sábado, 8 de setembro de 2018
Eternidade como doença
O excesso de futuro é talvez a mais grave patologia do Brasil. Temos toda uma eternidade para desperdiçar com todas as frivolidades e futilidades que tão orgulhosamente cultivamos. Os únicos ossos que nos importam são os do Neymar. Em 2022 tem Copa. Pra frente, Brasil, rumo ao Hexa!
"Ninguém segura esse país"
É incrível. Conseguimos em poucas horas de incêndio perder um patrimônio cultural maior que aquele perdido pela França durante os quatro anos da I Guerra Mundial. O slogan da Ditadura Militar estava correto: "Ninguém segura esse país" - pois, de fato, quem conseguiria segurar coisa tão corrosiva? O Brasil é tóxico. Somos, desde o berço, um abatedouro cultural: começamos estraçalhando as culturas indígenas, depois mutilando culturas africanas. Em breve nos restará apenas uma cultura: a soja.
quarta-feira, 5 de setembro de 2018
Bolsonaro: de bobeira
O bobo da corte era aquela figura que, por ser mentalmente debilitada, podia falar o que queria; podia inclusive ofender ao rei e a outros poderosos. Por ser louco, podia falar "verdades" impunemente, inclusive de modo grosseiro, chulo e agressivo, causando risos.
Bolsonaro age exatamente como um bobo da corte, e muitos brasileiros querem "coroá-lo" exatamente por isso... Se esquecem que as "verdades" de um histrião valem tanto quanto as mentiras de qualquer outro cortesão. O bobo sabe provocar risos, mas governar não é fazer piadas.
Quanta bobeira!
terça-feira, 4 de setembro de 2018
Memento mori
"A minha vontade, com a raiva que todos estamos sentindo, é deixar aquela ruína como memento mori, como memória dos mortos, das coisas mortas, dos povos mortos, dos arquivos mortos, destruídos nesse incêndio. Eu não construiria nada naquele lugar. E, sobretudo, não tentaria esconder, apagar esse evento, fingindo que nada aconteceu e tentando colocar ali um prédio moderno, um museu digital, um museu da Internet – não duvido nada que surjam com essa ideia. Gostaria que aquilo permanecesse em cinzas, em ruínas, apenas com a fachada de pé, para que todos vissem e se lembrassem. Um memorial".
Trecho de entrevista com Eduardo Viveiros de Castro, um dos maiores antropólogos vivos e pesquisador do Museu Nacional.
Trecho de entrevista com Eduardo Viveiros de Castro, um dos maiores antropólogos vivos e pesquisador do Museu Nacional.
"Um museu em chamas visto por uma de suas antropólogas"
"Somos todos mais pobres hoje, mesmo os governantes e políticos que não têm noção da gravidade do que aconteceu, e ficam por aí dando entrevistas em que falam em reconstrução e recuperação, como se dependesse apenas do dinheiro que, agora, milagrosamente, começa a aparecer. Se o palácio imperial pode, quem sabe, ser recuperado, o que estava dentro dele, jamais. Nenhum dinheiro poderá comprar o nosso acervo, pois esses objetos, registros, documentos, gravações, papeis, gravuras, não existem mais em nenhum lugar do mundo".
Trecho do desabafo de Aparecida Vilaça, uma das mais renomadas pesquisadoras do Museu Nacional na área de Antropologia.
Trecho do desabafo de Aparecida Vilaça, uma das mais renomadas pesquisadoras do Museu Nacional na área de Antropologia.
segunda-feira, 3 de setembro de 2018
Cultura OU o quê? Falsos dilemas e verdadeira cidadania
Não se trata de ter museus OU ter hospitais, ter teatros OU escolas, ter pesquisa científica OU empregos, ter bibliotecas OU saneamento básico, ter parques OU segurança pública. Esses dilemas são falsos, falsíssimos. Precisamos ter bons museus, teatros, bibliotecas, pesquisas científicas, parques e tantas outras coisas PARA termos bons hospitais, escolas, empregos, saneamento básico e segurança pública.
Nenhuma nação decente, digna e soberana se constrói sem investir na formação humanística de seus cidadãos, sem abrir-lhes horizontes amplos e profundos de questionamento, imaginação, contemplação, deslumbramento.
Um povo sem acesso a museus, teatros, bibliotecas, ciência ou parques se torna manipulável, dócil, submisso a todo tipo de tirania, apático diante de todo abuso de poder.
Nenhuma nação decente, digna e soberana se constrói sem investir na formação humanística de seus cidadãos, sem abrir-lhes horizontes amplos e profundos de questionamento, imaginação, contemplação, deslumbramento.
