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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Entrevista - Embaixador Vasco Mariz

Depois de muito prometer, finalmente nossa primeira entrevista para a Oficina de Clio, com um convidado muito especial, o embaixador Vasco Mariz. Hoje aposentado, o embaixador representou o Brasil em diversos países e organismos supranacionais. Paralelamente à diplomacia, desenvolveu rica atividade como historiador e musicólogo, granjeando reconhecimento em nosso país e no exterior, tendo várias obras traduzidas. Completando 91 anos, permanece ativo: em março de 2012 lançará o livro Depois da glória, enquanto organiza um seminário comemorativo da unificação italiana no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. O embaixador nos concedeu gentilmente esta entrevista.

No Brasil temos uma longa e interessante tradição de diplomatas que se dedicaram paralelamente ao trabalho de historiador, oferecendo valiosas contribuições à nossa historiografia. É o seu caso, e também o de Oliveira Lima, Evaldo Cabral de Mello, Alberto da Costa Silva, entre tantos outros. Em sua opinião, existe tendência à renovação dessa tradição? Podemos esperar novos historiadores entre as próximas gerações do Itamaraty?
A vida diplomática tem momentos de intensa atividade em que o funcionário trabalha 24 horas por dia durante alguns dias tensos. Mas também tem períodos de calmaria, onde é possível, sem prejuízo do cumprimento de seus deveres, dedicar-se a algum hobby, como por exemplo fazer pesquisas e atuar como historiador. Foi o que fiz em minha carreira diplomática de mais de 42 anos. No momento conheço um jovem diplomata, que já publicou diversos livros de considerável interesse e agora está encarregado de organizar a exposição Rio Branco para comemorar o centenário de seu falecimento. Ele promete muito – Luis Cláudio Villafañe. Recomendei o seu ingresso no IHGB.

Ainda sobre diplomacia e História, de que maneira o senhor acha que a experiência como diplomata contribuiu para sua formação como historiador? Além disso, de que forma essa vivência afetou sua compreensão sobre a História?
A carreira diplomática nos obriga a estudar, pelo menos, a história dos países onde servimos e acredito que isso me levou a pesquisar personalidades de nossa história depois da minha aposentadoria. Daí saíram vários livros como o que espero lançar em março próximo, cujo titulo é “Após a glória”, isto é, o que aconteceu com algumas personalidades nacionais depois que ficaram famosas.

O senhor já é sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro há muitos anos. O que significa para o senhor ser sócio dessa instituição tão importante para a construção da historiografia brasileira?
Sou sócio do IHGB há quarenta anos exatamente, pois fui admitido em 1982. Creio que o IHGB me fez conhecido e respeitado nos meios intelectuais do país. Por isso tenho procurado retribuir. O seminário francês de 2009 e o seminário italiano, que se realizará em fins de março próximo foram organizados por mim por encomenda do presidente.

Muito se fala sobre o papel do IHGB para o conhecimento histórico no século XIX. Mas e o século XX? Para o senhor, que participou de boa parte dessa trajetória, quais foram as contribuições mais significativas do Instituto à historiografia brasileira no último século?
Eu destacaria a realização de congressos científicos importantes com participação internacional, a publicação ininterrupta da revista que se tornou a mais antiga das Américas, a promoção de pesquisas em arquivos portugueses e a publicação de inventários ou dos próprios documentos, a ampliação do acervo arquivístico, iconográfico e museológico e sua divulgação em exposições e publicações.

As últimas décadas foram marcadas por uma relação complicada entre a historiografia praticada em nossas universidades e o IHGB. Durante algum tempo a produção do Instituto foi tachada de antiquada, “positivista”, encarada com desconfiança. Mesmo a Revista do Instituto foi objeto de certo preconceito, como uma publicação ultrapassada. Contudo, nos últimos anos, particularmente na última década, temos assistido a uma nítida mudança: a universidade tem buscado nova aproximação ao Instituto; o preconceito contra a produção do Instituto vem diminuindo acentuadamente, passando mesmo por uma fase de revalorização, enquanto muitos professores universitários vêm se tornando sócios. Como o senhor interpreta esse processo, a que atribui essa mudança de atitude?
Toda entidade, cultural ou não, tem fases de maior ou menor atividade, segundo o dinamismo e o modelo de orientação de seu presidente. O IHGB, a entidade cultural mais antiga do Brasil, fundada em 1838 e cuja revista é publicada regularmente desde então, tem notável tradição, mas teve fases de menor ou maior atividade, de maior ou menor modernização. Sou membro do IHGB há exatamente 40 anos, desde 1982. Para lá fui convidado por Pedro Calmon, notável intelectual, que foi sucedido por outro respeitado historiador, Américo Jacobina Lacombe. Seu sucessor Vicente Tapajós sofreria do Peter principle, isto é, fora bom secretário-geral, mas desapontou como presidente. Desde 1995 o IHGB é dirigido por Arno Wehling, que tem sabido atrair para a entidade alguns dos melhores jovens historiadores do país e algumas personalidades intelectuais nacionais. O IHGB tem atuado com bastante eficiência e realizado seminários de apreciável oportunidade. Realizou um convênio com a editora do Senado Federal, que vem publicando anualmente três ou quatro números da revista, que hoje é considerada entre as melhores do país. Por tudo isso o atual presidente tem sido reeleito sucessivamente.

Ainda sobre a reaproximação entre o IHGB e a historiografia universitária, o que o senhor gostaria de ver concretizado nos próximos anos? Que frutos lhe parece possível que nasçam desse reencontro?
Nossos historiadores universitários, por melhores que sejam, estão um pouco engessados pelo excesso de trabalho. Desconfiam um pouco do IHGB, que consideram elitista e conservador. Por sua vez os sócios do IHGB tendem a minimizar o mérito dos historiadores profissionais, que tanto labutam contra fatigantes horários e remuneração modesta. Nós, os sócios do IHGB, temos por vezes a tendência de admitir o ingresso de algum figurão da política ou da diplomacia, que embora tenha considerável mérito pessoal e várias obras publicadas, não têm aquela vivência dos bancos universitários que me parece necessária para a formação do bom historiador. No momento, sinto que o corpo de sócios do IHGB está ficando um pouco idoso demais e tenho insistido com o atual presidente para estimular o ingresso de historiadores mais jovens. Temos intensificado parcerias com universidades como a realização conjunta de encontros científicos, cursos e seminários.

