segunda-feira, 28 de agosto de 2023
sexta-feira, 11 de novembro de 2022
segunda-feira, 3 de outubro de 2022
O ópio e a espada
Manter-se fiel a princípios e convicções é extraordinariamente difícil neste mundo onde as multidões buscam o conforto das conveniências e o inebriante ópio das verdades fáceis. A pureza é uma fantasia malsã, mas o cinismo é um veneno lento e impiedoso; encontrar a justa medida e o caminho do meio é como buscar estrelas em noite de tempestade. Espada e bainha são feitas uma para a outra; a sabedoria consiste em escolher o momento certo para desembainhar - nem cedo, nem tarde. Mas quem saberá reconhecer tal momento? O prudente morre em sua hesitação e o tolo em sua precipitação. Todos morreremos. Corajoso é apenas aquele que, apreciandoo verdadeiro valor da vida, não busca nem evita a morte. Só se vive verdadeiramente quando espada e bainha se movimentam em perfeita sincronia, sem atraso ou afobação. Ao homem sincero não apavoram cruz, cicuta, exílio ou ostracismo. Aquele que vive temendo a morte já morreu e ainda não sabe.
quarta-feira, 13 de abril de 2022
Tolstói - Religião, ciência e as imposturas do poder
Passagens de Carta a um hindu, de Leon Tolstói (grifos meus)
Antigamente, o principal método de justificar o uso da violência e assim infringir a lei do amor era reivindicar um direito divino para os governantes: czares, sultões, rajás, xás e outros chefes de Estado. Porém, quanto mais a humanidade vivia, mais fraca se tornava a crença nesse direito peculiar dado ao governante por Deus. Ela murchou da mesma maneira e quase simultaneamente no mundo cristão e no brâmane, assim como nas esferas budista e confucionista. Nos últimos tempos, ela desapareceu de tal forma que não prevalece mais contra a compreensão razoável do homem e o verdadeiro sentimento religioso. As pessoas viam cada vez mais claramente, e agora a maioria vê de maneira nítida, a falta de sentido e a imoralidade de subordinar os outros às suas vontades, quando são obrigados a fazer o que é contrário não apenas aos seus interesses, mas também ao seu senso moral. E assim, alguém poderia supor que, tendo perdido a confiança em qualquer autoridade religiosa para uma crença na divindade de potentados de vários tipos, as pessoas tentariam se libertar da sujeição a ele. Os governantes, que eram considerados seres sobrenaturais, se beneficiaram por sujeitar os indivíduos, mas infelizmente não foram os únicos beneficiários. Como resultado da crença e durante o governo desses seres pseudodivinos, grupos cada vez maiores de pessoas se uniram e se estabeleceram ao redor deles, que sob a aparência de governo tiraram vantagem do povo. Quando o velho engodo de uma autoridade sobrenatural e designada por Deus diminuiu, a única preocupação desses homens passou a ser inventar uma nova enganação que tornasse possível manter o povo em servidão a um número limitado de governantes, como fez a antecessora.
[...]
Agora, novas justificativas surgiram no lugar das antiquadas, obsoletas e religiosas. Elas são tão inadequadas quanto as antigas, mas, como são novas, a maioria dos homens não consegue reconhecer sua futilidade imediatamente. Além disso, aqueles que desfrutam do poder propagam esses novos sofismas e os apoiam com tanta habilidade que eles parecem irrefutáveis, até mesmo para muitos que sofrem com a opressão que essas teorias procuram explicar. Essas novas justificativas são chamadas de "científicas", mas pelo termo "científico" entende-se exatamente o que antes era conhecido como "religioso", era considerado inquestionável simplesmente porque era chamado assim, agora tudo que é denominado "científico" é acatado de maneira inconstestável. A justificativa religiosa obsoleta da violência consistiu no reconhecimento da personalidade sobrenatural do governante ordenado por Deus ("não há poder senão o de Deus"). Isso foi substituído pela justificativa "científica".
Em primeiro lugar, a "ciência" apresenta a afirmação de que, como a coerção do homem pelo homem tem existido em todas as épocas, é uma consequência de que ela deva continuar a existir. Essa afirmação de que as pessoas devem continuar a viver como nas eras passadas, e não como sua razão e consciência indicam, é o que a "ciência" chama de "lei histórica".
