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Mostrando postagens com marcador Judaísmo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Judaísmo. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 9 de março de 2022

O pecado de pensar

 "Com a justiça dos anjos e dos santos, nós excomungamos, excluímos, maldizemos e anatematizamos Baruch de Espinosa. [...] Que ele seja maldito de dia e maldito de noite. Que ele seja maldito no sono e maldito na vigília. Que ele seja maldito fora e maldito por dentro. Que o Senhor não perdoe. Que a cólera e a fúria do Senhor caiam de agora em diante sobre este homem e derramem sobre ele todas as maldições escritas no livro da Lei. Que o Senhor destrua seu nome sob o sol".


Trecho do ato solene de banimento por heresia do filósofo Baruch Spinoza, pelos anciãos da sinagoga de Amsterdã em 27 de julhos de 1656 (citado por Frédéric Lenoir em Sobre a felicidade - Uma viagem filosófica).




quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Jerusalém Libertada

 Hoje tive um sonho.


Sonhei contigo, Jerusalém, "três vezes santa": santa para judeus, santa para cristãos, santa para muçulmanos. Santa para todos os povos de Abraão.

Jerusalém sofredora, Jerusalém atormentada. Três vezes santa, três vezes desejada, muitas e muitas vezes disputada!

Jerusalém, Jerusalém, quanto sangue já correu, corre e ainda correrá por ti! Quantas lágrimas vertidas, quanto ranger de dentes, quanto bater de espadas!

Até quando, Jerusalém, os povos de Abraão lutarão por ti? Até quando, três vezes santa Jerusalém, serás pedra de tropeço para aqueles que dizem te amar?

Embriagados pelo vinho da ira, sorvido em poluídos cálices, teus pretendentes te cortejam violentamente, tomando por amor aquilo que não passa de vulgar paixão. Te idolatram, pensando te adorar. Pois, infelizmente, Jerusalém, te tornaste ídolo no coração daqueles que julgam te amar - e é como idólatras sanguinários que te disputam.

Antes de Abraão e seus herdeiros eras Salém, reino do misterioso Melquisedec. Generoso, hospitaleiro Melquisedec, que acolheu Abraão fatigado dos combates.

Abraão foi teu hóspede, jamais teu dono, Jeru-Salém, cidade, antes de tudo, hospitaleira. Acolheste em teu seio a Arca daquela Aliança que diz: "Não matarás".

Quão iludidos estão aqueles que se entrematam em teu nome! Aqueles que deveriam te santificar, te profanam, derramando sangue sobre o solo de Melquisedec.

Onde estás, onde estás, Jerusalém? Estás nos céus ou estás na terra? Em todo lugar ou lugar nenhum? Estás, antes de tudo, nos corações de todos aqueles que amam?

Que podes significar, Jerusalém, de mais nobre, digno e elevado, senão o Amor?

Todos aqueles que amam, hospitaleira Jerusalém, acolhem a ti, no fundo de seus corações e almas. Te acolhem e te possuem, em Espírito e Verdade! Pois és mais que pedra, és um sonho, um ideal, tantas vezes destruído, pisoteado, aviltado. Em Espírito e Verdade te encontras em toda parte, como disse o galileu à samaritana.

Aprisionada choras, Jerusalém, mas venho oferecer-te consolo.

Sonhei contigo, Jerusalém, como sonham os profetas, os visionários e os poetas. Sonhei como sonham os esperançosos, aqueles que teimam em sonhar!

Em meu sonho, Jerusalém, todos aqueles que se matam por ti depuseram as armas. Os povos de Abraão finalmente se entendiam como irmãos, após séculos de encarniçado ódio. Ismael e Isaac se estreitavam em infinito abraço; Caim, Abel e Set partilhavam o banquete da paz. Moisés, Jesus e Maomé sorriam.

E depondo suas armas, te libertavam do cruel jugo em que tanto sofres. Amando uns aos outros, te libertavam. Renunciando a toda paixão possessiva, se encontravam juntos sob a reluzente tenda de Melquisedec.

Mais uma vez eras Salém, a simples, humilde e hospitaleira Salém. Rejuvenescida, revigorada, renovada, resplandecias para todos os povos da Terra, como sonhava Salomão. Todos aqueles que amam se encontravam em ti, em Espírito e Verdade.

Salém, três vezes santa, muitas vezes santa, acolhias crentes e descrentes. Tua luminosa tenda era um santuário de paz, um sagrado recinto onde ninguém ousaria derramar o sangue do irmão.

Mais uma vez governada pelo sábio, misterioso Melquisedec, acolhias todos aqueles fatigados das guerras, dos prantos e do ranger de dentes.

Sob o cetro de Melquisedec, a amorosa e zelosa hospitalidade se tornava tua primeira e única lei. Eras verdadeira e plenamente a Terra Prometida, onde não mais se ouviam os ecos das espadas, lanças, flechas ou canhões. Soava apenas um silencioso cântico de paz, murmurado em cada coração.

Sonho acordado, bem sei, Jerusalém. Mas o sonho é irmão da esperança, e a esperança é mãe de milagres.

Segundo a segundo, minuto a minuto, dia a dia, se aproxima o dia de tua libertação, Jerusalém...

Inspirado pela Águia de Patmos e por Victor Hugo; dedicado a Priscila, minha Sara

Encontro de Melquisedec e Abraão; pintura atribuída a Peter Paul Rubens (séc. XVII)


sábado, 4 de abril de 2020

Imago Dei...?

Então Deus disse, "Façamos a humanidade a nossa imagem de acordo com nossa semelhança; e deixemo-los dominar sobre os peixes do mar, e sobre as aves do ar, e sobre o gado, e sobre todos os animais selvagens da terra, e sobre toda coisa rastejante que rasteja sobre a terra" (Genesis 1:26).

