Na última semana estive na Place de la Bastille. Como se sabe, a fortaleza foi destruída durante a Revolução Francesa. Hoje restam apenas as pedras que marcam o contorno da construção. Apenas uma placa comemorativa explicita esses vestígios, por sinal difíceis de distinguir com todo o trânsito da praça. Não fossem essas lembranças, pareceriam apenas pedras comuns no chão...
Ao lado, outra placa, em agradecimento "a nossos pais de 1789", dedicada pelos "estudantes de 1880".
É difícil definir a sensação de estranheza experimentada num lugar que ao mesmo tempo foi, simbolicamente, o epicentro da contemporaneidade, o ponto de partida do estranho mundo em que vivemos hoje, mas que não guarda muitas lembranças visíveis do que era a Bastilha em 1789, à ocasião daquele fatídico 14 de julho.
Por estranho que pareça, o que se sente ali é uma ausência incomensuravelmente densa, como um objeto invisível mas poderoso, um centro gravitacional que só pode ser percebido por seus efeitos; como um buraco negro, talvez, ou como uma radiação de fundo. É como se a Bastilha destroçada nunca tivesse deixado de estar ali; mais complexo ainda, é como se ela só exista significativamente exatamente porque deixou de existir. Um paradoxo: ela só está ali porque não está ali.
Como uma espécie de "matéria escura", uma massa colossal de simbolismo invisível, que faz gravitacionar a seu redor inúmeros outros monumentos significativamente ligados direta ou indiretamente à própria Revolução, como a Torre Eiffel (comemorativa do centenário), o Arco do Triunfo (marcando as vitórias do exército revolucionário), entre tantos outros (Invalides, Conciergerie, etc).
De fato, talvez seja tão importante porque sua ausência represente a posteriori a própria "destruição" do Antigo Regime. De qualquer forma, me parece inevitável que a Bastilha perdeu sua existência material apenas para adquirir um outro tipo de existência muito mais poderosa, onipresente e incontornável: a existência simbólica. Tornou-se um monumento tecido de ausência.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
A densidade da ausência
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quarta-feira, 16 de maio de 2012
Notre Dame de Paris, 2012
Hoje realizei um velho sonho: visitar Notre Dame! Justamente Notre Dame de Paris, 1482 foi o primeiro livro de Victor Hugo que li, o início de uma grande paixão literária. Em grande parte devo a essa leitura boa parte dos desenvolvimentos posteriores de minha formação como historiador. Particularmente emocionante foi o encontro com as famosas gárgulas. O telhado de Notre Dame é um lugar para se sonhar...
O olhar sonhador dessa gárgula simiesca me parece muito curioso... Que panorama ele teria descortinado do alto da catedral na Paris medieval? Ele "viu", em seu posto de sentinela imóvel, a Île de la Cité e as duas margens do Sena se transformando ao longo de quase 850 anos de história. Debruçada no parapeito de Notre Dame, essa gárgula "assistiu" ao massacre de São Bartolomeu, a Revolução francesa e tantos e tantos outros acontecimentos centrais à história da França e do Ocidente...
Não resisti à tentação de um bate-papo ao melhor "estilo Quasímodo"... Por sinal, Victor Hugo é um personagem central da história de Notre Dame, à medida em que precipitou a formação de novos significados em torno do edifício e do patrimônio histórico francês em geral. Recomendo a todos a leitura do magnífico capítulo "Paris à vol d`oiseau", verdadeira obra-prima historiográfica. Escrevendo sobre Notre Dame, Hugo se tornou parte importantíssima da história da própria catedral. Que mais poderia desejar um escritor?
É impressionante pensar que essas esculturas estão lá há quase um milênio, e continuam tão vivas e fascinantes quanto à época em que sofreram os primeiros golpes do cinzel... Por sinal, o camarada aí em cima saiu de Hogwarts ou da Terra Média?
No entanto, é interessante observar que Notre Dame é mais que uma obra medieval: é um edifício vivo que encontrou sua evolução ao longo de séculos da história da França e de Paris. Por exemplo, que dizer dessa magnífica imagem de Joana d`Arc? Esculpida no ínício do século XX, a imagem remete também a um período da história francesa posterior à construção da catedral. Desde seu princípio, Notre Dame tem sido capaz de atrair e integrar transformações constantes. Talvez seja por isso mesmo a mais importante construção da Île de la Cité, resistindo aos séculos, enquanto todo o resto se desmanchava ao seu redor...
Contudo, a peça mais interessante para mim foi essa Nossa Senhora de Guadalupe, incorporada à catedral em 1685, sob encomenda de um aristocrata da alta nobreza francesa (esqueci seu nome!). Uma imagem originária do Novo Mundo, elaborada no seio das culturas ameríndias do México, conseguiu abrir caminho e encontrar seu espaço numa catedral construída no coração do Velho Mundo. Como são complexas as relações e mediações culturais que tornaram isso possível! Faz pensar na Guerra das Imagens, obra magistral de Gruzinski onde justamente a Virgem de Guadalupe ocupa papel central; lembra também o magistral Inferno atlântico de Laura de Melo e Souza: a América também moldou a Europa na Idade Moderna...
E como estará Notre Dame de Paris em 2112? Só as gárgulas saberão...
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terça-feira, 15 de maio de 2012
Primeiras impressões parisienses
Paris é linda. Isso não quer dizer muita coisa, mas é verdade. Mas não exatamente pela cidade em si, por suas construções belíssimas. Há algo aqui que é muito, muito especial. Hoje, andando nos corredores da Sorbonne, tive uma pista do que pode ser isso. Tudo aqui é História, mas não história encapsulada, isolada numa bolha. Ao contrário do Rio, onde os espaços arquitetônicos percebidos como "do passado" ou "do presente" são muito claramente demarcados, a relação entre passado e presente na tessitura urbana parisiense parece muito mais fluida. As construções são muitas vezes uma bricolagem de usos diversos. O prédio da Sorbonne é quase milenar, mas é um edifício vivo, cheio de adaptações para os usos do presente. É um tanto como se os homens de hoje pedissem licença aos seus ancestrais para se apropriarem de sua construção para novos usos. Também é curioso observar o quanto essa atitude parece natural para os estudantes que estão lá.
Mas seria possível ser de outra maneira? Sobrevoar a França é uma experiência única, não tanto pela beleza da paisagem, mas pela inevitável comparação à América do Sul. Aqui, as terras parecem ter sido plenamente domesticadas pelo homem, após milênios de ocupação intensiva do solo. Uma linda colcha de retalhos de campos sucedendo a campos, pontilhada aqui e ali por alguns bosques, que são muito mais fruto da iniciativa humana, vestígios de antigas reservas de caça, repositórios de lenha, que propriamente uma floresta primária. Sobrevoar a França torna visível, perceptível "a olho nu", digamos assim, o quanto nós somos realmente uma força da natureza, enquanto coletividade humana. Muito bonito, mas um tanto melancólico. Por outro lado, nossa América do Sul, permanece em grande parte indomada, apesar dos milênios de ocupação indígena. Visto de cima, o Novo Mundo parece mais pujante, parece guardar uma força juvenil, uma energia vital mais poderosa, não sei...
Ao mesmo tempo, passar pela Península Ibérica parece muito evocativo, ou talvez esclarecedor. Apesar da curta distância, é um outro mundo. A natureza é muito mais agreste, rude, difícil, em comparação à fertilidade das planícies francesa... Fica mais fácil entender porque a aventura marítima sempre foi tão atraente aos ibéricos, enquanto os franceses só começaram a tê-la por necessária muito mais tarde, em meados do século XVII.
Continuo viajando com Clio; novidades em breves posts!
Mas seria possível ser de outra maneira? Sobrevoar a França é uma experiência única, não tanto pela beleza da paisagem, mas pela inevitável comparação à América do Sul. Aqui, as terras parecem ter sido plenamente domesticadas pelo homem, após milênios de ocupação intensiva do solo. Uma linda colcha de retalhos de campos sucedendo a campos, pontilhada aqui e ali por alguns bosques, que são muito mais fruto da iniciativa humana, vestígios de antigas reservas de caça, repositórios de lenha, que propriamente uma floresta primária. Sobrevoar a França torna visível, perceptível "a olho nu", digamos assim, o quanto nós somos realmente uma força da natureza, enquanto coletividade humana. Muito bonito, mas um tanto melancólico. Por outro lado, nossa América do Sul, permanece em grande parte indomada, apesar dos milênios de ocupação indígena. Visto de cima, o Novo Mundo parece mais pujante, parece guardar uma força juvenil, uma energia vital mais poderosa, não sei...
Ao mesmo tempo, passar pela Península Ibérica parece muito evocativo, ou talvez esclarecedor. Apesar da curta distância, é um outro mundo. A natureza é muito mais agreste, rude, difícil, em comparação à fertilidade das planícies francesa... Fica mais fácil entender porque a aventura marítima sempre foi tão atraente aos ibéricos, enquanto os franceses só começaram a tê-la por necessária muito mais tarde, em meados do século XVII.
