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quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Esperanças para uma humanidade esvaziada - Pensamentos de Martin Luther King

Fábricas imensas comandadas por computadores, cidades que engolem a paisagem e atravessam as nuvens, aviões que desafiam a noção de tempo - todas essas são coisas impressionantes, mas não podem ser espiritualmente inspiradoras. Nada em nossa resplandecente tecnologia pode elevar o homem a novas alturas, porque o crescimento material foi transformado num fim em si mesmo, e, na ausência de propósitos morais, o próprio homem se torna menor à medida que suas obras se tornam maiores. Indústria e governo gigantescos, combinados num intrincado mecanismo computadorizado, deixam as pessoas de fora. O senso de participação é perdido, o sentimento de que indivíduos comuns podem influenciar decisões importantes desaparece, o homem fica excluído e diminuído.

Quando um indivíduo não é mais um verdadeiro participante, quando não se sente mais responsável por sua sociedade, o conteúdo da democracia é esvaziado. Quando a cultura é degradada e a vulgaridade entronizada, quando o sistema social não gera segurança, mas induz perigo, o indivíduo é inexoravelmente impelido a se afastar dessa sociedade sem alma. Esse processo produz alienação - talvez a característica mais disseminada e insidiosa da sociedade contemporânea.

***

Muitas vezes me pergunto se a educação está ou não atingindo seu objetivo. A grande maioria das pessoas ditas instruídas não pensa de maneira lógica e científica. Até a imprensa, a sala de aula, os palanques e o púlpito, em muitos casos não nos dão verdades objetivas e imparciais. Salvar o homem do pântano da propaganda, em minha opinião, é um dos principais objetivos da educação. A educação deve permitir que a pessoa examine e pese as evidências, tenha discernimento para diferenciar o verdadeiro e o falso, o real e o irreal, os fatos e a ficção.

A função da educação, portanto, é ensinar a pensar intensamente e a pensar criticamente. Mas a educação que se contenta com a eficiência pode se provar a maior ameaça à sociedade. O criminoso mais perigoso pode ser o homem dotado de razão, mas não de moral.

Devemos lembrar que inteligência não é o bastante. Inteligência mais caráter - esta é a meta da verdadeira educação. A educação completa dá à pessoa não somente poder de concentração, mas objetivos dignos em que se concentrar. A educação ampla transmitirá, portanto, não só o conhecimento acumulado da raça [?], mas também a experiência acumulada da vida social.

***

O progresso humano não é nem automático nem inevitável. Mesmo uma olhadela superficial na história revela que nenhum avanço social chega sobre as rodas da inevitabilidade. Cada passo rumo à meta da justiça requer sacrifício, sofrimento e luta, requer os esforços incansáveis e o interesse apaixonado de indivíduos dedicados. Sem esforço persistente, o próprio tempo torna-se um aliado das forças insurgentes e primitivas do emocionalismo irracional e da destruição social. Não é hora para apatia ou complacência. É hora para ação vigorosa e positiva.

***

Devemos trabalhar apaixonada e infatigavelmente para transpor o golfo entre nosso progresso científico e nosso progresso moral. Um dos grandes problemas da humanidade é que sofremos de uma pobreza do espírito que contrasta obviamente com nossa abundância científica e tecnológica. Quanto mais ricos nos tornamos materialmente, mais pobres nos tornamos moral e espiritualmente.

Todo homem vive em duas esferas, a interna e a externa. A interna é a esfera dos fins espirituais expressos na arte, na literatura, na moral e na religião. A externa naquele complexo de aparelhos, técnicas, mecanismos e instrumentalidades por meio dos quais vivemos. Nosso problema hoje é que deixamos o interno se perder no externo. Permitimos que os meios pelos quais vivemos suplantassem os fins para os quais vivemos.

Martin Luther King com seus filhos Yolanda e Martin


quarta-feira, 3 de março de 2021

Tempo e ritmo

"O ritmo cria tempo; o relógio apenas o mede. Na Idade Média, o povo vivia o tempo ritmado por festas, celebrações e rituais. Pelo ritmo de festas e rituais, o tempo estava dividido em períodos, cada um com seu sentido, que todo mundo aceitava. O tempo tinha qualidade. Não se tratava de explorá-lo, mas de se engajar em seu ritmo, a fim de assim perceber o sentido da vida. Era um ritmo cultural, que unia entre si os seres humanos. O tempo sempre era percebido como tempo social".
Karlheinz Geiszler



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Mente x Máquina - Vitória impossível?