Uma montanha de comentários foi devotada a este texto. A que se refere a imago Dei, e que tipo de poder ela inspira e legitima? Qual é o sentido, como o texto à frente elabora, de ser fértil em número e subjugar a terra (1:28)?

As respostas a essas questões têm sido diversas e numerosa. O que eu gostaria de destacar, todavia, é o papel dessa passagem no desenvolvimento de várias ramificações do excepcionalismo humano, e seu emprego para inspirar e garantir a moderna busca por controlar a natureza e arquitetar ["engineer"] a vida. Como historiadores como Peter Harrison e Rémi Brague defenderam, o desejo científico de conhecer o mundo, e a obsessão tecnológica para refazer o mundo, podem ser entendidas como uma variante moderna, frequentemente secular, do desejo de restaurar os seres humanos à sua natureza deificada. Retomar a imago Dei nessa leitura significar adquirir o conhecimento e desenvolver o poder que libera as pessoas do esforço físico que as confronta com os limites e necessidades da vida corporal. Isso as coloca em um caminho para o que ecomodernistas vêm descrevendo como um bom Antropoceno* - um caminho em que catástrofes são engenhosamente evitadas e a criatividade e as liberdades humanas florescem.

O desejo de libertar a humanidade de doença, fome, e tanta miséria e labuta é certamente recomendável. Mas o desejo de assumir uma posição deificada no mundo também é supremamente perigoso, pois tão frequentemente resulta na subjugação e instrumentalização de pessoas e lugares. Posto nos termos do texto de Gênesis que nos deu a imago Dei, isso pode levar a presunção, orgulho e poder que eventualmente levam Deus a dizer a Noé: "Eu determinei dar fim a toda carne, pois a terra está repleta de violência" (6:13). Quando as pessoas se elevam acima daquilo que podemos chamar de sua condição "criatural" ["creaturely"], finita e necessitada, como quando elas buscam se isentar do cuidado dos outros e seus lugares, elas também põem em movimento padrões de comportamento que irão inevitavelmente violar os outros e sua capacidade de existir.

Liberdade, neste contexto, significa a emancipação da humanidade das necessidades e cuidados da vida "criatural" conjunta. Esta liberdade busca uma posição autônoma e autárquica no mundo, uma posição em que a liberdade de ser é melhor realizada no poder de estar sozinho e gozar a vida de acordo com os termos de sua escolha individual. A construção da torre de Babel, uma torre que poderia elevar os humanos aos páramos celestes  (11:4), e assim posiciona-los para obliterar a distinção entre o humano e o divino, não foi senão uma precoce expressão do sonho tecno-utópico que nos leva ao Antropoceno.

*Antropoceno - termo proposto e discutido por alguns acadêmicos de diversas disciplinas das ciências naturais e humanas para postular a ideia de que hoje vivemos uma nova era geológica, posterior ao Holoceno, em que o conjunto da ação econômica e tecnológica humana chega a se projetar como uma verdadeira "força da natureza" capaz de alterar severamente a constituição ecológica de nosso planeta.

Can we live in a world without a Sabbath? - Interessante provocação de Norman Wirzba, nesses tempos em que um reles vírus põe em causa a supremacia humana sobre toda a vida planetária; é bem verdade que Gênesis menciona apenas peixes, pássaros, gado, animais selvagens e rastejantes... Teria a esfera microbiana ficado de fora das cláusulas do pacto adâmico?!

Michelangelo e a "Imago Dei" - sem vírus à vista...

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Um evangélico no STF?

Bolsonaro diz que deseja um evangélico no STF.

Um evangélico no STF não é, por si, um problema. Sendo laico o Estado, um ministro do STF pode ser evangélico, católico, umbandista, candomblecista, ateu, agnóstico, espírita, hindu, budista, muçulmano, parse, jedi - até satanista. Tanto faz. A religião de um magistrado não é assunto relevante ou pertinente sob uma perspectiva republicana e democrática.

No entanto, é grave, muito grave, que o presidente de uma república laica considere a religião de um magistrado como um critério válido para uma indicação ao STF. A mera sugestão desse absurdo já é um atentado contra a Constituição.

Ao menos em teoria, um magistrado de nossa corte suprema deve julgar os processos que lhe chegam às mãos fundamentado EXCLUSIVAMENTE no ordenamento jurídico brasileiro, desconsiderando, tanto quanto possível, suas convicções, preferências e inclinações pessoais - religiosas, políticas ou de qualquer outra natureza. Uma indicação ao STF DEVE considerar APENAS a solidez do domínio de nosso ordenamento jurídico por parte do magistrado em questão.

À medida que desconsidera esses princípios básicos e evidentes, Bolsonaro subverte o sentido e o significado da Justiça, atirando pela janela todas as conquistas da teoria jurídica consolidadas desde o século XVIII.

Paradoxalmente, por sinal, o infeliz propósito de Bolsonaro me lembra muito o tipo de "justiça" praticado por tribunais católicos contra inúmeros protestantes nos tempos que sucederam a Reforma...!

Contudo, a coisa é ainda mais... "interessante".

A declaração do presidente deixou alguns amigos meus confusos: "Mas ele não é católico?" - dizia um. "Não, ele é evangélico; não lembra que ele foi batizado pelo Malafaia no Rio Jordão?" - retrucava outro. "Ele foi batizado pelo Malafaia no Jordão, mas é católico mesmo. A verdadeira religião de Bolsonaro é o oportunismo" - respondi eu.

Com efeito, me parece provável que o presidente sequer cogite seriamente fazer tal indicação. É possível que a declaração seja mero afago à bancada evangélica e, mais ainda, ao eleitor evangélico - uma promessa oca para agradar e distrair essa importante parcela de seu eleitorado, predisposta a acolher tal notícia com messiânico entusiasmo, nostálgica de uma Jerusalém idealizada.