Continuo viajando com Clio; novidades em breves posts!
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Uma fábula chinesa
Esta semana li uma belíssima antologia de fábulas chinesas, em tradução de Sérgio Capparelli e Márcia Schmaltz. Transcrevo aqui uma que me pareceu muito interessante...
"O Velho louco que removeu as montanhas" - Liezi
Perto das montanhas Taihang e Wangwu, vivia um velho de noventa anos que todo mundo achava louco. Ele tinha uma ideia fixa, a de remover as montanhas da frente de sua aldeia e levá-las para outro lugar. Ninguém acreditou que ele fosse fazer isso.
Certa noite todos foram dormir tranquilos. No dia seguinte, o velho louco acordou bem cedo e disse novamente que iria remover as duas montanhas, para abrir um caminho até Hanying, onde os agricultores iam vender seus produtos no mercado.
Ele começou a encher um cesto com pedras e, pouco depois, passou perto de sua casa com a carga nas costas.
Sua mulher perguntou: - Onde vai jogar a montanha?
-No mar Bohai.
Logo seu filho e seus três netos foram trabalhar com ele. Juntos quebravam as pedras, tiravam a terra, enchiam com ela os cestos e iam jogá-los no mar Bohai. Até o filho de sete anos da viúva que nascera depois da morte do vizinho, veio ajudá-los. Eles trabalhavam de domingo a domingo, de primavera a primavera, voltando para casa apenas uma vez por ano.
Mesmo algumas pessoas que não acreditavam que fosse possível tirar as montanhas do lugar se dispuseram a ajudar o velho louco. Primeiro sua mulher e seus outros filhos. Depois os vizinhos, e os vizinhos de seus vizinhos. Mais tarde acharam, sim, que a montanha tinha de dar passagem até Hanying.
Um sábio que vivia na curva do rio tentou dissuadi-lo daquela loucura.
-Deixa de ser doido. Um homem velho e fraco como você, incapaz de carregar um saco de areia, vai remover duas montanhas para mudá-las de lugar?
O velho deu um suspiro. Olhou para a montanha, olhou para o mar Bohai, lá longe, como se calculasse quanto tempo faltava para terminar o trabalho, e disse:
-Se eu morrer, eu deixo o meu filho, e o filho do meu filho, o filho do meu neto, o filho do filho do meu neto. Já as montanhas, não crescem mais, nem aumentam de tamanho. Por isso eu vou continuar meu trabalho.
O sábio da curva do rio não soube o que responder.
"O Velho louco que removeu as montanhas" - Liezi
Perto das montanhas Taihang e Wangwu, vivia um velho de noventa anos que todo mundo achava louco. Ele tinha uma ideia fixa, a de remover as montanhas da frente de sua aldeia e levá-las para outro lugar. Ninguém acreditou que ele fosse fazer isso.
Certa noite todos foram dormir tranquilos. No dia seguinte, o velho louco acordou bem cedo e disse novamente que iria remover as duas montanhas, para abrir um caminho até Hanying, onde os agricultores iam vender seus produtos no mercado.
Ele começou a encher um cesto com pedras e, pouco depois, passou perto de sua casa com a carga nas costas.
Sua mulher perguntou: - Onde vai jogar a montanha?
-No mar Bohai.
Logo seu filho e seus três netos foram trabalhar com ele. Juntos quebravam as pedras, tiravam a terra, enchiam com ela os cestos e iam jogá-los no mar Bohai. Até o filho de sete anos da viúva que nascera depois da morte do vizinho, veio ajudá-los. Eles trabalhavam de domingo a domingo, de primavera a primavera, voltando para casa apenas uma vez por ano.
Mesmo algumas pessoas que não acreditavam que fosse possível tirar as montanhas do lugar se dispuseram a ajudar o velho louco. Primeiro sua mulher e seus outros filhos. Depois os vizinhos, e os vizinhos de seus vizinhos. Mais tarde acharam, sim, que a montanha tinha de dar passagem até Hanying.
Um sábio que vivia na curva do rio tentou dissuadi-lo daquela loucura.
-Deixa de ser doido. Um homem velho e fraco como você, incapaz de carregar um saco de areia, vai remover duas montanhas para mudá-las de lugar?
O velho deu um suspiro. Olhou para a montanha, olhou para o mar Bohai, lá longe, como se calculasse quanto tempo faltava para terminar o trabalho, e disse:
-Se eu morrer, eu deixo o meu filho, e o filho do meu filho, o filho do meu neto, o filho do filho do meu neto. Já as montanhas, não crescem mais, nem aumentam de tamanho. Por isso eu vou continuar meu trabalho.
O sábio da curva do rio não soube o que responder.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Au revoir!
Tenho andado ausente devido à falta de tempo, lutando contra a burocracia para resolver meus problemas antes da viagem. Nas próximas semanas permanecerei inativo. Volto à carga com posts diretamente da França! À bientôt!
Só deixo aqui uma pérola ouvida no ônibus:
"Certas civilizações antigas construíam coisas enormes, mas isso tem uma explicação científica: em certos ambientes, as pedras ficam mais leves!"....
Só deixo aqui uma pérola ouvida no ônibus:
"Certas civilizações antigas construíam coisas enormes, mas isso tem uma explicação científica: em certos ambientes, as pedras ficam mais leves!"....
sábado, 7 de abril de 2012
Por que estudar universos de fantasia? - Uma reflexão "filo-estruturalista"
Há muito tempo me interesso, enquanto historiador, pelo estudo de universos de fantasia. De fato, sei mais sobre a História da Terra Média e da República Galática do que sobre História Contemporânea. A Bordúria e a Sildávia também não me são estranhas, assim como o Nuevo Rico e San Teodoros de Tintin, sem falar de Rawajpoutalah. Ultimamente ando fascinado pelo legendarium de Krabat, sobre que pretendo escrever um post em breve. Além disso, minha esposa e eu temos mergulhado profundamente no universo de Harry Potter. Levo esse aprendizado - quase - a sério, o que me consome muitas horas. Particularmente os estudos sobre o mundo de Star Wars já viraram uma mania bastante cara. Todo esse investimento financeiro, emocional e, principalmente, intelectual vale a pena, enquanto aprendizado filosófico?
Devo confessar que minha resposta é positiva. O cotejo entre esses mundos fantásticos e realidades históricas tem sido muito esclarecedor em inúmeros momentos. Frequentemente a comparação entre situações ficcionais e reais tem me ajudado a compreender melhor as últimas, abrindo caminho para perspectivas novas. Por exemplo, estou atualmente lendo um livro sobre Star Wars que me possibilitou vários insights interessantes a respeito da transição da República ao Principado em Roma, especialmente o papel da Guerra das Gálias nesse processo. Outro bom exemplo foi o jogo Aragorn`s Quest, sobre o qual escrevi um post recentemente.
Em alguns casos, os universos ficcionais nos convidam a refletir sobre questões mais universais. A recente releitura de Krabat, de Otfried Preussler, me facultou importantes questionamentos a respeito das relações do ser humano com o poder e suas inúmeras contradições e ambiguidades. Da mesma forma, as complexas relações entre Voldemort e seus Comensais da Morte tem motivado curiosas reflexões acerca das intrincadas sobreposições de medo, amor, ambição e convicção que podem levar alguém a seguir um líder carismático.
Curiosamente, essas observações vão ao encontro de minhas recentes leituras de Lévi-Strauss, particularmente de Tristes tropiques e Histoire de lynx. Me despertaram a atenção as discretas observações do autor a respeito das possibilidades estruturais da língua e da mitologia em expressar virtualmente todas as combinações sociais imagináveis, que já existiram, existem ou existirão na vida real, mas também aquela dos mundos míticos e imaginários. Me deparei com essa afirmação primeiramente em Histoire de lynx, num magnífico capítulo onde analisa os escritos de Montaigne.
No entanto, ainda mais interessante é certa passagem de Tristes tropiques, onde o antropólogo se apropria do modelo da sociedade das cartas esboçado por Lewis Carroll, em Alice no país das maravilhas, aplicando-o como modelo de compreensão a respeito dos Kadiwéu do Planalto Central. A inusitada comparação rende belíssimas páginas no capítulo sobre essa nação indígena.
Guardadas sempre as devidas proporções e a sobriedade de comparação, o conhecimento dos universos de fantasia pode se revelar muito mais esclarecedor do que parece à primeira vista, levando a inesperadas perspectivas sobre o estudo das culturas e sociedades humanas.
Devo confessar que minha resposta é positiva. O cotejo entre esses mundos fantásticos e realidades históricas tem sido muito esclarecedor em inúmeros momentos. Frequentemente a comparação entre situações ficcionais e reais tem me ajudado a compreender melhor as últimas, abrindo caminho para perspectivas novas. Por exemplo, estou atualmente lendo um livro sobre Star Wars que me possibilitou vários insights interessantes a respeito da transição da República ao Principado em Roma, especialmente o papel da Guerra das Gálias nesse processo. Outro bom exemplo foi o jogo Aragorn`s Quest, sobre o qual escrevi um post recentemente.