 John Henry, well, he told his captain

“Captain, a man, he ain’t nothing but a man

Before I let your steam drill

beat me down

I’m gonna die with a hammer

in my hand, Lord, Lord

I’ll die with a hammer in my hand


A lenda do bravo trabalhador John Henry sempre me encantou desde a primeira vez em que ouvi falar dela em um gibi do Supernan, com meus 10 anos de idade. O fascinante personagem folclórico é um trabalhador negro que não aceita a supremacia da máquina e morre vitorioso em uma competição contra uma perfuratriz a vapor, usando apenas seu martelo.

Na última semana travei meu próprio duelo à la mort, com uma máquina e realizei mais de uma vez algo que sempre julgara impossível: vencer um jogo eletrônico em modo "gauntlet".

Como se sabe, o modo "gauntlet" consiste em lutar contra sucessivas ondas de adversários, com poucos recursos (ou nenhum) para recuperar os danos da batalha: o que significa um árduo confronto até a derrota, sem a menor chance de vitória - exceto uma,  como me dei conta ontem.

Embora já tivesse jogado inúmeros games em "gauntlet", me tornei um aficcionado pela modalidade com meus 13 ou 14 anos,  jogando o arquiclássico Golden Axe em meu então poderoso Pentium 166. Em minha ignorância, eu imaginava que após determinado número de ondas inimigas derrotadas, haveria algo como um final surpreendente ou um prêmio. Após inúmeras tentativas descobri que estava terrivelmente equivocado. Quanto mais longe prosseguia, mais adversários enfrentava, até a inevitável "morte" no campo de honra. Essa constatação me deixou imensamente frustrado,  especialmente após todo o esforço que dedicara à empreitada guerreira.

Nunca mais retornei a Golden Axe (exceto em exposições de games antigos), mas o modo gauntlet permaneceu em minha vida. Durante alguns anos, apenas como um passa-tempo bônus após a conclusão de algum game. No entanto, amadurecendo, percebi que enfrentar gauntlets significava enfrentar a mim mesmo e superar meus próprios limites.

Para se manter de pé onda após onda, cada vez mais longe, são necessários foco e determinação a resistir "sobrevivendo" até a derrota. O momento crucial de um gauntlet é o final da partida, em que a barra de energia (ou o que o valha) se encontra praticamente esgotada e qualquer golpe adversário significa o fim da daquela batalha. Nesse momento prevalece a clareza mental de que a derrota está próxima, mas emerge a firme determinação de resistir por quantas ondas ainda for possível. A iminência da destruição e a resolução de resistir, combinadas, levam a um paradoxal estado de espírito, serenamente tenso, em que conta apenas fazer o melhor possível pelo tempo possível. Quando o "golpe mortal" finalmente chega, é recebido com a tranquiliidade de quem fez o melhor a seu alcance em uma luta onde nunca houve a mínima chance de vitória. Chegou-se tão longe quanto possível em uma jornada infinita.

Com o passar do tempo, comecei a ver os gauntlets como uma alegoria da própria vida: um combate incessante onde o que conta é a determinação de enfrentar reoluta e graciosamente cada nova onda de desafios que chega. Cada onda vencida sem danos, ou com danos mínimos, pode ser considerada, em si, uma vitória. E, com efeito, um gauntlet consiste em uma longa sucessão de vitórias contra dezenas,  até centenas de adversários, até a queda. O mais importante é tirar o máximo proveito dos limitados recursos oferecidos no início da jornada para superar os desafios encontrados.

No entanto, para minha imensa surpresa, na última semana, após tantos anos, consegui o impossível - venci o modo gauntlet.

Em minha postagem anterior, "Acidentalmente épico", registrei o momento em que, pela primeira vez, atingira a 75ª onda de atacantes no modo gauntlet do jogo Thor - God of Thunder, um excelente "beat'em-up" retrô produzido pela Wayforward para o Nintendo DS. Adquiri o jogo em dezembro de 2012 e, desde então, tenho jogado muitas vezes, tanto no no modo "story" quanto no modo "gauntlet" (ou "survival", na terminologia própria do jogo). No entanto, no preciso momento em que superava  meus limites, a máquina encontrava os seus, e travou - o que frustrou minhas expectativas de lutar "até a morte", muito embora deixando uma bela imagem residual.

No entanto, encorajado por meus progressos e determinado a vencer ao menos 100 ondas, nos dias seguintes vim jogando e, quanto mais ondas de adversários eu conseguia superar, mais ocorriam problemas técnicos. Por mais duas ou três vezes o jogo travou e, em outras ocasiões o áudio experimentou falhas cumulativas - em geral, os efeitos sonoros de ataque e feedbacks diversos iam desaparecendo, até que sobrava apenas a trilha sonora de fundo.

