quarta-feira, 29 de abril de 2020
terça-feira, 28 de abril de 2020
Os insensatos do Brasil
Não há palavras que definam meu nojo quando vejo um velho jornalista afirmar quase rindo que é muito natural um presidente da República nomear como diretor-geral da Polícia Federal uma pessoa que passou o Revéillon com um de seus filhos.
Isso é escarrar na impessoalidade da gestão republicana e zombar dos princípios constitucionais - nem PSDB, PT ou PMDB em seus piores momentos ousaram fazer algo assim. É uma imoralidade sem tamanho e uma ousadia lamentável.
Se essa é a tal "nova política" que Bolsonaro tanto prometia, é muito pior que a "velha política" que ele tanto critica - da boca para fora, depois de três décadas mamando em suas tetas e aconchegando os filhos para mamar nas mesmas. Essa política é nova, mas fede como um velho cadáver em avançado estágio de putrefação.
Apenas mais uma demonstração, entre tantas, de que nosso farisaico presidente é um sepulcro caiado, repleto de podridão. Se o dito jornalista acha isso muito "natural", sinto informar que a moralidade dele não está à altura da cidadania democrática e republicana.
É triste ver o circo pegando fogo e as pessoas cegas a isso - cegas simplesmente porque se recusam a enxergar aquilo que é cada vez mais óbvio e evidente; como diz o provérbio, o pior cego é aquele que não quer ver.
Realmente é mais fácil enganar uma pessoa que depois mostrar a ela que foi enganada. Aquele que compra gato por lebre, confrontado pela realidade, sustentará candidamente que todas as lebres miam. Prefere acatar as mentiras mais servis a admitir seu equívoco. Ocultará como puder sua frustração e até encontrará pífios argumentos para forjar para si mesmo a ilusão de satisfação.
Eu diria ainda mais: o pior surdo é aquele que só ouve o que quer - infelizmente é assim que se comportam todas as militâncias políticas, tanto a de Lula quanto aquela de Bolsonaro. Ouvirão apenas o canto de suas sereias prediletas e ainda se rejubilarão durante o afogamento. Encontrarão justificativas para todos os defeitos de seus líderes e culpados para todos os seus erros, abusos e desmandos, mesmo os mais óbvios e até os mais graves. Buscarão méritos duvidosos para encobrir os deméritos mais flagrantes. Catarão virtudes em migalhas para satisfazer sua fome de justificação. Laboriosamente encontrarão uma agulha de lucidez num palheiro de desatinos - ou tomarão por agulha a primeira palha que encontrarem. Comprarão caro as mais baratas falácias.
O militante fanático curvará o próprio intelecto até o solo e será capaz de degustar fezes jurando ser caviar. Porá a mão no fogo até que arda conpletamente em chamas e caia carbonizada ao chão. Se agarrá ao mastro do navio mesmo quando o naufrágio é mais que evidente. Mutilará sua consciência até a mais absoluta desfiguração. Chafurdará na lama como quem nada em águas límpidas. Venderá sua voz pelas mais ínfimas esmolas.
É terrível ver nosso país cercado e acossado por duas hordas de cegos fanáticos que se deixam conduzir por seus cegos líderes até o abismo. Infeliz é o cidadão que se entrega fervorosa e incondicionalmente nas mãos de qualquer tipo de líder e o segue passivamente como uma ovelha até o matadouro.
A sensatez parece ter abandonado o Brasil e não mostra desejos de retornar...
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| "A parábola dos cegos" (1568), pintura de Pieter Bruegel. |
segunda-feira, 27 de abril de 2020
Velhos experimentos
Por sinal, a grande vantagem de trabalhar com um programa obsoleto é que a capacidade de processamento dos meus computadores atuais é infinitamente superior; jamais conseguiria renderizar esse curta com os hardwares de que dispunha doze anos atrás. A exemplo de Carlos Gardel, meu velho Bryce roda a cada dia melhor...
Bryce é ainda melhor para produção de imagens estáticas. Em minha época de estágio no CAP-UERJ produzi um zigurate e um templo grego que deixaram a molecada em êxtase. Estão perdidos em algum velho DVD aqui em casa. Seguem outras brincadeiras mais recentes... Aprecio particularmente criar paisagens pitorescas, exóticas ou fantásticas - a computação gráfica 3D oferece certo prazer demiúrgico difícil de aquilatar.
