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Mostrando postagens com marcador Idade Média. Mostrar todas as postagens
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

"C'est pour cela que je suis née"

"Je ne crains pas les gens de guerre, car j’ai mon chemin tout aplani; et, s’il se rencontre des hommes d’armes, j’ai Dieu, mon Seigneur, qui saura bien me frayer la route pour aller jusqu’à messire le dauphin. Car c'est pour cela que je suis née".

Atribuído a Joana d'Arc




quarta-feira, 3 de março de 2021

Tempo e ritmo

"O ritmo cria tempo; o relógio apenas o mede. Na Idade Média, o povo vivia o tempo ritmado por festas, celebrações e rituais. Pelo ritmo de festas e rituais, o tempo estava dividido em períodos, cada um com seu sentido, que todo mundo aceitava. O tempo tinha qualidade. Não se tratava de explorá-lo, mas de se engajar em seu ritmo, a fim de assim perceber o sentido da vida. Era um ritmo cultural, que unia entre si os seres humanos. O tempo sempre era percebido como tempo social".
Karlheinz Geiszler



domingo, 15 de setembro de 2019

La Jacquerie

Ah, là, là!
La Jacquerie!
Peuple qui crie!
Peuple qui rit!
Peuple se rue!
Tremble, seigneur!
Ici, on tue!
Là, on se tue!
Ah, que de sang!
Ah, que de sang!
Ah, là, là!
La Jacquerie!


terça-feira, 16 de abril de 2019

Notre-Dame: Eternidade em chamas

Notre-Dame é a estrela mais brilhante da Cidade Luz. Que tristeza vê-la fulgurando à infernal luz das chamas!

Notre-Dame é um universo inteiro, povoado de santos, anjos, demônios, gárgulas e quimeras. De suas torres, parece que o próprio Céu, capturado pelos construtores, é apenas um pano de fundo para suas magníficas formas - o Infinito reduzido a detalhe arquitetônico.

Suas rosáceas eram verdadeiros tratados de teologia medieval, dizia Roy Wagner. Victor Hugo considerava a catedral inteira um livro escrito a muitas mãos.

Dentro da nave, a luz filtrada pelas janelas e vitrais criava um ambiente difícil de descrever: aconchegante, misterioso e um tanto claustrofóbico. Um espaço gigante, ínfimo e paradoxal. Na nave de Notre-Dame me sentia respirando num Outro Mundo ou, quem sabe, num Mundo Outro.

Como um ser vivo, aquela catedral tinha uma voz. Respirava, cantava e orava através de seu órgão, um dos melhores e mais antigos do mundo.

Notre-Dame de Paris não parecia uma obra medieval. Eu acreditaria se me dissessem que estava ali desde o princípio dos tempos, construída por anjos ou demônios, descida inteira do mais alto dos céus ou emersa dos mais profundos infernos. Sua beleza fascinante e terrível, certamente, não é deste mundo.

Ainda não se sabe ao certo o que sobreviveu ao incêndio de hoje. Os vitrais certamente estão perdidos. A espectral luz de sua nave nunca mais será a mesma. Talvez seja igualmente espectral e fascinante, mas será outra. O órgão, ora mudo, talvez seja restaurado, mas sua voz será outra, sua acústica foi irremediavelmente perdida.

Notre-Dame persistirá, bela mesmo em sua catástrofe, como mater dolorosa. Mas o mundo perdeu hoje um pedaço de Eternidade...


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

As mulheres de chifres

Um conto folclórico irlandês, adaptado para meus alunos cariocas:


Uma rica mulher estava sentada, tarde da noite, cardando e preparando a lã, enquanto toda a família e os criados dormiam. Ouviu uma batida na porta, e uma voz chamou: “Abra! Abra!” – “Quem está aí?”, disse a dona da casa. “Eu sou a Feiticeira de um Chifre”, foi a resposta. A dona da casa abriu a porta, e uma mulher entrou, levando nas mãos um par de cardadores de lã e tendo na testa um chifre. Sentou-se junto ao fogo e começou a cardar a lã com violenta pressa.

Então se ouviu uma segunda batida na porta, e uma voz chamou, como antes: “Abra! Abra!” A dona da casa abriu a porta, e imediatamente outra feiticeira entrou, com dois chifres na testa e uma roca de fiar lã nas mãos. “Eu sou a feiticeira dos dois chifres”, disse ela, e começou a fiar veloz como um raio. E assim as batidas na porta prosseguiram e as feiticeiras iam entrando, até que finalmente havia doze mulheres cantando e tecendo lã ao redor da lareira, a primeira com um chifre e a última com doze.

Era estranho de se ouvir e assustador de se ver essas doze mulheres, com seus chifres e suas rocas. A dona da casa quase desmaiou, tentou levantar-se para chamar ajuda, mas não conseguiu se mover nem pronunciar uma palavra, pois as feiticeiras haviam-na enfeitiçado.

Então uma delas a chamou e disse: “Levante-se, mulher, e faça um bolo para nós”. Ela foi até o poço buscar água, mas uma voz lhe disse “Volte para casa e grite: ‘A montanha das mulheres fenianas está pegando fogo!” Foi o que ela fez. Quando as feiticeiras ouviram o grito, correram para fora soltando gritos estridentes e fugiram para Slievenamon, sua morada.