Em alguns casos, os universos ficcionais nos convidam a refletir sobre questões mais universais. A recente releitura de Krabat, de Otfried Preussler, me facultou importantes questionamentos a respeito das relações do ser humano com o poder e suas inúmeras contradições e ambiguidades. Da mesma forma, as complexas relações entre Voldemort e seus Comensais da Morte tem motivado curiosas reflexões acerca das intrincadas sobreposições de medo, amor, ambição e convicção que podem levar alguém a seguir um líder carismático.
Curiosamente, essas observações vão ao encontro de minhas recentes leituras de Lévi-Strauss, particularmente de Tristes tropiques e Histoire de lynx. Me despertaram a atenção as discretas observações do autor a respeito das possibilidades estruturais da língua e da mitologia em expressar virtualmente todas as combinações sociais imagináveis, que já existiram, existem ou existirão na vida real, mas também aquela dos mundos míticos e imaginários. Me deparei com essa afirmação primeiramente em Histoire de lynx, num magnífico capítulo onde analisa os escritos de Montaigne.
No entanto, ainda mais interessante é certa passagem de Tristes tropiques, onde o antropólogo se apropria do modelo da sociedade das cartas esboçado por Lewis Carroll, em Alice no país das maravilhas, aplicando-o como modelo de compreensão a respeito dos Kadiwéu do Planalto Central. A inusitada comparação rende belíssimas páginas no capítulo sobre essa nação indígena.
Guardadas sempre as devidas proporções e a sobriedade de comparação, o conhecimento dos universos de fantasia pode se revelar muito mais esclarecedor do que parece à primeira vista, levando a inesperadas perspectivas sobre o estudo das culturas e sociedades humanas.
terça-feira, 27 de março de 2012
Algumas reflexões sobre o ofício de historiador
Acabei de ler hoje um livro muito interessante, Uma breve história da Europa, de Jacques Le Goff. Trata-se de pequena obra, voltada para o público leigo, especialmente adolescentes; digamos que seja um "Le Goff menor".
Ainda assim, encontrei no livro em apreço alguns trechos muito interessantes sobre a função social do historiador, ainda mais valiosos justamente pelo nítido caráter formativo da reflexão desenvolvida. Cito textualmente os que mais chamaram minha atenção. É importante ter em mente o caráter especificamente europeu da obra em questão. Obviamente as preocupações do historiador brasileiro e as necessidades de nossa realidade social apontam em sentidos diferentes. Ainda assim os trechos parecem muito sugestivos.
"O conhecimento da história é muito importante para os europeus e para a construção da Europa. É preciso conhecer o passado para saber como preparar o futuro, desenvolver as boas tradições da Europa, evitar que os erros e crimes recomecem. Também é preciso evitar que se manipule a história forjando mitos nacionalistas. A História não deve ser um fardo a ser carregado ou uma má conselheira que legitima a violência. Com o tempo ela deve trazer a verdade, servir ao progresso".
"É preciso atualmente livrar as ideologias de seu caráter irracional e agressivo. É preciso transformá-las em ideais, ou seja, em bons modelos a serem alcançados ou a serem tomados como objetivos. É preciso substituir a agressividade dos conflitos de ideologias por debates de ideias pacíficas, honestas e tolerantes. A Europa deve ser um grande campo de diálogos pacíficos".
Por fim, o trecho a seguir me pareceu extremamente comovente pela sinceridade e pela sensibilidade, fechando com chave de ouro esse belíssimo livro:
"Creio que a realização de uma bela e boa Europa é o grande projeto oferecido à sua geração. Necessitamos, principalmente quando se é jovem, de um grande objetivo que seja um ideal e uma paixão. Apaixonem-se pela construção europeia, ela merece. Se ajudarem a realizá-la, ela lhes retribuirá, ainda que devam enfrentar algumas dificuldades. Nada de importante se obtém sem esforço. E não se esqueçam, por favor, que nada de bom se faz sem memória e que a história é feita para oferece uma memória justa que, pelo passado, iluminará o presente e o futuro de vocês".
Ainda assim, encontrei no livro em apreço alguns trechos muito interessantes sobre a função social do historiador, ainda mais valiosos justamente pelo nítido caráter formativo da reflexão desenvolvida. Cito textualmente os que mais chamaram minha atenção. É importante ter em mente o caráter especificamente europeu da obra em questão. Obviamente as preocupações do historiador brasileiro e as necessidades de nossa realidade social apontam em sentidos diferentes. Ainda assim os trechos parecem muito sugestivos.
"O conhecimento da história é muito importante para os europeus e para a construção da Europa. É preciso conhecer o passado para saber como preparar o futuro, desenvolver as boas tradições da Europa, evitar que os erros e crimes recomecem. Também é preciso evitar que se manipule a história forjando mitos nacionalistas. A História não deve ser um fardo a ser carregado ou uma má conselheira que legitima a violência. Com o tempo ela deve trazer a verdade, servir ao progresso".
"É preciso atualmente livrar as ideologias de seu caráter irracional e agressivo. É preciso transformá-las em ideais, ou seja, em bons modelos a serem alcançados ou a serem tomados como objetivos. É preciso substituir a agressividade dos conflitos de ideologias por debates de ideias pacíficas, honestas e tolerantes. A Europa deve ser um grande campo de diálogos pacíficos".
Por fim, o trecho a seguir me pareceu extremamente comovente pela sinceridade e pela sensibilidade, fechando com chave de ouro esse belíssimo livro:
"Creio que a realização de uma bela e boa Europa é o grande projeto oferecido à sua geração. Necessitamos, principalmente quando se é jovem, de um grande objetivo que seja um ideal e uma paixão. Apaixonem-se pela construção europeia, ela merece. Se ajudarem a realizá-la, ela lhes retribuirá, ainda que devam enfrentar algumas dificuldades. Nada de importante se obtém sem esforço. E não se esqueçam, por favor, que nada de bom se faz sem memória e que a história é feita para oferece uma memória justa que, pelo passado, iluminará o presente e o futuro de vocês".
sexta-feira, 23 de março de 2012
Ser um guerreiro na Idade Média - jogando... "Aragorn`s Quest"
Depois de muito tempo adormecida, eis que a oficina volta ao trabalho! Andei afastado por cometer a maior loucura de minha vida: eu e minha esposa nos atiramos à tarefa insana de escrever um livro de 250 páginas em pouco mais de um mês... Mais detalhes em breve. Depois desse tour de force me dei umas "férias", e estou de volta.
Para o relax, me dei de presente Aragorn`s Quest para Wii. Jogo fantástico, por vários motivos, e subestimado em todas as críticas que li. Por trás de um gráfico cartunesco, um jogo interessantíssimo, com uma narrativa sofisticada e uma jogabilidade altamente intuitiva e estimulante. Por sinal, o gráfico "pobre" libera todo o potencial de processamento para que a plataforma posso botar em cena literalmente algumas centenas de guerreiros altamente diferenciados de cada lado da batalha sem lapsos excessivos de carregamento e de modo altamente funcional.
Mas, vamos à História. O jogo é baseado na trilogia Senhor dos Anéis, sem depender exclusivamente da identidade visual dos filmes de Jackson, o que por si só já significa muito. É possível perceber a apropriação criativa dos originais de Tolkien, mas também das clássicas ilustrações de Alan Lee e de David Wenzel. No entanto, o mais interessante é a possibilidade de imersão numa batalha medieval como nunca vi em qualquer outro jogo.
Ok, uma batalha "medieval", afinal de contas, se trata de um universo ficcional. Ainda assim, o jogo se mostra surpreendentemente fiel aos ritmos, táticas, comportamentos esperados em uma batalha desse período, ao contrário da pseudo-estratégia antiga costumeira nesse gênero de jogos. Arqueiros, cavaleiros, infantes, se comportam de maneira bastante fiel, especialmente considerando-se a diversidade de terrenos e combates: há pântanos, planícies, colinas e fortalezas. Desenrolam-se escaramuças, batalhas campais e sítios, no ataque ou na defesa. Enfim, o jogo proporciona grande diversidade de experiências estratégicas, com objetivos coerentes e pertinentes a cada situação.
As armas são dignas de comentário à parte. Em lugar da diversidade quase absurda, uma seleção sóbria: espada, escudo, lança, arco. O jogo oferece um belíssimo sistema de luta com espada, baseado em movimentos de corte e estoque. A lança pode ser manuseada com bastante naturalidade, a pé ou a cavalo. O arco tem um sistema de mira quase simplório, compensado pela sobriedade dos contextos em que seu uso é exigido.
Last, but not least, o jogo apresenta um sistema de liderança muito instigante: o jogador não é convidado a dar ordens a seus soldados, mas a guiá-los pelo campo de batalha através do exemplo, avançando sobre as fileiras inimigas e empregando dois recursos, o grito de guerra ou o toque de trombeta. Através dessas manobras é possível incentivar os soldados ao assalto ou reuni-los numa posição estratégica para a defesa. Não era muito diferente nas batalhas medievais, a exemplo do que vemos na Chanson de Roland, no Nibelungenlied e outros textos da época. Com efeito, o jogo me fez compreender melhor, "na prática", o que seria a liderança carismática de que fala Weber.
