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Mostrando postagens com marcador França. Mostrar todas as postagens
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

"C'est pour cela que je suis née"

"Je ne crains pas les gens de guerre, car j’ai mon chemin tout aplani; et, s’il se rencontre des hommes d’armes, j’ai Dieu, mon Seigneur, qui saura bien me frayer la route pour aller jusqu’à messire le dauphin. Car c'est pour cela que je suis née".

Atribuído a Joana d'Arc




quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Revolução à brasileira

Trecho de Euclidiana - Ensaios sobre Euclides da Cunha, de Walnice Nogueira Galvão [grifos meus]

"O positivismo se casava tão conaturalmente com o abolicionismo e o republicanismo que o lema da nova bandeira vai ser, como é até hoje, Ordem e Progresso. Benjamin Constant pregava que o soldado deveria ser antes de tudo um cidadão armado, com uma missão ao mesmo tempo civilizatória, humanitária e moral. Esses princípios viriam mais tarde a se institucionalizar na reforma da Escola Militar, de que foi autor, em 1900. Ora, tal concepção tinha sido uma criação da Revolução Francesa, só que ao contrário: eram os cidadãos que tinham se armado para propagar os ideais revolucionários pelo mundo, para civilizar o mundo ainda oprimido pelo Antigo Regime, e não para militarizá-lo. Estava pronto para ser usado - como de fato o foi, até para legitimar a chacina dos pobres em Canudos - o mito da Revolução Francesa à moda da casa".

Sargento Pincel - exemplo de cidadão armado em missão civilizatória, humanitária e moral.

domingo, 19 de abril de 2020

O homem que ri

Ah! Me tomais por uma exceção! Sou um símbolo. Ó, todos-poderosos imbecis que sois, abri os olhos. Encarno tudo. Represento a humanidade tal qual a fizeram seus senhores. O homem é um mutilado. O que me fizeram, o fizeram ao gênero humano. Lhe deformaram o direito, a justiça, a verdade, a razão, como a mim os olhos, as narinas e as orelhas; como a mim, lhe puseram no coração uma cloaca de cólera e dor, e sobre a face uma máscara de contentamento. [...] Reis, nobres e príncipes, o povo é o sofredor profundo que ri na superfície. Milordes, vos digo, o povo, sou eu. Hoje o oprimis, hoje me vaiais. Mas o futuro é o degelo sombrio. O que era pedra se torna onda. A aparência sólida se transforma em submersão. Um estalar, e tudo está dito. 

Fala de Gwynplaine, deformado protagonista de O homem que ri, romance publicado por Victor Hugo em 1869 - cerca de dois anos antes do colapso do Império de Napoleão III, após a derrota na Guerra Franco-Prussiana e seguido pela sanguinolenta revolta popular conhecida por Comuna de Paris.

A fala de Gwynplaine caberia perfeitamente na boca de certas versões do Coringa, vilão de quadrinhos (supostamente) inspirado pela maquiagem de Conrad Veidt na adaptação cinematográfica de 1926 de O homem que ri.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Notas sobre o "Estado Mínimo"

Trechos selecionados e misturados de uma velha conversa digital

-Já morei na França. O Estado lá é bem mais "sólido" que o brasileiro. E é ótimo. O Brasil na verdade tem um Estado "hipodimensionado" para um país com nossas características territoriais e demográficas. Infelizmente as estruturas estatais brasileiras são mal direcionadas. Definitivamente, nosso problema não é excesso de Estado, é falta de cidadania. São coisas inteiramente diferentes. O Estado não precisa ser máximo, nem mínimo - ele precisa ser suficiente para as condições específicas do país que atende.

-Estado Mínimo? Viva o feudalismo!

-Já que estamos falando de exemplos históricos, que exemplos de países bem-sucedidos com um Estado mínimo podem ser citados?

-Quase todos os Estados anteriores ao século XIX, com raras exceções, poderiam ser qualificados como "Estados mínimos". Eram Estados basicamente voltados para ação bélica e para a função judiciária. Na Europa Moderna o rei era fundamentalmente o supremo administrador da Justiça.

-O Brasil Imperial também poderia ser considerado um Estado Mínimo - e não era grande coisa.

-O Estado começa a adquirir maior densidade a partir da "Era das Revoluções", tornando-se garante da cidadania moderna em sua tripla configuração: direitos civis, direitos políticos e direitos sociais.

-Como já disse, tenho a experiência de morar em dois países: Brasil e França. O Estado brasileiro parece microscópico ao lado do Estado francês. E nem preciso dizer em qual país é melhor de se viver. Dica: começa com F...

-TODO o transporte público em Paris pertence a uma empresa pública, a RATP. É integrado, multimodal, eficiente e barato. É assim em quase todas as cidades francesas. Já nós, aqui, temos um malha de transporte urbano picotada, cara e precária, quase sempre nas mãos de concessionárias privadas. Só uma comparação simples e trivial.

-O mesmo pode ser dito do transporte ferroviário de longa distância na França, administrado pela excelente estatal SNCF, que existe desde o século XIX. Uma malha ferroviária densa que cobre o país inteiro, com trens de primeira qualidade - TGV, TGV, TGV!!!

-Qualquer residente na França (inclusive estrangeiro) tem direito a auxílio aluguel, fora os projetos públicos de moradia, com aluguel moderado. Política habitacional de verdade.

-Acho que o continente onde hoje em dia encontramos maior concentração de Estados próximos do "mínimo" é a África...

