Excelente avaliação. Recomendo a leitura a todos os interessados no debate.
"Além disso, pelo princípio da diferença, será importante constar do currículo aquilo que é diverso na origem, mas que, hoje, no século XXI, está em relação, como: a história e cultura chinesa, tanto por seu valor em si, como pelo papel da China hoje; o mesmo vale para a Índia, com sua imensa riqueza histórica e cultural, mitológica e ritual; assim, também, as civilizações ameríndias e africanas pré-históricas, pois estão na gênese de parte significativa das concepções de mundo e cultura no Brasil e são pouco conhecidas. Em todos os temas de interesse universal, deve buscar-se a inclusão dos grupos subalternos, das mulheres, dos comportamentos minoritários, da cosmovisões também minoritárias. A historiografia brasileira sobre a Antiguidade, a Idade Média e a Modernidade tem se destacado, aqui e lá fora, também por estudar esses aspectos, sempre com o apoio das agências de fomento e das universidades. O mais importante, deve ressaltar-se, é que tais conteúdos da História universal devem estar explicitados e detalhados em um currículo, como é o caso em outros países que se preocupam com a inclusão social, de modo que esse conhecimento universal não fique restrito a poucos".
Texto completo
domingo, 21 de fevereiro de 2016
Objetividade, subjetividade e intersubjetividade
Objetividade é importante, subjetividade é mais importante ainda, mas a
intersubjetividade é simplesmente ESSENCIAL.
Na maior parte das vezes, aquilo que ilusoriamente tomamos por objetividade não passa de intersubjetividade. Por outro lado, na maior parte do tempo, nossa subjetividade está calcada nas relações que mantemos com outros sujeitos (humanos ou não), constituindo verdadeiramente uma experiência intersubjetiva, por mais sutil que possa parecer essa intersubjetividade.
No fundo, talvez não existam realmente objetos no sentido próprio do termo, apenas sujeitos de diversas naturezas e as interações entre eles, constituindo um amplo, múltiplo e complexo campo de relações intersubjetivas, dentre as quais algumas se nos afiguram, de modo provisório, efêmero e um tanto arbitrário como relações sujeito-objeto. Isso é particularmente verdadeiro para as ciências humanas e biológicas, mas creio que, com as devidas ressalvas, também se aplique em alguma medida às exatas.
Na maior parte das vezes, aquilo que ilusoriamente tomamos por objetividade não passa de intersubjetividade. Por outro lado, na maior parte do tempo, nossa subjetividade está calcada nas relações que mantemos com outros sujeitos (humanos ou não), constituindo verdadeiramente uma experiência intersubjetiva, por mais sutil que possa parecer essa intersubjetividade.
No fundo, talvez não existam realmente objetos no sentido próprio do termo, apenas sujeitos de diversas naturezas e as interações entre eles, constituindo um amplo, múltiplo e complexo campo de relações intersubjetivas, dentre as quais algumas se nos afiguram, de modo provisório, efêmero e um tanto arbitrário como relações sujeito-objeto. Isso é particularmente verdadeiro para as ciências humanas e biológicas, mas creio que, com as devidas ressalvas, também se aplique em alguma medida às exatas.
Quem fala sobre Educação Básica no Brasil?
Há décadas a opinião de economistas, burocratas e professores universitários conta
mais que a dos professores de ensino fundamental e médio para o
desenvolvimento de nossas políticas públicas na educação básica. Por
isso mesmo, me parece, a educação básica brasileira permanece à deriva há décadas,
perdida em "aventuras" e projetos custosos, ineficientes e até mesmo destrutivos. Já
passou da hora de ouvir o que os VERDADEIROS especialistas têm a dizer! O
verdadeiro especialista é aquele que conhece profundamente o cotidiano
da educação básica, que vive de perto a realidade da escola pública, não
aquele que observa de longe.
Todas as opiniões são válidas e muito necessárias, mas existe uma óbvia e profunda assimetria nos diálogos e discursos que se estabelecem acerca do ensino básico em nosso país. Obviamente essa não é a única razão dos problemas vivenciados na educação básica em nosso país, mas eu diria que é, sim, um GRANDE problema.
Não falo isso por puro "achismo"; trata-se de conclusão derivada de inúmeras experiências profissionais e acadêmicas. Leciono na Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro há 8 anos, e já trabalhei na coordenação de um projeto pedagógico de grande porte no nível central, os Cadernos de Apoio Pedagógico. Há 3 anos trabalho na FAETEC-RJ, uma das ilhas de excelência no ensino público fluminense, onde tenho assistido a implementação, de cima para baixo, de projetos e políticas que as comunidades escolares não consideram corresponder a seu efetivo interesse, com resultados por vezes deletérios. Além disso, já lecionei em uma universidade particular e em uma federal, como bolsista de doutorado, sem contar com a experiência acadêmica de pós-graduação, em mestrado, doutorado e pós-doutorado.
O que percebi claramente, transitando por todos esses espaços de reflexão e prática educacional, é que nem todas as vozes são ouvidas da mesma maneira. Existem aqueles que são mais costumeiramente aceitos como sujeitos de discursos sobre a educação (entre os quais burocratas, economistas e professores universitários), enquanto outros são normalmente tidos como objetos desses discursos (os professores do ensino básico). Existe uma nítida hierarquização das opiniões, onde justamente os profissionais mais diretamente envolvidos nas atividades de educação básica parecem ser sistematicamente relegados ao nível hierárquico mais baixo. Isso fica evidente, por exemplo, nas dinâmicas que se configuram no âmbito dos grandes projetos educacionais das redes de ensino básico; basta observar quem bate o martelo e quais opiniões adquirem mais peso nas deliberações - sem falar nas discrepâncias de remuneração...
Cabe esclarecer: não estou acusando de forma alguma as PESSOAS na academia de terem essa postura (nem faria sentido, visto que também eu participo das dinâmicas acadêmicas); o problema todo está no conjunto de RELAÇÕES entretecidas historicamente em torno da reflexão sobre as políticas públicas em educação, relações essas que muitas vezes nos ultrapassam, nos envolvem e conferem à nossa ação sentidos que não correspondem plenamente às nossas posturas ou intenções.
O nó górdio, me parece, é o peso específico que cada opinião ganha nos debates; os "lugares de fala" são normalmente considerados de maneira muito diferenciada, independentemente da formação acadêmica propriamente dita. É uma questão de determinado prestígio associado a determinadas posições; há muitas nuances presentes em gestos, atos e palavras, como se vê, por exemplo, nos cursos de capacitação oferecidos pelas secretarias de educação - é só prestar atenção às pessoas que são escolhidas para falar nesses cursos, e aquelas que são "obrigadas" a ouvir. Se não há aí uma hierarquização de saberes implícita, é uma estranha acumulação de coincidências.
Situando a discussão num plano mais concreto, algumas redes públicas de ensino contam com muitos profissionais com doutorado e produção acadêmica consistente em todas as disciplinas, mas estes nunca, ou muito raramente, são escalados para trabalhar nessas capacitações. E, convenhamos, ter um doutor inserido na realidade escolar falando sobre o assunto me parece muito mais produtivo numa capacitação do que trazer um doutor que não tem, muitas vezes, experiência alguma no ensino básico. Nada disso quer dizer que haja (necessariamente) uma postura de superioridade por parte dos professores universitários que aceitam participar desse gênero de capacitação; no entanto, independentemente da postura pessoal do professor que ministre a aula ou o curso, a configuração geral de cada curso, e do conjunto de cursos ao longo do tempo e, transversalmente, oferecidos nas diversas disciplinas, caracterizam de forma "estrutural" um conjunto de relações marcado pela premissa (mais ou menos) implícita de que alguns estão "autorizados" a pensar a educação enquanto sujeitos, restando aos outros a posição de objetos.
Outro exemplo - em publicações voltadas para educação básica, as reportagens costumam enquadrar as opiniões dos profissionais em dois planos muito distintos: geralmente se retratam opiniões de caráter técnico/teórico sendo proferidas por professores universitários e o professor do ensino básico aparece apenas relatando alguma experiência profissional pontual que, de alguma forma, ratifique a perspectiva proposta pela reportagem. Mais uma vez, isso não significa que, necessariamente, o professor universitário entrevistado para a reportagem veja as coisas nesses termos, mas sua opinião será, normalmente, enquadrada pelo jornalista ou pela redação num conjunto de referências de modo que ela ganhe determinada conotação.
Por sinal, minha reflexão inicial foi motivada justamente por uma entrevista em que um economista "de aluguel", "especialista" em educação, falava com ar profundo e entendido, verdadeiras barbaridades. Enfim, não é uma questão de disputa, até porque todos nós, assim como nossos familiares, ocupamos cada uma dessas posições em um ou outro momento da vida, e o diálogo é extremamente necessário, útil e construtivo; é um assunto sobre o qual devemos todos cooperar de modo amplo e profundo. No entanto, esse diálogo precisa ocorrer de forma simétrica - e não é isso que acontece, o que muitas vezes causa indignação entre os professores do ensino básico. Pior ainda, temos pouquíssimos espaços onde expressar essa indignação e reivindicar nosso dever de contribuir de verdade para a construção de nossas políticas públicas para a educação básica. Ressalto: essa postura não vem apenas, nem principalmente da "academia" (por sinal, o que é a academia?); esses discursos se articulam em vários espaços e instâncias, como, por exemplo, a imprensa e, principalmente, entre os gestores públicos na área de educação.
É preciso, de muitas maneiras, não diria restaurar, mas instaurar um diálogo plenamente simétrico.
Me parece que a ampla incorporação das opiniões e anseios de professores, funcionários, alunos e responsáveis do ensino básico aos debates sobre nosso sistema educacional permitiria um imenso salto qualitativo nas políticas públicas de educação básica, fomentando a gestão democrática, descentralizada e eficiente dos recursos materiais, financeiros e humanos disponíveis para os ensinos fundamental e médio. Para que esses recursos sejam empregados de maneira plenamente satisfatória, seria necessário que o maior poder de deliberação sobre seu uso estivesse localizado nas unidades escolares - ou seja, o mais próximo possível do polo de demanda por serviços educacionais de qualidade.
Afinal de contas, que democracia é essa onde a opinião que menos conta é aquela dos principais interessados no assunto?
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Todas as opiniões são válidas e muito necessárias, mas existe uma óbvia e profunda assimetria nos diálogos e discursos que se estabelecem acerca do ensino básico em nosso país. Obviamente essa não é a única razão dos problemas vivenciados na educação básica em nosso país, mas eu diria que é, sim, um GRANDE problema.
Não falo isso por puro "achismo"; trata-se de conclusão derivada de inúmeras experiências profissionais e acadêmicas. Leciono na Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro há 8 anos, e já trabalhei na coordenação de um projeto pedagógico de grande porte no nível central, os Cadernos de Apoio Pedagógico. Há 3 anos trabalho na FAETEC-RJ, uma das ilhas de excelência no ensino público fluminense, onde tenho assistido a implementação, de cima para baixo, de projetos e políticas que as comunidades escolares não consideram corresponder a seu efetivo interesse, com resultados por vezes deletérios. Além disso, já lecionei em uma universidade particular e em uma federal, como bolsista de doutorado, sem contar com a experiência acadêmica de pós-graduação, em mestrado, doutorado e pós-doutorado.
O que percebi claramente, transitando por todos esses espaços de reflexão e prática educacional, é que nem todas as vozes são ouvidas da mesma maneira. Existem aqueles que são mais costumeiramente aceitos como sujeitos de discursos sobre a educação (entre os quais burocratas, economistas e professores universitários), enquanto outros são normalmente tidos como objetos desses discursos (os professores do ensino básico). Existe uma nítida hierarquização das opiniões, onde justamente os profissionais mais diretamente envolvidos nas atividades de educação básica parecem ser sistematicamente relegados ao nível hierárquico mais baixo. Isso fica evidente, por exemplo, nas dinâmicas que se configuram no âmbito dos grandes projetos educacionais das redes de ensino básico; basta observar quem bate o martelo e quais opiniões adquirem mais peso nas deliberações - sem falar nas discrepâncias de remuneração...
Cabe esclarecer: não estou acusando de forma alguma as PESSOAS na academia de terem essa postura (nem faria sentido, visto que também eu participo das dinâmicas acadêmicas); o problema todo está no conjunto de RELAÇÕES entretecidas historicamente em torno da reflexão sobre as políticas públicas em educação, relações essas que muitas vezes nos ultrapassam, nos envolvem e conferem à nossa ação sentidos que não correspondem plenamente às nossas posturas ou intenções.
O nó górdio, me parece, é o peso específico que cada opinião ganha nos debates; os "lugares de fala" são normalmente considerados de maneira muito diferenciada, independentemente da formação acadêmica propriamente dita. É uma questão de determinado prestígio associado a determinadas posições; há muitas nuances presentes em gestos, atos e palavras, como se vê, por exemplo, nos cursos de capacitação oferecidos pelas secretarias de educação - é só prestar atenção às pessoas que são escolhidas para falar nesses cursos, e aquelas que são "obrigadas" a ouvir. Se não há aí uma hierarquização de saberes implícita, é uma estranha acumulação de coincidências.
Situando a discussão num plano mais concreto, algumas redes públicas de ensino contam com muitos profissionais com doutorado e produção acadêmica consistente em todas as disciplinas, mas estes nunca, ou muito raramente, são escalados para trabalhar nessas capacitações. E, convenhamos, ter um doutor inserido na realidade escolar falando sobre o assunto me parece muito mais produtivo numa capacitação do que trazer um doutor que não tem, muitas vezes, experiência alguma no ensino básico. Nada disso quer dizer que haja (necessariamente) uma postura de superioridade por parte dos professores universitários que aceitam participar desse gênero de capacitação; no entanto, independentemente da postura pessoal do professor que ministre a aula ou o curso, a configuração geral de cada curso, e do conjunto de cursos ao longo do tempo e, transversalmente, oferecidos nas diversas disciplinas, caracterizam de forma "estrutural" um conjunto de relações marcado pela premissa (mais ou menos) implícita de que alguns estão "autorizados" a pensar a educação enquanto sujeitos, restando aos outros a posição de objetos.
Outro exemplo - em publicações voltadas para educação básica, as reportagens costumam enquadrar as opiniões dos profissionais em dois planos muito distintos: geralmente se retratam opiniões de caráter técnico/teórico sendo proferidas por professores universitários e o professor do ensino básico aparece apenas relatando alguma experiência profissional pontual que, de alguma forma, ratifique a perspectiva proposta pela reportagem. Mais uma vez, isso não significa que, necessariamente, o professor universitário entrevistado para a reportagem veja as coisas nesses termos, mas sua opinião será, normalmente, enquadrada pelo jornalista ou pela redação num conjunto de referências de modo que ela ganhe determinada conotação.
