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sábado, 6 de julho de 2013

"Não há tormento maior do que ser cego em Granada"

Texto de Carlos Fuentes em O espelho enterrado



"Ao se iniciar o declínio do poder árabe na Espanha, depois da derrota de Navas de Tolosa em 1212, e depois da queda de Sevilha ante o ataque de Fernando III de Sevilha - são Fernando - em 1247, apenas uma terceira grande cidade sobreviveu para conservar esta herança: Granada. Foi este o reino final, que presidiu o crepúsculo da Espanha árabe, entre 1248 e 1492. Mas quando, hoje, nos aproximamos da cidade, devemos imaginar que um dia, ali, não houve nada além do vale, do rio e das montanhas da Serra Nevada. Ali encontraram repouso os povos errantes do deserto, e ali decidiram construir um jardim cuja beleza não pudesse comparar-se com nada deste mundo. É como se houvessem ouvido a voz de Deus, lhes ordenando: construí aqui, à luz das tochas, um palácio, e chamai-o Alhambra, que significa 'a cidadela vermelha'.






Talvez somente um povo que houvesse conhecido a sede do deserto pudesse ter inventado esse extraordinário oásis de água e sombra: uma sucessão de portas e torres, salas e pátios conferem à Alhambra um sentido tanto de recolhimento como de recreio, como se todos os prazeres do mundo pudessem estar ali representados, ao alcance da mão. Rodeada por um cinturão de muralhas - muro da Justiça, muro do Vinho - e vigiada pelas torres da Cativa e da Homenagem, de Comares e de Alcazaba, a Alhambra é um labirinto de nobres aposentos, onde até as sombras são douradas. A sala de audiências do Mexuar, com seu desenho de azulejos que parece seguir a assombrosa regularidade, harmonia e surpresa de uma fuga de Bach; o sentido íntimo alcançado pelo luxo na graça da alcova das duas irmãs; a perspectiva cinzelada do salão dos embaixadores; a sensação de estar preso num cárcere doce como um favo de mel, de onde ninguém quereria fugir - ali há tanto um harém como um serralho - subitamente se defrontam com sua própria essência num dos poemas escritos nos arcos do mirante, o belvedere que dá para os jardins do palácio: "Creio que a lua cheia tem aqui seu lar..."











Finalmente, chega-se à conclusão de que esta rede de filigrana, estuque, favos dourados, azulejos e inacreditáveis perspectivas  tem somente um propósito, que é o de proteger a água, capturar um sorvo de líquido na palma da mão, rodear o elemento da vida com uma defesa acariciante, protetora e, no entanto, aberta. Os pátios incomparáveis da Alhambra são como templos da água: as esbeltas colunas do pátio de murtas são tão protetoras quanto os 12 leões que circulam nele; mas, durante o dia, e mesmo de noite, chega-se a compreender que é a fusão e a coexistência constante de todas as gradações do tempo e da natureza - luz, sombra, ar, terra, sol, lua - o que realmente protege o coração da Alhambra: seus lagos, suas fontes, seus desaguadouros.










Não apenas a água murmura nos jardins da Alhambra. Uma vez que o Corão desaprova a representação do corpo humano, a Alhambra se converteu num edifício escrito, um corpo revestido de literatura, contando suas histórias e recitando seus poemas conforme as inscrições de suas paredes. Uma espécie de grafite celestial, em que a voz de Deus volta a ser líquida e onde os prazeres da arte, da inteligência e do amor podem ser desfrutados. Não é de admirar que um poema do escritor mexicano Francisco de Icaza haja penetrado no mundo anônimo dos provérbios que descrevem esta cidade: 'Não há tormento maior do que ser cego em Granada'".






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