Paradoxalmente, Aragorn`s Quest é um jogo de fantasia que pode conduzir a uma esclarecedora experiência do que seria estar na pele (ou sob a malha) de um guerreiro medieval.
Para o relax, me dei de presente Aragorn`s Quest para Wii. Jogo fantástico, por vários motivos, e subestimado em todas as críticas que li. Por trás de um gráfico cartunesco, um jogo interessantíssimo, com uma narrativa sofisticada e uma jogabilidade altamente intuitiva e estimulante. Por sinal, o gráfico "pobre" libera todo o potencial de processamento para que a plataforma posso botar em cena literalmente algumas centenas de guerreiros altamente diferenciados de cada lado da batalha sem lapsos excessivos de carregamento e de modo altamente funcional.
Mas, vamos à História. O jogo é baseado na trilogia Senhor dos Anéis, sem depender exclusivamente da identidade visual dos filmes de Jackson, o que por si só já significa muito. É possível perceber a apropriação criativa dos originais de Tolkien, mas também das clássicas ilustrações de Alan Lee e de David Wenzel. No entanto, o mais interessante é a possibilidade de imersão numa batalha medieval como nunca vi em qualquer outro jogo.
Ok, uma batalha "medieval", afinal de contas, se trata de um universo ficcional. Ainda assim, o jogo se mostra surpreendentemente fiel aos ritmos, táticas, comportamentos esperados em uma batalha desse período, ao contrário da pseudo-estratégia antiga costumeira nesse gênero de jogos. Arqueiros, cavaleiros, infantes, se comportam de maneira bastante fiel, especialmente considerando-se a diversidade de terrenos e combates: há pântanos, planícies, colinas e fortalezas. Desenrolam-se escaramuças, batalhas campais e sítios, no ataque ou na defesa. Enfim, o jogo proporciona grande diversidade de experiências estratégicas, com objetivos coerentes e pertinentes a cada situação.
As armas são dignas de comentário à parte. Em lugar da diversidade quase absurda, uma seleção sóbria: espada, escudo, lança, arco. O jogo oferece um belíssimo sistema de luta com espada, baseado em movimentos de corte e estoque. A lança pode ser manuseada com bastante naturalidade, a pé ou a cavalo. O arco tem um sistema de mira quase simplório, compensado pela sobriedade dos contextos em que seu uso é exigido.
Last, but not least, o jogo apresenta um sistema de liderança muito instigante: o jogador não é convidado a dar ordens a seus soldados, mas a guiá-los pelo campo de batalha através do exemplo, avançando sobre as fileiras inimigas e empregando dois recursos, o grito de guerra ou o toque de trombeta. Através dessas manobras é possível incentivar os soldados ao assalto ou reuni-los numa posição estratégica para a defesa. Não era muito diferente nas batalhas medievais, a exemplo do que vemos na Chanson de Roland, no Nibelungenlied e outros textos da época. Com efeito, o jogo me fez compreender melhor, "na prática", o que seria a liderança carismática de que fala Weber.
Paradoxalmente, Aragorn`s Quest é um jogo de fantasia que pode conduzir a uma esclarecedora experiência do que seria estar na pele (ou sob a malha) de um guerreiro medieval.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
"Quem se contenta" - um apólogo de Ítalo Calvino
Pequeno texto de Calvino que parece descrever muito bem as funções sociais da bilharda no Brasil... digo, do Carnaval! Que lapso!
Havia um país em que tudo era proibido.
Ora, como a única coisa não proibida era o jogo de bilharda, os súditos se reuniam em certos campos que ficavam atrás da aldeia e ali, jogando bilharda, passavam os dias.
E como as proibições tinham vindo paulatinamente, sempre por motivos justificados, não havia ninguém que pudesse reclamar ou que não soubesse se adaptar.
Passaram-se os anos. Um dia, os condestáveis viram que não havia mais razão para que tudo fosse proibido e enviaram mensageiros para a avisar os súditos que podiam fazer o que quisessem.
Os mensageiros foram àqueles lugares onde os súditos costumavam se reunir.
- Saibam - anunciaram - que nada mais é proibido.
Eles continuaram a jogar bilharda.
-Entenderam? - os mensageiros insistiram. - Vocês estão livres para fazer o que quiserem.
-Muito bem - responderam os súditos. - Nós jogamos bilharda.
Os mensageiros se empenharam em recordar-lhes quantas ocupações belas e úteis havia, às quais eles tinham se dedicado no passado e poderiam agora novamente se dedicar. Mas eles não prestavam atenção e continuavam a jogar, uma batida atrás da outra, sem nem mesmo tomar fôlego.
Vendo que as tentativas eram inúteis, os mensageiros foram contar aos condestáveis.
-Nem uma, nem duas - disseram os condestáveis. - Proibamos o jogo de bilharda.
Aí então o povo fez uma revolução e matou-os todos.
Depois, sem perder tempo, voltou a jogar bilharda.
(Ítalo Calvino, Um general na biblioteca. Companhia das Letras, 2010)
Havia um país em que tudo era proibido.
Ora, como a única coisa não proibida era o jogo de bilharda, os súditos se reuniam em certos campos que ficavam atrás da aldeia e ali, jogando bilharda, passavam os dias.
E como as proibições tinham vindo paulatinamente, sempre por motivos justificados, não havia ninguém que pudesse reclamar ou que não soubesse se adaptar.
Passaram-se os anos. Um dia, os condestáveis viram que não havia mais razão para que tudo fosse proibido e enviaram mensageiros para a avisar os súditos que podiam fazer o que quisessem.
Os mensageiros foram àqueles lugares onde os súditos costumavam se reunir.
- Saibam - anunciaram - que nada mais é proibido.
Eles continuaram a jogar bilharda.
-Entenderam? - os mensageiros insistiram. - Vocês estão livres para fazer o que quiserem.
-Muito bem - responderam os súditos. - Nós jogamos bilharda.
Os mensageiros se empenharam em recordar-lhes quantas ocupações belas e úteis havia, às quais eles tinham se dedicado no passado e poderiam agora novamente se dedicar. Mas eles não prestavam atenção e continuavam a jogar, uma batida atrás da outra, sem nem mesmo tomar fôlego.
Vendo que as tentativas eram inúteis, os mensageiros foram contar aos condestáveis.
-Nem uma, nem duas - disseram os condestáveis. - Proibamos o jogo de bilharda.
Aí então o povo fez uma revolução e matou-os todos.
Depois, sem perder tempo, voltou a jogar bilharda.
(Ítalo Calvino, Um general na biblioteca. Companhia das Letras, 2010)
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Das possibilidades em História
Ando meio atarefado para postar aqui... Só terei tempo para o blog de novo lá para março. No entanto, essa semana li um trecho muito interessante de O negócio do Brasil, de Evaldo Cabral de Mello. Achei muito interessante o modo como o autor discute uma questão tão polêmica sem recorrer aos clichês de sempre...
"Escusado aduzir que o assunto aqui versado [as negociações diplomáticas em torno do Brasil holandês], como em geral os de história política e diplomática presta-se idealmente às análises contrafatuais, visando às possibilidades alternativas dos processes históricos, ou seja, 'aquilo que poderia ter sido e que não foi', como no verso de Manuel Bandeira. A moda está sendo tão cultivada, especialmente entre os anglo-saxões, que já caberia talvez falar num novo gênero historiográfico, a 'história virtual'. Na realidade, a novidade não é tão grande assim, na medida em que a contrafatualidade é inerente a todo raciocínio historiográfico, como há muito percebeu Max Weber, embora frequentemente não seja explicitada. Na fórmula de Raymon Aron: 'Todo historiador, para explicar o que foi, se pergunta o que poderia ter sido'. A atribuição de relevância a determinados fatos é feita mediante uma operação comparativa pela qual o historiador se pergunta o que teria ocorrido na inexistência deles. Donde o apelo de Huizinga no sentido de que ele procurasse inclusive colocar-se num ponto do passado no qual os fatores conhecidos parecem permitir diferentes caminhos. Se tratar de Salamina, deve fazê-lo como se os persas ainda pudessem ganhar a batalha; se se ocupar do golpe de Estado de Brumário, como se Bonaparte ainda pudesse ser ignominiosamente repelido'. Essa capacidade da historiografia de entrever alternativas mesmo quando elas já se fecharam de todo constitui uma das razões da originalidade da sua démarche científica".