Por sinal, minha reflexão inicial foi motivada justamente por uma entrevista em que um economista "de aluguel", "especialista" em educação, falava com ar profundo e entendido, verdadeiras barbaridades. Enfim, não é uma questão de disputa, até porque todos nós, assim como nossos familiares, ocupamos cada uma dessas posições em um ou outro momento da vida, e o diálogo é extremamente necessário, útil e construtivo; é um assunto sobre o qual devemos todos cooperar de modo amplo e profundo. No entanto, esse diálogo precisa ocorrer de forma simétrica - e não é isso que acontece, o que muitas vezes causa indignação entre os professores do ensino básico. Pior ainda, temos pouquíssimos espaços onde expressar essa indignação e reivindicar nosso dever de contribuir de verdade para a construção de nossas políticas públicas para a educação básica. Ressalto: essa postura não vem apenas, nem principalmente da "academia" (por sinal, o que é a academia?); esses discursos se articulam em vários espaços e instâncias, como, por exemplo, a imprensa e, principalmente, entre os gestores públicos na área de educação.
É preciso, de muitas maneiras, não diria restaurar, mas instaurar um diálogo plenamente simétrico.
Me parece que a ampla incorporação das opiniões e anseios de professores, funcionários, alunos e responsáveis do ensino básico aos debates sobre nosso sistema educacional permitiria um imenso salto qualitativo nas políticas públicas de educação básica, fomentando a gestão democrática, descentralizada e eficiente dos recursos materiais, financeiros e humanos disponíveis para os ensinos fundamental e médio. Para que esses recursos sejam empregados de maneira plenamente satisfatória, seria necessário que o maior poder de deliberação sobre seu uso estivesse localizado nas unidades escolares - ou seja, o mais próximo possível do polo de demanda por serviços educacionais de qualidade.
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
Notas de um historiador a "Uma carta aberta ao Brasil"
Dedicado aos amigos Lahna Barbosa e Kainã Diniz, que despertaram minha curiosidade sobre o tema
O texto Uma carta aberta ao Brasil, de um tal Mark Manson, autointitulado “autor, pensador e entusiasta da vida” americano, anda circulando na Internet e causando polêmica. Enquanto historiador, traço aqui algumas notas sobre o texto em questão. Minhas anotações ficaram um tanto longas, mas enfim, “textão” contra “textão”. Se vocês tiveram paciência para ler as reflexões de Manson, rogo-lhes boa vontade para acompanhar as minhas. Sigamos por partes.
1 – O texto propriamente dito
Do ponto de vista formal, cabe apenas notar que o texto adota a forma de uma carta endereçada diretamente ao país, artifício retórico que poderia ser interessante, caso o autor o empregasse de forma consistente – o que não acontece: Mason perde o fio da meada, por vezes se dirigindo diretamente ao Brasil, por outras aos brasileiros, rompendo seguidamente a coesão do texto.
Quanto ao conteúdo, o autor articula uma crítica superficial e moralista à “cultura brasileira” (noção vaga e imprecisa), à qual atribui os problemas do Brasil, constituindo o principal obstáculo ao “desenvolvimento” e ao “progresso” do país. Segundo Mason, a "cultura brasileira" fomentaria diversos obstáculos ao progresso, como a corrupção cotidiana, uma suposta vaidade excessiva, falta de compromisso etc. Sempre apelando para o senso comum rasteiro, o “pensador” receita uma genérica “revolução interior” como panaceia para solução de nossos problemas, no melhor estilo literatura-motivacional-e-de-autoajuda.
Muitas das críticas são pertinentes, mas o autor as articula de modo completamente isolado e descontextualizado, o que é insustentável em termos de uma análise social séria. Vale ainda ressaltar a arrogante perspectiva adotada pelo texto, o que será analisado a seguir.
2 – As matrizes discursivas
A tal “carta aberta” é tão superficial que mal vale a pena discuti-la. O mais interessante aqui é abordar as matrizes discursivas que a sustentam, o "meta-texto" por trás e para além do texto. Assim, convém analisar o paradigma civilizatório que lhe serve de alicerce, pautado em noções vagas e bastante reificadas de “progresso” e “desenvolvimento”. Ao contrário do que parece, tais ideais não são inerentemente bons ou desejáveis.
Nesse sentido, vale lembrar que no início do século XX a Alemanha e a Áustria eram consideradas duas das nações mais “civilizadas” (equivalente ao atual “desenvolvidas”) do mundo e deram origem a um dos regimes mais bárbaros e perversos da contemporaneidade. De fato, a ascensão do nazismo deixou perplexa e chocada boa parte dos intelectuais europeus de então, que imaginavam que suas sociedades supostamente guiadas pela razão esclarecida estariam imunes a semelhante barbárie, enquanto, pelo contrário, o que se viu foi a instauração de uma brutalidade dotada de eficiência industrial e moderníssimos requintes administrativos, o que, no fundo, choca muito mais que outros atos de violência espontânea e descontrolada, cometidos por gente “ignorante”. Aliás, vale lembrar que foi na super educada e civilizada Viena da virada do século XIX que o Dr. Freud encontrou o grande casulo de neuroses sexuais de onde extraiu sua psicanálise. Por sinal, em minhas poucas viagens fora do Brasil nunca conheci um povo mais educado e polido que o vienense, mas é difícil esquecer que poucas décadas atrás seus antepassados receberam o Führer de braços abertos – ou, mais literalmente, esticados... Também é interessante destacar que os ideais de eugenia e supremacia racial defendidos pelo Nazismo não eram fruto de falta de instrução; pelo contrário, as teorias racistas se apoiavam na ciência da época, com forte inspiração da teoria evolucionista darwinista.
Outro interessante exemplo é o Japão atual. Há pouco comprei um livro do monge budista Kentetsu Takamori; ele lembra que o Japão atualmente proporciona a seus habitantes considerável prosperidade, bons serviços públicos, elevados padrões de consumo e grande conforto material, apresentando baixíssimos índices de miséria ou criminalidade. Apesar disso, milhares de japoneses levam vidas infelizes, esvaziadas de sentido e significado, consumidas por uma estafante rotina de trabalho na juventude e uma tediosa aposentadoria na velhice. Há alguns anos um “manual do suicídio” se tornou best seller em terras nipônicas, elencando inúmeros motivos supostamente razoáveis pelos quais um japonês poderia renunciar à própria vida.
Apelando para uma experiência pessoal, o lugar mais desagradável que já visitei foi Zurique, na Suíça. É uma cidade riquíssima, com elevados padrões de consumo de luxo, mas me pareceu uma cidade absolutamente sem alma e sem coração, onde não se acha uma livraria decente ou um museu interessante, embora se encontrem lojas das maiores grifes internacionais a cada esquina e seja possível avistar um luxuoso carro esportivo a cada 30 segundos. É o tédio consumista levado ao paroxismo. Não à toa, Zurique é hoje uma das capitais mundiais das clínicas de suicídio assistido. Outro exemplo europeu do consumismo avassalador é o Palais Royal, em Paris, que abrigava as melhores livrarias da Europa no século XIX, mas no qual não se encontra mais nenhuma hoje em dia - embora também ali abundem lojas das mais caras e prestigiosas grifes da atualidade. Me parecem sinais curiosos do quanto o tal “desenvolvimento” não é o suficiente para nos oferecer vidas mais ricas e significativas.
Nem me dou ao trabalho de avançar sobre o caso dos Estados Unidos de Manson. Basta ir a qualquer cinema carioca para constatar a franciscana pobreza intelectual, moral e cultural do “desenvolvido” povo americano.
Enfim, nada disso faz do Brasil um lugar melhor, e nossos problemas são muito reais, mas não acho que as nações "desenvolvidas" sejam realmente um exemplo a seguir ou um objetivo a alcançar. Por mais que os deslumbrados turistas brasileiros louvem a fabulosa “educação” do europeu médio, me parece que ruas livres de guimbas de cigarros e pessoas não dando calote no transporte público sejam objetivos civilizacionais muito ralos para ter como modelo e objetivo. Francamente, almejar isso é se contentar com quase nada. Por sinal, quem circula em ruas, bairros e horários menos turísticos de Paris, sabe muito bem que nem todas as localidades são tão limpas e nem todos os parisienses são tão honestos assim - basta passar cinco minutos no "tramway" para verificar quantas pessoas viajam sem validar seus bilhetes. Veja bem, não estamos falando de imigrantes ou refugiados; se trata de “français de souche”, “franceses de raiz”, para usar um termo bem preconceituoso e descortês. Aliás, o turista brasileiro médio ama o Museu do Louvre, mas nunca pôs os pés no Museu Histórico Nacional. O brasileiro "instruído" ama a cultura - desde que ele esteja no exterior e ele possa postar uma selfie com a Gioconda. Aliás, ele nem presta atenção às magníficas Bodas de Caná de Veronese, que estão na parede oposta, na mesma sala.
Tudo isso me faz lembrar o interessante O desconforto da riqueza, livro do historiador (americano, por sinal) Simon Schama, que explora as múltiplas dimensões da cultura holandesa no século XVII, período em que os holandeses se tornaram a maior potência naval, comercial e financeira da época. Logo no começo do livro, Schama analisa o relato de um inglês residente na Holanda, que comentava um estranhíssimo hábito dos holandeses seiscentistas: limpar cotidianamente a casa, sem que ela estivesse "suja" - para os padrões britânicos, a residência só estaria suja, digamos, quando o chão estivesse enlameado ou um penico fosse entornado acidentalmente, por exemplo. O texto mostra, nesse simples hábito de higiene, uma disparidade cultural crescente entre holandeses e ingleses de então; a atitude holandesa remetia à nascente disciplina social moderna, composta por valores como decência, austeridade, frugalidade, poupança, trabalho diligente etc.
Por outro lado, curiosamente, Schama aborda uma prática realmente chocante: para puro entretenimento, era comum que os holandeses pagassem uma entrada para visitar prisões, apenas pela "diversão" de xingar, humilhar e debochar dos detentos. Gesto bastante bárbaro, me parece. Mas seria um erro imaginar que as duas atitudes sejam antitéticas. Pelo contrário, são faces da mesma moeda: era uma sociedade que se envaidecia de sua (supostamente) virtuosa disciplina e, por isso mesmo, se imaginava no justo direito de escarnecer cruelmente daqueles que lhe pareciam em condição moral (e social) inferior. Ao longo das Idades Moderna e Contemporânea esse novo modelo civilizatório se espalhou pelo mundo inteiro, se ramificando, diversificando e adquirindo diferentes nuances em cada época e lugar, incorporando variados discursos políticos, econômicos, religiosos, culturais e até raciais. De certo modo, podemos propor que o texto de Manson participa amplamente dessa matriz discursiva, arvorando-se em porta-voz da civilização e do progresso, emitindo retumbantes julgamentos e dando uma paternalista e condescendente bronca n o "povo brasileiro", esse ente abstrato. Para nos ajudar, é claro.
Enfim, precisamos criar nosso próprio paradigma civilizacional, não apenas seguir cegamente um receituário pronto para consumo. Sigamos à parte final dessa já longa reflexão.
3 – A recepção brasileira do texto
Para fechar, convém indagar as razões pelas quais o texto de Manson encontrou tamanha repercussão entre nós. Em primeiro lugar, como já observou um texto interessante, embora um tanto superficial e recheado de clichês, o discurso de Manson vem ao encontro do que muitos brasileiros já pensavam antes, oferecendo uma ratificação externa a essas opiniões.
Todavia, o problema não é somente esse; a grande questão é: por que tantos brasileiros atribuem valor tão expressivo à opinião de um americano que diz ter morado poucos anos no Brasil? Seria nosso famoso “complexo de vira-lata” atuando? Sem dúvida, mas não apenas.
A chave me parece estar na nacionalidade do autor. É fácil imaginar um contraponto: se um nigeriano, um congolês, um indonésio ou um peruano tivesse escrito uma “carta aberta” expressando os mesmos pontos de vista que Manson, o texto encontraria a mesma ressonância? Me parece que não. Muitos brasileiros perguntar-se-iam: “quem esse nigeriano/congolês/indonésio/peruano pensa que é?!”. As razões são relativamente complexas, mas não é difícil resumi-las: aceitamos ouvir opiniões semelhantes de um americano, um francês, um alemão, um suíço e outros, porque nos relacionamos com esses povos de modo deferente, e, sejamos sinceros, subserviente. Toleramos (e até aplaudimos, curtimos, compartilhamos) o que jamais aceitaríamos de outros. Aliás, é curioso notar que dificilmente um brasileiro criticaria os americanos no tom paternalista, condescendente e sapiencial empregado por Mason. Até utilizaríamos esse mesmo tom – para com nigerianos, congoleses, indonésios, peruanos...
Tudo isso convida a repensar nosso “complexo de vira-lata”. Como quase tudo na vida, esse “complexo” não é algo autossuficiente; ele é relacional, à medida que participa de uma série de relações historicamente estabelecidas entre o povo brasileiro e o restante do mundo. Somos submissos a quem está “acima” e arrogantes com quem está “abaixo”; "vira-latas" para um lado, "rottweiler" para o outro. E isso, no fundo, é ainda mais desagradável – assustador, até – que a versão standard do “complexo de vira-latas”.
Concluindo, nada disso quer dizer que nunca devamos ouvir opiniões estrangeiras. Pelo contrário, muitos estudiosos de diversas nacionalidades e disciplinas contribuíram e contribuem enormemente para pensar o Brasil ou a América Latina, como Claude Lévi-Strauss, Charles Boxer, Stuart Schwartz, Richard Morse, Thomas Skidmore, Serge Gruzinski, Frédéric Mauro, Kenneth Maxwell, Geoffrey Needell, entre muitos outros. Mas uma coisa é dar ouvidos a um intelectual conhecedor de nossa história e de nossos processos sociais; abaixar a cabeça diante das opiniões de um “gringo” leigo e arrogante como esse tal Mark Manson é outra coisa inteiramente diferente..
Luiz F. F. Tavares é professor de História das redes FAETEC-RJ e SME-RJ, doutor em História pela Universidade Federal Fluminense e pós-doutorando em Antropologia Social pelo Museu Nacional
O texto Uma carta aberta ao Brasil, de um tal Mark Manson, autointitulado “autor, pensador e entusiasta da vida” americano, anda circulando na Internet e causando polêmica. Enquanto historiador, traço aqui algumas notas sobre o texto em questão. Minhas anotações ficaram um tanto longas, mas enfim, “textão” contra “textão”. Se vocês tiveram paciência para ler as reflexões de Manson, rogo-lhes boa vontade para acompanhar as minhas. Sigamos por partes.
