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domingo, 27 de novembro de 2016

O Marinheiro de Triste Figura

Meu avô era militar. Serviu na Marinha do Brasil durante a II Guerra Mundial. Se alistou voluntariamente em 1942, aos 16 anos, pois achava (talvez embalado pelas matinês) que defender a pátria e combater o nazismo eram deveres. O único super-herói que conhecera nos cinemas catarinenses, sugestivamente, era o Capitão América. Com menos de 20 anos de idade havia matado gente e perdido o movimento de um dos dedos operando uma peça de artilharia.

Ao contrário de sua mãe e de seu irmão, "getulistas" convictos, dizia que Getúlio era apenas um homem frio, calculista e manipulador. Com meu avô aprendi a desconfiar de todos os políticos e líderes, de direita ou de esquerda; sempre me alertou contra políticos e agiotas - se é que existe diferença. Também com ele aprendi a reverenciar figuras como Gandhi e Luther King. Era um homem de guerra que se curvava humildemente perante os homens de paz - talvez como o publicano que se sabe pecador, retratado nos Evangelhos. Ele sempre foi um fã de cinema, e mencionava muitas vezes um filme dos anos 50, cujo título esquecera, que narrava a história de uma prostituta de bom coração; o sabor evangélico me parece emblemático.

Suspeito que em grande medida seu precoce alistamento também fosse motivado por razões afetivas: meu bisavô, então marinheiro do Lloyd Brasileiro, fora convocado à guerra contra sua vontade e participava de comboios. Um bom filho segue voluntariamente o pai por rotas estranhas - e meu bisavô, ao que tudo indica, era um ótimo pai.

Meu avô sempre falou muito do cotidiano militar e tinha hilariantes histórias de caserna, mas nunca gostou de falar sobre situações de combate, e sempre evitava o assunto. Apenas uma vez, com a insensibilidade típica dos adolescentes, consegui arrancar um breve comentário: "Era terrível". Recebeu uma medalha que ainda guardo aqui em casa - uma daquelas peças de bronze que supostamente recompensam a bravura, mas nunca o vi se gabando daquele pedaço de metal. Uma medalha e um ferimento para o resto da vida - eis o que meu avô trouxe de tangível da guerra. Ajudou a sepultar italianos e alemães no fundo do Atlântico, mas jamais o vi proferindo qualquer palavra de ódio aos povos da Itália e da Alemanha. Pelo contrário, admirava o povo da Alemanha reunificada, que sobrevivera à devastação da I Guerra, à tirania de Hitler e à divisão pela Cortina de Ferro, reconstruindo seu país inúmeras vezes.

Às vezes acho que ele trazia uma grande melancolia por conta disso - e, por isso mesmo, me ensinou sempre o valor incomensurável da vida humana, como apenas aqueles que viveram sob a sombra do canhão sabem aquilatar. Meu avô, ao contrário de muitos outros companheiros de armas, era radicalmente contrário à pena de morte e abominava o slogan "bandido bom é bandido morto". Tinha ojeriza aos abusos da Polícia Militar.

Jamais teve armas, embora soubesse manejá-las, pois considerava a posse pessoal de armas uma ameaça à sociedade e, em primeiro lugar, ao próprio dono da arma. "Nunca reaja a um assalto: sua vida vale mais que qualquer dinheiro" - sempre me ensinou desde criancinha. Sempre evitou andar fardado pela rua; hoje é um perigo, mas naquela época era apenas exibicionismo barato. Também criticava o hábito inveterado de dar "carteirada", tão difundido entre os militares de outrora. Ao contrário do Gandola de Jô Soares, meu avô nunca mandou ninguém a canto nenhum. De certo modo, o Waldo militar e o Waldo civil não se confundiam - um equilíbrio difícil de atingir, especialmente naqueles tempos em que a farda trazia prestígio social quase ilimitado.

Aos 16 anos, num daqueles estúpidos momentos de rebeldia adolescente, eu disse (meio brincando, meio sério) que ele era um assassino - minha avó ficou indignada, enquanto ele apenas abaixou a cabeça com uma indecifrável tristeza, retirando-se da sala minutos depois. "Para chorar?" - hoje me pergunto. Essa imatura e inoportuna piada é provavelmente um dos maiores arrependimentos de minha vida; ainda não consegui me perdoar. Aquele sentido silêncio ainda me dói. Ele poderia ter reagido, recorrido à senioridade. Até um tapa seria aceitável diante de tamanha insolência. Mas ele, definitivamente, não era uma pessoa desse tipo - pelo menos à altura da vida em que o conheci.


