituições e das ideologias modernas, há um verdadeiro leitmotiv emotivo pré-moderno, pré-republicano e pré-democrático que insiste e persiste através de nossas correntes ideológico-partidárias de "esquerda" ou de "direita". Os credos mudam, mas a liturgia se perpetua.

Nossos dois fenômenos político-messiânicos mais recentes, Lula e Bolsonaro, flertam com a teologia em sentido literal, um com a Teologia da Libertação e o outro com a Teologia da Prosperidade, ambas com viés político-econômico de "esquerda" ou de "direita", mas, ainda assim, teologias cristãs, apontando ambas para o mesmo referencial salvífico-messiânico. Ambas também com forte teor vetero-testamentário, centradas respectivamente no imaginário do Êxodo e da Aliança.

No limite, esse imaginário do pai-senhor-messias se projeta completa ou parcialmente em muitos momentos e figuras de nossa história republicana e pré-republicana, como a "redentora" Princesa Isabel, o "profeta" Antonio Conselheiro, o Vargas "Pai dos Pobres", a "redentora" revolução (sic) de 1964, na figura cripto-mariana da "Dilmãe" ou no recente slogan presidencial "Deus acima de tudo, Brasil acima de todos".

No Brasil, o Estado lusitano precede a sociedade colonial, e esse Estado também era Igreja - romana, imperial, colonial, inquisitorial, cruzada. O observador desavisado pode confundir o povo brasileiro com a brava gente lusitana às margens de Alcácer-Quibir, combatendo o infiel, pela Fé e pelo Império, à espera do Fim dos Tempos, anunciado por Bandarras de todo credo político, à esquerda ou à direita.

Zweig não estava errado ao dizer que o Brasil é o país do futuro, mas se equivocava talvez em relação a nosso regime de temporalidade. O futuro só é plausível onde existem passado e presente - alguma consciência histórica, enfim.

Não é o caso do Brasil, país onde candidatos presidenciais, a cerca de meio século um do outro, mordendo-se mutuamente as caudas, prometem saltos milagrosos de "50 anos em 5" ou restaurar o país como era "50 anos atrás" - nosso futuro é aquele do horizonte escatológico, que é também restauração do Éden nos jardins murados da Jerusalém celeste, Genesis e Apocalipse de mãos dadas, fechados sobre si mesmos, entre a eterna "Visão do Paraíso" e as tormentas do "Inferno Atlântico".

Nosso barroco teatro político é uma longa procissão - e, como se sabe, numa procissão há pouco espaço para autonomia, basta seguir o andor...



quarta-feira, 31 de março de 2021

quarta-feira, 17 de março de 2021

Dias e Santos

"Antigamente, em regiões católicas, essa maneira de entender o tempo ainda era muito natural. Minha tia, por exemplo, nunca diria: 'No dia 17 de janeiro, aconteceu-me isto ou aquilo'. Ela diria: 'No dia de Santo Antônio, fui para tal lugar'. Para ela, a festa do abade e do eremita - ou de outro santo qualquer - marcava mais o dia do que o número do dia na folhinha. Era assim que cada dia tinha para ela o seu caráter próprio".
Anselm Grün

Santo Antão - também conhecido como "Santo Antônio do Deserto" ou "Santo Antônio do Egito"

quarta-feira, 3 de março de 2021

Tempo e ritmo

"O ritmo cria tempo; o relógio apenas o mede. Na Idade Média, o povo vivia o tempo ritmado por festas, celebrações e rituais. Pelo ritmo de festas e rituais, o tempo estava dividido em períodos, cada um com seu sentido, que todo mundo aceitava. O tempo tinha qualidade. Não se tratava de explorá-lo, mas de se engajar em seu ritmo, a fim de assim perceber o sentido da vida. Era um ritmo cultural, que unia entre si os seres humanos. O tempo sempre era percebido como tempo social".
Karlheinz Geiszler



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Mente x Máquina - Vitória impossível?

 John Henry, well, he told his captain

“Captain, a man, he ain’t nothing but a man

Before I let your steam drill

beat me down

I’m gonna die with a hammer

in my hand, Lord, Lord

I’ll die with a hammer in my hand


A lenda do bravo trabalhador John Henry sempre me encantou desde a primeira vez em que ouvi falar dela em um gibi do Supernan, com meus 10 anos de idade. O fascinante personagem folclórico é um trabalhador negro que não aceita a supremacia da máquina e morre vitorioso em uma competição contra uma perfuratriz a vapor, usando apenas seu martelo.