1 – O texto propriamente dito
Do ponto de vista formal, cabe apenas notar que o texto adota a forma de uma carta endereçada diretamente ao país, artifício retórico que poderia ser interessante, caso o autor o empregasse de forma consistente – o que não acontece: Mason perde o fio da meada, por vezes se dirigindo diretamente ao Brasil, por outras aos brasileiros, rompendo seguidamente a coesão do texto.
Quanto ao conteúdo, o autor articula uma crítica superficial e moralista à “cultura brasileira” (noção vaga e imprecisa), à qual atribui os problemas do Brasil, constituindo o principal obstáculo ao “desenvolvimento” e ao “progresso” do país. Segundo Mason, a "cultura brasileira" fomentaria diversos obstáculos ao progresso, como a corrupção cotidiana, uma suposta vaidade excessiva, falta de compromisso etc. Sempre apelando para o senso comum rasteiro, o “pensador” receita uma genérica “revolução interior” como panaceia para solução de nossos problemas, no melhor estilo literatura-motivacional-e-de-autoajuda.
Muitas das críticas são pertinentes, mas o autor as articula de modo completamente isolado e descontextualizado, o que é insustentável em termos de uma análise social séria. Vale ainda ressaltar a arrogante perspectiva adotada pelo texto, o que será analisado a seguir.
2 – As matrizes discursivas
A tal “carta aberta” é tão superficial que mal vale a pena discuti-la. O mais interessante aqui é abordar as matrizes discursivas que a sustentam, o "meta-texto" por trás e para além do texto. Assim, convém analisar o paradigma civilizatório que lhe serve de alicerce, pautado em noções vagas e bastante reificadas de “progresso” e “desenvolvimento”. Ao contrário do que parece, tais ideais não são inerentemente bons ou desejáveis.
Nesse sentido, vale lembrar que no início do século XX a Alemanha e a Áustria eram consideradas duas das nações mais “civilizadas” (equivalente ao atual “desenvolvidas”) do mundo e deram origem a um dos regimes mais bárbaros e perversos da contemporaneidade. De fato, a ascensão do nazismo deixou perplexa e chocada boa parte dos intelectuais europeus de então, que imaginavam que suas sociedades supostamente guiadas pela razão esclarecida estariam imunes a semelhante barbárie, enquanto, pelo contrário, o que se viu foi a instauração de uma brutalidade dotada de eficiência industrial e moderníssimos requintes administrativos, o que, no fundo, choca muito mais que outros atos de violência espontânea e descontrolada, cometidos por gente “ignorante”. Aliás, vale lembrar que foi na super educada e civilizada Viena da virada do século XIX que o Dr. Freud encontrou o grande casulo de neuroses sexuais de onde extraiu sua psicanálise. Por sinal, em minhas poucas viagens fora do Brasil nunca conheci um povo mais educado e polido que o vienense, mas é difícil esquecer que poucas décadas atrás seus antepassados receberam o Führer de braços abertos – ou, mais literalmente, esticados... Também é interessante destacar que os ideais de eugenia e supremacia racial defendidos pelo Nazismo não eram fruto de falta de instrução; pelo contrário, as teorias racistas se apoiavam na ciência da época, com forte inspiração da teoria evolucionista darwinista.
Outro interessante exemplo é o Japão atual. Há pouco comprei um livro do monge budista Kentetsu Takamori; ele lembra que o Japão atualmente proporciona a seus habitantes considerável prosperidade, bons serviços públicos, elevados padrões de consumo e grande conforto material, apresentando baixíssimos índices de miséria ou criminalidade. Apesar disso, milhares de japoneses levam vidas infelizes, esvaziadas de sentido e significado, consumidas por uma estafante rotina de trabalho na juventude e uma tediosa aposentadoria na velhice. Há alguns anos um “manual do suicídio” se tornou best seller em terras nipônicas, elencando inúmeros motivos supostamente razoáveis pelos quais um japonês poderia renunciar à própria vida.
Apelando para uma experiência pessoal, o lugar mais desagradável que já visitei foi Zurique, na Suíça. É uma cidade riquíssima, com elevados padrões de consumo de luxo, mas me pareceu uma cidade absolutamente sem alma e sem coração, onde não se acha uma livraria decente ou um museu interessante, embora se encontrem lojas das maiores grifes internacionais a cada esquina e seja possível avistar um luxuoso carro esportivo a cada 30 segundos. É o tédio consumista levado ao paroxismo. Não à toa, Zurique é hoje uma das capitais mundiais das clínicas de suicídio assistido. Outro exemplo europeu do consumismo avassalador é o Palais Royal, em Paris, que abrigava as melhores livrarias da Europa no século XIX, mas no qual não se encontra mais nenhuma hoje em dia - embora também ali abundem lojas das mais caras e prestigiosas grifes da atualidade. Me parecem sinais curiosos do quanto o tal “desenvolvimento” não é o suficiente para nos oferecer vidas mais ricas e significativas.
Nem me dou ao trabalho de avançar sobre o caso dos Estados Unidos de Manson. Basta ir a qualquer cinema carioca para constatar a franciscana pobreza intelectual, moral e cultural do “desenvolvido” povo americano.
Enfim, nada disso faz do Brasil um lugar melhor, e nossos problemas são muito reais, mas não acho que as nações "desenvolvidas" sejam realmente um exemplo a seguir ou um objetivo a alcançar. Por mais que os deslumbrados turistas brasileiros louvem a fabulosa “educação” do europeu médio, me parece que ruas livres de guimbas de cigarros e pessoas não dando calote no transporte público sejam objetivos civilizacionais muito ralos para ter como modelo e objetivo. Francamente, almejar isso é se contentar com quase nada. Por sinal, quem circula em ruas, bairros e horários menos turísticos de Paris, sabe muito bem que nem todas as localidades são tão limpas e nem todos os parisienses são tão honestos assim - basta passar cinco minutos no "tramway" para verificar quantas pessoas viajam sem validar seus bilhetes. Veja bem, não estamos falando de imigrantes ou refugiados; se trata de “français de souche”, “franceses de raiz”, para usar um termo bem preconceituoso e descortês. Aliás, o turista brasileiro médio ama o Museu do Louvre, mas nunca pôs os pés no Museu Histórico Nacional. O brasileiro "instruído" ama a cultura - desde que ele esteja no exterior e ele possa postar uma selfie com a Gioconda. Aliás, ele nem presta atenção às magníficas Bodas de Caná de Veronese, que estão na parede oposta, na mesma sala.
Tudo isso me faz lembrar o interessante O desconforto da riqueza, livro do historiador (americano, por sinal) Simon Schama, que explora as múltiplas dimensões da cultura holandesa no século XVII, período em que os holandeses se tornaram a maior potência naval, comercial e financeira da época. Logo no começo do livro, Schama analisa o relato de um inglês residente na Holanda, que comentava um estranhíssimo hábito dos holandeses seiscentistas: limpar cotidianamente a casa, sem que ela estivesse "suja" - para os padrões britânicos, a residência só estaria suja, digamos, quando o chão estivesse enlameado ou um penico fosse entornado acidentalmente, por exemplo. O texto mostra, nesse simples hábito de higiene, uma disparidade cultural crescente entre holandeses e ingleses de então; a atitude holandesa remetia à nascente disciplina social moderna, composta por valores como decência, austeridade, frugalidade, poupança, trabalho diligente etc.
Por outro lado, curiosamente, Schama aborda uma prática realmente chocante: para puro entretenimento, era comum que os holandeses pagassem uma entrada para visitar prisões, apenas pela "diversão" de xingar, humilhar e debochar dos detentos. Gesto bastante bárbaro, me parece. Mas seria um erro imaginar que as duas atitudes sejam antitéticas. Pelo contrário, são faces da mesma moeda: era uma sociedade que se envaidecia de sua (supostamente) virtuosa disciplina e, por isso mesmo, se imaginava no justo direito de escarnecer cruelmente daqueles que lhe pareciam em condição moral (e social) inferior. Ao longo das Idades Moderna e Contemporânea esse novo modelo civilizatório se espalhou pelo mundo inteiro, se ramificando, diversificando e adquirindo diferentes nuances em cada época e lugar, incorporando variados discursos políticos, econômicos, religiosos, culturais e até raciais. De certo modo, podemos propor que o texto de Manson participa amplamente dessa matriz discursiva, arvorando-se em porta-voz da civilização e do progresso, emitindo retumbantes julgamentos e dando uma paternalista e condescendente bronca n o "povo brasileiro", esse ente abstrato. Para nos ajudar, é claro.
Enfim, precisamos criar nosso próprio paradigma civilizacional, não apenas seguir cegamente um receituário pronto para consumo. Sigamos à parte final dessa já longa reflexão.
3 – A recepção brasileira do texto
Para fechar, convém indagar as razões pelas quais o texto de Manson encontrou tamanha repercussão entre nós. Em primeiro lugar, como já observou um texto interessante, embora um tanto superficial e recheado de clichês, o discurso de Manson vem ao encontro do que muitos brasileiros já pensavam antes, oferecendo uma ratificação externa a essas opiniões.
Todavia, o problema não é somente esse; a grande questão é: por que tantos brasileiros atribuem valor tão expressivo à opinião de um americano que diz ter morado poucos anos no Brasil? Seria nosso famoso “complexo de vira-lata” atuando? Sem dúvida, mas não apenas.
A chave me parece estar na nacionalidade do autor. É fácil imaginar um contraponto: se um nigeriano, um congolês, um indonésio ou um peruano tivesse escrito uma “carta aberta” expressando os mesmos pontos de vista que Manson, o texto encontraria a mesma ressonância? Me parece que não. Muitos brasileiros perguntar-se-iam: “quem esse nigeriano/congolês/indonésio/peruano pensa que é?!”. As razões são relativamente complexas, mas não é difícil resumi-las: aceitamos ouvir opiniões semelhantes de um americano, um francês, um alemão, um suíço e outros, porque nos relacionamos com esses povos de modo deferente, e, sejamos sinceros, subserviente. Toleramos (e até aplaudimos, curtimos, compartilhamos) o que jamais aceitaríamos de outros. Aliás, é curioso notar que dificilmente um brasileiro criticaria os americanos no tom paternalista, condescendente e sapiencial empregado por Mason. Até utilizaríamos esse mesmo tom – para com nigerianos, congoleses, indonésios, peruanos...
Tudo isso convida a repensar nosso “complexo de vira-lata”. Como quase tudo na vida, esse “complexo” não é algo autossuficiente; ele é relacional, à medida que participa de uma série de relações historicamente estabelecidas entre o povo brasileiro e o restante do mundo. Somos submissos a quem está “acima” e arrogantes com quem está “abaixo”; "vira-latas" para um lado, "rottweiler" para o outro. E isso, no fundo, é ainda mais desagradável – assustador, até – que a versão standard do “complexo de vira-latas”.
Concluindo, nada disso quer dizer que nunca devamos ouvir opiniões estrangeiras. Pelo contrário, muitos estudiosos de diversas nacionalidades e disciplinas contribuíram e contribuem enormemente para pensar o Brasil ou a América Latina, como Claude Lévi-Strauss, Charles Boxer, Stuart Schwartz, Richard Morse, Thomas Skidmore, Serge Gruzinski, Frédéric Mauro, Kenneth Maxwell, Geoffrey Needell, entre muitos outros. Mas uma coisa é dar ouvidos a um intelectual conhecedor de nossa história e de nossos processos sociais; abaixar a cabeça diante das opiniões de um “gringo” leigo e arrogante como esse tal Mark Manson é outra coisa inteiramente diferente..
Luiz F. F. Tavares é professor de História das redes FAETEC-RJ e SME-RJ, doutor em História pela Universidade Federal Fluminense e pós-doutorando em Antropologia Social pelo Museu Nacional
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
Sobre intelectuais e contracheques
Como
diz Terry Eagleton, alguns pós-modernos adoram "dançar à beira do
caos", mas não admitiriam que seus gerentes bancários sequer sonhassem com
isso. A verdade é que muitos intelectuais, no mundo inteiro, só estão
refletindo sobre seus contracheques. Todo mundo se preocupa
com isso, é bem verdade; o problema é certa nonchalance acadêmica que finge
ignorar a mera existência de contracheques...!
Sobre clubes, igrejas e universidades
Richard Feynman, Nobel de Física, fazia uma comparação curiosa:
certos círculos acadêmicos se comportam mais como um grêmio estudantil
cuja principal preocupação é definir QUEM é digno de entrar no
clubinho, e não exatamente O QUE se faz dentro do clubinho...
Alguns acadêmicos estão genuinamente interessados na reflexão livre. Outros, querem fazer "escolas"; muitos querem fundar "igrejas"... Felizmente, em minha trajetória, tenho encontrado muitos intelectuais comprometidos com a discussão aberta e profunda. Acho que o segredo é saber reconhecer essas pessoas onde elas estão, fortalecer os vínculos com elas e deixar os "escolásticos" de plantão discutindo o sexo dos anjos, em sua rigidez hierática e revolucionários dogmas, eternamente celebrando iniciáticos rituais e enunciando verdades imaculadamente concebidas.
Pouco importa: acima de todos nós, tal como sucedia aos impérios d'antanho, o Sol nunca se põe sobre a Plataforma Lattes...
Alguns acadêmicos estão genuinamente interessados na reflexão livre. Outros, querem fazer "escolas"; muitos querem fundar "igrejas"... Felizmente, em minha trajetória, tenho encontrado muitos intelectuais comprometidos com a discussão aberta e profunda. Acho que o segredo é saber reconhecer essas pessoas onde elas estão, fortalecer os vínculos com elas e deixar os "escolásticos" de plantão discutindo o sexo dos anjos, em sua rigidez hierática e revolucionários dogmas, eternamente celebrando iniciáticos rituais e enunciando verdades imaculadamente concebidas.
Pouco importa: acima de todos nós, tal como sucedia aos impérios d'antanho, o Sol nunca se põe sobre a Plataforma Lattes...
A academia e suas estranhas métricas
E aí eu me pergunto: alguém consegue desenvolver um BOM artigo acadêmico
com reflexão INÉDITA em menos de 10 mil palavras?!
Vale realmente a pena investir dinheiro público dessa maneira...?
Não seria melhor reduzir a quantidade de artigos por número do periódico, otimizando assim o uso do espaço (e do orçamento)?
É preferível publicar 20 artigos amputados ou 10 artigos satisfatoriamente desenvolvidos?
Queremos promover reflexão original ou apenas acumular redundâncias?
Creio que seríamos capazes de produzir conhecimento de modo mais profundo eficaz se não operássemos dentro de um sistema onde a quantidade quase sempre leva a melhor sobre a qualidade. Aliás, as duas coisas se complementam, às vezes em proporção inversa: MENOS quantidade, em muitas ocasiões, pode estimular MAIS qualidade - acho que é precisamente a questão aqui.
