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terça-feira, 16 de junho de 2020

Le repos du chien - Matin d'Automne


A-KI-RA e AGOSTINHO



A-KI-RA. 

Um dos melhores mangás de todos os tempos, criado por Otomo Katsuhiro Sensei e considerado uma das obras fundadoras da estética cyberpunk. Sua adaptação cinematográfica contribuiu muito para a disseminação da cultura pop japonesa no Ocidente. 

A-GOS-TI-NHO, por sua vez, é um personagem vivido pelo ator e humorista brasileiro Pedro Cardoso no remake do seriado cômico "A Grande Família", realizado pela Rede Globo, um dos maiores conglomerados de telecomunicações da América Latina e do planeta Terra. O seriado "A Grande Família" encontrou bastante sucesso, sendo prolongado por várias temporadas. 

Um de seus protagonistas é o mencionado AGOSTINHO Carrara, taxista suburbano, de caracterização picaresca como um típico "malandro", termo da Língua Portuguesa bastante usado na região do Rio de Janeiro e adjacências para identificar pessoas com tendência a resolver problemas do cotidiano de maneira informal e, ocasionalmente, às margens do ordenamento jurídico da República Federativa do Brasil. 

Seriados são uma forma de entretenimento comum entre os primatas da subespécie Homo sapiens sapiens, que atualmente exerce sua efêmera hegemonia sobre a biosfera terrestre, correntemente ameaçada pelo vírus identificado pelos ditos primatas como "COVID-19", embora alguns dentre os mencionados primatas considerem que o fármaco denominado Hidroxicloroquina seja mais que suficiente para conter o surto do vírus supracitado (crença esta desprovida de crédito entre a seleta coletividade de primatas autoidentificada como "comunidade científica"). 

Note-se que a pandemia de COVID-19 eclodiu no ano de 2020, impedindo a realização dos Jogos Olímpicos de Tóquio, de maneira semelhante àquela retratada no mangá AKIRA, que prefigurava com décadas de antecedência a programação dos ditos Jogos Olímpicos para o exato ano de 2020, sendo sua realização impedida por um cataclisma (a saber, "o despertar de Akira"), o que pode levar a crer que Otomo, além de ser um dos mais talentosos mangakás da história também teria algum tipo de habilidade precognitiva como aquelas ostentadas pelos próprios personagens paranormais do dito mangá. 

Este longo texto, escrito em avançada hora, sugere que seu autor, acometido de otite, se encontra fatigado por suas penosas tarefas de docência a distância, sonolento e um tanto delirante.


segunda-feira, 15 de junho de 2020

"Cocô de índio petrificado" - Um emblema

Quando mais um museu brasileiro pega fogo, é oportuno lembrar a mais que emblemática fala do Sr. Jair Messias Bolsonaro reclamando que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional "atrasa obras" por causa de qualquer "cocô de índio petrificado", como se a missão do IPHAN, instituição quase centenária, que teve Mário de Andrade como um de seus fundadores, fosse acelerar obras, e não zelar pelo patrimônio cultural do povo brasileiro.

Em que pese a característica prosa do atual presidente e guardadas as devidas nuances, a fala é fiel retrato do modo como pensamos, enquanto coletividade. 

Há alguns anos lembro de um blogueiro petista que reclamava do atraso de uma obra do apressado "Programa de Aceleração do Crescimento", que andava atrasada devido à presença de uma comunidade de anfíbios ameaçados de extinção no futuro canteiro de obras. Segundo o digníssimo publicista, seria um exagero de regulamentação ambiental - concluía que, entre tantas espécies brasileiras de batráquios, uma a mais ou a menos faria pouca diferença. Por que se preocupar com biodiversidade quando precisamos construir um viaduto?

Assim segue o Brasil: para que se "acelere" o suposto "crescimento", um sapo a mais ou um museu a menos pouca diferença podem fazer.

O povo brasileiro corre sempre, sem saber muito bem para onde ou para quê. Correr, aos trancos e barrancos, tropeços e trambolhões, é o que nos basta. Que se destrua o "cocô de índio" - e até o índio, principalmente o índio - se necessário for.

Seguimos sempre em crescimento acelerado, seja para construir Belo Monte ou para escalar a curva pandêmica. "O Brasil não pode parar".

Como dizia um velho slogan, "esse é um país que vai pra frente" - e pouco se importa com o que deixa para trás...

"Après nous, le déluge" - Luís XIV bem merecia ser brasileiro.

Urnas funerárias amazônicas - mas há quem confunda patrimônio arqueológico com fezes...