Mas o Espírito do Poço pediu à dona da casa que entrasse e preparasse a casa contra os feitiços das bruxas, caso elas voltassem. Para romper o encantamento, ela borrifou a porta da casa com a água na qual lavara os pés de seu filho. Depois, pegou um bolo que as feiticeiras haviam feito com sangue e farinha em sua ausência, cortou-o e colocou um pedaço na boca de cada um dos adormecidos, e eles recuperaram a saúde. Então pegou o pano que elas haviam tecido e trancou com cadeado num baú e, finalmente, travou a porta com uma grande tranca presa aos batentes, para que as bruxas não pudessem entrar. Ao terminar de fazer essas coisas, ficou aguardando. Não demorou muito para que as feiticeiras voltassem, com muita raiva, pedindo vingança.

“Abra, abra, água de lava pés!”, gritaram. “Não posso, estou toda esparramada pelo chão”, disse a água.

“Abram, abram, madeira, árvores e tramela!”, gritaram elas para a porta. “Não posso, a tranca está pregada e não tenho força para movê-la”, disse a porta.

“Abra, abra, bolo que fizemos e misturamos com sangue!”, gritaram elas de novo. “Não posso, estou quebrado e macerado, e meu sangue está nos lábios das crianças adormecidas”, respondeu o bolo.

Então as feiticeiras voaram pelos ares dando gritos estridentes, e fugiram para Slievenamon, lançando estranhas maldições ao Espírito do Poço que desejara sua destruição. A mulher e a casa foram deixadas em paz, e um xale perdido por uma das feiticeiras em sua fuga foi guardado pela dona da casa como lembrança daquela noite; esse xale permaneceu na mesma família, passando de geração em geração, durante mais de quinhentos anos.

Adaptado de Joseph JACOBS. Contos de fadas celtas. Tietê: Landy, 2002.

Francisco de Goya, O Sabá das Bruxas (1821-23)



quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

O coração comido

Um conto medieval adaptado para meus jovens alunos:

Pam, pam, pam... Batidas insistentes abalavam a porta do meu quarto. “Frei Adalbert, abra! Depressa! Oh, meu Deus!” Quando abri a porta, uma mulher assustada entrou no quarto. Me puxou pela manga; percebendo a gravidade da situação, a segui até o pátio iluminado pelas tochas. As pessoas formavam um semicírculo em volta de um corpo. Uma velhinha rezava, ajoelhada. Quando cheguei, a aglomeração se dispersou. Senti um aperto no peito quando olhei para o corpo inanimado. A moça estava deitada, imóvel, no chão. Apesar do sangue que manchava os cabelos, Béatrice ainda era bonita.

Lembrei-me de nossos primeiro encontro, 7 meses antes. Eu havia sido mando por meu superior ao senhor Giraud de Valgaillard para completar a educação de sua filha Béatrice. O barão ambicionava elevar o nome da família, casando-a com o melhor partido possível, nas cortes da França ou da Inglaterra.

Voltei a mim. Um guarda me relatava: "Ela saiu correndo pelas galerias superiores; depois, sem um grito, jogou-se no vazio. Não pude fazer nada”. Por pouco não desmaiei. Por que motivo Béatrice decidiu pôr fim a seus dias? Esse pensamento me revoltava. “Onde está o senhor Giraud? Por que não está aqui?”, exclamei, sacudindo o rapaz. “Ele se trancou em seus aposentos... Ninguém tem coragem de perturbá-lo...”

Pedi que levassem a defunta para seu leito e mandei que a lavassem. Notei a ausência de um anel de esmeralda do qual ela nunca se separava. Examinei atentamente suas mãos e descobri debaixo das unhas fragmentos de carne e um fio púrpura que não provinha da sua roupa. Tudo aquilo era estranho, muito estranho: concluí que a morte da minha aluna ocultava um terrível segredo. Prometi-me descobri-lo.

Desci a escada que levava à grande sala senhorial. A porta estava aberta. A sala estava como a deixáramos desde o jantar. Uma poltrona derrubada quebrava a bela ordem do lugar. Inspecionei cada canto, cada móvel, começando pela mesa. Fora posta para três convidados, mas somente duas taças haviam sido utilizadas – a do senhor e de sua filha. Béatrice e seu pai teriam esperado em vão uma visita? Outro detalhe me perturbava: uma só fatia de pão estava embebida de molho – um molho igual ao que eu tinha encontrado na túnica da morta. No chão, perto da poltrona derrubada, notei sinais de vômito. Debaixo da mesa, descobri o anel de esmeralda perdido.

Pensei na dama de companhia de Béatrice: Agnès. Será que ela sabia de alguma coisa? Na manhã seguinte, fui conversar com Agnès, que tinha os olhos inchados de tanto chorar. Era evidente que ela não queria falar comigo. Mostrei-lhe a joia: “Agnès, reconhece este anel?” Ela desmaiou em meus braços! Quando voltou a si, começou a chorar, agitada: “Santa Mãe misericordiosa! O anel de... Eu sabia que aquilo acabaria mal...” Eu disse a ela: “Vamos, minha filha... Você tem que se controlar e contar-me tudo que sabe. Preciso saber a verdade.”

Com uma voz frouxa, ela revelou-me que Béatrice conhecera pouco tempo antes um rapaz, trovador, nobre, mas sem dinheiro. Seus versos impressionaram muito Béatrice, seu encanto a conquistou: a moça ficou loucamente apaixonada. Nas semanas que se seguiram, encontraram-se às escondidas. Para selar um amor eterno, Béatrice deu ao jovem cavalheiro seu precioso anel de esmeralda. Mas o barão, que não tinha nada de bobo, ficou a par dos encontros. O barão e seus guardas espancaram o rapaz na frente de Béatrice e depois o arrastaram para fora. “Por que não me contou nada?”, perguntei-lhe. “Eu estava aterrorizada... O barão é um homem violento. Eu não tive coragem...”