Como se sabe, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro foi fundado num momento muito especial da história de nosso país, de estímulo à produção intelectual nunca antes visto; por sinal, no mesmo ano também foram fundados o Arquivo Imperial e o Colégio Pedro II, como parte desse esforço. Naquela época, esperava-se que o IHGB cumprisse o papel de fomentar a produção de conhecimento sobre o passado e o território do Brasil, com o fito de pensar projetos de nação para um país recentemente independente. Na sua opinião, que papel o Instituto pode ou deve desempenhar no Brasil do século XXI?
Creio que o IHGB está desempenhando no momento uma variada atividade de estudos de toda a ordem sobre as diversas fases de nossa historia e tem estimulado trabalhos e pesquisas sobre personagens importantes menos estudados e que merecem uma melhor avaliação. Eu mesmo, na minha idade avançada, vou publicar no primeiro trimestre do ano corrente um livro que reúne diversas pesquisas e estudos sobre personagens de nossa história pouco estudados ou controvertidos. O atual presidente tem procurado estreitar as relações com os institutos históricos estaduais visando uma cooperação constante para valorizar a história, a memória e a própria identidade regional.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Teatro, aparência e poder

Escrevi esse pequeno texto como parte de minha dissertação de mestrado, mas acabei não utilizando. Resolvi postar por aqui. Por sua própria natureza de trecho inutilizado, ele começa abruptamente e não se encaminha a nenhuma conclusão, mas sei que os amigos tirarão suas próprias...
Segundo Edward Thompson, uma das noções essenciais para a compreensão das sociedades de Antigo Regime é a idéia de “teatro”. De acordo com Thompson, a exibição, o espetáculo, são essenciais ao Antigo Regime na construção de hierarquias sociais, bem como na afirmação do poder.

As execuções públicas são uma apresentação teatral, assim como as procissões, as festas, os atos de coroação, as exéquias, entre muitas outras coisas. Cada ato na vida social deve se fazer perceber por signos que o façam legíveis, em geral seguindo a um script pré-determinado e escrito coletivamente. Talvez a prática teatral que nos forneça a mais fiel semelhança com essa teatralidade social seja a Comedia dell`arte italiana, onde personagens fixos e com repertório pré-definido desempenham papéis onde se misturam as suas características costumeiras e a especificidade de cada enredo. Um dos mais célebres livros de Thompson, Costumes em comum é em grande medida, um esforço para decodificar e decifrar os signos dessa teatralidade.

É interessante aproximar essa noção de uma outra, a de “representação”, apontada por Roger Chartier como conceito chave para a compreensão da lógica de Antigo Regime. A proximidade entre as duas conceituações não pode passar despercebida. Afinal de contas, representar é o que fazem os atores sobre o palco. Segundo Chartier, “representação” é um termo polissêmico, podendo significar em sua noção mais básica a substituição de algo ausente por um signo, verbal ou não, que o substitua diante de alguém. A “representação” evoca aquilo que está distante ou invisível.

No entanto, de acordo com o historiador, a noção de representação serve no Antigo Regime para articular uma lógica que qualifica como “perversa”. Dentro dessa lógica, é abolida a distância entre a representação e o representado, essência e aparência se confundem como uma só coisa: a essência se realizaria, então, na aparência que a faria perceptível, através de seus sinais distintivos. Poderíamos exemplificar muito grosseiramente que não haveria rei sem coroa, ou papa sem mitra.

A perversidade estaria no fato de que a simples aparência seria capaz de fazer pressupor a essência, criando assim uma perigosa armadilha mental, que embotaria a capacidade dos indivíduos de perceber a essência separada da aparência e vice-versa. Assim, a aparência pura e simples seria capaz de se passar pela essência inexistente, assim como a essência desprovida da aparência que a codifica socialmente tornar-se-ia imperceptível. Retomando a metáfora teatral, seria impossível dissociar o ator do papel representado.

Como se trata aqui de atores, podemos pensar na interessante noção de “ator de si mesmo” cunhada por Fernando Bouza Alvarez ao tratar de Felipe II e da construção de sua imagem, no livro Imagen y propaganda. Cabe resgatar o contexto em que o riquíssimo conceito é empregado. Alvarez relata uma interessante anedota a respeito do Príncipe Prudente. Estaria Felipe II em viagem, e, passando por uma igreja, entraria para orar; passando adiante por outra igreja, oraria de novo. Interrogado por um dos nobres de seu séquito sobre esta atitude, o monarca responderia: “Acaso os que estão aqui me viram lá?” Segundo Alvarez, não devemos ver aí uma atitude hipócrita: os testemunhos íntimos sobre a profunda devoção do rei são inúmeros. Todavia, o cultivo da aparência exporia sua verdade íntima, sua “essência” aos que o vissem. Daí a riqueza do conceito de “ator de si mesmo”: a atuação não tem em vista a representação fraudulenta de um papel, mas a exposição de um papel que corresponderia à realidade.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Histórias de família - Tesouros escondidos

Quem nunca sonhou em caçar velhos tesouros esquecidos em algum lugar? Aqueles que, como eu, cresceram assistindo Os Goonies em inúmeras reprises televisivas com certeza já se imaginaram vasculhando cavernas cheias de armadilhas com mapas poeirentos nas mãos! De fato, esse tipo de história parece ter algo de muito cativante para a imaginação ocidental, desde muito antes de Robert Louis Stevenson publicar sua Ilha do Tesouro. Mesmo o povo de Laguna no início do século tinha sua cota de tesouros secretos...

Meu avô contava que em sua região natal corria a lenda de um tesouro perdido em pleno litoral catarinense. Dizia o povo de lá que escondidas em algum lugar perto de Laguna estavam as misteriosas "panelas de ouro dos jesuítas"... A historia dizia que antes de sua expulsão do Brasil, no século XVIII, os inacianos de Santa Catarina teriam deixado guardadas num lugar secreto das redondezas suas "panelas de ouro", um riquíssimo tesouro. A bem da verdade, nunca consegui entender muito bem como seria composto esse tesouro: seriam panelas feitas de ouro fundido? Ou teriam os astutos jesuítas guardado seus tesouros em panelas? No segundo caso, sempre me pareceu um lugar inusitado para se guardar uma fortuna! Por que não baús? Seria muito mais tradicional, afinal de contas... Meu avô achava mais provável a segunda opção, por razões que mencionarei adiante.

