quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Sobre automação, computadores, linguagem e plenitude humana

"Um historiador de tecnologia que morreu no ano passado, Thomas Hughes, falava sobre o conceito de momento [momentum] tecnológico: que a tecnologia, uma vez instalada em nossas estruturas e processos sociais ganha impulso próprio e nos puxa com ela. Então talvez a trajetória já esteja definida, que continuaremos seguindo pelo caminho em que estamos, sem questionar a direção tomada. Eu não sei. O melhor que posso fazer é tentar pensar com a máxima clareza possível sobre essas coisas, porque elas parecem tão complicadas e confusas.

Espero que, como indivíduos e sociedade, mantenhamos uma certa consciência sobre o que se passa, e certa curiosidade sobre isso, para que possamos tomar decisões que atendam a nossos interesses a longo prazo, em vez de ir cedendo a conveniência e velocidade e precisão e eficiência.

Creio que deveríamos solicitar de nossos computadores que eles enriqueçam nossa experiência de vida; que eles nos abram novas oportunidades, em vez de nos tornarem passivos olhadores de telas. E, no fim, penso que nossas últimas tecnologias, se pedirmos mais delas, podem fazer o que tecnologias e ferramentas fizeram através da história humana, que é tornar o mundo um lugar mais interessante para nós, e nos tornar melhores pessoas. No fundo, isso é algo que depende de nós".
Nicholas Carr

"Uma objeção é que, mesmo que você não compre a hipótese de que meu smartphone é efetivamente um pedaço de minha mente carregado na mão, é difícil ignorar as cumulativas evidências em torno das vulnerabilidades da cognição humana. Não somos apenas criaturas de hábitos; também somos criaturas de escrutínio consciente limitado e facilmente exausto. Distraia ou canse alguém - dê-lhe uns poucos problemas de cálculo mental a resolver e publicidade relâmpago nos cantos de sua visão e sua força de vontade é esgotada. "Cutucar" nossas decisões é agora uma ciência alimentada por bilhões de bits de dados. E que mecanismo melhor para cansar mesmo o mais atilado pensador que o incansável zumbido do hardware em nossos bolsos e software em sua nuvem circundante?


É esse exponencial impacto da tecnologia da informação que propõe o maior problema para tudo que costumávamos pensar como normal, equilibrado, autoconsciente e autorregulado. Vivemos em uma era de infiltração generalizada, e nossas patologias são aquelas do excesso. Junk food, projetada para um deleite que não conseguimos parar de engolir. Junk media, junk information, junk time - espasmos algorítmicos exigindo atenção, buscando se tornar parte de nossos padrões mentais".
Tom Chatfield

"Como aconteceu com o reino das finanças [na crise de 2008], pode acontecer com a tecnologia. Se as grandes edificações digitais vierem despencando abaixo - mesmo temporariamente - aqueles que mais deslumbradamente tiverem entregue suas pessoas às ferramentas smart ficarão com mais cara de bobos. Ainda assim, todos nós carregamos o risco de uma abordagem acrítica do "smart living": um tecido social tramado a máquina, que ao apertar de um botão ou arrebentar de um cabo, poderia se desmanchar inteiramente".
Tom Chatfield

"Como computadores não podem vir até nós e conhecer-nos em nosso mundo, devemos continuar ajustando nosso mundo e nos levando até eles. Definiremos e regularemos nossas vidas, incluindo nossas vidas sociais e nossas percepções sobre nós mesmos, de maneiras que conduzam ao que um computador pode 'entender'. A sua estupidez se tornará a nossa".
David Auerbach

"Em termos computacionais, fazer as coisas de modo que o sistema não 'entende' é não fazer absolutamente nada. É tornar-se incompreensível, absurdo, como tentar introduzir uma banana numa impressora, em lugar de papel. O que conta é sinônimo do que é contado [contabilizável]".
Tom Chatifield