A segunda justificativa "científica" está na afirmação de que, como há uma luta de constante pela existência entre plantas e animais selvagens que sempre resulta na sobrevivência do mais apto, uma disputa semelhante deve ser realizada entre os seres humanos. Isso apesar do fato de que os humanos são dotados de inteligência e amor, capacidades que faltam em criaturas inferiores, sujeitas à luta pela existência e sobrevivência das mais qualificadas.
A terceira, mais importante e, infelizmente, a mais difundida justificativa é apenas uma pequena alteração da desculpa religiosa milenar: na vida pública, a supressão de alguns para a proteção da maioria não pode ser evitada. Isso torna inevitável a coerção, por mais desejável que seja apenas a confiança no amor nas relações humanas. A única diferença nessa justificação pela pseudociência consiste no fato de que ela agora dá uma resposta distinta daquela dada pela religião ao porquê de algumas pessoas não terem o direito de decidir contra quem a violência pode e deve ser usada. A religião declarou que o direito de decidir era válido porque as pessoas detentoras do poder divino o pronunciavam. A "ciência" afirma que essas decisões representam a vontade do povo, que, sob uma forma constitucional de governo, deve encontrar expressão em todas as decisões e ações daqueles que estão no comando no momento.
Tais são as justificativas científicas do princípio da coerção. Elas não são apenas fracas, mas absolutamente inválidas, e ainda assim são tão necessárias para aqueles que ocupam posições privilegiadas que acreditam nelas tão cegamente como antes acreditavam na Imaculada Concepção, e as propagam com a mesma confiança. E a infeliz maioria dos homens está tão deslumbrada com a pompa com a qual essas "verdades científicas" são apresentadas que, sob essa nova influência, aceita essas idiotices científicas como verdade sagrada, assim como anteriormente aceitava as justificativas pseudorreligiosas. E essa infeliz maioria continua a se submeter aos atuais detentores do poder, que são tão crueis, mas agora mais numerosos do que antes.
| Deckard e Batty - para os poderosos, caçando ou caçados, somos todos "replicantes"; toda desobediência precisa ser punida. |
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022
O preço da paz
Violência gera violência. E toda violência tem um preço. O valor da paz, por outro lado, é incalculável. Nenhum preço é alto demais para se conquistar a paz.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2022
Esperanças para uma humanidade esvaziada - Pensamentos de Martin Luther King
Fábricas imensas comandadas por computadores, cidades que engolem a paisagem e atravessam as nuvens, aviões que desafiam a noção de tempo - todas essas são coisas impressionantes, mas não podem ser espiritualmente inspiradoras. Nada em nossa resplandecente tecnologia pode elevar o homem a novas alturas, porque o crescimento material foi transformado num fim em si mesmo, e, na ausência de propósitos morais, o próprio homem se torna menor à medida que suas obras se tornam maiores. Indústria e governo gigantescos, combinados num intrincado mecanismo computadorizado, deixam as pessoas de fora. O senso de participação é perdido, o sentimento de que indivíduos comuns podem influenciar decisões importantes desaparece, o homem fica excluído e diminuído.
Quando um indivíduo não é mais um verdadeiro participante, quando não se sente mais responsável por sua sociedade, o conteúdo da democracia é esvaziado. Quando a cultura é degradada e a vulgaridade entronizada, quando o sistema social não gera segurança, mas induz perigo, o indivíduo é inexoravelmente impelido a se afastar dessa sociedade sem alma. Esse processo produz alienação - talvez a característica mais disseminada e insidiosa da sociedade contemporânea.
***
Muitas vezes me pergunto se a educação está ou não atingindo seu objetivo. A grande maioria das pessoas ditas instruídas não pensa de maneira lógica e científica. Até a imprensa, a sala de aula, os palanques e o púlpito, em muitos casos não nos dão verdades objetivas e imparciais. Salvar o homem do pântano da propaganda, em minha opinião, é um dos principais objetivos da educação. A educação deve permitir que a pessoa examine e pese as evidências, tenha discernimento para diferenciar o verdadeiro e o falso, o real e o irreal, os fatos e a ficção.
A função da educação, portanto, é ensinar a pensar intensamente e a pensar criticamente. Mas a educação que se contenta com a eficiência pode se provar a maior ameaça à sociedade. O criminoso mais perigoso pode ser o homem dotado de razão, mas não de moral.