Ainda em meados do século XX as "panelas de ouro dos jesuítas" atraíam seu quinhão de aventureiros. Meu avô se lembrava de que durante sua infância houve algumas pessoas que chegaram a percorrer as matas da região em busca do cobiçado tesouro. Alguns desses Indiana Jones catarinenses vinham mesmo de cidades próximas. Apesar disso, a população de Laguna jamais viu as tão famosas panelas...

Há poucos anos encontrei um livro muito curioso, Tesouros do Morro do Castelo, de Carlos Kessel. Para minha surpresa, o livro falava sobre uma lenda muito parecida, que circulou no Rio de Janeiro até o desmanche do Morro do Castelo, em 1922. A versão carioca do "mito" falava também de um tesouro oculto pelos jesuítas antes de sua expulsão. Assim como no caso catarinense, o autor relata que muitas pessoas tentaram encontrar essa fortuna, como documentam notícias de jornais da época. Pelo visto, esses aventureiros provocavam tanta sensação no Rio quanto em Laguna, a despeito da siginificativa diferença de tamanho das duas cidades. Ainda mais instigante é que descobri, através desse livro, que histórias semelhantes sobre os supostos tesouros perdidos da Companhia de Jesus são comuns em muitos outros lugares do Brasil.

Tais lendas falam muito sobre o imaginário construído em nosso país desde a época colonial. Imaginário marcado pelo cobiçado ouro das Minas Gerais, mas também pela rica fortuna dos inacianos. Mitologia de santos do pau oco, piratas e contrabandistas, mas também de poderosos clérigos, que na sombria lenda pombalina se tornaram um "Estado dentro do Estado". Creio que uma análise aprofundada dessas histórias daria margem a um rico estudo de mitologia comparada, o que certamente escapa a nossas possibilidades aqui...

No entanto, o legendarium lagunense não vivia apenas de áureas panelas guardadas por cúpidos religiosos... Laguna escondia outros tesouros, menos feéricos, mas reais. Dizia meu avô que não era raro que durante obras nas velhas casas do lugar, construídas no século XVIII ou no XIX, fossem encontrados dentro das paredes recipientes, principalmente canecas de louça, abarrotados de antigas moedas de ouro. Essas ocasiões já eram pouco comuns quando meu avô era criança, mas meus bisavós, nascidos no final do século XIX, viram isso acontecer com maior frequência. É irônico pensar nessas economias familiares avaramente guardadas com tanto cuidado que caíram no esquecimento.

Não é difícil imaginar quanto esses acontecimentos afetavam o imaginário popular, principalmente numa pequena cidade. Creio que boa parte do fascínio pelas "panelas de ouro" vinha dessas humildes canecas; a realidade alimentava a lenda, incendiando a esperança e a ganância dos caça-tesouros de plantão... Meu avô atribuía a esses pequenos tesouros reais a opção pelas singulares panelas na invenção da lenda. Afinal, se os cidadãos comuns lagunenses haviam guardado suas pequenas fortunas em canecas, objetos cotidianos, apenas enormes panelas seriam artefatos do dia-a-dia suficientemente grandes para guardar a fabulosa riqueza da Companhia de Jesus....



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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Lévi-Strauss e os estudantes brasileiros

Estou lendo Tristes trópicos, para minha tese. O livro tem várias passagens interessantes, mas uma delas me chamou bastante a atenção. No trecho em questão, Lévi-Strauss relata sua impressão sobre os estudantes universitários brasileiros, nos idos de 1934. Achei curioso perceber o quanto esse "tipo" ainda é muito comum nas nossas universidades. Acredito que não seja exclusividade nossa, mas não posso imaginar quão difundido em outros países seja esse gênero de estudante...

"Nossos estudantes queriam saber tudo; mas, em qualquer área que fosse, somente a teoria mais recente lhes parecia digna de ser retida. Cansados de todos os festins intelectuais do passado, que aliás eles conheciam apenas por ouvir dizer, pois não liam as obras originais, eles conservavam um entusiasmo sempre disponível para os pratos novos. Em seu caso, seria melhor falar de moda que de culinária: ideias e doutrinas não ofereciam a seus olhos um interesse intrínseco, eles as consideravam como instrumentos de prestígio dos quais era necessário assegurar o monopólio. Compartilhar uma teoria conhecida com outros equivalia a vestir uma roupa já vista; arriscava-se a perder o rosto. Pelo contrário, uma concorrência encarniçada se fazia a grandes golpes de revistas de divulgação, de periódicos de sensação e de manuais, para obter a exclusividade do modelo mais recente no domínio das ideias. Produtos selecionados dos haras acadêmicos, meus colegas e eu nos sentíamos frequentemente embaraçados: formados para respeitar apenas as ideias maduras, nos encontrávamos ante o assalto de estudantes que ignoravam totalmente o passado, mas cujo informação estava sempre alguns meses à nossa frente. No entanto, a erudição, de que eles não tinham o gosto nem o método, lhes parecia ainda assim um dever; então, suas dissertações consistiam, não importando o tema, de uma evocação da história geral da humanidade desde os macacos antropóides para acabar através de algumas citações de Platão, Aristóteles e Comte, na paráfrase de um polígrafo viscoso cuja obra tinha tanto mais mérito quanto sua obscuridade dava uma chance de que ninguém mais tivesse tido ainda a ideia de pilhá-lo".
Também é interessante sua citação sobre a formação de séquitos em torno de alguns professores:

"Cada um de nós media sua influência pelo tamanho da pequena corte que se organizava ao seu redor. Essas clientelas mantinham uma guerra de prestígio cujos professores queridos era os símbolos, beneficiários e vítimas".