Na última semana travei meu próprio duelo à la mort, com uma máquina e realizei mais de uma vez algo que sempre julgara impossível: vencer um jogo eletrônico em modo "gauntlet".

Como se sabe, o modo "gauntlet" consiste em lutar contra sucessivas ondas de adversários, com poucos recursos (ou nenhum) para recuperar os danos da batalha: o que significa um árduo confronto até a derrota, sem a menor chance de vitória - exceto uma,  como me dei conta ontem.

Embora já tivesse jogado inúmeros games em "gauntlet", me tornei um aficcionado pela modalidade com meus 13 ou 14 anos,  jogando o arquiclássico Golden Axe em meu então poderoso Pentium 166. Em minha ignorância, eu imaginava que após determinado número de ondas inimigas derrotadas, haveria algo como um final surpreendente ou um prêmio. Após inúmeras tentativas descobri que estava terrivelmente equivocado. Quanto mais longe prosseguia, mais adversários enfrentava, até a inevitável "morte" no campo de honra. Essa constatação me deixou imensamente frustrado,  especialmente após todo o esforço que dedicara à empreitada guerreira.

Nunca mais retornei a Golden Axe (exceto em exposições de games antigos), mas o modo gauntlet permaneceu em minha vida. Durante alguns anos, apenas como um passa-tempo bônus após a conclusão de algum game. No entanto, amadurecendo, percebi que enfrentar gauntlets significava enfrentar a mim mesmo e superar meus próprios limites.

Para se manter de pé onda após onda, cada vez mais longe, são necessários foco e determinação a resistir "sobrevivendo" até a derrota. O momento crucial de um gauntlet é o final da partida, em que a barra de energia (ou o que o valha) se encontra praticamente esgotada e qualquer golpe adversário significa o fim da daquela batalha. Nesse momento prevalece a clareza mental de que a derrota está próxima, mas emerge a firme determinação de resistir por quantas ondas ainda for possível. A iminência da destruição e a resolução de resistir, combinadas, levam a um paradoxal estado de espírito, serenamente tenso, em que conta apenas fazer o melhor possível pelo tempo possível. Quando o "golpe mortal" finalmente chega, é recebido com a tranquiliidade de quem fez o melhor a seu alcance em uma luta onde nunca houve a mínima chance de vitória. Chegou-se tão longe quanto possível em uma jornada infinita.

Com o passar do tempo, comecei a ver os gauntlets como uma alegoria da própria vida: um combate incessante onde o que conta é a determinação de enfrentar reoluta e graciosamente cada nova onda de desafios que chega. Cada onda vencida sem danos, ou com danos mínimos, pode ser considerada, em si, uma vitória. E, com efeito, um gauntlet consiste em uma longa sucessão de vitórias contra dezenas,  até centenas de adversários, até a queda. O mais importante é tirar o máximo proveito dos limitados recursos oferecidos no início da jornada para superar os desafios encontrados.

No entanto, para minha imensa surpresa, na última semana, após tantos anos, consegui o impossível - venci o modo gauntlet.

Em minha postagem anterior, "Acidentalmente épico", registrei o momento em que, pela primeira vez, atingira a 75ª onda de atacantes no modo gauntlet do jogo Thor - God of Thunder, um excelente "beat'em-up" retrô produzido pela Wayforward para o Nintendo DS. Adquiri o jogo em dezembro de 2012 e, desde então, tenho jogado muitas vezes, tanto no no modo "story" quanto no modo "gauntlet" (ou "survival", na terminologia própria do jogo). No entanto, no preciso momento em que superava  meus limites, a máquina encontrava os seus, e travou - o que frustrou minhas expectativas de lutar "até a morte", muito embora deixando uma bela imagem residual.

No entanto, encorajado por meus progressos e determinado a vencer ao menos 100 ondas, nos dias seguintes vim jogando e, quanto mais ondas de adversários eu conseguia superar, mais ocorriam problemas técnicos. Por mais duas ou três vezes o jogo travou e, em outras ocasiões o áudio experimentou falhas cumulativas - em geral, os efeitos sonoros de ataque e feedbacks diversos iam desaparecendo, até que sobrava apenas a trilha sonora de fundo.