-A ideia de minimizar o Estado para combater a corrupção é mal fundamentada. Parte da premissa de que não existe corrupção dentro da iniciativa privada. Existe. E muito. Mas as empresas privadas geralmente resolvem essas coisas extrajudicialmente, para preservar a imagem. Empresa privada lava a roupa suja dentro de casa.

-Já trabalhei numa empresa privada onde houve um caso gravíssimo de corrupção. Uma pessoa em alto cargo de gerência desviou uma grana firme durante ANOS, até ser finalmente descoberta. Mas não saiu em nenhum jornal, obviamente. A empresa em questão também não era boa cumpridora de direitos trabalhistas. Quando saí de lá entrei na Justiça para reaver 18 mil que eles ainda me deviam.

-A corrupção do setor público quase sempre é originária do setor privado, desde a mega empreiteira até o dono do restaurante da esquina que molha a mão do fiscal.

-"Enxugar" o Estado PARA combater a corrupção é como se uma pessoa saudável amputasse os próprios braços e pernas para reduzir as chances de ter câncer. Não é muito bacana. Nem muito inteligente.

-Também trabalhei numa empresa familiar da qual pedi demissão por razões éticas - a empresa em questão adotava práticas que lesavam financeiramente os clientes, através de cobranças indevidas. Era uma microempresa no setor de serviços. Os sócios eram dois irmãos.

-Basta ler "A riqueza das nações". Adam Smith sabia muito bem que os empresários, entregues a si mesmos, cometeriam as piores barbaridades. Se o pessoal que hoje se diz liberal REALMENTE lesse Adam Smith diria que ele era "comunista".

NOTA ADICIONAL: Esse texto foi originalmente escrito em dezembro de 2018, mas a pandemia do COVID-19 só parece reforçar meus argumentos. Esperar que empresas abram mão de lucros em benefício da Saúde Pública espontaneamente é duvidoso, como a menção anterior a Smith sugere. Podemos citar um caso muito concreto: o GOVERNO sul-coreano tomou medidas de quarentena muito rápidas e eficazes, mas EMPRESAS multinacionais sul-coreanas vêm descumprindo descaradamente recomendações de quarentena em suas filiais de outros países. É o caso do Brasil, onde a Samsung não implementou sequer medidas de home office - o que sugere que vidas brasileiras valem menos que o lucro... Cabe se perguntar se mesmo na Coreia do Sul tais medidas foram implementadas de boa-vontade ou compulsoriamente. 

E aí, vamos de TGV?


domingo, 15 de março de 2020

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Ecos da Revolução Francesa

Lembranças do filósofo dinamarquês Henrik Steffens sobre a chegada em Copenhague das primeiras notícias da tomada da Bastilha, em Paris, em 1789.

Eu tinha dezesseis anos. Meu pai retorna ao lar fora de si; ele chama seus filhos: "Meus filhos, vocês têm sorte! - grita ele - Que dias felizes e brilhantes se levantam para vocês! Agora, se cada um de vocês não criar uma posição independente, reclamem apenas de si mesmos. Todas as barreiras do nascimento e da pobreza cairão; doravante, o último entre vocês poderá lutar contra o mais poderoso com armas iguais e no mesmo terreno!" Ele parou, vencido pela emoção, e se pôs a chorar por alguns instantes. Depois ele nos contou como a Bastilha fora tomada e as vítimas do despotismo libertadas. Não era apenas na França que uma revolução começava, era em toda a Europa. Ela deitava suas raízes em milhões de almas.

Folheto da época com gravura da tomada da Bastilha, acompanhada de narrativa e versos.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

domingo, 15 de setembro de 2019

La Jacquerie

Ah, là, là!
La Jacquerie!
Peuple qui crie!
Peuple qui rit!
Peuple se rue!
Tremble, seigneur!
Ici, on tue!
Là, on se tue!
Ah, que de sang!
Ah, que de sang!
Ah, là, là!
La Jacquerie!


terça-feira, 16 de abril de 2019

Notre-Dame: Eternidade em chamas

Notre-Dame é a estrela mais brilhante da Cidade Luz. Que tristeza vê-la fulgurando à infernal luz das chamas!

Notre-Dame é um universo inteiro, povoado de santos, anjos, demônios, gárgulas e quimeras. De suas torres, parece que o próprio Céu, capturado pelos construtores, é apenas um pano de fundo para suas magníficas formas - o Infinito reduzido a detalhe arquitetônico.

Suas rosáceas eram verdadeiros tratados de teologia medieval, dizia Roy Wagner. Victor Hugo considerava a catedral inteira um livro escrito a muitas mãos.

Dentro da nave, a luz filtrada pelas janelas e vitrais criava um ambiente difícil de descrever: aconchegante, misterioso e um tanto claustrofóbico. Um espaço gigante, ínfimo e paradoxal. Na nave de Notre-Dame me sentia respirando num Outro Mundo ou, quem sabe, num Mundo Outro.

Como um ser vivo, aquela catedral tinha uma voz. Respirava, cantava e orava através de seu órgão, um dos melhores e mais antigos do mundo.

Notre-Dame de Paris não parecia uma obra medieval. Eu acreditaria se me dissessem que estava ali desde o princípio dos tempos, construída por anjos ou demônios, descida inteira do mais alto dos céus ou emersa dos mais profundos infernos. Sua beleza fascinante e terrível, certamente, não é deste mundo.