Também soa como mais um de seus artifícios para gerar polêmicas baratas e vazias, como já se tornou costumeiro. Assim como Trump, Bolsonaro se fez um especialista na geração de ruído midiático - o tal "firehosing", como dizem os americanos.

Em suma, apenas mais um episódio da politicagem que temos visto nos últimos seis meses, estratégia de um governo que vem oferecendo muitas bravatas e poucas realizações.

Bispo Macedo fantasiado de Salomão.

domingo, 13 de novembro de 2016

Democracia na Bíblia?!

"No dia seguinte, assentou-se Moisés para julgar o povo; e o povo estava em pé diante de Moisés desde a manhã até o pôr-do-sol. E o seu sogro [Jetro, sacerdote madianita], vendo tudo o que ele fazia com o povo, disse: 'Que é isso que fazes com o povo? Por que te assentas sozinho, e todo o povo está em pé diante de ti, desde a manhã até o pôr-do-sol?' Respondeu Moisés ao sogro: 'É porque o povo vem a mim para consultar a Deus. Quando têm uma questão, vêm a mim. Julgo entre um e outro e lhes faço conhecer os decretos de Deus e as suas leis'. O sogro de Moisés lhe disse: 'Não é bom o que fazes! Certamente desfalecerás, tu e o povo que está contigo, porque a tarefa é muito pesada para ti: não poderás realizá-la sozinho. Agora, pois, escuta o conselho que te darei para que Deus esteja contigo: representa o povo diante de Deus, e introduze as suas causas junto de Deus. Ensina-lhes os estatutos e as leis, faze-lhes conhecer o caminho a seguir e as obras que devem fazer. Mas escolhe do meio do povo homens capazes, tementes a Deus, seguros, incorruptíveis, e estabelece-os como chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinquenta e chefes de dez. Eles julgarão o povo em todo tempo. Toda causa importante a trarão a ti, mas toda causa menor eles mesmos julgarão. Assim será mais leve para ti, e eles levarão a carga contigo. Se assim fizeres, e Deus to ordenar, poderás então suportar este povo, que por sua vez tornará em paz ao seu lugar. Moisés seguiu o conselho de seu sogro, fez tudo o que ele havia dito. Moisés escolheu em todo Israel homens capazes, e estabeleceu-os como chefes do povo: chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinquenta e chefes de dez. Eles julgavam o povo em todo tempo. Toda causa importante, eles a levavam a Moisés, e toda causa menor eles mesmos a julgavam. Depois Moisés deixou o seu sogro voltar, e ele retomou o caminho para o seu país".

Êxodo, 18: 13-27.

OBS (Nota da Bíblia de Jerusalém): "Medida que supõe um povo já numeroso e sedentarizado e atribui a Moisés uma descentralização do poder judiciário que seguramente é bem posterior. Entretanto, o fato de tal medida ser atribuída à intervenção de Jetro pode testemunhar uma influência madianita sobre a primeira organização do povo".

OBS 2: É curioso notar que os redatores "finais" de Êxodo optaram por situar essa passagem ANTES da recepção dos "10 Mandamentos".


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Variações sobre uma cerâmica palestina estilhaçada

Allegro, ma non troppo



Desde que ainda era um adolescente que sonhava em ser arqueólogo imagino que cada objeto,  raro ou banal, em suas singularidades, carrega em si o mundo inteiro. De lá para cá, a convicção permanece a mesma, embora minha argumentação nesse sentido tenha se tornado (um pouco) mais sofisticada...

1º movimento
Cerca de seis horas atrás, uma de minhas estantes sucumbiu ao peso dos livros, fazendo com que despencasse uma simpática cerâmica palestina, que se espatifou no chão. Catei os estilhaços, pensando em restaurá-la, mas algumas partes ficaram completamente irrecuperáveis, e as lascas são muito afiadas. Preferi jogar fora o que sobrou.



Olhando o trecho do Alcorão pintado em sua superfície, aqueles cacos de cerâmica logo me remeteram à triste situação do Oriente Médio, lembrando-me de uma notícia que acabara de ler, sobre a suposta existência de campos de treinamento do Estado Islâmico na Europa. Tenho grande simpatia pelas culturas islâmicas e suas realizações artísticas, intelectuais e espirituais, uma longa tradição inscrita em inúmeros objetos ao redor do mundo - inclusive minha humilde (e barata) cerâmica palestina. Diante de tudo que o mundo muçulmano e seus povos representam na história do mundo, a emergência do EI com sua barbárie me parece um dos episódios mais tristes da trajetória do Islã.

Nessa pequena obra de artesanato, com menos de 30cm de diâmetro, cabem muitos séculos de história, a começar pelo texto corânico, elaborado há cerca de 1.400 anos, verdadeiro ponto de partida de toda uma cultura - seu fiat ou seu big bang, como preferir. Por sua vez, o texto manuscrito sobre a cerâmica também remete a uma tradição secular do Islã, a arte da caligrafia, que por sua vez remete ao próprio Corão e seus mandamentos, enquanto expressão artística e decorativa que emergiu da proibição de representação de figuras naturais, interpretada e seguida de modo mais ou menos rígido através dos séculos, conforme tempos, lugares e pessoas. Por fim, o uso da cerâmica como suporte artístico deriva de outras circunstâncias históricas do mundo islâmico: as relações comerciais entre a Pérsia e a China durante a Idade Média, em que as tentativas de suprir às demandas por porcelana do mercado chinês levaram os artesãos persas a produzirem peças que inicialmente buscavam imitar as tradições da porcelana chinesa, mas logo começaram a se desenvolver como estilo artístico autônomo com suas próprias convenções, se espalhando desde então pelo mundo islâmico e dando lugar a inúmeras ramificações estéticas, inclusive influenciando as técnicas aplicadas sobre outros suportes que não a cerâmica.

