segunda-feira, 8 de julho de 2013

Sexualidades ibéricas

Extrato de O espelho enterrado, de Carlos Fuentes

"A pretensão de ser algo distinto parece ser uma das marcas das sociedades urbanas barrocas, divididas entre ricos e pobres, ordens eclesiásticas em disputa, namoros apaixonados e rejeições igualmente apaixonadas do sexo e do corpo. Ao que parece, coexistiram na época colonial um estrito puritanismo e uma explosão de libertinagem. Roland Barthes escreveu que o sadismo prevalece sobretudo nas regiões subdesenvolvidas. A crueldade sexual pode exercer-se facilmente em sociedades de estritas delimitações sociais, em que o parceiro sexual pode ser facilmente recrutado (nas legiões de criados), o objeto de prazer facilmente desprezado, e a impunidade desfrutada, ainda que praticamente em lugares escondidos. As cidades da América colonial espanhola possuíram todos esses atributos, a que se acrescentou a dimensão - de impunidade e esconderijo - do mundo religioso, de conventos e mosteiros.

O escritor mexicano Fernando Benítez, num livro delicioso chamado Los demonios en el convento, relata muitas das 'alucinantes ficções' que deram às sociedades da América Latina, junto com as suas práticas libertinas, o correspondente erotismo repressivo. O arcebispo do México nos tempos de sóror Juana, Aguiar y Seixas, tinha tamanho ódio às mulheres que não as permitia em sua presença e, se acidentalmente defrontava uma, logo cobria o rosto com as mãos. Seu horror à água (outra fobia hispânica e católica) era igualmente cáustico e, em sua fúria, havia ainda o fato de que caminhava ajudado por muletas, e as usava com violência, como o ficou sabendo o poeta Carlos de Sigüenza y Góngora, amigo e protetor de sóror Juana, quando o arcebispo lhe quebrou os óculos e lhe cortou o rosto no meio de uma contenda teológica. Aguiar y Seixas também conseguiu reprimir as brigas de galo, o jogo, os romances e, obviamente, sempre que possível, as mulheres.

Numa época dominada por prelado tão implacável, responsável pelo aniquilamento de sóror Juana, outros puritanos, inferiores ao arcebispo, mas igualmente zelosos, atuaram com presteza. Um certo padre Barcia, ao redor do final do século XVII, decidiu reunir todas as mulheres da cidade do México e encerrá-las no convento de Belém, onde jamais seriam vistas por nenhum homem. Certamente, o padre Barcia logrou apenas reunir um grande número de prostitutas, atrizes e artistas de circo. Tão logo, porém, pôde trancá-las no convento, os amantes dessas mulheres tentaram libertá-las e matar Barcia. Sitiaram o local, e quando as mulheres se rebelaram, dizendo ao bom padre que, se era aquele o céu, bem preferiam o inferno, Barcia enlouqueceu e tentou suicidar-se mediante a introdução, no reto, de supositórios de água benta.

Num tempo assinalado pela tríplice tensão do sexo proibido, do ideal de esposar Cristo e ideal da maternidade virginal, muitas freiras mexicanas, horrorizadas com seus próprios corpos, vedavam-se os olhos, transmitindo assim o seu desejo de serem cegas e surdas; lamberam o piso de suas celas até formar uma cruz com a saliva; foram açoitadas por suas próprias criadas; e se lambuzaram com o sangue dos seus próprios mênstruos. Paralelamente, os monges e sacerdotes, diz Benítez, também teriam sido chicoteados e golpeados como são Juan de la Cruz, pois viam nisso uma compensação pelos sofrimentos de Cristo no calvário".

Um comentário:

Rogério Marques disse...

"Ao que parece, coexistiram na época colonial um estrito puritanismo e uma explosão de libertinagem". Digo o mesmo da época neoliberal nacional.

Interessante o trecho "(...) o sadismo prevalece sobretudo nas regiões subdesenvolvidas. A crueldade sexual pode exercer-se facilmente em sociedades de estritas delimitações sociais, em que o parceiro sexual pode ser facilmente recrutado (nas legiões de criados), o objeto de prazer facilmente desprezado, e a impunidade desfrutada(...)" Seriam a natureza e instinto humano imutáveis?