Ainda não se sabe ao certo o que sobreviveu ao incêndio de hoje. Os vitrais certamente estão perdidos. A espectral luz de sua nave nunca mais será a mesma. Talvez seja igualmente espectral e fascinante, mas será outra. O órgão, ora mudo, talvez seja restaurado, mas sua voz será outra, sua acústica foi irremediavelmente perdida.

Notre-Dame persistirá, bela mesmo em sua catástrofe, como mater dolorosa. Mas o mundo perdeu hoje um pedaço de Eternidade...


quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

O coração comido

Um conto medieval adaptado para meus jovens alunos:

Pam, pam, pam... Batidas insistentes abalavam a porta do meu quarto. “Frei Adalbert, abra! Depressa! Oh, meu Deus!” Quando abri a porta, uma mulher assustada entrou no quarto. Me puxou pela manga; percebendo a gravidade da situação, a segui até o pátio iluminado pelas tochas. As pessoas formavam um semicírculo em volta de um corpo. Uma velhinha rezava, ajoelhada. Quando cheguei, a aglomeração se dispersou. Senti um aperto no peito quando olhei para o corpo inanimado. A moça estava deitada, imóvel, no chão. Apesar do sangue que manchava os cabelos, Béatrice ainda era bonita.

Lembrei-me de nossos primeiro encontro, 7 meses antes. Eu havia sido mando por meu superior ao senhor Giraud de Valgaillard para completar a educação de sua filha Béatrice. O barão ambicionava elevar o nome da família, casando-a com o melhor partido possível, nas cortes da França ou da Inglaterra.

Voltei a mim. Um guarda me relatava: "Ela saiu correndo pelas galerias superiores; depois, sem um grito, jogou-se no vazio. Não pude fazer nada”. Por pouco não desmaiei. Por que motivo Béatrice decidiu pôr fim a seus dias? Esse pensamento me revoltava. “Onde está o senhor Giraud? Por que não está aqui?”, exclamei, sacudindo o rapaz. “Ele se trancou em seus aposentos... Ninguém tem coragem de perturbá-lo...”

Pedi que levassem a defunta para seu leito e mandei que a lavassem. Notei a ausência de um anel de esmeralda do qual ela nunca se separava. Examinei atentamente suas mãos e descobri debaixo das unhas fragmentos de carne e um fio púrpura que não provinha da sua roupa. Tudo aquilo era estranho, muito estranho: concluí que a morte da minha aluna ocultava um terrível segredo. Prometi-me descobri-lo.

Desci a escada que levava à grande sala senhorial. A porta estava aberta. A sala estava como a deixáramos desde o jantar. Uma poltrona derrubada quebrava a bela ordem do lugar. Inspecionei cada canto, cada móvel, começando pela mesa. Fora posta para três convidados, mas somente duas taças haviam sido utilizadas – a do senhor e de sua filha. Béatrice e seu pai teriam esperado em vão uma visita? Outro detalhe me perturbava: uma só fatia de pão estava embebida de molho – um molho igual ao que eu tinha encontrado na túnica da morta. No chão, perto da poltrona derrubada, notei sinais de vômito. Debaixo da mesa, descobri o anel de esmeralda perdido.

Pensei na dama de companhia de Béatrice: Agnès. Será que ela sabia de alguma coisa? Na manhã seguinte, fui conversar com Agnès, que tinha os olhos inchados de tanto chorar. Era evidente que ela não queria falar comigo. Mostrei-lhe a joia: “Agnès, reconhece este anel?” Ela desmaiou em meus braços! Quando voltou a si, começou a chorar, agitada: “Santa Mãe misericordiosa! O anel de... Eu sabia que aquilo acabaria mal...” Eu disse a ela: “Vamos, minha filha... Você tem que se controlar e contar-me tudo que sabe. Preciso saber a verdade.”

Com uma voz frouxa, ela revelou-me que Béatrice conhecera pouco tempo antes um rapaz, trovador, nobre, mas sem dinheiro. Seus versos impressionaram muito Béatrice, seu encanto a conquistou: a moça ficou loucamente apaixonada. Nas semanas que se seguiram, encontraram-se às escondidas. Para selar um amor eterno, Béatrice deu ao jovem cavalheiro seu precioso anel de esmeralda. Mas o barão, que não tinha nada de bobo, ficou a par dos encontros. O barão e seus guardas espancaram o rapaz na frente de Béatrice e depois o arrastaram para fora. “Por que não me contou nada?”, perguntei-lhe. “Eu estava aterrorizada... O barão é um homem violento. Eu não tive coragem...”

Tentei reconstruir os últimos instantes de Béatrice. Na última ceia, feita em companhia de seu pai, ela parece ter perdido toda esperança de rever o amado. Uma ideia teimava na minha cabeça: o barão não era homem de deixar viva uma pessoa capaz de arruinar seus projetos matrimoniais.

Entrei escondido no quarto do barão, onde descobri uma porta oculta atrás de uma tapeçaria. Uma escada de pedra mergulhava nas trevas; reinava um silêncio mortal. Acendi uma tocha e desci. Tinha a impressão de entrar num túmulo. Encontrei um longo e estreito corredor de pedra úmido e mofado. No fundo, percebi uma forma encostada na parede, sentada, imóvel, silenciosa: um corpo banhado numa poça de sangue. Tinha um enorme buraco no lado esquerdo do peito. Tinham arrancado seu coração! No chão, havia uma viola e um pergaminho de poemas rasgado. A verdade revelou-se, terrível: eu havia encontrado o namorado de Béatrice! Subi correndo, saindo no quarto do barão. Nesse instante, uma voz sonora me fez estremecer: “Ora, vejam só, frei Adalbert! Visitando o castelo, irmão?” Giraud de Valgaillard me encarava. Percebi minha imprudência. Fiquei petrificado, imóvel. Passado o primeiro instante de espanto, recobrando o controle, encarei-o e acusei: “Eu sei de TUDO, senhor Giraud! O senhor é um ASSASSINO!”