Somente ontem, no mais árduo dos confrontos, me dei conta de algo: nos últimos dias eu vinha derrotando não apenas o software Thor - God of Thunder em seu modo gauntlet, mas também o próprio hardware do sistema Nintendo 3 DS - especialmente, imagino eu, sua memória RAM.

A partida de ontem foi aquela onde não apenas alcancei, mas superei minha meta, derrotando 104 ondas e sendo abatido na seguinte. Durante o confronto os efeitos sonoros se foram completamente e, em minha imaginação, comparei a situação à de um combatente ensurdecido pelo ruídos do campo de batalha. A analogia tem lá seu fundamento, uma vez que a perda do feedback sonoro durante a partida causa certo desconforto e desorientação, pela perda das costumeiras pistas auditivas.

Por volta da nonagésima onda me questionei se valia a pena seguir adiante, temeroso de que o sistema de meu DS, com seus mais de 8 anos de operação não resistisse ao esforço. Ainda assim, achei que valia a pena experimentar e a partida veio a bom termo, com minha derrota no centésimo quinto round.

Mas que pensar, efetivamente, de minha "vitória" sobre a máquina? Certamente há que se pensar em suas condicionantes. A principal delas, creio eu, é que o sistema, com oito anos de uso,  já não opera mais em sua máxima potência - afinal de contas,  cedo ou tarde a entropia se faz sentir. Nesse sentido, há que se pensar mais em derrota do sistema que em vitória do usuário.

No entanto, ainda aqui há uma curiosidade: meu "hardware", por assim dizer, tem 28 anos de "uso".a mais que meu Nintendo. Não obstante, em nossas respectivas capacidades de processamento de informação, via interface de jogo, eu permaneci funcional,  enquanto o console entrou em colapso sistêmico.

Por banal que seja esse episódio,  me parece quase alentador "vencer a máquina" em tempos em que muitos advogam a substituição do humano em tantas tarefas demasiadamente humanas. Certo contemporâneo de Ford dizia que eram necessários trabalhadores baratos para operar máquinas caras. Infelizmente notamos que a mentalidade industrial pouco mudou nesses últimos 100 anos.

Apenas tardiamente me dou conta de que tanto Thor quanto John Henry travam suas respectivas batalhas usando martelos - uma das mais arcaicas, simples e eficientes ferramentas humanas. 

Não estranha que os antigos escandinavos e os trabalhadores dos EUA tenham associado o martelo a seus heróis míticos e folclóricos - afinal de contas, há pouco de heroico nas aventuras de uma perfuratriz a vapor, mas um humano com um martelo apela à imaginação, ainda que se trate apenas do Chapolim Colorado com sua marreta biônica. Não contavam com nossa astúcia!




quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Tantos Mundos

Extrato de Ideia para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak

Talvez estejamos muito condicionados a uma ideia de ser humano e a um tipo de existência. Se a gente desestabilizar esse padrão, talvez a nossa mente sofra uma espécie de ruptura, como se caíssemos num abismo. Quem disse que a gente não pode cair? Quem disse que a gente já não caiu? Houve um tempo em que o planeta que chamamos Terra juntava os continentes todos numa grande Pangeia. Se olhássemos lá de cima do céu, tiraríamos uma fotografia completamente diferente do globo. Quem sabe se, quando o astronauta Iuri Gagárin disse "a Terra é azul", ele não fez um retrato ideal daquele momento para essa humanidade que nós pensamos ser. Ele olhou com o nosso olho, viu o que a gente queria ver. Existe muita coisa que se aproxima mais daquilo que pretendemos ver do que se podia constatar se juntássemos as duas imagens: a que você pensa e a que você tem. Se já houve outras configurações da Terra, inclusive sem a gente aqui, por que é que nos apegamos tanto a esse retrato com a gente aqui? O Antropoceno tem um sentido incisivo sobre a nossa existência, a nossa experiência comum, ideia do que é humano. O nosso apego a uma ideia fixa de paisagem da Terra e de humanidade é a marca mais profunda do Antropoceno.

Essa configuração mental é mais do que uma ideologia, é uma construção do imaginário coletivo - várias gerações se sucedendo, camadas de desejos, projeções, visões, períodos inteiros de ciclos de vida dos nossos ancestrais que herdamos e fomos burilando, retocando, até chegar à imagem com a qual nos sentimos identificados. É como se tivéssemos feito um photoshop na memória coletiva planetária, entre a tripulação e a nave, onde a nave se cola ao organismo da tripulação e fica parecendo uma coisa indissociável. É como parar numa memória confortável, agradável, de nós próprios, por exemplo, mamando no colo da nossa mãe: uma mãe farta, próspera, amorosa, carinhosa, nos alimentando forever. Um dia ela se move e tira o peito da nossa boca. Aí a gente dá uma babada, olha em volta, reclama porque não está vendo o seio da mãe, não está vendo aquele organismo materno alimentando toda a nossa gana de vida, e a gente começa a estremecer, a achar que aquilo não é mesmo o melhor dos mundos, que o mundo está acabando e a gente vai cair em algum lugar. Mas a gente não vai cair em lugar nenhum, de repente o que a mãe fez foi dar uma viradinha para pegar um sol, mas como estávamos tão acostumados, a gente só quer mamar.

