Paris é cidade ao mesmo tempo encantadora e sufocante, fascinante e monstruosa. Respiramos um ar suave e denso, carregado com mais de dois mil anos de história, dois milênios de glórias e tragédias.
A cidade é monumental, cada esquina traz uma memória - lembranças doces ou amargas. Cada boulevard leva o nome de um general ou de uma batalha.
Palco de grandes triunfos do intelecto, das artes, da ciência, mas também de terríveis atos de violência e selvageria. Paris é tudo ou nada - o ápice da civilização e o abismo da barbárie ao mesmo tempo: a ópera e o massacre, o ballet e a guerra, o cavalete e a guilhotina, a escultura e o canhão, Victor Hugo e Napoleão III.
Mesmo o Louvre, palácio da beleza e do saber, já foi antro de intrigas e violências; Notre Dame, templo de arte e de intolerância. Para cada pedra ou tijolo, existe uma lágrima e uma gota de sangue; cada encanto se enraíza em mil tormentos.
O turista deslumbrado se deixa iludir pela beleza superficial, mas o historiador conhece as pulsantes entranhas de Paris.
Como não amar essa cidade? Como não detestar essa cidade? Paris é intensa demais: precisa ser amada e odiada.
O ar da cidade ecoa muitas vozes, cânticos de júbilo e gritos de dor. Paris tem um passado ensurdecedor...
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terça-feira, 27 de janeiro de 2015
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Olhares congelados
Tenho pensado muito sobre janelas.
Sempre fui fanático por elas, devo dizer. Sempre que chego a um ambiente novo, boa parte de minha atenção vai para o que se pode ver através da janela. No entanto, subindo as escadarias de Notre Dame, comecei a me dar conta de algo muito interessante: de certo modo, uma janela é um olhar congelado no tempo...
Precisamente ao ver essa janela, comecei a me perguntar: o que alguém via dessa janela, na Idade Média? De lá para cá, quantas pessoas já pararam aqui para olhar o panorama da cidade de Paris? Mas esse foi apenas o começo de uma reflexão, aprofundada visitando o Chateau de Vincennes.
Bom exemplo são as janelas do "chemin de ronde" (acima), o caminho percorrido pelas sentinelas para vigilância do castelo. Comecei a me questionar não apenas a experiência daqueles que estiveram à janela olhando, mas do processo criativo que produziu a janela a ser olhada. Essas janelas foram originalmente concebidas como postos privilegiados para a defesa do castelo, sendo testemunhos de uma concepção estratégica do terreno circundante. Construir uma janela é também dirigir olhares para algo que está em determinada direção. Toda janela traz embutida uma especificidade do olhar, uma perspectiva própria.
Por exemplo, Raymond du Temple, arquiteto do Chateau de Vincennes, construído para o rei Carlos V, foi habilíssimo programador de espaços. Sua grande cartada foi, certamente, a escada do rei, dando acesso aos visitantes.
O projeto era brilhante, correspondendo perfeitamente ao momento de consolidação da monarquia francesa. Essa escada de aparato convidava o visitante a subir lentamente, contemplando através de seus balcões a magnífica e grandiosa fachada do castelo, preparando sutilmente o encontro com o rei. Talvez, por um contágio do olhar, o monarca parecesse tão admirável quanto sua bela fortaleza. Ao mesmo tempo, quão diferentes os modos de ver incitados pelas grandes janelas da escada e as pequenas vigias do "chemin de ronde"! Raymond du Temple era também um exímio construtor de olhares...
Enfim, a janela é frequentemente portadora de uma intencionalidade, seja ela militar, pragmática, estética, religiosa ou mesmo política. Nesse sentido, a janela é testemunho de uma determinada perspectiva, de uma específica interpretação do espaço circundante e do olhar que se quer projetar sobre esse mesmo espaço.
No entanto, é essencial lembrar algo banal: que não se trata obviamente uma imagem congelada, afinal de contas o espaço muda constantemente ao redor da janela. Também é desnecessário dizer que me parece muito difícil (e provavelmente pouco útil) realizar uma "historiografia das janelas"... Ainda assim, vale a pena debruçar-se sobre uma janela antiga, qualquer janela, e imaginar, se perguntar o que seria possível ver dali em outros tempos e, principalmente, por que ela foi construída sob esse ponto de vista. Em suma, tentar enxergar a realidade através desse "olhar congelado"...
Sempre fui fanático por elas, devo dizer. Sempre que chego a um ambiente novo, boa parte de minha atenção vai para o que se pode ver através da janela. No entanto, subindo as escadarias de Notre Dame, comecei a me dar conta de algo muito interessante: de certo modo, uma janela é um olhar congelado no tempo...
Precisamente ao ver essa janela, comecei a me perguntar: o que alguém via dessa janela, na Idade Média? De lá para cá, quantas pessoas já pararam aqui para olhar o panorama da cidade de Paris? Mas esse foi apenas o começo de uma reflexão, aprofundada visitando o Chateau de Vincennes.