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O braçal trabalho dos cientistas

Em meu primeiro semestre de graduação tive de ler "Que é História?", de E. H. Carr. O autor comentava que na Idade Moderna o trabalho dos primeiros cientistas era frequentemente visto com desdém, por ser associado aos ofícios manuais, atribuídos à plebe. Essa informação me causou grande estranhamento na época, não devido ao menosprezo pelos manopera comum ao Antigo Regime, que já me era familiar. O que então me pareceu surpreendente foi essa associação entre a pesquisa científica e o trabalho braçal, tão diferente da concepção que temos hoje do cientista, enquanto intelectual, pioneiro do conhecimento. Desde então, me tornei mais familiar à ideia, através de leituras realizadas nesses últimos anos. Contudo, essa semana, pude finalmente compreender com toda a clareza!

A noite estava estrelada, ostentando uma belíssima Lua. Me lancei às atividades de astrônomo amador. Foi então que percebi o quanto necessitava me deslocar, movimentar o telescópio para um lado e outro, mexer daqui, dali e dacolá, puxar e empilhar cadeiras, sentar no chão ou me acocorar... Tudo isso para conseguir focalizar devidamente os corpos celestes que pretendia observar. De fato, por mais intelectual que tal atividade possa parecer, me dei conta da quantidade de trabalho braçal que ela envolve!

Comecei a pensar em outros casos, imaginando os primeiros anatomistas abrindo cadáveres... Que pensaria um aristocrata vendo Vesalius com um avental imundo de sangue, como um açougueiro? Ou os primeiros microbiologistas? Certamente a figura de Spalanzani fervendo caldos para cultura de bactérias, suando esbraseado pelo calor de um fogareiro não devia parecer muito lisonjeira a um fidalgo penteado, perfumado e bem vestido! Enfim, a própria imagem de um laboratório dessa época devia parecer aos nobres uma desagradável mistura de oficina, cozinha e açougue...

A questão é ainda mais marcante se pensarmos nas concepções sobre essência e aparência comuns ao imaginário do período. Como vários historiadores apontam, para a cultura de Antigo Regime, a aparência de algo deveria expressar de modo claro e inequívoco a sua essência. Um cientista suado, sujo, esfalfado seria, naturalmente, um trabalhador braçal, com toda a carga pejorativa associada aos ofícios mecânicos.

Parece-me elucidativo citar uma curiosa passagem escrita por Da Vinci, proclamando a superioridade do pintor sobre o escultor. Embora as ideias se refiram ao campo da Arte, parecem-me facilmente transponíveis ao das Ciências, mesmo porque as artes também eram consideradas ofícios manuais.

Segundo resume a historiadora da Arte Elisa Byington no livro O projeto do Renascimento, Leonardo afirmava que a escultura seria inferior porque "fazia suar, gerava mais cansaço físico e exigia menos esforço mental na sua realização". Descrevia ainda o escultor vivendo "em uma casa suja com a cabeça coberta por pó de mármore 'feito um padeiro'" (grifo meu). O pintor, ao contrário, "podia realizar seu trabalho bem trajado e sentado com grande conforto, segurando um pincel leve e usando cores agradáveis" (grifo meu). Não é difícil imaginar o que ele diria de Galileu Galilei fazendo ginástica ao telescópio...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Sobre a arte da pechincha e a invenção dos preços

No último domingo fui à Feira da Providência, adquirir novas quinquilharias e badulaques para minha coleção de artesanato. Acabei esbarrando no stand da Síria, onde vivi uma experiência, digamos, singular. Eu minha esposa vimos uma linda mesa em marchetaria. Perguntamos o preço a um vendedor, que respondeu em sofrível inglês. Como não demonstramos interesse e esboçamos movimento para sair, ele ofereceu um preço menor; começamos a negociar, mas tivemos dificuldade para compreender seu inglês. Perguntei se ele falava francês e - voilà! - apareceu outro vendedor, francófono. A negociação continuou, mas logo este último chamou um terceiro, e começaram a discutir entre si detalhes sobre o pagamento... em árabe. Logo havia outros ao nosso redor, e nos vimos em verdadeira Babel! No fim das contas, trouxemos a mesa por cem reais a menos. Infelizmente não sou muito versado nas artes da pechincha, pois creio que poderia tê-la comprado por muito menos!

Como todos sabem, o episódio não tem nada de muito espantoso, considerando a proverbial fama dos comerciantes do mundo islâmico, onde esse tipo de negociação é praticamente uma regra de etiqueta. Me senti num verdadeiro estereótipo de mercado árabe de filme das mil e uma noites! No entanto, essa pequena "aventura" me suscitou reflexões sobre alguns velhos e conhecidos temas, mais especialmente a "invenção" dos preços e a reificação das relações econômicas.

Uma das referências mas evidentes nesse sentido é o bom e velho Marx com seus célebres conceitos de valores de uso e troca, sobre os quais considero desnecessário tecer maiores comentários. Particularmente, minha curiosa negociação me fez pensar no quanto o processo de elaboração dessa conceituação enquanto ferramenta analítica é especificamente ocidental e contemporâneo. De fato, não me parece que Ibn Khaldun teria necessitado dela para pensar sobre as sociedades magrebinas da Idade Média,por exemplo; pelo contrário, essa diferenciação lhe seria provavelmente aparente, talvez mesmo evidente.

Por outro lado, nós necessitamos explicitar distinções desse gênero, pelas condições específicas com que nossa cultura experimenta a economia. Desde o século XVIII a sociedade ocidental tem presenciado insistentes e incessantes esforços por parte de pensadores e instituições visando à construção de uma imagem reificada da economia, onde se perde justamente a dimensão do mundo econômico como universo de relações estabelecidas entre grupos e indivíduos. A economia que vemos retratada nos periódicos, telejornais e muitos livros é um ser autônomo, dotado de vida própria e regido por princípios claramente identificados, supostamente previsíveis. Romper com a velha noção de "mão invisível" nem sempre é fácil para nós...