“Bravo, frei Adalbert! Chegou na hora certa. Eu queria mesmo me confessar... Frei Adalbert, confesse-me! O senhor não pode recusar...” Impotente, sentei-me diante dele, pronto para ouvir a longa lista dos seus pecados.

“O senhor certamente sabe que um fazedor de versos seduziu minha querida filha. O amor é cego e imprudente... Será que acreditavam mesmo que sua paixão nunca seria descoberta? Que eu permitiria um casamento tão descabido? Anteontem, peguei em flagrante os dois pombinhos e mandei meus homens levarem o rapaz para os subterrâneos do castelo. Matei-o e, com minhas próprias mãos, arranquei-lhe o coração. Ontem, fui ver minha filha em seu quarto; disse a ela que os havia perdoado, e que naquela mesma noite os receberia em um jantar. Enquanto os preparativos do banquete iam de vento em popa, chamei no canto meu cozinheiro e entreguei-lhe o coração do moço, para fazer um prato saboroso, digno de uma rainha. Na hora do jantar, Béatrice espantou-se ao não ver o amado. Eu disse que ele estava atrasado e logo chegaria. De ótimo humor, minha filha provou um pouco de cada prato. Adorou o coração ensopado, que repetiu até acabar o prato. Esquecendo-se das boas maneiras, lambeu os dedos úmidos de molho, e disse: ‘Pai, que delícia estava essa carne!’, então respondi: ‘Não me espanta que tenha apreciado esse prato. Você não podia deixar de saborear, assado e temperado, o que você adorava vivo e palpitante. Minha filha, esta carne que tanto lhe agradou, outra coisa não era que o coração do seu namorado. O lindo coração lhe serviu de alimento. Aqui está a prova do que digo: o anel que tirei do cadáver do seu trovador. Ó delícias do amor!’ Ela se curvou para o chão e vomitou. Depois, enfurecida, precipitou-se sobre mim, unhas à mostra. Uma saraivada de socos e arranhões se abateu sobre meu rosto e meu peito, mas continuei a zombar: ‘Ele não queria lhe dar o coração? O desejo dele foi satisfeito! Melhor ele não podia esperar. Agora vocês estão reunidos. Você consumiu o seu amor. Devorou-o com apetite!’ De repente, ela se acalmou; seus punhos pararam de me bater. Presa do delírio, fugiu da sala, correu para as galerias superiores e atirou-se no vazio. Morreu louca e amaldiçoada. Pronto! Agora o senhor sabe de toda a história, frei Adalbert. Mas para que servirá saber, se não pode contar nada a ninguém? O segredo da confissão condena o senhor ao silêncio. Quem irá cobrar por meus atos?”

Nenhuma palavra de arrependimento, nenhum remorso saiu dos lábios do senhor Giraud. Ele até se orgulhava do seu feito! Apavorado, fugi do castelo, deixando o barão impune.

Dez anos se passaram desde esses terríveis acontecimentos. Soube recentemente que o Senhor Giraud de Valgaillard multiplicara suas peregrinações, antes de morrer combatendo na oitava cruzada. Ele teria entrado no corpo a corpo berrando como um possesso: “Béatrice! Deus! Perdão!” Não era um grito de guerra. Eu, Adalbert, frade, sei da falta da qual ele tentava redimir-se, em vão. Que Deus, Nosso Senhor Onipotente, tenha piedade da sua alma!

Adaptado de Gilles MASSARDIER. Contos e lendas da Europa Medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

Experimente o game GRATUITO Vila dos Mistérios, produzido por QB Studios Indie -  situado em um vilarejo da Baixa Idade Média, o game narra as aventuras de Frei Umberto e do cão Eco, que precisam desvendar inúmeros crimes e mistérios...

Castelo de Vincennes, Paris. O simpático gorducho à esquerda é o autor deste blog.


sábado, 19 de novembro de 2016

Barbárie, sensacionalismo e mídia

Em 2011, escrevi um texto lamentando as comemorações em torno da morte de Osama Bin Laden. Alguns meses depois, tétricas imagens do cadáver de Gaddafi correram o mundo e a Internet, usadas até em piadas e memes.

Guardadas as devidas proporções, nos últimos dias a prisão de Garotinho e Cabral se tornou centro de um grande circo midiático. A patética (nos dois sentidos) imagem de Garotinho arrastado de uma maca pela polícia se tornou objeto de riso escarninho e, obviamente, muitos memes. Embora seja uma pessoa muito debochada e ainda mais raivosa, não conseguir ver graça. As lágrimas e gritos de Clarissa Garotinho não me alegram, não quitam as dívidas do Estado do Rio, nem pagam as minhas contas.

A decadência humana normalmente não me faz rir. Não rio de um menor infrator amarrado a um poste, e não vejo tampouco razões para rir de um ex-governador arrastado pela polícia. Opressor e oprimido são seres humanos, e a compaixão não deve, ou não deveria, conhecer limites. Há que se permanecer sensato, mesmo em tempos de insensatez.