Bom exemplo são as janelas do "chemin de ronde" (acima), o caminho percorrido pelas sentinelas para vigilância do castelo. Comecei a me questionar não apenas a experiência daqueles que estiveram à janela olhando, mas do processo criativo que produziu a janela a ser olhada. Essas janelas foram originalmente concebidas como postos privilegiados para a defesa do castelo, sendo testemunhos de uma concepção estratégica do terreno circundante. Construir uma janela é também dirigir olhares para algo que está em determinada direção. Toda janela traz embutida uma especificidade do olhar, uma perspectiva própria.
Por exemplo, Raymond du Temple, arquiteto do Chateau de Vincennes, construído para o rei Carlos V, foi habilíssimo programador de espaços. Sua grande cartada foi, certamente, a escada do rei, dando acesso aos visitantes.
O projeto era brilhante, correspondendo perfeitamente ao momento de consolidação da monarquia francesa. Essa escada de aparato convidava o visitante a subir lentamente, contemplando através de seus balcões a magnífica e grandiosa fachada do castelo, preparando sutilmente o encontro com o rei. Talvez, por um contágio do olhar, o monarca parecesse tão admirável quanto sua bela fortaleza. Ao mesmo tempo, quão diferentes os modos de ver incitados pelas grandes janelas da escada e as pequenas vigias do "chemin de ronde"! Raymond du Temple era também um exímio construtor de olhares...
Enfim, a janela é frequentemente portadora de uma intencionalidade, seja ela militar, pragmática, estética, religiosa ou mesmo política. Nesse sentido, a janela é testemunho de uma determinada perspectiva, de uma específica interpretação do espaço circundante e do olhar que se quer projetar sobre esse mesmo espaço.
No entanto, é essencial lembrar algo banal: que não se trata obviamente uma imagem congelada, afinal de contas o espaço muda constantemente ao redor da janela. Também é desnecessário dizer que me parece muito difícil (e provavelmente pouco útil) realizar uma "historiografia das janelas"... Ainda assim, vale a pena debruçar-se sobre uma janela antiga, qualquer janela, e imaginar, se perguntar o que seria possível ver dali em outros tempos e, principalmente, por que ela foi construída sob esse ponto de vista. Em suma, tentar enxergar a realidade através desse "olhar congelado"...
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Notre Dame de Paris, 2012
Hoje realizei um velho sonho: visitar Notre Dame! Justamente Notre Dame de Paris, 1482 foi o primeiro livro de Victor Hugo que li, o início de uma grande paixão literária. Em grande parte devo a essa leitura boa parte dos desenvolvimentos posteriores de minha formação como historiador. Particularmente emocionante foi o encontro com as famosas gárgulas. O telhado de Notre Dame é um lugar para se sonhar...
O olhar sonhador dessa gárgula simiesca me parece muito curioso... Que panorama ele teria descortinado do alto da catedral na Paris medieval? Ele "viu", em seu posto de sentinela imóvel, a Île de la Cité e as duas margens do Sena se transformando ao longo de quase 850 anos de história. Debruçada no parapeito de Notre Dame, essa gárgula "assistiu" ao massacre de São Bartolomeu, a Revolução francesa e tantos e tantos outros acontecimentos centrais à história da França e do Ocidente...
Não resisti à tentação de um bate-papo ao melhor "estilo Quasímodo"... Por sinal, Victor Hugo é um personagem central da história de Notre Dame, à medida em que precipitou a formação de novos significados em torno do edifício e do patrimônio histórico francês em geral. Recomendo a todos a leitura do magnífico capítulo "Paris à vol d`oiseau", verdadeira obra-prima historiográfica. Escrevendo sobre Notre Dame, Hugo se tornou parte importantíssima da história da própria catedral. Que mais poderia desejar um escritor?
É impressionante pensar que essas esculturas estão lá há quase um milênio, e continuam tão vivas e fascinantes quanto à época em que sofreram os primeiros golpes do cinzel... Por sinal, o camarada aí em cima saiu de Hogwarts ou da Terra Média?
No entanto, é interessante observar que Notre Dame é mais que uma obra medieval: é um edifício vivo que encontrou sua evolução ao longo de séculos da história da França e de Paris. Por exemplo, que dizer dessa magnífica imagem de Joana d`Arc? Esculpida no ínício do século XX, a imagem remete também a um período da história francesa posterior à construção da catedral. Desde seu princípio, Notre Dame tem sido capaz de atrair e integrar transformações constantes. Talvez seja por isso mesmo a mais importante construção da Île de la Cité, resistindo aos séculos, enquanto todo o resto se desmanchava ao seu redor...
Contudo, a peça mais interessante para mim foi essa Nossa Senhora de Guadalupe, incorporada à catedral em 1685, sob encomenda de um aristocrata da alta nobreza francesa (esqueci seu nome!). Uma imagem originária do Novo Mundo, elaborada no seio das culturas ameríndias do México, conseguiu abrir caminho e encontrar seu espaço numa catedral construída no coração do Velho Mundo. Como são complexas as relações e mediações culturais que tornaram isso possível! Faz pensar na Guerra das Imagens, obra magistral de Gruzinski onde justamente a Virgem de Guadalupe ocupa papel central; lembra também o magistral Inferno atlântico de Laura de Melo e Souza: a América também moldou a Europa na Idade Moderna...
E como estará Notre Dame de Paris em 2112? Só as gárgulas saberão...
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