Justamente o que despertou minha atenção a partir dessa recente experiência é o quanto o contrário pode ser evidente em outro contexto cultural. A etiqueta oriental de negociação pressupõe justamente o contrário de nossa noção reificada de economia. Pelo contrário, a invenção do preço, suas dimensões relacionais e negociadas são por demais explícitas nesse contexto. Igualmente aparentes se tornam as relações de poder envolvidas em qualquer negociação (remetendo a Hegel e sua "dialética do senhor e do escravo"...). Nessa perspectiva, a ficção de uma economia autônoma e autorregulada se tornaria provavelmente uma ideia difícil de sustentar. Imagino com que dificuldade Aladim ou Ali Babá leriam Adam Smith...

sábado, 3 de dezembro de 2011

Histórias de família - Os fantasmas de meu avô

Tive a imensa sorte de nascer em uma família fortemente marcada pela transmissão de conhecimento de geração para geração através da tradição oral, além de inúmeros objetos passados como relíquias através de décadas. Por exemplo, tenho em minha parede um velho relógio de pêndulo com quase 150 anos de idade, importado da Alemanha sob encomenda para o casamento do avô de meu avô (seria meu tataravô?). Embora não funcione mais, já viu passar cinco gerações da família!

Cresci ouvindo meu avô e minha avó contando anedotas, episódios e casos dos mais variados tipos, desde situações cômicas a histórias tristes. Relatos de amores proibidos, guerras e revoltas, tesouros escondidos e assombrações. Enfim, fui educado numa tradição oral quase "tribal", sempre realimentada nas conversas familiares. Com toda certeza, essa vivência teve grande relevância em minha inclinação ao culto de Clio. Pretendo agora compartilhar com meus amigos esses tesouros de família...

Duas narrativas que me fascinaram quando criança foram as histórias de "fantasmas" contadas por meu avô, Waldo. Ele nasceu em Laguna, Santa Catarina, em 1925, e teve uma infância muito pitoresca. Ele contava que durante anos, em sua meninice, um cemitério da cidade fôra considerado mal assombrado... à noite as pessoas viam de longe luzes estranhas aparecendo sobre o campo santo... Não é necessário dizer que essas "aparições" provocavam medo em muitos. Até que em meados da década de 1930 andou por lá um cientista vindo da Alemanha, pesquisando alguma coisa na região (não sei exatamente o quê...). Quando soube da história, ele logo concluiu do que se tratava: fogo-fátuo, um fênômeno natural comum em lugares onde há corpos em decomposição, como brejos, pântanos ou cemitérios. A putrefação libera gase como fosfina (PH3) e metano (CH4), que entram em combustão ao contato com o oxigênio do ar. Aliás, as interpretações sobrenaturais sobre o fogo-fátuo abundam em diversas culturas da América, Europa e África. Até em Laguna... O episódio impressionou vivamente a meu avô, que o lembraria para o resto da vida. Posso imaginar a decepção que a explicação deve ter provocado em muitos habitantes da cidades, enquanto outros lagunenses devem ter permanecido céticos em relação à solução científica do fenômeno... Por sinal, me parece um episódio muito ilustrativo daquilo que Weber denominou Weltentsauberung, o famoso "desencantamento do mundo".

Outra história interessante e engraçada se passou anos mais tarde, por volta de 1942. Nessa época meu avô estudava na Escola de Grumetes, atual Colégio Naval, em Angra dos Reis. Muitos jovens grumetes estavam então impressionados com as frequentes aparições de um errante vulto branco sobre um morro próximo dos alojamentos. Obviamente, muitos pensavam que era um fantasma. Um corajoso sargento resolveu então desvendar o mistério. Munido de um revólver e um pedaço de pau subiu no morro e ficou à espreita, aguardando a aparição... Quando a assombração finalmente surgiu, o sargento saiu de seu esconderijo ao encontro do espectro, gritando: "Se for fantasma é tiro, se for homem é paulada!" O fantasma logo respondeu, apavorado: "Sou gente, sou gente!", tirando o lençol que o encobria. Era um dos grumetes, metido a engraçado, que saía escondido para assustar os colegas. Imagino que tenha se divertido bastante ao ouvir os relatos dos camaradas. Pobres rapazes, o verdadeiro fantasma que iriam enfrentar era a II Guerra Mundial! Mas essa é outra história...

O tradicional relógio dos Tavares!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Devaneios histórico-astronômicos

Depois de longuíssimas semanas de espera, finalmente chegou meu ansiosamente aguardado telescópio e comecei minhas atividades de astrônomo amador. Trata-se, obviamente, de um aparato para principiantes. Mas apenas para os padrões atuais, pois é superior aos primeiros telescópios empregados no século XVII pelos pioneiros da astronomia moderna. O fascínio da observação astronômica é indescritível. E, além de uma janela para o céu, também me fez ver com novos olhos a história da ciência.

Um dos aspectos que me chamou a atenção nesse sentido é a dificuldade do manuseio do instrumento; apontar o telescópio para a estrela que se quer observar (ou mesmo a Lua) não é tarefa tão fácil quanto parece... Pelo contrário, minhas primeiras tentativas de observar estrelas foram tão frustrantes que cheguei a pensar que seria impossível. Fiquei imaginando o quanto deve ter sido difícil para Galileu, Kepler e outros de sua época, afinal, ao contrário de mim, eles eram pioneiros que criaram ex nihil a arte da observação celeste. Quanta perseverança, fadiga, talvez mesmo fé, não lhes teria sido necessário? Difícil saber, difícil mesmo imaginar... Por outro lado, eles não precisavam enfrentar metade da poluição luminosa que temos hoje em dia!

Outra questão curiosa é a fragilidade dos dados empíricos obtidos através de um telescópio como esse. As interferências são inúmeras: um vento mais forte pode fazer as estrelas bailarem no céu ou água correr sobre a Lua, devido a efeitos de refração! É fácil corrigir mentalmente esses desvios, tendo uma base teórica prévia. Mas como fazê-lo sem ela? Igualmente, não é difícil perceber que uma estrela é um distante Sol, sabendo disso de antemão; sem esse conhecimento, todavia, parece muito questionável. Era exatamente nesse solo movediço, nesse terreno incerto, que os primeiros astrônomos se aventuravam. Não é à toa que muitos se mostravam resistentes ou reticentes em relação às revelações propostas pela astronomia. Não era meramente questão de fanatismo religioso. Ao contrário do que costumamos pensar na era Hubble, esses primeiros telescópios deixavam larga margem para as dúvidas.

