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Mostrando postagens com marcador Celtas. Mostrar todas as postagens
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quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

As mulheres de chifres

Um conto folclórico irlandês, adaptado para meus alunos cariocas:


Uma rica mulher estava sentada, tarde da noite, cardando e preparando a lã, enquanto toda a família e os criados dormiam. Ouviu uma batida na porta, e uma voz chamou: “Abra! Abra!” – “Quem está aí?”, disse a dona da casa. “Eu sou a Feiticeira de um Chifre”, foi a resposta. A dona da casa abriu a porta, e uma mulher entrou, levando nas mãos um par de cardadores de lã e tendo na testa um chifre. Sentou-se junto ao fogo e começou a cardar a lã com violenta pressa.

Então se ouviu uma segunda batida na porta, e uma voz chamou, como antes: “Abra! Abra!” A dona da casa abriu a porta, e imediatamente outra feiticeira entrou, com dois chifres na testa e uma roca de fiar lã nas mãos. “Eu sou a feiticeira dos dois chifres”, disse ela, e começou a fiar veloz como um raio. E assim as batidas na porta prosseguiram e as feiticeiras iam entrando, até que finalmente havia doze mulheres cantando e tecendo lã ao redor da lareira, a primeira com um chifre e a última com doze.

Era estranho de se ouvir e assustador de se ver essas doze mulheres, com seus chifres e suas rocas. A dona da casa quase desmaiou, tentou levantar-se para chamar ajuda, mas não conseguiu se mover nem pronunciar uma palavra, pois as feiticeiras haviam-na enfeitiçado.

Então uma delas a chamou e disse: “Levante-se, mulher, e faça um bolo para nós”. Ela foi até o poço buscar água, mas uma voz lhe disse “Volte para casa e grite: ‘A montanha das mulheres fenianas está pegando fogo!” Foi o que ela fez. Quando as feiticeiras ouviram o grito, correram para fora soltando gritos estridentes e fugiram para Slievenamon, sua morada.

Mas o Espírito do Poço pediu à dona da casa que entrasse e preparasse a casa contra os feitiços das bruxas, caso elas voltassem. Para romper o encantamento, ela borrifou a porta da casa com a água na qual lavara os pés de seu filho. Depois, pegou um bolo que as feiticeiras haviam feito com sangue e farinha em sua ausência, cortou-o e colocou um pedaço na boca de cada um dos adormecidos, e eles recuperaram a saúde. Então pegou o pano que elas haviam tecido e trancou com cadeado num baú e, finalmente, travou a porta com uma grande tranca presa aos batentes, para que as bruxas não pudessem entrar. Ao terminar de fazer essas coisas, ficou aguardando. Não demorou muito para que as feiticeiras voltassem, com muita raiva, pedindo vingança.

“Abra, abra, água de lava pés!”, gritaram. “Não posso, estou toda esparramada pelo chão”, disse a água.

“Abram, abram, madeira, árvores e tramela!”, gritaram elas para a porta. “Não posso, a tranca está pregada e não tenho força para movê-la”, disse a porta.

“Abra, abra, bolo que fizemos e misturamos com sangue!”, gritaram elas de novo. “Não posso, estou quebrado e macerado, e meu sangue está nos lábios das crianças adormecidas”, respondeu o bolo.

Então as feiticeiras voaram pelos ares dando gritos estridentes, e fugiram para Slievenamon, lançando estranhas maldições ao Espírito do Poço que desejara sua destruição. A mulher e a casa foram deixadas em paz, e um xale perdido por uma das feiticeiras em sua fuga foi guardado pela dona da casa como lembrança daquela noite; esse xale permaneceu na mesma família, passando de geração em geração, durante mais de quinhentos anos.

Adaptado de Joseph JACOBS. Contos de fadas celtas. Tietê: Landy, 2002.

Francisco de Goya, O Sabá das Bruxas (1821-23)



segunda-feira, 30 de julho de 2012

Camadas do sagrado

Estivemos ontem em Genebra. Devo dizer que, 500 anos depois de Calvino a cidade me parece andar mais pelo lado do "espírito do Capitalismo" que da "ética protestante"... Por sinal, definitivamente, os preços em Genebra seguem à risca o espírito do dito cujo!

Deixando essa questão de lado, foi uma oportunidade fantástica poder visitar a Catedral de São Pedro, onde Calvino fez seus sermões e, principalmente, um local que fez parte do cotidiano de alguns dos personagens e autores que estudo em minhas pesquisas, como Jean Crespin, Pierre Richer e, principalmente, Jean de Léry! Estar exatamente ali, na nave daquela igreja, foi indescritível...

No entanto, a catedral guarda outras surpresas... Seu subsolo é um riquíssimo sítio arqueológico, escavado desde 1977 e hoje aberto à visitação. Na verdade, a área já era ocupada há dois mil anos, antes mesmo da chegada dos romanos à região. Não à toa, ali se situava o túmulo de um chefe alobrógio - da tribo celta dos Alobrógios.

