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sábado, 22 de outubro de 2016
Comentários aleatórios sobre "mitologia grega"
Os deuses gregos geralmente tinham mais de uma atribuição, como Hermes, que era mensageiro dos deuses e protetor dos comerciantes, médicos e ladrões, entre outras categorias profissionais. Outro exemplo é Poseidon, que era deus "dos mares", mas também era considerado responsável pelos
terremotos. Na Odisseia inúmeros versos o chamam de "Divo Posido, que os muros da terra sacode".
A religião grega era muito complexa (e até confusa): essa atribuições rígidas como "deusa disso" e "deus daquilo" foram uma elaboração muito tardia, ligada ao Renascimento e à necessidade de "sistematizar" a mitologia grega, para facilitar suas representações artísticas na poesia, música, pintura, escultura, teatro, entre outras formas de expressão. A visão renascentista sobre a mitologia grega está tão embutida em nossa memória coletiva que sentimos muita dificuldade em conceber o pensamento grego sem essas mediações.
Além do mais, quando abordamos a "religiosidade grega", falamos de períodos com muitos séculos, marcados por profundas transformações sociais - as concepções gregas do divino mudaram muito durante esse longo período. Alguns deuses eram mais ou menos cultuados em determinadas épocas, e às vezes os seus atributos mudaram, bem como algumas de suas atribuições específicas foram mais ou menos enfatizadas ou valorizadas em diferentes momentos históricos.
Também é bom lembrar que nosso conhecido "panteão grego" é sobretudo um panteão ateniense - havia acentuadas diferenças regionais na religiosidade do mundo helênico. Ártemis, por exemplo, era particularmente cultuada na na Ásia Menor, onde o grande santuário da deusa na cidade de Éfeso era importante centro de peregrinação. Devido a sua imensa importância local, o culto de Ártemis nessa região tinha peculiaridades que o diferenciavam do culto prestado à deusa em outras áreas do mundo helênico.
Tudo isso, obviamente, é papo para especialistas; eu mesmo não conheço quase nada sobre essas diferenciações...
(Texto oferecido em consultoria a uma publicação infanto-juvenil).
sábado, 27 de abril de 2013
Leituras - "Monstro de Deus", de David Quammen
Depois de uma qualificação e dois artigos, de volta ao velho blog!
Nesse meio tempo, tive oportunidade de ler alguns livros maravilhosos em minhas horas vagas, dentre os quais o interessantíssimo Monstro de Deus, cujo esclarecedor subtítulo em Português é "Feras predadoras: história, ciência e mito". A obra constitui um excelente exemplo do quanto um bom trabalho de divulgação científica, escorado em pesquisa sólida e questionamentos criativos pode oferecer perspectivas intelectuais extremamente instigantes.
David Quammen elabora uma interessante abordagem interdisciplinar, unindo ciências humanas e biológicas para discutir as relações entre as culturas humanas e os grandes predadores ou, como os denomina, os "predadores-alfa", animais capazes de atacar e devorar sozinhos um ser humano, como leões, ursos, crocodilos, tigres, entre outros.
Sua análise explora a temática em diversos sentidos, por exemplo, discutindo as relações entre mitologia e ecologia, explorando as relações entre as feras mitológicas e as interações entre os homens e seus ecossistemas em épocas arcaicas. Para tanto, recorre a textos como a epopeia de Gilgamesh, o Nibelungenlied, a saga de Beowulf ou a Bíblia. Como bem observa Quammen, Humbaba ou Leviatã eram mais que monstros - eram a personificação da fragilidade humana ante uma natureza poderosa e incontrolável, povoada por grandes animais realmente capazes de reduzir indivíduos à condição de refeição... Como sintetiza o autor, "uma morte no trânsito é um infortúnio banal que não choca a consciência pública com a mesma força que um urso homicida, devorador de carne. Uma coisa é estar morto. Outra coisa é transformar-se em carne".
Um dos pontos altos do livro é a discussão do artigo Being Prey ("Ser presa"), da filósofa australiana Val Plumwood, sobrevivente de um ataque de crocodilo em sua juventude:
"'Se a morte ordinária é um horror, a morte nas mandíbulas de um crocodilo é o horror supremo', testemunha Plumwood. Seu horror mais profundo deriva daquelas 'quebras de fronteiras proibidas' que combinam 'decomposição do corpo da vítima com a reviravolta da vitória sobre a natureza e a materialidade que a morte cristã representa. A predação de crocodilos sobre humanos ameaça a visão dualista do domínio humano sobre o planeta no qual somos predadores mas não podemos nunca ser presas. Podemos consumir diariamente outros animais aos bilhões, mas nós mesmos não podemos ser comida para vermes e certamente não carne para crocodilos'".