Poderíamos prolongar indefinidamente essas linhas pontilhadas rumo ao passado, a épocas tão recuadas como o surgimento do monoteísmo abraâmico, as primeiras experiências de elaboração da escrita no mundo mediterrâneo, a formação das línguas semíticas, a invenção da cerâmica na Pré-história, ou mesmo o domínio do fogo, necessário à cocção da argila... Poderíamos mesmo ir até as fusões nucleares que, há bilhões de anos, em alguma estrela distante, há muito extinta, originou os átomos componentes do barro empregado em sua confecção.


2º movimento
Com um pouco de imaginação, percebemos que nas exíguas dimensões materiais desse objeto se acumulam inúmeras camadas de história, múltiplas dimensões de experiências religiosas, tecnológicas, comerciais e artísticas, o esforço de milhares - talvez milhões - de seres humanos, convergindo, se precipitando e se comprimindo sobre esse ínfimo artefato, como que em inúmeras circunvoluções, espécie de espiral onde cada volta se conforma à anterior e condiciona a próxima, sempre de modo irregular e imprevisível.

Até aqui falamos apenas das dimensões meramente materiais inscritas nesse objeto durante seu processo de fabricação, visíveis a olho nu. Todavia, creio, poderíamos explorar ainda o imenso conjunto de relações que mediaram sua existência. Me pergunto, em primeiro lugar, quem terá sido o artesão que o produziu: um homem? Uma mulher? De qual idade? Gosta de praticar caligrafia e decorar cerâmicas? Foi trabalho de apenas um artesão ou foi executado através de tarefas divididas - digamos, alguém decorou as bordas e outras pessoas produziram a caligrafia, aplicaram o esmalte, levaram ao forno...? Será que o artesão recebeu paga digna por seu serviço? Ficou satisfeito com a remuneração? Onde, exatamente, se localiza a oficina onde o trabalho foi executado? Quantos parentes esse trabalhador já perdeu no conflito palestino-israelense? Será um muçulmano profundamente fervoroso ou a caligrafia é apenas um meio de vida?

Vale também pensar em todas as relações que intermediaram sua produção e comercialização, desde a matéria-prima até o consumidor final (eu). Onde foi fabricada a tinta ou produzida a cerâmica? Imagino que a resposta para ambas perguntas seja "China"; dado o panorama global, aposto que, no mínimo, algum trecho da cadeia produtiva tenha passado pelo parque industrial chinês, de alguma maneira revertendo, subvertendo ou convertendo o próprio circuito comercial entre o Catai e o mundo islâmico que tanto influenciou a formação da arte ceramista muçulmana na Idade Média - outra volta na espiral do tempo.

Por fim, o trajeto entre Palestina e Brasil percorreu de navio ou avião algum dos inúmeros itinerários do atual comércio global, envolvendo, imagino, alguma agência de importação e um comerciante varejista, chegando a mim. Para fechar essa cadeia, vale indagar que experiências de vida condicionaram minha relação de consumo com esse objeto. Se a memória me serve bem, acho que o momento definidor dessa aquisição casual se deu há cerca de 21 anos, quando, ainda no primeiro segmento do Ensino Fundamental, eu enfrentava dificuldades com os problemas mais elementares da Álgebra apresentados por Tia Leila, minha professora. Um parêntese: na época, obviamente, eu ignorava que se tratava de Álgebra - era uma questão de "achar o valor do quadradinho". Tentando me incentivar a superar essas dificuldades, minha mãe pegou emprestado (com quem?) o encantador livro O homem que calculava, do igualmente encantador Malba Tahan (pseudônimo do escritor e professor de Matemática Júlio César de Melo e Souza). O livro narra as aventuras do brilhante, talentoso e generoso calculista Beremiz Samir, situadas na Pérsia medieval - mais ou menos na época em que as cerâmicas etc etc. Essa leitura foi decisiva no sentido de despertar meu encantamento pelo mundo islâmico, desde então aprofundado por muitas leituras de Malba Tahan e outros autores, culminando na aquisição de inúmeros artefatos artesanais - como a dita cerâmica.

Mas voltemos à Tia Leila e à Álgebra... Convém notar que a bendita Álgebra, como indica a própria etimologia, também nos relaciona diretamente ao Islã medieval, à medida que seus princípios de notação e formalização foram elaborados no mundo muçulmano, com grande destaque para o fervilhante ambiente intelectual de Bagdá... capital da Pérsia. É curioso reparar que, também o nome "Leila" é de origem árabe - apenas uma coincidência divertida. Aliás, seu marido é o Tio Taje, nome de origem indiana - um casal indo-arábico, como os algarismos e a própria Álgebra. Recapitulando: Tia Leila me conduziu à Álgebra, que me conduziu a Malba Tahan, que me conduziu à cultura islâmica, que me conduziu a comprar uma cerâmica Palestina, que se quebrou algumas horas atrás.

E tudo isso me traz lágrimas aos olhos, porque meu sogro também se apaixonou por Malba Tahan alguns anos atrás, quando lhe emprestei O homem que calculava, mas infelizmente ele não se encontra mais entre nós há alguns meses. Lágrimas secas, prossigamos.

Aproveito para notar que até hoje mantenho contato com a Tia Leila, e até aprendi a gostar da Álgebra, embora, definitivamente, ela não goste de mim. Também essas relações, tão pessoais, com a Tia Leila, com Tio Taje, com minha mãe, com meu sogro, de algum modo, acabaram se intrometendo na cerâmica, no momento mesmo em que escrevo esse texto.