Se era mesmo um chefe acho difícil dizer - honestamente, sou um tanto cético quanto a certas identificações arqueológicas. Em todo caso, ali jaz um guerreiro celta do século I a.C. Por sinal, a certa distância dali se encontra um pequeno tesouro monetário enterrado também no século I a.C. Note-se que com o tempo e a ação química da umidade as moedas se fundiram num bloco maciço.

É interessante observar que esses enterramentos de moedas (e outros objetos) entre algumas tribos celtas correspondia a uma forma de culto a divindades ctônicas (subterrâneas). Por sinal, isso é particularmente verdadeiro em relação às tribos helvéticas, como mostra o famoso exemplo do lago de La Tène, onde eram atiradas oferendas.

Logo após a conquista romana há vestígios ali também de que o local foi logo transformado num templo. Infelizmente não tirei nenhuma foto desses vestígios, principalmente elementos arquitetônicos como capitéis de coluna ou alguns arcos parcialmente preservados.

Por volta do século IV d.C. o local começou a ser utilizado como templo cristão, que sofreu sucessivas ampliações até o século XII. Por exemplo, podemos ver um batistério muito bem conservado, alimentado por um engenhoso sistema hidráulico.

Também é possível ver vestígios do coro da Igreja, com sua simpática decoração geométrica.

Ao lado da Igreja foi ainda instalado um claustro, com as celas dos monges aquecidas por um curioso sistema de calefação radial.



No fim da Idade Média o bispo ainda contava com acomodações luxuosas do outro lado da Igreja, incluindo uma sala de recepção com sofisticada pavimentação decorativa.

No século XV o espaço foi amplamente reformado, e a catedral ganhou as formas góticas que ostenta ainda hoje. Menos de 100 anos passados, com a adesão de Genebra à Reforma, a Igreja se tornou local de culto protestante, abrigando ninguém menos que o célebre reformador Calvino.

O que me parece impressionante é que, ao longo de nada menos que dois milênios e sucessivas transformações religiosas, esse mesmo local permaneceu sempre sendo usado para funções sagradas. Coincidência?

Provavelmente não, a começar pela primeira mutação, logo após a conquista romana. Como se sabe, foi muito comum que antigos santuários celtas tenham sido "romanizados" pelas próprias populações nativas. Nesse sentido, era uma transformação muito mais arquitetônica que religiosa. Provavelmente os próprios Alobrógios foram os autores dessa mutação, num processo corrente de assimilação de sua religião ao panteão romano.

Por outro lado, a apropriação católica posterior teria finalidade muito distinta. A ocupação e cristianização de antigos santuários foi uma estratégia de catequese e conversão intensamente empregada pela Igreja Católica no Baixo Império e no início da Idade Média - que, por sinal, foi muito reutilizada durante a retomada da Península Ibérica e mesmo a conquista da América.  Nesse sentido, tratava-se de manobra religiosa proselitista "friamente calculada", como diria o Chapolim Colorado...

O mesmo pode ser dito da apropriação reformada no século XVI, quando a catedral católica sofreu drástica simplificação decorativa, como parte do programa protestante, especialmente através da eliminação das imagens.

Enfim, a Catedral de São Pedro em Genebra condensa não apenas dois mil anos de espiritualidade ocidental, mas ainda a densa trama de relações sociais, políticas e econômicas que engendraram todas essas transformações ao longo dos séculos...

sábado, 30 de junho de 2012

Era uma vez em Lugdunum...

Estivemos ontem em Lugdunum, ou melhor, Lyon! A cidade foi o principal centro administrativo da Gália, durante o período posterior à conquista romana. Sobre a colina de Fourvière (corruptela de "Forum Vetus"), ainda é possível visitar as fabulosas ruínas do assentamento, além do excelente Museu Galo-romano.

A experiência de caminhar ali foi simplesmente indescritível. O melhor que posso fazer nesse sentido é postar algumas fotos... Afinal de contas, uma imagem diz mais que mil palavras!












domingo, 24 de junho de 2012

Aventuras na Bretanha - episódio I: Rennes

Ontem realizei um sonho: visitar a Bretanha francesa - também conhecida como "Pequena Bretanha" na Idade Média, em oposição à "Grã-Bretanha". Aguardava esse momento desde os 15 anos de idade... Meu primeiro "ataque" foi em Rennes, mas já tenho outras incursões programadas! A viagem foi tão emocionante que precisarei dividir o post em partes!

I - Na trilha dos celtas

Como se sabe, a Bretanha é um dos últimos centros de cultura celta ainda viva, especialmente devido à manutenção da língua bretã. Visitar Rennes, especialmente o Musée de Bretagne, foi uma experiência fantástica nesse sentido!

A fabulosa exposição permanente se propõe a apresentar cronologicamente a história da região através de inúmeros artefatos, desde a Pré-história aos dias atuais. Para um apaixonado pela cultura celta, foi uma experiência simplesmente indescrítivel. Particularmente instigante foi a possibilidade de seguir ao fio do tempo as transformações da cultura material na Bretanha e perceber o quanto uma herança celta e galo-romana se constituiu não exatamente através de permanências puras e simples, mas de um constante processo de reinvenção que continua até hoje.