Há alguns anos li um texto muito interessante do historiador britânico Keith Thomas sobre essa problemática, que penso ser mundial. No texto em questão, Thomas pontuava que algumas obras seminais da historiografia britânica produzidas 50 ou 60 anos atrás seriam inviáveis dentro dos padrões de produção acadêmica atuais. Certamente estamos produzindo muito conhecimento, com variáveis níveis de qualidade, mas fico me perguntando sobre o conhecimento que NÃO estamos produzindo, pressionados e condicionados por essas políticas públicas arbitrárias.
"Qualis ou 'quantis'?!" - indagaria o Mussunzis... Cacildis!
Qual é a métrica que equaciona esses problemas?
Vale realmente a pena investir dinheiro público dessa maneira...?
Não seria melhor reduzir a quantidade de artigos por número do periódico, otimizando assim o uso do espaço (e do orçamento)?
É preferível publicar 20 artigos amputados ou 10 artigos satisfatoriamente desenvolvidos?
Queremos promover reflexão original ou apenas acumular redundâncias?
Creio que seríamos capazes de produzir conhecimento de modo mais profundo eficaz se não operássemos dentro de um sistema onde a quantidade quase sempre leva a melhor sobre a qualidade. Aliás, as duas coisas se complementam, às vezes em proporção inversa: MENOS quantidade, em muitas ocasiões, pode estimular MAIS qualidade - acho que é precisamente a questão aqui.
Há alguns anos li um texto muito interessante do historiador britânico Keith Thomas sobre essa problemática, que penso ser mundial. No texto em questão, Thomas pontuava que algumas obras seminais da historiografia britânica produzidas 50 ou 60 anos atrás seriam inviáveis dentro dos padrões de produção acadêmica atuais. Certamente estamos produzindo muito conhecimento, com variáveis níveis de qualidade, mas fico me perguntando sobre o conhecimento que NÃO estamos produzindo, pressionados e condicionados por essas políticas públicas arbitrárias.
"Qualis ou 'quantis'?!" - indagaria o Mussunzis... Cacildis!
Qual é a métrica que equaciona esses problemas?
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
Impressões sobre o ato unificado dos servidores do Estado do Rio (03/02/2016)
-Estava lindo! Foi espetacular ver cerca de 3 mil trabalhadores de tantas secretarias e autarquias reunidos para lutar por seus direitos. Uma visão imponente!
-Avalio que agora temos 3 desafios primordiais pela frente: 1 - aumentar o movimento; 2 - cuidar para que o movimento não perca a coesão; 3 - vigiar muito bem o que as direções sindicais vão fazer e fortalecer a participação de base (não pode ficar como movimento "vanguardista" de gabinete).
-O evento estava espetacular, mas foi completamente conduzido pelas "lideranças". É válido para começar, mas a base tem que se apoderar do movimento.
-Sempre sonhei em ver uma greve geral, e fico ultra empolgado em imaginar uma greve geral durante as olimpíadas. Olhando com o pé no chão, a perspectiva ainda é prematura, mas vale a pena pensar nisso a médio ou longo prazo. Precisamos refletir e confabular bastante para delinear as táticas para os próximos movimentos e as estratégias em nosso horizonte.
-Achei a data marcada para o próximo ato, 2 de março, muito distante. Precisamos cobrir essa lacuna dinamizando o movimento nas redes sociais e, principalmente, em nossos locais de trabalho.
-Temos uma oportunidade preciosa nas mãos. Precisamos aproveitá-la com sabedoria.
-Avalio que agora temos 3 desafios primordiais pela frente: 1 - aumentar o movimento; 2 - cuidar para que o movimento não perca a coesão; 3 - vigiar muito bem o que as direções sindicais vão fazer e fortalecer a participação de base (não pode ficar como movimento "vanguardista" de gabinete).
-O evento estava espetacular, mas foi completamente conduzido pelas "lideranças". É válido para começar, mas a base tem que se apoderar do movimento.
-Sempre sonhei em ver uma greve geral, e fico ultra empolgado em imaginar uma greve geral durante as olimpíadas. Olhando com o pé no chão, a perspectiva ainda é prematura, mas vale a pena pensar nisso a médio ou longo prazo. Precisamos refletir e confabular bastante para delinear as táticas para os próximos movimentos e as estratégias em nosso horizonte.
-Achei a data marcada para o próximo ato, 2 de março, muito distante. Precisamos cobrir essa lacuna dinamizando o movimento nas redes sociais e, principalmente, em nossos locais de trabalho.
-Temos uma oportunidade preciosa nas mãos. Precisamos aproveitá-la com sabedoria.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
Variações sobre uma cerâmica palestina estilhaçada
Allegro, ma non troppo
Desde que ainda era um adolescente que sonhava em ser arqueólogo imagino que cada objeto, raro ou banal, em suas singularidades, carrega em si o mundo inteiro. De lá para cá, a convicção permanece a mesma, embora minha argumentação nesse sentido tenha se tornado (um pouco) mais sofisticada...
1º movimento
Cerca de seis horas atrás, uma de minhas estantes sucumbiu ao peso dos livros, fazendo com que despencasse uma simpática cerâmica palestina, que se espatifou no chão. Catei os estilhaços, pensando em restaurá-la, mas algumas partes ficaram completamente irrecuperáveis, e as lascas são muito afiadas. Preferi jogar fora o que sobrou.
Olhando o trecho do Alcorão pintado em sua superfície, aqueles cacos de cerâmica logo me remeteram à triste situação do Oriente Médio, lembrando-me de uma notícia que acabara de ler, sobre a suposta existência de campos de treinamento do Estado Islâmico na Europa. Tenho grande simpatia pelas culturas islâmicas e suas realizações artísticas, intelectuais e espirituais, uma longa tradição inscrita em inúmeros objetos ao redor do mundo - inclusive minha humilde (e barata) cerâmica palestina. Diante de tudo que o mundo muçulmano e seus povos representam na história do mundo, a emergência do EI com sua barbárie me parece um dos episódios mais tristes da trajetória do Islã.
Nessa pequena obra de artesanato, com menos de 30cm de diâmetro, cabem muitos séculos de história, a começar pelo texto corânico, elaborado há cerca de 1.400 anos, verdadeiro ponto de partida de toda uma cultura - seu fiat ou seu big bang, como preferir. Por sua vez, o texto manuscrito sobre a cerâmica também remete a uma tradição secular do Islã, a arte da caligrafia, que por sua vez remete ao próprio Corão e seus mandamentos, enquanto expressão artística e decorativa que emergiu da proibição de representação de figuras naturais, interpretada e seguida de modo mais ou menos rígido através dos séculos, conforme tempos, lugares e pessoas. Por fim, o uso da cerâmica como suporte artístico deriva de outras circunstâncias históricas do mundo islâmico: as relações comerciais entre a Pérsia e a China durante a Idade Média, em que as tentativas de suprir às demandas por porcelana do mercado chinês levaram os artesãos persas a produzirem peças que inicialmente buscavam imitar as tradições da porcelana chinesa, mas logo começaram a se desenvolver como estilo artístico autônomo com suas próprias convenções, se espalhando desde então pelo mundo islâmico e dando lugar a inúmeras ramificações estéticas, inclusive influenciando as técnicas aplicadas sobre outros suportes que não a cerâmica.
Poderíamos prolongar indefinidamente essas linhas pontilhadas rumo ao passado, a épocas tão recuadas como o surgimento do monoteísmo abraâmico, as primeiras experiências de elaboração da escrita no mundo mediterrâneo, a formação das línguas semíticas, a invenção da cerâmica na Pré-história, ou mesmo o domínio do fogo, necessário à cocção da argila... Poderíamos mesmo ir até as fusões nucleares que, há bilhões de anos, em alguma estrela distante, há muito extinta, originou os átomos componentes do barro empregado em sua confecção.
2º movimento
Com um pouco de imaginação, percebemos que nas exíguas dimensões materiais desse objeto se acumulam inúmeras camadas de história, múltiplas dimensões de experiências religiosas, tecnológicas, comerciais e artísticas, o esforço de milhares - talvez milhões - de seres humanos, convergindo, se precipitando e se comprimindo sobre esse ínfimo artefato, como que em inúmeras circunvoluções, espécie de espiral onde cada volta se conforma à anterior e condiciona a próxima, sempre de modo irregular e imprevisível.
Até aqui falamos apenas das dimensões meramente materiais inscritas nesse objeto durante seu processo de fabricação, visíveis a olho nu. Todavia, creio, poderíamos explorar ainda o imenso conjunto de relações que mediaram sua existência. Me pergunto, em primeiro lugar, quem terá sido o artesão que o produziu: um homem? Uma mulher? De qual idade? Gosta de praticar caligrafia e decorar cerâmicas? Foi trabalho de apenas um artesão ou foi executado através de tarefas divididas - digamos, alguém decorou as bordas e outras pessoas produziram a caligrafia, aplicaram o esmalte, levaram ao forno...? Será que o artesão recebeu paga digna por seu serviço? Ficou satisfeito com a remuneração? Onde, exatamente, se localiza a oficina onde o trabalho foi executado? Quantos parentes esse trabalhador já perdeu no conflito palestino-israelense? Será um muçulmano profundamente fervoroso ou a caligrafia é apenas um meio de vida?
Vale também pensar em todas as relações que intermediaram sua produção e comercialização, desde a matéria-prima até o consumidor final (eu). Onde foi fabricada a tinta ou produzida a cerâmica? Imagino que a resposta para ambas perguntas seja "China"; dado o panorama global, aposto que, no mínimo, algum trecho da cadeia produtiva tenha passado pelo parque industrial chinês, de alguma maneira revertendo, subvertendo ou convertendo o próprio circuito comercial entre o Catai e o mundo islâmico que tanto influenciou a formação da arte ceramista muçulmana na Idade Média - outra volta na espiral do tempo.
Por fim, o trajeto entre Palestina e Brasil percorreu de navio ou avião algum dos inúmeros itinerários do atual comércio global, envolvendo, imagino, alguma agência de importação e um comerciante varejista, chegando a mim. Para fechar essa cadeia, vale indagar que experiências de vida condicionaram minha relação de consumo com esse objeto. Se a memória me serve bem, acho que o momento definidor dessa aquisição casual se deu há cerca de 21 anos, quando, ainda no primeiro segmento do Ensino Fundamental, eu enfrentava dificuldades com os problemas mais elementares da Álgebra apresentados por Tia Leila, minha professora. Um parêntese: na época, obviamente, eu ignorava que se tratava de Álgebra - era uma questão de "achar o valor do quadradinho". Tentando me incentivar a superar essas dificuldades, minha mãe pegou emprestado (com quem?) o encantador livro O homem que calculava, do igualmente encantador Malba Tahan (pseudônimo do escritor e professor de Matemática Júlio César de Melo e Souza). O livro narra as aventuras do brilhante, talentoso e generoso calculista Beremiz Samir, situadas na Pérsia medieval - mais ou menos na época em que as cerâmicas etc etc. Essa leitura foi decisiva no sentido de despertar meu encantamento pelo mundo islâmico, desde então aprofundado por muitas leituras de Malba Tahan e outros autores, culminando na aquisição de inúmeros artefatos artesanais - como a dita cerâmica.
Mas voltemos à Tia Leila e à Álgebra... Convém notar que a bendita Álgebra, como indica a própria etimologia, também nos relaciona diretamente ao Islã medieval, à medida que seus princípios de notação e formalização foram elaborados no mundo muçulmano, com grande destaque para o fervilhante ambiente intelectual de Bagdá... capital da Pérsia. É curioso reparar que, também o nome "Leila" é de origem árabe - apenas uma coincidência divertida. Aliás, seu marido é o Tio Taje, nome de origem indiana - um casal indo-arábico, como os algarismos e a própria Álgebra. Recapitulando: Tia Leila me conduziu à Álgebra, que me conduziu a Malba Tahan, que me conduziu à cultura islâmica, que me conduziu a comprar uma cerâmica Palestina, que se quebrou algumas horas atrás.
E tudo isso me traz lágrimas aos olhos, porque meu sogro também se apaixonou por Malba Tahan alguns anos atrás, quando lhe emprestei O homem que calculava, mas infelizmente ele não se encontra mais entre nós há alguns meses. Lágrimas secas, prossigamos.
Aproveito para notar que até hoje mantenho contato com a Tia Leila, e até aprendi a gostar da Álgebra, embora, definitivamente, ela não goste de mim. Também essas relações, tão pessoais, com a Tia Leila, com Tio Taje, com minha mãe, com meu sogro, de algum modo, acabaram se intrometendo na cerâmica, no momento mesmo em que escrevo esse texto.
3º movimento
Algumas horas atrás... cerâmica... lascas... irreparável, etc. Catei a cerâmica com vassoura e pá de lixo. Para não machucar o gari, resolvi embrulhar os cacos numa caixa de pizza que acabara de consumir, semelhante a essa aqui:
Como você pode ver, a caixa (e a pizza) eram da franquia Domino's, uma das maiores redes de fat, digo, fast food do mundo (globalizado, please). É no mínimo irônico que, no fim das contas, os cacos de cerâmica palestina tenham ido parar dentro de uma embalagem que representa o poderio econômico dos Estados Unidos da América, o principal antagonista do mundo islâmico na atualidade e, pior ainda, o maior aliado do Estado de Israel que tanto vem oprimindo os palestinos - inclusive os artesãos que produziram o artefato em questão. Veja bem: uma peça de cerâmica que, como vimos, representa tanto a arte quanto a religião islâmica, com versos corânicos pintados em sua superfície! Uma ironia nada banal, inclusive porquê reúne vários opostos: o refinamento artístico e a mais que mundana junk food; o Islã que tanto preza o jejum e a glutonaria capitalista; o tabu islâmico quanto à carne de porco e as rodelas de pepperoni; a singularidade do artesanato manual e a embalagem produzida em massa; o sagrado, artístico e religioso, contra o profano, capitalista e pequeno-burguês; coração contra estômago.
Ainda aqui há espaço para outro desvio. Eu e minha esposa não nos tornamos clientes da Domino's no Brasil, mas em Paris, onde boa parte dos entregadores que nos atendiam eram de origem magrebina. Um deles, por sinal, muito simpático, vendo que o aparelho de cobrança em débito automático não conseguia sinal para executar a operação financeira, me ensinou um grigri, forma de magia simpática popular do Magreb, que, segundo ele, era infalível para remediar o funcionamento de aparelhos eletrônicos teimosos. Servia até, me disse, para interferir magicamente no resultado do jogo de futebol do time do coração transmitido pela TV, bastando executar o grigri bem próximo da tela! Tudo isso é ainda mais interessante porque con-juga, de novo, sob outros ângulos, capitalismo e Islã, magia e tecnologia, sagrado e profano. E, não nos esqueçamos, em Paris, atual epicentro desse conflito que se desenrola há pouco mais de uma década em diversos pontos do mundo.
