Newsletter

Sua assinatura não pôde ser validada.
Você fez sua assinatura com sucesso.

Oficina de Clio - Newsletter

Inscreva-se na newsletter para receber em seu e-mail as novidades da Oficina de Clio!

Nous utilisons Sendinblue en tant que plateforme marketing. En soumettant ce formulaire, vous reconnaissez que les informations que vous allez fournir seront transmises à Sendinblue en sa qualité de processeur de données; et ce conformément à ses conditions générales d'utilisation.

Mostrando postagens com marcador "Revolta dos 20 centavos". Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador "Revolta dos 20 centavos". Mostrar todas as postagens

sábado, 9 de maio de 2020

O "Fenômeno Bolsonaro" - Mais complexo que parece

Breves comentários sobre a análise de um sociólogo acerca da eleição de Bolsonaro - que seria, segundo o autor, uma expressão do racismo, machismo e homofobia recalcados (sensu Freud) do "brasileiro médio".

Achei o texto interessante sob alguns aspectos, mas ao mesmo tempo acho que faz algumas generalizações bastante problemáticas, a começar pela ideia de "brasileiro médio" - que não existe. Abordagens centradas no "fulano médio" tendem sempre ao abstrato e nos afastam da realidade. O "Fenômeno Bolsonaro" me parece muito mais complexo que isso. 

Além disso, o autor faz uma análise estática demais para meu gosto. Há que se explorar com muito mais detalhes as dinâmicas políticas, sociais, econômicas e culturais brasileiras nos últimos 30 ou 20 anos para compreender melhor isso.

Não me parece que tudo se resuma a essa "psicologia de massas" pseudo-freudiana. Do ponto de vista cultural, há que se levar em conta a convergência de paternalismo e messianismo, sempre latente em nossa cultura política, que vez por outra é captada por algum político carismático (Vargas e Lula são apenas 2 exemplos disso). 

Também há que se tomar em consideração o projeto lulista de inclusão social via consumo, que entrou em colapso junto com a economia em 2014, gerando uma tremenda onda de frustração entre seus próprios beneficiários. Muitas pessoas cujos padrões de vida haviam melhorado, tant bien que mal, durante as primeiras gestões do PT se ressentiram profundamente da recessão econômica cujos sinais começaram a se anunciar ainda no primeiro mandato de Dilma. A estagnação ou piora dos padrões de consumo da "nova classe média" alimentaram uma onda de insatisfação popular que viabilizou o impeachment de 2016 e a ânsia por um novo "salvador da pátria".

Também precisa se levar em conta a irresponsabilidade política de PT, PSDB e PMDB, cujas lutas eleitoreiras e dúbios pactos de governabilidade conduziram tanto ao descrédito da democracia constitucional quanto à aguda polarização política - fenômenos que, ambos, geraram o vácuo de poder e o ambiente venenoso onde o bolsonarismo pôde prosperar. O impacto da Lava-Jato sobre o imaginário político tampouco pode ser menosprezado. 

O mesmo se diga dos bizarros desdobramentos de 2013, que começou como um movimento da esquerda "bastarda" (desacreditada pelo PT e opositora de alguns de seus aliados, como Sérgio Cabral), e acabou gerando subprodutos como MBL e congêneres - militâncias digitais ultraliberais ou ultraconservadoras que se fortaleceram com a mobilização pró-impeachment de 2016. Entre as "Jornadas de Junho" de 2013 e a controversa Copa de 2014 nasceram as militâncias com camisas da CBF e bandeira nacional cujo beneficiário inicial foi Aécio Neves nas eleições de 2014, mas foram posteriormente cooptadas por Bolsonaro.

Também se faz necessário pensar na explosão neopentecostal dos anos 80 e 90 e seus desdobramentos políticos, em boa medida encorajados pelo PT (Magno Malta - "fiel" apoiador de Lula, Dilma, Temer e, finalmente, Bolsonaro - é uma figura muito emblemática, nesse sentido). O PT apoiou partidos e lideranças evangélicas de credenciais mais que dúbias durante anos, alimentando outro dos afluentes que finalmente desembocou no amplo apoio a Bolsonaro por parte de organizações religiosas politicamente aparelhadas e formadoras de um eleitorado fiel às orientações, explícitas ou veladas, vindas do púlpito.

O lamentável episódio do atentado em Juiz de Fora também não pode ser menosprezado - muita gente se alinhou a Bolsonaro na esteira da comoção gerada pela facada. Vi mais de uma pessoa se convencer a votar em Bolsonaro por acreditar que a facada era uma desesperada tentativa do "istablichem" de matar o único homem incorruptível que podia ameaçá-lo. Para muitos, a facada converteu Bolsonaro numa espécie de "mártir da Pátria". Por sinal, o episódio sempre é lembrado pelo séquito presidencial em momentos de crise, reativando e mobilizando essa memória conforme as necessidades e conveniências.

Em suma, o tema é muito complexo; a esquerda precisa encarar a realidade e parar de requentar as velhas teses (em parte verdadeiras) de que tudo se resume a uma reação da dita "classe mérdia" racista, machista, homofóbica e "pobrofóbica" que não aceitou ver pobre em aeroporto, negro na universidade etc. Essas pessoas e atitudes existem, mas acho um equívoco dizer que esse seria o "brasileiro médio" e que o "Fenômeno Bolsonaro" seria mero reflexo disso.

Nossa paisagem política sempre tende mais às engenhosas ilusões de Escher que à pureza neoclássica.

"Dia e Noite" (1938), de Escher

quarta-feira, 16 de março de 2016

Educação na chuva - um relato (16/03/2016)

Acabo de chegar da passeata unificada da educação fluminense, reunindo estudantes, responsáveis, funcionários e professores das instituições estaduais atualmente em greve - SEEDUC, UERJ e FAETEC.

Desci do metrô na estação Largo do Machado por volta de 14:15. Os corredores da estação se encontravam lotados de manifestantes, que se abrigavam da chuva torrencial. Como não gosto de "muvuca", preferi vestir minha capa e sair na chuva, me abrigando sob uma árvore. Alguns grupos se concentravam aqui e ali, sob árvores e marquises.

Alguns minutos depois, algumas pessoas começaram a se reunir diretamente sob a chuva. Resolvi juntar-me a elas. Logo éramos muitos, principalmente depois que alguns estudantes se puseram a circular pelo Largo, entoando canções de protesto.

O entusiasmo dos estudantes era contagioso. Me peguei refletindo sobre quanta coisa mudou nos últimos 3 anos. Durante a greve da FAETEC de 2013, a maioria de meus alunos reclamava, reproduzindo o discurso de que a greve os prejudicava. Em 2016, a esmagadora maioria dos estudantes vem nos apoiando e, mais ainda, organizando suas próprias manifestações.