Em épocas passadas, execuções eram espetáculos públicos e os cadáveres de criminosos eram esquartejados e seus pedaços expostos em ruas e praças. Na França, a gordura de "hereges" chegou a ser leiloada durante as Guerras de Religião. Na Inglaterra, até meados do século XIX, a pele de condenados era usada para fabricar carteiras, vendidas a bom preço como souvenirs. Durante a Revolução Francesa, cabeças cortadas eram exibidas como troféus e bijuterias em forma de guilhotina eram vendidas por comerciantes espertos.

Desde o século XVI gravuras de execuções e cordéis com histórias sanguinolentas sempre constituíram êxitos editoriais, sucessivamente transpostos para todo tipo de mídia consumida com volúpia. As mídias digitais são apenas a parte mais recente dessa história.

Mas a História mostra que, felizmente, o que outrora foi costume, às vezes se torna barbárie. Tenho esperanças...

Achei essa imagem no Google; não descobri data ou autoria, mas aparenta vir do mundo anglófono, entre as últimas décadas do século XIX e as primeiras do XX.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Do perdão aos tiranos: Sobre Garotinho, Cabral e Napoleão III

Napoleão III foi um dos maiores tiranos dos últimos séculos. Matou milhares de pessoas apenas em 1851, para se tornar imperador.

Seu maior rival foi Victor Hugo, que do exílio lançou-lhe terríveis invectivas em verso e prosa. O grande poeta jurou que só poria os pés de volta no solo francês quando o tirano fosse embora.

Depois de duas décadas no poder e da terrível Guerra Franco-Prussiana, Napoleão III fugiu sorrateiramente da França, temeroso da revolta popular. Victor Hugo retornou imediatamente à terra que tanto amava, ovacionado em Paris menos de 48 horas após a fuga do tirano.

Muitas vozes indignadas se ergueram, exigindo a punição máxima. Napoleão III deveria ser caçado, trazido de volta à França e decapitado em praça pública, como criminoso que era.

Hugo, poeta e exilado fez um apelo ao povo francês: que não sujasse as mãos com o sangue do déspota. Que a França não se rebaixasse à vileza do mesquinho imperador. Que Napoleão III arrastasse a vergonha pelo resto de sua vida miserável. Já era punição suficiente.

Os argumentos do poeta acabaram prevalecendo.

Garotinho e Sérgio Cabral são pessoas vis. Colheram o que plantaram e agora devem ser punidos com todo o rigor da lei. E isso basta. Não nos rebaixemos ao mesmo nível que eles.

Não precisamos tripudiar deles e de suas famílias, embora saibamos bem que eles não fariam o mesmo em nosso lugar. Não precisamos linchá-los moralmente em nossas conversas ou nas redes sociais.

Não desçamos ao lodaçal onde eles se arrastam e nem mergulhemos nossa consciência em suas torpezas. Que eles sofram a vergonha de seus atos, mas poupemos nossos corações do veneno que exala de suas pessoas.

É muito cômodo tomar os governantes como bodes expiatórios de nossos problemas sociais, mas devemos questionar nosso próprio papel como cidadãos ao longo de seus respectivos mandatos. Fomos cidadãos vigilantes ou omissos? Cobramos deles sempre que deveríamos? Nos mobilizamos quanto podíamos? Fizemos nossa parte ou lavamos nossas mãos? Criticamos ou fechamos os olhos para os vergonhosos pactos que os políticos e partidos que elegemos fizeram com os dois ex-governadores? Justificamos esses pactos em alguma medida?

Enfim, estamos contentes com o cumprimento da justiça ou nos sentimos meramente aliviados do peso de nossas omissões?

Cada um investigue sua consciência e procure suas respostas...

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

imperadores, Povos e Poetas

Apesar de nabucodonosor, herodes, nero, gengis khan, torquemada, napoleão iii, hitler, stalin, pinochet, thatcher e tantos outros, o Sol nunca parou de nascer, as Estrelas nunca pararam de brilhar e a Lua nunca cessou suas perpétuas transformações. Há Forças maiúsculas, apesar das pessoas minúsculas.

Existiram Sócrates, Jesus, Gandhi... Houve Bonaparte e houve bonaparte. As nuvens bloqueiam os Astros, mas não podem destrui-los. trump, temer, pezão, crivella... apenas nuvens. O Povo é um Vento que sempre volta a soprar. O Povo, dizia Victor Hugo, é um Oceano cujas marés, cedo ou tarde, afogam todos os tiranos. 

napoleão iii, "o pequeno" foi eleito em 1848 e cometeu seu golpe de Estado em 1851, mas foi escorraçado em 1870. O imperador sob sua coroa tremia ante a voz do Exilado sobre seu Rochedo. 

Amanhã haverá amanhã - e depois de amanhã, também: enquanto houver Povo, enquanto houver Profeta, enquanto houver Poeta, enquanto houver Pranto, enquanto houver Riso, enquanto houver Coração... Enquanto houver pesares, haverá Apesares... Enquanto houver nós, haverá Nós - e desataremos... 

A Semente desce à Terra para germinar - e enquanto houver Sementes, haverá Flores e aguardaremos os Frutos.

sábado, 19 de setembro de 2015

O paraíso por R$ 15,00

Essa semana, ouvindo o primeiro livro de Prelúdios de Débussy, me veio a vívida recordação de um dos momentos mais felizes da minha vida.

Era setembro ou outubro de 2001. Por apenas R$ 15,00 comprei entradas para um recital de piano no foyer do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.  Execução integral do primeiro livro de Prelúdios: La fille aux cheveux de lin, Des pas sur la neige, Ce qu`a vu le vent d`ouest, Les collines d`Anacapri, La sérénade interrompue etc. Não lembro quem era o pianista (só caçando o programa no meio da minha bagunça), mas era excelente, daqueles que não apenas executa, mas interpreta.