Devemos lembrar que inteligência não é o bastante. Inteligência mais caráter - esta é a meta da verdadeira educação. A educação completa dá à pessoa não somente poder de concentração, mas objetivos dignos em que se concentrar. A educação ampla transmitirá, portanto, não só o conhecimento acumulado da raça [?], mas também a experiência acumulada da vida social.
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O progresso humano não é nem automático nem inevitável. Mesmo uma olhadela superficial na história revela que nenhum avanço social chega sobre as rodas da inevitabilidade. Cada passo rumo à meta da justiça requer sacrifício, sofrimento e luta, requer os esforços incansáveis e o interesse apaixonado de indivíduos dedicados. Sem esforço persistente, o próprio tempo torna-se um aliado das forças insurgentes e primitivas do emocionalismo irracional e da destruição social. Não é hora para apatia ou complacência. É hora para ação vigorosa e positiva.
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Devemos trabalhar apaixonada e infatigavelmente para transpor o golfo entre nosso progresso científico e nosso progresso moral. Um dos grandes problemas da humanidade é que sofremos de uma pobreza do espírito que contrasta obviamente com nossa abundância científica e tecnológica. Quanto mais ricos nos tornamos materialmente, mais pobres nos tornamos moral e espiritualmente.
Todo homem vive em duas esferas, a interna e a externa. A interna é a esfera dos fins espirituais expressos na arte, na literatura, na moral e na religião. A externa naquele complexo de aparelhos, técnicas, mecanismos e instrumentalidades por meio dos quais vivemos. Nosso problema hoje é que deixamos o interno se perder no externo. Permitimos que os meios pelos quais vivemos suplantassem os fins para os quais vivemos.
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| Martin Luther King com seus filhos Yolanda e Martin |
quinta-feira, 20 de janeiro de 2022
Gandhi e a Democracia nos EUA
| Exemplo de segregação racial institucionalizada no sul dos EUA através das chamadas "Leis Jim Crow". |
quarta-feira, 5 de janeiro de 2022
O fascínio de Gandhi
"Mesmo que minha crença seja uma ilusão agradável, será admitido que é uma ilusão fascinante".
Mohandas K. Gandhi
sábado, 25 de setembro de 2021
Sobre a "ocupação" da BOVESPA pelo MTST
Essa semana o MTST "ocupou" a BOVESPA em protesto contra o desemprego, a carestia, a miséria e as profundas desigualdades sociais no Brasil. Segundo as lideranças do movimento, seria uma maneira de fazer ouvir a voz do povo no maior reduto de especuladores financeiros e rentistas no Brasil. Houve quem saudasse o acontecimento como a irrupção do "Brasil Real" na fortaleza da alta finança - óbvio exagero triunfalista.
Não sou contra o protesto, em si, mas não sei se o timing foi bom. Justamente em um momento em que várias entidades ligadas ao mercado estão se manifestando pela democracia e contra Bolsonaro, acho que não foi o instante mais oportuno. Prioridades precisam ser pensadas de acordo com as circunstâncias. Cultivar antagonismos nunca é bom e, em um contexto de acentuada tensão social, pouco contribui para a superação da crise que vivemos.
Qualquer ação pública precisa ser pensada em termos do impacto intentado. Atos que pregam aos convertidos e geram ruído para com os que estão "de fora" só agravam o isolamento político da esquerda em um momento em que se faz essencial construir pontes.
Há que se levar em conta que vivemos em um país de mentalidade muito conservadora (mais no sentido social que político) e há muita gente apavorada com o "bicho-papão" do comunismo. Não faltou quem, nas redes sociais, identificasse o MTST como "braço terrorista" (sic) do PSOL.
Vivemos em uma sociedade em que políticos de extrema-direita podem vociferar as piores grosserias e barbaridades sem causar grande comoção, mas em que um protesto pacífico por parte da esquerda logo ganha ares de "ato terrorista". Essa falta de critério - ou melhor, esse critério distorcido - é certamente lamentável, mas é um dado cultural de nossa sociedade com o qual se faz necessário lidar com ponderação e sobriedade.
Esse tipo de protesto satisfaz certo público de esquerda, mas não contribui para um diálogo mais amplo com outros setores da sociedade brasileira - setores muitas vezes desdenhados como "pobre de direita", "classe mérdia" e por aí vai.
É o eterno problema de boa parte da esquerda brasileira, que se preocupa mais com a perpetuação de uma estética supostamente revolucionária que com a viabilização de programas políticos.
