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sexta-feira, 11 de novembro de 2022

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

O ópio e a espada

Manter-se fiel a princípios e convicções é extraordinariamente difícil neste mundo onde as multidões buscam o conforto das conveniências e o inebriante ópio das verdades fáceis. A pureza é uma fantasia malsã, mas o cinismo é um veneno lento e impiedoso; encontrar a justa medida e o caminho do meio é como buscar estrelas em noite de tempestade. Espada e bainha são feitas uma para a outra; a sabedoria consiste em escolher o momento certo para desembainhar - nem cedo, nem tarde. Mas quem saberá reconhecer tal momento? O prudente morre em sua hesitação e o tolo em sua precipitação. Todos morreremos. Corajoso é apenas aquele que, apreciandoo verdadeiro valor da vida, não busca nem evita a morte. Só se vive verdadeiramente quando espada e bainha se movimentam em perfeita sincronia, sem atraso ou afobação. Ao homem sincero não apavoram cruz, cicuta, exílio ou ostracismo. Aquele que vive temendo a morte já morreu e ainda não sabe.




quarta-feira, 13 de abril de 2022

Tolstói - Religião, ciência e as imposturas do poder

 Passagens de Carta a um hindu, de Leon Tolstói (grifos meus)


Antigamente, o principal  método de justificar o uso da violência e assim infringir a lei do amor era reivindicar um direito divino para os governantes: czares, sultões, rajás, xás e outros chefes de Estado. Porém, quanto mais a humanidade vivia, mais fraca se tornava a crença nesse direito peculiar dado ao governante por Deus. Ela murchou da mesma maneira e quase simultaneamente no mundo cristão e no brâmane, assim como nas esferas budista e confucionista. Nos últimos tempos, ela desapareceu de tal forma que não prevalece mais contra a compreensão razoável do homem e o verdadeiro sentimento religioso. As pessoas viam cada vez mais claramente, e agora a maioria vê de maneira nítida, a falta de sentido e a imoralidade de subordinar os outros às suas vontades, quando são obrigados a fazer o que é contrário não apenas aos seus interesses, mas também ao seu senso moral. E assim, alguém poderia supor que, tendo perdido a confiança em qualquer autoridade religiosa para uma crença na divindade de potentados de vários tipos, as pessoas tentariam se libertar da sujeição a ele. Os governantes, que eram considerados seres sobrenaturais, se beneficiaram por sujeitar os indivíduos, mas infelizmente não foram os únicos beneficiários. Como resultado da crença e durante o governo desses seres pseudodivinos, grupos cada vez maiores de pessoas se uniram e se estabeleceram ao redor deles, que sob a aparência de governo tiraram vantagem do povo. Quando o velho engodo de uma autoridade sobrenatural e designada por Deus diminuiu, a única preocupação desses homens passou a ser inventar uma nova enganação que tornasse possível manter o povo em servidão a um número limitado de governantes, como fez a antecessora.

[...]

Agora, novas justificativas surgiram no lugar das antiquadas, obsoletas e religiosas. Elas são tão inadequadas quanto as antigas, mas, como são novas, a maioria dos homens não consegue reconhecer sua futilidade imediatamente. Além disso, aqueles que desfrutam do poder propagam esses novos sofismas e os apoiam com tanta habilidade que eles parecem irrefutáveis, até mesmo para muitos que sofrem com a opressão que essas teorias procuram explicar. Essas novas justificativas são chamadas de "científicas", mas pelo termo "científico" entende-se exatamente o que antes era conhecido como "religioso", era considerado inquestionável simplesmente porque era chamado assim, agora tudo que é denominado "científico" é acatado de maneira inconstestável. A justificativa religiosa obsoleta da violência consistiu no reconhecimento da personalidade sobrenatural do governante ordenado por Deus ("não há poder senão o de Deus"). Isso foi substituído pela justificativa "científica".


Em primeiro lugar, a "ciência" apresenta a afirmação de que, como a coerção do homem pelo homem tem existido em todas as épocas, é uma consequência de que ela deva continuar a existir. Essa afirmação de que as pessoas devem continuar a viver como nas eras passadas, e não como sua razão e consciência indicam, é o que a "ciência" chama de "lei histórica".


A segunda justificativa "científica" está na afirmação de que, como há uma luta de constante pela existência entre plantas e animais selvagens que sempre resulta na sobrevivência do mais apto, uma disputa semelhante deve ser realizada entre os seres humanos. Isso apesar do fato de que os humanos são dotados de inteligência e amor, capacidades que faltam em criaturas inferiores, sujeitas à luta pela existência e sobrevivência das mais qualificadas.


A terceira, mais importante e, infelizmente, a mais difundida justificativa é apenas uma pequena alteração da desculpa religiosa milenar: na vida pública, a supressão de alguns para a proteção da maioria não pode ser evitada. Isso torna inevitável a coerção, por mais desejável que seja apenas a confiança no amor nas relações humanas. A única diferença nessa justificação pela pseudociência consiste no fato de que ela agora dá uma resposta distinta daquela dada pela religião ao porquê de algumas pessoas não terem o direito de decidir contra quem a violência pode e deve ser usada. A religião declarou que o direito de decidir era válido porque as pessoas detentoras do poder divino o pronunciavam. A "ciência" afirma que essas decisões representam a vontade do povo, que, sob uma forma constitucional de governo, deve encontrar expressão em todas as decisões e ações daqueles que estão no comando no momento.


Tais são as justificativas científicas do princípio da coerção. Elas não são apenas fracas, mas absolutamente inválidas, e ainda assim são tão necessárias para aqueles que ocupam posições privilegiadas que acreditam nelas tão cegamente como antes acreditavam na Imaculada Concepção, e as propagam com a mesma confiança. E a infeliz maioria dos homens está tão deslumbrada com a pompa com a qual essas "verdades científicas" são apresentadas que, sob essa nova influência, aceita essas idiotices científicas como verdade sagrada, assim como anteriormente aceitava as justificativas pseudorreligiosas. E essa infeliz maioria continua a se submeter aos atuais detentores do poder, que são tão crueis, mas agora mais numerosos do que antes.


Deckard e Batty - para os poderosos, caçando ou caçados, somos todos "replicantes"; toda desobediência precisa ser punida.