Tentei reconstruir os últimos instantes de Béatrice. Na última ceia, feita em companhia de seu pai, ela parece ter perdido toda esperança de rever o amado. Uma ideia teimava na minha cabeça: o barão não era homem de deixar viva uma pessoa capaz de arruinar seus projetos matrimoniais.

Entrei escondido no quarto do barão, onde descobri uma porta oculta atrás de uma tapeçaria. Uma escada de pedra mergulhava nas trevas; reinava um silêncio mortal. Acendi uma tocha e desci. Tinha a impressão de entrar num túmulo. Encontrei um longo e estreito corredor de pedra úmido e mofado. No fundo, percebi uma forma encostada na parede, sentada, imóvel, silenciosa: um corpo banhado numa poça de sangue. Tinha um enorme buraco no lado esquerdo do peito. Tinham arrancado seu coração! No chão, havia uma viola e um pergaminho de poemas rasgado. A verdade revelou-se, terrível: eu havia encontrado o namorado de Béatrice! Subi correndo, saindo no quarto do barão. Nesse instante, uma voz sonora me fez estremecer: “Ora, vejam só, frei Adalbert! Visitando o castelo, irmão?” Giraud de Valgaillard me encarava. Percebi minha imprudência. Fiquei petrificado, imóvel. Passado o primeiro instante de espanto, recobrando o controle, encarei-o e acusei: “Eu sei de TUDO, senhor Giraud! O senhor é um ASSASSINO!”

“Bravo, frei Adalbert! Chegou na hora certa. Eu queria mesmo me confessar... Frei Adalbert, confesse-me! O senhor não pode recusar...” Impotente, sentei-me diante dele, pronto para ouvir a longa lista dos seus pecados.

“O senhor certamente sabe que um fazedor de versos seduziu minha querida filha. O amor é cego e imprudente... Será que acreditavam mesmo que sua paixão nunca seria descoberta? Que eu permitiria um casamento tão descabido? Anteontem, peguei em flagrante os dois pombinhos e mandei meus homens levarem o rapaz para os subterrâneos do castelo. Matei-o e, com minhas próprias mãos, arranquei-lhe o coração. Ontem, fui ver minha filha em seu quarto; disse a ela que os havia perdoado, e que naquela mesma noite os receberia em um jantar. Enquanto os preparativos do banquete iam de vento em popa, chamei no canto meu cozinheiro e entreguei-lhe o coração do moço, para fazer um prato saboroso, digno de uma rainha. Na hora do jantar, Béatrice espantou-se ao não ver o amado. Eu disse que ele estava atrasado e logo chegaria. De ótimo humor, minha filha provou um pouco de cada prato. Adorou o coração ensopado, que repetiu até acabar o prato. Esquecendo-se das boas maneiras, lambeu os dedos úmidos de molho, e disse: ‘Pai, que delícia estava essa carne!’, então respondi: ‘Não me espanta que tenha apreciado esse prato. Você não podia deixar de saborear, assado e temperado, o que você adorava vivo e palpitante. Minha filha, esta carne que tanto lhe agradou, outra coisa não era que o coração do seu namorado. O lindo coração lhe serviu de alimento. Aqui está a prova do que digo: o anel que tirei do cadáver do seu trovador. Ó delícias do amor!’ Ela se curvou para o chão e vomitou. Depois, enfurecida, precipitou-se sobre mim, unhas à mostra. Uma saraivada de socos e arranhões se abateu sobre meu rosto e meu peito, mas continuei a zombar: ‘Ele não queria lhe dar o coração? O desejo dele foi satisfeito! Melhor ele não podia esperar. Agora vocês estão reunidos. Você consumiu o seu amor. Devorou-o com apetite!’ De repente, ela se acalmou; seus punhos pararam de me bater. Presa do delírio, fugiu da sala, correu para as galerias superiores e atirou-se no vazio. Morreu louca e amaldiçoada. Pronto! Agora o senhor sabe de toda a história, frei Adalbert. Mas para que servirá saber, se não pode contar nada a ninguém? O segredo da confissão condena o senhor ao silêncio. Quem irá cobrar por meus atos?”

Nenhuma palavra de arrependimento, nenhum remorso saiu dos lábios do senhor Giraud. Ele até se orgulhava do seu feito! Apavorado, fugi do castelo, deixando o barão impune.

Dez anos se passaram desde esses terríveis acontecimentos. Soube recentemente que o Senhor Giraud de Valgaillard multiplicara suas peregrinações, antes de morrer combatendo na oitava cruzada. Ele teria entrado no corpo a corpo berrando como um possesso: “Béatrice! Deus! Perdão!” Não era um grito de guerra. Eu, Adalbert, frade, sei da falta da qual ele tentava redimir-se, em vão. Que Deus, Nosso Senhor Onipotente, tenha piedade da sua alma!

Adaptado de Gilles MASSARDIER. Contos e lendas da Europa Medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

Experimente o game GRATUITO Vila dos Mistérios, produzido por QB Studios Indie -  situado em um vilarejo da Baixa Idade Média, o game narra as aventuras de Frei Umberto e do cão Eco, que precisam desvendar inúmeros crimes e mistérios...

Castelo de Vincennes, Paris. O simpático gorducho à esquerda é o autor deste blog.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Eles

Eu tenho medo. Muito medo.