Somente ontem, no mais árduo dos confrontos, me dei conta de algo: nos últimos dias eu vinha derrotando não apenas o software Thor - God of Thunder em seu modo gauntlet, mas também o próprio hardware do sistema Nintendo 3 DS - especialmente, imagino eu, sua memória RAM.

A partida de ontem foi aquela onde não apenas alcancei, mas superei minha meta, derrotando 104 ondas e sendo abatido na seguinte. Durante o confronto os efeitos sonoros se foram completamente e, em minha imaginação, comparei a situação à de um combatente ensurdecido pelo ruídos do campo de batalha. A analogia tem lá seu fundamento, uma vez que a perda do feedback sonoro durante a partida causa certo desconforto e desorientação, pela perda das costumeiras pistas auditivas.

Por volta da nonagésima onda me questionei se valia a pena seguir adiante, temeroso de que o sistema de meu DS, com seus mais de 8 anos de operação não resistisse ao esforço. Ainda assim, achei que valia a pena experimentar e a partida veio a bom termo, com minha derrota no centésimo quinto round.

Mas que pensar, efetivamente, de minha "vitória" sobre a máquina? Certamente há que se pensar em suas condicionantes. A principal delas, creio eu, é que o sistema, com oito anos de uso,  já não opera mais em sua máxima potência - afinal de contas,  cedo ou tarde a entropia se faz sentir. Nesse sentido, há que se pensar mais em derrota do sistema que em vitória do usuário.

No entanto, ainda aqui há uma curiosidade: meu "hardware", por assim dizer, tem 28 anos de "uso".a mais que meu Nintendo. Não obstante, em nossas respectivas capacidades de processamento de informação, via interface de jogo, eu permaneci funcional,  enquanto o console entrou em colapso sistêmico.

Por banal que seja esse episódio,  me parece quase alentador "vencer a máquina" em tempos em que muitos advogam a substituição do humano em tantas tarefas demasiadamente humanas. Certo contemporâneo de Ford dizia que eram necessários trabalhadores baratos para operar máquinas caras. Infelizmente notamos que a mentalidade industrial pouco mudou nesses últimos 100 anos.

Apenas tardiamente me dou conta de que tanto Thor quanto John Henry travam suas respectivas batalhas usando martelos - uma das mais arcaicas, simples e eficientes ferramentas humanas. 

Não estranha que os antigos escandinavos e os trabalhadores dos EUA tenham associado o martelo a seus heróis míticos e folclóricos - afinal de contas, há pouco de heroico nas aventuras de uma perfuratriz a vapor, mas um humano com um martelo apela à imaginação, ainda que se trate apenas do Chapolim Colorado com sua marreta biônica. Não contavam com nossa astúcia!




sábado, 13 de fevereiro de 2021

Uma primavera se anuncia

"Sob profunda neve na última aldeia, 

Na noite passada desabrochou um ramo de ameixeira".

Poema folclórico japonês



quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Convivendo com monstros

Como dizia o matemático e filósofo Alfred Whitehead, tudo que é perverso se arruina pelas próprias forças. Quando há briga entre as cabeças de uma hidra, a melhor coisa a fazer é se afastar dela e deixar que se mordam umas às outras - pela simples impossibilidade de convencê-las a agir de outra forma.



terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Sobre "santidades" e "religiões laicas" do século XXI

Contribuição de Rodrigo Watzl

Apesar do “choro e do ranger de dentes”, o inferno é um lugar provavelmente silencioso: na própria consciência, ninguém ouve a dor alheia.

A “deusa internet” disse o seguinte: “faça-se o som... e o som se fez”. Só que, se você pensar bem, sob esse ponto de vista, não parece haver muita diferença entre o silêncio sideral e uma enlouquecida torcida de futebol.



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

"The mirror lied" and "Bandersnatch" - Do those works have a meaning?

I just played the intriguing "The mirror lied", a short and strange RPG game developed by Kan Gao, from Freebird Games. As a developer, myself, I can praise it's charming graphics, it's enjoyable gameplay and it's smoothly bumpy flow, reminiscent of old-school point-and-click games (but never the boring ones). Gao accomplished an atmospheric and involving game, which takes the player to a dreamlike experience, following Leah, the lonely protagonist.