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

O preço da paz

Violência gera violência. E toda violência tem um preço. O valor da paz, por outro lado, é incalculável. Nenhum preço é alto demais para se conquistar a paz.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Esperanças para uma humanidade esvaziada - Pensamentos de Martin Luther King

Fábricas imensas comandadas por computadores, cidades que engolem a paisagem e atravessam as nuvens, aviões que desafiam a noção de tempo - todas essas são coisas impressionantes, mas não podem ser espiritualmente inspiradoras. Nada em nossa resplandecente tecnologia pode elevar o homem a novas alturas, porque o crescimento material foi transformado num fim em si mesmo, e, na ausência de propósitos morais, o próprio homem se torna menor à medida que suas obras se tornam maiores. Indústria e governo gigantescos, combinados num intrincado mecanismo computadorizado, deixam as pessoas de fora. O senso de participação é perdido, o sentimento de que indivíduos comuns podem influenciar decisões importantes desaparece, o homem fica excluído e diminuído.

Quando um indivíduo não é mais um verdadeiro participante, quando não se sente mais responsável por sua sociedade, o conteúdo da democracia é esvaziado. Quando a cultura é degradada e a vulgaridade entronizada, quando o sistema social não gera segurança, mas induz perigo, o indivíduo é inexoravelmente impelido a se afastar dessa sociedade sem alma. Esse processo produz alienação - talvez a característica mais disseminada e insidiosa da sociedade contemporânea.

***

Muitas vezes me pergunto se a educação está ou não atingindo seu objetivo. A grande maioria das pessoas ditas instruídas não pensa de maneira lógica e científica. Até a imprensa, a sala de aula, os palanques e o púlpito, em muitos casos não nos dão verdades objetivas e imparciais. Salvar o homem do pântano da propaganda, em minha opinião, é um dos principais objetivos da educação. A educação deve permitir que a pessoa examine e pese as evidências, tenha discernimento para diferenciar o verdadeiro e o falso, o real e o irreal, os fatos e a ficção.

A função da educação, portanto, é ensinar a pensar intensamente e a pensar criticamente. Mas a educação que se contenta com a eficiência pode se provar a maior ameaça à sociedade. O criminoso mais perigoso pode ser o homem dotado de razão, mas não de moral.

Devemos lembrar que inteligência não é o bastante. Inteligência mais caráter - esta é a meta da verdadeira educação. A educação completa dá à pessoa não somente poder de concentração, mas objetivos dignos em que se concentrar. A educação ampla transmitirá, portanto, não só o conhecimento acumulado da raça [?], mas também a experiência acumulada da vida social.

***

O progresso humano não é nem automático nem inevitável. Mesmo uma olhadela superficial na história revela que nenhum avanço social chega sobre as rodas da inevitabilidade. Cada passo rumo à meta da justiça requer sacrifício, sofrimento e luta, requer os esforços incansáveis e o interesse apaixonado de indivíduos dedicados. Sem esforço persistente, o próprio tempo torna-se um aliado das forças insurgentes e primitivas do emocionalismo irracional e da destruição social. Não é hora para apatia ou complacência. É hora para ação vigorosa e positiva.

***

Devemos trabalhar apaixonada e infatigavelmente para transpor o golfo entre nosso progresso científico e nosso progresso moral. Um dos grandes problemas da humanidade é que sofremos de uma pobreza do espírito que contrasta obviamente com nossa abundância científica e tecnológica. Quanto mais ricos nos tornamos materialmente, mais pobres nos tornamos moral e espiritualmente.

Todo homem vive em duas esferas, a interna e a externa. A interna é a esfera dos fins espirituais expressos na arte, na literatura, na moral e na religião. A externa naquele complexo de aparelhos, técnicas, mecanismos e instrumentalidades por meio dos quais vivemos. Nosso problema hoje é que deixamos o interno se perder no externo. Permitimos que os meios pelos quais vivemos suplantassem os fins para os quais vivemos.

Martin Luther King com seus filhos Yolanda e Martin


quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Gandhi e a Democracia nos EUA

Trecho de resposta de Gandhi a um americano, publicada no jornal Harijan, em 18 de maio de 1940

Minha noção de democracia é que, sob ela, os mais fracos devem ter a mesma proteção que os mais fortes. Isso não pode acontecer jamais a não ser através da não violência. Atualmente, nenhum país no mundo mostra uma consideração condescendente com os vulneráveis. O mais fraco, como é dito, vai para o paredão. Observe o seu próprio caso: sua terra pertence a alguns proprietários capitalistas. O mesmo se aplica à África do Sul. Essas grandes propriedades só podem ser sustentadas pela violência velada, ou até mesmo aberta. A democracia ocidental, como funciona hoje, é diluída no nazismo ou no fascismo. Na melhor das hipóteses, é apenas uma capa para esconder as tendências nazistas e fascistas do imperialismo. Por que existe a guerra hoje, se não para a satisfação do desejo de compartilhar os despojos? Não foi através de métodos democráticos que a Grã-Bretanha colonizou a Índia. Qual é o significado da democracia sul-africana? Sua própria Constituição foi elaborada para proteger o homem branco contra o homem negro, o ocupante natural. Sua própria história é talvez ainda mais sombria, apesar do que os estados do Norte fizeram pela abolição da escravidão. A maneira como vocês têm tratado os negros apresenta um registro desonroso. E é para salvar essas democracias que a guerra [II Guerra Mundial] vem sendo travada. Há algo muito hipócrita nisso.
Exemplo de segregação racial institucionalizada no sul dos EUA através das chamadas "Leis Jim Crow".

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

sábado, 25 de setembro de 2021

Sobre a "ocupação" da BOVESPA pelo MTST

Essa semana o MTST "ocupou" a BOVESPA em protesto contra o desemprego, a carestia, a miséria e as profundas desigualdades sociais no Brasil. Segundo as lideranças do movimento, seria uma maneira de fazer ouvir a voz do povo no maior reduto de especuladores financeiros e rentistas no Brasil. Houve quem saudasse o acontecimento como a irrupção do "Brasil Real" na fortaleza da alta finança - óbvio exagero triunfalista.

Não sou contra o protesto, em si, mas não sei se o timing foi bom. Justamente em um momento em que várias entidades ligadas ao mercado estão se manifestando pela democracia e contra Bolsonaro, acho que não foi o instante mais oportuno. Prioridades precisam ser pensadas de acordo com as circunstâncias. Cultivar antagonismos nunca é bom e, em um contexto de acentuada tensão social, pouco contribui para a superação da crise que vivemos. 