Essa experiência só tem tornado mais evidente para mim o quanto a grande revolução do conhecimento da natureza na modernidade deve à abordagem matemática capaz de tornar inteligíveis esses dados empíricos. Mais revolucionário que o telescópio foi o olhar projetado através dele...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Qual é o tamanho do Brasil?

Há pouco tempo parei para refletir mais detidamente sobre uma situação com que tenho me deparado com certa frequência em meus poucos anos de exercício do magistério: ao comentar sobre as dimensões de nosso país, inúmeros alunos já manifestaram a firme convicção de que o Brasil é territorialmente pequeno. Sempre que encontro esse tipo de opinião esclareço que nosso país tem dimensões continentais, que é o quinto maior do mundo, que a Europa inteira caberia na superfície do Brasil e que, por exemplo, ele é nada menos que quinze vezes e meia maior que a França, maior país da Europa Ocidental, e por aí vai... A maioria deles fica muito surpresa com essas informações; mesmo aqueles que já sabiam que o Brasil é um país grande ficam espantados ao se darem conta de que ele é realmente ENORME.

Até poucos meses atrás simplesmente botava isso na conta da ignorância desses alunos. Entretanto, recentemente comecei a me indagar sobre o fundo ideológico por trás desse aparentemente banal desconhecimento sobre a área do Brasil. De fato, como tantas crianças chegam à conclusão de que nosso país é "pequeno"? Aliás, que significaria verdadeiramente ser um país "pequeno"?

Creio que em grande parte essa atitude seja derivada da exposição desses jovens à imagem comumente veiculada na mídia e frequentemente apropriada pela maioria de nossa população, entre os mais variados graus de instrução: o Brasil é um país miserável, com precárias condições de vida, assolado pela corrupção, tecnologicamente dependente, vítima do imperialismo capitalista, terra de corrupção, e muitos outros  etceteras e tais... Enfim, a velha imagem auto-depreciativa que nós brasileiros nos tornamos especialistas em construir e que os meios de comunicação de massa não cansam de alardear com seu sensacionalismo moralista barato. Diante desse quadro tão dramaticamente pintado com pinceladas de auto-complacência e tintas à base de complexo de inferioridade, que opinião meus caros alunos poderiam construir sobre as dimensões do território nacional? A de um país "pequeno", refletindo de modo muito eloquente a suposta condição subalterna do Brasil.

Assim como a maior parte de nosso povo, meus alunos estão cegos ao importante momento que temos vivido, fruto de muitos anos de transformações históricas ao longo do século XX, que cada vez mais vêm consolidando a posição de potência emergente de nosso país no plano mundial. Poucos percebem que, mais que um país grande, o Brasil é cada vez mais um agente de peso nesse mundo global e multipolar em construção.

Enfim, concluo por outro questionamento: a quem interessa um Brasil "pequeno"?

domingo, 13 de novembro de 2011

Ainda sobre a ocupação da USP

A brutalidade policial em si é profundamente lamentável, não há nada que a justifique, mesmo contra o pior dos traficantes, assassino ou estuprador. No entanto, a comoção pela violência contra os estudantes de classe média da USP me lembra outros momentos da hipocrisia elitista de nosso país. Cito um eloquente trecho de Thomas Skidmore em "Uma História do Brasil", sobre a Ditadura Militar, tão veementemente citada nessas últimas semanas...

"A elite sempre fora capaz de permanecer na ignorância do verdadeiro funcionamento do sistema de justiça criminal, o que mudou com a guinada altamente autoritária em 1968, uma vez que o movimento de guerrilha era liderado principalmente por jovens insatisfeitos da elite, não por trabalhadores. [...] As forças de segurança interrogavam todos os suspeitos da guerrilha com os métodos que eram normais para criminosos comuns mas não praticados com a elite. [...] Elite e não-elite tinham o mesmo tratamento. Quando relatos desse tratamento brutal vazavam, as famílias das vítimas da elite ficavam verdadeiramente chocadas."

Impressões sobre a ocupação da USP

De saída aviso que não pretendo aqui defender nenhum dos lados, nem discutir qual dos dois tem ou não razão. Nenhuma simpatia para com os estudantes nem para com as forças do governo. Tampouco pretendo falar da mídia tendenciosa mais do que já se falou ou seria possível falar. Pelo contrário, pretendo situar essa discussão num nível "metapolítico", propor o problema, não a solução; esta é uma simples provocação. Como assim?

Vamos direto ao ponto: o que mais tem me chocado ultimamente no Brasil, particularmente nesse caso, é a superficialidade do debate político articulado em nosso país. E não só pela grande mídia, mas pelas pessoas em geral. E digo mais, não pelo "povão" pouco instruído. Esses, infelizmente fazem o que podem, dentro das possibilidades que sua parca educação lhes faculta. O que me incomoda é ver pessoas com considerável grau de instrução expressando opiniões constrangedoras por sua superficialidade.

O que vi no caso USP foi uma polarização em torno de heróis e vilões. Os estudantes eram maconheiros ou paladinos da democracia, sem meios termos. Por sinal, achei a atuação desses estudantes patética pela inabilidade de articular um discurso que fosse muito além do brado em torno de palavras de ordem que já se tornaram verdadeiros clichês políticos em nossa sociedade, como "cidadania", "liberdade" ou "democracia". Por sinal, "Democracia" me parece a mais bela palavra inventada pelo léxico ocidental. No entanto, anda tão gasta, enxovalhada, surrada, que não diz muita coisa; o termo parece ter se tornado moedinha de cinco centavos, circula muito, valendo pouco. Que "democracia" é essa que todos almejam? Por outra, será que todos almejam a mesma "democracia"? Brevemente pretendo desenvolver melhor essa ideia em outro texto.