Um povo sem acesso a museus, teatros, bibliotecas, ciência ou parques se torna manipulável, dócil, submisso a todo tipo de tirania, apático diante de todo abuso de poder.
E os tiranos não gostam de oferecer nada de bom a seus povos: nem museus, nem hospitais; nem teatros, nem escolas; nem ciência, nem emprego; nem bibliotecas, nem saneamento básico; nem parques, nem segurança pública.
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| Ruínas do Museu Nacional: um corpo cuja alma se extraviou. |
Museu Nacional - O que perdemos?
É impossível aquilatar o quanto realmente se perdeu nesse incêndio.
Como disse uma amiga, perdemos mundos inteiros: o mundo da monarquia brasileira, de D. João VI, D. Pedro I, D. Pedro II, Princesa Isabel; o mundo dos dinossauros e da megafauna brasileira e sul-americana; o mundo da fauna e da flora dos trópicos; o mundo das culturas regionais do Brasil.
O mundo que me toca mais de perto é aquele dos índios do Brasil. Ali estava o maior acervo de cultura material indígena do Brasil. Além dos artefatos indígenas propriamente ditos, havia precioso material arquivístico, incluindo registros de pesquisas de campo, fotografias, registros fonográficos, teses não publicadas etc.
Segue um levantamento informal de uma pequeníssima parte do que perdemos sobre os índios, a partir de conversa com meus amigos antropólogos:
-Toda a coleção Rondon;
-Toda a coleção Roquete-Pinto;
-Os diários de campo apenas parcialmente digitalizados de Curt Nmuendaju, um dos maiores etnógrafos do início do século XX, com dados preciosos sobre as culturas indígenas na época;
-Todos os registros do grande Projeto Brasil Central, que contou com a participação de inúmeros pesquisadores brasileiros e estrangeiros em meados do século XX, projeto que teve imensa relevância para o desenvolvimento da teoria antropológica dentro e fora do Brasil;
-Décadas de fotografias de populações indígenas, a maior parte sem cópias ou digitalização de qualquer espécie;
-Registros linguísticos INSUBSTITUÍVEIS, manuscritos, impressos ou fonográficos, de línguas indígenas que se encontram EXTINTAS;
-Enfim, centenas de artefatos indígenas raríssimos, e até exemplares únicos NO MUNDO.
Resumindo, o incêndio de ontem equivale a um segundo genocídio das culturas indígenas. Perderam-se línguas, mitologias, técnicas, legados de vidas inteiras, séculos de realizações humanas desse nosso "Novo Mundo". Matamos os índios de novo. Na primeira vez, por maldade; agora, por simples descuido.
O incêndio do Museu Nacional não rasgou apenas algumas páginas de nossa História; ele destruiu volumes inteiros.
Como disse uma amiga, perdemos mundos inteiros: o mundo da monarquia brasileira, de D. João VI, D. Pedro I, D. Pedro II, Princesa Isabel; o mundo dos dinossauros e da megafauna brasileira e sul-americana; o mundo da fauna e da flora dos trópicos; o mundo das culturas regionais do Brasil.
O mundo que me toca mais de perto é aquele dos índios do Brasil. Ali estava o maior acervo de cultura material indígena do Brasil. Além dos artefatos indígenas propriamente ditos, havia precioso material arquivístico, incluindo registros de pesquisas de campo, fotografias, registros fonográficos, teses não publicadas etc.
Segue um levantamento informal de uma pequeníssima parte do que perdemos sobre os índios, a partir de conversa com meus amigos antropólogos:
-Toda a coleção Rondon;
-Toda a coleção Roquete-Pinto;
-Os diários de campo apenas parcialmente digitalizados de Curt Nmuendaju, um dos maiores etnógrafos do início do século XX, com dados preciosos sobre as culturas indígenas na época;
-Todos os registros do grande Projeto Brasil Central, que contou com a participação de inúmeros pesquisadores brasileiros e estrangeiros em meados do século XX, projeto que teve imensa relevância para o desenvolvimento da teoria antropológica dentro e fora do Brasil;
-Décadas de fotografias de populações indígenas, a maior parte sem cópias ou digitalização de qualquer espécie;
-Registros linguísticos INSUBSTITUÍVEIS, manuscritos, impressos ou fonográficos, de línguas indígenas que se encontram EXTINTAS;
-Enfim, centenas de artefatos indígenas raríssimos, e até exemplares únicos NO MUNDO.
Resumindo, o incêndio de ontem equivale a um segundo genocídio das culturas indígenas. Perderam-se línguas, mitologias, técnicas, legados de vidas inteiras, séculos de realizações humanas desse nosso "Novo Mundo". Matamos os índios de novo. Na primeira vez, por maldade; agora, por simples descuido.