Viva, a Terra vive...

sábado, 4 de abril de 2020

Imago Dei...?

Então Deus disse, "Façamos a humanidade a nossa imagem de acordo com nossa semelhança; e deixemo-los dominar sobre os peixes do mar, e sobre as aves do ar, e sobre o gado, e sobre todos os animais selvagens da terra, e sobre toda coisa rastejante que rasteja sobre a terra" (Genesis 1:26).

Uma montanha de comentários foi devotada a este texto. A que se refere a imago Dei, e que tipo de poder ela inspira e legitima? Qual é o sentido, como o texto à frente elabora, de ser fértil em número e subjugar a terra (1:28)?

As respostas a essas questões têm sido diversas e numerosa. O que eu gostaria de destacar, todavia, é o papel dessa passagem no desenvolvimento de várias ramificações do excepcionalismo humano, e seu emprego para inspirar e garantir a moderna busca por controlar a natureza e arquitetar ["engineer"] a vida. Como historiadores como Peter Harrison e Rémi Brague defenderam, o desejo científico de conhecer o mundo, e a obsessão tecnológica para refazer o mundo, podem ser entendidas como uma variante moderna, frequentemente secular, do desejo de restaurar os seres humanos à sua natureza deificada. Retomar a imago Dei nessa leitura significar adquirir o conhecimento e desenvolver o poder que libera as pessoas do esforço físico que as confronta com os limites e necessidades da vida corporal. Isso as coloca em um caminho para o que ecomodernistas vêm descrevendo como um bom Antropoceno* - um caminho em que catástrofes são engenhosamente evitadas e a criatividade e as liberdades humanas florescem.

O desejo de libertar a humanidade de doença, fome, e tanta miséria e labuta é certamente recomendável. Mas o desejo de assumir uma posição deificada no mundo também é supremamente perigoso, pois tão frequentemente resulta na subjugação e instrumentalização de pessoas e lugares. Posto nos termos do texto de Gênesis que nos deu a imago Dei, isso pode levar a presunção, orgulho e poder que eventualmente levam Deus a dizer a Noé: "Eu determinei dar fim a toda carne, pois a terra está repleta de violência" (6:13). Quando as pessoas se elevam acima daquilo que podemos chamar de sua condição "criatural" ["creaturely"], finita e necessitada, como quando elas buscam se isentar do cuidado dos outros e seus lugares, elas também põem em movimento padrões de comportamento que irão inevitavelmente violar os outros e sua capacidade de existir.

Liberdade, neste contexto, significa a emancipação da humanidade das necessidades e cuidados da vida "criatural" conjunta. Esta liberdade busca uma posição autônoma e autárquica no mundo, uma posição em que a liberdade de ser é melhor realizada no poder de estar sozinho e gozar a vida de acordo com os termos de sua escolha individual. A construção da torre de Babel, uma torre que poderia elevar os humanos aos páramos celestes  (11:4), e assim posiciona-los para obliterar a distinção entre o humano e o divino, não foi senão uma precoce expressão do sonho tecno-utópico que nos leva ao Antropoceno.

*Antropoceno - termo proposto e discutido por alguns acadêmicos de diversas disciplinas das ciências naturais e humanas para postular a ideia de que hoje vivemos uma nova era geológica, posterior ao Holoceno, em que o conjunto da ação econômica e tecnológica humana chega a se projetar como uma verdadeira "força da natureza" capaz de alterar severamente a constituição ecológica de nosso planeta.

Can we live in a world without a Sabbath? - Interessante provocação de Norman Wirzba, nesses tempos em que um reles vírus põe em causa a supremacia humana sobre toda a vida planetária; é bem verdade que Gênesis menciona apenas peixes, pássaros, gado, animais selvagens e rastejantes... Teria a esfera microbiana ficado de fora das cláusulas do pacto adâmico?!