O Brasil segue em chamas

Hoje houve um incêndio de graves proporções no Museu de História Natural da Universidade Federal de Minas Gerais.

Mais perdas irreparáveis de nosso inestimável e inestimado patrimônio paleontológico, arqueológico, etnográfico, botânico, zoológico...

Do pouco que temos, é triste que percamos sempre tanto. Perdemos até o que nem imaginávamos que tínhamos.

Sonhamos baixo e nos contentamos com pouco. Qualquer migalha nos satisfaz.

Para usar o velho ditado, somos como burros contemplando palácios. Pior: somos burros incendiando palácios.

Sempre zelosos com o efêmero, seguimos consumindo o que deveria ser duradouro.

Choramos quando uma catedral arde em Paris, mas pouco nos importa que arda (mais) um museu em nosso próprio solo.

Caminhamos a passos largos para vencer o campeonato mundial da pandemia e dos pandemônios.

Seria fácil, fácil demais, culpar este governo, os anteriores ou os próximos - pois novas perdas, infelizmente, hão de vir.

Somos um povo que se construiu marcando peles a ferro quente. Fogo, brasas e fumaça são nossa herança, nossa sina, nossa marca.

Em muitos sentidos, sentidos demais, literais e figurados, imbricados e superpostos, o Brasil se posiciona na vanguarda da triste arte da ocultação de cadáveres.

Queimar e cremar...

Cremar e queimar...

Passado, presente, futuro: carvão, fuligem, cinzas.

Noite ou dia, o fogo nunca se apaga.


quarta-feira, 10 de junho de 2020

Super-heróis: a verdade

"Os designers de moda sempre foram fascinados com a ideia de como as roupas podem transformar o corpo de uma pessoa, e ainda seu caráter ao mesmo tempo. Na ficção, essa metamorfose faz parte do universo dos super-heróis, onde um personagem simboliza o desejo do homem de ir além dos limites mortais. Neste contexto, a capacidade de realização do super-herói é sempre expressa na mudança de seu traje".
Giorgio Armani

"Super-heróis são de propriedade de grandes corporações. São entidades puramente comerciais; eles são feitos para dar um dinheirinho. Isso não quer dizer que tenha havido algumas criações maravilhosas no curso da história. Mas compara-los com os deuses é desprezível. É possível ter comparações óbvias, como dizer que o Flash parece um pouco com Hermes, ainda mais o herói da Era de Ouro, que tem asas em seu capacete. Também o Falcão da Noite parece um pouco com Horus, porque também tem uma cabeça de falcão. Mas isso acontece porque seus criadores tomaram estes temas como inspiração".
Alan Moore



"Será que foi bom?" - Dilemas indígenas

"Eu pensava que era ruim amansar, mas agora vi que é bom. Será que foi bom? Uau, uma máquina grande meus filhos conseguiram! Ficam lá trabalhando, sem dormir, pensando de noite [em comboiar a madeira] quando vem a chuva. Será que são mesmo Matsés? Meus filhos ficam com sono, vão se molhar na chuva grande que vai até amanhecer. Meus filhos trabalham muito! Uau, conseguiram um motor grande! Conseguiram uma máquina grande depois de conseguir dinheiro".

Trecho de relato de um idoso da etnia indígena Matsés (Vale do Javari) registrado em 1992 pelo antropólogo Walter Coutinho. Grifos meus.


terça-feira, 9 de junho de 2020

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Careta, Mutreta e a penúria brasileira

Adaptado de uma conversa no WhatsApp; dedicado à prima Leilane e aos amigos Tiago e Vinicius, batalhadores do magistério
Então, prima, a epopeia de Careta e Mutreta é uma história anterior ao meu nascimento... Foi numa das primeiras escolas em que minha mãe trabalhou, lá pelas bandas da Zona Oeste, por volta de 1972.

Certa vez minha avó foi se encontrar com minha mãe na porta da escola, pois de lá iriam resolver alguma coisa. Enquanto esperava a hora da saída, minha avó ficou na calçada conversando com uma das mães de alunos, uma conversa bem agradável.

Quando as crianças começaram a sair da escola, minha avó se despediu e perguntou à interlocutora qual era o nome de seus filhos, para depois checar se eram alunos de minha mãe. Então a senhora respondeu algo assim:

"Ih, minha senhora, lá em casa só quem sabe o nome das crianças é o meu marido. Eu só sei os apelidos. Os dois mais novinhos são Careta e Mutreta!"