O incêndio do Museu Nacional não rasgou apenas algumas páginas de nossa História; ele destruiu volumes inteiros.
Sinto uma mistura de tristeza e raiva ao pensar em todo o conhecimento que aquele acervo ainda reservava por explorar e que agora está irremediavelmente perdido, literalmente reduzido a pó.
Museu Nacional: Mundos Destruídos
Estive hoje cedo nas ruínas do Museu Nacional. Como disse uma amiga, muitos mundos foram destruídos neste incêndio.
Povo e público do Brasil
Brilhante síntese do historiador Roger Marques:
Como escreveu Lima Barreto: "O Brasil não tem povo, tem público". E já que o brasileiro não gosta de História e nem vai a museus, pelo menos pode assistir eles queimarem.
O Mal da Banalização
As ruínas do Museu Nacional permanecerão como eterno testemunho do povo medíocre que somos. Não conseguimos água para apagar um incêndio. O povo brasileiro é uma farsa. O Estado do Rio é uma fraude.
Somos o cheque sem fundo de um banco falido. Somos a maior coletividade de panacas do mundo.
Ao contrário de outros povos, não temos sequer a dignidade de destruir nossos monumentos em arroubos de fúria iconoclasta. Simplesmente deixamos tudo fenecer como uma planta mal regada.
Vivemos como crianças mimadas quebrando brinquedos caros por mero descuido. E depois matamos crianças a caminho da escola, porque nem a vida humana nos é preciosa.
Todas as nossas tragédias se tornam banais, porque somos um povo banal. Pior que a banalização do mal é o mal da banalização.
Somos um povo ridículo, até em nossas tragédias; principalmente em nossas tragédias.
Somos o cheque sem fundo de um banco falido. Somos a maior coletividade de panacas do mundo.
Ao contrário de outros povos, não temos sequer a dignidade de destruir nossos monumentos em arroubos de fúria iconoclasta. Simplesmente deixamos tudo fenecer como uma planta mal regada.
Vivemos como crianças mimadas quebrando brinquedos caros por mero descuido. E depois matamos crianças a caminho da escola, porque nem a vida humana nos é preciosa.
Todas as nossas tragédias se tornam banais, porque somos um povo banal. Pior que a banalização do mal é o mal da banalização.
Somos um povo ridículo, até em nossas tragédias; principalmente em nossas tragédias.
O que queima?
Como pesquisador do Museu Nacional desde 2015, o incêndio de hoje me afeta de uma maneira muito pessoal. Ainda na última quarta-feira estive lá dando aula; na próxima quarta, não tenho ideia do que será.
É um momento de muita tristeza, uma perda catastrófica de patrimônio cultural, científico e histórico. Mas não é o momento para apontar dedos. O descaso para com o Museu Nacional já vem de muito tempo, é problema de décadas. Não adianta dizer que a culpa é do Temer, da Dilma, do Lula, do FHC, do Itamar, do Collor, do Sarney. Alguns certamente são mais culpados que outros, mas o buraco é muito, muito, muito mais embaixo.
O buraco é que vivemos num país que despreza sistematicamente a educação formal, a cultura erudita, que idolatra imbecis e ignora quem tem algo sério a dizer. O buraco somos nós mesmos, enquanto coletividade.
O trágico e muito simbólico incêndio do Museu Nacional passa pela política e pela administração pública, mas é, antes de tudo, uma tragédia cultural, a catástrofe de uma sociedade que não valoriza o cultivo de sua própria humanidade.
O Museu Nacional arde em chamas porque o povo brasileiro simplesmente nunca fez por merecê-lo.
Descanse em paz, Museu Nacional...
É um momento de muita tristeza, uma perda catastrófica de patrimônio cultural, científico e histórico. Mas não é o momento para apontar dedos. O descaso para com o Museu Nacional já vem de muito tempo, é problema de décadas. Não adianta dizer que a culpa é do Temer, da Dilma, do Lula, do FHC, do Itamar, do Collor, do Sarney. Alguns certamente são mais culpados que outros, mas o buraco é muito, muito, muito mais embaixo.
O buraco é que vivemos num país que despreza sistematicamente a educação formal, a cultura erudita, que idolatra imbecis e ignora quem tem algo sério a dizer. O buraco somos nós mesmos, enquanto coletividade.
O trágico e muito simbólico incêndio do Museu Nacional passa pela política e pela administração pública, mas é, antes de tudo, uma tragédia cultural, a catástrofe de uma sociedade que não valoriza o cultivo de sua própria humanidade.
O Museu Nacional arde em chamas porque o povo brasileiro simplesmente nunca fez por merecê-lo.
Descanse em paz, Museu Nacional...
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