Qualquer ação pública precisa ser pensada em termos do impacto intentado. Atos que pregam aos convertidos e geram ruído para com os que estão "de fora" só agravam o isolamento político da esquerda em um momento em que se faz essencial construir pontes.

Há que se levar em conta que vivemos em um país de mentalidade muito conservadora (mais no sentido social que político) e há muita gente apavorada com o "bicho-papão" do comunismo. Não faltou quem, nas redes sociais, identificasse o MTST como "braço terrorista" (sic) do PSOL. 

Vivemos em uma sociedade em que políticos de extrema-direita podem vociferar as piores grosserias e barbaridades sem causar grande comoção, mas em que um protesto pacífico por parte da esquerda logo ganha ares de "ato terrorista". Essa falta de critério - ou melhor, esse critério distorcido - é certamente lamentável, mas é um dado cultural de nossa sociedade com o qual se faz necessário lidar com ponderação e sobriedade.

Esse tipo de protesto satisfaz certo público de esquerda, mas não contribui para um diálogo mais amplo com outros setores da sociedade brasileira - setores muitas vezes desdenhados como "pobre de direita", "classe mérdia" e por aí vai. 

É o eterno problema de boa parte da esquerda brasileira, que se preocupa mais com a perpetuação de uma estética supostamente revolucionária que com a viabilização de programas políticos.

Guilherme Boulos, liderança mais destacada do MTST, me parece um sujeito bem-intencionado, bem articulado, mas muito dado a exageros retóricos que me soam contraproducentes. Alguém que chegou ao segundo turno nas eleições para prefeito da maior cidade do Hemisfério Sul precisa ser mais cuidadoso em suas estratégias de comunicação com o público. Para bem ou para mal, Boulos conquistou uma posição de grande visibilidade na política nacional, e é de se esperar que adquira mais sagacidade política do que tem demonstrado até agora. 

A esquerda brasileira, definitivamente, precisa abandonar a mentalidade de DCE para encontrar meios mais amplos de diálogo com a sociedade brasileira, em toda sua complexidade. O Brasil não se reduz a hashtags e slogans.

Cada vez que alguém usa o termo "burguesia" morre uma fada...



quarta-feira, 7 de julho de 2021

Yebosid

.Htrut Eht Kees Ohw Eshot Rof Ytud Larom A Si Seitirohtua Gniodgnorw Yebosid Ot

.Semit Lufgnorw Ni Efil Tneced A Rof Toor Eht Si Ecneidebosid Dlob Dna Lufecaep

.Elpoep Tneidebo Yldnilb Deen Dna Evol Stnaryt

.Modeerf Eurt Eb Tonnac Ereht Ecneidebosid Suoicsnoc Touhtiw

.Selpicnirp Rouy Tsniaga Seog Taht Gnihtyna

Yebosid

quarta-feira, 16 de junho de 2021

sábado, 27 de março de 2021

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Quem decide sobre nossas vidas? - Aulas presenciais, pandemia e "protocolos científicos"

"Não ser ouvido não é razão para silenciar-se".

Victor Hugo


Entrando em fevereiro de 2021 as redes de ensino públicas e privadas do Brasil retomam suas atividades letivas e volta à baila a discussão sobre a possibilidade de um retorno "seguro" às atividades presenciais - com ou sem vacina. Apesar da verdadeira matança ocorrida em 2020, há quem teime em brincar com a vida (alheia).

Inúmeros gestores públicos se valem de comitês científicos para deliberar sobre protocolos de retorno. Há aí um imenso, colossal problema.

Ninguém, em sã consciência, há de negar os avanços e confortos que a ciência moderna proporcionou à humanidade. No entanto, nada disso faz de cientistas - e, portanto, comitês científicos - autoridades inquestionáveis em relação à gestão de riscos.

Não quero com isso desacreditar a valorosa contribuição dos cientistas em relação à gestão sanitária da pandemia. No entanto, cientistas geralmente são bons em sinalizar aquilo que é potencialmente perigoso, mas péssimos em garantir que algo é seguro. É mais fácil provar a existência de um grave perigo que provar a inexistência de uma ameaça - ou, em termos de lógica formal, "ausência de evidência não significa evidência de ausência".

Para ficar apenas com um exemplo recente, vimos há poucos anos a terrível tragédia nuclear de Fukushima, da qual o Japão ainda não se recuperou completamente.

O desastre de Fukushima é um alerta contra a arrogância científica. Examinando em retrospecto, chega a ser absurdo que comitês científicos permitissem o funcionamento de um obsoleto reator nuclear de circuito aberto justamente no litoral de um país tão vulnerável a terremotos e tsunamis. Fukushima era uma tragédia anunciada, mas cientistas garantiam que a operação da usina era "segura". O preço dessa arrogância se conta em milhares de mortos, vítimas de envenenamento radiativo e famílias desalojadas de seus lares, com suas vidas desfeitas pelo risco de exposição à radiação residual.

Luc Ferry, filósofo e ex-Ministro da Educação da França, em obra de 1992, já criticava a ilusão de que comitês científicos sejam capacitados a tomar decisões éticas com repercussões na vida de terceiros. Cientistas, quaisquer que sejam suas especialidades, estão aptos apenas a prestar esclarecimentos técnicos sobre sua área de atuação profissional. Isso não significa que lhes caiba decidir sobre os desdobramentos éticos de tais pareceres, mormente quando se trate de questões de vida ou morte. Os cientistas que garantiram a "segurança" operacional de Fukushima são responsáveis por todas as mortes e danos provocados pela usina.

Da mesma forma, quando um comitê científico subscreve as decisões de qualquer político a respeito de retomada de atividades educacionais presenciais ele se torna responsável por todos os enfermos e mortos em decorrência dessa situação, seja entre estudantes, profissionais da educação e respectivos familiares.

A situação se torna ainda mais perversa quando os gestores da educação tornam a decisão de retorno ao ensino presencial facultativa aos estudantes e suas famílias, mas lançam mão de recursos administrativos variados para pressionar os profissionais da educação a retomar suas atividades.