Por volta de 14:55 a chuva amainou, e uma multidão saiu de dentro do metrô, como um dragão de conto de fadas que saísse intempestivamente de sua caverna. O Largo do Machado ficou apinhado de manifestantes, e alguns minutos depois a manifestação zarpou rumo ao Palácio Guanabara. Estavam presentes não apenas profissionais de educação, mas também representantes de outras categorias.

Éramos muitos. Do meio da passeata, mal se conseguia ver onde ela começava ou terminava. No meio do caminho a chuva retornou com grande intensidade. Estávamos encharcados, mas não desanimados. Eu e um colega nos pusemos a imaginar quantas pessoas mais teríamos sem esse tempo chuvoso; soubemos de pessoas que simplesmente ficaram presas no trânsito e não conseguiram chegar a tempo.

Policiais militares nos acompanharam durante todo o percurso. Mais uma diferença: tive a impressão de que eles se encontravam menos tensos e menos hostis em relação aos manifestantes que outras vezes. Em dado momento, a passeata parou por alguns minutos, e pude acompanhar a conversa entre um policial e uma professora. Ele manifestou total apoio ao movimento: "Vocês também estão lutando pela gente"; disse que vários colegas têm participado, à paisana, de manifestações. Fiquei surpreso, mas não tanto: o governo devia ter imaginado o que aconteceria quando mexesse no bolso de seus servidores...


Chegamos ao Palácio por volta das 16:30. Manifestantes acabaram ocupando as duas pistas da Pinheiro Machado. Nem quero imaginar como está o trânsito na Zona Sul!


Me retirei às 17:00, para atender minhas necessidades - ao contrário do que apregoam alguns pós-modernos, ainda não somos "pós-orgânicos". Peguei o metrô e cheguei em casa há cerca de uma hora.


Na próxima seremos muitos, muitos mais...

Educação na chuva! Pezão a culpa é sua!

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Desobediência Civil - o que é, para que serve, como funciona

Quando uma lei ou uma autoridade é injusta e atenta contra nossa consciência, ela deve ser desobedecida. Isso é Desobediência Civil.

Henry-David Thoreau (1817-1862), um dos primeiros pensadores da desobediência civil, era radicalmente contrário à escravidão, e pregava que todo cidadão norte-americano que fosse contrário a essa vil instituição tinha o dever moral de desobedecer ao governo e às autoridades que mantinham essa ordem injusta.

Para Thoreau, só existe verdadeira liberdade quando as pessoas botam suas consciências acima das leis e se recusam terminantemente a obedecer cegamente as leis, uma vez que sabemos que, em sua maioria, as leis são elaboradas pelos poderosos, como forma de defender seus interesses. Assim, o exercício da verdadeira cidadania e da democracia plena passa, necessariamente, pela desobediência civil, ou seja, pela firme disposição a não obedecer às injustiças.

A obediência constitui os fundamentos do poder governamental e, em sentido inverso, a desobediência consciente, que se recusa a aceitar ordens injustas e imorais, constitui a base do poder e da soberania do povo. Nesse sentido, a prática da desobediência civil exige sabedoria e reflexão; precisamos saber o que vamos desobedecer, por que vamos desobedecer e como vamos desobedecer.

A desobediência civil se pauta pelo princípio de não-violência, ou seja, a oposição de uma força moral contra a força bruta. Como dizia Gandhi, a verdadeira força da desobediência civil reside na legitimidade e na justiça da causa defendida, assim como na firme decisão de não descer ao mesmo nível que o agressor, respondendo à violência com uma resistência serena, mas inexorável. Do ponto de vista da não-violência, os fins não justificam os meios; pelo contrário, tanto os fins quanto os meios precisam ser justos.

À medida em que a desobediência civil parte de um imperativo de consciência, não são necessárias muitas pessoas para praticá-la. Basta a atitude firme e consciente de uma única pessoa que se recusa a obedecer a ordens injustas. Foi o caso de Rosa Parks, que em 1954 se recusou a obedecer às leis racistas do estado do Alabama, que exigiam que ela cedesse lugar no ônibus aos passageiros brancos. Um gesto simples de desobediência, sem nenhum manifesto grandioso ou discurso eloquente. Rosa Parks foi encarcerada, mas seu gesto de coragem foi o principal estopim para o Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos, que em apenas 14 anos inspirou milhões de negros a lutar pela igualdade de direitos nos EUA e, nesse período relativamente curto de tempo conseguiu fazer com que fossem extintas todas as leis baseadas na discriminação racial que existiam nos EUA. Não é preciso muito para começar, apenas a força de um exemplo, um único exemplo oferecido por uma pessoa que se recusa a ceder diante da injustiça.



A desobediência civil bota as autoridades diante de um impasse. Só existem três atitudes que o poder instituído pode tomar em relação àquele que desobedece: ignorar, punir ou ceder. No começo, muitas vezes, os gestos de desobediência são simplesmente ignorados.

Depois, quando se tornam incômodos demais, são punidos de diversas formas: agressão verbal, difamação, represálias financeiras (como descontos ou cortes salariais), força bruta (lacrimogênio, spray de pimenta, bala de borracha, cassetete, bala de chumbo etc), encarceramento e, eventualmente, execução. Nessas horas, é difícil se manter fiel ao princípio de não-violência, mas é necessário, caso não desejemos nos tornar algo pior do que aqueles que enfrentamos. É preciso lembrar que aqueles que lutam contra monstros muitas vezes também se tornam monstros, se não tiverem fidelidade a seus princípios. Isso é ainda mais complicado quando consideramos que, às vezes, se faz necessário persistir na resistência firme e não-violenta durante semanas, meses ou até anos. No entanto, como dizia Gandhi, por mais que a violência às vezes pareça rápida, os ódios que ela gera podem se prolongar por décadas ou séculos, criando malefícios que duram muito mais tempo que seus supostos benefícios imediatistas.

Por fim, a desobediência civil eventualmente atinge uma massa crítica em que o número de pessoas unidas pela causa e se torna tão grande e tão forte em sua firme determinação de continuar lutando apesar das represálias, fazendo com que a justiça da causa se torne evidente para todos, que só resta uma alternativa às autoridades injustas: ceder.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

PSDB, PT e a violência policial

Ano de 2013

Os professores do Estado e do município do Rio de Janeiro realizaram uma greve com grandes manifestações de rua.

Em diversos momentos a Polícia Militar usou de extrema violência contra os grevistas, especialmente na "Batalha da Cinelândia", a serviço de Eduardo Paes e Sérgio Cabral, ambos do PMDB e aliados políticos do PT e da presidente da República.

Dilma ficou calada. Calada.

Neste mesmo ano as forças policiais de diversos Estados usaram de truculência extrema contra inúmeros manifestantes.

Um oficial da PM de São Paulo foi brutalmente agredido por manifestantes; a mesma presidente que se calara diante de episódios de violência policial fez questão de emitir pronunciamento em rede nacional de televisão para repudiar a agressão do policial.

Dois pesos, duas medidas.