Eles são muito perigosos. Eles são violentos e cruéis. Eles odeiam nossa civilização, Eles odeiam nossos valores. Eles querem destroçar, esmagar e queimar tudo que amamos. Eles desejam matar nossos anciãos, estuprar nossas mulheres, escravizar nossas crianças. Eles sonham em dançar sobre nossos túmulos.


Por que Eles nos odeiam tanto?

Eu tenho medo. Muito medo.


De dia, Eles perturbam meus pensamentos. À noite, Eles povoam meus pesadelos. Eu sei, eles estão lá, em seus esconderijos, planejando dia e noite como acabar conosco. Eles tramam suas teias como aranhas famintas e maldosas. Eu sei, eu sei. De dia, Eles pensam em nossa destruição; à noite, Eles sonham com nossa ruína.


Por que Eles nos odeiam tanto?

Eu tenho medo. Muito medo.



Precisamos fazer alguma coisa, antes que Eles nos destruam. Temos que agir mais rápido que Eles, temos que atacar primeiro. É a única maneira de sobreviver, de evitar nosso fim, de preservar nossa civilização, nossas crenças, nossos valores. A guerra é a única solução contra Eles. É lamentável, eu sei, mas Eles não deixam outra escolha. Não é possível dialogar com Eles. Eles são irracionais, perversos, traiçoeiros. Alguns entre nós discordam... Cegos... Sonhadores... Traidores! A guerra é terrível, mas necessária. Quem não está conosco, está com Eles, está contra nós. Contra Nós!


Por que Eles nos odeiam tanto?

Imagens: Detonação da bomba de Hiroshima (1945); Massacre de São Bartolomeu (Paris, 1572); Holocausto; Cruzadas; Perdas territoriais palestinas; Atentados do 11 de Setembro (2001)

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Camadas do sagrado

Estivemos ontem em Genebra. Devo dizer que, 500 anos depois de Calvino a cidade me parece andar mais pelo lado do "espírito do Capitalismo" que da "ética protestante"... Por sinal, definitivamente, os preços em Genebra seguem à risca o espírito do dito cujo!

Deixando essa questão de lado, foi uma oportunidade fantástica poder visitar a Catedral de São Pedro, onde Calvino fez seus sermões e, principalmente, um local que fez parte do cotidiano de alguns dos personagens e autores que estudo em minhas pesquisas, como Jean Crespin, Pierre Richer e, principalmente, Jean de Léry! Estar exatamente ali, na nave daquela igreja, foi indescritível...

No entanto, a catedral guarda outras surpresas... Seu subsolo é um riquíssimo sítio arqueológico, escavado desde 1977 e hoje aberto à visitação. Na verdade, a área já era ocupada há dois mil anos, antes mesmo da chegada dos romanos à região. Não à toa, ali se situava o túmulo de um chefe alobrógio - da tribo celta dos Alobrógios.

Se era mesmo um chefe acho difícil dizer - honestamente, sou um tanto cético quanto a certas identificações arqueológicas. Em todo caso, ali jaz um guerreiro celta do século I a.C. Por sinal, a certa distância dali se encontra um pequeno tesouro monetário enterrado também no século I a.C. Note-se que com o tempo e a ação química da umidade as moedas se fundiram num bloco maciço.

É interessante observar que esses enterramentos de moedas (e outros objetos) entre algumas tribos celtas correspondia a uma forma de culto a divindades ctônicas (subterrâneas). Por sinal, isso é particularmente verdadeiro em relação às tribos helvéticas, como mostra o famoso exemplo do lago de La Tène, onde eram atiradas oferendas.

Logo após a conquista romana há vestígios ali também de que o local foi logo transformado num templo. Infelizmente não tirei nenhuma foto desses vestígios, principalmente elementos arquitetônicos como capitéis de coluna ou alguns arcos parcialmente preservados.

Por volta do século IV d.C. o local começou a ser utilizado como templo cristão, que sofreu sucessivas ampliações até o século XII. Por exemplo, podemos ver um batistério muito bem conservado, alimentado por um engenhoso sistema hidráulico.

Também é possível ver vestígios do coro da Igreja, com sua simpática decoração geométrica.

Ao lado da Igreja foi ainda instalado um claustro, com as celas dos monges aquecidas por um curioso sistema de calefação radial.



No fim da Idade Média o bispo ainda contava com acomodações luxuosas do outro lado da Igreja, incluindo uma sala de recepção com sofisticada pavimentação decorativa.

No século XV o espaço foi amplamente reformado, e a catedral ganhou as formas góticas que ostenta ainda hoje. Menos de 100 anos passados, com a adesão de Genebra à Reforma, a Igreja se tornou local de culto protestante, abrigando ninguém menos que o célebre reformador Calvino.

O que me parece impressionante é que, ao longo de nada menos que dois milênios e sucessivas transformações religiosas, esse mesmo local permaneceu sempre sendo usado para funções sagradas. Coincidência?

Provavelmente não, a começar pela primeira mutação, logo após a conquista romana. Como se sabe, foi muito comum que antigos santuários celtas tenham sido "romanizados" pelas próprias populações nativas. Nesse sentido, era uma transformação muito mais arquitetônica que religiosa. Provavelmente os próprios Alobrógios foram os autores dessa mutação, num processo corrente de assimilação de sua religião ao panteão romano.

Por outro lado, a apropriação católica posterior teria finalidade muito distinta. A ocupação e cristianização de antigos santuários foi uma estratégia de catequese e conversão intensamente empregada pela Igreja Católica no Baixo Império e no início da Idade Média - que, por sinal, foi muito reutilizada durante a retomada da Península Ibérica e mesmo a conquista da América.  Nesse sentido, tratava-se de manobra religiosa proselitista "friamente calculada", como diria o Chapolim Colorado...