Michelangelo e a "Imago Dei" - sem vírus à vista...

sábado, 4 de janeiro de 2020

Post-Apocalypse Now

Hoje, pela janela do táxi, como numa tela, vi um pedinte na Radial Oeste, já um tanto idoso, talvez precocemente envelhecido pelas durezas da vida. Sem camisa, corpo e rosto exibiam as marcas da miséria e da indigência. Aquele homem, nitidamente, é um sobrevivente do construto barroco e surrealista que costumamos chamar "Brasil", simbolicamente - talvez literalmente - descendente dos "desclassificados" e "indesejáveis" de outrora.

Em nossa fantasia, gostamos de imaginar futuros "pós-apocalípticos", onde alguma catástrofe qualquer (guerra nuclear, epidemia, colapso ecológico...) reduz a humanidade inteira à condição de miséria extrema, sobrevivendo como pode nos destroços da civilização ocidental. Em nossas confortáveis vidas de classe média, fantasiamos mundos pós-apocalípticos através das páginas de algum livro ou de uma tela (de cinema, TV ou smartphone); bastaria olhar através da janela do táxi, do carro, do ônibus, do trem, do metrô (Linha 2)...

Quando passamos pela Radial Oeste, pela Linha Vermelha ou pela Cracolândia do Jacarezinho temos vislumbres de um mundo "pós-apocalíptico", aqui e agora. Vislumbramos tudo isso de passagem, sempre de passagem.

Heróis sobreviventes em ficções pós-apocalípticas costumam ser galãs hollywoodianos caracterizados com certo glamour decadente, sobreviventes bem-alimentados "kicking-ass" com figurino e maquiagem "gritty" num Far-West futurista. Ilusões para uma classe média que se olha num espelho deformante (e importado).

Aquele senhor que vi hoje é um Mad Max da vida real, entre tantos outros que vagam pelas grandes metrópoles mundo afora, aquém da Cúpula do Trovão...

As margens das sociedades humanas sempre foram apocalípticas; o "pós" é perfeitamente dispensável.


sábado, 6 de julho de 2019

Bolsonaro, trabalho infantil e adultos desempregados

Em seu mais recente episódio de (calculada?) incontinência verbal, o Sr. Jair Messias Bolsonaro se pronunciou favorável ao trabalho infantil e suas virtudes para a formação do caráter das crianças.

Para além das evidentes objeções morais que tal discurso suscita, vale a pena questioná-lo sob uma perspectiva puramente econômica.

Qual seria a coerência de se falar em trabalho infantil num país onde há alguns milhões de adultos desempregados e subempregados?!

O vasto contingente de adultos desempregados é um problema não apenas do Brasil, mas da atual conjuntura mundial. A cada ano inúmeros postos de trabalho são ameaçados pelos avanços da automação e da informatização, bem como de oscilações macroeconômicas desfavoráveis.

Países da União Europeia já discutem seriamente o crescente impacto da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho e debatem possíveis políticas públicas para mitigar os prováveis problemas econômicos e sociais daí decorrentes.

Enquanto isso, nosso desorientado e tragicômico presidente, com o moralismo barato que lhe é habitual, declama as belas virtudes do trabalho infantil - indiretamente escarnecendo de todos os adultos desempregados do Brasil. Nosso presidente sonha em botar as crianças para trabalhar, quando deveria se preocupar em garantir condições econômicas para que elas encontrem postos de trabalho ao chegar à idade adulta.

Anacronismo, teu nome é Bolsonaro.

Uma imagem do futuro sonhado por Bolsonaro. 

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Engenharia ou Filosofia?


Esse povo tem um pensamento binário de uma pobreza pavorosa. Como se só fosse possível investir em uma coisa OU na outra... Santa Falácia, Batman! Se o camarada que produziu esse meme tivesse a mínima noção de Filosofia, perceberia bem quão falaciosa é a argumentação sugerida. 

De resto, de que adianta um monte de edificações luxuosas, se as mentes de seus ocupantes está mal mobiliada? Como diria Bergson, pouco importa a qualidade do chapéu, se não há grande coisa DENTRO da cabeça... 

O ser humano é uma criatura complexa, com necessidades igualmente complexas. A tecnologia é imprescindível para os cuidados do corpo, mas as humanidades são essenciais para o cultivo do espírito. Como ponderava Rabelais, "ciência sem consciência é apenas ruína da alma"...

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Transformar o trabalho em jogo, para melhor alienar [ou "Trabalhando na era Uber"]

Tradução da coluna de Xavier de La Porte em 1º de maio de 2017

Se a festa do trabalho acontece em 1º de maio, é por causa dos movimentos operários que aconteceram nos Estados Unidos em 1884. Talvez seja nos Estados Unidos que se deva buscar as novas formas de alienação... E no Uber em particular. Porque se o termo de uberização já passou para a língua designando essa economia de plataformas que põe em contato direto clientes e trabalhadores independentes, será sem dúvida necessário acrescentar à palavra um conteúdo suplementar. Pelo menos é a isso que nos incita uma fascinante investigação publicada no mês passado pelo New York Times.