Tomo a liberdade de adaptar o testemunho* de uma amiga professora que adoeceu de COVID devido à atabalhoada retomada de atividades presenciais no segundo semestre de 2020:

Estou apavorada. Sofri com essa doença. Só eu sei  o que passei. Quando foi dito novamente que tínhamos que ir à escola, não consegui dormir. Tive crises de ansiedade e pânico. Não sei, para mim, como será esse retorno. Meu médico me passou remédios para relaxar e dormir. Está muito difícil para mim. Ou perco minha sanidade ou perco meu sustento.

E temos aqui o cerne da questão. A profissional mencionada se sente ameaçada e coagida em sua subsistência a retomar suas atividades laborais, apesar de ter sofrido terrivelmente com a enfermidade. É exatamente por essa razão que cientistas não estão aptos a tomar decisões de ordem ética que afetem terceiros: é relativamente simples e fácil para um comitê científico definir protocolos sanitários "seguros" sem levar em consideração as complexas realidades vivenciadas em uma escola. 

Afinal de contas, protocolos são apenas instruções redigidas e registradas em documentos, que muitas vezes não funcionam na realidade. E aqueles que redigem os protocolos, muitas vezes, não são aqueles cuja pele será posta em jogo pela aplicação dos mesmos. Como em Fukushima, aqueles que dizem o que é "seguro" não costumam ser os mesmos que arriscam suas vidas. 

Para usar uma velhíssima analogia, são como generais que, no conforto de seus gabinetes, decidem sobre a vida de soldados lutando para sobreviver na trincheira. Qualquer ser humano com o menor escrúpulo percebe quão sórdida e perversa é essa situação.

O mínimo que comitês científicos e gestores educacionais poderiam fazer seria EFETIVAMENTE ouvir o que os profissionais com anos de experiência nas trincheiras escolares têm a dizer sobre a suposta eficiência e segurança de tais protocolos.

Mais ainda, é absurdo, injusto e mesmo indecente tornar o retorno facultativo aos estudantes, mas compulsório aos profissionais da educação. Isso significa simplesmente dizer que uns têm o direito a decidir sobre sua saúde, integridade física e, no limite, sua vida, enquanto a outros é negado esse direito.

É ainda mais paradoxal ver que tantos advogados de longa data do ensino remoto em condições "normais" se manifestam agora como intransigentes defensores da retomada de atividades educacionais presenciais e da importância da presença do estudante em sala de aula - em meio à pior crise sanitária global desde a Gripe Espanhola, com elevado risco de contágio.

Por fim, tudo que os profissionais da educação desejam é simplesmente o DIREITO de preservar a vida e a saúde deles mesmos, assim como de suas famílias. 2020 não foi um ano de ócio para os profissionais da educação; foi um período de intenso trabalho, tentando atender às necessidades dos estudantes sob as mais adversas condições.

Nenhum de nós - professores ou trabalhadores administrativos da educação - se recusa a trabalhar. Queremos apenas trabalhar em condições seguras para nós e nossos entes queridos.

O mero fato de ainda precisarmos lutar por esse direito diz muito sobre o modo como a sociedade realmente enxerga a educação e seus profissionais. Pouco adianta realizar homenagens piegas no Dia do Mestre quando nossa vida não é valorizada em um momento de crise sanitária. Não somos super-heróis nem sacerdotes; somos apenas profissionais dedicados à instrução da juventude - e é assim, com profissionalismo, que gostaríamos de ser tratados pela coletividade da qual fazemos parte.


*Texto ligeiramente modificado para preservar a privacidade de minha amiga.



sexta-feira, 19 de junho de 2020

Eu NÃO sou um "Comunista Libertário"!!!

Só rindo desse tipo de testes! 

"Comunista Libertário" é um rótulo que, DEFINITIVAMENTE, eu não aplicaria a minha pessoa! 

No tal "Eixo Econômico" eu diria que sou a favor de uma economia de mercado com regulamentação rígida em setores essenciais e estratégicos e bastante livre em outras áreas, acompanhada de tributação progressiva e direitos trabalhistas sólidos. 

No "Eixo Diplomático", eu diria que minha tendência é o equilíbrio entre a soberania nacional e cooperação internacional multilateral, tanto a nível regional quanto global. 

No "Eixo Civil", tendo a ficar com a máxima rousseauniana de que "minha liberdade acaba onde começa a do próximo" e que as autoridades devem atuar como mediadoras de conflitos, ao mesmo tempo que constantemente questionadas, com recurso à desobediência civil não-violenta sempre que necessário. Como Juvenal, sempre desconfio de autoridades e lideranças: "Quid custodiet ipsos custodes?"

No tal "Eixo Social", eu diria que sou favorável a mudanças construtivas, desde que realizadas com a devida prudência, sem apego excessivo ao passado, nem entusiasmo delirante quanto ao futuro. 

Ou, como prefiro dizer, um tanto platonicamente, "meu cérebro é socialista, meu coração é anarquista, meu estômago é liberal e meu bolso é conservador"! Sou um sujeito eclético, que gosta de democracia, diálogo e dialética, por mais difíceis que sejam essas artes. De qualquer modo, recomendo a realização do teste; apesar de todas as limitações, é uma provocação "boa para pensar". 

No fundo, acho que sou algo como um "Jacobino Não-Violento"...

Liberté, égalité, fraternité! Encore et toujours! Vive la République!


quinta-feira, 16 de abril de 2020

Evitando a fadiga - e a pandemia


Outra emblemática imagem do momento presente: a estátua erigida em honra ao carteiro Jaiminho, no Estado de Michoacán, México, sendo higienizada contra o COVID-19.

Como bem sabe a maioria dos latino-americanos de minha geração, o carteiro Jaiminho (ou Jaimito) é um personagem introduzido tardiamente no seriado mexicano Chaves ou, no original, El Chavo del Ocho.

O personagem, encarnado pelo ator Raúl "Chato" Padilla, passou a integrar o elenco após a saída de dois atores e personagens de peso, Ramón Valdés e Carlos Villagrán, que viviam respectivamente Seu Madruga e Quico (ou Don Ramón e Kiko, conforme se prefira).

O bonachão Jaiminho aparece então como o novo carteiro da vizinhança, natural da (então) obscura localidade de Tangamandápio. A característica mais saliente do personagem é seu firme empenho em "evitar a fadiga". A maioria das gags envolvendo o personagem gira em torno de sua lentidão e sua preguiça, que muitas vezes o levam a ser folgado e abusado.