Ano de 2014

Nova greve dos professores do Estado e do Município do Rio.

O governo do Estado e a prefeitura do Rio iniciaram processos imorais por abandono de emprego contra diversos profissionais; sem qualquer respaldo da Justiça, Eduardo Paes cortou os salários de milhares de professores, em ato completamente ilegal.

Dilma: nem um pio.

Ano de 2015

Greve dos professores do Estado do Paraná. Manifestação contra decisão arbitrária de usar fundo da previdência paranaense para acertar as contas deficitárias do governo.

Atos de violência policial; verdadeiro massacre em Curitiba.

Reação de inúmeros petistas assumidos ou enrustidos: criticar o governador Beto Richa e seu partido, o PSDB, manifestando (por quê?) sua satisfação com a reeleição de Dilma.

Moral da história

Acho lamentáveis os atos de Beto Richa (e detesto o PSDB) - mas também acho detestável a omissão de Dilma em defesa do "organismo" PT-PMDB.

Gritar contra uns e calar em favor de outros é patético; chega de hipocrisia, pessoal.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

40 centavos - Coisas grandes e pequenas

Nesta sexta-feira pretendo ir ao 5º Ato contra o aumento das passagens. Por quê? Vale o esforço e o aborrecimento? Vale enfrentar a truculência policial por isso?

40 centavos não parecem nada; em termos meramente financeiros, não são nada. Mas a questão não é financeira, é política. Trata-se de mandar uma mensagem aos senhores Eduardo Paes e Pezão.

O aumento da passagem parece uma questão pequena. No entanto, as piores usurpações geralmente começam de modo lento e gradativo, nas "coisas pequenas". Começamos abrindo mão dessas coisas pequenas, justamente porque elas são "pequenas e sem importância", e abrimos cada vez mais espaço para que os tiranos ajam tranquilamente. Vendo a apatia popular, eles se sentem encorajados a coisas piores. Terminamos abrindo mão das grandes porque perdemos a força de resistir. Quando engolimos sapos passivamente, resmungando de lado, mas obedecendo, damos aos tiranos o poder para enfiar sapos cada vez maiores em nossas goelas.

Não é por 40 centavos, é por princípios. É para mostrar aos senhores prefeito e governador que eles não podem nos esmagar sob qualquer arbitrariedade. É para reafirmar e construir o poder do povo, para defender os alicerces da democracia.

E a democracia vale muito mais que quarenta centavos...

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Coari, 2015: considerações sobre a revolta popular

Quem planta injustiça, colhe revolta.

Enquanto ainda lhe deixam um pouco de dignidade, o ser humano pode permanecer dócil, obediente e submisso; pode ser pisoteado com um sorriso amarelo no rosto, fazendo piada. No entanto, quando o precipitam na miséria, tudo pode acontecer.

Há cerca de cinco meses os servidores da Prefeitura de Coari, Amazonas, não vêm recebendo seus salários, devido à administração irresponsável do município; isso afeta não apenas os funcionários propriamente ditos, mas o comércio varejista da cidade.

Na última semana, cerca de 400 pessoas revoltadas atacaram a Câmara dos Vereadores, as residências de alguns vereadores, e incendiaram as residências do prefeito e de sua mãe.  Também houve saques. Felizmente ninguém saiu morto ou ferido. Me parece um fato inédito na história recente da república brasileira: ataques diretos à pessoa e aos bens dos governantes.

As imagens de Coari são ao mesmo tempo belas, tristes e preocupantes.

 
 
 


Não justifico ou aprovo essa reação popular - violência gera violência, num ciclo de dor crescente e cada vez mais difícil de romper; o ideal seria buscar estratégias pacíficas e construtivas para resolver a situação.

No entanto, é o que acontece quando pessoas são brutalmente privadas do seu sustento. Cortar o salário de alguém é uma violência muito cruel. Conheci essa dor na carne, quando o Sr. Eduardo Paes, desrespeitando a Constituição e a Lei Orgânica do município do Rio, descontou meu salário pela participação na greve de 2014. Só quem sofreu uma coisa dessas tem ideia do quanto é horrível ter seu sustento comprometido por um governo arbitrário. Imagine cinco meses nessa situação...

Como dizia Victor Hugo, só é possível existir paz quando se instauram condições objetivas de participação democrática para todos. Quando não há diálogo, quando não se criam vias de entendimento pacífico, quando os poderosos se prevalecem da violência contra o povo, o desfecho será, normalmente, mais violento.


 



Espero que as autoridades amazonenses ajam com sabedoria, procurando caminhos para conciliação, reconhecendo ao povo seus justos direitos. Espero também que os órgãos municipais de Coari sejam devidamente responsabilizados pela situação. Temo pela onda de repressão que talvez se abata sobre o povo de Coari - e torço para que esse povo valente encontre outras estratégias para fazer suas legítimas reivindicações.

A situação em Coari é um lembrete para todos os nossos governantes. Ou botamos a democracia brasileira no eixos, ou teremos situações cada vez mais difíceis - principalmente para os políticos. Nossos prefeitos, vereadores, governadores, deputados, senadores, presidente, precisam perceber que, entre tamanhas injustiças, abusos e arbitrariedades, NINGUÉM está seguro. Que lembrem de Luís XVI e Maria Antonieta...

 
 
 

sábado, 27 de dezembro de 2014

Poder e violência

Extratos de O Reino de Deus está em vós, de Tolstói:

"Se o trabalhador não tem terra, se ele é privado do direito mais natural, o de extrair do solo seu sustento e de sua família, não é porque o povo assim queira, mas porque determinada classe - os proprietários fundiários - tem o direito de contratar ou não o trabalhador. E esta ordem de coisas contra a natureza é mantida pelo exército. Se as imensas riquezas acumuladas pelo trabalho são consideradas pertencentes não a todos, mas a alguns; se o pagamento dos impostos e seu uso são abandonados ao capricho de alguns indivíduos; se as greves dos operários são reprimidas e as dos capitalistas protegidas, se determinados homens podem escolher as formas de educação (religiosa ou leiga) dos jovens; se certos homens têm o privilégio de fazer leis às quais todos os outros devem se submeter, e de assim dispor dos bens e da vida de cada um, tudo isso acontece não porque o povo queira e porque deve acontecer naturalmente, mas porque os governos e as classes dirigentes assim querem, para seu proveito, e o impõem por meio de uma violência material.

Todos sabem disso, ou, se não o sabem, saberão à primeira tentativa de insubordinação ou de mudança nesta ordem de coisas.

[...]

Os governos afirmam que os exércitos são necessários, por toda parte, para a defesa externa. É falso. São principalmente necessários contra os próprios cidadãos, e cada soldado participa à revelia das violências do Estado sobre os cidadãos.