Era um fim de tarde primaveril. A luz crepuscular atravessava os vitrais do foyer, compondo uma espectral penumbra luminosa. Uma catedral profana. As peças seguiam, me transportando para todos aqueles lugares mágicos sonhados por Débussy. Um desses momentos estranhos em que todos os detalhes casuais parecem delicadamente arranjados.

Me sentia ligeiramente sonolento, entregue, no sentido mais profundo, à fruição da música. Uma experiência única de êxtase contemplativo. O tipo de experiência tão única que não se repete outra vez na vida. Nunca. O gênero de vivência cuja descrição será sempre superficial, e cujo significado profundo será sempre impossível de comunicar. Algo que transcende a expressividade dos poemas, a eloquência das imagens e mesmo, paradoxalmente, o próprio êxtase musical. Naquele dia, eu escutava algo além da música, algo que transcendia e atravessava o próprio Débussy que compusera aquelas peças....

Nenhuma outra execução dos Prelúdios, em qualquer outra luz crepuscular, fosse mesmo um lindo crepúsculo veneziano, me levaria da mesma maneira ao encontro da moça de cabelos de linho, sentir aquele cansaço de um andarilho na neve ou a força arrebatadora do vento do oeste.

Tudo isso por R$ 15,00...

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Ecos de Paris

Paris é cidade ao mesmo tempo encantadora e sufocante, fascinante e monstruosa. Respiramos um ar suave e denso, carregado com mais de dois mil anos de história, dois milênios de glórias e tragédias.

A cidade é monumental, cada esquina traz uma memória - lembranças doces ou amargas. Cada boulevard leva o nome de um general ou de uma batalha.

Palco de grandes triunfos do intelecto, das artes, da ciência, mas também de terríveis atos de violência e selvageria. Paris é tudo ou nada - o ápice da civilização e o abismo da barbárie ao mesmo tempo: a ópera e o massacre, o ballet e a guerra, o cavalete e a guilhotina, a escultura e o canhão, Victor Hugo e Napoleão III.

Mesmo o Louvre, palácio da beleza e do saber, já foi antro de intrigas e violências; Notre Dame, templo de arte e de intolerância. Para cada pedra ou tijolo, existe uma lágrima e uma gota de sangue; cada encanto se enraíza em mil tormentos.

O turista deslumbrado se deixa iludir pela beleza superficial, mas o historiador conhece as pulsantes entranhas de Paris.

Como não amar essa cidade? Como não detestar essa cidade? Paris é intensa demais: precisa ser amada e odiada.

O ar da cidade ecoa muitas vozes, cânticos de júbilo e gritos de dor. Paris tem um passado ensurdecedor...

domingo, 11 de janeiro de 2015

Charlie Hébdo: heróis, vilões ou vítimas?

Toda liberdade implica responsabilidade; liberdade política implica responsabilidade moral. Liberdade de expressão requer responsabilidade no uso dos meios de expressão.

Por outro lado, o humor muitas vezes é agressivo, e por vezes ofende. Como dizia o filósofo Bergson, o riso, muitas vezes, é usado como forma de violência, de ordem moral. A pessoa ou o grupo que é objeto do riso pode se sentir agredido em sua integridade moral. Quem vê as charges do Charlie Hébdo - que não terei o mau gosto de reproduzir - percebe que elas constituem uma violência moral contra todos os muçulmanos, fundamentalistas ou não, residentes na França ou em outros países.

Infelizmente, violência gera violência. Isso não justifica - ou seja, não torna justo - o assassinato dos cartunistas. Qualquer assassinato é injustificável. Qualquer violência, física ou moral, também é lamentável. No entanto, é difícil negar a relação de causa e consequência no caso em questão. Tem gente que "perde o amigo, mas não perde a piada"; a redação de Charlie Hébdo cultivava inimizades para não perder a piada - grosseira. Também são infelizmente previsíveis as consequências do caso para o aumento da islamofobia, como o cartunista Latuff sintetizou magistralmente:



Algumas pessoas querem transformar os cartunistas de Charlie Hébdo em heróis, mártires da "liberdade de expressão"; outras querem transformá-los em vilões, racistas e imperialistas. Acho que os dois lados estão errados. Na minha modesta opinião, o periódico tinha uma linha editorial moralmente irresponsável, de mau gosto e medíocre, usando o tipo de humor mais baixo e virulento a pretexto de crítica. Para mim, o atentado dessa semana não torna esse tipo de humor menos condenável; é arte de péssimo gosto - gosto de sangue.

Note-se também que, em momento algum, o semanário foi censurado pelo Estado francês - caso em que seriam, de fato e de direito, mártires da "liberdade de expressão". Charlie Hébdo usava dessa liberdade de modo abusivo, assim como os assassinos fundamentalistas usaram seu livre-arbítrio de modo abusivo.

Heróis ou vilões? Nem uma coisa, nem outra. O atentado à redação de Charlie Hébdo foi um crime grave e fez muitas vítimas, mas, por favor, não queiram transformar esses cartunistas em mártires.

Em tempo: parece que andam se esquecendo dos 2 policiais e do funcionário de manutenção mortos no tiroteio; esse são apenas vítimas, ninguém se dispondo a fazê-los mártires.