Uma investigação que nos mostra que a Uber, enfrentando uma crescente contestação de seus motoristas, decidiu utilizar as ciências comportamentais para reformar a relação entre a plataforma e as pessoas que trabalham para ela. O problema do Uber é que seus motoristas são trabalhadores independentes. Isso permite aliviar consideravelmente os custos da empresa, mas há uma preocupação: esses trabalhadores trabalham onde querem, quando querem. Logo, não necessariamente onde a Uber gostaria, no momento em que a Uber gostaria (ora, o sucesso do Uber repousa sobre o fato de que o cliente espera o menos possível, especialmente nas horas de pico). Como fazer para controlar trabalhadores livres, para incitá-los a trabalhar no interesse da empresa, e às vezes contra seu próprio interesse? É a problemática da Uber. Durante muito tempo, para levar os motoristas aos locais de afluência nos momentos de pico, Uber o fazia à moda antiga, enviando e-mails e sms, alguns gerentes utilizavam até um pseudônimo feminino para incitar os motoristas, que são frequentemente homens. Funcionava razoavelmente, mas era artesanal e os motoristas suportavam mal as notificações amontoadas. A empresa logo buscou especialistas em ciências sociais e analistas de dados que recorreram a todo tipo de técnicas muito mais eficazes.

Por exemplo, encorajamentos quando um patamar é atingido. Quando eles fazem logoff da aplicação em uma hora em que Uber preferiria que eles continuassem a trabalhar, os motoristas vêem aparecer mensagens como: "Mais uma corrida e você atinge 300 dólares!" É um sistema que se chama "ciclo lúdico" ["boucle ludique", "ludic cycle"] (que incita a lançar uma partida a mais para tentar ir um pouco mais longe que na anterior). Uber então enche sua interface de pequenos sinais de dólares, esquemas, insígnias ["badges"] a ganhar (um pequeno Groucho Marx para os motoristas mais engraçados...). É, efetivamente, o que se chama gamificação. O fenômeno não é novo nas empresas, mas Uber o leva ao extremo. E funciona. Os próprios motoristas o dizem: essas formas de retribuição que não custam nada à empresa lhe permitem induzir os motoristas a fazer o que é bom para ela, e não necessariamente para eles.

Para que os condutores fiquem todo o tempo ocupados, e trabalhem nas horas em que Uber tem mais necessidade deles, a empresa usa também o mesmo sistema que Netflix, que abre uma janela para ver o episódio seguinte assim que termina o anterior. Pois bem, a Uber preparou um algoritmo que envia ao motorista sua próxima corrida, antes que ele tenha terminado a precedente. Tudo isso é maravilhosamente não-coercitivo. Obviamente, a Uber introduziu um botão de pausa para que os motoristas possam ao menos parar para ir ao banheiro ou reabastecer combustível, e pretende atualmente desenvolver um função que permita aos motoristas dizer onde eles preferem terminar sua última corrida - perto de casa ou da escola onde eles deverão buscar os filhos. Nesse sentido, a tecnologia pode ser boa. Por outro lado, Uber também adquire inúmeros dados sobre a conduta de seus motoristas, e no futuro poderia personalizar ainda mais as recompensas. Além disso, Uber está cada vez menos sozinho em usar esses métodos para controlar os trabalhadores (sua concorrente Lyft faz mais ou menos a mesma coisa). Também aumenta o número de plataformas que recorrem a trabalhadores independentes, sem que os direitos desses trabalhadores - e as possibilidades que lhes são dadas de se defender - aumentem. O que faz o jornal americano dizer uma coisa terrível: "Não estamos longe de voltar à época que precedia o New Deal (....os anos 30...) em que as empresas tinham poder quase total sobre os empregados, e eles quase nenhum meio de defesa". Excetuando que isso não se passa numa fábrica e no suor, mas em um carro de passeio diante de uma tela que exibe aquilo que parece um jogo.

Aí está! Boa festa do trabalho!

sábado, 26 de setembro de 2015

O carpinteiro e as bombas atômicas

Extratos de O visconde partido ao meio, de Italo Calvino:

"Mestre Pedroprego, albardeiro e carpinteiro, foi encarregado de construir a forca: era um trabalhador sério e inteligente, que se empenhava com firmeza em toda obra. Com grande dor, porque dois dos condenados eram parentes dele, construiu uma forca ramificada feito uma árvore, cujas cordas subiam juntas acionadas por um único guindaste; era uma engrenagem tão grande e engenhosa que dava para enforcar de uma só vez mais gente que o grupo condenado, tanto que o visconde aproveitou para enforcar dez gatos alternando com dois réus. Os cadáveres mirrados e as carcaças de gato balançaram durante três dias e no início ninguém aguentava olhar para eles. Mas logo nos demos conta da visão imponente que ofereciam, e até o nosso julgamento se dividia em sentimentos díspares, a ponto de causar desagrado a decisão de retirá-los e desmontar a grande máquina.