Para convencer-se desta verdade basta lembrar o que se comete em cada Estado, em nome da ordem e da tranquilidade do povo, servindo-se sempre do exército como instrumento. Todas as brigas internas de dinastias ou de partidos, todas as execuções capitais que acompanham essas agitações, todas as repressões de revoltas, todas as intervenções da força armada para dissipar os grupos ou para impedir as greves, todas as extorsões de impostos, todos os obstáculos à liberdade do trabalho, tudo isto é feito diretamente com a ajuda do exército ou da polícia, apoiada pelo exército. Cada homem que cumpre o serviço militar participa de todas essas pressões que, às vezes, lhe parecem ambíguas, mas, na maior parte do tempo, absolutamente contrárias à sua consciência".

domingo, 3 de agosto de 2014

Brasil: entre ditadura e tirania

Por razões óbvias, o termo "ditadura" ocupa lugar de destaque no vocabulário politico brasileiro. No entanto, já faz algum tempo que o termo me incomoda, como uma muleta conceitual que muitas vezes limita nossos debates e obscurece diversas questões.

De fato, há poucos anos tive a oportunidade de assistir excelente conferência do Prof. Mario Turchetti em que ele criticava justamente o empobrecimento do léxico político contemporâneo, que poderia ser enriquecido e revitalizado pelo reencontro com tradições mais antigas do pensamento ocidental. É justamente o que proponho aqui: recuperar a noção de "tirania" para pensar o contexto brasileiro atual.

A meu ver, um dos maiores inconvenientes da terminologia em torno de "ditadura" é seu forte teor legalista, que só nos deixa duas opções: ou temos um contexto em que o sistema legal e político se configura claramente como uma ditadura, ou usamos a noção como mera figura de linguagem, cada vez mais empobrecida de significados.

A noção de "tirania" me parece apontar caminhos para além desse dilema. Como observa Arlette Jouanna, trata-se de problema muito discutido desde a Antiguidade até a Idade Moderna. É interessante observar que a escolástica medieval, especialmente João de Salisbury e Tomás de Aquino, teve o cuidado de diferenciar dois gêneros de tirania: existiriam o "tirano de usurpação" e o "tirano de exercício".

A tirania por usurpação seria caracterizada pela tomada violenta e ilegítima do poder, aproximando-se assim da ideia de ditadura justamente pela ênfase nos aspectos legais. Por outro lado, a tirania por exercício se dá quando uma autoridade legalmente instituída realiza mau exercício do poder, levando-nos da problemática legalista à problematização moral.

Nesse sentido, me parece rico pensar o contexto atualmente vivido no Brasil como uma tirania por exercício, à medida que nossas autoridades eleitas dentro das leis vigentes vêm nitidamente usando seu poder em detrimento dos direitos civis e políticos dos cidadãos, especialmente através de inúmeros abusos cometidos na esfera estadual com absoluta conivência das autoridades federais.

Nosso país não tem hoje de fato uma ditadura, mas os tiranos estão no poder.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

"Protestar não é crime" - Um relato

Ontem fui com minha amiga Rosiane ao ato nacional "Protestar não é crime". Embora não tenham comparecido os quatro mil previstos, foi uma bonita manifestação. Saímos da Candelária, entrando pela Rio Branco e dobrando na Almirante Barroso, até o Tribunal de Justiça. Até a hora em que eu e Ro viemos embora, a polícia ainda não havia provocado nenhum tumulto - apesar do efetivo gigantesco do Choque. Éramos gente de todas as tribos, de todas as opiniões, de todas as categorias, de todos os posicionamentos políticos, unidos por uma causa: LIBERDADE. Éramos o povo, oceano onde se afogam todos os tiranos, como dizia Victor Hugo.

Tenho duas coisas a destacar sobre o ato. Em primeiro lugar, fiquei muito contente ao ver alguns funcionários da COMLURB participando da manifestação. É bonito ver uma categoria tão desvalorizada e geralmente associada pelo preconceito social à ignorância conquistando seu devido lugar no concerto da cidadania - principalmente depois da belíssima e magistral greve que eles conduziram esse ano. São sinais de um real despertar dos trabalhadores.

Também fiquei muito feliz ao conversar com dois jovens, mal saídos da adolescência. Cheios de dúvidas, com posicionamentos políticos hesitantes, mas cheios de entusiasmo, aprendendo na rua a ser cidadãos, buscando, aos tateios, mas cheios de coragem, os significados da cidadania.

O Brasil está repleto de amanhã.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Professores, traficantes e o mito de Prometeu

"Cuide do seu filho, antes que um professor de História ou de Filosofia o adote".

A infeliz citação reproduz (aproximadamente) o discurso de uma suposta poetisa, psicanalista e filósofa em recente debate radialístico. Como muitos devem ter percebido, trata-se de paráfrase de um slogan que saiu de moda, mas fazia muito sucesso alguns anos atrás:

"Cuide do seu filho, antes que um traficante o adote".

A comparação entre professor (de História ou Filosofia) e o traficante é triste, mas esclarecedora, à medida em que condensa de forma exemplar uma gama complexa de discursos que vêm sendo formulados desde a explosão de manifestações que ganharam as ruas do Brasil desde junho de 2013. Vamos por partes.

Em primeiro lugar, temos o discurso que tende a criminalizar as manifestações e as reivindicações populares, confundindo-as propositalmente com o vandalismo, que ocorre pontualmente - geralmente num circuito de retroalimentação e interdependência com a violência policial. Aliás, embora seja professor de História, não apoio a ação violenta, nem a tática black bloc. Assim, no dizer da distinta "pensadora" brasileira o manifestante é confundido com o vândalo, que por sua vez é confundido com o traficante, criminoso por excelência no imaginário brasileiro.

Por outro lado, a fala da poetisa [sic] também traduz um velho discurso que tende a ver os professores da área de humanas como "revolucionários" e subversivos em potencial. Mais ainda, temos visto uma postura nitidamente persecutória em relação ao magistério, perceptível desde a violência policial contra professores, prisão política de diversos profissionais da área, tentativa de associar o sindicato dos profissionais da Educação aos "vândalos" fabricados pela mídia ou projetos como o famigerado "Escola sem Partido", do pequeno Bolsonaro. Assim, o professor se equipara ao manifestante, ao vândalo e, por fim, ao traficante - todos criminosos.

Talvez esse discurso seja bastante influenciado pelas grandes greves do magistério em 2013, e todo o circo midiático, político e policial montado em torno delas, com direito a Cinelândia cercada e bombardeio aéreo de lacrimogênio: tudo pela Educação! No entanto, creio que a ferida é ainda mais profunda, ligada ao movimento geral de sucateamento da educação pública e de desvalorização da profissão docente. Mais ainda, revela o pavor que os poderosos sentem contra a educação e o esclarecimento das massas.

Tudo isso nos leva ao mito grego de Prometeu, o titã que roubou o fogo dos deuses, símbolo da luz do conhecimento, entregando-o aos mortais. A punição para esse grave crime é uma das mais severas e cruéis registradas pela mitologia: o titã foi acorrentado a um rochedo no alto do Cáucaso, sendo diariamente visitado por um abutre que devora seu fígado, que cresce durante a noite apenas para renovar seu sofrimento no dia seguinte, por toda a eternidade.