"Escusado aduzir que o assunto aqui versado [as negociações diplomáticas em torno do Brasil holandês], como em geral os de história política e diplomática presta-se idealmente às análises contrafatuais, visando às possibilidades alternativas dos processes históricos, ou seja, 'aquilo que poderia ter sido e que não foi', como no verso de Manuel Bandeira. A moda está sendo tão cultivada, especialmente entre os anglo-saxões, que já caberia talvez falar num novo gênero historiográfico, a 'história virtual'. Na realidade, a novidade não é tão grande assim, na medida em que a contrafatualidade é inerente a todo raciocínio historiográfico, como há muito percebeu Max Weber, embora frequentemente não seja explicitada. Na fórmula de Raymon Aron: 'Todo historiador, para explicar o que foi, se pergunta o que poderia ter sido'. A atribuição de relevância a determinados fatos é feita mediante uma operação comparativa pela qual o historiador se pergunta o que teria ocorrido na inexistência deles. Donde o apelo de Huizinga no sentido de que ele procurasse inclusive colocar-se num ponto do passado no qual os fatores conhecidos parecem permitir diferentes caminhos. Se tratar de Salamina, deve fazê-lo como se os persas ainda pudessem ganhar a batalha; se se ocupar do golpe de Estado de Brumário, como se Bonaparte ainda pudesse ser ignominiosamente repelido'. Essa capacidade da historiografia de entrever alternativas mesmo quando elas já se fecharam de todo constitui uma das razões da originalidade da sua démarche científica".
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Capitalismo sertanejo
Esse post está na fila há algumas semanas. Achei muito interessante essa passagem de Tristes trópicos, onde Lévi-Strauss descreve as práticas extorsivas em uma fazenda em que esteve hospedado no Mato Grosso. Como se sabe, esses mecanismos cruéis de compra, venda, crédito e remuneração eram comuns nas fazendas do interior do Brasil. No entanto, a maneira como o autor relata faz toda a diferença. Na periferia do Capitalismo, resplandece a realidade dessa economia injusta de forma tragicômica, com um exagero caricatural digno de desenhos animados...
"Em um vasto bangalô à inglesa, nossos anfitriões levavam uma vida austera, meio criadores de gado, meio donos de mercearia. Com efeito, a venda da fazenda representava o único centro de abastecimento em cerca de cem quilômetros ao redor. Os empregados, trabalhadores ou peõesm vinham aí gastar com uma mão o que tinham ganho com a outra; um jogo de escrita permitia transformar seu crédito em dívida e, desse ponto de vista, toda a empresa funcionava quase sem dinheiro. Como os preços das mercadorias eram, conforme o costume, fixados no dobro ou triplo do curso normal, o negócio poderia ser rentável se esse aspecto comercial não permanecesse secundário. Havia algo de constrangedor em ver aos sábados os trabalhadores trazer uma pequena colheita de cana-de-açúcar, espremê-la logo no engenho da fazenda - máquina feita de troncos grosseiramente aplainados onde os ramos de cana são esmagados pela rotação de três cilindros de madeira - depois, em grandes bacias de chapas, fazer evaporar o sumo ao vento antes de vertê-lo nos moldes onde ele toma forma de blocos grosseiros com consistência granulosa: a rapadura; eles guardavam então o produto no galpão adjacente onde, transformados em compradores, eles viriam na mesma noite adquiri-lo a preços extorsivos para oferecer aos filhos essa única guloseima do sertão".
Não estamos nós também condenados a "gastar com uma mão o que ganhamos com a outra", esmagados entre as engrenagens desse sistema diabólico, verdadeiro "moinho satânico", como diria Karl Polanyi? Condenados a comprar para sobreviver, ao sabor das especulações iníquas da indústria, do comércio e das finanças? Condenados a sustentar e enriquecer os tais "1%", que levam vidas nada austeras, ao contrário desses tristes fazendeiros do sertão?
"Em um vasto bangalô à inglesa, nossos anfitriões levavam uma vida austera, meio criadores de gado, meio donos de mercearia. Com efeito, a venda da fazenda representava o único centro de abastecimento em cerca de cem quilômetros ao redor. Os empregados, trabalhadores ou peõesm vinham aí gastar com uma mão o que tinham ganho com a outra; um jogo de escrita permitia transformar seu crédito em dívida e, desse ponto de vista, toda a empresa funcionava quase sem dinheiro. Como os preços das mercadorias eram, conforme o costume, fixados no dobro ou triplo do curso normal, o negócio poderia ser rentável se esse aspecto comercial não permanecesse secundário. Havia algo de constrangedor em ver aos sábados os trabalhadores trazer uma pequena colheita de cana-de-açúcar, espremê-la logo no engenho da fazenda - máquina feita de troncos grosseiramente aplainados onde os ramos de cana são esmagados pela rotação de três cilindros de madeira - depois, em grandes bacias de chapas, fazer evaporar o sumo ao vento antes de vertê-lo nos moldes onde ele toma forma de blocos grosseiros com consistência granulosa: a rapadura; eles guardavam então o produto no galpão adjacente onde, transformados em compradores, eles viriam na mesma noite adquiri-lo a preços extorsivos para oferecer aos filhos essa única guloseima do sertão".
Não estamos nós também condenados a "gastar com uma mão o que ganhamos com a outra", esmagados entre as engrenagens desse sistema diabólico, verdadeiro "moinho satânico", como diria Karl Polanyi? Condenados a comprar para sobreviver, ao sabor das especulações iníquas da indústria, do comércio e das finanças? Condenados a sustentar e enriquecer os tais "1%", que levam vidas nada austeras, ao contrário desses tristes fazendeiros do sertão?
sábado, 21 de janeiro de 2012
Em cartaz... "As aventuras de Tintin"
Nesta quinta-feira fui assistir ao filme de Tintin. Fiquei muito contente de ver o cinema lotado numa quinta-feira, numa pré-estreia de Tintin, no Rio de Janeiro, onde não temos uma forte "cultura tintinesca". Espero que o filme seja um sucesso e impulsione a divulgação da obra de Hergé no Brasil.
Recomendo fortemente o filme, e não faltam motivos. A animação é fantástica, conseguindo um difícil compromisso entre o estilo ligne claire de Hergé e uma abordagem mais compatível com uma animação em CG. O resultado são belíssimas imagens, com texturas e iluminação inigualáveis. Um dos trabalhos mais lindos que já vi em animação digital. A abertura também é um show à parte. Ao mesmo tempo, a reconstituição histórica de um período pouco definido entre os anos 30 e 50 não deixa a desejar, sendo por si só uma viagem no tempo.
Por outro lado, o roteiro é impecável, conseguindo alinhavar com sucesso as tramas de diversos álbuns diferentes num todo coeso. Embora não seja fiel especificamente a nenhuma história, consegue algo muito mais importante, ser fiel ao espírito da HQ. Ao mesmo tempo, inúmeras referências a outros álbuns e ao próprio Hergé deslizam de modo sutil pelo filme.
Por fim, trilha sonora de John Williams, fantástica como sempre. A composição foi muito feliz, capturando o clima das trilhas dos seriados de aventura das matinês da época. Algumas linhas parecem ter saído da pena de Maurice Jarre.
Pretendo assistir mais vezes!
Recomendo fortemente o filme, e não faltam motivos. A animação é fantástica, conseguindo um difícil compromisso entre o estilo ligne claire de Hergé e uma abordagem mais compatível com uma animação em CG. O resultado são belíssimas imagens, com texturas e iluminação inigualáveis. Um dos trabalhos mais lindos que já vi em animação digital. A abertura também é um show à parte. Ao mesmo tempo, a reconstituição histórica de um período pouco definido entre os anos 30 e 50 não deixa a desejar, sendo por si só uma viagem no tempo.
Por outro lado, o roteiro é impecável, conseguindo alinhavar com sucesso as tramas de diversos álbuns diferentes num todo coeso. Embora não seja fiel especificamente a nenhuma história, consegue algo muito mais importante, ser fiel ao espírito da HQ. Ao mesmo tempo, inúmeras referências a outros álbuns e ao próprio Hergé deslizam de modo sutil pelo filme.
Por fim, trilha sonora de John Williams, fantástica como sempre. A composição foi muito feliz, capturando o clima das trilhas dos seriados de aventura das matinês da época. Algumas linhas parecem ter saído da pena de Maurice Jarre.
Pretendo assistir mais vezes!
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Reflexões sobre a antropofagia
Neste domingo assisti no Esporte Espetacular uma reportagem sobre o trágico acidente áereo nos Andes que ficou marcado pelo seu episódio de antropofagia. A princípio imaginei que seria mais uma reportagem com o "padrão Globo" de pieguice e sensacionalismo de sempre, mas fui positivamente surpreendido - embora também tenha tido seus momentos de pieguice e sensacionalismo, caso contrário não seria realmente a Globo... Um dos pontos fortes da matéria foi o depoimento de um dos sobreviventes, Gustavo Zerbino. Enquanto assistia a reportagem, me ocorreram inúmeras correlações entre o triste episódio, a antropofagia ritual tupinambá e a antropofagia em geral.
Um dos aspectos que mais me chamou a atenção foi a extrema ritualização do evento por parte de seus sobreviventes, como a construção de rústicos monumentos no local, bem como a realização de "peregrinações" ao lugar. Achei particularmente interessante o caso de Zerbino, que contou ter recolhido um objeto pessoal de cada um dos mortos para entregar posteriormente a seus familiares. Ele mesmo levou seus filhos a visitar o local, lá realizando um jogo de rugby em homenagem aos falecidos, (o avião transportava justamente a seleção juvenil uruguaia para um torneio no Chile). Essas particularidades me pareceram muito interessantes justamente porque em todas as sociedades onde a antropofagia é praticada há também forte carga de ritualidade, não sendo simplesmente uma prática "culinária".