Um dos maiores feitos de Jaiminho foi, sem sombra de dúvida, fazer com que milhões de espectadores descobrissem a existência de Tangamandápio. Em tempos anteriores à Internet, muito se especulava sobre a real existência da localidade. O fato é que o lugarejo não apenas existe como há alguns anos erigiu uma estátua em homenagem ao personagem e seu intérprete, em gratidão pelo renome internacional que trouxe ao povoado. Por sinal, o mero fato de que a pandemia, saindo de Wuhan, tenha chegado a um "fim-de-mundo" latino-americano como Tangamandápio é muito emblemático do mundo hiperconectado em que vivemos.

A bem dizer, Jaiminho é um personagem um tanto apagado e nunca parei para refletir mais detidamente sobre ele em minhas meditações chavológicas. A imagem acima e o contexto de pandemia e quarentena, no entanto, me convidam a pensar melhor sobre Jaiminho, o carteiro.

Com seu ar pacato e imperturbável, Jaiminho é um verdadeiro subversivo. Para evitar a fadiga, burla as normas dos Correios e mesmo o decoro comum - sem jamais se mostrar agressivo ou raivoso (afinal de contas, a raiva também cansa).

É interessante notar que um dos adereços do personagem é sua bicicleta. Uma escolha de figurino brilhante, pois Jaiminho jamais a usa. Na verdade, o carteiro oculta da empresa de correios o fato de que não sabe andar de bicicleta - o que acarretaria em sua demissão, como explica aos demais personagens em diversas ocasiões. Desse modo, Jaiminho arrasta sempre consigo sua inútil bicicleta, oferecendo oportunidades para várias gags.

Vale refletir melhor sobre a relação entre Jaiminho e sua bicicleta. O veículo serviria para que o carteiro, atendendo às urgentes necessidades da sempre apressada modernidade, executasse seu trabalho com maior rapidez, mas é precisamente o contrário que ocorre - longe de auxiliar, a bicicleta se torna um estorvo, um fardo adicional que acaba atrasando o trabalho de Jaiminho.

Desse modo, a singela bicicleta acaba encarnando todas as traquitanas e bugigangas modernas que, em teoria, deveriam simplificar a vida, mas a tornam apenas mais complicada. A bicicleta de Jaiminho é um pouco como tantos sistemas informatizados atabalhoadamente introduzidos tanto pela iniciativa pública quanto privada que, longe de facilitar a vida dos profissionais, só reduzem sua eficiência e os distraem de tarefas mais importantes.

A pesada pasta carregada por Jaiminho também convida a refletir. Quanto daquela correspondência, tão penosamente transportada pelo carteiro, é realmente relevante? Faz pensar nos megabytes de e-mails e mensagens que recebemos e emitimos diariamente, drenando nosso tempo, muitas vezes a troco de nada.

Pensando bem, em muitos aspectos, a figura de Jaiminho ressoa em outra modulação muitos dos temas que perpassam a caracterização de Seu Madruga. Apesar das disparidades de temperamento, o pacato carteiro tem muito em comum com o explosivo malandro-biscateiro-faz-tudo. O zeloso empenho do tangamandapiano em evitar a fadiga ecoa a madruguiana sabedoria: "Não existe trabalho ruim - ruim é ter que trabalhar".

Aprofundando o paralelo, tanto Madruga quanto Jaiminho pertencem ao universo de figuras deliberada ou involuntariamente marginalizadas da modernidade, por deserção ou inadaptação. Madruga é o malandro da periferia urbana, pouco letrado, sobrevivendo às margens do emprego formal. Jaiminho é o homem egresso do interior, de um lugarejo rural como Tangamandápio à selva urbana da Cidade do México.

Sua mansidão no falar é muito característica de tantos interioranos transplantados à pressa louca da cidade grande. Me lembra um bocado meu antigo e querido barbeiro, Seu Virgílio, que já conheci sexagenário. Viera em sua juventude de Tupaciguara, lugarejo de Minas Gerais, para viver nos subúrbios do Rio de Janeiro; depois de tantos anos, perdera o sotaque mineiro, mas não a fala mansa.

Embora muito laborioso, Seu Virgílio trabalhava sem pressa, com esmero e, mais importante, com uma conversa inteligente e agradável, em prosa mansa e vivaz, transmitindo uma serenidade e uma alegria de viver revigorantes. Sua humilde barbearia era um oásis de tranquilidade nesse mundo inquieto e ansioso.

Para evitar a fadiga do leitor, encerro por aqui esse texto, com um convite: que a pandemia e a quarentena que ora experimentamos nos ajudem a viver um pouco mais como Jaiminho, com menos pressa e sofreguidão, no ritmo de Tangamandápio...

Dedico esse texto ao meu amigo Fernando, que me enviou a imagem acima.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Verdade, tolice e poder

Um pequeno florilégio; não garanto a autoria dos pensamentos, mas são casos em que a carta importa mais que o carteiro.





quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

"Um autor quase sempre apresenta apenas um aspecto de um caso, mas qualquer caso pode ser visto de pelo menos sete ângulos, todos provavelmente corretos em si mesmos, mas não corretos ao mesmo tempo e nas mesmas circunstâncias".
Gandhi

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Gandhi era um misógino pervertido?

Volta e meia surgem acusações polêmicas, sensacionalistas e pouco fundamentadas em torno da interessantíssima figura de Mohandas Karamchand "Mahatma" Gandhi (1869-1848). Algumas delas são sobre racismo (tema que não será tratado aqui) e outras o qualificam como misógino, pervertido, abusador de mulheres em seus polêmicos "testes de castidade", praticante de violência doméstica, entre outras menções pouco edificantes. Os exemplares dessas correntes polêmicas são inúmeros, como essa superficial e tendenciosa resenha do autobiográfico Minha vida e minhas experiências com a verdade; ou esta sensacionalista matéria sobre o legado de misoginia deixado por Gandhi, que atormentaria ainda hoje as mulheres indianas; ou ainda esse texto que pinta Gandhi como um verdadeiro bicho-papão e circula na Internet há alguns anos, respondido por uma crítica interessante, mas que não dá conta de todo o assunto.