O mesmo pode ser dito da apropriação reformada no século XVI, quando a catedral católica sofreu drástica simplificação decorativa, como parte do programa protestante, especialmente através da eliminação das imagens.

Enfim, a Catedral de São Pedro em Genebra condensa não apenas dois mil anos de espiritualidade ocidental, mas ainda a densa trama de relações sociais, políticas e econômicas que engendraram todas essas transformações ao longo dos séculos...

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Fora do prumo...

Nessa semana estivemos em Rouen. Ficamos apaixonados pelos prédios da cidade construídos em "colombage", usando grandes toras de carvalho extraídas das florestas da região. É um tipo de construção típica da Bretanha e da Normandia. Como as fotos mostram, a construção ia muito de improviso...


 Essa parece que fico esprimidinha...

 Segundo meu amigo Igor, engenheiro civil, trata-se de uma patologia da edificação chamada de recalque diferencial.
 Apesar da cara medieval, esses prédios são em sua maioria dos séculos XVI, XVII e XVIII.
 Talvez ainda mais interessante seja essa igreja construída em homenagem a Joana D`Arc, no local onde ela foi queimada. Construída no século XX, o arquiteto teve a excelente ideia de se inspirar nas características arquitetônicas da cidade para construir um prédio propositadamente torto. Excelente exemplo de apropriação e "reciclagem" da História...

domingo, 24 de junho de 2012

Aventuras na Bretanha - episódio I: Rennes

Ontem realizei um sonho: visitar a Bretanha francesa - também conhecida como "Pequena Bretanha" na Idade Média, em oposição à "Grã-Bretanha". Aguardava esse momento desde os 15 anos de idade... Meu primeiro "ataque" foi em Rennes, mas já tenho outras incursões programadas! A viagem foi tão emocionante que precisarei dividir o post em partes!

I - Na trilha dos celtas

Como se sabe, a Bretanha é um dos últimos centros de cultura celta ainda viva, especialmente devido à manutenção da língua bretã. Visitar Rennes, especialmente o Musée de Bretagne, foi uma experiência fantástica nesse sentido!

A fabulosa exposição permanente se propõe a apresentar cronologicamente a história da região através de inúmeros artefatos, desde a Pré-história aos dias atuais. Para um apaixonado pela cultura celta, foi uma experiência simplesmente indescrítivel. Particularmente instigante foi a possibilidade de seguir ao fio do tempo as transformações da cultura material na Bretanha e perceber o quanto uma herança celta e galo-romana se constituiu não exatamente através de permanências puras e simples, mas de um constante processo de reinvenção que continua até hoje.

Nesse sentido, o que mais atraiu minha atenção foi justamente observar as peculiaridades da arte bretã medieval, em perspectiva comparativa às obras que pude ver no Louvre. Nunca havia dedicado muita atenção à produção medieval de origem céltica, uma vez que sempre me interessei mais pela cultura celta da antiguidade, pelos "irredutíveis gauleses" contemporâneos de Astérix!

A arte da Bretanha na Idade Média é obviamente muito parecida com o resto da produção europeia da época, mas é nítido que sob as mesmas convergências e convenções estilísticas românicas ou góticas, a arte da região soube manter características perceptivelmente "célticas"; o mesmo vale para as expressões do período romano, com um inconfundível "traço" local. Indo além, encontramos um mesmo meneio céltico na época moderna e na contemporaneidade, particularmente no que diz respeito ao entalhe em madeira. Fiquei particularmente impressionado também com as capas de chuva de pescadores, usadas no século XX, que lembram muito os famosos "genii cuculati" da arte galo-romana.

No fim das contas, fica a dúvida: foi a Bretanha céltica que se apropriou de outras expressões culturais ou as tradições posteriores que se apropriaram de um substrato celta? Me parece que nenhuma das duas formulações dá conta adequadamente dessas longas e complexas interações culturais ao longo de dois mil anos...

Talvez nada sintetize melhor essas questões que essa emblemática combinação heráldica sobre a porta de um edifício do século XVII onde hoje funciona um liceu: o arminho da Bretanha e a Flor-de-lis da monarquia francesa lado a lado, em simétrica equivalência...


II - As impermanências do espaço

Há muito tempo atrás, Rennes era uma cidade murada, como a maioria das aglomerações urbanas europeias. Nessa época, a principal porta da cidade era a "Porte Mordelaise", diante da qual, segundo a tradição, os duques da Bretanha deviam prestar juramento de proteger a liberdade do povo bretão, como parte de sua sagração. Era também através dessa porta que aconteciam as entradas reais e episcopais na cidade, acontecimentos de grande importância para a sociedade de Antigo Regime.

 Porte Mordelaise vista "de fora"
 Porte Mordelaise vista "de fora" (detalhe)
Porte Mordelaise vista "de dentro"

O conjunto das muralhas de Rennes foi obra dos séculos, iniciando-se no século III d.C., com as crises do Império Romano, que tornaram necessárias estruturas de proteção da cidade, vulnerável ante episódios de violência de saqueadores famintos. Ao longo da Idade Média esse complexo defensivo aumentaria gradativamente, até o século XV. Após mais de um milênio de trajetória, as defesas de Rennes em sua máxima extensão contavam com doze portas e dezesseis torres.