3º movimento
Algumas horas atrás... cerâmica... lascas... irreparável, etc. Catei a cerâmica com vassoura e pá de lixo. Para não machucar o gari, resolvi embrulhar os cacos numa caixa de pizza que acabara de consumir, semelhante a essa aqui:

 


Como você pode ver, a caixa (e a pizza) eram da franquia Domino's, uma das maiores redes de fat, digo, fast food do mundo (globalizado, please). É no mínimo irônico que, no fim das contas, os cacos de cerâmica palestina tenham ido parar dentro de uma embalagem que representa o poderio econômico dos Estados Unidos da América, o principal antagonista do mundo islâmico na atualidade e, pior ainda, o maior aliado do Estado de Israel que tanto vem oprimindo os palestinos - inclusive os artesãos que produziram o artefato em questão. Veja bem: uma peça de cerâmica que, como vimos, representa tanto a arte quanto a religião islâmica, com versos corânicos pintados em sua superfície! Uma ironia nada banal, inclusive porquê reúne vários opostos: o refinamento artístico e a mais que mundana junk food; o Islã que tanto preza o jejum e a glutonaria capitalista; o tabu islâmico quanto à carne de porco e as rodelas de pepperoni; a singularidade do artesanato manual e a embalagem produzida em massa; o sagrado, artístico e religioso, contra o profano, capitalista e pequeno-burguês; coração contra estômago.

Ainda aqui há espaço para outro desvio. Eu e minha esposa não nos tornamos clientes da Domino's no Brasil, mas em Paris, onde boa parte dos entregadores que nos atendiam eram de origem magrebina. Um deles, por sinal, muito simpático, vendo que o aparelho de cobrança em débito automático não conseguia sinal para executar a operação financeira, me ensinou um grigri, forma de magia simpática popular do Magreb, que, segundo ele, era infalível para remediar o funcionamento de aparelhos eletrônicos teimosos. Servia até, me disse, para interferir magicamente no resultado do jogo de futebol do time do coração transmitido pela TV, bastando executar o grigri bem próximo da tela! Tudo isso é ainda mais interessante porque con-juga, de novo, sob outros ângulos, capitalismo e Islã, magia e tecnologia, sagrado e profano. E, não nos esqueçamos, em Paris, atual epicentro desse conflito que se desenrola há pouco mais de uma década em diversos pontos do mundo.

Voltemos à caixa da Domino's. Ao lado da logomarca da franquia, vemos a silhueta do Cristo Redentor, mobilizando a imagem do ponto turístico carioca para promover a marca americana. Mas não é apenas isso. Se trata do Cristo, outra imagem religiosa, constituindo assim outra con-jugação inesperada, quiçá indesejável, entre sagrado e profano. Aliás, o Cristo Redentor foi originalmente construído, 84 anos atrás, pela comunidade católica do Rio de Janeiro, não como obra decorativa ou potencial atração turística, mas como símbolo da fé católica no Rio, então capital do Brasil. Naquela época, o estado no Brasil era ainda menos laico que nos dias atuais, e assim o Cristo nos remete a ainda outra dimensão do conflito entre sagrado e profano que perpassa toda essa reflexão. Por fim, a representação figurada de Jesus Cristo certamente se choca com a religiosidade islâmica, muitas vezes refratária à representação da figura humana, e ainda mais das figuras sagradas - lembrando que Jesus também é reverenciado pelo Islã, como último profeta anterior a Maomé. Temos então a tensa proximidade entre duas representações artísticas do sagrado (a caligrafia islâmica e a imagem cristã), amplificada pelo choque entre ambas e a profanidade comercial do delivery do fast food.

Outro parêntese interessante, dessa vez sobre o Brasil e  o Islã. Outro encontro inusitado. Em Granada, ao pé da Alhambra, eu minha esposa conhecemos um curioso comerciante marroquino, figura ímpar, que nos confidenciou ser apaixonado pelo infame Casos de Família, programa popularesco produzido pelo SBT e exibido em algum canal espanhol. A conversa se prolongou de modo animado e caloroso, e no fim das contas, com genuína hospitalidade e liberalidade muçulmana, ele nos presenteou com diversos brindes, inclusive um blend artesanal de ervas para um chá poderosíssimo para a fertilidade. Outras tantas convergências inesperadas entre os mundos da magia e das onipresentes tecnologias que movem esse mundo globalizado, onde a devoção islâmica e o barraco à brasileira convivem lado a lado.

Sim, caro leitor, você já está cansado de ler e eu, confesso, cansado de escrever; façamos, porém, ainda um esforço. A cerâmica se quebrou e os cacos foram embalados na caixa de papelão da pizzaria. Mas isso ainda poderia provocar um acidente com o gari, caso a caixa se abrisse. Tomei, então, uma precaução extra: embalei a caixa (e os estilhaços) em duas sacolas plásticas de supermercado; o embrulho se encontra agora no chão de minha cozinha, ao lado de algumas garrafas pet vazias de Coca-Cola (outros símbolos da cultura capitalista, mas já explorei esse ponto à exaustão). Eu poderia aprofundar o fato de que tanto as sacolas quanto as garrafas são derivados de petróleo, que, por sua vez, é constituído por vestígios de cadáveres de dinossauros e outras espécies pré-históricas há muito tempo em decomposição, lembrando o quanto isso remete ao debate entre criacionismo e evolucionismo, mas vou deixar essa para algum paleontólogo de plantão. Fiquemos apenas com o petróleo, matéria-prima fetiche de nossa época, motor de conflitos muito mais sérios que a infindável litania sobre criacionismo e evolucionismo (que me perdoem ateus e evangélicos, que adoram essa discussão já tão puída). Para resumir, a cerâmica palestina e a caixa da Domino's se encontram agora dentro de duas sacolas produzidas com petróleo, o próprio combustível dos amargos conflitos do Oriente Médio, conflitos esses que estilhaçaram o estado iraquiano, permitindo a emergência do EI, que tanto ultraja a herança islâmica e, para início de conversa, instigou a presente reflexão.