Na Grécia antiga, como no Brasil atual, oferecer o fogo do conhecimento ao povo é crime grave, tão grave quanto traficar drogas, praticar atos de vandalismo ou exercer pacificamente o direito democrático de reivindicar.

terça-feira, 1 de abril de 2014

A Marcha da Família e o Muro de Berlim

Felizmente a Marcha da Família organizada no domingo retrasado foi um belíssimo e retumbante fiasco. Confesso que o resultado me deixou aliviado, mas também bastante surpreso. Não imaginei que o movimento seria tão esvaziado, especialmente considerando as opiniões que vemos por aí, de um conservadorismo quase chulo. Não consigo deixar de me indagar: por quê?

Alinhavar explicações de ordem causal é sempre complicado em História - aliás, no campo das humanidades, em geral. No entanto, parece-me oportuno traçar algumas considerações acerca da situação, especialmente comparando a marcha original e seu triste remake.

Antes de tudo, me parece essencial lembrar a diferença das conjunturas internacionais em torno dos dois episódios, aspecto que me parece de altíssima relevância. Afinal de contas, a marcha de 64 se deu em plena Guerra Fria, em meio à atmosfera de polarização ideológica que se sabe. A "ameaça comunista" era muito mais tangível e, em certo sentido, real. A Revolução Cubana estava logo na esquina, ora bolas! Creio que faltou à versão atualizada esse apelo de perigo iminente. Em tempos em que a maior potência "socialista" fabrica i-phones, quem vai dar crédito aos psicóticos delirante que vêm o neoliberalíssimo PT como um antro de "stalinistas bolivarianos" [sic]? O Muro de Berlim caiu, mas os "marchadeiros" não parecem ter percebido.

Por outro lado, acho que faltou UDN! Os partidos de oposição foram suficientemente espertos para não endossarem essa roubada, assim como a grande mídia. Nos tempos que correm, nem a Globo quer segurar essa batata quente; eles sabem que a verdade é dura... Também vale lembrar que a Dilma não é exatamente um Jango.

Por fim, o panorama religioso do Brasil mudou muito nos últimos 50 anos. Em 1964, a Igreja Católica era claramente hegemônica, em todos os sentidos: no número de fiéis, em sua relevância política e social, em seu prestígio cultural arraigado. Vivemos hoje num país sem identidade religiosa prediminante, marcado por ampla diversidade de credos e cultos. Por sinal, a própria Igreja Católica mudou muito em suas relações com a política nacional, mantendo uma presença muito mais sutil. Além disso, os católicos não são mais os mesmos; o processo de secularização da cultura brasileira se encontra muito mais acentuado. Ouso imaginar que haja hoje muito menos católicos "praticantes" e que esses "pratiquem" muito menos que os de 64.

Em suma, acho que a marcha de 2014 evidencia muitas das mudanças políticas, sociais e culturais vividas  nas últimas décadas, no Brasil e no mundo.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

"Amar é agir"

Em seus últimos dias de vida, Victor Hugo, o colosso da poesia, escreveu essas palavras num pedaço de papel:

"Aimer, c`est agir".

Foram as últimas palavras que redigiu. Nessa curta sentença condensou todo o sentido de sua obra e de sua vida; aí estão La légende des siècles, Les misérables, Hernani, o exílio, a ação política...

É um testamento ético para todos nós, um imperativo ideológico, um convite moral profundo. O ser que ama, age no mundo. Não existe verdadeiro amor sem ação. Amor sem ação é apenas uma palavra vazia, uma pieguice sem substância.

Se você ama sua família, aja.

Se você ama seus amigos, aja.

Se você ama seu povo, aja.

Se você ama a humanidade, aja.

Ame sempre, aja sempre!

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Gotas d`água no oceano...

Trecho final do romance Cloud Atlas, de David Mitchell*

"Se nós acreditarmos que a humanidade pode transcender dente e garra, se nós acreditarmos que diversas raças e credos podem dividir esse mundo tão pacificamente quanto os órfãos dividem sua nogueira**, se acreditarmos que líderes podem ser justos, que a violência pode ser amordaçada, o poder responsabilizado, e as riquezas da Terra e seus Oceanos partilhados equitativamente, tal mundo se tornará realidade. Eu não estou enganado. É o mais difícil dos mundos para se fazer real. Torturantes avanços conquistados durante gerações podem ser perdidos pelo simples traço da pluma de um presidente míope ou pela espada de um general vanglorioso.

Uma vida gasta dando forma a um mundo que eu queira que Jackson herde, não uma que eu tema que Jackson herde, isso me parece uma vida digna de ser vivida. Em meu retorno a San Francisco, dedicar-me-ei à causa Abolicionista, porque devo minha vida a um escravo que libertou a si mesmo, e porque devo começar em algum lugar.

Imagino a resposta de meu sogro: 'Oh, ótimo, sentimentos progressistas, Adam. Mas não me fale de justiça! Cavalgue a Tennessee num asno e convença os caipiras de que eles são apenas pretos pintados de branco e que seus pretos são brancos pintados de preto! Veleje para o Velho Mundo, diga-lhes que os direitos de seus escravos imperiais são tão inalienáveis quanto os da rainha da Bélgica! Você ficará rouco, pobre e grisalho em debates! Você receberá escarros, tiros, será linchado, pacificado com medalhas, desprezado pelos conservadores! Crucificado! Ingênuo, sonhador Adam. Aquele que quiser batalhar contra a hidra de muitas cabeças da natureza humana irá pagar um mundo de dor e sua família irá pagar isso junto com ele! E apenas quando você emitir seu último suspiro irá entender que sua vida não contou mais que uma gota num infinito oceano!'

No entanto, o que é qualquer oceano senão uma infinidade de gotas?"



*Essa canhestra tradução é fruto de meu esforço.
**No original, "candlenut tree", Aleurites Moluccana, em Português, nogueira-de-iguape, árvore associada à paz e à concórdia no imaginário havaiano (especificamente entre os nativos de Maui).

terça-feira, 23 de julho de 2013

Receita para uma saborosa democracia

Ingredientes:
-Generosas porções de educação pública e gratuita de primeira qualidade em todos os níveis;
-Fartas doses de liberdade de expressão;
-Uma intelectualidade criativa e participativa;
-Centenas de dúzias de organizações civis independentes e atuantes;
-Milhões de cidadãos críticos, conscientes e vigilantes;
-Um governo transparente e aberto à participação dos cidadãos, previamente temperado com muita laicidade;
-Tolerância, compreensão, respeito à opinião alheia, empatia, fraternidade e amor ao próximo a gosto (quanto mais, melhor);

Modo de preparo:
Misturar todos os ingredientes numa grande panela. Cozinhar com muita paciência durante décadas, em forno brando. Periodicamente elevar a temperatura até levantar fervura, para apurar o sabor.