De fato, tornar-se presa é a antítese radical de nossas antropocêntricas ilusões sobre o cosmo - e nosso lugar no cosmo. É assumir um papel que há muito nos recusamos a representar, especialmente em nossa sociedade hedonista, que procura inutilmente expulsar da vida as dimensões de sofrimento. É lembrar humildemente que não somos o centro do universo.
Quammen explora magistralmente as ramificações políticas, econômicas e sociais dessa questão em vários contextos históricos, formando um complexo quadro sobre a importância dos animais em nossas vidas e em nosso imaginário. Um livro indispensável para todos aqueles que se interessam pela ecologia e por nossas relações com o mundo natural.
Nesse meio tempo, tive oportunidade de ler alguns livros maravilhosos em minhas horas vagas, dentre os quais o interessantíssimo Monstro de Deus, cujo esclarecedor subtítulo em Português é "Feras predadoras: história, ciência e mito". A obra constitui um excelente exemplo do quanto um bom trabalho de divulgação científica, escorado em pesquisa sólida e questionamentos criativos pode oferecer perspectivas intelectuais extremamente instigantes.
David Quammen elabora uma interessante abordagem interdisciplinar, unindo ciências humanas e biológicas para discutir as relações entre as culturas humanas e os grandes predadores ou, como os denomina, os "predadores-alfa", animais capazes de atacar e devorar sozinhos um ser humano, como leões, ursos, crocodilos, tigres, entre outros.
Sua análise explora a temática em diversos sentidos, por exemplo, discutindo as relações entre mitologia e ecologia, explorando as relações entre as feras mitológicas e as interações entre os homens e seus ecossistemas em épocas arcaicas. Para tanto, recorre a textos como a epopeia de Gilgamesh, o Nibelungenlied, a saga de Beowulf ou a Bíblia. Como bem observa Quammen, Humbaba ou Leviatã eram mais que monstros - eram a personificação da fragilidade humana ante uma natureza poderosa e incontrolável, povoada por grandes animais realmente capazes de reduzir indivíduos à condição de refeição... Como sintetiza o autor, "uma morte no trânsito é um infortúnio banal que não choca a consciência pública com a mesma força que um urso homicida, devorador de carne. Uma coisa é estar morto. Outra coisa é transformar-se em carne".
Um dos pontos altos do livro é a discussão do artigo Being Prey ("Ser presa"), da filósofa australiana Val Plumwood, sobrevivente de um ataque de crocodilo em sua juventude:
"'Se a morte ordinária é um horror, a morte nas mandíbulas de um crocodilo é o horror supremo', testemunha Plumwood. Seu horror mais profundo deriva daquelas 'quebras de fronteiras proibidas' que combinam 'decomposição do corpo da vítima com a reviravolta da vitória sobre a natureza e a materialidade que a morte cristã representa. A predação de crocodilos sobre humanos ameaça a visão dualista do domínio humano sobre o planeta no qual somos predadores mas não podemos nunca ser presas. Podemos consumir diariamente outros animais aos bilhões, mas nós mesmos não podemos ser comida para vermes e certamente não carne para crocodilos'".
De fato, tornar-se presa é a antítese radical de nossas antropocêntricas ilusões sobre o cosmo - e nosso lugar no cosmo. É assumir um papel que há muito nos recusamos a representar, especialmente em nossa sociedade hedonista, que procura inutilmente expulsar da vida as dimensões de sofrimento. É lembrar humildemente que não somos o centro do universo.
Quammen explora magistralmente as ramificações políticas, econômicas e sociais dessa questão em vários contextos históricos, formando um complexo quadro sobre a importância dos animais em nossas vidas e em nosso imaginário. Um livro indispensável para todos aqueles que se interessam pela ecologia e por nossas relações com o mundo natural.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
O gigante de Luís XIV
Depois de um mês sem postar, eis-nos de volta à pátria-mãe gentil! As últimas semanas foram tão apertadas devido à conclusão das pesquisas em Paris que não tive tempo para postar. Nos próximos meses tentarei dar conta de todos os posts que ainda pretendo escrever...
Nesse último mês fomos finalmente visitar o palácio de Versailles. Embora o palácio em si seja fantástico, o que há de realmente especial são seus jardins. É interessantíssima a concepção dos jardins divididos em inúmeros "bosquets" planejados para usos variados e com temáticas próprias. De todos, o que me causou mais viva impressão foi o "bosquet de Encelade", dedicado à figura mitológica de Enceladus.