Ao contrário de Bolsonaro, que nunca deve ter puxado o gatilho, meu avô jamais comemoraria a morte de Fidel Castro ou de qualquer outro ser humano. 

Meu avô venerava a Marinha do Brasil enquanto "irmandade", e falava do Cruzador Barroso, que buscara nos Estados Unidos com um entusiasmo infantil e um orgulho juvenil. Descrevia o Barroso como uma cidade flutuante. Não digo que o Cruzador tenha sido seu primeiro amor apenas porque já então namorava minha avó. O Barroso representou a Marinha do Brasil na coroação de Elizabeth II, e de seu convés ele saudou a rainha, durante a tradicional cerimônia de revista da frota nas águas de Portsmouth.


Revista da Frota em Portsmouth, 1953; possuo um exemplar desse mapa aqui em casa.

Gostava de histórias de piratas e acho que ficou tão encantado quanto eu quando minha tia me deu uma bela caravela Playmobil; me recordo nitidamente de nós dois brincando sentados no chão. Suas memórias sobre a importante expedição hidrográfica do José Bonifácio mapeando o litoral nordestino eram empolgantes. Dizia com indisfarçável orgulho que conhecia toda a costa brasileira do Maranhão ao Paraná, assim como as tempestades do Golfo do México. Viajara pelo antigo Caribe dos piratas, e talvez tivesse gostado de conhecer a atração imaginada por Walt Disney - gostava de lembrar que assistira Branca de Neve no cinema. Crescera soltando pipas ao vento do mar, nadando na praia e acompanhando o biso em pequenas viagens - algumas das últimas navegações veleiras de longa distância da marinha mercante em nosso litoral. Testemunhei mais de uma vez previsões meteorológicas acuradas proferidas com dias de antecedência, apenas usando o olhar atilado desde a infância.

Meu avô passara quase um ano nos EUA, onde recebera treinamento da marinha americana para atuar como fiel de navio (responsável por armazenagem e estocagem de gêneros variados). Ao contrário de muitos outros fiéis, meu avô nunca se envolveu com corrupção e sempre fez questão de que os praças fossem bem alimentados em "seus navios". Ele conhecia muitas histórias de cambalacho nas forças armadas (algumas delas MUITO engraçadas) e nunca se iludiu acerca da "honestidade" do regime militar. Cresci ouvindo curiosos relatos acerca de fraudes, "pistolões", contrabandos, desvios de verbas e materiais, entre outros comportamentos pouco valorosos. Uma das melhores histórias era sobre um sujeito que reformou a casa inteirinha com material de construção desviado de um estaleiro, levado na surdina, aos domingos (até os gatos pardos acordam tarde no final de semana). Meu avô sabia muito bem que muitos corruptos usam farda e sempre me lembrou disso. Fosse meu avô menos honesto, eu talvez tivesse crescido em algum bairro mais nobre, em lugar de gozar a doce infância que apenas as vilas da Zona Norte garantem.

Ele também tinha verdadeiro horror aos abusos de poder cometidos por muitos oficiais e às estúpidas separações estabelecidas entre "praças" e "oficiais" em diversos ambientes militares - por exemplo, nos serviços de saúde da Marinha, onde ainda hoje existem enfermarias e salas de espera separadas (tirando a morgue, pois a morte nivela). Às vezes, quando encontrávamos com velhos conhecidos na rua, eles sempre lembravam que a administração honesta de meu avô garantia boa mesa a TODOS que serviam em "seus navios", ao contrário da maioria das embarcações, onde a mesa dos oficiais sempre era mais farta. Meu avô sabia o que era igualdade e sempre lutou por ela de várias maneiras, com os meios a seu alcance, dentro e fora da Marinha - ao contrário de muitos "esquerdistas" que olham o garçom de cima e regateiam o preço da diarista. Waldo Luiz conhecia os antigos garçons do Amarelinho pelo nome.

Meu avô também era cavalheiro no mais alto grau. Desde pequeno me ensinou a respeitar e admirar as mulheres. Nunca o vi proferindo uma piada sexista ou me induzindo a comportamentos machistas. Nunca mostrou medo de que eu me tornasse "mariquinha" ou me pressionou para ser "machão". Qual Timur, nunca temeu Turandot e seus decretos ao "popolo di Pechino". Aos 4 anos de idade, em plena época dos Super Amigos, ganhei uma Mulher Maravilha de presente dele, o que escandalizou muita gente em minha escola - embora ele ficasse, a seu turno, escandalizado quando minha mãe me deixava lambuzar a cara de maquiagem para brincar de palhaço. Era um romântico em muitos sentidos, como apenas os guerreiros e trabalhadores do mar podem ser - aqueles que, como dizia Jorge Amado, nunca sabem se retornarão vivos da próxima jornada de trabalho. Aqueles que se despedem com beijos demorados que sempre podem ser os últimos. "Sua avó ainda é uma mulher muito bonita, mas ela era ainda mais linda quando jovem". Rio ao me recordar de uma cena que vi sem querer, em certo 1º de Janeiro: um beijo com direito a dentaduras enganchadas!