Rendimento:
Alimenta um país inteiro.

Observações importantes:
-A educação pública de qualidade é o ingrediente mais importante; com ela, todo o resto fica melhor;
-Atenção ao preparar a liberdade de expressão; deve ser pulverizada de modo adequado, evitando a concentração de oligopólios ou monopólios midiáticos;
-Um pouco de fervura é importante para o prato, mas o excesso de ebulição pode deixar um sabor amargo;
-São necessários muitos cidadãos para vigiar a receita, tomando cuidado com o oportunismo de cozinheiros manipuladores...

domingo, 30 de junho de 2013

Maracanã - Um crime contra o patrimônio cultural da humanidade

Dedicado aos meus queridos adoradores desse templo, Priscila, Caio, Tiago e Vinicius

Não gosto de futebol. Creio que isto só qualifique ainda mais minhas críticas.

Só estive duas vezes no Maracanã: uma vez, em 2001, com meus primos Caio e Alzimar, alvinegros doentes; a outra, em 2007, com minha esposa, vascaína fanática.

Na primeira vez em que pus meus pés no estádio, fui tomado por verdadeiro estupor, ante sua monumentalidade. A rampa, as arcadas, tudo ali parecia construído para uso de gigantes, não de seres humanos. Ao mesmo tempo, não se tratava de um gigantismo genérico, mas que falava de um momento muito específico de nossa história, enquanto país e cidade, assim como da arquitetura contemporânea. Uma grandiosidade rústica, ressoando talvez discursos arquitetônicos que andavam no ar, como o "brutalismo", de Le Corbusier.

Um Maracanã que era monumento das glórias e misérias do nosso país nesse longo século XX. Um estádio que nos falava não apenas da paixão do povo brasileiro pelo futebol, mas também do nacional-desenvolvimentismo pós-Vargas e do ufanismo nacionalista da Ditadura Militar, do crescimento econômico, do desenvolvimento tecnológico e da industrialização de nosso país, assim como das vivas contradições de nossa sociedade, que faziam com que um morador da Mangueira e outro do Leblon pudessem ali estar lado a lado por efêmeros 90 minutos de um domingo, para depois retornarem aos velhos preconceitos na segunda-feira.

Ontem pude ler as sensatas críticas do jogador Arbeloa. De fato, essa já era minha impressão sempre que passava em frente ao estádio durante suas recentes obras. Do trem. então, o panorama era lamentável. Contudo, vou além das críticas do craque espanhol. Não foi apenas um ato de vandalismo contra um estádio mítico e histórico. Não deformaram cruelmente apenas um templo do futebol. Destroçaram uma parte da história do povo brasileiro, apagaram as marcas de um século de nossas lutas e dores por entrar no mundo moderno. Isso ofende a todos nós, não apenas aos aficionados do esporte.

Onde estavam o IPHAN e a UNESCO durante todo esse processo?!

No entanto, o Maracanã continua sendo um monumento, acrescentando mais uma camada de significados e memória. A partir de agora, e por muito tempo, será o monumento das iniquidades cometidas contra o povo do Rio de Janeiro por Sérgio Cabral, Eduardo Paes, Eike Batista, Fernando Cavendish e tantos outros, sob o olhar conivente da FIFA e de Dilma Rousseff. Um monumento para o futuro, a nos lembrar das violências contra toda a população carioca, das desapropriações criminosas ocorridas em todo o país, das tristes alianças políticas de nossa época, da emergência do Brasil como potência mundial e, mais ironicamente, do momento em que o futebol motivou a conscientização política do povo brasileiro, depois de tantas décadas de uso instrumental para alienação da população...

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Royalties para Educação e Saúde - e agora?!

Após longas discussões, negociações e o blablabla que já conhecemos, a Câmara dos Deputados acabou de aprovar - com alterações - projeto de lei discutindo a aplicação dos royalties do pré-sal à Educação. Ao fim, ficou decidido que 75% dos mesmos serão direcionados à Educação e 25% à Saúde. Também foram aprovadas alterações de caráter financeiro que seria difícil resumir aqui.

Também deve-se acrescentar que até a aprovação definitiva ainda há outros passos; precisamos aguardar ainda as intervenções do Senado e do Judiciário. Creio que ainda teremos que esperar prováveis alterações devido a questões de direito contratual relativas às condições de exploração dos poços. Apesar de tudo, imagino que o futuro do projeto, com maiores ou menores alterações, está garantido.

Trata-se, obviamente, de imensa conquista do povo brasileiro. No entanto, os caminhos da cidadania são longos e tortuosos. Não podemos descansar sobre os louros dessa vitória. A luta por Educação e Saúde de qualidade está apenas começando.

Não podemos esquecer que o dinheiro por si só não resolverá nada. É preciso que haja projetos políticos, acadêmicos, pedagógicos e sanitários consistentes para que esse dinheiro seja realmente bem empregado em iniciativas comprometidas com uma educação libertadora e um sistema de saúde humanizado.

Particularmente no que tange à Educação, essas verbas não podem servir para a compra irresponsável de tablets, notebooks, netbooks e outros tantos equipamentos de rápida obsolescência, servindo a projetos tanto mirabolantes quanto faltos de conteúdo pedagógico realmente inovador.

Não devem servir para o pagamento de subornos morais aos docentes, sustentando "aprovações automáticas" dissimuladas.

Tampouco queremos que sejam empregadas para a imposição de métodos de ensino duvidosos oferecidos por fundações e organizações alheias aos anseios político-pedagógicos daqueles que todos os dias lutam na sala de aula por um Brasil mais consciente e cidadão.

Em suma, não podem ser sequestrados para nossas conhecidas políticas de padronização de métodos e fabricação de resultados falaciosos.

Não podemos ser ingênuos: sem nossa vigilância e participação essas verbas serão empregadas no reforço da educação tecnicista, tecnocrática, burocrática, centralista e autoritária que já conhecemos. Cabe a todos, e principalmente a nós professores, dialogar com as autoridades competentes e, se necessário for, enfrentá-las com garra, criatividade e astúcia. Desejamos destituí-las ou afrontá-las gratuitamente? Não, queremos apenas ser ouvidos.

Precisamos pensar caminhos para nossa atuação docente. Precisamos erguer nossa voz, mostrar nossos anseios e nossos projetos. Somos profissionais da educação, com experiência do cotidiano escolar e formação acadêmica adequada. Por sinal, muitos de nós temos primorosa formação, estudamos em instituições universitárias de prestígio nacional ou internacional, desenvolvemos atividades de pesquisa científica, contribuímos com a produção intelectual de nosso país publicando trabalhos de reconhecida qualidade e detemos títulos que comprovam nossa elevada competência. Infelizmente, nem sempre encontramos condições de trabalho adequadas para dar pleno proveito a nossas consideráveis qualificações. Não somos patetas incapazes, condenados a acatar passivamente as determinações unilaterais do primeiro economista ou burocrata comissionado a um cargo de confiança qualquer. Unidos, podemos e devemos transformar o "Reino de Costintinopla" na "República Unida dos Professores, Diretores, Alunos e Comunidade Escolar"...