No entanto, o desenvolvimento da artilharia pesada e principalmente a união do Ducado da Bretanha à coroa francesa tornaram tais edificações inúteis, sendo demolidas ou simplesmente se desmantelando com o passar dos séculos. Atualmente restam apenas a Porte Mordelaise e a Tour Duchesne (abaixo).
Também a Tour Duchesne tem uma curiosa história: durante séculos foi local dos jogos de "papegaut" em Rennes. Costume surgido na Idade Média,  esses jogos eram competições de companhias de arqueiros, onde uma ave de madeira ou papelão - o "papegaut" - era afixada no alto de um mastro ou de uma torre. Todos os arqueiros tentavam acertar o alvo, e o primeiro que conseguisse recebia o título de "roy du papegaut" e um prêmio invejável: um ano de isenção de impostos! Posteriormente o costume foi incorporado às companhias de arcabuzeiros, caindo em desuso apenas no século XVIII. Poucas cidades, entretanto, obtinham o "privilège de papegaut".

Como se vê, a porta e a torre não eram lugares ordinários, marcando eventos importantes para a cidade ou para o Ducado da Bretanha, que reforçavam seu prestígio social e importância política. Contudo,  muita coisa mudou... Pedindo informações, ninguém sabia o que era a "Tour Duchesne", ou melhor, ninguém reconhecia o topônimo. A torre tão importante, símbolo de um privilégio da cidade, se tornou apenas uma edificação anônima...

Por outro lado, a experiência de cruzar a Porte Mordelaise me pareceu muita curiosa, por um motivo: ela perdeu completamente seu significado original! Afinal de contas, o ato de passar sob seus arcos significava entrar na cidade, não apenas em seu sentido físico e material, mas também simbólico; significava provavelmente gozar da segurança, do prestígio e do privilégio ligado ao interior da enceinte de Rennes. Não é difícil imaginar o quanto de alívio sentiam as pessoas que adentravam o recinto amuralhado numa época em que a região era infestada por bandos de salteadores que não hesitavam em atacar mesmo próximo às muralhas da cidade!

No presente, a distinção entre "dentro" e "fora" deixou de existir, uma vez que a cidade cresceu e a própria muralha enquanto divisor espacial perdeu seu sentido original. Assim como a ausência "densa" da Bastilha é testemunho de transformações sociais significativas, a Porte Mordelaise e a Tour Duchesne se tornaram testemunhos da ausência "sutil" de uma relação humana com o espaço urbano que se perdeu.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Notre Dame de Paris, 2012


Hoje realizei um velho sonho: visitar Notre Dame! Justamente Notre Dame de Paris, 1482 foi o primeiro livro de Victor Hugo que li, o início de uma grande paixão literária. Em grande parte devo a essa leitura boa parte dos desenvolvimentos posteriores de minha formação como historiador. Particularmente emocionante foi o encontro com as famosas gárgulas. O telhado de Notre Dame é um lugar para se sonhar...


O olhar sonhador dessa gárgula simiesca me parece muito curioso... Que panorama ele teria descortinado do alto da catedral na Paris medieval? Ele "viu", em seu posto de sentinela imóvel, a Île de la Cité e as duas margens do Sena se transformando ao longo de quase 850 anos de história. Debruçada no parapeito de Notre Dame, essa gárgula "assistiu" ao massacre de São Bartolomeu, a Revolução francesa e tantos e tantos outros acontecimentos centrais à história da França e do Ocidente...

Não resisti à tentação de um bate-papo ao melhor "estilo Quasímodo"... Por sinal, Victor Hugo é um personagem central da história de Notre Dame, à medida em que precipitou a formação de novos significados em torno do edifício e do patrimônio histórico francês em geral. Recomendo a todos a leitura do magnífico capítulo "Paris à vol d`oiseau", verdadeira obra-prima historiográfica. Escrevendo sobre Notre Dame, Hugo se tornou parte importantíssima da história da própria catedral. Que mais poderia desejar um escritor?




 É impressionante pensar que essas esculturas estão lá há quase um milênio, e continuam tão vivas e fascinantes quanto à época em que sofreram os primeiros golpes do cinzel... Por sinal, o camarada aí em cima saiu de Hogwarts ou da Terra Média?
No entanto, é interessante observar que Notre Dame é mais que uma obra medieval: é um edifício vivo que encontrou sua evolução ao longo de séculos da história da França e de Paris. Por exemplo, que dizer dessa magnífica imagem de Joana d`Arc? Esculpida no ínício do século XX, a imagem remete também a um período da história francesa posterior à construção da catedral. Desde seu princípio, Notre Dame tem sido capaz de atrair e integrar transformações constantes. Talvez seja por isso mesmo a mais importante construção da Île de la Cité, resistindo aos séculos, enquanto todo o resto se desmanchava ao seu redor...

Contudo, a peça mais interessante para mim foi essa Nossa Senhora de Guadalupe, incorporada à catedral em 1685, sob encomenda de um aristocrata da alta nobreza francesa (esqueci seu nome!). Uma imagem originária do Novo Mundo, elaborada no seio das culturas ameríndias do México, conseguiu abrir caminho e encontrar seu espaço numa catedral construída no coração do Velho Mundo. Como são complexas as relações e mediações culturais que tornaram isso possível! Faz pensar na Guerra das Imagens, obra magistral de Gruzinski onde justamente a Virgem de Guadalupe ocupa papel central; lembra também o magistral Inferno atlântico de Laura de Melo e Souza: a América também moldou a Europa na Idade Moderna...
 E como estará Notre Dame de Paris em 2112? Só as gárgulas saberão...

sexta-feira, 23 de março de 2012

Ser um guerreiro na Idade Média - jogando... "Aragorn`s Quest"

Depois de muito tempo adormecida, eis que a oficina volta ao trabalho! Andei afastado por cometer a maior loucura de minha vida: eu e minha esposa nos atiramos à tarefa insana de escrever um livro de 250 páginas em pouco mais de um mês... Mais detalhes em breve. Depois desse tour de force me dei umas "férias", e estou de volta.