Voltando ao tema central, acho que o discurso político no Brasil, quiçá no mundo, conservador ou radical, sofre de anemia hoje. O debate se resume a uma fina casca, com uma polpa pouco suculenta. Espremido, rende pouco. Parece-me que, cada vez mais, na "era das imagens", a polêmica se resume a slogans, grafitados em muros ou compartilhados em redes sociais. Discussão política de verdade não se faz (apenas) com slogans e ideias baratas jogadas num vídeo de Youtube. Precisamos ir além dos moralismos e sensacionalismos políticos banais e piegas. Afinal de contas, como já dizia uma frase muito espirituosa cujo autor não lembro agora, "nada mais perigoso que um idiota com iniciativa"...

sábado, 15 de outubro de 2011

Leituras - "A ilha do dia anterior", de Umberto Eco

Um dos melhores romances históricos que já li. Passado no século XVII, o livro narra a história de Roberto Pozzo di San Patrizio, senhor della Griva, jovem fidalgo italiano que após um naufrágio chega a num navio abandonado numa ilha do Pacífico Sul. Ali divide seu tempo entre a busca de um intruso misterioso e as memórias de sua vida. A partir desses elementos o autor constrói uma narrativa não-linear que nos leva através de um passeio pela cultura seiscentista, passando pela infância de Roberto no Piemonte, sua participação no cerco à fortaleza de Casale, suas aventuras na Paris de Richelieu, além de uma viagem pelos oceanos entre excêntricos passageiros de um navio.

O romance adota inúmeros estilos de escrita ao longo de suas páginas mimetizando de forma curiosa e criativa as peculiaridades da literatura barroca. Através de inúmeros personagens marcantes o livro evoca as características mais variadas da época, com grande destaque para as mais diversas extravagâncias intelectuais; Eco lembra que este foi o século de Descartes e Galileu, mas também uma época de literatura exuberantemente exótica, de esoterismo delirante, de utopias mirabolantes e, principalmente, que as fronteiras a separar umas das outras eram muito tênues.

"A ilha do dia anterior" é uma verdadeira viagem pelo "Grand siècle", um livro que abre as portas para uma compreensão profunda e empática da mentalidade de uma época ao mesmo tempo muito semelhante e diferente da nossa...

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Chapolim Colorado no reino de Clio

No último post discuti algumas possibilidades de abordagem do Chaves numa perspectiva historiográfica. Hoje é a vez do Polegar Vermelho. "Oh, e agora, quem poderá me ajudar"?

A princípio, me parece que as aventuras do Chapolim Colorado constituem um universo ainda mais rico para a pesquisa do historiador, por diversos motivos. Como meus movimentos são friamente calculados, explorarei apenas alguns deles.

Uma possibilidade bastante instigante é utilizar os episódios "históricos" de Chapolim para estudar História e Memória na cultura popular. Afinal de contas, como sabemos, Chapolim é um grande contador de histórias, tendo já narrado as façanhas de Cristóvão Colombo, Leonardo da Vinci, Júlio César, entre muitos outros. Aliás, não podemos esquecer que geralmente essas histórias não são narradas isoladamente. Pelo contrário, os relatos de Chapolim são sempre feitos em função dos problemas vivenciados por algum personagem, geralmente desempenhando uma utilidade exemplar, numa perspectiva de "historia magistra vitae", o que por si só já daria um interessante estudo sobre os usos da História na cultura contemporânea. Também não podemos esquecer das inexplicadas viagens no tempo realizadas pelo Vermelhinho, que permitiriam abordagem semelhante, caso de suas aventuras no Velho Oeste, entre piratas, etc.

Além desses episódios "históricos" não podemos esquecer dos literários, que trazem versões chapolinescas de clássicos da literatura como Fausto, "Juleu e Romieta", Pigmaleão, etc. Esses episódios me parecem muito instigantes como fontes para o estudo das relações entre cultura popular e erudita, fornecendo material para Chartier nenhum botar defeito!

Por outro lado, existem outros aspectos instigantes a investigar, como os inúmeros episódios de Chapolim que fornecem alguma representação de situações contemporâneas à época de produção do seriado, especialmente da Guerra Fria, notadamente das corridas armamentista e espacial, como é o caso dos episódios com tramas de espionagem, viagens espaciais, ou armamentos e inventos mirabolantes, como o "extrato de energia volatium" ou o "debilizador potencial". Mas... "Palma, palma, não priemos cânico"! É importante lembrar que essas alusões ao contexto coetâneo nunca são diretas e explícitas, o que, na verdade, só torna seu estudo ainda mais interessante. Além disso, as referências são sempre distorcidas, exageradas, como convém à linguagem humorística, obviamente. Contudo, o que tornaria mais rica essa análise é justamente o caráter periférico de Chapolim, como produção mexicana, oferecendo uma perspectiva diferente do que podemos encontrar num filme de James Bond, por exemplo.

Nesse sentido convém destacar talvez a possibilidade de pesquisa mais significativa em torno do Chapolim. Não podemos esquecer que "El Chapulin Colorado" é um super-herói, notadamente um super-herói latino; por sinal, o único bem sucedido comercialmente, o que diz muita coisa. Afinal de contas, as aventuras de super-heróis são um gênero tipicamente ianque que não costuma encontrar muito sucesso em produções estrangeiras, apesar do evidente sucesso do material exportado dos EUA, como as bilheterias de cinema da última década comprovam fartamente. Uma análise detalhada da figura do Chapolim, de seus poderes, equipamentos, vilões, tramas e valores pode ser muito enriquecedora em termos da reflexão sobre as identidades na América Latina, sobre o modo como nós latino-americanos nos vemos, de que maneira o Chapolim simboliza nosso papel no mundo, etc. Afinal de contas, o papel dos super-heróis é justamente encarnar valores, como estão aí para comprovar Superman ou Capitão América. Por sinal, uma pesquisa como essa deveria necessariamente discutir outra curiosa figura, o Super Sam, "Oh, yeah"! O cotejo entre o Polegar Vermelho e sua contraparte ianque certamente daria oportunidade a reveladoras análises.