Como vim a descobrir, Enceladus é um dos gigantes que participou da Gigantomaquia, combate legendário entre os deuses gregos e os gigantes criados por Gea - fertilizada pelo sangue de Cronos mutilado - para vingar a expulsão dos titãs.
A derrota de Enceladus possui inúmeras versões, sendo a mais difundida a de que foi atravessado pela lança de Palas Atena. O detalhe comum a todas as versões é que ao fim dos combates Enceladus foi soterrado sob as pedras que formam o Etna; diziam que as erupções do vulcão eram provocadas pela respiração do gigante.
A escultura em questão mostra grande eloquência nos gestos do gigante parcialmente soterrado, erguendo uma pedra para atirar contra os deuses, num último ato de insolência. Não é difícil entender de que modo a estátua se enquadra no programa mitológico de Versailles, centrado na celebração de Apolo, confundido com o Rei Sol. De fato, Versailles deve muito à Fronda, revolta conduzida pela alta nobreza francesa ainda durante a menoridade de Luís XIV, contra a crescente centralização monárquica.
Todavia, me parece ainda mais curioso pensar no "uso prático" da escultura, ou melhor, no modo como foi experimentada pela corte francesa ao longo da Idade Moderna, até a Revolução. Para os nobres que tinham a oportunidade de transitar pelos jardins de Versailles a imagem certamente devia ter algum impacto, sendo um constante lembrete do poder da monarquia e do destino daqueles que ousavam se erguer contra a coroa. Nesse sentido, mais que mera alegoria da Fronda, o gigante é também a imagem idealizada de todo e qualquer movimento contrário à autoridade real - provavelmente, quanto mais afastados cronologicamente da Fronda propriamente dita, mais os nobres podiam interpretar a estátua sob esse caráter genérico, tornando-se menos referência ao passado concreto que às possibilidades do presente.
Ironicamente, contudo, o gigante de chumbo mostrava ainda seu potencial dominado, exalando uma coluna d`água de mais de vinte metros de altura, assim como o Enceladus mitológico se manifestava nas erupções do Etna. E de fato, em 14 de julho de 1789, o gigante se ergueu de sua prisão...
Nesse último mês fomos finalmente visitar o palácio de Versailles. Embora o palácio em si seja fantástico, o que há de realmente especial são seus jardins. É interessantíssima a concepção dos jardins divididos em inúmeros "bosquets" planejados para usos variados e com temáticas próprias. De todos, o que me causou mais viva impressão foi o "bosquet de Encelade", dedicado à figura mitológica de Enceladus.
Como vim a descobrir, Enceladus é um dos gigantes que participou da Gigantomaquia, combate legendário entre os deuses gregos e os gigantes criados por Gea - fertilizada pelo sangue de Cronos mutilado - para vingar a expulsão dos titãs.
A derrota de Enceladus possui inúmeras versões, sendo a mais difundida a de que foi atravessado pela lança de Palas Atena. O detalhe comum a todas as versões é que ao fim dos combates Enceladus foi soterrado sob as pedras que formam o Etna; diziam que as erupções do vulcão eram provocadas pela respiração do gigante.
A escultura em questão mostra grande eloquência nos gestos do gigante parcialmente soterrado, erguendo uma pedra para atirar contra os deuses, num último ato de insolência. Não é difícil entender de que modo a estátua se enquadra no programa mitológico de Versailles, centrado na celebração de Apolo, confundido com o Rei Sol. De fato, Versailles deve muito à Fronda, revolta conduzida pela alta nobreza francesa ainda durante a menoridade de Luís XIV, contra a crescente centralização monárquica.
Todavia, me parece ainda mais curioso pensar no "uso prático" da escultura, ou melhor, no modo como foi experimentada pela corte francesa ao longo da Idade Moderna, até a Revolução. Para os nobres que tinham a oportunidade de transitar pelos jardins de Versailles a imagem certamente devia ter algum impacto, sendo um constante lembrete do poder da monarquia e do destino daqueles que ousavam se erguer contra a coroa. Nesse sentido, mais que mera alegoria da Fronda, o gigante é também a imagem idealizada de todo e qualquer movimento contrário à autoridade real - provavelmente, quanto mais afastados cronologicamente da Fronda propriamente dita, mais os nobres podiam interpretar a estátua sob esse caráter genérico, tornando-se menos referência ao passado concreto que às possibilidades do presente.
Ironicamente, contudo, o gigante de chumbo mostrava ainda seu potencial dominado, exalando uma coluna d`água de mais de vinte metros de altura, assim como o Enceladus mitológico se manifestava nas erupções do Etna. E de fato, em 14 de julho de 1789, o gigante se ergueu de sua prisão...
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