[...]

Nessa trágica conjuntura, mestre Pedroprego havia aperfeiçoado bem a sua arte de construir forcas. Tinham se tornado verdadeiras obras-primas de carpintaria e de mecânica, e não só as forcas, mas também os cavaletes, os guindastes e os demais instrumentos de tortura com os quais o visconde Medardo arrancava as confissões dos acusados. Eu ia frequentemente à oficina de Pedroprego, pois era um grande prazer vê-lo trabalhar com tanta habilidade e paixão. Mas uma aflição pesava sempre no coração do albardeiro. O que ele construía eram patíbulos para inocentes. 'Como posso', pensava, 'aceitar construir algo tão engenhoso mas que tenha um objetivo diferente? E quais poderão ser os novos mecanismos que construirei com mais boa vontade?' Mas não obtendo respostas para tais questões, tratava de expulsá-las da mente, esforçando-se em fazer as instalações mais bonitas e engenhosas que podia.

-Tem de esquecer o fim para o qual servirão - dizia também a mim. - Olhe-os só como mecanismos. Vê como são bonitos?

Eu olhava para aquelas arquiteturas de traves, aquele sobe e desce de cordas, aquelas ligações de guindastes e de roldanas, e me esforçava para não ver em cima delas os corpos dilacerados, porém quanto mais me esforçava mais era obrigado a pensar, e dizia a Pedroprego:

-Como posso?

-E eu então, rapaz - replicava ele -, como eu posso?

[...]

E o carpinteiro era assaltado pela dúvida sobre se construir máquinas boas não estaria além das possibilidades humanas, ao passo que as únicas que de fato podiam funcionar com eficácia e exatidão seriam os patíbulos e as torturas.

[...]

O mestre se angustiava:
-Quem sabe esteja em minha alma esta maldade que só me deixa produzir máquinas cruéis? - Entretanto, continuava a inventar, com zelo e habilidade, novos tormentos".

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Quero menos

Consumimos demais. Para isso, produzimos demais, e então trabalhamos demais, poluímos demais e vivemos de menos.

Precisamos de muito menos. Consumir menos, para produzir, trabalhar e poluir menos. E então nossa vida será muito, muito mais!

Como dizia Gandhi, "a civilização, no sentido real da palavra, não consiste na multiplicação, mas na vontade de espontânea limitação das necessidades. Só essa espontânea limitação acarreta a felicidade e a verdadeira satisfação".

Quero menos!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Contradições: vida e consciência

Extratos de O Reino de Deus está em nós (1895), de Tolstói:

"O operário de nosso tempo, ainda que seu trabalho seja menos penoso do que o do escravo antigo, ainda que obtenha a jornada de oito horas e o salário de poucos rublos por dia, não deixaria de sofrer porque, fabricando objetos dos quais não usufrui, trabalha não para si e voluntariamente, mas por necessidade, para a satisfação dos ricos e dos ociosos, e para o proveito de um só capitalista, proprietário de fábrica ou de indústria.  Sabe que isto ocorre num mundo em que é reconhecida a máxima científica de que só o trabalho alheio é uma injustiça, um delito punido por lei, num mundo que professa a doutrina de Cristo, segundo a qual somos todos irmãos, e que não se reconhece ao homem outro mérito senão o de vir em auxílio do próximo, em vez de explorá-lo.

Ele sabe tudo isso e não pode deixar de sofrer devido a essa flagrante contradição entre o que é e o que deveria ser.

[...]

O homem da classe que se diz culta sofre até mais com as contradições da vida. [...] O homem dotado de uma consciência impressionável não pode deixar de sofrer com tal vida. O único meio para livrar-se desse sofrimento é impor silêncio à própria consciência; mas se alguns conseguem isso, não conseguem impor silêncio a seu medo.

[...]

Mas todos sabemos como são feitas essas leis. Estivemos todos nos bastidores: sabemos que são geradas pela cobiça, pela astúcia, pela luta entre os partidos; que nelas não há e não pode haver justiça real. Por isso, os homens de nosso tempo não podem crer que a submissão às leis sociais e políticas satisfaça às exigências da razão e da natureza humana. Os homens de há muito sabem que é irracional submeter-se a uma lei cuja verdade é dúbia e, portanto, não podem deixar de sofrer ao se submeterem a uma lei cujo bom-senso e cujo caráter obrigatório eles não reconhecem.