Com efeito, meu avô foi o último de uma longuíssima linhagem de marinheiros, cujas memórias se perdem na noite dos tempos. Marinheiros de cabotagem, que vagavam entre as vagas e vagalhões de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. Ainda em 2004 pude conhecer um velhinho em Laguna que se lembrava do "Paranaguá Velho" - apelido pelo qual meu bisavô era conhecido naqueles portos. O mais antigo testemunho que persiste dessa gente brava e temerária é uma pequena imagem setecentista de Nossa Senhora dos Navegantes, passada de mão em mão entre as gerações de mulheres do clã Tavares, tão acostumadas a rezar por seus homens submetidos aos caprichos de Iemanjá, Poseidon e todas as forças que, como dizia Homero, sacodem os muros da Terra. Reza a lenda familiar que uma de nossas matriarcas teria chegado de Portugal a Santa Catarina agarrada a um barril, como sobrevivente de um naufrágio. Quando li o Silmarillion não pude deixar de ouvir o eco mítico do mar que banhava as belas proas dos Teleri de Alqualondë como ainda banha os barcos de Laguna. Proas em forma de cisne, diz Tolkien. Sempre choro quando ouço o Cisne Branco. Sempre.

Fui iniciado muito cedo nos remos, no Parque de São Lourenço e no mar de Guarapari. Há dez anos não pego nos remos, mas tenho certeza que bastará sentar e estender as mãos, e os movimentos virão espontaneamente, pois brotam do sangue, dos nervos dos músculos. Deve estar em algum de nossos cromossomos. Sempre percebi que minha escolha por Clio em detrimento de Poseidon foi uma decepção para meu avô, embora ele jamais tenha verbalizado isso, respeitando minha liberdade, sem onerá-la com o peso esmagador de uma antiga tradição familiar. Se o Divo Posido requisitar um de meus filhos ou netos para suas proas, ficarei feliz por restituir o que lhe pertence.



Como muitos brasileiros de sua geração, meu avô tinha pavor do "Comunismo". Movido por esse pavor, temia (um tanto ingenuamente) uma revolução liderada por Jango: Cuba projetava uma longa sombra sobre o imaginário brasileiro daquela época, que apenas agora começa a se deitar. Achando que cumpria um dever, participou do Golpe de 64, "em defesa da democracia", e só tomou consciência da imprudência após a morte de Castello Branco - um atentado, tinha "certeza". 

Mesmo apesar desse arrependimento - ou talvez por conta dele - tinha também "certeza" de que Jango instauraria uma ditadura comunista no Brasil. Jânio - dizia ele - nunca fora comunista, mas também pensara em estabelecer uma ditadura. Ouvi muitas vezes as pessoas de minha família discutirem a natureza das famosas "forças ocultas" - assunto verdadeiramente teológico. Ao fim e ao cabo, meu avô sempre ressaltou que o Golpe fora, na verdade, uma "Contrarrevolução" que salvara o Brasil do perigo vermelho, e que uma ditadura comunista teria sido bem pior que a Ditadura Militar. As culpas e arrependimentos muitas vezes nos induzem ao exercício da História "contrafactual", suponho. Por outro lado, percebo que as conspirações permeavam o imaginário anterior e posterior a 64. Minha avó muitas vezes mencionava em tom cético os muitos boatos que corriam desde o Estado Novo; costumava terminar com uma pausa dramática, complementando com uma frase breve e enfática: "Dizem".

Cresci vendo meu avô berrar "Caudilho! Caudilho!" para a televisão sempre que Brizola aparecia na tela. Acusava o político gaúcho de ser um "demagogo", mas jamais o vi reproduzir o famigerado "Brizola defende bandido" (cuja recente reedição bem conhecemos). Tampouco me recordo de ouvir acusações infundadas sobre corrupção contra o cunhado de Jango. Como Lancelot ou Gauvain, Gernot e Giselher, ele sabia respeitar seus "adversários" na medida certa.

Apesar de todo esse pavor, quando lhe revelei, aos 14 anos de idade, minhas inclinações socialistas, sempre adotou uma postura respeitosa e jamais tentou me demover desse posicionamento. Somente depois de adulto compreendi a grandeza verdadeiramente democrática dessa atitude. Meu avô amava a liberdade, ao contrário de muitos que hoje gritam "golpe" enquanto lamentam a morte do "grande" Fidel. 