Achei ainda mais interessantes as afirmações de Zerbino a respeito dos acontecimentos e a maneira com que eles atribuíram significados a sua tragédia pessoal. Segundo ele, os mortos teriam feito uma "doação" aos vivos, permitindo-lhes a sobrevivência. Mais ainda, interpreta o episódio como uma história de "amor e solidariedade". Por sinal, ele deixava muito clara sua gratidão aos companheiros que haviam perecido e lhes permitido sobreviver. De certo modo, isso tudo me lembrou bastante as práticas de endocanibalismo, ou seja, o consumo ritual dos corpos de parentes, familiares, amigos (em oposição ao exocanibalismo, onde são consumidos os inimigos, como acontecia entre os tupinambá). Em geral as culturas endoantropofágicas apresentam uma interpretação muito semelhante, como uma forma de reforçar os vínculos entre os que foram e os que ficam; o morto consumido passa a ser parte integrante do vivo, nele sobrevivendo. A relação estabelecida por Zerbino entre sua antropofagia forçada e a possibilidade da existência de seus filhos me parece muito significativa nesse sentido; de certa forma, fica implícito que, de alguma forma, os falecidos ainda vivem em seus filhos.
Por outro lado, também me chamou a atenção a constante "cristianização" do episódio. Zerbino relata que durante todos aqueles dias se mantinham constantemente em oração, rezando o terço, inclusive para se manterem acordados. Foram erigidas cruzes no local do acidente. Enfim, segundo li na Wikipédia, alguns deles teriam, ainda durante sua provação comparado a situação à eucaristia católica (mais uma vez, um ritual). A própria ideia do sacrifício que comunica a vida a outrem, garantindo sua salvação, como expressa por Zerbino, remete ainda ao imaginário cristão.
Em suma, o que me pareceu instigante foi todo o esforço dos sobreviventes em atribuir significados a sua experiência, particularmente significados metafísicos, religiosos. Achei admiráveis as convergências entre essa antropofagia forçada e "acidental" e as práticas antropofágicas altamente regradas e ritualizadas das culturas que as vivenciaram com regularidade. Parece que o canibalismo é uma experiência humana tão extrema que, onde quer que ocorra, mobiliza profundamente os recursos simbólicos e espirituais à disposição daqueles que o experimentam.
Um dos aspectos que mais me chamou a atenção foi a extrema ritualização do evento por parte de seus sobreviventes, como a construção de rústicos monumentos no local, bem como a realização de "peregrinações" ao lugar. Achei particularmente interessante o caso de Zerbino, que contou ter recolhido um objeto pessoal de cada um dos mortos para entregar posteriormente a seus familiares. Ele mesmo levou seus filhos a visitar o local, lá realizando um jogo de rugby em homenagem aos falecidos, (o avião transportava justamente a seleção juvenil uruguaia para um torneio no Chile). Essas particularidades me pareceram muito interessantes justamente porque em todas as sociedades onde a antropofagia é praticada há também forte carga de ritualidade, não sendo simplesmente uma prática "culinária".
Achei ainda mais interessantes as afirmações de Zerbino a respeito dos acontecimentos e a maneira com que eles atribuíram significados a sua tragédia pessoal. Segundo ele, os mortos teriam feito uma "doação" aos vivos, permitindo-lhes a sobrevivência. Mais ainda, interpreta o episódio como uma história de "amor e solidariedade". Por sinal, ele deixava muito clara sua gratidão aos companheiros que haviam perecido e lhes permitido sobreviver. De certo modo, isso tudo me lembrou bastante as práticas de endocanibalismo, ou seja, o consumo ritual dos corpos de parentes, familiares, amigos (em oposição ao exocanibalismo, onde são consumidos os inimigos, como acontecia entre os tupinambá). Em geral as culturas endoantropofágicas apresentam uma interpretação muito semelhante, como uma forma de reforçar os vínculos entre os que foram e os que ficam; o morto consumido passa a ser parte integrante do vivo, nele sobrevivendo. A relação estabelecida por Zerbino entre sua antropofagia forçada e a possibilidade da existência de seus filhos me parece muito significativa nesse sentido; de certa forma, fica implícito que, de alguma forma, os falecidos ainda vivem em seus filhos.
Por outro lado, também me chamou a atenção a constante "cristianização" do episódio. Zerbino relata que durante todos aqueles dias se mantinham constantemente em oração, rezando o terço, inclusive para se manterem acordados. Foram erigidas cruzes no local do acidente. Enfim, segundo li na Wikipédia, alguns deles teriam, ainda durante sua provação comparado a situação à eucaristia católica (mais uma vez, um ritual). A própria ideia do sacrifício que comunica a vida a outrem, garantindo sua salvação, como expressa por Zerbino, remete ainda ao imaginário cristão.
Em suma, o que me pareceu instigante foi todo o esforço dos sobreviventes em atribuir significados a sua experiência, particularmente significados metafísicos, religiosos. Achei admiráveis as convergências entre essa antropofagia forçada e "acidental" e as práticas antropofágicas altamente regradas e ritualizadas das culturas que as vivenciaram com regularidade. Parece que o canibalismo é uma experiência humana tão extrema que, onde quer que ocorra, mobiliza profundamente os recursos simbólicos e espirituais à disposição daqueles que o experimentam.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Entrevista - Embaixador Vasco Mariz
Depois de muito prometer, finalmente nossa primeira entrevista para a Oficina de Clio, com um convidado muito especial, o embaixador Vasco Mariz. Hoje aposentado, o embaixador representou o Brasil em diversos países e organismos supranacionais. Paralelamente à diplomacia, desenvolveu rica atividade como historiador e musicólogo, granjeando reconhecimento em nosso país e no exterior, tendo várias obras traduzidas. Completando 91 anos, permanece ativo: em março de 2012 lançará o livro Depois da glória, enquanto organiza um seminário comemorativo da unificação italiana no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. O embaixador nos concedeu gentilmente esta entrevista.
No Brasil temos uma longa e interessante tradição de diplomatas que se dedicaram paralelamente ao trabalho de historiador, oferecendo valiosas contribuições à nossa historiografia. É o seu caso, e também o de Oliveira Lima, Evaldo Cabral de Mello, Alberto da Costa Silva, entre tantos outros. Em sua opinião, existe tendência à renovação dessa tradição? Podemos esperar novos historiadores entre as próximas gerações do Itamaraty?
A vida diplomática tem momentos de intensa atividade em que o funcionário trabalha 24 horas por dia durante alguns dias tensos. Mas também tem períodos de calmaria, onde é possível, sem prejuízo do cumprimento de seus deveres, dedicar-se a algum hobby, como por exemplo fazer pesquisas e atuar como historiador. Foi o que fiz em minha carreira diplomática de mais de 42 anos. No momento conheço um jovem diplomata, que já publicou diversos livros de considerável interesse e agora está encarregado de organizar a exposição Rio Branco para comemorar o centenário de seu falecimento. Ele promete muito – Luis Cláudio Villafañe. Recomendei o seu ingresso no IHGB.
Ainda sobre diplomacia e História, de que maneira o senhor acha que a experiência como diplomata contribuiu para sua formação como historiador? Além disso, de que forma essa vivência afetou sua compreensão sobre a História?
A carreira diplomática nos obriga a estudar, pelo menos, a história dos países onde servimos e acredito que isso me levou a pesquisar personalidades de nossa história depois da minha aposentadoria. Daí saíram vários livros como o que espero lançar em março próximo, cujo titulo é “Após a glória”, isto é, o que aconteceu com algumas personalidades nacionais depois que ficaram famosas.
O senhor já é sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro há muitos anos. O que significa para o senhor ser sócio dessa instituição tão importante para a construção da historiografia brasileira?
Sou sócio do IHGB há quarenta anos exatamente, pois fui admitido em 1982. Creio que o IHGB me fez conhecido e respeitado nos meios intelectuais do país. Por isso tenho procurado retribuir. O seminário francês de 2009 e o seminário italiano, que se realizará em fins de março próximo foram organizados por mim por encomenda do presidente.
Muito se fala sobre o papel do IHGB para o conhecimento histórico no século XIX. Mas e o século XX? Para o senhor, que participou de boa parte dessa trajetória, quais foram as contribuições mais significativas do Instituto à historiografia brasileira no último século?
Eu destacaria a realização de congressos científicos importantes com participação internacional, a publicação ininterrupta da revista que se tornou a mais antiga das Américas, a promoção de pesquisas em arquivos portugueses e a publicação de inventários ou dos próprios documentos, a ampliação do acervo arquivístico, iconográfico e museológico e sua divulgação em exposições e publicações.