Guilherme Boulos, liderança mais destacada do MTST, me parece um sujeito bem-intencionado, bem articulado, mas muito dado a exageros retóricos que me soam contraproducentes. Alguém que chegou ao segundo turno nas eleições para prefeito da maior cidade do Hemisfério Sul precisa ser mais cuidadoso em suas estratégias de comunicação com o público. Para bem ou para mal, Boulos conquistou uma posição de grande visibilidade na política nacional, e é de se esperar que adquira mais sagacidade política do que tem demonstrado até agora.
A esquerda brasileira, definitivamente, precisa abandonar a mentalidade de DCE para encontrar meios mais amplos de diálogo com a sociedade brasileira, em toda sua complexidade. O Brasil não se reduz a hashtags e slogans.
Cada vez que alguém usa o termo "burguesia" morre uma fada...
quarta-feira, 7 de julho de 2021
Yebosid
.Htrut Eht Kees Ohw Eshot Rof Ytud Larom A Si Seitirohtua Gniodgnorw Yebosid Ot
.Semit Lufgnorw Ni Efil Tneced A Rof Toor Eht Si Ecneidebosid Dlob Dna Lufecaep
.Elpoep Tneidebo Yldnilb Deen Dna Evol Stnaryt
.Modeerf Eurt Eb Tonnac Ereht Ecneidebosid Suoicsnoc Touhtiw
.Selpicnirp Rouy Tsniaga Seog Taht Gnihtyna
Yebosid
quarta-feira, 16 de junho de 2021
sábado, 27 de março de 2021
Angry together
"If we all got angry together something might be done".
Robin Smallburrow [In Tolkien, "The Lord of the Rings"
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021
Quem decide sobre nossas vidas? - Aulas presenciais, pandemia e "protocolos científicos"
"Não ser ouvido não é razão para silenciar-se".
Victor Hugo
Entrando em fevereiro de 2021 as redes de ensino públicas e privadas do Brasil retomam suas atividades letivas e volta à baila a discussão sobre a possibilidade de um retorno "seguro" às atividades presenciais - com ou sem vacina. Apesar da verdadeira matança ocorrida em 2020, há quem teime em brincar com a vida (alheia).
Inúmeros gestores públicos se valem de comitês científicos para deliberar sobre protocolos de retorno. Há aí um imenso, colossal problema.
Ninguém, em sã consciência, há de negar os avanços e confortos que a ciência moderna proporcionou à humanidade. No entanto, nada disso faz de cientistas - e, portanto, comitês científicos - autoridades inquestionáveis em relação à gestão de riscos.
Não quero com isso desacreditar a valorosa contribuição dos cientistas em relação à gestão sanitária da pandemia. No entanto, cientistas geralmente são bons em sinalizar aquilo que é potencialmente perigoso, mas péssimos em garantir que algo é seguro. É mais fácil provar a existência de um grave perigo que provar a inexistência de uma ameaça - ou, em termos de lógica formal, "ausência de evidência não significa evidência de ausência".
Para ficar apenas com um exemplo recente, vimos há poucos anos a terrível tragédia nuclear de Fukushima, da qual o Japão ainda não se recuperou completamente.
O desastre de Fukushima é um alerta contra a arrogância científica. Examinando em retrospecto, chega a ser absurdo que comitês científicos permitissem o funcionamento de um obsoleto reator nuclear de circuito aberto justamente no litoral de um país tão vulnerável a terremotos e tsunamis. Fukushima era uma tragédia anunciada, mas cientistas garantiam que a operação da usina era "segura". O preço dessa arrogância se conta em milhares de mortos, vítimas de envenenamento radiativo e famílias desalojadas de seus lares, com suas vidas desfeitas pelo risco de exposição à radiação residual.
Luc Ferry, filósofo e ex-Ministro da Educação da França, em obra de 1992, já criticava a ilusão de que comitês científicos sejam capacitados a tomar decisões éticas com repercussões na vida de terceiros. Cientistas, quaisquer que sejam suas especialidades, estão aptos apenas a prestar esclarecimentos técnicos sobre sua área de atuação profissional. Isso não significa que lhes caiba decidir sobre os desdobramentos éticos de tais pareceres, mormente quando se trate de questões de vida ou morte. Os cientistas que garantiram a "segurança" operacional de Fukushima são responsáveis por todas as mortes e danos provocados pela usina.
