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sábado, 16 de maio de 2020

"Por que não serei candidato a prefeito do Rio"

A versão de Freixo, segundo a newsletter do deputado federal, que assino; cada um interprete como queira:

Olá,
Tudo bem?

Depois das duas catástrofes que se abateram sobre o Brasil, Bolsonaro e a pandemia, não podemos pensar como pensávamos antes, nem agir como agíamos antes.

Estamos enfrentando um dos maiores ataques da nossa história à democracia e à vida dos brasileiros. Bolsonaro se comporta como um aspirante a ditador que usa ilegalmente o cargo mais importante do País para alimentar uma guerra à democracia. Seu projeto de poder autoritário está retirando direitos e destruindo a dignidade do povo brasileiro com uma voracidade inédita.

Diante destes ataques, agravados pela ação genocida do presidente em meio à pandemia, a urgência da luta em defesa da vida e da democracia se impõe como um dever ante a realização dos nossos projetos pessoais. Por isso, decido sacrificar o meu desejo de disputar novamente a prefeitura do Rio de Janeiro para dedicar todos os meus esforços à construção de uma frente ampla que una nacionalmente o campo democrático no enfrentamento ao fascismo.

Não é fácil abrir mão da minha candidatura, tanto do ponto de vista pessoal quanto político. Mas a escolha se faz necessária para que, em vez de cuidar exclusivamente da minha campanha, eu possa trabalhar pela formação dessa aliança nas eleições municipais deste ano, tanto no Rio de Janeiro, cidade tão desigual e assolada pelo crime organizado e pela associação entre milícias e política, quanto em outras capitais do país. Assumo esse compromisso porque entendo que o pleito de 2020 será um passo decisivo para criarmos pontes, acumularmos forças, amadurecermos um novo projeto de Brasil e derrotarmos o bolsonarismo em 2022.

Além de me dedicar a essa articulação nacional em prol da unidade do campo democrático antifascista, seguirei enfrentando as duras, porém necessárias, batalhas que estamos travando no Congresso Nacional, onde obtivemos vitórias relevantes. Nós aprovamos a renda básica emergencial, garantindo R$ 600 para socorrer os brasileiros na crise quando o governo queria pagar apenas R$ 200; barramos a destruição da legislação que impede o acesso indiscriminado de armas e munições e derrotamos a excludente de ilicitude.

Foram conquistas importantes, porém insuficientes, na Câmara dos Deputados contra a agenda autoritária e violenta do governo Bolsonaro. Diante disso, é fundamental a minha permanência nesta trincheira de lutas que se torna ainda mais necessária diante das consequências da aliança entre o centrão e o governo, que passará a ter uma tropa de choque para seu projeto autoritário e genocida.

Não estamos diante de uma eleição como as outras. O desafio diante de nós é a própria sobrevivência das pessoas e da democracia. Não faz nenhum sentido, nesse momento dramático, pensar apenas em nossos projetos pessoais, em nossos partidos, valorizando nossas divergências. Quem for anti-fascista, hoje, é meu irmão, minha irmã. Chegou a hora de termos grandeza: ou demonstramos desprendimento e capacidade de diálogo, já, ou mereceremos o pior julgamento da história, por não nos unirmos para impedir a destruição da democracia e da vida do povo brasileiro.

Abraços,
Marcelo Freixo

Profil de l'historien chez lui à 36 ans

Fotografia digital feita pela esposa durante a quarentena pandêmica (2020).

Que diria Lavater?

Sobre a desistência eleitoral de Freixo

Acabo de receber a notícia de que Marcelo Freixo desistiu de sua candidatura à prefeitura do Rio em 2020.

Sou eleitor de Freixo, mas não me considero militante. Muito pelo contrário, na condição de cidadão, me vejo no dever de criticar rigorosa e abertamente o político que elegi, sempre que julgar necessário. Não boto a mão no fogo por político ou partido algum e não ofereço apoio incondicional a nenhum deles - tenho isso por imperativo republicano e democrático.

Assim sendo, a presente desistência me parece uma ótima notícia.

Em primeiro lugar, porque estou muito satisfeito com sua atuação como deputado federal, tanto pelo modo parcimonioso e sensato com que vem se posicionando nesses tempos de insensatez como em sua atuação na comissão parlamentar que fez a revisão do "Pacote Anticrime", conseguindo remover ou atenuar alguns dos itens mais nocivos da proposta original - uma pequena vitória, mas importante nesse contexto. Mais uma vez Freixo provou sua eficácia em dialogar e articular, mesmo em condições desvantajosas - um bom exemplo da política enquanto "arte do possível". Considero útil que ele permaneça no Congresso.