Voltemos à caixa da Domino's. Ao lado da logomarca da franquia, vemos a silhueta do Cristo Redentor, mobilizando a imagem do ponto turístico carioca para promover a marca americana. Mas não é apenas isso. Se trata do Cristo, outra imagem religiosa, constituindo assim outra con-jugação inesperada, quiçá indesejável, entre sagrado e profano. Aliás, o Cristo Redentor foi originalmente construído, 84 anos atrás, pela comunidade católica do Rio de Janeiro, não como obra decorativa ou potencial atração turística, mas como símbolo da fé católica no Rio, então capital do Brasil. Naquela época, o estado no Brasil era ainda menos laico que nos dias atuais, e assim o Cristo nos remete a ainda outra dimensão do conflito entre sagrado e profano que perpassa toda essa reflexão. Por fim, a representação figurada de Jesus Cristo certamente se choca com a religiosidade islâmica, muitas vezes refratária à representação da figura humana, e ainda mais das figuras sagradas - lembrando que Jesus também é reverenciado pelo Islã, como último profeta anterior a Maomé. Temos então a tensa proximidade entre duas representações artísticas do sagrado (a caligrafia islâmica e a imagem cristã), amplificada pelo choque entre ambas e a profanidade comercial do delivery do fast food.
Outro parêntese interessante, dessa vez sobre o Brasil e o Islã. Outro encontro inusitado. Em Granada, ao pé da Alhambra, eu minha esposa conhecemos um curioso comerciante marroquino, figura ímpar, que nos confidenciou ser apaixonado pelo infame Casos de Família, programa popularesco produzido pelo SBT e exibido em algum canal espanhol. A conversa se prolongou de modo animado e caloroso, e no fim das contas, com genuína hospitalidade e liberalidade muçulmana, ele nos presenteou com diversos brindes, inclusive um blend artesanal de ervas para um chá poderosíssimo para a fertilidade. Outras tantas convergências inesperadas entre os mundos da magia e das onipresentes tecnologias que movem esse mundo globalizado, onde a devoção islâmica e o barraco à brasileira convivem lado a lado.
Sim, caro leitor, você já está cansado de ler e eu, confesso, cansado de escrever; façamos, porém, ainda um esforço. A cerâmica se quebrou e os cacos foram embalados na caixa de papelão da pizzaria. Mas isso ainda poderia provocar um acidente com o gari, caso a caixa se abrisse. Tomei, então, uma precaução extra: embalei a caixa (e os estilhaços) em duas sacolas plásticas de supermercado; o embrulho se encontra agora no chão de minha cozinha, ao lado de algumas garrafas pet vazias de Coca-Cola (outros símbolos da cultura capitalista, mas já explorei esse ponto à exaustão). Eu poderia aprofundar o fato de que tanto as sacolas quanto as garrafas são derivados de petróleo, que, por sua vez, é constituído por vestígios de cadáveres de dinossauros e outras espécies pré-históricas há muito tempo em decomposição, lembrando o quanto isso remete ao debate entre criacionismo e evolucionismo, mas vou deixar essa para algum paleontólogo de plantão. Fiquemos apenas com o petróleo, matéria-prima fetiche de nossa época, motor de conflitos muito mais sérios que a infindável litania sobre criacionismo e evolucionismo (que me perdoem ateus e evangélicos, que adoram essa discussão já tão puída). Para resumir, a cerâmica palestina e a caixa da Domino's se encontram agora dentro de duas sacolas produzidas com petróleo, o próprio combustível dos amargos conflitos do Oriente Médio, conflitos esses que estilhaçaram o estado iraquiano, permitindo a emergência do EI, que tanto ultraja a herança islâmica e, para início de conversa, instigou a presente reflexão.
4º movimento
Daqui a algumas horas esses cacos de cerâmica, caixa de papelão e sacolas plásticas estarão em algum caminhão da COMLURB, a caminho de algum lixão situado na Baixada Fluminense, imagino eu. Pelo que conheço sobre degradação de materiais, é provável que a caixa de pizza seja a primeira a desaparecer, seguida pelas sacolas plásticas, enquanto a cerâmica certamente perdurará ainda por milhares de anos. Paradoxalmente, a cerâmica é extremamente vulnerável a choques, mas seus cacos são muito resistentes à degradação pelo tempo - é por isso, aliás, que elas nos ajudam a descobrir tanta coisa sobre as culturas pré-históricas. Resumindo, é perfeitamente plausível que daqui a milhares de anos um arqueólogo encontre alguns vestígios de cerâmica palestina, compondo um itinerário multissecular que nos conduz de Meca à Baixada Fluminense, passando por Bagdá, testemunhando parte da complexidade cultural tramada em nosso mundo globalizado. Me consola imaginar que quando o tempo, esse inexorável carrasco, finalmente tiver aberto todas as camadas dessa imprevisível boneca russa, o que sobrará finalmente será a melhor parte, um testemunho da busca humana pelo sublime, através da arte e da espiritualidade. Como diria a romancista Lian Hearn, "a rede do Céu é vasta, mas sua trama é sutil".
Mesmo esse texto, registrado através de milhões de impulsos elétricos codificados através de placas de circuitos integrados e de linguagem HTML constitui mais um dos giros absurdos e inusitados da espiral do tempo. De um texto a outro, separados por mais de mil anos: do Alcorão registrado pelo ilustre Profeta Maomé a esse exercício de malabarismo historiográfico garatujado por um obscuro professor de História, das ruas da Meca pré-islâmica aos subúrbios do Rio de Janeiro. Tenho apenas frágeis rudimentos em árabe e em HTML. Por via das dúvidas, apelo para um grigri, que pode, quem sabe, conciliar esses mundos e linguagens tão diferentes, como me ensinou um jovem parisiense de ascendência magrebina a serviço de uma grande corporação americana. Desejo profundamente, por sinal, que ele não venha a sucumbir à bárbara sedução do EI e nem se torne um dos jovens treinados nesses supostos campos em solo europeu, de onde saem para um triste encontro com a morte.
Tudo isso me faz pensar no filósofo Henri Bergson, que venho lendo recentemente, e em sua noção de duração, que ainda não entendi direito; estou com sono demais para farejar mais essa pista. Pois se trata exatamente de uma caçada - como diriam os franceses, de chasses croisées, "caças cruzadas", caminhos que se encontram inesperadamente no meio do bosque selvagem - encontros como aqueles que surpreendem o viajante nos contos de fadas, nos romances de cavalaria ou nas 1001 noites. No fundo, contrariando minhas reflexões de adolescente, talvez não haja nada nos objetos, apenas aquilo que o historiador deseja caçar neles: dizia Marc Bloch, o historiador precisa ser como um ogro, sempre farejando carne humana. Também precisa ser, creio, como Sherazade, cativando o ouvinte para sobreviver pelo menos mais uma noite, ou como Mozart, reunindo vozes e instrumentos para que, em meio à balbúrdia, sejamos enfim capazes de captar o doce trinado da flauta mágica. No final das contas, permanecendo no universo dos contos de fadas e das 1001 noites, tudo isso exige que nos tornemos fadas ou magos, capazes de conjugar e conjurar vestígios e fragmentos, como um caco de cerâmica, uma caixa de papelão ou uma sacola plástica, para transformá-los em fontes históricas - uma transmutação alquímica, outra palavrinha de raízes árabes.
Como finalizaria Malba Tahan, Alá seja louvado!
Dedico esse texto ao Seu Paulo, que me ensinou tantas lições de vida, à Tia Leila, que tentou me ensinar Álgebra, mas me tornou um escritor e à minha mãe, que me apresentou Malba Tahan
Desde que ainda era um adolescente que sonhava em ser arqueólogo imagino que cada objeto, raro ou banal, em suas singularidades, carrega em si o mundo inteiro. De lá para cá, a convicção permanece a mesma, embora minha argumentação nesse sentido tenha se tornado (um pouco) mais sofisticada...
1º movimento
Cerca de seis horas atrás, uma de minhas estantes sucumbiu ao peso dos livros, fazendo com que despencasse uma simpática cerâmica palestina, que se espatifou no chão. Catei os estilhaços, pensando em restaurá-la, mas algumas partes ficaram completamente irrecuperáveis, e as lascas são muito afiadas. Preferi jogar fora o que sobrou.
Olhando o trecho do Alcorão pintado em sua superfície, aqueles cacos de cerâmica logo me remeteram à triste situação do Oriente Médio, lembrando-me de uma notícia que acabara de ler, sobre a suposta existência de campos de treinamento do Estado Islâmico na Europa. Tenho grande simpatia pelas culturas islâmicas e suas realizações artísticas, intelectuais e espirituais, uma longa tradição inscrita em inúmeros objetos ao redor do mundo - inclusive minha humilde (e barata) cerâmica palestina. Diante de tudo que o mundo muçulmano e seus povos representam na história do mundo, a emergência do EI com sua barbárie me parece um dos episódios mais tristes da trajetória do Islã.
Nessa pequena obra de artesanato, com menos de 30cm de diâmetro, cabem muitos séculos de história, a começar pelo texto corânico, elaborado há cerca de 1.400 anos, verdadeiro ponto de partida de toda uma cultura - seu fiat ou seu big bang, como preferir. Por sua vez, o texto manuscrito sobre a cerâmica também remete a uma tradição secular do Islã, a arte da caligrafia, que por sua vez remete ao próprio Corão e seus mandamentos, enquanto expressão artística e decorativa que emergiu da proibição de representação de figuras naturais, interpretada e seguida de modo mais ou menos rígido através dos séculos, conforme tempos, lugares e pessoas. Por fim, o uso da cerâmica como suporte artístico deriva de outras circunstâncias históricas do mundo islâmico: as relações comerciais entre a Pérsia e a China durante a Idade Média, em que as tentativas de suprir às demandas por porcelana do mercado chinês levaram os artesãos persas a produzirem peças que inicialmente buscavam imitar as tradições da porcelana chinesa, mas logo começaram a se desenvolver como estilo artístico autônomo com suas próprias convenções, se espalhando desde então pelo mundo islâmico e dando lugar a inúmeras ramificações estéticas, inclusive influenciando as técnicas aplicadas sobre outros suportes que não a cerâmica.
Poderíamos prolongar indefinidamente essas linhas pontilhadas rumo ao passado, a épocas tão recuadas como o surgimento do monoteísmo abraâmico, as primeiras experiências de elaboração da escrita no mundo mediterrâneo, a formação das línguas semíticas, a invenção da cerâmica na Pré-história, ou mesmo o domínio do fogo, necessário à cocção da argila... Poderíamos mesmo ir até as fusões nucleares que, há bilhões de anos, em alguma estrela distante, há muito extinta, originou os átomos componentes do barro empregado em sua confecção.
2º movimento
Com um pouco de imaginação, percebemos que nas exíguas dimensões materiais desse objeto se acumulam inúmeras camadas de história, múltiplas dimensões de experiências religiosas, tecnológicas, comerciais e artísticas, o esforço de milhares - talvez milhões - de seres humanos, convergindo, se precipitando e se comprimindo sobre esse ínfimo artefato, como que em inúmeras circunvoluções, espécie de espiral onde cada volta se conforma à anterior e condiciona a próxima, sempre de modo irregular e imprevisível.
Até aqui falamos apenas das dimensões meramente materiais inscritas nesse objeto durante seu processo de fabricação, visíveis a olho nu. Todavia, creio, poderíamos explorar ainda o imenso conjunto de relações que mediaram sua existência. Me pergunto, em primeiro lugar, quem terá sido o artesão que o produziu: um homem? Uma mulher? De qual idade? Gosta de praticar caligrafia e decorar cerâmicas? Foi trabalho de apenas um artesão ou foi executado através de tarefas divididas - digamos, alguém decorou as bordas e outras pessoas produziram a caligrafia, aplicaram o esmalte, levaram ao forno...? Será que o artesão recebeu paga digna por seu serviço? Ficou satisfeito com a remuneração? Onde, exatamente, se localiza a oficina onde o trabalho foi executado? Quantos parentes esse trabalhador já perdeu no conflito palestino-israelense? Será um muçulmano profundamente fervoroso ou a caligrafia é apenas um meio de vida?
Vale também pensar em todas as relações que intermediaram sua produção e comercialização, desde a matéria-prima até o consumidor final (eu). Onde foi fabricada a tinta ou produzida a cerâmica? Imagino que a resposta para ambas perguntas seja "China"; dado o panorama global, aposto que, no mínimo, algum trecho da cadeia produtiva tenha passado pelo parque industrial chinês, de alguma maneira revertendo, subvertendo ou convertendo o próprio circuito comercial entre o Catai e o mundo islâmico que tanto influenciou a formação da arte ceramista muçulmana na Idade Média - outra volta na espiral do tempo.
Por fim, o trajeto entre Palestina e Brasil percorreu de navio ou avião algum dos inúmeros itinerários do atual comércio global, envolvendo, imagino, alguma agência de importação e um comerciante varejista, chegando a mim. Para fechar essa cadeia, vale indagar que experiências de vida condicionaram minha relação de consumo com esse objeto. Se a memória me serve bem, acho que o momento definidor dessa aquisição casual se deu há cerca de 21 anos, quando, ainda no primeiro segmento do Ensino Fundamental, eu enfrentava dificuldades com os problemas mais elementares da Álgebra apresentados por Tia Leila, minha professora. Um parêntese: na época, obviamente, eu ignorava que se tratava de Álgebra - era uma questão de "achar o valor do quadradinho". Tentando me incentivar a superar essas dificuldades, minha mãe pegou emprestado (com quem?) o encantador livro O homem que calculava, do igualmente encantador Malba Tahan (pseudônimo do escritor e professor de Matemática Júlio César de Melo e Souza). O livro narra as aventuras do brilhante, talentoso e generoso calculista Beremiz Samir, situadas na Pérsia medieval - mais ou menos na época em que as cerâmicas etc etc. Essa leitura foi decisiva no sentido de despertar meu encantamento pelo mundo islâmico, desde então aprofundado por muitas leituras de Malba Tahan e outros autores, culminando na aquisição de inúmeros artefatos artesanais - como a dita cerâmica.