As últimas décadas foram marcadas por uma relação complicada entre a historiografia praticada em nossas universidades e o IHGB. Durante algum tempo a produção do Instituto foi tachada de antiquada, “positivista”, encarada com desconfiança. Mesmo a Revista do Instituto foi objeto de certo preconceito, como uma publicação ultrapassada. Contudo, nos últimos anos, particularmente na última década, temos assistido a uma nítida mudança: a universidade tem buscado nova aproximação ao Instituto; o preconceito contra a produção do Instituto vem diminuindo acentuadamente, passando mesmo por uma fase de revalorização, enquanto muitos professores universitários vêm se tornando sócios. Como o senhor interpreta esse processo, a que atribui essa mudança de atitude?
Toda entidade, cultural ou não, tem fases de maior ou menor atividade, segundo o dinamismo e o modelo de orientação de seu presidente. O IHGB, a entidade cultural mais antiga do Brasil, fundada em 1838 e cuja revista é publicada regularmente desde então, tem notável tradição, mas teve fases de menor ou maior atividade, de maior ou menor modernização. Sou membro do IHGB há exatamente 40 anos, desde 1982. Para lá fui convidado por Pedro Calmon, notável intelectual, que foi sucedido por outro respeitado historiador, Américo Jacobina Lacombe. Seu sucessor Vicente Tapajós sofreria do Peter principle, isto é, fora bom secretário-geral, mas desapontou como presidente. Desde 1995 o IHGB é dirigido por Arno Wehling, que tem sabido atrair para a entidade alguns dos melhores jovens historiadores do país e algumas personalidades intelectuais nacionais. O IHGB tem atuado com bastante eficiência e realizado seminários de apreciável oportunidade. Realizou um convênio com a editora do Senado Federal, que vem publicando anualmente três ou quatro números da revista, que hoje é considerada entre as melhores do país. Por tudo isso o atual presidente tem sido reeleito sucessivamente.
Ainda sobre a reaproximação entre o IHGB e a historiografia universitária, o que o senhor gostaria de ver concretizado nos próximos anos? Que frutos lhe parece possível que nasçam desse reencontro?
Nossos historiadores universitários, por melhores que sejam, estão um pouco engessados pelo excesso de trabalho. Desconfiam um pouco do IHGB, que consideram elitista e conservador. Por sua vez os sócios do IHGB tendem a minimizar o mérito dos historiadores profissionais, que tanto labutam contra fatigantes horários e remuneração modesta. Nós, os sócios do IHGB, temos por vezes a tendência de admitir o ingresso de algum figurão da política ou da diplomacia, que embora tenha considerável mérito pessoal e várias obras publicadas, não têm aquela vivência dos bancos universitários que me parece necessária para a formação do bom historiador. No momento, sinto que o corpo de sócios do IHGB está ficando um pouco idoso demais e tenho insistido com o atual presidente para estimular o ingresso de historiadores mais jovens. Temos intensificado parcerias com universidades como a realização conjunta de encontros científicos, cursos e seminários.
Como se sabe, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro foi fundado num momento muito especial da história de nosso país, de estímulo à produção intelectual nunca antes visto; por sinal, no mesmo ano também foram fundados o Arquivo Imperial e o Colégio Pedro II, como parte desse esforço. Naquela época, esperava-se que o IHGB cumprisse o papel de fomentar a produção de conhecimento sobre o passado e o território do Brasil, com o fito de pensar projetos de nação para um país recentemente independente. Na sua opinião, que papel o Instituto pode ou deve desempenhar no Brasil do século XXI?
Creio que o IHGB está desempenhando no momento uma variada atividade de estudos de toda a ordem sobre as diversas fases de nossa historia e tem estimulado trabalhos e pesquisas sobre personagens importantes menos estudados e que merecem uma melhor avaliação. Eu mesmo, na minha idade avançada, vou publicar no primeiro trimestre do ano corrente um livro que reúne diversas pesquisas e estudos sobre personagens de nossa história pouco estudados ou controvertidos. O atual presidente tem procurado estreitar as relações com os institutos históricos estaduais visando uma cooperação constante para valorizar a história, a memória e a própria identidade regional.
No Brasil temos uma longa e interessante tradição de diplomatas que se dedicaram paralelamente ao trabalho de historiador, oferecendo valiosas contribuições à nossa historiografia. É o seu caso, e também o de Oliveira Lima, Evaldo Cabral de Mello, Alberto da Costa Silva, entre tantos outros. Em sua opinião, existe tendência à renovação dessa tradição? Podemos esperar novos historiadores entre as próximas gerações do Itamaraty?
A vida diplomática tem momentos de intensa atividade em que o funcionário trabalha 24 horas por dia durante alguns dias tensos. Mas também tem períodos de calmaria, onde é possível, sem prejuízo do cumprimento de seus deveres, dedicar-se a algum hobby, como por exemplo fazer pesquisas e atuar como historiador. Foi o que fiz em minha carreira diplomática de mais de 42 anos. No momento conheço um jovem diplomata, que já publicou diversos livros de considerável interesse e agora está encarregado de organizar a exposição Rio Branco para comemorar o centenário de seu falecimento. Ele promete muito – Luis Cláudio Villafañe. Recomendei o seu ingresso no IHGB.
Ainda sobre diplomacia e História, de que maneira o senhor acha que a experiência como diplomata contribuiu para sua formação como historiador? Além disso, de que forma essa vivência afetou sua compreensão sobre a História?
A carreira diplomática nos obriga a estudar, pelo menos, a história dos países onde servimos e acredito que isso me levou a pesquisar personalidades de nossa história depois da minha aposentadoria. Daí saíram vários livros como o que espero lançar em março próximo, cujo titulo é “Após a glória”, isto é, o que aconteceu com algumas personalidades nacionais depois que ficaram famosas.
O senhor já é sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro há muitos anos. O que significa para o senhor ser sócio dessa instituição tão importante para a construção da historiografia brasileira?
Sou sócio do IHGB há quarenta anos exatamente, pois fui admitido em 1982. Creio que o IHGB me fez conhecido e respeitado nos meios intelectuais do país. Por isso tenho procurado retribuir. O seminário francês de 2009 e o seminário italiano, que se realizará em fins de março próximo foram organizados por mim por encomenda do presidente.
Muito se fala sobre o papel do IHGB para o conhecimento histórico no século XIX. Mas e o século XX? Para o senhor, que participou de boa parte dessa trajetória, quais foram as contribuições mais significativas do Instituto à historiografia brasileira no último século?
Eu destacaria a realização de congressos científicos importantes com participação internacional, a publicação ininterrupta da revista que se tornou a mais antiga das Américas, a promoção de pesquisas em arquivos portugueses e a publicação de inventários ou dos próprios documentos, a ampliação do acervo arquivístico, iconográfico e museológico e sua divulgação em exposições e publicações.
As últimas décadas foram marcadas por uma relação complicada entre a historiografia praticada em nossas universidades e o IHGB. Durante algum tempo a produção do Instituto foi tachada de antiquada, “positivista”, encarada com desconfiança. Mesmo a Revista do Instituto foi objeto de certo preconceito, como uma publicação ultrapassada. Contudo, nos últimos anos, particularmente na última década, temos assistido a uma nítida mudança: a universidade tem buscado nova aproximação ao Instituto; o preconceito contra a produção do Instituto vem diminuindo acentuadamente, passando mesmo por uma fase de revalorização, enquanto muitos professores universitários vêm se tornando sócios. Como o senhor interpreta esse processo, a que atribui essa mudança de atitude?
Toda entidade, cultural ou não, tem fases de maior ou menor atividade, segundo o dinamismo e o modelo de orientação de seu presidente. O IHGB, a entidade cultural mais antiga do Brasil, fundada em 1838 e cuja revista é publicada regularmente desde então, tem notável tradição, mas teve fases de menor ou maior atividade, de maior ou menor modernização. Sou membro do IHGB há exatamente 40 anos, desde 1982. Para lá fui convidado por Pedro Calmon, notável intelectual, que foi sucedido por outro respeitado historiador, Américo Jacobina Lacombe. Seu sucessor Vicente Tapajós sofreria do Peter principle, isto é, fora bom secretário-geral, mas desapontou como presidente. Desde 1995 o IHGB é dirigido por Arno Wehling, que tem sabido atrair para a entidade alguns dos melhores jovens historiadores do país e algumas personalidades intelectuais nacionais. O IHGB tem atuado com bastante eficiência e realizado seminários de apreciável oportunidade. Realizou um convênio com a editora do Senado Federal, que vem publicando anualmente três ou quatro números da revista, que hoje é considerada entre as melhores do país. Por tudo isso o atual presidente tem sido reeleito sucessivamente.
Ainda sobre a reaproximação entre o IHGB e a historiografia universitária, o que o senhor gostaria de ver concretizado nos próximos anos? Que frutos lhe parece possível que nasçam desse reencontro?