De resto, a ideia de uma terceira candidatura como prefeito nunca me agradou. Me parecia um grave erro de cálculo político, pois o contexto ser-lhe-ia muito desfavorável e a experiência pouco agregaria à sua carreira pública.

A situação ficou ainda pior quando começou a se alinhavar uma coligação com o PT, trazendo Benedita como vice. Tanto PT quanto Benedita possuem elevados índices de rejeição - sem contar com o passado de Benedita como vice de Garotinho e sua lastimável atuação no período em que assumiu o governo do Rio. Em tais condições eu sequer votaria em Freixo num eventual primeiro turno.

Semelhante candidatura seria erro comparável ao que foi a atropelada articulação da candidatura de Boulos à presidência em 2018, um grave equívoco, a meu ver, como já apontei em outras oportunidades.

Todavia, há que se refletir sobre as circunstâncias da desistência em questão. Segundo soube, Freixo recuou diante da resistência de setores do PSOL (partido muito fragmentado, como se sabe) em fazer semelhante aliança. A candidatura de Boulos também gerara grande atrito interno no partido.

Por um lado, fica patente o equívoco daqueles que teimam, por ignorância ou malícia,  em rotular o PSOL como "puxadinho do PT". Muito pelo contrário, o PSOL se formou como dissidência justamente no momento em que se realizava a tão sonhada eleição de Lula, diante dos desacertos que se desenhavam ainda no primeiro mandato petista. O PSOL se constituía então como crítica aos temerários "pactos de governabilidade" e ao crescente fisiologismo da burocracia petista.

Durante todo o período do PT na presidência o PSOL se apresentava como "oposição de esquerda", nunca integrou a base governista ou fez coligação eleitoral com o PT. Muito pelo contrário, o PSOL era constantemente acusado por petistas e simpatizantes de ser "a esquerda que a direita gosta". Nesse sentido, é muito emblemática a trajetória de Chico Alencar no PSOL.

Essa postura só começou a mudar em setores do PSOL a partir do impeachment de Dilma e da crescente polarização política que então se acentuava. Nesse clima de "nós contra eles" uma perigosa aproximação começou a se esboçar e se reforçou ainda mais nas acaloradas eleições de 2018. Aproximação perigosa tanto pela força do antipetismo quanto pela tendência da burocracia e da militância petistas em desejar vassalos, e não aliados.

Concluindo, a notícia de hoje me satisfaz por saber que ainda resta algum vigor e brio dentro do PSOL, mas me entristece saber que Freixo tomou essa decisão mais por pressão partidária que por iniciativa própria.

Enfim, torço para que Freixo continue em sua excelente atuação parlamentar e espero que este seja o ponto final desse inapropriado e embaraçoso flerte com o PT.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Das alternativas a Bolsonaro

"Todo mundo fala em derrubar o Bolsonaro, mas para fazer o que exatamente? Para voltar o lulismo? Para voltar aquela política de ampla conciliação de classes da esquerda petista? Para voltar a aquelas alianças com as forças do atraso? As forças democráticas têm que apresentar um programa que seduza a população. A população hoje está aí encurralada com a pandemia, mas mesmo assim é impressionante como Bolsonaro mantém 30% de apoio da população. Você tem que apresentar uma alternativa. Tudo bem, é preciso denunciar o Bolsonaro, mas o que é que a gente tem a dizer de novo, de alternativo?"
Daniel Aarão Reis, em excelente entrevista


quarta-feira, 13 de maio de 2020

“Now we must redefine tool, redefine Man, or accept chimpanzees as humans.”

Louis Leakey sobre as primeiras observações de uso de ferramentas por chimpanzés, realizadas por Jane Goodall

sábado, 9 de maio de 2020

O "Fenômeno Bolsonaro" - Mais complexo que parece

Breves comentários sobre a análise de um sociólogo acerca da eleição de Bolsonaro - que seria, segundo o autor, uma expressão do racismo, machismo e homofobia recalcados (sensu Freud) do "brasileiro médio".