"Careta e Mutreta", para quem não lembra, era um desenho animado dos estúdios Hannah-Barbera, protagonizado por um abutre e uma cobra, na mesma linha de Tom, Jerry, Coiote, Papa-Léguas, entre tantos outros, em que um predador se dá mal tentando capturar uma presa.

Os meninos não eram alunos de minha mãe, mas ela foi se informar com as colegas e acabou descobrindo que eram irmãos gêmeos, com nomes compostos e parecidos, algo como João Pedro e João Paulo - em família, Careta e Mutreta.

É um caso extremo, mas professores e funcionários encontram várias situações semelhantes nas escolas municipais. Pais que não sabem a turma dos filhos ou a série escolar são o trivial. Mas também é muito comum chegarem pais que não sabem de cor a data de nascimento ou o nome todo dos filhos. Já presenciei um pai que não sabia dizer o nome do "Carlinhos", até que a filha mais velha, que o acompanhava, se recordou - com algum esforço - que o irmão se chamava Carlos Alberto (ao menos nos registros civis).

Enfim, essas situações são um retrato da nossa população: pouco letrada, sem muita preocupação com o universo das formalidades institucionais e da documentação escrita. Marcas de nossa formação social. Por sinal, é muito sintomático que a mãe dos gêmeos se lembrasse mais dos apelidos associados à televisão, que então se expandia no Brasil, que dos nomes registrados na certidão de nascimento. Ainda hoje sentimos os estranhos efeitos do atabalhoado ingresso de uma sociedade parcamente letrada no mundo das comunicações de massa.

Quanto à "lenda de Careta e Mutreta", o ideal era ouvir minha avó e minha mãe contando a história juntas - minha esposa e minha tia são testemunhas. Infelizmente minha avó não está mais entre nós, então quem viu, viu...
Careta, o abutre e Mutreta, a cobra; ou o contrário.

"No Brasil as coisas aparentemente funcionam para darem errado. Consequentemente, se dá certo é porque algo saiu errado. E se deu errado então está tudo certo".
Roger Marques

sexta-feira, 5 de junho de 2020

"Caráter discutível"

Caráter discutível todos temos. O problema está nas pessoas com caráter "indiscutível". Como diz meu psiquiatra, os únicos seres humanos absolutamente isentos de contradições são os sociopatas. Estes sabem o que querem e fazem qualquer coisa para obter, sem a menor sombra de escrúpulos. Ao resto de nós, cabe caminhar na corda bamba de nossas consciências.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Das curvas

Os vales quase sempre importam mais que os picos. No fim das contas, a vida se resume sempre a escapar da pior hipótese - a melhor das hipóteses quase nunca se concretiza. Contar com a sorte é típico dos tolos.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Imprensa, liberdade e responsabilidade

"A imprensa é uma grande força, mas, assim como uma torrente descontrolada de água submerge paisagens inteiras e devasta plantações, assim também uma pena descontrolada só serve para destruir. Se o controle for exterior, ele se torna mais venenoso que a falta de controle. Só pode ser vantajoso se exercido internamente. Se essa linha de raciocínio for correta, quantos jornais do mundo passariam pelo teste? Mas quem poria fim aos inúteis? E quem deveria ser o juiz? Os úteis e os inúteis, assim como o bem e o mal de forma geral, precisam continuar a existir juntos, e o ser humano precisa fazer sua escolha".
Gandhi

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Cansaço político

Há alguns meses li uma reportagem onde uma senhora americana se dizia cansada de Trump, que ela só desejava encostar a cabeça no travesseiro e descansar sem pensar na próxima bobagem que o presidente vai aprontar. Me identifiquei totalmente com essa fala...

Pandemia na Vila do Chaves

Seu Madruga
Ficou em casa, pedindo delivery da venda na conta da Dona Florinda.

Chiquinha
Fugiu pela janela, mas só pegou catapora.

Seu Barriga
Como tem um coração imenso, suspendeu a cobrança do aluguel durante a quarentena.

Chaves
Internado por COVID-19, mas feliz: no hospital tem desjejum, almoço, lanche, jantar e ceia garantidos, todo dia.

Dona Florinda
Abriu o restaurante, porque a economia não pode parar. Tomou cloroquina e teve um piripaque colateral.

Quico
Em isolamento domiciliar com COVID-19.

Professor Girafales
"Não me passa isso, moleque!"

Dona Clotilde
Ficou em casa com Satanás.

Jaiminho
Evitou a fadiga e chegou atrasado para a pandemia...

Dona Neves
Já saiu da Gripe Espanhola imunizada contra tudo e contra todos, de pandemias a senhorios.

Godinez
"Quarentena? Que quarentena?!"



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