Mas voltemos à Tia Leila e à Álgebra... Convém notar que a bendita Álgebra, como indica a própria etimologia, também nos relaciona diretamente ao Islã medieval, à medida que seus princípios de notação e formalização foram elaborados no mundo muçulmano, com grande destaque para o fervilhante ambiente intelectual de Bagdá... capital da Pérsia. É curioso reparar que, também o nome "Leila" é de origem árabe - apenas uma coincidência divertida. Aliás, seu marido é o Tio Taje, nome de origem indiana - um casal indo-arábico, como os algarismos e a própria Álgebra. Recapitulando: Tia Leila me conduziu à Álgebra, que me conduziu a Malba Tahan, que me conduziu à cultura islâmica, que me conduziu a comprar uma cerâmica Palestina, que se quebrou algumas horas atrás.
E tudo isso me traz lágrimas aos olhos, porque meu sogro também se apaixonou por Malba Tahan alguns anos atrás, quando lhe emprestei O homem que calculava, mas infelizmente ele não se encontra mais entre nós há alguns meses. Lágrimas secas, prossigamos.
Aproveito para notar que até hoje mantenho contato com a Tia Leila, e até aprendi a gostar da Álgebra, embora, definitivamente, ela não goste de mim. Também essas relações, tão pessoais, com a Tia Leila, com Tio Taje, com minha mãe, com meu sogro, de algum modo, acabaram se intrometendo na cerâmica, no momento mesmo em que escrevo esse texto.
3º movimento
Algumas horas atrás... cerâmica... lascas... irreparável, etc. Catei a cerâmica com vassoura e pá de lixo. Para não machucar o gari, resolvi embrulhar os cacos numa caixa de pizza que acabara de consumir, semelhante a essa aqui:
Como você pode ver, a caixa (e a pizza) eram da franquia Domino's, uma das maiores redes de fat, digo, fast food do mundo (globalizado, please). É no mínimo irônico que, no fim das contas, os cacos de cerâmica palestina tenham ido parar dentro de uma embalagem que representa o poderio econômico dos Estados Unidos da América, o principal antagonista do mundo islâmico na atualidade e, pior ainda, o maior aliado do Estado de Israel que tanto vem oprimindo os palestinos - inclusive os artesãos que produziram o artefato em questão. Veja bem: uma peça de cerâmica que, como vimos, representa tanto a arte quanto a religião islâmica, com versos corânicos pintados em sua superfície! Uma ironia nada banal, inclusive porquê reúne vários opostos: o refinamento artístico e a mais que mundana junk food; o Islã que tanto preza o jejum e a glutonaria capitalista; o tabu islâmico quanto à carne de porco e as rodelas de pepperoni; a singularidade do artesanato manual e a embalagem produzida em massa; o sagrado, artístico e religioso, contra o profano, capitalista e pequeno-burguês; coração contra estômago.
Ainda aqui há espaço para outro desvio. Eu e minha esposa não nos tornamos clientes da Domino's no Brasil, mas em Paris, onde boa parte dos entregadores que nos atendiam eram de origem magrebina. Um deles, por sinal, muito simpático, vendo que o aparelho de cobrança em débito automático não conseguia sinal para executar a operação financeira, me ensinou um grigri, forma de magia simpática popular do Magreb, que, segundo ele, era infalível para remediar o funcionamento de aparelhos eletrônicos teimosos. Servia até, me disse, para interferir magicamente no resultado do jogo de futebol do time do coração transmitido pela TV, bastando executar o grigri bem próximo da tela! Tudo isso é ainda mais interessante porque con-juga, de novo, sob outros ângulos, capitalismo e Islã, magia e tecnologia, sagrado e profano. E, não nos esqueçamos, em Paris, atual epicentro desse conflito que se desenrola há pouco mais de uma década em diversos pontos do mundo.
Voltemos à caixa da Domino's. Ao lado da logomarca da franquia, vemos a silhueta do Cristo Redentor, mobilizando a imagem do ponto turístico carioca para promover a marca americana. Mas não é apenas isso. Se trata do Cristo, outra imagem religiosa, constituindo assim outra con-jugação inesperada, quiçá indesejável, entre sagrado e profano. Aliás, o Cristo Redentor foi originalmente construído, 84 anos atrás, pela comunidade católica do Rio de Janeiro, não como obra decorativa ou potencial atração turística, mas como símbolo da fé católica no Rio, então capital do Brasil. Naquela época, o estado no Brasil era ainda menos laico que nos dias atuais, e assim o Cristo nos remete a ainda outra dimensão do conflito entre sagrado e profano que perpassa toda essa reflexão. Por fim, a representação figurada de Jesus Cristo certamente se choca com a religiosidade islâmica, muitas vezes refratária à representação da figura humana, e ainda mais das figuras sagradas - lembrando que Jesus também é reverenciado pelo Islã, como último profeta anterior a Maomé. Temos então a tensa proximidade entre duas representações artísticas do sagrado (a caligrafia islâmica e a imagem cristã), amplificada pelo choque entre ambas e a profanidade comercial do delivery do fast food.
Outro parêntese interessante, dessa vez sobre o Brasil e o Islã. Outro encontro inusitado. Em Granada, ao pé da Alhambra, eu minha esposa conhecemos um curioso comerciante marroquino, figura ímpar, que nos confidenciou ser apaixonado pelo infame Casos de Família, programa popularesco produzido pelo SBT e exibido em algum canal espanhol. A conversa se prolongou de modo animado e caloroso, e no fim das contas, com genuína hospitalidade e liberalidade muçulmana, ele nos presenteou com diversos brindes, inclusive um blend artesanal de ervas para um chá poderosíssimo para a fertilidade. Outras tantas convergências inesperadas entre os mundos da magia e das onipresentes tecnologias que movem esse mundo globalizado, onde a devoção islâmica e o barraco à brasileira convivem lado a lado.
Sim, caro leitor, você já está cansado de ler e eu, confesso, cansado de escrever; façamos, porém, ainda um esforço. A cerâmica se quebrou e os cacos foram embalados na caixa de papelão da pizzaria. Mas isso ainda poderia provocar um acidente com o gari, caso a caixa se abrisse. Tomei, então, uma precaução extra: embalei a caixa (e os estilhaços) em duas sacolas plásticas de supermercado; o embrulho se encontra agora no chão de minha cozinha, ao lado de algumas garrafas pet vazias de Coca-Cola (outros símbolos da cultura capitalista, mas já explorei esse ponto à exaustão). Eu poderia aprofundar o fato de que tanto as sacolas quanto as garrafas são derivados de petróleo, que, por sua vez, é constituído por vestígios de cadáveres de dinossauros e outras espécies pré-históricas há muito tempo em decomposição, lembrando o quanto isso remete ao debate entre criacionismo e evolucionismo, mas vou deixar essa para algum paleontólogo de plantão. Fiquemos apenas com o petróleo, matéria-prima fetiche de nossa época, motor de conflitos muito mais sérios que a infindável litania sobre criacionismo e evolucionismo (que me perdoem ateus e evangélicos, que adoram essa discussão já tão puída). Para resumir, a cerâmica palestina e a caixa da Domino's se encontram agora dentro de duas sacolas produzidas com petróleo, o próprio combustível dos amargos conflitos do Oriente Médio, conflitos esses que estilhaçaram o estado iraquiano, permitindo a emergência do EI, que tanto ultraja a herança islâmica e, para início de conversa, instigou a presente reflexão.
4º movimento
Daqui a algumas horas esses cacos de cerâmica, caixa de papelão e sacolas plásticas estarão em algum caminhão da COMLURB, a caminho de algum lixão situado na Baixada Fluminense, imagino eu. Pelo que conheço sobre degradação de materiais, é provável que a caixa de pizza seja a primeira a desaparecer, seguida pelas sacolas plásticas, enquanto a cerâmica certamente perdurará ainda por milhares de anos. Paradoxalmente, a cerâmica é extremamente vulnerável a choques, mas seus cacos são muito resistentes à degradação pelo tempo - é por isso, aliás, que elas nos ajudam a descobrir tanta coisa sobre as culturas pré-históricas. Resumindo, é perfeitamente plausível que daqui a milhares de anos um arqueólogo encontre alguns vestígios de cerâmica palestina, compondo um itinerário multissecular que nos conduz de Meca à Baixada Fluminense, passando por Bagdá, testemunhando parte da complexidade cultural tramada em nosso mundo globalizado. Me consola imaginar que quando o tempo, esse inexorável carrasco, finalmente tiver aberto todas as camadas dessa imprevisível boneca russa, o que sobrará finalmente será a melhor parte, um testemunho da busca humana pelo sublime, através da arte e da espiritualidade. Como diria a romancista Lian Hearn, "a rede do Céu é vasta, mas sua trama é sutil".
Mesmo esse texto, registrado através de milhões de impulsos elétricos codificados através de placas de circuitos integrados e de linguagem HTML constitui mais um dos giros absurdos e inusitados da espiral do tempo. De um texto a outro, separados por mais de mil anos: do Alcorão registrado pelo ilustre Profeta Maomé a esse exercício de malabarismo historiográfico garatujado por um obscuro professor de História, das ruas da Meca pré-islâmica aos subúrbios do Rio de Janeiro. Tenho apenas frágeis rudimentos em árabe e em HTML. Por via das dúvidas, apelo para um grigri, que pode, quem sabe, conciliar esses mundos e linguagens tão diferentes, como me ensinou um jovem parisiense de ascendência magrebina a serviço de uma grande corporação americana. Desejo profundamente, por sinal, que ele não venha a sucumbir à bárbara sedução do EI e nem se torne um dos jovens treinados nesses supostos campos em solo europeu, de onde saem para um triste encontro com a morte.
Tudo isso me faz pensar no filósofo Henri Bergson, que venho lendo recentemente, e em sua noção de duração, que ainda não entendi direito; estou com sono demais para farejar mais essa pista. Pois se trata exatamente de uma caçada - como diriam os franceses, de chasses croisées, "caças cruzadas", caminhos que se encontram inesperadamente no meio do bosque selvagem - encontros como aqueles que surpreendem o viajante nos contos de fadas, nos romances de cavalaria ou nas 1001 noites. No fundo, contrariando minhas reflexões de adolescente, talvez não haja nada nos objetos, apenas aquilo que o historiador deseja caçar neles: dizia Marc Bloch, o historiador precisa ser como um ogro, sempre farejando carne humana. Também precisa ser, creio, como Sherazade, cativando o ouvinte para sobreviver pelo menos mais uma noite, ou como Mozart, reunindo vozes e instrumentos para que, em meio à balbúrdia, sejamos enfim capazes de captar o doce trinado da flauta mágica. No final das contas, permanecendo no universo dos contos de fadas e das 1001 noites, tudo isso exige que nos tornemos fadas ou magos, capazes de conjugar e conjurar vestígios e fragmentos, como um caco de cerâmica, uma caixa de papelão ou uma sacola plástica, para transformá-los em fontes históricas - uma transmutação alquímica, outra palavrinha de raízes árabes.
Como finalizaria Malba Tahan, Alá seja louvado!
Dedico esse texto ao Seu Paulo, que me ensinou tantas lições de vida, à Tia Leila, que tentou me ensinar Álgebra, mas me tornou um escritor e à minha mãe, que me apresentou Malba Tahan
Assuntos relacionados:
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terça-feira, 26 de janeiro de 2016
Paraíso para todos
O problema do mundo não está nas pessoas. Pela minha experiência de vida, me parece que a esmagadora maioria das pessoas possui boas tendências (digamos, um "bom coração").
O problema está no conjunto das relações que estabelecemos uns com os outros enquanto coletividade. Não conseguimos nos unir e formar uma dinâmica relacional que permita a emergência do que há de melhor em nós. Não à toa, o grande sonho (ainda não realizado) da contemporaneidade é composto pelos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Olhando atentamente, percebemos que esses três valores não se referem apenas a indivíduos, mas principalmente às relações que se estabelecem entre as pessoas, enquanto comunidade - uma comunidade global, por sinal.
Por isso mesmo, me parece, a fala da personagem Sonmi no filme "Cloud Atlas" constitui um eco tão potente, a ressoar na alma de quem as ouve:
“Existir é ser percebido, então conhecer a si mesmo só é possível através dos olhos dos outros. A natureza de nossas vidas imortais está nas consequências de nossas palavras e atos, que vão em frente e se impulsionam através dos tempos. Nossas vidas não são nossas. Do berço ao túmulo, estamos ligados a outros, no passado e no presente. Através de cada crime e de cada ato generoso, nós damos nascimento a nosso futuro”.
No dia em que nos tornarmos capazes de nos organizarmos coletivamente nesse sentido, esse mundo poderá ser, como cantava Freddie Mercury, "heaven for everyone". Sartre estava errado. Os OUTROS não são o inferno. O verdadeiro inferno é o EU, mas NÓS podemos ser o paraíso. De fato, o paraíso está entre nós, nos espaços que nos separam, mas poderiam nos unir...
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
Religião X espiritualidade: entre o dogma e a libertação
Extrato do livro Deus - Sua história na epopeia humana, do filósofo Frédéric Lenoir
"Com o período axial podemos falar verdadeiramente de espiritualidade. Como vimos, a religião liga [em francês, lie, "amarra"]. Ela reúne os seres humanos através de uma crença coletiva num invisível que os ultrapassa. Por isso, Régis Debray utiliza muito adequadamente o termo 'comunhões humanas' para falar de religiões. Inicialmente, porém, eu diria que a espiritualidade, a busca pessoal do espírito, desliga [em francês, délie, "desamarra"]. Ela liberta o indivíduo de tudo o que o prende e o aprisiona em visões errôneas: ignorância, a priorismos, preconceitos etc, mas ela também o liberta do grupo. Ela o liberta do peso da tradição, do coletivo, para levá-lo a si mesmo, à sua verdade interior. Em seguida, se a espiritualidade começa desligando o indivíduo, ela tem como fim último ligá-lo de maneira justa aos outros. Dito de outra forma, a espiritualidade desliga para melhor ligar; ela liberta o indivíduo para ensiná-lo a amar. Uma espiritualidade que deságua na indiferença ou no desprezo pelos outros não tem nada de autêntico. É uma neurose que oferece o espiritual como álibi.