Vale a pena tentar.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Reforma Política já!

Há 29 anos, o Brasil clamava: "Diretas já"!

Hoje é necessário erguer um novo grito: "Reforma Política já"!

Com Dilma, ou sem Dilma.

Com constituinte ou sem constituinte.

Com ou sem plebiscito, mas de preferência com ele!

Sejamos de direita, esquerda ou centro; sejamos partidários, apartidários ou suprapartidários.

A Reforma Política é o melhor caminho para se transformar essa democracia na autêntica voz do povo brasileiro. Essa voz tem de ecoar de Norte a Sul, de Leste a Oeste, nos campos e nas cidades!

Superando nossas diferenças, ergamos essa bandeira: ela é nossa melhor chance de construir um Brasil melhor nos anos por vir.

A Reforma Política vale muito, muito mais que vinte centavos.

Vamos às ruas apoiar a Reforma Política!

Mostremos ao nosso congresso, a todos os responsáveis pelo Executivo, Legislativo e Judiciário que esse é o nosso desejo.

Que todos eles percebam que nos move um desejo maior: participar ativamente, ter vez, voz e voto nas decisões importantes do nosso país!

Reforma Política já!!!

segunda-feira, 24 de junho de 2013

"Greve geral" - opinião e sugestões

Caros amigos,

o evento do Facebook "Greve geral" já conta com milhares de confirmações de participação. Devo dizer que essa proposta me parece completamente equivocada. Muita coisa tem sido dita a respeito do evento e de seu organizador, um tal Felipe Chamone, inclusive acusações de vinculação a partidos e de posicionamentos "fascistas", "direitistas", etc.

Me dei ao trabalho de investigar a situação e, honestamente, acho tais acusações infundadas. Me parece que o proponente do evento é até uma pessoa bem intencionada, mas já pelo texto na comunidade e outras intervenções suas é possível perceber que se trata de pessoa pouca habituada a discussões políticas de qualquer espécie e de opiniões extremamente superficiais e canhestramente formuladas. Diria que mais um dos nossos "chapolins" da hora presente. Não creio que seja pessoa capaz de articular um movimento dessa magnitude de modo competente.

Contudo, deixemos de lado qualquer argumento ad hominem; analisemos o movimento, não a pessoa.

Primeiramente, como se pode ver na própria página do evento, a pauta do evento é um emaranhado mal costurado de propostas vagas e imprecisas. Antes de se fazer uma "greve geral", é preciso pensar muito bem quais são os motivos e as reivindicações em jogo.

Além disso, ir para uma manifestação de rua é uma coisa relativamente simples. Uma greve legítima é algo MUITO diferente. Existe legislação regulamentando os direitos à greve, ou seja, é uma iniciativa que deve corresponder a inúmeros requisitos legais. Digam o que quiserem, vivemos em um Estado de direito e as leis são as regras do jogo democrático. Como bem dizia Gandhi, as leis só devem ser seriamente desrespeitadas quando moralmente afrontosas e iníquas; não é o caso das leis sobre greves, apesar de suas limitações.

Deve-se acrescentar o seguinte: quem determinou quando começa a greve? Quem decidirá quando ela termina? Quem negociará as reivindicações? Junto a que órgãos governamentais ou entidades patronais? O Sr. Felipe Chamone?! Uma greve, em todos os seus aspectos deve ser conduzida através de decisões coletivamente votadas por uma assembleia. É a lei. E todos queremos respeitar as leis, não é? Ou iremos pisoteá-las como certos políticos que tanto criticamos?

Por fim, como já podemos ver, greve é coisa muito séria, e para que qualquer manifestação popular funcione, é necessário um mínimo de pertinência e coerência terminológica e legal. O que está sendo proposto não é uma "greve geral", por todos os motivos citados. Creio que o termo mais adequado seria um "boicote geral" - pois, até onde eu saiba, um boicote não é regido por leis específicas.

Em suma, qualquer iniciativa política é válida, e cabe a cada um decidir se participará ou não. Mas o exercício pleno da cidadania exige maturidade, reflexão e discernimento. Não podemos seguir impensadamente a primeira bandeira que se levanta no horizonte, sob pena de nos tornarmos "cegos conduzindo cegos".

Quanto a mim, "tô fora" dessa "greve geral"!

domingo, 23 de junho de 2013

A composição dos manifestos - uma perspectiva em microescala

Quantidade não é qualidade.

Tenho visto muitas pessoas perdendo tempo em debates esteréis sobre QUANTAS pessoas havia nas ruas do Rio na última semana. Honestamente, considero uma discussão perfeitamente irrelevante para nossas necessidades atuais. Basta dizer que havia MUITÍSSIMAS pessoas, em quantidade significativa e incontornável. A cifra exata, para mais ou para menos, além de impossível de definir precisamente, não nos esclarecerá de modo considerável.

Pelo contrário, creio que seja urgente uma reflexão mais atenta a respeito das forças sociais componentes dessas manifestações, de modo a compreender (um pouco) melhor a resultante que temos visto nas ruas e nas diferentes mídias, incluindo obviamente a Internet e as redes sociais.

Obviamente é impossível definir as motivações de cada um dos milhares que têm participado dessa movimentação. No entanto, devemos refletir sobre a pluralidade que marca essa participação política. Pluralidade muito bem vinda, por sinal. Que fique bem claro, não lamento a falta de clareza atual. No entanto, me parece que sua permanência indefinida levará a um esvaziamento dessas manifestações.

Também deixo claro que não desejo que os participantes se unam em um único discurso e sob uma única bandeira. Antes de tudo, porque seria impossível - sejamos realistas. Em seguida, porque acho muito mais rico politicamente que haja pluralidade e diversidade. Me desagradaria profundamente que surgisse daí alguma ideologia monopolizante, à direita ou à esquerda. Além do mais, qualquer discurso capaz de unificar e agradar a TODOS seria necessariamente um discurso superficial e empobrecido. É importante que em lugar de um movimento único tenhamos muitos movimentos paralelos atuando de modo simultâneo e convergente. Aceitar a diversidade de posturas e opiniões, sem desqualificar ou desmerecer posicionamentos conscientes de qualquer natureza é uma mostra de maturidade democrática. Acho que podemos chegar lá.

Também não quero desvalorizar nossos "Chapolins ideológicos" da hora presente. Acho excelente que pessoas anteriormente despolitizadas se interessem pela vida política de nosso país. Elas não devem ser rechaçadas como um incômodo. Devemos sim dialogar com elas, de modo a promover a educação política de nossa nação. No entanto, evitemos posturas arrogantes. Há pessoas despolitizadas e mal informadas que ainda assim têm pontos de vista muito interessantes e ricos. Devemos ouvi-las e ajudá-las a transformar essas contribuições em algo mais consistente.