Da mesma forma, quando um comitê científico subscreve as decisões de qualquer político a respeito de retomada de atividades educacionais presenciais ele se torna responsável por todos os enfermos e mortos em decorrência dessa situação, seja entre estudantes, profissionais da educação e respectivos familiares.
A situação se torna ainda mais perversa quando os gestores da educação tornam a decisão de retorno ao ensino presencial facultativa aos estudantes e suas famílias, mas lançam mão de recursos administrativos variados para pressionar os profissionais da educação a retomar suas atividades.
Tomo a liberdade de adaptar o testemunho* de uma amiga professora que adoeceu de COVID devido à atabalhoada retomada de atividades presenciais no segundo semestre de 2020:
Estou apavorada. Sofri com essa doença. Só eu sei o que passei. Quando foi dito novamente que tínhamos que ir à escola, não consegui dormir. Tive crises de ansiedade e pânico. Não sei, para mim, como será esse retorno. Meu médico me passou remédios para relaxar e dormir. Está muito difícil para mim. Ou perco minha sanidade ou perco meu sustento.
E temos aqui o cerne da questão. A profissional mencionada se sente ameaçada e coagida em sua subsistência a retomar suas atividades laborais, apesar de ter sofrido terrivelmente com a enfermidade. É exatamente por essa razão que cientistas não estão aptos a tomar decisões de ordem ética que afetem terceiros: é relativamente simples e fácil para um comitê científico definir protocolos sanitários "seguros" sem levar em consideração as complexas realidades vivenciadas em uma escola.
Afinal de contas, protocolos são apenas instruções redigidas e registradas em documentos, que muitas vezes não funcionam na realidade. E aqueles que redigem os protocolos, muitas vezes, não são aqueles cuja pele será posta em jogo pela aplicação dos mesmos. Como em Fukushima, aqueles que dizem o que é "seguro" não costumam ser os mesmos que arriscam suas vidas.
Para usar uma velhíssima analogia, são como generais que, no conforto de seus gabinetes, decidem sobre a vida de soldados lutando para sobreviver na trincheira. Qualquer ser humano com o menor escrúpulo percebe quão sórdida e perversa é essa situação.
O mínimo que comitês científicos e gestores educacionais poderiam fazer seria EFETIVAMENTE ouvir o que os profissionais com anos de experiência nas trincheiras escolares têm a dizer sobre a suposta eficiência e segurança de tais protocolos.
Mais ainda, é absurdo, injusto e mesmo indecente tornar o retorno facultativo aos estudantes, mas compulsório aos profissionais da educação. Isso significa simplesmente dizer que uns têm o direito a decidir sobre sua saúde, integridade física e, no limite, sua vida, enquanto a outros é negado esse direito.
É ainda mais paradoxal ver que tantos advogados de longa data do ensino remoto em condições "normais" se manifestam agora como intransigentes defensores da retomada de atividades educacionais presenciais e da importância da presença do estudante em sala de aula - em meio à pior crise sanitária global desde a Gripe Espanhola, com elevado risco de contágio.
Por fim, tudo que os profissionais da educação desejam é simplesmente o DIREITO de preservar a vida e a saúde deles mesmos, assim como de suas famílias. 2020 não foi um ano de ócio para os profissionais da educação; foi um período de intenso trabalho, tentando atender às necessidades dos estudantes sob as mais adversas condições.
Nenhum de nós - professores ou trabalhadores administrativos da educação - se recusa a trabalhar. Queremos apenas trabalhar em condições seguras para nós e nossos entes queridos.
O mero fato de ainda precisarmos lutar por esse direito diz muito sobre o modo como a sociedade realmente enxerga a educação e seus profissionais. Pouco adianta realizar homenagens piegas no Dia do Mestre quando nossa vida não é valorizada em um momento de crise sanitária. Não somos super-heróis nem sacerdotes; somos apenas profissionais dedicados à instrução da juventude - e é assim, com profissionalismo, que gostaríamos de ser tratados pela coletividade da qual fazemos parte.
*Texto ligeiramente modificado para preservar a privacidade de minha amiga.
sexta-feira, 19 de junho de 2020
Eu NÃO sou um "Comunista Libertário"!!!
quinta-feira, 16 de abril de 2020
Evitando a fadiga - e a pandemia
Outra emblemática imagem do momento presente: a estátua erigida em honra ao carteiro Jaiminho, no Estado de Michoacán, México, sendo higienizada contra o COVID-19.