Nesse sentido, o que mais atraiu minha atenção foi justamente observar as peculiaridades da arte bretã medieval, em perspectiva comparativa às obras que pude ver no Louvre. Nunca havia dedicado muita atenção à produção medieval de origem céltica, uma vez que sempre me interessei mais pela cultura celta da antiguidade, pelos "irredutíveis gauleses" contemporâneos de Astérix!

A arte da Bretanha na Idade Média é obviamente muito parecida com o resto da produção europeia da época, mas é nítido que sob as mesmas convergências e convenções estilísticas românicas ou góticas, a arte da região soube manter características perceptivelmente "célticas"; o mesmo vale para as expressões do período romano, com um inconfundível "traço" local. Indo além, encontramos um mesmo meneio céltico na época moderna e na contemporaneidade, particularmente no que diz respeito ao entalhe em madeira. Fiquei particularmente impressionado também com as capas de chuva de pescadores, usadas no século XX, que lembram muito os famosos "genii cuculati" da arte galo-romana.

No fim das contas, fica a dúvida: foi a Bretanha céltica que se apropriou de outras expressões culturais ou as tradições posteriores que se apropriaram de um substrato celta? Me parece que nenhuma das duas formulações dá conta adequadamente dessas longas e complexas interações culturais ao longo de dois mil anos...

Talvez nada sintetize melhor essas questões que essa emblemática combinação heráldica sobre a porta de um edifício do século XVII onde hoje funciona um liceu: o arminho da Bretanha e a Flor-de-lis da monarquia francesa lado a lado, em simétrica equivalência...


II - As impermanências do espaço

Há muito tempo atrás, Rennes era uma cidade murada, como a maioria das aglomerações urbanas europeias. Nessa época, a principal porta da cidade era a "Porte Mordelaise", diante da qual, segundo a tradição, os duques da Bretanha deviam prestar juramento de proteger a liberdade do povo bretão, como parte de sua sagração. Era também através dessa porta que aconteciam as entradas reais e episcopais na cidade, acontecimentos de grande importância para a sociedade de Antigo Regime.

 Porte Mordelaise vista "de fora"
 Porte Mordelaise vista "de fora" (detalhe)
Porte Mordelaise vista "de dentro"

O conjunto das muralhas de Rennes foi obra dos séculos, iniciando-se no século III d.C., com as crises do Império Romano, que tornaram necessárias estruturas de proteção da cidade, vulnerável ante episódios de violência de saqueadores famintos. Ao longo da Idade Média esse complexo defensivo aumentaria gradativamente, até o século XV. Após mais de um milênio de trajetória, as defesas de Rennes em sua máxima extensão contavam com doze portas e dezesseis torres.

No entanto, o desenvolvimento da artilharia pesada e principalmente a união do Ducado da Bretanha à coroa francesa tornaram tais edificações inúteis, sendo demolidas ou simplesmente se desmantelando com o passar dos séculos. Atualmente restam apenas a Porte Mordelaise e a Tour Duchesne (abaixo).
Também a Tour Duchesne tem uma curiosa história: durante séculos foi local dos jogos de "papegaut" em Rennes. Costume surgido na Idade Média,  esses jogos eram competições de companhias de arqueiros, onde uma ave de madeira ou papelão - o "papegaut" - era afixada no alto de um mastro ou de uma torre. Todos os arqueiros tentavam acertar o alvo, e o primeiro que conseguisse recebia o título de "roy du papegaut" e um prêmio invejável: um ano de isenção de impostos! Posteriormente o costume foi incorporado às companhias de arcabuzeiros, caindo em desuso apenas no século XVIII. Poucas cidades, entretanto, obtinham o "privilège de papegaut".

Como se vê, a porta e a torre não eram lugares ordinários, marcando eventos importantes para a cidade ou para o Ducado da Bretanha, que reforçavam seu prestígio social e importância política. Contudo,  muita coisa mudou... Pedindo informações, ninguém sabia o que era a "Tour Duchesne", ou melhor, ninguém reconhecia o topônimo. A torre tão importante, símbolo de um privilégio da cidade, se tornou apenas uma edificação anônima...

Por outro lado, a experiência de cruzar a Porte Mordelaise me pareceu muita curiosa, por um motivo: ela perdeu completamente seu significado original! Afinal de contas, o ato de passar sob seus arcos significava entrar na cidade, não apenas em seu sentido físico e material, mas também simbólico; significava provavelmente gozar da segurança, do prestígio e do privilégio ligado ao interior da enceinte de Rennes. Não é difícil imaginar o quanto de alívio sentiam as pessoas que adentravam o recinto amuralhado numa época em que a região era infestada por bandos de salteadores que não hesitavam em atacar mesmo próximo às muralhas da cidade!

No presente, a distinção entre "dentro" e "fora" deixou de existir, uma vez que a cidade cresceu e a própria muralha enquanto divisor espacial perdeu seu sentido original. Assim como a ausência "densa" da Bastilha é testemunho de transformações sociais significativas, a Porte Mordelaise e a Tour Duchesne se tornaram testemunhos da ausência "sutil" de uma relação humana com o espaço urbano que se perdeu.