Dito isso, vamos à nossa análise da composição dos manifestos. As observações que seguem derivam do que tenho visto e ouvido de pessoas próximas, com que tenho contato diretamente, seja pessoalmente ou por meios eletrônicos. É o espaço amostral de que disponho para análise. Por isso mesmo, trata-se de uma "perspectiva em microescala".

Procurarei aqui identificar não tanto grupos ou categorias de pessoas, classificando-as de modo rígido. Na verdade, quero principalmente identificar um repertório de atitudes. Por sinal, dificilmente alguém enquadrar-se-á numa atitude única, mas em várias. Trata-se de categorias complementares, e não excludentes.

E lá vai nosso repertório:

Os Politizados Partidários - são aqueles que já algum tempo participam de modo ativo da vida política do país, mostrando-se comprometidos com as plataformas políticas de algum partido específico, seja de esquerda ou de direita (sim, porque ser politizado não é sinônimo de ser de esquerda).

Os Politizados Apartidários ou Suprapartidários - são as pessoas que têm o hábito cotidiano de pensar e debater sobre política e possuem posturas conscientes e bem embasadas sobre a vida política do país, sem cultivar vínculos com nenhum partido específico. (OBS: me situaria nessa categoria).

Os Antipartidários - são contrários à própria existência de partidos políticos, de modo um tanto vago. Me parece um fermento político pernicioso, cego à necessidade de pluralidade ideológica.

Os Insatisfeitos - pessoas pouco politizadas e muito irritadas com a situação do país. Querem demonstrar sua insatisfação, mas não apresentam bandeiras muito concretas, e sim um sentimento de descontentamento difuso.

Os Raivosos - mais que insatisfeitos, têm raiva, um ódio visceral aos políticos, à situação do país, etc. Articulam um discurso vingativo e revanchista. Querem ver políticos presos, destituídos, punidos das mais variadas formas. Querem ver o circo pegar fogo.

Os Empolgados - pessoas que nunca ligaram muito para política, céticas em relação a alternativas, mas que agora estão entusiasmadas pela possibilidade de encontrar novas possibilidades e meios de atuação coletiva. É um grupo muito positivo, que pode enriquecer muito a qualidade do movimento.

Os Deslumbrados - têm um olhar um tanto narcisista sobre o movimento, encantados com a quantidade de pessoas, com o povo nas ruas, etc e sentem um orgulho indisfarçável por participar. Apreendem o conjunto da situação sob um viés predominantemente estético: tudo é tão lindo!

Os Festivos - participam como se fosse uma farra, como se estivessem num estádio ou num bloco de carnaval. Vão mais pelo modismo, pela azaração e para postar fotos... O clima desses participantes é um tanto ao estilo "Rock In Rio - Eu vou!"

Os Violentos ideológicos - praticam atos de vandalismo e de depredação por orientação ideológica, baseados em discursos consistentes de revolta armada, revolução pela força, etc. Quem fez graduação em História ou áreas afins conhece o tipo.

Os Violentos indignados - pessoas que adotam atitudes agressivas como forma de explosão raivosa contra o sistema, agindo de modo quase catártico.

Os Criminosos oportunistas - gente que está se aproveitando da situação para saquear lojas ou destruir símbolos de status dos quais se vêm excluídos. Sua atuação tem estreita relação com as pulsões consumistas cotidianamente cultivadas por nossa sociedade.

sábado, 22 de junho de 2013

"V de Vingança" ou "C de Chapolim"?

Dedicado aos amigos Roger Marques e Tiago Ribeiro


As apropriações culturais mais interessantes são quase sempre fruto de manobras criativas e imprevisíveis. É o caso do percurso trilhado pela obra V de Vingança ("V for Vendetta", no original).

A máscara de Guy Fawkes (rebelde inglês do século XVII) durante séculos foi objeto de execração em comemorações anuais na Inglaterra, ao estilo da nossa "malhação do Judas". No início dos anos 80, o quadrinista britânico Alan Moore se apropriou da imagem para a impactante caracterização do personagem V, numa obra que criticava o contexto das reformas neoliberais empreendidas na "Era Thatcher". Cerca de três décadas depois, a máscara de V/Guy Fawkes foi tomada como símbolo de manifestações populares contra o mesmo sistema neoliberal, em sua fase mais avançada, em que os sinais de deterioração sociais decorrentes se tornam nítidos ao redor do mundo. Até onde sei, essa apropriação da imagem começou em Nova York, com o movimento de ocupação em Wall Street. Depois de tímidas aparições em solo brasileiro, chega com toda força a nossas ruas.

Com certeza, Alan Moore deve estar muito satisfeito com essa trajetória. Ouso dizer que Guy Fawkes também, com a eclosão de seu legado simbólico, após tantos séculos.

No entanto, vale observar que muitas pessoas estão usando a imagem de modo um tanto vazio. Provavelmente não leram a história em quadrinhos e talvez nem tenham assistido o filme. Usam a máscara de V, mas articulam discursos totalmente incongruentes com as críticas elaboradas pela obra de Moore. Muitos talvez nem saibam de onde o símbolo saiu. Por outro lado, há aqueles que talvez até tenham lido - usam fantasias completíssimas inclusive - mas apenas balbuciam palavras de ordem banais e propostas superficiais.

Enfim, o que temos visto por aí combina muito pouco com V, personagem coerente, analista preciso da realidade, dono de um discurso orgânico e planejador astuto e sagaz. Enfim, nada a ver com muitos setores que têm frequentado as ruas brasileiras, defendendo plataformas ocas, repetindo bordões e entoando cantorias de significado duvidoso.

Enfim, estão mais perto do desorientado Chapolim Colorado que do metódico V.

Como sabem quase todos que cresceram no Brasil nos anos 80 e 90, o nosso querido herói latino nem sempre age de modo muito consistente. De fato, mete os pés pelas mãos, "esclarecendo" em seguida que seus movimentos são friamente calculados...

Pior ainda, apesar de seus nobres sentimentos, o ingênuo Chapolim é facilmente ludibriado. Pior ainda, o Polegar Vermelho adere a qualquer causa sem pedir maiores esclarecimentos. Em diversos episódios o vemos ajudando cientistas malucos a realizar experimentos inescrupulosos, bandidos a saquear casas, espiões a roubar documentos, e por aí vai... Muita gente tem andado por nossas ruas levantando bandeiras que não sabem exatamente de onde saíram nem aonde querem ir. De fato, não conto com a astúcia dessas pessoas.

Enfim, fica o recado: "Chapolins" de todo o Brasil, fiquem atentos e usem melhor suas anteninhas de vinil para detectar a presença do inimigo - e não colabore com ele!