Como bem sabe a maioria dos latino-americanos de minha geração, o carteiro Jaiminho (ou Jaimito) é um personagem introduzido tardiamente no seriado mexicano Chaves ou, no original, El Chavo del Ocho.
O personagem, encarnado pelo ator Raúl "Chato" Padilla, passou a integrar o elenco após a saída de dois atores e personagens de peso, Ramón Valdés e Carlos Villagrán, que viviam respectivamente Seu Madruga e Quico (ou Don Ramón e Kiko, conforme se prefira).
O bonachão Jaiminho aparece então como o novo carteiro da vizinhança, natural da (então) obscura localidade de Tangamandápio. A característica mais saliente do personagem é seu firme empenho em "evitar a fadiga". A maioria das gags envolvendo o personagem gira em torno de sua lentidão e sua preguiça, que muitas vezes o levam a ser folgado e abusado.
Um dos maiores feitos de Jaiminho foi, sem sombra de dúvida, fazer com que milhões de espectadores descobrissem a existência de Tangamandápio. Em tempos anteriores à Internet, muito se especulava sobre a real existência da localidade. O fato é que o lugarejo não apenas existe como há alguns anos erigiu uma estátua em homenagem ao personagem e seu intérprete, em gratidão pelo renome internacional que trouxe ao povoado. Por sinal, o mero fato de que a pandemia, saindo de Wuhan, tenha chegado a um "fim-de-mundo" latino-americano como Tangamandápio é muito emblemático do mundo hiperconectado em que vivemos.
A bem dizer, Jaiminho é um personagem um tanto apagado e nunca parei para refletir mais detidamente sobre ele em minhas meditações chavológicas. A imagem acima e o contexto de pandemia e quarentena, no entanto, me convidam a pensar melhor sobre Jaiminho, o carteiro.
Com seu ar pacato e imperturbável, Jaiminho é um verdadeiro subversivo. Para evitar a fadiga, burla as normas dos Correios e mesmo o decoro comum - sem jamais se mostrar agressivo ou raivoso (afinal de contas, a raiva também cansa).
É interessante notar que um dos adereços do personagem é sua bicicleta. Uma escolha de figurino brilhante, pois Jaiminho jamais a usa. Na verdade, o carteiro oculta da empresa de correios o fato de que não sabe andar de bicicleta - o que acarretaria em sua demissão, como explica aos demais personagens em diversas ocasiões. Desse modo, Jaiminho arrasta sempre consigo sua inútil bicicleta, oferecendo oportunidades para várias gags.
Vale refletir melhor sobre a relação entre Jaiminho e sua bicicleta. O veículo serviria para que o carteiro, atendendo às urgentes necessidades da sempre apressada modernidade, executasse seu trabalho com maior rapidez, mas é precisamente o contrário que ocorre - longe de auxiliar, a bicicleta se torna um estorvo, um fardo adicional que acaba atrasando o trabalho de Jaiminho.
Desse modo, a singela bicicleta acaba encarnando todas as traquitanas e bugigangas modernas que, em teoria, deveriam simplificar a vida, mas a tornam apenas mais complicada. A bicicleta de Jaiminho é um pouco como tantos sistemas informatizados atabalhoadamente introduzidos tanto pela iniciativa pública quanto privada que, longe de facilitar a vida dos profissionais, só reduzem sua eficiência e os distraem de tarefas mais importantes.
A pesada pasta carregada por Jaiminho também convida a refletir. Quanto daquela correspondência, tão penosamente transportada pelo carteiro, é realmente relevante? Faz pensar nos megabytes de e-mails e mensagens que recebemos e emitimos diariamente, drenando nosso tempo, muitas vezes a troco de nada.
Pensando bem, em muitos aspectos, a figura de Jaiminho ressoa em outra modulação muitos dos temas que perpassam a caracterização de Seu Madruga. Apesar das disparidades de temperamento, o pacato carteiro tem muito em comum com o explosivo malandro-biscateiro-faz-tudo. O zeloso empenho do tangamandapiano em evitar a fadiga ecoa a madruguiana sabedoria: "Não existe trabalho ruim - ruim é ter que trabalhar".