"O que nos traz de volta ao futuro do autocorrect e autocomplete: nos encorajando a não pensar profundamente demais sobre nossas palavras, a tecnologia preditiva pode mudar sutilmente o modo pelo qual interagimos uns com os outros. À medida que a comunicação se torna um ato menos intencional, oferecemos aos outros mais algoritmos e menos de nós mesmos. Por isso argumentei em Wired no ano passado que a automação pode ser ruim para nós; pode nos fazer parar de pensar. ~[...] Quando algoritmos estudam nossa comunicação consciente e subsequentemente nos repetem para nós mesmos, eles não identificam o ponto em que essa reciclagem se torna degradante e unidimensional. (E perversamente, a frequência de uso de palavras costuma receber peso positivo quando algoritmos calculam relevância). [...] Quando nos conectamos uns com os outros, deveríamos lembrar que, embora sejamos consistentes em várias maneiras, não somos produtos uniformes, produzidos em massa e condenados a conversas redutoras, insossas e sem inspiração. Temos coisas espontâneas a dizer que nunca havíamos antecipado; declarações e questões que exigem expressão cuidadosa, nuançada e formulada de modo inédito".
Tom Chatfield

"Ao reprojetar sua versão online, o LA Times fez com que cada matéria comece com três resumos tuitáveis. E eles fazem isso acima do artigo, assim você pode tuitar sem mesmo lê-lo e decidir o que você pensa sobre o assunto. Tweeters de sucesso usarão isso? Provavelmente não. Mas me preocupa o fato de que isso vem se tornando cada vez mais infundido na arquitetura dos sistemas. [...] Exceto que predizer você é predizer um você previsível. O que por si só subtrai algo de sua autonomia. E encoraja você a ser previsível, a ser um facsimile de si mesmo. Então é previsão e indução ao mesmo tempo [...] Eu acho que o slogan que responde isso seria algo como 'esforço é o preço do cuidado'. E por esforço quero dizer uma presença deliberadamente focada. Quando abdicamos disso, injetamos menos cuidado em uma relação. É o que penso que a automação faz. É o que acho que essas pessoas [desenvolvedores] deixam fora da equação".
Evan Selinger

"O QG do Google, em Mountain View, California - o Googleplex - é a alta igreja da Internet, e a religião praticada entre suas paredes é o Taylorismo. Eric Schmidt, executivo chefe da empresa, diz que o Google é 'uma companhia fundada em torno da ciência da mensuração', e busca intensamente 'sistematizar tudo' o que faz. Usando os terabytes de dados comportamentais que coleta através de seu motor de busca e outros sites, conduz milhares de experimentos por dia, segundo a Harvard Business Review, e usa os resultados para refinar os algoritmos que cada vez mais controlam como as pessoas encontram informação e dela extraem sentido. O que Taylor fez pelo trabalho manual, Google vem fazendo pelo trabalho mental. [...] No mundo do Google, o mundo em que entramos quando ficamos online, há pouco espaço para a confusão da comtemplação. A amibguidade não é uma abertura para o insight, mas um bug a ser consertado. O cérebro humano é apenas um computador obsoleto que precisa de um processador mais rápido e um HD maior. [...] Quanto mais rápido navegamos na Web - quanto mais links clicamos e páginas vemos - mais oportunidades Google e outras companhias encontram para coletar informação sobre nós e nos apresentar anúncios. A maioria dos proprietários da Internet comercial têm interesse financeiro em coletar as migalhas de dados que deixamos enquanto pulamos de link em link - quanto mais migalhas, melhor. A última coisa que essas companhias querem é encorajar a leitura tranquila ou o pensamento lento e concentrado. É de seu interesse econômico nos levar à distração. [...] No mundo de 2001, as pessoas se tornaram tão mecânicas que o personagem mais humano acaba sendo uma máquia. Essa é a essência da sombria profecia de Kubrick: quanto mais dependemos de computadores para mediar nosso entendimentos sobre o mundo, é nossa própria inteligência que se aplaina em inteligência artificial".
Nicholas Carr

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