Achei o texto interessante sob alguns aspectos, mas ao mesmo tempo acho que faz algumas generalizações bastante problemáticas, a começar pela ideia de "brasileiro médio" - que não existe. Abordagens centradas no "fulano médio" tendem sempre ao abstrato e nos afastam da realidade. O "Fenômeno Bolsonaro" me parece muito mais complexo que isso. 

Além disso, o autor faz uma análise estática demais para meu gosto. Há que se explorar com muito mais detalhes as dinâmicas políticas, sociais, econômicas e culturais brasileiras nos últimos 30 ou 20 anos para compreender melhor isso.

Não me parece que tudo se resuma a essa "psicologia de massas" pseudo-freudiana. Do ponto de vista cultural, há que se levar em conta a convergência de paternalismo e messianismo, sempre latente em nossa cultura política, que vez por outra é captada por algum político carismático (Vargas e Lula são apenas 2 exemplos disso). 

Também há que se tomar em consideração o projeto lulista de inclusão social via consumo, que entrou em colapso junto com a economia em 2014, gerando uma tremenda onda de frustração entre seus próprios beneficiários. Muitas pessoas cujos padrões de vida haviam melhorado, tant bien que mal, durante as primeiras gestões do PT se ressentiram profundamente da recessão econômica cujos sinais começaram a se anunciar ainda no primeiro mandato de Dilma. A estagnação ou piora dos padrões de consumo da "nova classe média" alimentaram uma onda de insatisfação popular que viabilizou o impeachment de 2016 e a ânsia por um novo "salvador da pátria".

Também precisa se levar em conta a irresponsabilidade política de PT, PSDB e PMDB, cujas lutas eleitoreiras e dúbios pactos de governabilidade conduziram tanto ao descrédito da democracia constitucional quanto à aguda polarização política - fenômenos que, ambos, geraram o vácuo de poder e o ambiente venenoso onde o bolsonarismo pôde prosperar. O impacto da Lava-Jato sobre o imaginário político tampouco pode ser menosprezado. 

O mesmo se diga dos bizarros desdobramentos de 2013, que começou como um movimento da esquerda "bastarda" (desacreditada pelo PT e opositora de alguns de seus aliados, como Sérgio Cabral), e acabou gerando subprodutos como MBL e congêneres - militâncias digitais ultraliberais ou ultraconservadoras que se fortaleceram com a mobilização pró-impeachment de 2016. Entre as "Jornadas de Junho" de 2013 e a controversa Copa de 2014 nasceram as militâncias com camisas da CBF e bandeira nacional cujo beneficiário inicial foi Aécio Neves nas eleições de 2014, mas foram posteriormente cooptadas por Bolsonaro.

Também se faz necessário pensar na explosão neopentecostal dos anos 80 e 90 e seus desdobramentos políticos, em boa medida encorajados pelo PT (Magno Malta - "fiel" apoiador de Lula, Dilma, Temer e, finalmente, Bolsonaro - é uma figura muito emblemática, nesse sentido). O PT apoiou partidos e lideranças evangélicas de credenciais mais que dúbias durante anos, alimentando outro dos afluentes que finalmente desembocou no amplo apoio a Bolsonaro por parte de organizações religiosas politicamente aparelhadas e formadoras de um eleitorado fiel às orientações, explícitas ou veladas, vindas do púlpito.

O lamentável episódio do atentado em Juiz de Fora também não pode ser menosprezado - muita gente se alinhou a Bolsonaro na esteira da comoção gerada pela facada. Vi mais de uma pessoa se convencer a votar em Bolsonaro por acreditar que a facada era uma desesperada tentativa do "istablichem" de matar o único homem incorruptível que podia ameaçá-lo. Para muitos, a facada converteu Bolsonaro numa espécie de "mártir da Pátria". Por sinal, o episódio sempre é lembrado pelo séquito presidencial em momentos de crise, reativando e mobilizando essa memória conforme as necessidades e conveniências.

Em suma, o tema é muito complexo; a esquerda precisa encarar a realidade e parar de requentar as velhas teses (em parte verdadeiras) de que tudo se resume a uma reação da dita "classe mérdia" racista, machista, homofóbica e "pobrofóbica" que não aceitou ver pobre em aeroporto, negro na universidade etc. Essas pessoas e atitudes existem, mas acho um equívoco dizer que esse seria o "brasileiro médio" e que o "Fenômeno Bolsonaro" seria mero reflexo disso.

Nossa paisagem política sempre tende mais às engenhosas ilusões de Escher que à pureza neoclássica.