The game takes roughly 20 minutes to end. Although set in a very common and even cozy house, "The mirror lied" is weird, to say the least, and, as I just found, has been the subject of many debates on it's meaning. Someone nicknamed "Katthecat" wrote a very good and comprehensive essay about it.

Gao took himself a part on this debates, to "explain" the game in a short video - all he does is shrugg his shoulders to the viewers, showing an ammused expression.

I guess the best answer on the "meaning" of the game is advanced by a short review on the site "Grinding Down". The work is just "an experiment intently too vague":

However, here, in The Mirror Lied, it all felt like an exercise in simply trying out mechanics and puzzles–nothing more, nothing less. A half-hearted attempt at a narrative to connect everything was provided with Leah, Birdy, and the phone calls, but the rest is left on the back-burner, because it doesn’t matter if you understand what is happening by the end, only that you got there, by figuring out how to unlock drawers, access a computer’s email network, and fill up a bucket with reddish liquid to water your ladder to freedom.

And I would add something more: Gao was probably trying to stir a buzz among indie gamers, in order to promote his masterpiece, "To the moon" (that I did not yet play). And it is fine to be so.

"The mirror lied" makes me think about "Bandersnatch", the interactive episode of the cult Netflix series "Black Mirror". The series itself is too grim, bleak and gloomy to me, but this interactive experiment left me curious. There are many endings, and people around the Internet kept endlessly discussing them and their supposed "meanings". There are many complex and even confuse flowcharts available on Google trying to outline "Bandersnatch".

I must confess the interactive episode felt exciting at first, but the chase for it's differente endings, through many repeated and looping paths soon became boring to me. As to the "meaning" of "Bandersnatch", I think the only way to "win" the challenge is just turning the smartphone off and moving on to some good book. 

"Bandersnatch", as I see it, is something like a practical joke or a prank on the viewers, intended to drag as much attention as possible and potential followers for the series. After all, attention is the most precious merchandise in our overconnected world. I must confess that I was only interested in that interactive experience by the overexcited chat about it among my high-school pupils.

Returning to the ingenious and enjoyable game developed by Kan Gao, I can say it made a very good work at creating a vague narrative exquisitely tailored to left the players puzzled after just half an hour (or even less) of gameplay. Quite an accomplishment, for an indie game.

To make my point, I guess both "Bandersnatch" and "The mirror lied" are purposefully "disturbing" and made to leave the public wondering about their respective "meanings" - that can be many or none. In both cases, I dare to say, the mean is the meaning. We, humans, are inclined to search for meaning everywhere - and I believe there are many meaningful thing in this world we live in.

However, many human endeavours are meaningless, by accident or by purpose - which I particularly believe is the case of Mr. Gao intriguing game. Such "meaningless" works of art may feel boring or disturbing just because we want to find not only a meaning but THE meaning, the true, final and unambiguous one. Our questions crave for answers, even if the answers are shoddy or far-fetched.

It is striking that all the interpretations about "The mirror lied" available on the web tend to be allegorical, concerning specially the main features of the game: the characters Leah and Birdy and the constantly watered plant. But are they truly allegories? Can they not be just a girl, a bird and an overgrown potted plant in some bizarre and lonel setting?

As a bad poet, I am fond of allegories and, generally, figurative language, but as a historian, I tend to be very cautious about them. And so, to conclude this reflexion, I quote Tolkien, scholar and novelist,  whose point of view about allegories is very keen, accurate and sound:

I cordially dislike allegory in all its manifestations, and always have done so since I grew old and wary enough to detect its presence. I much prefer history, true or feigned, with its varied applicability to the thought and experience of the readers. I think that many confuse applicabiliy with allegory; but the one resides in the freedom of the reader, and the other in the domination of the author.

In an interview about "The Lord of the Rings", the author was even more straight: "It has no allegorical intentions, general, particular, or topical, moral, religious, or political". 

And thus I must yet congratulate Mr. Gao as, mischievously shrugging his shoulders to the audience, he abdicates the "domination" of the artist for the sake of the "freedom" (and joy) of the players. "The mirror lied" is a dreamlike game, and, as it goes for dreams, find it's meaning might just ruin it's oniric atmosphere.

And to properly close, "Mischief managed!"