4º movimento
Daqui a algumas horas esses cacos de cerâmica, caixa de papelão e sacolas plásticas estarão em algum caminhão da COMLURB, a caminho de algum lixão situado na Baixada Fluminense, imagino eu. Pelo que conheço sobre degradação de materiais, é provável que a caixa de pizza seja a primeira a desaparecer, seguida pelas sacolas plásticas, enquanto a cerâmica certamente perdurará ainda por milhares de anos. Paradoxalmente, a cerâmica é extremamente vulnerável a choques, mas seus cacos são muito resistentes à degradação pelo tempo - é por isso, aliás, que elas nos ajudam a descobrir tanta coisa sobre as culturas pré-históricas. Resumindo, é perfeitamente plausível que daqui a milhares de anos um arqueólogo encontre alguns vestígios de cerâmica palestina, compondo um itinerário multissecular que nos conduz de Meca à Baixada Fluminense, passando por Bagdá, testemunhando parte da complexidade cultural tramada em nosso mundo globalizado. Me consola imaginar que quando o tempo, esse inexorável carrasco, finalmente tiver aberto todas as camadas dessa imprevisível boneca russa, o que sobrará finalmente será a melhor parte, um testemunho da busca humana pelo sublime, através da arte e da espiritualidade. Como diria a romancista Lian Hearn, "a rede do Céu é vasta, mas sua trama é sutil".

Mesmo esse texto, registrado através de milhões de impulsos elétricos codificados através de placas de circuitos integrados e de linguagem HTML constitui mais um dos giros absurdos e inusitados da espiral do tempo. De um texto a outro, separados por mais de mil anos: do Alcorão registrado pelo ilustre Profeta Maomé a esse exercício de malabarismo historiográfico garatujado por um obscuro professor de História, das ruas da Meca pré-islâmica aos subúrbios do Rio de Janeiro. Tenho apenas  frágeis rudimentos em árabe e em HTML. Por via das dúvidas, apelo para um grigri, que pode, quem sabe, conciliar esses mundos e linguagens tão diferentes, como me ensinou um jovem parisiense de ascendência magrebina a serviço de uma grande corporação americana. Desejo profundamente, por sinal, que ele não venha a sucumbir à bárbara sedução do EI e nem se torne um dos jovens treinados nesses supostos campos em solo europeu, de onde saem para um triste encontro com a morte.

Tudo isso me faz pensar no filósofo Henri Bergson, que venho lendo recentemente, e em sua noção de duração, que ainda não entendi direito; estou com sono demais para farejar mais essa pista. Pois se trata exatamente de uma caçada - como diriam os franceses, de chasses croisées, "caças cruzadas", caminhos que se encontram inesperadamente no meio do bosque selvagem - encontros como aqueles que surpreendem o viajante nos contos de fadas, nos romances de cavalaria ou nas 1001 noites. No fundo, contrariando minhas reflexões de adolescente, talvez não haja nada nos objetos, apenas aquilo que o historiador deseja caçar neles: dizia Marc Bloch, o historiador precisa ser como um ogro, sempre farejando carne humana.  Também precisa ser, creio, como Sherazade, cativando o ouvinte para sobreviver pelo menos mais uma noite, ou como Mozart, reunindo vozes e instrumentos para que, em meio à balbúrdia, sejamos enfim capazes de captar o doce trinado da flauta mágica. No final das contas, permanecendo no universo dos contos de fadas e das 1001 noites, tudo isso exige que nos tornemos fadas ou magos, capazes de conjugar e conjurar vestígios e fragmentos, como um caco de cerâmica, uma caixa de papelão ou uma sacola plástica, para transformá-los em fontes históricas - uma transmutação alquímica, outra palavrinha de raízes árabes.

Como finalizaria Malba Tahan, Alá seja louvado!

Dedico esse texto ao Seu Paulo, que me ensinou tantas lições de vida, à Tia Leila, que tentou me ensinar Álgebra, mas me tornou um escritor e à minha mãe, que me apresentou Malba Tahan

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Religião X espiritualidade: entre o dogma e a libertação

Extrato do livro Deus - Sua história na epopeia humana, do filósofo Frédéric Lenoir

"Com o período axial podemos falar verdadeiramente de espiritualidade. Como vimos, a religião liga [em francês, lie, "amarra"]. Ela reúne os seres humanos através de uma crença coletiva num invisível que os ultrapassa. Por isso, Régis Debray utiliza muito adequadamente o termo 'comunhões humanas' para falar de religiões. Inicialmente, porém, eu diria que a espiritualidade, a busca pessoal do espírito, desliga [em francês, délie, "desamarra"]. Ela liberta o indivíduo de tudo o que o prende e o aprisiona em visões errôneas: ignorância, a priorismos, preconceitos etc, mas ela também o liberta do grupo. Ela o liberta do peso da tradição, do coletivo, para levá-lo a si mesmo, à sua verdade interior. Em seguida, se a espiritualidade começa desligando o indivíduo, ela tem como fim último ligá-lo de maneira justa aos outros. Dito de outra forma, a espiritualidade desliga para melhor ligar; ela liberta o indivíduo para ensiná-lo a amar. Uma espiritualidade que deságua na indiferença ou no desprezo pelos outros não tem nada de autêntico. É uma neurose que oferece o espiritual como álibi.

