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Mostrando postagens com marcador Top 3 - Cotidiano. Mostrar todas as postagens
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sábado, 24 de dezembro de 2016

A banalização da indignação e um testemunho de sua história

Acabo de ler um texto de 11 anos atrás com críticas veementes a um clipe (já esquecido) de uma cantora pop (já esquecida). Requiescat in pace.

O clipe supostamente seria uma brutal violência da cultura imperialista etc etc etc. Logo abaixo seguia-se uma longa salva de comentários recheada de réplicas e tréplicas, onde inúmeras pessoas "engajadas" e devidamente "escandalizadas" discordavam visceralmente entre si.

Apenas um comentário sensato destacava que era apenas uma obra artística de baixa qualidade chocada entre tantas outras de teor semelhante e que, provavelmente, não seria a referência cultural decisiva apontada pelo autor do texto e demais leitores. 

Mais de uma década depois, sabemos quem tem razão. 

Por sinal, é curioso lembrar que dez anos atrás as pessoas já discutiam loucamente na Internet por coisas absolutamente inexpressivas. Vivemos a era das polêmicas efêmeras e indignações banais. Pior ainda, estamos em pleno processo de banalização da indignação. 

Touché.

domingo, 10 de agosto de 2014

A sociedade dos invejosos

Há mais de um ano tenho observado certa tendência na cultura cotidiana, através das conversas de meus alunos, de diálogos entreouvidos nos transportes coletivos, da publicidade e mesmo do tal funk ostentação (que todos temos o desprazer de conhecer): estamos vivendo numa cultura obcecada pela inveja. Volta e meia vejo pessoas se queixando de que são invejadas por fulano ou beltrano, pelos motivos mais diversos e mais estapafúrdios. Obviamente não se trata de novidade, mas creio que estamos atingindo um nível patológico.

Em que pese o tom quase sempre queixoso, tenho a nítida impressão de que muitas pessoas desejam provocar inveja em terceiros e se sentem (quase) secretamente lisonjeadas por esses sentimentos. De fato, nossa cultura me parece nutrir e estimular um desejo vagamente consciente e inconfessável por ser invejável e, de preferência, invejado. Nessa escala de valores, a inveja alheia quase equivale a uma homenagem involuntária, certidão pública de sucesso - não ser invejado por ninguém equivale a um fracasso na sociedade de ostentação.

Não é difícil relacionar essa tendência ao estímulo da publicidade e das mídias sociais. Por um lado, a inveja sempre foi muito usada na propaganda - lembram da tesourinha do Mickey? Por outro lado, as redes sociais e suas dinâmicas de superexposição e autopromoção constituem outro impulsionador - muita gente busca essas redes mais para ser visto que para ver; cada foto postada implora por atenção, admiração e, no limite, inveja.

No fundo, tudo isso nos remete à questão sempre presente do culto e cultivo intensivo da imagem pessoal, que se torna cada vez mais o frágil sustentáculo da autoimagem e da autoestima. A inveja do outro se torna mais um dos espelhos de Narciso buscados com tanta avidez pela gente de nosso tempo. Não à toa a propaganda de certo automóvel atualmente veiculada usa o slogan: "O carro onde você quer se ver"...

E aí entra outra questão problemática: a inveja é sentimento raramente confessado e declarado abertamente; o (suposto) invejoso é quase sempre imaginado como tal pelo (suposto) invejado, sem muita objetividade. Em suma, as pessoas estão neuróticas por um sentimento cuja existência social só se manifesta publicamente em terceira pessoa.

Concluindo, nessa cultura de espetacularização da vida privada e da imagem pessoal, inveja e exibicionismo caminham lado a lado - Freud provavelmente explica...

domingo, 16 de março de 2014

A estranha vida dos ocos

O mundo está cheio de ocos.

Eles constituem 90% da população mundial ou mais. Não espanta: eles são fabricados em massa, produção industrial por maquinário publicitário. A fachada às vezes muda, mas por dentro são todos iguais.

Os ocos são movidos por dinheiro e dívidas; isso faz parte do design, eles são fabricados apenas para consumir, gastar, fazer dívidas e exibir o dinheiro que não têm, do berço ao túmulo, pelo máximo de gerações possíveis. Aliás, não importa o nível de renda, todo oco é endividado, porque nunca há dinheiro suficiente para satisfazer seus desejos ocos, que brotam a cada novo surto publicitário. Ele não sai do shopping sem uma nova ambição oca; sua droga favorita é o cartão de crédito.

São escravos do pior tipo: pensam que são livres - estamos na era do grilhão virtual.

Os ocos não gostam de pensar, satisfeitos em fazer parte de uma mente coletiva burra. Pensar é um perigo para o oco: ele pode desconfiar que é oco, consome coisas ocas, segue padrões ocos e tem uma cabeça oca. E aí ele tem que optar: muda? Continua oco? E o que pensará o resto da gente oca? Melhor cortar o mal pela raiz, não pensar nunca, ou pensar só pela metade - para ter a ilusão de que pensa alguma coisa. Por sinal, ele pode se lembrar que os ocos não são imortais, que amanhã ele será um oco velho e, depois de amanhã, um oco morto.

Mas no fundo, o oco é apenas um eco de outros ocos, eles vivem para a reverberação mútua e mecânica, para ser o oco dos ecos, o eco dos ocos, o eco do eco do oco dos ocos.

Os ocos mais funcionais são grandes glosadores, sabem imitar com tamanha originalidade que até parecem pensar de verdade.

Mas não confunda. Há ocos em todo canto, no mundo inteiro, em todas as classes sociais, da favela a Manhattan.

Há ocos de todos os níveis de escolaridade, categoria profissional e filiação espiritual: ocos analfabetos, ocos médicos, ocos lixeiros, ocos doutores, ocos evangélicos, ocos espíritas, ocos de direita, ocos bacharéis, ocos professores, ocos pedreiros, ocos engenheiros, ocos católicos, ocos de esquerda, ocos com MBA (e haja oco com MBA - quanto mais oco, mais ele precisa acumular MBAs), ocos artistas, ocos "intelectuais" (também são muitos), etc, etc, etc...

Ocos gostam muito de títulos, que exibem e exigem como rótulo, ajudam a saber o que "pensar" de cada um. Nesse sentido, nada pior que um oco com pós-doutorado.

E quem governa os ocos? Outros ocos, é claro! Ocos gostam de mandar e obedecer, especialmente quando a coerção é suave. Assim oco que manda pode pensar que é bonzinho e oco que obedece pode pensar que é livre. Alguns ocos são políticos, muitos não suportam política, e outros precisam pensar - e dizer, e berrar - que são "politizados".

O oco do século XXI adora viajar, apenas para poder ecoar os clichês de outros oco-turistas investidos de maior autoridade. O oco viajante volta de qualquer lugar com uma renovada bagagem de lugares-comuns, baseados nas quase experiências que tiveram. Ele nunca encontra nada digno de interesse, porque seu olhar já está pronto antes de pisar no aeroporto. Ele já sabe o que vai ver, o que vai dizer do que verá e, principalmente, passará longas horas de sua quase-viagem postando dúzias de fotos dessa quase-aventura, para que todos seus quase-amigos saibam como ele está quase (mas apenas quase) se divertindo. A diversão propriamente dita será quantificada depois, pelo número de curtidas na sua foto.

Mas quem é oco? Eu sou oco. Você também. Não nos enganemos.

Parafraseando Buda, todos somos ocos - só varia a medida. Uns são mais, outros menos; alguns quase totalmente, outros quase nada. Mas podemos ser menos ocos a cada dia que passa...