Em tempo 2: mesquitas na França estão sofrendo atos de vandalismo. É o círculo vicioso da violência.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Futebol, canibais, terroristas e nuvens

Dedicado a meu sogro e minha esposa

Por que algumas pessoas matam por futebol? Porque têm fortes laços de identidade com seus respectivos clubes, passaram e passam por um radical processo de identificação (no sentido psicológico do termo). No entanto, outros torcedores – a maioria, felizmente – não seriam capazes de fazer a mesma coisa, pois não se identificam com seus respectivos clubes de modo tão extremo. Alguns torcedores, eventualmente, perdem até seus interesse pelo esporte ao longo do tempo, num processo de tendencial desidentificação – mais uma vez, no sentido psicológico.

Em cada um desses casos, temos perspectivas específicas e diferenciadas em jogo. Algumas dessas perspectivas são mais próximas ou mais distantes entre si. Mas como se forjam tais perspectivas? A partir de trajetórias específicas, tanto pessoais quanto coletivas, formuladas no tempo e no espaço – históricas, portanto. Essas trajetórias podem apontar em sentido convergente (identificação crescente) ou divergente (desidentificação crescente). Assim, a experiência de torcer (e matar) se configura a partir da trajetória pessoal e individual de cada torcedor quanto de uma trajetória coletiva e social – a história do esporte, a história do clube, a história da região, do país, do mundo, etc. Existe hoje uma Copa do Mundo e campeonatos nacionais porque a partir do século XIX tivemos tanto a emergência do esporte e do Estado-nação como os conhecemos. Assim, o torcedor assassino chega a tal perspectiva homicida através de uma trajetória que é ao mesmo tempo pessoal e coletiva. Temos então identidade e perspectiva como processo desenvolvido no tempo e no espaço.

Nesse processo se forjam conexões mais ou menos fortes, convergentes ou divergentes, no âmbito de cada grupo. Essas identidades e alteridades se formulam em redes, de modo complementar, interdependente e dinâmico, por retroalimentação. Como uma dança complexa, onde os participantes se movimentam, determinando suas perspectivas a partir de suas posições e distâncias respectivas, sua dêixis, em perpétua mutação, às vezes imperceptível. As trajetórias se cruzam e interferem umas nas outras, momento a momento. Os ritmos da dança se alternam sem cessar. Alguns dançarinos saem, e entram outros, continuando a dança como a encontraram. Temos aí uma dimensão mereológica, fractal, onde cada dançarino é parte da dança e interfere na dança inteira. Um simples tropeço repercutirá de modo mais ou menos intenso em todo o conjunto. Como diria Sonmi-451, do filme Cloud Atlas,

“Existir é ser percebido, então conhecer a si mesmo só é possível através dos olhos dos outros. A natureza de nossas vidas imortais está nas consequências de nossas palavras e atos, que vão em frente e se impulsionam através dos tempos. Nossas vidas não são nossas. Do berço ao túmulo, estamos ligados a outros, no passado e no presente. Através de cada crime e de cada ato generoso, nós damos nascimento a nosso futuro”.

Tais dinâmicas se aplicam à torcida de futebol, mas também às religiões, aos gêneros, às nações – em suma, a quaisquer identidades. Mas como se elabora no tempo uma linguagem do “nós”? Como se forma um “nós” vascaínos? Como surge um “nós” tupinambá? Como se elabora um “eles” flamenguistas ou margaiá? Por que algumas pessoas soltam pipa e outras, nascidas no mesmo bairro, fazem pós-doutorado?

No fundo, cada identidade se formula em “nuvens de probabilidades”, emergindo de situações específicas, reconfiguradas a cada compasso na melodia do tempo. Possibilidades e probabilidades se entrecruzam o tempo inteiro, gerando novas realidades potenciais, mudando trajetórias a cada interação. Esse texto mesmo emerge de vários encontros. Ele não existiria se os tupinambá não comessem carne humana, se Hans Staden não tivesse escapado da morte, se eu não fosse casado com minha esposa, se ela não fosse filha de meu sogro, se meu sogro não fosse vascaíno, se não tivessem inventado e popularizado o futebol, se não existisse o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, se eu não tivesse preguiça de ir a Niterói, se eu nunca tivesse morado em Paris, se David Mitchell não tivesse escrito Cloud Atlas, se esse livro não fosse adaptado para as telas, se eu não tivesse sido covardemente reprovado em um concurso, se eu não desejasse praticar yoga, se não houvessem brigas de torcida nem atentados em Paris, se eu não sofresse de TOC. Mas esse texto emergiu dessa improvável “nuvem de probabilidades”.

Seriam todos os fatos e atos humanos o produto de uma imensa e improvável “nuvem de probabilidades” em “eterna recorrência” e mutação no tempo e no espaço, uma grandiosa e mal-coordenada coreografia de moléculas, átomos e partículas, talvez conduzidas por um regente invisível? Seria possível reunir História, Antropologia, Física, Meteorologia e Filosofia para resolver todas essas questões, para desenhar um atlas dessas nuvens?

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Viver em Paris

Em seu cotidiano, os parisienses desfrutam de atividades únicas, como:

-pegar metrô cheio e sem ar condicionado na hora do rush - em Paris.
-enfrentar fila de banco - em Paris.
-resolver burocracia no banco - em Paris.
-ficar preocupado com o orçamento da semana - em Paris.
-comer apressadamente no McDonald`s para a aula que começa em 20 minutos - em Paris.
-zanzar durante dias por meia cidade para resolver a burocracia insana do serviço de imigração - em Paris.
-gastar dinheiro com essa burocracia insana - em Paris.
-mofar na fila do supermercado - em Paris.
-caçar uma padaria aberta depois das 18:00 - em Paris.
-lavar louça - em Paris.
-lavar roupa - em Paris.
-separar o lixo - em Paris.
-jogar seu complicado lixo fora - em Paris.