Curiosamente, a maior parte dos (supostos) "podres" de Gandhi foi exposta por ele mesmo em seus escritos públicos. De resto, muitas atitudes dele podem soar hipócritas para nós, ocidentais, mas possuem um contexto na mística Brahmacharya, que ele seguia. Existem muitos aspectos complexos, contraditórios e paradoxais na vida de Gandhi, e ele mesmo nunca fez questão de escondê-los, mas esses aspectos volta e meia são usados em polêmicas sensacionalistas e maniqueístas cujos objetivos são mais de difamar sua imagem e seus pensamentos que de compreender o homem Gandhi em toda sua fascinante complexidade. Estudo profundamente a trajetória de Gandhi há quase 20 anos e já li um bocado sobre o assunto; o presente texto é uma tentativa de alinhavar uma análise crítica, mas generosa, sobre o personagem.
Geralmente pensamos em Gandhi apenas a partir de sua queda de braço com o Império Britânico, mas ele também foi um profundo crítico da Índia de seu tempo - o que já dá muito que pensar. Foi a figura mais visível a combater o sistema de castas (isso não é pouca coisa), teve uma preocupação vital e visceral em garantir a integração dos párias à sociedade, foi um severo crítico da miséria em que a maior parte da população da Índia vivia, explorada pelas próprias elites indianas. 

Gandhi incomodou muita gente - britânicos e indianos, hindus e muçulmanos e por aí vai. Ele nunca foi uma unanimidade, mas provavelmente ele era a rainha no lado indiano do xadrez (para desagrado de muitos de seu próprio "lado"). 

Acho triste o modo como muita gente, por agendas ideológicas variadas ou por puro deleite iconoclasta, tenta diminuir e depreciar a figura de Gandhi. Mas isso faz parte do jogo de extremos com que sua figura foi historicamente construída: parece que só conseguimos pensar em Gandhi enquanto um santo imaculado ou o mais sórdido dos pecadores - ele mesmo, como escreveu muitas vezes, sabia que não era nem uma coisa, nem outra. O apelido de "Mahatma", "Grande Alma", o incomodava profundamente, por conhecer seus próprios defeitos.

Já em 1949 o célebre escritor Geroge Orwell publicou um hoje clássico texto sobre Gandhi, onde o tratava de maneira crítica, mas extremamente respeitosa e equilibrada. Ainda hoje, escrever sobre o pitoresco personagem indiano de maneira ponderada é uma tarefa difícil para historiadores e biógrafos.

Começando pelas acusações de violência doméstica, nunca vi nenhum biógrafo sério mencionando isso. Gandhi e Kasturba casaram muito cedo, num matrimônio arranjado. Ele tinha 13 anos e ela era ainda mais nova. Eles brigavam literalmente por causa de brinquedos (dizem). De qualquer forma, o próprio Gandhi, em seus escritos autobiográficos, sempre profundamente autocríticos, reconhece que era um marido imaturo e mesquinho nos primeiros anos de matrimônio. Em todo caso, a afirmação de que ele batia na esposa carece de fundamentos historiográficos, até onde vão meus conhecimentos.

Quanto à misoginia, vale lembrar que Gandhi sempre destacou a centralidade de sua mãe em sua formação moral e espiritual. Ela era uma mulher muito religiosa e devota, e deixou marcas indeléveis em sua personalidade nesse sentido. Ele tinha verdadeira veneração pela mãe, em sentido muito profundo. As palavras que escreveu sobre sua mãe dificilmente caracterizariam uma personalidade misógina. Em sentido mais amplo e genérico, em escritos públicos e privados, Gandhi falava sobre as mulheres de modo muito positivo, em sentidos inclusive espirituais. Ele considerava mesmo ter características de personalidade femininas muito desenvolvidas e afirmava que gostaria de reencarnar como mulher.

Por outro lado, a cultura hinduísta tinha (e ainda tem) posturas muito ambíguas acerca da mulher e de sua pureza, como salienta a antropóloga Mary Douglas. Cabe (ou cabia) à mulher, em grande medida, a preservação da pureza ritual de toda a família, em termos sexuais, alimentares, entre outros. Em grande medida isso estava ligado ao sistema de castas, cabendo à mulher preservar a família da contaminação de impurezas derivadas do contato com castas inferiores; esse importante papel, por outro lado, acarretava pesadas cobranças por parte da família e da sociedade, em diversos aspectos. É interessante notar aqui que Gandhi foi certamente o principal defensor, ao menos o mais visível e notório, da abolição legal do sistema de castas e isso provavelmente impactou direta e indiretamente na condição social e na vivência cotidiana das mulheres na Índia (mas aqui já estou conjecturando, nunca li nada explorando essa questão específica).

Ora, Ghandi foi educado numa cultura repleta de ambiguidades sobre a mulher e seus papeis sociais e, obviamente, algumas dessas ambiguidades se refletiriam em suas próprias posturas e atitudes pessoais. Para se ter uma ideia da complexidade do contexto em que ele nasceu e cresceu, oito anos antes de seu nascimento ainda se praticava a cremação de viúvas (vivas!) junto com seus falecidos maridos em algumas regiões da Índia. A lei permitindo um segundo casamento para viúvas datava de apenas 13 anos antes. 

Feitas todas as contas, o modo como ele se expressava acerca das mulheres era bastante "progressista" - se podemos dizer assim. Em tudo isso devemos ter sempre em mente que seus anos de formação universitária na Inglaterra e seu contato com a cultura ocidental tiveram grande importância para ele, um homem que viveu entre diversas encruzilhadas culturais e cujo pensamento e vida resultavam de uma complexa síntese entre todos esses díspares elementos. Durante seu período de estudante em terras britânicas Gandhi pôde conviver com o emergente movimento feminista.

Quanto aos polêmicos "testes de castidade" a  que o personagem se submeteu em alguns momentos de sua vida, é necessário destacar que o binômio sexualidade-castidade sempre foi complexo para Gandhi, devido a uma experiência traumática de sua juventude. 

Assim que casou (aos 13 anos, lembremos), o jovem Mohandas desenvolveu intensa compulsão sexual, um comportamento realmente obsessivo - conforme ele mesmo relata. Pouco tempo depois, seu pai caiu doente, em estado gravíssimo. Em certa noite ficou encarregado de tomar conta do pai acamado, mas no meio da madrugada sua compulsão sexual o assaltou de tal forma que, sentindo-se incapaz de resistir aos impulsos, foi para junto da jovem esposa para satisfazer seu desejo. Durante sua breve ausência, seu pai passou pela crise final e faleceu inteiramente sozinho, sem qualquer socorro. 