Para o relax, me dei de presente Aragorn`s Quest para Wii. Jogo fantástico, por vários motivos, e subestimado em todas as críticas que li. Por trás de um gráfico cartunesco, um jogo interessantíssimo, com uma narrativa sofisticada e uma jogabilidade altamente intuitiva e estimulante. Por sinal, o gráfico "pobre" libera todo o potencial de processamento para que a plataforma posso botar em cena literalmente algumas centenas de guerreiros altamente diferenciados de cada lado da batalha sem lapsos excessivos de carregamento e de modo altamente funcional.

Mas, vamos à História. O jogo é baseado na trilogia Senhor dos Anéis, sem depender exclusivamente da identidade visual dos filmes de Jackson, o que por si só já significa muito. É possível perceber a apropriação criativa dos originais de Tolkien, mas também das clássicas ilustrações de Alan Lee e de David Wenzel. No entanto, o mais interessante é a possibilidade de imersão numa batalha medieval como nunca vi em qualquer outro jogo.

Ok, uma batalha "medieval", afinal de contas, se trata de um universo ficcional. Ainda assim, o jogo se mostra surpreendentemente fiel aos ritmos, táticas, comportamentos esperados em uma batalha desse período, ao contrário da pseudo-estratégia antiga costumeira nesse gênero de jogos. Arqueiros, cavaleiros, infantes, se comportam de maneira bastante fiel, especialmente considerando-se a diversidade de terrenos e combates: há pântanos, planícies, colinas e fortalezas. Desenrolam-se escaramuças, batalhas campais e sítios, no ataque ou na defesa. Enfim, o jogo proporciona grande diversidade de experiências estratégicas, com objetivos coerentes e pertinentes a cada situação.

As armas são dignas de comentário à parte. Em lugar da diversidade quase absurda, uma seleção sóbria: espada, escudo, lança, arco. O jogo oferece um belíssimo sistema de luta com espada, baseado em movimentos de corte e estoque. A lança pode ser manuseada com bastante naturalidade, a pé ou a cavalo. O arco tem um sistema de mira quase simplório, compensado pela sobriedade dos contextos em que seu uso é exigido.

Last, but not least, o jogo apresenta um sistema de liderança muito instigante: o jogador não é convidado a dar ordens a seus soldados, mas a guiá-los pelo campo de batalha através do exemplo, avançando sobre as fileiras inimigas e empregando dois recursos, o grito de guerra ou o toque de trombeta. Através dessas manobras é possível incentivar os soldados ao assalto ou reuni-los numa posição estratégica para a defesa. Não era muito diferente nas batalhas medievais, a exemplo do que vemos na Chanson de Roland, no Nibelungenlied e outros textos da época. Com efeito, o jogo me fez compreender melhor, "na prática", o que seria a liderança carismática de que fala Weber.

Paradoxalmente, Aragorn`s Quest é um jogo de fantasia que pode conduzir a uma esclarecedora experiência do que seria estar na pele (ou sob a malha) de um guerreiro medieval.

domingo, 28 de agosto de 2011

Chaves, um sábio turco da Idade Média e brinquedos

(texto originalmente publicado em meu blog "A rota para o poente" em 13/02/2010)


Esta semana tive a oportunidade de adquirir no McDonald`s um gracioso bonequinho do Chaves. Além de ser muito bonitinho, com uma expressão hiper-simpática e vir devidamente acompanhado por seu barrilzinho, a miniatura caminha de modo bastante engraçado, movida por uma corda. Passei algum tempo estudando esse movimento, e apreciando a engenhosidade do mecanismo.

De fato,o mecanismo em si é belo por sua simplicidade. Funciona de modo semelhante ao pedal de uma bicicleta, mas de modo invertido, ou seja, o movimento circular da mola impulsiona suas pernas, enquanto em uma bicicleta são as pernas que impulsionam o movimento circular da roda traseira, através do pedal.

Essas observações me levaram a curiosas reflexões. Comecei a pensar sobre esse gênero de mecanismo, classificado como um sistema de biela-manivela, amplamente usado em boa parte das máquinas elaboradas pelo ser humano. Basicamente, é um mecanismo que serve para transformar movimentos retilíneos em circulares e vice-versa. O pedal da bicicleta ou o boneco do Chaves são bons exemplos disso. Poderiam ser citados ainda os motores em geral, as bombas hidráulicas, a maior parte das máquinas industriais, entre muitos outros. Não me aprofundarei mais nessas explicações, pois me faltaria o conhecimento necessário para tanto.

Pensando nisso, lembrei-me de um documentário que assisti faz algum tempo, sobre um engenhoso artesão, matemático e astrônomo turco, chamado Al-Jazari, que viveu entre os séculos XII e XIII. Segundo documentos encontrados recentemente, aparentemente Jazari inventou o "nosso" mecanismo biela-manivela. Seu intento era o de criar máquinas capazes de transportar água de modo automático e eficiente, geralmente tirando-a de corpos naturais de água como rios, lagos, etc e passando-a para aquedutos. Essa era uma funcionalidade de suma importância para a região onde Jazari vivia, dada a aridez de boa parte do Oriente Médio. O sistema biela-manivela parece ter chegado ao Ocidente por volta do século XV, sendo registrado num manuscrito alemão da época, aplicado ao funcionamento de moinhos.