Todas essas correntes de sabedoria e espiritualidade que nascem durante o primeiro milênio de nossa era têm como objetivo permitir que o indivíduo seja de maneira plena, desenvolvendo a parte divina ou transcendente que o habita. De fato, o indivíduo se emancipa em grande parte dos rituais e das crenças coletivas para ter acesso direto ao divino ou ao Absoluto. Pelo viés da razão, da experiência interior, da oração, da meditação, ele procura a verdade. Essa busca interior e pessoal frequentemente o deixa numa situação ambígua em relação às tradições religiosas que privilegiam o interesse do grupo, do povo, da tribo, da cidade. Assim é que Buda atrai o ódio dos brâmanes cujos ritos sacrificiais inúteis ele denuncia. Sócrates é condenado à morte por impiedade, e Jesus, por ter ameaçado o poder sacerdotal. E seus acusadores não se enganaram: esses três personagens contribuíram enormemente para emancipar o indivíduo da religião dominante. Inicialmente, colocando-o numa relação direta com Deus, o Absoluto, ou o princípio divino. Pela oração  (Jesus), a filosofia (Sócrates) ou a meditação (Buda), o homem pode operar sua salvação sem passar pelos ritos sacrificiais pregados pela tradição. Em seguida, o ensinamento deles rompe com o caráter aristocrático das sociedades tradicionais. Para eles, não há diferença fundamental entre os seres humanos. Todos: ricos ou pobres, escravos ou homens livres, homens ou mulheres podem ascender à libertação ou à salvação. Não há mais hierarquia, casta, povo eleito. Todos os seres humanos são iguais porque todos possuem uma alma imortal que lhes permite desenvolver uma vida espiritual que os torna livres. A partir daí, a nobreza da alma importa mais do que a nobreza de nascimento. A espiritualidade é radicalmente democrática. Consequentemente, ela enfraquece qualquer instituição religiosa que afirma que a salvação passa pela lei ou pelos rituais coletivos impostos por uma casta privilegiada: a dos sacerdotes. Mesmo que frequentemente nasçam e se desenvolvam no seio de tradições religiosas, as correntes espirituais introduzem uma forte contestação de tais tradições, chegando por vezes até mesmo a produzir cismas, como o budismo em relação ao hinduísmo, o cristianismo em relação ao judaísmo ou, no seio mesmo do cristianismo, o protestantismo em relação ao catolicismo. Porque o cristianismo logo se desviou de sua contestação inicial do legalismo religioso para recriar um legalismo e um clericalismo tão pesados quanto o que foi denunciado por Jesus. Assim, há um série de reformas sucessivas, dentre as quais a de Lutero, no século XVI, que pretende se emancipar do poder dos clérigos e do papado para voltar aos principais fundamentos do evangelho: a pobreza, a relação direta com Deus, a igualdade entre todos. Muito antes de Lutero, porém, as ordens religiosas e as correntes místicas permitiram que numerosos cristãos se emancipassem, pela interioridade, do pesado fardo da instituição.

As correntes espirituais que professavam uma ortodoxia doutrinal, criticando simultaneamente o poder ou a corrupção dos clérigos, foram de certo modo assimiladas pela instituição e muitas vezes contribuíram para a reforma interna. Foi o caso das ordens monásticas. É o que vemos com Bernardo e os cistercienses, ou Francisco de Assis e os franciscanos. Mas aqueles que se desviaram do dogma foram erradicados pela Inquisição. É o caso dos cátaros e de numerosos movimentos místicos, como o das beguinas, mulheres adeptas do 'livre espírito'. Lutero também questionará aspectos do dogma, mas, na sua época, a Igreja não tinha mais os meios para lutar contra as correntes contestatárias. Ele foi protegido por um príncipe alemão convencido de suas ideias, que se recusou a entregá-lo ao papa. A Reforma protestante rapidamente conquistou numerosos príncipes e reis, por demais felizes em, desse modo, se libertarem do domínio de Roma. O Renascimento, com a descoberta do humanismo grego, teve um impacto decisivo sobre a religião cristã, redirecionando-a para suas origens que são muito próximas do ideal democrático e da autonomia do sujeito, da libertação do indivíduo em relação ao grupo".

domingo, 31 de maio de 2015

Leituras - "Bloodlust", de Russell Jacoby

Acabo de ler Bloodlust - On the roots of violence from Cain and Abel to the present, do historiador Russell Jacoby. Trata-se de obra instigante, provocativa, e um tanto perturbadora.

Composto por quatro ensaios, o livro discute uma curiosa teoria, a de que a violência humana se canaliza principalmente para aqueles que estão mais próximos, em termos culturais, ideológicos, religiosos, etc. Segundo Jacoby, as "pequenas diferenças" causam mais ódio e violência que as "grandes diferenças". Seu ponto de partida são os mitos de Caim e Abel e dos gêmeos Rômulo e Remo, exemplos arquetípicos de disputa e assassinato entre irmãos. Ao longo dos ensaios, o historiador nos conduz através de diversos conflitos fratricidas, desde as Guerras de Religião na França quinhentista aos recentes conflitos nos Bálcãs, passando por inúmeras guerras civis e genocídios.

O argumento é muito bem desenvolvido, através de inúmeros exemplos. Como salienta Jacoby, o massacre de São Bartolomeu não foi promovido por pessoas estranhas, mas por vizinhos e parentes, gente que se conhecia e convivia cotidianamente. Da mesma forma, as comunidades judaicas na Alemanha antes do Holocausto não constituíam um povo distante e extremamente diferenciado; pelo contrário, os judeus alemães eram bem integrados, tendo desde o século XVIII assimilado os valores da cultura alemã, em relação à qual nutriam sentimentos de pertença. Por sinal, alguns dos mais virulentos antissemitas vinham de famílias judaicas convertidas mais ou menos recentemente. Outro caso curioso é o de Mohamed Atta, um dos participantes dos atentados de 11 de Setembro. Atta não era um completo estranho à cultura ocidental: era formado em Engenharia e Arquitetura, tendo defendido tese de mestrado na Alemanha. Seu ódio ao Ocidente vinha da ameaçadora proximidade, não da distância.

Mas como explicar esse perturbador paradoxo?

Jacoby propõe algumas soluções, recorrendo ao diálogo interdisciplinar, especialmente com a Antropologia e a Psicanálise. O historiador lança mão da noção de "desejo mimético", proposta pelo pensador René Girard: a proximidade cultural instigaria desejos semelhantes, promovendo e acirrando conflitos e rivalidades.