O resto é coisa de turista...

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Escambo inflacionário

Desde a minha graduação (lá se vão alguns anos...) venho me questionando sobre alguns aspectos curiosos do comércio entre europeus e ameríndios na Alta Idade Moderna. Resumo aqui uma pequena parte desse percurso. Para começar, tomo a liberdade de citar meu primeiro livro (Entre Genebra e a Guanabara) onde algumas dessas questões já apareciam, ainda de modo muito cru:

"Comercialmente, a relação era vantajosa para ambos [franceses e tupinambás], apesar das constantes afirmações de que os índios eram vítimas da astúcia europeia. Mas, enfim, quem enganava quem? Os franceses trocavam com os índios ninharias que lhes pareciam de pouco valor, mas inestimáveis aos indígenas por sua raridade e, em diversos momentos, utilidade, como os instrumentos de metal, determinantes de verdadeiro salto tecnológico, do ponto de vista da eficiência, em seu uso para tarefas antes sumamente trabalhosas. Em contrapartida a esses preciosos bens, cediam aos europeus objetos da mais perfeita inutilidade, sobretudo o pau-brasil, que para eles era apenas madeira como qualquer outra das que encontravam em abundância na mata. Seria fruto de uma interpretação extremamente etnocêntrica ver os indígenas como vítimas de um negócio injusto, tendo em vista que, como muito bem sinalizaram diversos teóricos econômicos, nenhuma mercadoria tem valor comercial intrínseco, sendo este definido única e exclusivamente pelo contexto social em questão.
[...]
Em verdade, podemos até dizer que a relação entre franceses e indígenas era assimétrica, com a vantagem do lado dos últimos. Afinal, a colônia da ilha de Serigipe [núcleo da França Antártica] tinha total dependência de seus aliados para a satisfação das necessidades mais básicas, ao passo que os da terra tinham perfeita autonomia, tendo em vista que tudo que recebiam dos franceses, mesmo os bens mais úteis, era supérfluo".

Essas observações se referiam apenas à experiência da França Antártica (no atual Rio de Janeiro, entre 1555 e 1567). Em minhas leituras mais recentes para a tese tenho encontrado outras situações curiosas em outros pontos da América, sempre ligadas à relação entre franceses e indígenas.

Um desses casos se refere à tentativa francesa de colonizar a Flórida, liderada por Laudonnière entre 1562 e 1565. Nesse breve tempo, o chefe francês tentou forjar desastradas alianças entre tribos locais, da etnia timucua - todas rivais entre si! Cada passo de Laudonnière tornava mais tensa a situação, intensificando os desgastes diplomáticos.

A esmagadora maioria dos colonos era constituída por militares. Para sua alimentação, dependiam inteiramente das trocas com os indígenas. Nos últimos meses da colônia, desacreditados junto aos líderes timucua, os franceses compravam a peso de ouro seus víveres dos índios cada vez mais exigentes, até se encontrarem inteiramente privados de mercadorias para troca. Em desespero, os franceses se viram forçados a lutar contra os nativos por alimento, atacando e saqueando suas aldeias.
 
Não seria de todo inadequado dizer que os franceses se viram diante de uma dinâmica comercial inflacionária, em que os indígenas aumentavam significativamente os preços (ou seria melhor dizer o valor?) de suas mercadorias, conscientes do quanto seu fornecimento era extremamente necessário aos europeus. Percebendo sua posição vantajosa nas trocas, os timucua não tardaram a se aproveitar dela - que empresário capitalista faria diferente?
 
Termino esse já longo texto citando um trecho interessante do relato da segunda viagem de Jacques Cartier ao Canadá, entre 1535 e 1536. Como o anônimo autor do texto observa, os franceses compravam grande quantidade de peixes dos nativos wendak "em troca de pequenas coisas de que se contentavam muito". No entanto, dois indígenas que retornavam da França alertavam seus companheiros, e "lhes diziam e davam a entender que aquilo que lhes dávamos não valia nada e que eles teriam facilmente machados e facas por aquilo que eles nos davam". Taignoagny e Domagaya - os dois índios em questão - incitavam seus compatriotas a inflacionar os preços.
 
Infelizmente o autor não esclarece o que aconteceu depois; de qualquer forma, o detalhe é precioso, evidenciando o quanto os indígenas estabeleciam estratégias comerciais em seus negócios com os europeus. Curiosamente, o autor censurava a ganância dos wendak, pois "o capitão [Cartier] lhes dera muitos presentes". Nota-se um curioso não-dito: a busca do lucro era aceitável entre os europeus, mas não entre os ameríndios...
 
Obviamente o tema exige muito cuidado, especialmente no uso de termos como "preço" ou "inflação" em relação a trocas não-monetárias. Pretendo aprofundar essas reflexões em outros trabalhos. No entanto, parece-me muito interessante explorar as possibilidades emergentes do encontro entre sistemas sócio-econômicos inteiramente diferentes, orientados por valores dissonantes. Concluo com outra passagem do relato da viagem de Cartier:
 
"E [os índios] lhe deram [a Jacques Cartier] de presente vinte e quatro colares de esnoguy [tipo de concha de rio], que é a maior riqueza que eles têm nesse mundo, pois eles a estimam mais que o ouro ou a prata".