[...]

Cada homem de nosso tempo, se penetrarmos na contradição entre sua consciência e sua vida, encontra-se na mais cruel situação. [...] Essa contradição, requinte de todas as outras, é tão terrível que viver participando dela só é possível caso não pensemos, caso a esqueçamos. [...] Só essas razões podem explicar a intensidade terrível com a qual o homem moderno procura entorpecer-se com o vinho, o fumo, o ópio, o jogo, a leitura dos jornais, com viagens e com toda espécie de prazeres e espetáculos. [...] E todos os homens de nosso tempo encontram-se nessa situação; todos vivem numa contradição constante e flagrante entre sua consciência e sua vida".

terça-feira, 31 de maio de 2011

Ócio e negócio

Quase duas semanas sem post, por motivo de "força menor", preguiça! Na verdade, andei muito ocupado nos últimos finais de semana jogando Age of Empires III; para quem gosta de jogos e de História Moderna é uma grande pedida. A ação se passa entre os séculos XVI e XIX e disponibiliza diversas civilizações, inclusive a portuguesa. Mas, aproveitando o tempo de ócio, falemos sobre... ócio!

Pouco pensamos nas profundas relações que existem entre as palavras "ócio" e "negócio", etimologicamente derivadas do Latim. Para os patrícios romanos a noção de otium era extremamente importante: significava a liberdade de qualquer obrigação, o fato de não sofrer qualquer tipo de pressão; também podia designar a paz entre os cidadãos. Secundariamente tinha o sentido de lazer, sendo esse seu significado mais comum atualmente. Para muitos, o otium constituiria o supremo bem.

Por outro lado, negotium seria, literalmente, aquilo que "nega o otium", ou seja, as obrigações e deveres, sejam eles públicos ou privados. Em oposição ao ócio, o negócio seria indesejado, ao mesmo tempo que inevitável para a maioria, mesmo os patrícios, frequentemente ocupados com a vida pública e a manutenção de seus interesses. De certo modo, o otium se configurava como uma utopia, muito acalentada e almejada, mas pouco realizada.

Pierre Grimal em L`empire romain relata uma anedota curiosa, que mostra o poder desse ideal entre os antigos romanos: escolhido pelo senado romano para suceder Otávio Augusto como imperador, Tibério se mostraria relutante em aceitar, pois tal compromisso o afastaria do otium. Somente através da insistência do senado o eleito aceitaria a honra de ser imperador e o negotium que a acompanhava. Se tais sentimentos realmente animavam Tibério é impossível saber. Contudo, a história parecia crível aos cronistas da época, o que nos basta por aqui.

A noção parece bastante persistente em sua essência. Não à toa vemos Baldessare Catiglione reafirmá-la no século XVI, em O cortesão. Segundo a obra, o perfeito cortesão deveria conhecer e praticar de tudo, sem dedicar-se excessivamente a nada, o que seria digno apenas de plebeus. Fernando Bouza Álvarez lembra em Imagen y propaganda, livro que recomendo a todos, que nessa época era desejável que um nobre soubesse ler e escrever, desde que sua caligrafia fosse perceptivelmente ruim, evidenciando não usar a escrita além do adequado para sua posição social. Da mesma forma, geralmente os reis, príncipes e fidalgos mais importantes não liam muita coisa, sendo servidos por quem lhes lesse em voz alta.

A própria plebe desfrutava de largas horas de ócio nessa época, possíveis graças à frouxa disciplina de trabalho, como mostra E. P. Thompson no clássico Costumes em comum, onde aborda a cultura popular inglesa na Idade Moderna. Cita um poema satírico de 1639 que bem mostra essa tendência:

"Sabes que a Segunda é irmã de Domingo;
E Terça é outra igual;
Nas Quartas deves ir à Igreja e rezar;
Quinta é meio feriado;
Sexta é muito tarde para fiar;
Sábado é meio feriado, de novo."

A partir do século XVIII essa ética e sua estética foram gradativamente suplantadas pela  transformação social motivada pela Revolução Industrial. Começava a ditadura da produtividade e dos relógios, em que tristemente vivemos até hoje. Não podemos esquecer a hipocrisia desses novos valores, tão bem denunciada pelo provérbio popular e por sua zombeteira resposta "Deus ajuda quem cedo madruga" e "Mais vale quem Deus ajuda que quem cedo madruga". Por sinal, aproveitando o trocadilho, fiquemos com a sabedoria de Seu Madruga: "Não há trabalho ruim; ruim é ter que trabalhar"!