Bloodlust propõe uma reflexão curiosa, ao mesmo tempo que nos deixa questionamentos inquietantes. Um livro fascinante.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Eles

Eu tenho medo. Muito medo.


Eles são muito perigosos. Eles são violentos e cruéis. Eles odeiam nossa civilização, Eles odeiam nossos valores. Eles querem destroçar, esmagar e queimar tudo que amamos. Eles desejam matar nossos anciãos, estuprar nossas mulheres, escravizar nossas crianças. Eles sonham em dançar sobre nossos túmulos.


Por que Eles nos odeiam tanto?

Eu tenho medo. Muito medo.


De dia, Eles perturbam meus pensamentos. À noite, Eles povoam meus pesadelos. Eu sei, eles estão lá, em seus esconderijos, planejando dia e noite como acabar conosco. Eles tramam suas teias como aranhas famintas e maldosas. Eu sei, eu sei. De dia, Eles pensam em nossa destruição; à noite, Eles sonham com nossa ruína.


Por que Eles nos odeiam tanto?

Eu tenho medo. Muito medo.



Precisamos fazer alguma coisa, antes que Eles nos destruam. Temos que agir mais rápido que Eles, temos que atacar primeiro. É a única maneira de sobreviver, de evitar nosso fim, de preservar nossa civilização, nossas crenças, nossos valores. A guerra é a única solução contra Eles. É lamentável, eu sei, mas Eles não deixam outra escolha. Não é possível dialogar com Eles. Eles são irracionais, perversos, traiçoeiros. Alguns entre nós discordam... Cegos... Sonhadores... Traidores! A guerra é terrível, mas necessária. Quem não está conosco, está com Eles, está contra nós. Contra Nós!


Por que Eles nos odeiam tanto?

Imagens: Detonação da bomba de Hiroshima (1945); Massacre de São Bartolomeu (Paris, 1572); Holocausto; Cruzadas; Perdas territoriais palestinas; Atentados do 11 de Setembro (2001)

domingo, 1 de maio de 2011

Mutações culturais: a Páscoa entre judeus, cristãos e chocolates

Com uma semana de atraso, eis um novo post. Não pretendo aqui discutir o "verdadeiro" significado da Páscoa ou de seus símbolos e práticas, mas principalmente o modo como essa comemoração, ao longo dos séculos passou por inúmeras transformações, apropriações, convergências e divergências ao circular no âmbito de diversas culturas.

Como se sabe, a Páscoa é originalmente uma celebração judaica, Pessach, que comemora o êxodo, a saída dos hebreus do Egito, guiados por Moisés, tal como é narrado no Antigo Testamento. Como tal, é uma data importantíssima do calendário judaico, à medida que comemora um dos fatos fundadores dessa cultura. Um dos principais aspectos dessa comemoração é o banquete ritual familiar, onde, entre outras coisas, são consumidas ervas amargas, para rememorar o sofrimento do povo hebreu no cativeiro egípcio e durante as privações do êxodo.

Depois de séculos, a data seria apropriada pelos cristãos, com significados inteiramente diferentes, à medida em que passa a comemorar o martírio de Cristo na cruz e sua subsequente ressurreição três dias depois. Contudo, como narra o Novo Testamento, isso teria acontecido exatamente na época de Pessach, o que levou a uma curiosa superposição das duas comemorações, até porque, devemos lembrar, os primeiros seguidores do Cristianismo eram em sua maioria judeus.

Mais tarde, com a expansão do Cristianismo e especialmente no contexto do árduo combate do Catolicismo medieval pela cristianização efetiva das populações rurais, novas convergências: a Páscoa é assimilada aos festivais sasonais pagãos, que comemoravam a chegada da Primavera. Por sinal, muitos dos simbolismos agrários associados à Pascoa (trigo, ovos, coelho, etc) devem bastante a essa transação cultural. O próprio nome da Páscoa na língua inglesa, Easter, está relacionado a esse contexto, uma vez que provém da deusa pagã saxônica Eostre, cujo festival ocorria nessa época. Aliás, também é digna de destaque a consolidação da tríade Carnaval-Quaresma-Páscoa, nessa época, formando um circuito que leva do profano ao sagrado, por intermédio da Quaresma, que curiosamente tem cada vez menos importância no imaginário coletivo. Vale destacar uma curiosidade sobre a Quaresma: na Idade Média podemos dizer que ela "unia o útil ao agradável", uma vez que esse período de jejum e contrição coincidia justamente com o final do inverno europeu, período em que as reservas de alimentos guardadas no fim do Outono se tornavam escassas, ou seja, às motivações religiosas somavam-se outras, mais pragmáticas.

Por fim, o último capítulo de nossa história nos traz a época mais recente: a apropriação da Páscoa pela indústria e pelo comércio, fenômeno do século XX. Um de seus aspectos mais interessantes é o sucesso em transformar a data e seus simbolismos em mercadorias, especialmente os ovos, transformados em ovos de chocolate, prática muito recente; segundo minha avó relata, não havia nada disso em sua infância e adolescência, datando a introdução dos ovos de chocolate no Brasil da década de 50. Contudo, ainda mais interessante é o modo pelo qual a Páscoa passou por um processo de consciente esvaziamento de significados através da propaganda, passando de data religiosa judaica e cristã a comemoração laica, celebrada também por muçulmanos, ateus, agnósticos e até (discretamente) em países sem qualquer tradição cristã ou judaica, como é o caso do Japão.

Desse modo, podemos ver nessa tímida recapitulação o modo como ao longo de séculos uma comemoração passou por sucessivas transformações, atendendo a toda ordem de interesses, ora ganhando novos significados, ora perdendo-os.