"Dia e Noite" (1938), de Escher

Crossover: "Barão de Itararé encontra o Surfista Prateado!"



Trechos da HQ "Parábola", estrelada pelo Surfista Prateado, escrita por Stan Lee e desenhada por Moebius.
Dedico essa estranha colagem aos amigos Ana Delmas e Roger Marques, que me enviaram respectivamente a citação e os quadrinhos.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Roman way of life

Trecho de um curiosa - e um tanto grotesca - matéria do interessantíssimo site Sapiens.

"Ao que podemos deduzir dos dados históricos e arqueológicos, os antigos romanos urinavam em pequenos jarros em suas casas, escritórios e lojas. Quando esses pequenos jarros ficavam cheios, eles os vertiam em grandes jarros na rua. Assim como com seu lixo, uma equipe vinha uma vez por semana para coletar aqueles pesados jarros de urina e leva-los à lavanderia. Por quê? Porque os antigos romanos lavavam suas togas e túnicas em urina! A urina humana é rica em amônia e outros químicos que são excelentes detergentes naturais. Se você trabalhasse em uma lavanderia romana, seu trabalho seria pisar em roupas o dia inteiro - descalço e afundado até o tornozelo em colossais bacias de urina humana".

"Me engana, que eu gosto"


segunda-feira, 4 de maio de 2020

"Nintendo - Finalmente no Brasil"

Me recordo que o "lançamento" de Starfox no Brasil foi num anúncio bem longo num domingo, durante o Fantástico - anúncio este antecipado por inúmeros teasers durante a semana. 

Eu tinha 8 ou 9 anos à época e me recordo de ter ficado "siderado" pelos então impressionantes gráficos 3D. Nunca tive oportunidade de jogar o game - apenas sua sequência infinitamente melhor para o N64 - mas o anúncio me marcou indelevelmente. Era, com efeito, o arauto de uma nova era.

Era a época áurea das revistas de games, que lotavam as bancas e juntavam a garotada no pátio de minha escola ou nas calçadas de minha vila. Hoje, graças à Internet, os títulos são raros, e as tiragens, minúsculas.

Outros tempos.

Revista do acervo pessoal do amigo Roger Marques.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Ruy Fausto - Uma perda

Acabo de receber a notícia de que hoje perdemos um grande acadêmico e intelectual brasileiro, o filósofo Ruy Fausto, aos 85 anos.

Nos últimos dois anos mantivemos correspondência por e-mail e tive oportunidade de vê-lo pessoalmente uma vez.

Para além da impressionante erudição e da argúcia intelectual patentes em seus escritos, era um cavalheiro muito cortês, cordial, afável e espirituoso.

Em tempos de polarização e fanatismo, Ruy era uma das poucas vozes lúcidas, sensatas e críticas na esquerda brasileira.

Ruy nos deixa de forma muito poética, tocando piano em sua casa, no Dia dos Trabalhadores.

Que seu legado se mantenha vivo entre nós e que as sementes que plantou possam germinar, florescer e frutificar.


quinta-feira, 30 de abril de 2020

Epitáfios Pandêmicos

ROBERTO WALDEN
1978-2020
Escritor, servidor, pai
Deixa saudades e uma criança órfã
"Apenas uma gripezinha"

NEYMAR DE JESUS
1935-2020
Peladeiro aposentado;
Histórico de atleta

IRENE MARQUES
1950-2020
Avó, eleitora
"Resfriadinho"

CLOROQUINA NEVES
1964-2020
Uma vida de fantasias
Deixa admiradores

HELENA REIS
1972-2020
Enfemeira, esposa e mãe
"E daí?"

EDSON TOMAZ
1985-2020
Apenas mais um desempregado
Não era coveiro

SÉRGIO MORAIS
1968-2020
Magistrado
Caiu atirando

Inspirado por e dedicado ao Sr. R.W.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

"Cunhambebe Boladão"

"Eu sou uma onça, tá ligado, mano?" - Célebre resposta de Cunhambe Boladão para o Alemão. (Apud STADEN, Hans. História de um rolé canibal na quebrada conhecida como Brasil. Marburg: Komisch Verlag, 1557).

O espectro de Duchamp ronda a Internet.

Brasil escalando a curva


Uma inventiva síntese de nossos tristes tempos.
A aparente ausência de critérios já é, muitas vezes, um critério.