O jovem Gandhi, em seus 14 ou 15 anos de idade, naturalmente, se sentiu extremamente culpado, passando a partir daí a viver sua sexualidade de modo bastante conflituoso, lutando para obter controle sobre o impulso que o afastara do pai no leito de morte. Como hindu fervoroso que era, graças à influência materna, o caminho natural era que ele buscasse as respostas para sua incontinência sexual entre as possibilidades que a tradição hindu lhe oferecia - e, como se sabe, ao longo dos milênios, o hinduísmo desenvolveu diversas correntes ascéticas que, ainda hoje, exercem grande influência social.

Durante os anos seguintes, até a maturidade, Gandhi passou a desenvolver um rigoroso ascetismo alimentar - passou a simplificar cada vez mais sua alimentação (era vegetariano desde a infância), passando a evitar temperos e condimentos, reduzindo severamente sua ingestão diária de alimentos e praticando jejuns prolongados. Em certo momento, passando por uma crise depressiva, assumiu voto de silêncio, se abstendo de falar durante um dia inteiro por semana - hábito que manteve até o fim da vida. Finalmente, Gandhi fez votos de pobreza e se desfez de todos os seus bens materiais - segundo ele, as posses mundanas que mais dificultaram essa decisão foram seus preciosos livros, pois ele era dono de uma considerável biblioteca à qual se sentia muito apegado.

Um dos aspectos essenciais do ascetismo de Gandhi era ligado à noção de responsabilidade: o indivíduo precisava assumir as consequências de seus prazeres, fossem eles alimentares ou sexuais. Por exemplo, ele considerava uma atitude errada que uma pessoa se alimentasse excessivamente e depois tentasse escapar das consequências ingerindo medicamentos (nada de Engov!). 

Da mesma forma, sustentava que, estando a sexualidade diretamente ligada à procriação, o uso de métodos contraceptivos também seria uma forma de fugir das consequências da sexualidade. Vale notar que ele adotava essa conduta para si mesmo, mas não a impunha a ninguém como norma geral (embora não saibamos se sua esposa pensava da mesma forma). 

Devido a essa atitude, ele e Kasturba chegaram a ter muitos filhos (cerca de sete, se não me engano). A certa altura, ficou muito difícil equilibrar o sustento e o cuidado de uma família cada vez maior com uma vida pública que se tornava cada vez mais intensa. Para conciliar essas dificuldades, só lhe restavam duas opções: usar métodos contraceptivos (o que ia contra seus princípios) ou partir para a abstinência sexual integral (o que exigia controlar seus intensos impulsos genésicos). Sempre fiel a seus princípios, Gandhi ficou com a segunda opção, embora fosse certamente a mais difícil e a mais dolorosa para ele e para sua esposa. Muito se discute sobre essa decisão, afirmando-se que Gandhi a tomou unilateralmente, contra a vontade de Kasturba. Lendo e relendo seus escritos, não sei se é verdade; é fato que ele não enfatiza muito a participação da esposa nessa deliberação e não sei se existem registros mais precisos sobre a reação dela a essa decisão.

Mas a questão não se resume a esses aspectos pragmáticos, e fica ainda mais complexa. Em paralelo a toda essa trajetória, Gandhi, que desde criança sempre fora muito religioso e devoto, passou a desenvolver grande interesse pela experiência mística em sentido mais profundo. Durante muitos anos empreendeu intensas buscas existenciais, com leituras aprofundadas sobre Cristianismo, Islamismo, Teosofia, entre outros assuntos e vertentes religiosas. Os dois textos que desde esse momento se tornaram a base para sua vida pública e fundamento para suas concepções de Satyagraha e Ahimsa foram o Sermão do Monte e o Baghavad Gita. 

Durante esse período ele também se aproximou de diversos praticantes de correntes místicas do hinduísmo, com eles mantendo ativa correspondência. Resumindo muito, foi justamente a troca epistolar com um desses "gurus" (o qual, salienta Gandhi, era casado e não praticava abstinência sexual) que lhe despertou a ideia de que o amor matrimonial mais profundo exigiria abstinência sexual, à medida que a expectativa de retribuição e gratificação sexual emprestariam aos demais gestos de afeto, carinho e cuidado um viés interesseiro; apenas onde não houvesse expectativa de retribuição sexual o amor poderia ser plenamente espiritual e desinteressado - isso diz muito sobre como Gandhi vivenciava sua sexualidade, mas não vamos nos aprofundar nesse caminho.

Resumindo, seu trauma de juventude, sua situação familiar e suas experiências místicas acabaram conduzindo Gandhi, após muita hesitação, a fazer votos de "Brahmacharya". Normalmente traduzido como "castidade", Brahmacharya é uma noção muito antiga e passível de múltiplas interpretações e variadas práticas dentro do hinduísmo, do budismo e do jainismo. Não sou profundo entendedor do complexo assunto, e não me arrisco além dos meus limitados conhecimentos. 

Para todos os efeitos, em determinada altura da vida Gandhi se tornou um brahmachari. Os famosos e polêmicos "testes de castidade" aos quais Gandhi se submeteu em vários momentos de sua vida não eram uma maluquice ou uma esperteza tirada da sua cabeça; eles faziam parte de antigas práticas ligadas ao Brahmacharya, que já começavam a se tornar raras à época de Gandhi. 

Esses testes se davam com conhecimento público; Gandhi, como qualquer outro brahmachari, nunca os fez às escondidas, sorrateiramente. Como se sabe, o teste para o praticante da castidade consistia em passar uma noite inteira nu, deitado na companhia de uma ou mais mulheres nuas; durante essa prova, o praticante não deveria ter sequer uma ereção ou pensamentos "impuros". Vale ressaltar que as mulheres que participavam desse tipo de teste o faziam com pleno consentimento; algumas das que passaram por esse gênero de experiência com Gandhi eram casadas com amigos dele, inclusive. Enfim, me parece difícil caracterizar tal situação como "abuso sexual" ou algo semelhante.

Para nós, ocidentais, esse tipo de exercício místico pode soar como impostura ou hipocrisia, mas o fato é que existem inúmeras práticas similares, sempre com conotação sagrada, dentro do universo místico hinduísta; como bem discute Victor Turner, um dos maiores antropólogos do século XX, tais práticas "bizarras" fazem todo o sentido em seu universo cultural e religioso específico. 