Esses dois posts foram apenas uma breve aproximação ao tema. Há muito a se aprofundar e pretendo explorar melhor o universo CH sob as luzes de Clio em outras ocasiões. Aliás, fica a dica para quem se interessar pelo tema; há um vastíssimo território por descobrir! "Não contavam com minha astúcia! Sigam-me os bons"!

domingo, 9 de outubro de 2011

Chaves & Chapolim - Objeto de estudo da História Cultural

Se você já torceu o nariz só lendo o título, só posso lhe dizer uma coisa: "você não vai com a minha cara"? Como meus caros amigos sabem, sou fã incondicional da obra de Roberto Gomez Bolaños, o Chespirito. O tema desse post é uma reflexão que venho desenvolvendo há alguns anos. Na verdade, causa-me estranheza a falta de trabalhos nesse sentido; por sinal, considero-a sintomática dos preconceitos que ainda grassam na academia. Afinal de contas, as séries em questão são um grande sucesso em TODOS os países da América Latina há nada menos que 36 ANOS, sem esquecer que com uma mínima renovação de episódios ao longo de todos esses anos. Não é necessária muita sensibilidade historiográfica para se perceber que há aí algum fenômeno cultural bastante significativo, que escapa ao mero efeito de massificação cultural. Contudo, como sabemos, as pesquisas voltadas para a produção artística de "alta cultura" são sempre vistas com mais benevolência, mesmo que as obras em questão não tenham um alcance social muito amplo. É preferível falar de filmes "de arte" que de cinema pipoca, como tem descoberto meu camarada Rogério Marques, que se aventura a percorrer sendas menos batidas.

Mas voltemos ao tema do post. Ultimamente têm sido publicados alguns livros sobre Chaves. Embora curiosos, a meu ver apenas um tem valor acadêmico apreciável, "Foi sem querer querendo", de Luís Joly, Fernando Thuler e Paulo Franco, fruto de uma pós-graduação em Comunicação Social. Na área de História, nada. Pretendo aqui ventilar algumas sugestões sobre como Chaves e Chapolim podem proporcionar vasto campo de estudos, sendo riquíssimas fontes primárias. Na verdade, Chapolim ficará para outra ocasião, pois há muito, muitíssimo a se falar. "Pois é, pois é, pois é"!

O universo de Chaves é um esplêndido microcosmo que representa de forma estilizada, distorcida e refratada uma complexa constelação de relações muito comuns nas grandes cidades latinoamericanas. De fato, a vila do Chaves é muito interessante pelas dinâmicas relacionais que apresenta, carregadas de tensão e ambiguidade.

Uma das relações que mais me fascina na série é aquela mantida entre Seu Madruga e Prof. Girafales, magistralmente sintetizada no famoso discurso de apresentação da peça das crianças no Festival da Boa Vizinhança, onde Girafales fala sobre Seu Madruga com uma fabulosa mistura de menosprezo, complacência e, talvez, uma ponta de inveja (vide citação nos comentários do post). Os diálogos entre os dois personagens são frequentemente marcados por certa reverência de Seu Madruga ao conhecimento e posição social do professor, apesar de certo desrespeito latente e dissimulado; por outro lado, é nítida a atitude de superioridade de Prof. Girafales, sem falar de seu ostensivo e explícito desprezo por Madruga, mal disfarçado pelas regras de civilidade. No entanto, essa relação tem seu reverso, e muitas vezes, sempre reticente e encabulado, Girafales recorre aos conselhos de Madruga, que diz ser um homem "mais vivido". A relação entre os personagens se baseia toda nas distâncias culturais, no abismo a separar cultura oral e letrada, instrução formal e aprendizado empírico, erudição e malandragem. De fato, sua inserção no mundo do trabalho diz muito: um é o funcionário público especializado e qualificado, o outro o biscateiro faz-tudo, sem emprego ou renda fixa, devendo seus famigerados 14 meses de aluguel... Um episódio onde essas distâncias culturais são exploradas de modo muito interessante é aquele onde os dois ensinam Chaves e Quico a "violar tocão"; as diferentes posturas e métodos dos dois em suas aulas mostram atitudes diversas em relação à cultura musical.

Outra relação interessante é a de Chaves e Seu Barriga, onde a tônica dominante é a benevolência do dono da vila em relação ao menino de rua. Sem dúvida, esta tem muito de ideológico. Barriga é um homem rico, que vive de rendas, mas ao mesmo tempo é bonachão e sempre que possível ajuda Chaves de alguma forma. Além disso, tolera estoicamente os meses de aluguel atrasado de Seu Madruga sem despejá-lo. Essas relações exploram as ambiguidades das relações de classe na América Latina de modo igualmente ambíguo. Nesse sentido é bom lembrar que todos se compadecem da condição miserável de Chaves, muitas vezes fazem algo para mitigar suas necessidades, mas jamais algo definitivo. Por sinal, Dona Florinda o emprega em seu restaurante, mas como trabalhador informal, não fosse a valorosa atuação da União dos Trabalhadores Pró-Juventude, da Associação Pró-Direitos Femininos e do Diretório Nacional dos Veteranos em Restaurantes (os outros significados para as siglas dessas respeitáveis instituições vocês já conhecem); aliás, no fim das contas, não é Chaves que conquista seus direitos, mas Dona Florinda, conscientizada, que os concede, de cima para baixo. Soa familiar, hermanitos?

Há muitas, muitas outras possibilidades a explorar, mas por hoje é só. "Sigam-me os bons"!

sábado, 24 de setembro de 2011

Leituras - "Sócrates, Jesus, Buda" de Frédéric Lenoir

Fascinante, um dos melhores livros que li neste ano. Interessantíssimo para pessoas de qualquer religião ou falta dela. O livro traça um estudo comparativo entre a vida e o pensamento desses três personagens, sob os mais diversos aspectos, apontando suas convergências, diferenças e complementaridades.

Com grande habilidade, o autor discute criticamente as fontes sobre a trajetória dos três, de forma impecável, além de esboçar as diversas interpretações elaboradas sobre os personagens ao longo dos séculos, em diversas tradições filosóficas e teológicas diferentes. Também os contextualiza historicamente de modo muito rico e esclarecedor, demonstrando as relações entre seus ensinamentos e ações e as dimensões políticas, econômicas e culturais do mundo em que viviam.

É importante destacar que o autor não se preocupa em determinar "verdades" religiosas a partir do pensamento de Buda, Sócrates ou Jesus; sua proposta é principalmente a de realizar um passeio filosófico entre o pensamento dessas três grandes figuras. Lenoir vence inúmeros desafios, elaborando uma obra que é ao mesmo tempo historicamente precisa, filosoficamente profunda, desprovida de preconceitos e temperada com grande sensibilidade.

"Sócrates, Jesus, Buda" está disponível em português em edição da Objetiva.