Todas essas correntes de sabedoria e espiritualidade que nascem durante o primeiro milênio de nossa era têm como objetivo permitir que o indivíduo seja de maneira plena, desenvolvendo a parte divina ou transcendente que o habita. De fato, o indivíduo se emancipa em grande parte dos rituais e das crenças coletivas para ter acesso direto ao divino ou ao Absoluto. Pelo viés da razão, da experiência interior, da oração, da meditação, ele procura a verdade. Essa busca interior e pessoal frequentemente o deixa numa situação ambígua em relação às tradições religiosas que privilegiam o interesse do grupo, do povo, da tribo, da cidade. Assim é que Buda atrai o ódio dos brâmanes cujos ritos sacrificiais inúteis ele denuncia. Sócrates é condenado à morte por impiedade, e Jesus, por ter ameaçado o poder sacerdotal. E seus acusadores não se enganaram: esses três personagens contribuíram enormemente para emancipar o indivíduo da religião dominante. Inicialmente, colocando-o numa relação direta com Deus, o Absoluto, ou o princípio divino. Pela oração (Jesus), a filosofia (Sócrates) ou a meditação (Buda), o homem pode operar sua salvação sem passar pelos ritos sacrificiais pregados pela tradição. Em seguida, o ensinamento deles rompe com o caráter aristocrático das sociedades tradicionais. Para eles, não há diferença fundamental entre os seres humanos. Todos: ricos ou pobres, escravos ou homens livres, homens ou mulheres podem ascender à libertação ou à salvação. Não há mais hierarquia, casta, povo eleito. Todos os seres humanos são iguais porque todos possuem uma alma imortal que lhes permite desenvolver uma vida espiritual que os torna livres. A partir daí, a nobreza da alma importa mais do que a nobreza de nascimento. A espiritualidade é radicalmente democrática. Consequentemente, ela enfraquece qualquer instituição religiosa que afirma que a salvação passa pela lei ou pelos rituais coletivos impostos por uma casta privilegiada: a dos sacerdotes. Mesmo que frequentemente nasçam e se desenvolvam no seio de tradições religiosas, as correntes espirituais introduzem uma forte contestação de tais tradições, chegando por vezes até mesmo a produzir cismas, como o budismo em relação ao hinduísmo, o cristianismo em relação ao judaísmo ou, no seio mesmo do cristianismo, o protestantismo em relação ao catolicismo. Porque o cristianismo logo se desviou de sua contestação inicial do legalismo religioso para recriar um legalismo e um clericalismo tão pesados quanto o que foi denunciado por Jesus. Assim, há um série de reformas sucessivas, dentre as quais a de Lutero, no século XVI, que pretende se emancipar do poder dos clérigos e do papado para voltar aos principais fundamentos do evangelho: a pobreza, a relação direta com Deus, a igualdade entre todos. Muito antes de Lutero, porém, as ordens religiosas e as correntes místicas permitiram que numerosos cristãos se emancipassem, pela interioridade, do pesado fardo da instituição.
As correntes espirituais que professavam uma ortodoxia doutrinal, criticando simultaneamente o poder ou a corrupção dos clérigos, foram de certo modo assimiladas pela instituição e muitas vezes contribuíram para a reforma interna. Foi o caso das ordens monásticas. É o que vemos com Bernardo e os cistercienses, ou Francisco de Assis e os franciscanos. Mas aqueles que se desviaram do dogma foram erradicados pela Inquisição. É o caso dos cátaros e de numerosos movimentos místicos, como o das beguinas, mulheres adeptas do 'livre espírito'. Lutero também questionará aspectos do dogma, mas, na sua época, a Igreja não tinha mais os meios para lutar contra as correntes contestatárias. Ele foi protegido por um príncipe alemão convencido de suas ideias, que se recusou a entregá-lo ao papa. A Reforma protestante rapidamente conquistou numerosos príncipes e reis, por demais felizes em, desse modo, se libertarem do domínio de Roma. O Renascimento, com a descoberta do humanismo grego, teve um impacto decisivo sobre a religião cristã, redirecionando-a para suas origens que são muito próximas do ideal democrático e da autonomia do sujeito, da libertação do indivíduo em relação ao grupo".
"Com o período axial podemos falar verdadeiramente de espiritualidade. Como vimos, a religião liga [em francês, lie, "amarra"]. Ela reúne os seres humanos através de uma crença coletiva num invisível que os ultrapassa. Por isso, Régis Debray utiliza muito adequadamente o termo 'comunhões humanas' para falar de religiões. Inicialmente, porém, eu diria que a espiritualidade, a busca pessoal do espírito, desliga [em francês, délie, "desamarra"]. Ela liberta o indivíduo de tudo o que o prende e o aprisiona em visões errôneas: ignorância, a priorismos, preconceitos etc, mas ela também o liberta do grupo. Ela o liberta do peso da tradição, do coletivo, para levá-lo a si mesmo, à sua verdade interior. Em seguida, se a espiritualidade começa desligando o indivíduo, ela tem como fim último ligá-lo de maneira justa aos outros. Dito de outra forma, a espiritualidade desliga para melhor ligar; ela liberta o indivíduo para ensiná-lo a amar. Uma espiritualidade que deságua na indiferença ou no desprezo pelos outros não tem nada de autêntico. É uma neurose que oferece o espiritual como álibi.
Todas essas correntes de sabedoria e espiritualidade que nascem durante o primeiro milênio de nossa era têm como objetivo permitir que o indivíduo seja de maneira plena, desenvolvendo a parte divina ou transcendente que o habita. De fato, o indivíduo se emancipa em grande parte dos rituais e das crenças coletivas para ter acesso direto ao divino ou ao Absoluto. Pelo viés da razão, da experiência interior, da oração, da meditação, ele procura a verdade. Essa busca interior e pessoal frequentemente o deixa numa situação ambígua em relação às tradições religiosas que privilegiam o interesse do grupo, do povo, da tribo, da cidade. Assim é que Buda atrai o ódio dos brâmanes cujos ritos sacrificiais inúteis ele denuncia. Sócrates é condenado à morte por impiedade, e Jesus, por ter ameaçado o poder sacerdotal. E seus acusadores não se enganaram: esses três personagens contribuíram enormemente para emancipar o indivíduo da religião dominante. Inicialmente, colocando-o numa relação direta com Deus, o Absoluto, ou o princípio divino. Pela oração (Jesus), a filosofia (Sócrates) ou a meditação (Buda), o homem pode operar sua salvação sem passar pelos ritos sacrificiais pregados pela tradição. Em seguida, o ensinamento deles rompe com o caráter aristocrático das sociedades tradicionais. Para eles, não há diferença fundamental entre os seres humanos. Todos: ricos ou pobres, escravos ou homens livres, homens ou mulheres podem ascender à libertação ou à salvação. Não há mais hierarquia, casta, povo eleito. Todos os seres humanos são iguais porque todos possuem uma alma imortal que lhes permite desenvolver uma vida espiritual que os torna livres. A partir daí, a nobreza da alma importa mais do que a nobreza de nascimento. A espiritualidade é radicalmente democrática. Consequentemente, ela enfraquece qualquer instituição religiosa que afirma que a salvação passa pela lei ou pelos rituais coletivos impostos por uma casta privilegiada: a dos sacerdotes. Mesmo que frequentemente nasçam e se desenvolvam no seio de tradições religiosas, as correntes espirituais introduzem uma forte contestação de tais tradições, chegando por vezes até mesmo a produzir cismas, como o budismo em relação ao hinduísmo, o cristianismo em relação ao judaísmo ou, no seio mesmo do cristianismo, o protestantismo em relação ao catolicismo. Porque o cristianismo logo se desviou de sua contestação inicial do legalismo religioso para recriar um legalismo e um clericalismo tão pesados quanto o que foi denunciado por Jesus. Assim, há um série de reformas sucessivas, dentre as quais a de Lutero, no século XVI, que pretende se emancipar do poder dos clérigos e do papado para voltar aos principais fundamentos do evangelho: a pobreza, a relação direta com Deus, a igualdade entre todos. Muito antes de Lutero, porém, as ordens religiosas e as correntes místicas permitiram que numerosos cristãos se emancipassem, pela interioridade, do pesado fardo da instituição.
As correntes espirituais que professavam uma ortodoxia doutrinal, criticando simultaneamente o poder ou a corrupção dos clérigos, foram de certo modo assimiladas pela instituição e muitas vezes contribuíram para a reforma interna. Foi o caso das ordens monásticas. É o que vemos com Bernardo e os cistercienses, ou Francisco de Assis e os franciscanos. Mas aqueles que se desviaram do dogma foram erradicados pela Inquisição. É o caso dos cátaros e de numerosos movimentos místicos, como o das beguinas, mulheres adeptas do 'livre espírito'. Lutero também questionará aspectos do dogma, mas, na sua época, a Igreja não tinha mais os meios para lutar contra as correntes contestatárias. Ele foi protegido por um príncipe alemão convencido de suas ideias, que se recusou a entregá-lo ao papa. A Reforma protestante rapidamente conquistou numerosos príncipes e reis, por demais felizes em, desse modo, se libertarem do domínio de Roma. O Renascimento, com a descoberta do humanismo grego, teve um impacto decisivo sobre a religião cristã, redirecionando-a para suas origens que são muito próximas do ideal democrático e da autonomia do sujeito, da libertação do indivíduo em relação ao grupo".
Assuntos relacionados:
Budismo,
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domingo, 15 de novembro de 2015
"Amor", medo e violência
Extrato do artigo "To love and to fear us": Intercultural violence in the English Atlantic, de Melanie Perrault (tradução minha)
"Na Inglaterra dos séculos XVI e XVII havia três categorias gerais para a justa violência: punição sancionada pelo Estado ou ação militar, ações tomadas em defesa dos padrões da comunidade (inclusive hierarquias sociais, econômicas ou de gênero), e violência em nome da religião. Obviamente, tanto os perpetrados quanto as vítimas de violência buscavam construir relatos de comportamento violento em seu favor, apresentando a si mesmos como claros exemplos de Englishness e seus oponentes como perturbadores da paz. Confrontos físicos rapidamente eram transformados em uma disputa de palavras negociadas numa corte de justiça ou em uma das inúmeras formas de divulgação da palavra impressa. Nessas disputas literárias, os americanos nativos da Virgínia ou da Nova Inglaterra se envontravam decididamente em desvantagem, não tendo a oportunidade de ditar uma resposta escrita livre de um viés inglês.
As categorias mais polêmicas de violência justificável também eram as mais fluidas - enquanto a violência sancionada pelo Estado era facilmente identificável como tal, e a violência religiosa oferecia uma distinção relativamente clara entre o status de insider e outsider, a violência para manutenção dos padrões da comunidade se baseava em um conjunto de hierarquias mutuamente acordado que se encontrava constantemente sob negociação. A questão se qualquer ato individual de violência seria considerado justificável dependia em grande medida da relação entre os participantes. Violência entre iguais, embora desencorajada, era aceita como uma parte natural da condição humana. Violência administrada por uma pessoa de status superior a seus inferiores era tida como um meio necessário de impor as normas sociais, uma responsabilidade que não deveria ser objeto de abusos através de punição excessiva. A forma mais ameaçadora de distúrbio da comunidade envolvia dependentes - criados, filhos ou mulheres - usurpando a posição de seus mestres atacando violentamente seus corpos ou bens.
Num esforço para justificar sua presença no Novo Mundo, a retórica inglesa consignava todos os índios, inclusive homens adultos, ao status de dependente, tornando qualquer ato de violência dos índios uma força potencialmente desestabilizadora com implicações para toda a missão colonial. Uma vez que os nativos americanos entendessem seu adequado papel subordinado nas terras recentemente civilizadas, a violência não seria eliminada, mas seria relegada como um aspecto menos importante da vida. [...]
Para ser legítima, todavia, a violência deveria ser usada apenas como um último recurso e tinha de ser restrita. Quando administrada adequadamente, a violência física deveria supostamente ser recebida como um castigo amoroso, destinado a restaurar a ordem no ambiente doméstico. Violência aleatória ou excessiva não era tolerada, pois minava o legítimo uso da força. Vizinhos monitoravam o comportamento uns dos outros, num esforço para assegurar que punições aceitáveis não deslizariam para o abuso, embora tal regulação informal deixasse oportunidades significativas para maus-tratos. [...]
Era desse contexto que homens e mulheres ingleses atravessaram o Atlântico em meados do século XVI. Atitudes profundamente arraigadas em relação à violência deram forma aos primeiros encontros com povos nativos de diferentes culturas, oferecendo um parâmetro para a classificação dos estranhos e um conjunto de normas para regular as interações. [...] Evidentemente, observadores ingleses acreditavam que eles eram os árbitros definitivos do que constituía violência legítima, tanto para si mesmos quanto para os nativos que eles encontravam".
"Na Inglaterra dos séculos XVI e XVII havia três categorias gerais para a justa violência: punição sancionada pelo Estado ou ação militar, ações tomadas em defesa dos padrões da comunidade (inclusive hierarquias sociais, econômicas ou de gênero), e violência em nome da religião. Obviamente, tanto os perpetrados quanto as vítimas de violência buscavam construir relatos de comportamento violento em seu favor, apresentando a si mesmos como claros exemplos de Englishness e seus oponentes como perturbadores da paz. Confrontos físicos rapidamente eram transformados em uma disputa de palavras negociadas numa corte de justiça ou em uma das inúmeras formas de divulgação da palavra impressa. Nessas disputas literárias, os americanos nativos da Virgínia ou da Nova Inglaterra se envontravam decididamente em desvantagem, não tendo a oportunidade de ditar uma resposta escrita livre de um viés inglês.
As categorias mais polêmicas de violência justificável também eram as mais fluidas - enquanto a violência sancionada pelo Estado era facilmente identificável como tal, e a violência religiosa oferecia uma distinção relativamente clara entre o status de insider e outsider, a violência para manutenção dos padrões da comunidade se baseava em um conjunto de hierarquias mutuamente acordado que se encontrava constantemente sob negociação. A questão se qualquer ato individual de violência seria considerado justificável dependia em grande medida da relação entre os participantes. Violência entre iguais, embora desencorajada, era aceita como uma parte natural da condição humana. Violência administrada por uma pessoa de status superior a seus inferiores era tida como um meio necessário de impor as normas sociais, uma responsabilidade que não deveria ser objeto de abusos através de punição excessiva. A forma mais ameaçadora de distúrbio da comunidade envolvia dependentes - criados, filhos ou mulheres - usurpando a posição de seus mestres atacando violentamente seus corpos ou bens.
Num esforço para justificar sua presença no Novo Mundo, a retórica inglesa consignava todos os índios, inclusive homens adultos, ao status de dependente, tornando qualquer ato de violência dos índios uma força potencialmente desestabilizadora com implicações para toda a missão colonial. Uma vez que os nativos americanos entendessem seu adequado papel subordinado nas terras recentemente civilizadas, a violência não seria eliminada, mas seria relegada como um aspecto menos importante da vida. [...]
Para ser legítima, todavia, a violência deveria ser usada apenas como um último recurso e tinha de ser restrita. Quando administrada adequadamente, a violência física deveria supostamente ser recebida como um castigo amoroso, destinado a restaurar a ordem no ambiente doméstico. Violência aleatória ou excessiva não era tolerada, pois minava o legítimo uso da força. Vizinhos monitoravam o comportamento uns dos outros, num esforço para assegurar que punições aceitáveis não deslizariam para o abuso, embora tal regulação informal deixasse oportunidades significativas para maus-tratos. [...]
