sábado, 19 de novembro de 2016

Como narrar batalhas?

Muitos tentam, mas narrar boas cenas de batalha é para poucos. Quase sempre acabam curtas ou, na maioria dos casos, longas demais. Mesmo o maravilhoso C.S. Lewis deixa a desejar nesse quesito - os combates de As Crônicas de Nárnia ganharam muito na transição para o cinema... Acho que dois autores exemplares nesse tipo de narrativa são Tolkien e Victor Hugo. A saga Otori de Lian Hearn também oferece bons modelos. A tomada da Tourgue que encerra o romance histórico 93, de Hugo, se prolonga por vários capítulos eletrizantes - mas Hugo era Hugo. 

Acho que o melhor "método" é começar por uma boa descrição do local, deixar bem claro o que está em jogo naquela batalha, e depois partir para a ação, pincelando de quando em quando as emoções dos personagens. Descrições excessivamente detalhadas de trajes, armas etc deixam a narrativa pesada e quebram o ritmo. A meu ver, o foco deve ser na ação: mais advérbios, menos adjetivos! Também vale lembrar que batalhas são momentos de intensa emoção, e o exagero bem temperado pode ser benéfico à narrativa. Para quem deseja uma visão "realista" de um campo de batalha, basta ir a um grande açougue...

Às vezes é melhor abordar apenas a perspectiva de um personagem - lembrando que ninguém vê tudo numa batalha de verdade. Hearn faz isso maravilhosamente em A rede do céu é vasta, onde acompanhamos o desenrolar de um combate pelo olhar de Shigeru Otori. A aflita espera do personagem, que assiste boa parte do confronto sem compreender bem o que acontece, constrói um eficiente crescendo que eleva o suspense até a nervosa entrada de Shigeru na refrega.

Vale salientar ainda que batalhas "cinematográficas" não funcionam muito bem em livros: há profunda diferença entre linguagem cinematográfica e literária. A edição cinematográfica é muito ágil, e imitá-la em livro é a receita para o fracasso. Para ficar ainda no campo cinematográfico, o Japão e a China oferecem alternativas curiosas: Ran de Kurosawa e Herói de Zang Yimou merecem ser assistidos com atenção. A maldição da flor dourada, também de Yimou, apresenta uma instigante abordagem inspirada pela ópera chinesa, que bem demonstra o valor do exagero.

Dependendo do caso, acho que vale mais a pena narrar uma campanha ou um trecho de campanha, aprofundando apenas um pouco em batalhas específicas. Quem joga games de estratégia sabe que a memória guarda melhor episódios gerais que específicos: você lembra um grande ataque de arqueiros, mas não uma flechada específica...

A linguagem dos quadrinhos representa um curioso meio-termo entre o cinema e a literatura, e merece ser estudada com atenção. Hergé é um mestre nesse quesito, embora os álbuns de Tintin não costumem conter grandes batalhas. A ilha negra e A orelha quebrada possuem interessantes narrativas visuais de confrontos entre pequenos grupos. As batalhas navais de O segredo do Unicórnio e Coke en stock (Perdidos no mar ou Carvão no porão em português) também são magníficas. Por fim, O caranguejo das pinças douradas possui uma cena de batalha no deserto que beira o virtuosismo. Na vertente americana, as já clássicas HQs dos X-Men desenhadas por Jim Lee oferecem boas ideias. Mangás, em geral, também trazem outra rica abordagem - tenho um fraco especificamente por Rurouni Kenshin (Samurai X) e Shaman King.


Numa vinheta, temos Capitão Hadock correndo contra os tuaregues; na seguinte, Hergé nos apresenta os tuaregues correndo amedrontados sob os gritos do Capitão, montando da esquerda para a direita uma fluida sequência num mesmo quadro: um atirador deitado, outro de joelhos, um terceiro que se vira, e outros que correm.

A pintura histórica também captura grandes batalhas num único olhar, e possui uma narrativa visual poderosa - na qual Hergé muito se inspirava, por sinal. Os cariocas podem encontrar bons exemplares no Museu Nacional de Belas Artes e no Museu Histórico Nacional - ver "ao vivo" faz toda a diferença...

Os livros também possuem uma linguagem mais próxima à audição que à visão, então é interessante valorizar a sonoridade do conflito. Nesse sentido, uma descrição vívida dos gritos e falas dos personagens pode contribuir bastante: como esquecer os breves e eficientes gritos de "Morte!!!" dos cavaleiros de Rohan em O retorno do rei...? 

De resto, historiadores costumam fazer boas narrativas de batalhas, sob uma perspectiva mais "objetiva", e podem fornecer ideias interessantes ao romancista. Crônicas de pessoas que participaram de batalhas reais, embora pouco "confiáveis", podem também enriquecer a bagagem do autor de ficção.

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