Ele realmente amava a democracia, com um amor romântico à la folie, como o Don José de Bizet, que ele tanto apreciava. Como todo romântico, amava platônica e idealmente: uma imagem brilhante e um tanto desencarnada da democracia americana. Afinal de contas, ele morou oito meses em Filadélfia (hoje tombada pela UNESCO), à sombra de William Penn e de Benjamin Franklin, de dois Congressos Continentais e da Constituição Americana, que ele muito admirava. Uma mitologia como tantas outras, comparável àquela que paira em torno de Havana - talvez, quem sabe, até mais real. Acabo de descobrir, graças ao Google, que o nome Philadelphia deriva do grego philos e adelphos, traduzível como "amor fraternal" ou "amizade fraternal". Meu avô provavelmente sabia disso, e imagino que devia apreciar esse nome. Ele também sonhava com um mundo repleto de fraternidade, como ex-católico-"não-praticante" e espírita-"não-praticante" - era um homem bastante espiritual, embora evitasse frequentar instituições religiosas.

Ben Franklin, imagino, teria apreciado a companhia de meu avô, que foi um homem muito "moderno", nos vários sentidos da palavra. Em 1951 trouxera dos EUA uma avançadíssima máquina de escrever portátil Royal (o notebook da época) e uma vitrola e muitos LPs quando a tecnologia ainda nem era comercializada no Brasil. A vitrola se foi muitas décadas atrás, e os discos foram doados à Rádio MEC - quando ouvir Caruso, Callas ou Sumac, talvez seja um desses. A máquina Royal permanece aqui em casa, e ainda uso um belíssimo grampeador Swingline forjado em aço - uma peça brutal, onde se adivinham talvez Le Corbusier e um Streamline tardio.

Liberdade, igualdade, fraternidade - sem saber, acho que meu avô me fez "jacobino". Sem a guilhotina, a seu modo, também ele era um jacobino.

Meu avô era um homem muito corajoso, amoroso, inteligente e generoso, de índole um tanto quixotesca. Contraditório, como todos nós. Errar é humano, e meu avô sempre agiu de modo coerente com suas convicções, equivocadas ou não; de certa maneira, em muitos momentos agiu certo pelos motivos errados. Não era ingênuo, nem cínico, embora tenha sido muitas vezes temerário. Nunca se furtou a participar da vida política de nosso país, e nunca deixou de assumir a responsabilidade por seus equívocos - ao contrário de muitos políticos que nunca sabem ou se lembram de nada. Pouco cedia à tentação do esquecimento. Sempre se posicionou com coragem e sinceridade, e nunca se esquivou covardemente de seus atos ou de suas consequências. A seu modo, meu avô foi um cidadão exemplar. Eu certamente não faria as mesmas escolhas que ele fez, mas certamente tento escolher como ele fez: com dignidade.

Muita gente chorou em seu velório, o que, segundo os chineses, é sinal de uma vida bem vivida. Um velho amigo, residente em São Paulo, veio para o Rio de Janeiro quando soube que ele "baixou enfermaria" no Marcílio Dias, delirante devido à violenta metástase cerebral. Esse velho companheiro de caserna dizia: "Só vou embora quando meu amigo sair desse hospital, saudável ou no caixão". Com efeito, ele só partiu do Rio depois do sepultamento. Acho que essa anedota diz muito sobre quem foi Waldo Luiz Tavares.

Meu avô sempre teve ojeriza a figuras como Castrou ou Médici: apenas ditadores cruéis, embora de lados diferentes das muralhas ideológicas. Apesar de socialista, concordo plenamente com ele. A imagem de todos os tiranos se torna pálida ao lado de pessoas vívidas e vividas como meu avô. Gosto de crer que ele hoje descansa na paz de Deus; se sua alma realmente ainda existir ou for em algum lugar, tenho certeza de que ele deseja o mesmo para Fidel Castro - que Deus o tenha.

A romancista Lian Hearn sugere que atingimos a verdadeira maturidade quando aprendemos a honrar e amar nossos pais embora sejamos capazes de enxergar claramente seus defeitos. Meu avô faleceu há exatamente dezesseis anos e um mês; a cada dia descubro, retrospectivamente, novos motivos para amá-lo. 

De certo modo, acho que esse texto testemunha minha entrada definitiva no mundo dos adultos, saindo finalmente do porto da infância para singrar esse mar aberto que fazia sonhar meus ancestrais. Parece que Ray Bradbury tinha razão: as digitais de nossos antepassados estão marcadas na argila de nosso cérebro...

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