Nossos historiadores universitários, por melhores que sejam, estão um pouco engessados pelo excesso de trabalho. Desconfiam um pouco do IHGB, que consideram elitista e conservador. Por sua vez os sócios do IHGB tendem a minimizar o mérito dos historiadores profissionais, que tanto labutam contra fatigantes horários e remuneração modesta. Nós, os sócios do IHGB, temos por vezes a tendência de admitir o ingresso de algum figurão da política ou da diplomacia, que embora tenha considerável mérito pessoal e várias obras publicadas, não têm aquela vivência dos bancos universitários que me parece necessária para a formação do bom historiador. No momento, sinto que o corpo de sócios do IHGB está ficando um pouco idoso demais e tenho insistido com o atual presidente para estimular o ingresso de historiadores mais jovens. Temos intensificado parcerias com universidades como a realização conjunta de encontros científicos, cursos e seminários.
Como se sabe, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro foi fundado num momento muito especial da história de nosso país, de estímulo à produção intelectual nunca antes visto; por sinal, no mesmo ano também foram fundados o Arquivo Imperial e o Colégio Pedro II, como parte desse esforço. Naquela época, esperava-se que o IHGB cumprisse o papel de fomentar a produção de conhecimento sobre o passado e o território do Brasil, com o fito de pensar projetos de nação para um país recentemente independente. Na sua opinião, que papel o Instituto pode ou deve desempenhar no Brasil do século XXI?
Creio que o IHGB está desempenhando no momento uma variada atividade de estudos de toda a ordem sobre as diversas fases de nossa historia e tem estimulado trabalhos e pesquisas sobre personagens importantes menos estudados e que merecem uma melhor avaliação. Eu mesmo, na minha idade avançada, vou publicar no primeiro trimestre do ano corrente um livro que reúne diversas pesquisas e estudos sobre personagens de nossa história pouco estudados ou controvertidos. O atual presidente tem procurado estreitar as relações com os institutos históricos estaduais visando uma cooperação constante para valorizar a história, a memória e a própria identidade regional.
sábado, 31 de dezembro de 2011
Teatro, aparência e poder
Escrevi esse pequeno texto como parte de minha dissertação de mestrado, mas acabei não utilizando. Resolvi postar por aqui. Por sua própria natureza de trecho inutilizado, ele começa abruptamente e não se encaminha a nenhuma conclusão, mas sei que os amigos tirarão suas próprias...
Segundo Edward Thompson, uma das noções essenciais para a compreensão das sociedades de Antigo Regime é a idéia de “teatro”. De acordo com Thompson, a exibição, o espetáculo, são essenciais ao Antigo Regime na construção de hierarquias sociais, bem como na afirmação do poder.
As execuções públicas são uma apresentação teatral, assim como as procissões, as festas, os atos de coroação, as exéquias, entre muitas outras coisas. Cada ato na vida social deve se fazer perceber por signos que o façam legíveis, em geral seguindo a um script pré-determinado e escrito coletivamente. Talvez a prática teatral que nos forneça a mais fiel semelhança com essa teatralidade social seja a Comedia dell`arte italiana, onde personagens fixos e com repertório pré-definido desempenham papéis onde se misturam as suas características costumeiras e a especificidade de cada enredo. Um dos mais célebres livros de Thompson, Costumes em comum é em grande medida, um esforço para decodificar e decifrar os signos dessa teatralidade.
É interessante aproximar essa noção de uma outra, a de “representação”, apontada por Roger Chartier como conceito chave para a compreensão da lógica de Antigo Regime. A proximidade entre as duas conceituações não pode passar despercebida. Afinal de contas, representar é o que fazem os atores sobre o palco. Segundo Chartier, “representação” é um termo polissêmico, podendo significar em sua noção mais básica a substituição de algo ausente por um signo, verbal ou não, que o substitua diante de alguém. A “representação” evoca aquilo que está distante ou invisível.
No entanto, de acordo com o historiador, a noção de representação serve no Antigo Regime para articular uma lógica que qualifica como “perversa”. Dentro dessa lógica, é abolida a distância entre a representação e o representado, essência e aparência se confundem como uma só coisa: a essência se realizaria, então, na aparência que a faria perceptível, através de seus sinais distintivos. Poderíamos exemplificar muito grosseiramente que não haveria rei sem coroa, ou papa sem mitra.
A perversidade estaria no fato de que a simples aparência seria capaz de fazer pressupor a essência, criando assim uma perigosa armadilha mental, que embotaria a capacidade dos indivíduos de perceber a essência separada da aparência e vice-versa. Assim, a aparência pura e simples seria capaz de se passar pela essência inexistente, assim como a essência desprovida da aparência que a codifica socialmente tornar-se-ia imperceptível. Retomando a metáfora teatral, seria impossível dissociar o ator do papel representado.
Como se trata aqui de atores, podemos pensar na interessante noção de “ator de si mesmo” cunhada por Fernando Bouza Alvarez ao tratar de Felipe II e da construção de sua imagem, no livro Imagen y propaganda. Cabe resgatar o contexto em que o riquíssimo conceito é empregado. Alvarez relata uma interessante anedota a respeito do Príncipe Prudente. Estaria Felipe II em viagem, e, passando por uma igreja, entraria para orar; passando adiante por outra igreja, oraria de novo. Interrogado por um dos nobres de seu séquito sobre esta atitude, o monarca responderia: “Acaso os que estão aqui me viram lá?” Segundo Alvarez, não devemos ver aí uma atitude hipócrita: os testemunhos íntimos sobre a profunda devoção do rei são inúmeros. Todavia, o cultivo da aparência exporia sua verdade íntima, sua “essência” aos que o vissem. Daí a riqueza do conceito de “ator de si mesmo”: a atuação não tem em vista a representação fraudulenta de um papel, mas a exposição de um papel que corresponderia à realidade.
Segundo Edward Thompson, uma das noções essenciais para a compreensão das sociedades de Antigo Regime é a idéia de “teatro”. De acordo com Thompson, a exibição, o espetáculo, são essenciais ao Antigo Regime na construção de hierarquias sociais, bem como na afirmação do poder.
As execuções públicas são uma apresentação teatral, assim como as procissões, as festas, os atos de coroação, as exéquias, entre muitas outras coisas. Cada ato na vida social deve se fazer perceber por signos que o façam legíveis, em geral seguindo a um script pré-determinado e escrito coletivamente. Talvez a prática teatral que nos forneça a mais fiel semelhança com essa teatralidade social seja a Comedia dell`arte italiana, onde personagens fixos e com repertório pré-definido desempenham papéis onde se misturam as suas características costumeiras e a especificidade de cada enredo. Um dos mais célebres livros de Thompson, Costumes em comum é em grande medida, um esforço para decodificar e decifrar os signos dessa teatralidade.
É interessante aproximar essa noção de uma outra, a de “representação”, apontada por Roger Chartier como conceito chave para a compreensão da lógica de Antigo Regime. A proximidade entre as duas conceituações não pode passar despercebida. Afinal de contas, representar é o que fazem os atores sobre o palco. Segundo Chartier, “representação” é um termo polissêmico, podendo significar em sua noção mais básica a substituição de algo ausente por um signo, verbal ou não, que o substitua diante de alguém. A “representação” evoca aquilo que está distante ou invisível.
No entanto, de acordo com o historiador, a noção de representação serve no Antigo Regime para articular uma lógica que qualifica como “perversa”. Dentro dessa lógica, é abolida a distância entre a representação e o representado, essência e aparência se confundem como uma só coisa: a essência se realizaria, então, na aparência que a faria perceptível, através de seus sinais distintivos. Poderíamos exemplificar muito grosseiramente que não haveria rei sem coroa, ou papa sem mitra.
A perversidade estaria no fato de que a simples aparência seria capaz de fazer pressupor a essência, criando assim uma perigosa armadilha mental, que embotaria a capacidade dos indivíduos de perceber a essência separada da aparência e vice-versa. Assim, a aparência pura e simples seria capaz de se passar pela essência inexistente, assim como a essência desprovida da aparência que a codifica socialmente tornar-se-ia imperceptível. Retomando a metáfora teatral, seria impossível dissociar o ator do papel representado.
Como se trata aqui de atores, podemos pensar na interessante noção de “ator de si mesmo” cunhada por Fernando Bouza Alvarez ao tratar de Felipe II e da construção de sua imagem, no livro Imagen y propaganda. Cabe resgatar o contexto em que o riquíssimo conceito é empregado. Alvarez relata uma interessante anedota a respeito do Príncipe Prudente. Estaria Felipe II em viagem, e, passando por uma igreja, entraria para orar; passando adiante por outra igreja, oraria de novo. Interrogado por um dos nobres de seu séquito sobre esta atitude, o monarca responderia: “Acaso os que estão aqui me viram lá?” Segundo Alvarez, não devemos ver aí uma atitude hipócrita: os testemunhos íntimos sobre a profunda devoção do rei são inúmeros. Todavia, o cultivo da aparência exporia sua verdade íntima, sua “essência” aos que o vissem. Daí a riqueza do conceito de “ator de si mesmo”: a atuação não tem em vista a representação fraudulenta de um papel, mas a exposição de um papel que corresponderia à realidade.
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