Contudo, é ainda mais interessante pensar que esse mecanismo não é exatamente uma invenção de Jazari, mas uma adaptação (ainda que extremamente engenhosa) de um mecanismo muito mais antigo, a manivela, já conhecida dos antigos romanos e largamente empregada por eles desde o século III a.C., e ainda em uso entre os contemporâneos do sábio turco. Todavia, a própria manivela não era uma invenção romana, pois artefatos arqueológicos recentemente encontrados apontam para o uso desse mecanismo pelos celtas da Península Ibérica já desde o século V a.C., empregado em moedores manuais para grãos. Seriam os celtíberos seus inventores? Impossível dizer.

Todas essas divagações me levaram a refletir sobre a historicidade das menores coisas, a ligar-nos qual fios invisíveis a centenas de gerações humanas, distantes no tempo e no espaço. Ora, pensemos em todo esse longo percurso saindo desde a elaboração da (aparentemente) primeira manivela pelos celtíberos, 2.500 anos atrás, espalhando-se por intermédio dos romanos, que passariam aos árabes seu uso, sendo apropriada, adaptada e modificada por Al-Jazari, desenvolvendo o sistema biela-manivela, que por sua vez chegaria três séculos mais tarde à Europa, onde seria empregada de inúmeras formas através dos últimos quinhentos anos, utilizada hoje para fins que não passariam pela cabeça dos celtíberos, dos romanos, dos árabes, de Al-Jazari ou dos moleiros europeus... por exemplo, fazer uma miniatura do Chaves caminhar graciosamente pela mesa de minha sala numa madrugada de sexta-feira!

No fim, os homens de todos os tempos e lugares estão ligados até pelas mais ínfimas coisas.

domingo, 1 de maio de 2011

Mutações culturais: a Páscoa entre judeus, cristãos e chocolates

Com uma semana de atraso, eis um novo post. Não pretendo aqui discutir o "verdadeiro" significado da Páscoa ou de seus símbolos e práticas, mas principalmente o modo como essa comemoração, ao longo dos séculos passou por inúmeras transformações, apropriações, convergências e divergências ao circular no âmbito de diversas culturas.

Como se sabe, a Páscoa é originalmente uma celebração judaica, Pessach, que comemora o êxodo, a saída dos hebreus do Egito, guiados por Moisés, tal como é narrado no Antigo Testamento. Como tal, é uma data importantíssima do calendário judaico, à medida que comemora um dos fatos fundadores dessa cultura. Um dos principais aspectos dessa comemoração é o banquete ritual familiar, onde, entre outras coisas, são consumidas ervas amargas, para rememorar o sofrimento do povo hebreu no cativeiro egípcio e durante as privações do êxodo.

Depois de séculos, a data seria apropriada pelos cristãos, com significados inteiramente diferentes, à medida em que passa a comemorar o martírio de Cristo na cruz e sua subsequente ressurreição três dias depois. Contudo, como narra o Novo Testamento, isso teria acontecido exatamente na época de Pessach, o que levou a uma curiosa superposição das duas comemorações, até porque, devemos lembrar, os primeiros seguidores do Cristianismo eram em sua maioria judeus.

Mais tarde, com a expansão do Cristianismo e especialmente no contexto do árduo combate do Catolicismo medieval pela cristianização efetiva das populações rurais, novas convergências: a Páscoa é assimilada aos festivais sasonais pagãos, que comemoravam a chegada da Primavera. Por sinal, muitos dos simbolismos agrários associados à Pascoa (trigo, ovos, coelho, etc) devem bastante a essa transação cultural. O próprio nome da Páscoa na língua inglesa, Easter, está relacionado a esse contexto, uma vez que provém da deusa pagã saxônica Eostre, cujo festival ocorria nessa época. Aliás, também é digna de destaque a consolidação da tríade Carnaval-Quaresma-Páscoa, nessa época, formando um circuito que leva do profano ao sagrado, por intermédio da Quaresma, que curiosamente tem cada vez menos importância no imaginário coletivo. Vale destacar uma curiosidade sobre a Quaresma: na Idade Média podemos dizer que ela "unia o útil ao agradável", uma vez que esse período de jejum e contrição coincidia justamente com o final do inverno europeu, período em que as reservas de alimentos guardadas no fim do Outono se tornavam escassas, ou seja, às motivações religiosas somavam-se outras, mais pragmáticas.

Por fim, o último capítulo de nossa história nos traz a época mais recente: a apropriação da Páscoa pela indústria e pelo comércio, fenômeno do século XX. Um de seus aspectos mais interessantes é o sucesso em transformar a data e seus simbolismos em mercadorias, especialmente os ovos, transformados em ovos de chocolate, prática muito recente; segundo minha avó relata, não havia nada disso em sua infância e adolescência, datando a introdução dos ovos de chocolate no Brasil da década de 50. Contudo, ainda mais interessante é o modo pelo qual a Páscoa passou por um processo de consciente esvaziamento de significados através da propaganda, passando de data religiosa judaica e cristã a comemoração laica, celebrada também por muçulmanos, ateus, agnósticos e até (discretamente) em países sem qualquer tradição cristã ou judaica, como é o caso do Japão.

Desse modo, podemos ver nessa tímida recapitulação o modo como ao longo de séculos uma comemoração passou por sucessivas transformações, atendendo a toda ordem de interesses, ora ganhando novos significados, ora perdendo-os.