Era desse contexto que homens e mulheres ingleses atravessaram o Atlântico em meados do século XVI. Atitudes profundamente arraigadas em relação à violência deram forma aos primeiros encontros com povos nativos de diferentes culturas, oferecendo um parâmetro para a classificação dos estranhos e um conjunto de normas para regular as interações. [...] Evidentemente, observadores ingleses acreditavam que eles eram os árbitros definitivos do que constituía violência legítima, tanto para si mesmos quanto para os nativos que eles encontravam".
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
Carta do povo Kisedje em repúdio à PEC 215
Reproduzo abaixo:
"Kisêdjê Wê Kupê Re Ajmendo Wikhrõntá
AIK – Associação Indígena Kisêdjê
Nós, povo Kisêdjê, reunidos na assembleia geral da nossa associação, recebemos a notícia que a PEC 215 está avançando. No dia 27 de outubro de 2015, os inimigos dos indígenas e da natureza deram mais um passo. Nós estamos indignados com essa PEC e vamos contar por que somos contra ela.
Se esta Proposta de Emenda Constitucional for aprovada, queremos dizer para todos que a destruição será muito grande, e ela já está começando. As florestas estão acabando, os rios estão secando, em outros lugares a chuva está inundando as cidades. Em São Paulo as pessoas já estão sofrendo sem água. E elas não estão percebendo o que está causando tudo isso. Os brancos estão provocando os espíritos da natureza, estão destruindo todas as florestas e a natureza. E os espíritos não estão gostando disso, e já começaram a se vingar.
Nós indígenas sabemos disso há muito tempo, só agora os cientistas de vocês estão descobrindo essa verdade, chamando de mudança climática. Mas as pessoas que estão ganhando dinheiro com essa destruição não querem dar ouvidos a isso.
Até hoje, nós, povos originários desta terra, existimos, mesmo sem dinheiro, ou exploração da natureza. Sabemos conviver com a natureza, sabemos respeitá-la, sabemos qual árvore podemos derrubar, sabemos quando e como podemos mexer na natureza. Temos que respeitar, porque é a natureza que dá vida para a gente, ela que dá água e comida.
Não estamos preocupados com dinheiro: dinheiro não é peixe nem caça, dinheiro não é agua, não é lugar bom para viver.
Se a natureza se vingar, como o ser humano vai viver, onde seus filhos e netos irão beber água, onde vão plantar sua comida?
Vocês, ruralistas, empresários, políticos evangélicos, precisam enxergar isso, precisam entender que este olhar grande só no dinheiro está acabando com nossas vidas. De todos do planeta.
Esta destruição não é para plantar comida para o povo brasileiro, que ainda sofre com a fome, mas sim para vender soja para outros países, pensando apenas no lucro de poucas pessoas. Sabemos que existe uma lei, que é a constituição federal do Brasil, aprovada em 1988. Também conhecemos a convenção 169 da OIT, que garante a obrigação de consulta aos povos indígenas quando alguma mudança na lei vai nos afetar. Agora os políticos estão ameaçando essas leis maiores, que foram feitas para todos poderem viver bem.
Estamos chamando as pessoas preocupadas com o mundo, os países que já perceberam isso, para se juntar também à nossa luta, porque todos vão sofrer, todos vão sentir.
Queremos mandar um recado para os países que estão comprando esta soja, eles estão financiando problemas para eles mesmos. Mesmo que seja do outro lado do mundo, eles também serão atingidos, porque o planeta é só um.
Os deputados, senadores, prefeitos, vereadores, governadores, fazendeiros, empresários, políticos evangélicos, precisam enxergar isso, precisam considerar nossa manifestação, antes que seja tarde demais. Vocês precisam pensar nos seus filhos, nos seus netos, nos netos deles.
Nós, povos originários dessa terra, vemos que essa lei avançou para ser aprovada. Se os deputados aprovarem e ela chegar no senado, nós vamos entrar em guerra. Antigamente, nós lutávamos com armas. Aprendemos a lutar pacificamente, do seu jeito, com palavras e com papel, mas os políticos não querem nos dar ouvidos. Vamos fazer guerra de verdade, usando todos nossos poderes, nossas armas, nossos corpos. Vamos começar na nossa vizinhança, nas fazendas, nas BRs e nas cidades vizinhas, e não vamos parar. Estamos lutando pela nossa vida, e não vamos morrer sentados.
Presidente Dilma Roussef, não esquecemos da promessa que você fez para os povos indígenas, de que não irá aprovar esta PEC, e fique sabendo que se esta proposta for aprovada você estará declarando guerra contra nós, povos originários e avisamos que estamos preparados para derramar sangue.
Povos originários do Brasil, nós do leste do Xingu- MT, povo Kisêdjê, estamos nos preparando para guerra, se preparem também para enfrentar juntos esta batalha contra PEC 215.
Já houve muitos assassinatos de vários líderes indígenas pelo homem branco. Estamos cansados de lutar pelo papel, não iremos ficar".
"Kisêdjê Wê Kupê Re Ajmendo Wikhrõntá
AIK – Associação Indígena Kisêdjê
Nós, povo Kisêdjê, reunidos na assembleia geral da nossa associação, recebemos a notícia que a PEC 215 está avançando. No dia 27 de outubro de 2015, os inimigos dos indígenas e da natureza deram mais um passo. Nós estamos indignados com essa PEC e vamos contar por que somos contra ela.
Se esta Proposta de Emenda Constitucional for aprovada, queremos dizer para todos que a destruição será muito grande, e ela já está começando. As florestas estão acabando, os rios estão secando, em outros lugares a chuva está inundando as cidades. Em São Paulo as pessoas já estão sofrendo sem água. E elas não estão percebendo o que está causando tudo isso. Os brancos estão provocando os espíritos da natureza, estão destruindo todas as florestas e a natureza. E os espíritos não estão gostando disso, e já começaram a se vingar.
Nós indígenas sabemos disso há muito tempo, só agora os cientistas de vocês estão descobrindo essa verdade, chamando de mudança climática. Mas as pessoas que estão ganhando dinheiro com essa destruição não querem dar ouvidos a isso.
Até hoje, nós, povos originários desta terra, existimos, mesmo sem dinheiro, ou exploração da natureza. Sabemos conviver com a natureza, sabemos respeitá-la, sabemos qual árvore podemos derrubar, sabemos quando e como podemos mexer na natureza. Temos que respeitar, porque é a natureza que dá vida para a gente, ela que dá água e comida.
Não estamos preocupados com dinheiro: dinheiro não é peixe nem caça, dinheiro não é agua, não é lugar bom para viver.
Se a natureza se vingar, como o ser humano vai viver, onde seus filhos e netos irão beber água, onde vão plantar sua comida?
Vocês, ruralistas, empresários, políticos evangélicos, precisam enxergar isso, precisam entender que este olhar grande só no dinheiro está acabando com nossas vidas. De todos do planeta.
Esta destruição não é para plantar comida para o povo brasileiro, que ainda sofre com a fome, mas sim para vender soja para outros países, pensando apenas no lucro de poucas pessoas. Sabemos que existe uma lei, que é a constituição federal do Brasil, aprovada em 1988. Também conhecemos a convenção 169 da OIT, que garante a obrigação de consulta aos povos indígenas quando alguma mudança na lei vai nos afetar. Agora os políticos estão ameaçando essas leis maiores, que foram feitas para todos poderem viver bem.
Estamos chamando as pessoas preocupadas com o mundo, os países que já perceberam isso, para se juntar também à nossa luta, porque todos vão sofrer, todos vão sentir.
Queremos mandar um recado para os países que estão comprando esta soja, eles estão financiando problemas para eles mesmos. Mesmo que seja do outro lado do mundo, eles também serão atingidos, porque o planeta é só um.
Os deputados, senadores, prefeitos, vereadores, governadores, fazendeiros, empresários, políticos evangélicos, precisam enxergar isso, precisam considerar nossa manifestação, antes que seja tarde demais. Vocês precisam pensar nos seus filhos, nos seus netos, nos netos deles.
Nós, povos originários dessa terra, vemos que essa lei avançou para ser aprovada. Se os deputados aprovarem e ela chegar no senado, nós vamos entrar em guerra. Antigamente, nós lutávamos com armas. Aprendemos a lutar pacificamente, do seu jeito, com palavras e com papel, mas os políticos não querem nos dar ouvidos. Vamos fazer guerra de verdade, usando todos nossos poderes, nossas armas, nossos corpos. Vamos começar na nossa vizinhança, nas fazendas, nas BRs e nas cidades vizinhas, e não vamos parar. Estamos lutando pela nossa vida, e não vamos morrer sentados.
Presidente Dilma Roussef, não esquecemos da promessa que você fez para os povos indígenas, de que não irá aprovar esta PEC, e fique sabendo que se esta proposta for aprovada você estará declarando guerra contra nós, povos originários e avisamos que estamos preparados para derramar sangue.
Povos originários do Brasil, nós do leste do Xingu- MT, povo Kisêdjê, estamos nos preparando para guerra, se preparem também para enfrentar juntos esta batalha contra PEC 215.
Já houve muitos assassinatos de vários líderes indígenas pelo homem branco. Estamos cansados de lutar pelo papel, não iremos ficar".
domingo, 25 de outubro de 2015
Burocracia da Vingança
Extrato de O cavaleiro inexistente, de Ítalo Calvino
"Rambaldo dirigiu-se ao pavilhão da Superintendência para Duelos, Vinganças e Máculas à Honra. Já não se deixava enganar pelas couraças e elmos emplumados: percebia que atrás daquelas mesas as armaduras encerravam homenzinhos mirrados e poeirentos. E se devia agradecer quando havia alguém dentro!
- Com que então, quer vingar seu pai, marquês de Rossiglione, patente de general! Vejamos: para vingar um general, o melhor procedimento é eliminar três majores. Poderíamos indicar-lhes três fáceis e tudo em ordem para você.
-Não me expliquei bem: quem devo matar é Isoarre, o emir. Foi ele em pessoa quem derrubou meu glorioso pai!
-Sim, sim, entendemos, mas você não se iluda porque derrubar um emir não é coisa simples... Quer quatro capitães? Podemos garantir-lhe quatro capitães infiéis durante a manhã. Note que quatro capitães valem um general de exército e seu pai era apenas general de brigada.
-Vou procurar Isoarre e arrancar-lhe as tripas! Ele, e só ele!
-Você vai acabar preso, sem ir ao campo de batalha, pode ter certeza! Reflita um pouco antes de falar! Se criamos obstáculos em relação a Isoarre é porque temos boas razões... Se, por exemplo, o nosso imperador tivesse alguma negociação em curso com Isoarre...
Mas um dos funcionários que até aquele momento mantivera a cabeça enfiada nos mapas levantou-se contente:
-Tudo resolvido! Tudo resolvido! Não é preciso fazer nada. Nada de vingança, nem é preciso! Outro dia, Ulivieri, pensando que seus dois tios haviam morrido em combate, vingou-os! Contudo, eles estavam bêbados debaixo de uma mesa! Acabamos ficando com duas vinganças de tio a mais, uma boa trapalhada. Agora está tudo certo: uma vingança de tio podemos contar como meia vingança de pai; é como se tivéssemos uma vingança de pai completa, já executada.
-Ah, meu pai! - Rambaldo quase tinha um ataque.
-Mas o que tem você?"
"Rambaldo dirigiu-se ao pavilhão da Superintendência para Duelos, Vinganças e Máculas à Honra. Já não se deixava enganar pelas couraças e elmos emplumados: percebia que atrás daquelas mesas as armaduras encerravam homenzinhos mirrados e poeirentos. E se devia agradecer quando havia alguém dentro!
- Com que então, quer vingar seu pai, marquês de Rossiglione, patente de general! Vejamos: para vingar um general, o melhor procedimento é eliminar três majores. Poderíamos indicar-lhes três fáceis e tudo em ordem para você.
-Não me expliquei bem: quem devo matar é Isoarre, o emir. Foi ele em pessoa quem derrubou meu glorioso pai!
-Sim, sim, entendemos, mas você não se iluda porque derrubar um emir não é coisa simples... Quer quatro capitães? Podemos garantir-lhe quatro capitães infiéis durante a manhã. Note que quatro capitães valem um general de exército e seu pai era apenas general de brigada.
-Vou procurar Isoarre e arrancar-lhe as tripas! Ele, e só ele!
-Você vai acabar preso, sem ir ao campo de batalha, pode ter certeza! Reflita um pouco antes de falar! Se criamos obstáculos em relação a Isoarre é porque temos boas razões... Se, por exemplo, o nosso imperador tivesse alguma negociação em curso com Isoarre...
Mas um dos funcionários que até aquele momento mantivera a cabeça enfiada nos mapas levantou-se contente:
-Tudo resolvido! Tudo resolvido! Não é preciso fazer nada. Nada de vingança, nem é preciso! Outro dia, Ulivieri, pensando que seus dois tios haviam morrido em combate, vingou-os! Contudo, eles estavam bêbados debaixo de uma mesa! Acabamos ficando com duas vinganças de tio a mais, uma boa trapalhada. Agora está tudo certo: uma vingança de tio podemos contar como meia vingança de pai; é como se tivéssemos uma vingança de pai completa, já executada.
-Ah, meu pai! - Rambaldo quase tinha um ataque.
-Mas o que tem você?"
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Devaneios sobre igualdade e diversidade
Uma sociedade verdadeiramente igualitária é aquela onde cada pessoa é reconhecida por aquilo que ela tem de único, e onde cada um tem a seu alcance os meios e recursos materiais, intelectuais e afetivos necessários para viver e expressar aquilo que o torna "unicus inter pares".
Uma sociedade realmente igualitária não será aquela onde todos possuírem bens e rendas iguais, mas aquela onde todos tiverem oportunidade de ser quem realmente desejam - ou seja, uma igualdade baseada no ser, e não no ter.
Todavia, isso não constitui um argumento em favor das desigualdades materiais. Essa "igualdade do ser" só pode se tornar uma realidade à medida que se eliminem as graves disparidades sociais que hoje existem e que, no limite, nos pressionam a ser ou fazer aquilo que não desejamos e, muitas vezes, sequer aceitamos.
Uma sociedade realmente igualitária não será aquela onde todos possuírem bens e rendas iguais, mas aquela onde todos tiverem oportunidade de ser quem realmente desejam - ou seja, uma igualdade baseada no ser, e não no ter.
Todavia, isso não constitui um argumento em favor das desigualdades materiais. Essa "igualdade do ser" só pode se tornar uma realidade à medida que se eliminem as graves disparidades sociais que hoje existem e que, no limite, nos pressionam a ser ou fazer aquilo que não desejamos e, muitas vezes, sequer aceitamos.
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