Qualificar Gandhi como um pervertido aproveitador simplesmente por participar desse tipo de "teste", que não foi inventado por ele e fazia parte de um contexto cultural muito mais amplo é uma atitude etnocêntrica de nossa parte. Fato é que muitos de seus amigos e companheiros o criticaram por essas decisões e tentaram dissuadi-lo, temerosos das possíveis repercussões negativas que tais práticas poderiam atrair, arranhando a imagem de Gandhi e, por conseguinte, desacreditando o movimento político do qual fazia parte. 

Fosse como fosse, Gandhi seguiu em frente com essas práticas "exóticas", que acreditava serem necessárias a sua prática como brahmachari, sem se importar com suas eventuais consequências políticas. Tal postura, da parte de um homem que abandonou todas as suas posses materiais, que jamais hesitou em se deixar surrar violentamente sem reagir durante protestos, que passou vários anos de sua vida encarcerado e que enfrentou longos jejuns que o levaram à beira da morte pela causa da emancipação indiana, permite supor que esses "testes de castidade" eram para ele algo muito sério, um ato místico-religioso realizado com profunda sinceridade. Ao longo de sua vida ele ofereceu testemunhos muito concretos de sua seriedade diante da vida; Gandhi era o tipo de pessoa que botava seus bens, seu corpo e sua alma em jogo destemidamente.

Quanto aos resultados de tais "testes", segundo as mulheres que deles participavam, Gandhi teria conseguido se manter sexualmente impassível em todas as ocasiões. Podemos confiar no testemunho delas ou sentir-se-iam intimidadas a revelar a verdade pela projeção social do "Mahatma"? Impossível saber com absoluta certeza o que se passou efetivamente nessas noites misteriosas (que, por sinal, não foram muitas). De qualquer forma, o ônus da prova cabe a quem desconfia desses relatos - e não o contrário. Ainda que, hipoteticamente, em alguma dessas ocasiões Gandhi tenha eventualmente cedido a pensamentos "impuros", tido uma ereção ou mesmo chegado a manter intercurso sexual, ficaria provada apenas sua incapacidade de se manter impassível diante de tentações às quais a maioria dos homens sucumbiria - não significando necessariamente que ele teria agido de modo desonesto e astucioso desde o começo. 

Usar isso para desqualificar toda a trajetória de Gandhi me parece intelectualmente desonesto. Eu, particularmente, acredito que ele teria possibilidades muito mais simples de manter relações sexuais ou cometer adultério às escondidas, através de subterfúgios variados, que inventando uma elaboradíssima e arriscada desculpa místico-religiosa EM PÚBLICO. Me parece pouco verossímil imaginar um homem que se desfaz de todos os seus bens, se entrega à pobreza, entrega seu corpo aos golpes do inimigo, se deixa encarcerar para depois inventar pífias desculpas para se entregar, por umas poucas horas, aos prazeres da carne, sabendo as repercussões daninhas que isso poderia trazer à sua reputação e, ainda mais importante, à obra de toda uma vida de pungentes sacrifícios - uma obra que ele sabia ser muito maior que ele mesmo. 

Em suma, Gandhi é uma das personalidades mais complexas, paradoxais, desconcertantes e fascinantes do século XX. Quaisquer que fossem suas falhas e limitações enquanto ser humano, ele deixou um rico e importante legado de pensamento e ação para a humanidade, fundamentada numa criativa síntese de linhagens intelectuais e religiosas do mundo inteiro. O belíssimo Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos é um dos frutos nascidos de sua semeadura, como sempre destacou Martin Luther King. 

Gandhi é uma figura histórica que deveríamos avaliar com toda a generosidade, e não buscando encontrar (ou mesmo inventar) fissuras com as quais derrubar tudo que ele nos deixou.

Gandhi em um de seus inúmeros jejuns político-religiosos, com que tantas vezes desafiou as autoridades britânicas ou apaziguou os ânimos dos indianos excessivamente revoltados.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Cultura OU o quê? Falsos dilemas e verdadeira cidadania

Não se trata de ter museus OU ter hospitais, ter teatros OU escolas, ter pesquisa científica OU empregos, ter bibliotecas OU saneamento básico, ter parques OU segurança pública. Esses dilemas são falsos, falsíssimos. Precisamos ter bons museus, teatros, bibliotecas, pesquisas científicas, parques e tantas outras coisas PARA termos bons hospitais, escolas, empregos, saneamento básico e segurança pública.

Nenhuma nação decente, digna e soberana se constrói sem investir na formação humanística de seus cidadãos, sem abrir-lhes horizontes amplos e profundos de questionamento, imaginação, contemplação, deslumbramento.

Um povo sem acesso a museus, teatros, bibliotecas, ciência ou parques se torna manipulável, dócil, submisso a todo tipo de tirania, apático diante de todo abuso de poder.

E os tiranos não gostam de oferecer nada de bom a seus povos: nem museus, nem hospitais; nem teatros, nem escolas; nem ciência, nem emprego; nem bibliotecas, nem saneamento básico; nem parques, nem segurança pública.

Ruínas do Museu Nacional: um corpo cuja alma se extraviou.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Instinto, liberdade, hábito

Trecho traduzido de Les deux sources de la morale et de la religion, de Henri Bergso; grifos meus

Consideremos duas linhas divergentes de evolução e sociedades na extremidade de uma e de outra. O tipo de sociedade que parecerá mais natural será evidentemente o tipo instintivo: o laço que une entre elas as abelhas da colmeia se parecem muito mais com aquele que retém juntas, coordenadas e subordinadas umas às outras, as células de um organismo. Suponhamos um instante que a natureza tenha querido, na extremidade desta outra linha, obter sociedades onde uma certa latitude fosse deixada à escolha individual: ela terá feito com que a inteligência obtivesse aqui resultados comparáveis, quanto à sua regularidade, àqueles do instinto na outra; ela recorreria ao hábito. Cada um desses hábitos, que se poderá chamar "morais", será contingente. Mas seu conjunto, quero dizer o hábito de contrair hábitos, estando na base mesmo das sociedades e condicionando sua existência, terá uma força comparável àquela do instinto, em sua intensidade e em sua regularidade. Aí está precisamente aquilo que nós chamamos "o conjunto da obrigação" ["le tout de l'obligation"].

Uma convenção tornada poderosa - pero no mucho - pelo hábito.