Aprofundando o paralelo, tanto Madruga quanto Jaiminho pertencem ao universo de figuras deliberada ou involuntariamente marginalizadas da modernidade, por deserção ou inadaptação. Madruga é o malandro da periferia urbana, pouco letrado, sobrevivendo às margens do emprego formal. Jaiminho é o homem egresso do interior, de um lugarejo rural como Tangamandápio à selva urbana da Cidade do México.
Sua mansidão no falar é muito característica de tantos interioranos transplantados à pressa louca da cidade grande. Me lembra um bocado meu antigo e querido barbeiro, Seu Virgílio, que já conheci sexagenário. Viera em sua juventude de Tupaciguara, lugarejo de Minas Gerais, para viver nos subúrbios do Rio de Janeiro; depois de tantos anos, perdera o sotaque mineiro, mas não a fala mansa.
Embora muito laborioso, Seu Virgílio trabalhava sem pressa, com esmero e, mais importante, com uma conversa inteligente e agradável, em prosa mansa e vivaz, transmitindo uma serenidade e uma alegria de viver revigorantes. Sua humilde barbearia era um oásis de tranquilidade nesse mundo inquieto e ansioso.
Para evitar a fadiga do leitor, encerro por aqui esse texto, com um convite: que a pandemia e a quarentena que ora experimentamos nos ajudem a viver um pouco mais como Jaiminho, com menos pressa e sofreguidão, no ritmo de Tangamandápio...
Dedico esse texto ao meu amigo Fernando, que me enviou a imagem acima.
segunda-feira, 23 de março de 2020
Verdade, tolice e poder

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020
terça-feira, 26 de novembro de 2019
Gandhi era um misógino pervertido?
Curiosamente, a maior parte dos (supostos) "podres" de Gandhi foi exposta por ele mesmo em seus escritos públicos. De resto, muitas atitudes dele podem soar hipócritas para nós, ocidentais, mas possuem um contexto na mística Brahmacharya, que ele seguia. Existem muitos aspectos complexos, contraditórios e paradoxais na vida de Gandhi, e ele mesmo nunca fez questão de escondê-los, mas esses aspectos volta e meia são usados em polêmicas sensacionalistas e maniqueístas cujos objetivos são mais de difamar sua imagem e seus pensamentos que de compreender o homem Gandhi em toda sua fascinante complexidade. Estudo profundamente a trajetória de Gandhi há quase 20 anos e já li um bocado sobre o assunto; o presente texto é uma tentativa de alinhavar uma análise crítica, mas generosa, sobre o personagem.
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| Gandhi em um de seus inúmeros jejuns político-religiosos, com que tantas vezes desafiou as autoridades britânicas ou apaziguou os ânimos dos indianos excessivamente revoltados. |
segunda-feira, 3 de setembro de 2018
Cultura OU o quê? Falsos dilemas e verdadeira cidadania
Nenhuma nação decente, digna e soberana se constrói sem investir na formação humanística de seus cidadãos, sem abrir-lhes horizontes amplos e profundos de questionamento, imaginação, contemplação, deslumbramento.
Um povo sem acesso a museus, teatros, bibliotecas, ciência ou parques se torna manipulável, dócil, submisso a todo tipo de tirania, apático diante de todo abuso de poder.
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| Ruínas do Museu Nacional: um corpo cuja alma se extraviou. |
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
Instinto, liberdade, hábito
Consideremos duas linhas divergentes de evolução e sociedades na extremidade de uma e de outra. O tipo de sociedade que parecerá mais natural será evidentemente o tipo instintivo: o laço que une entre elas as abelhas da colmeia se parecem muito mais com aquele que retém juntas, coordenadas e subordinadas umas às outras, as células de um organismo. Suponhamos um instante que a natureza tenha querido, na extremidade desta outra linha, obter sociedades onde uma certa latitude fosse deixada à escolha individual: ela terá feito com que a inteligência obtivesse aqui resultados comparáveis, quanto à sua regularidade, àqueles do instinto na outra; ela recorreria ao hábito. Cada um desses hábitos, que se poderá chamar "morais", será contingente. Mas seu conjunto, quero dizer o hábito de contrair hábitos, estando na base mesmo das sociedades e condicionando sua existência, terá uma força comparável àquela do instinto, em sua intensidade e em sua regularidade. Aí está precisamente aquilo que nós chamamos "o conjunto da obrigação" ["le tout de l'obligation"].
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| Uma convenção tornada poderosa - pero no mucho - pelo hábito. |