Como diziam os antigos gregos, a vida é curta e a arte é eterna... Só gostaria de ser um bom artista!!!
domingo, 26 de abril de 2020
Mas o PT?
Há mais de meia década perdi toda minha paciência com o PT, sua cúpula e sua militância, mas nesse exato momento preferiria muito mais poder descer a lenha em alguém com um mínimo de razoabilidade, como Fernando Haddad. Em suma, não me arrependo de ter votado no malsinado 13 no segundo turno de 2018. Infelizmente a polarização de parte a parte nos empurrou para um delírio eleitoral cujas consequências ainda amargaremos por longo tempo...
Space Monkeys
Para mim, games são uma das melhores fugas da realidade. Como diria Tolkien, não a fuga do desertor que evita a luta, mas aquela do prisioneiro que deseja, ao menos por instantes, respirar alguma liberdade.
Nas últimas semanas peguei o Nintendo 3DS que andava há meses esquecido e resolvi mergulhar em suas janelas virtuais. Restava escolher um título.
Optei por Star Fox 64 3D, remake do clássico de 1997. Pilotar naves espaciais pelo sistema estelar Lylat - nada mal para tempos de confinamento.
Nenhum reencontro com um grande clássico, qualquer que seja a mídia, é igual ao anterior. Não poderia ser diferente com uma das obras-primas de Miyamoto Sensei. Jogar Star Fox em tempos de pandemia se mostrou uma experiência única.
O jogo é um bizarro e divertido pastiche de Star Wars, combinado a elementos cartunescos, marionetes bunraku e pinceladas de espiritualidade xinto. Reza a lenda que a inspiração para o tema veio de um santuário em Tóquio dedicado a Inari, divindade associada a raposas e por vezes representada sob a forma do animal.
Deste modo, o jogo encena as aventuras do mercenário e piloto espacial Fox McCloud. Todos os personagens são antropozoomórficos, cartunescos e se movimentam como marionetes. Os diálogos são deliberadamente exagerados, com uma gravidade propriamente burlesca, sem jamais perturbar o acelerado ritmo da aventura, mantendo um delicado e virtuoso equilíbrio entre epopeia e comédia. É um game que se faz sério ao rir ininterruptamente de si mesmo - como apenas Miyamoto consegue fazer e nenhuma continuação da franquia soube emular.
Mas nesse período pandêmico quem capturou minha atenção foi o vilão, Andross, um macaco albino que remete ao macaco-da-neve nativo das montanhas japonesas. Seus capangas retratados ao longo do game possuem forma símia ou reptiliana - com maior destaque para os símios. De certo modo, a escolha de personagens primatas causa um curto circuito na caracterização antropozoomórfica - afinal de contas, a morfologia original dos macacos já é demasiadamente humana, deixando de causar a mesma estranheza que raposas, pavões, sapos, lebres e outros animais humanizados.
O próprio nome "Andross" é muito significativo, remetendo muito obviamente ao grego andrós, genitivo para adultos masculinos e radical de muitas palavras nas línguas modernas. Longe de ser nome "found in translation", cabe lembrar que o jogo foi desde o início uma produção nipo-britânica, em parceria com a Argonaut Software, então cooptada pela Nintendo por seus significativos avanços na área de computação gráfica 3D. Com efeito, os nomes dos personagens foram originalmente pensados em inglês e apenas depois transliterados para o japonês - transformando o vilão em "Andorufu" na versão japonesa.
Para além disso, a participação de Andross na trama também se mostra demasiadamente humana. O macaco é um cientista maluco, cujos "evil experiments" levam ao seu banimento do luxuriante, dadivoso e utópico planeta Corneria para um exílio forçado em Venom (muito sugestivamente "Veneno"), um planeta vulcânico descrito como "a barren wasteland" na abertura do jogo.
Em Venom, Andross retoma seus macabros experimentos e constroi uma pesada infraestrutura industrial, preparando-se para uma guerra de conquista que poria todo o sistema de Lylat sob seu controle.
Andross não mostra qualquer respeito à Vida, sendo retratado como um impenitente poluidor, o que fica particularmente evidente na "missão" executada no planeta Zonness, cujas águas foram completamente contaminadas por substâncias tóxicas.
Produzido em meados dos anos 90, Star Fox 64 é bem característico de seu tempo. Na época que testemunhou a inesquecível conferência Eco 92 no Rio abundavam fantasias e alegorias infantojuvenis com temática ecológica, a exemplo da animação Capitão Planeta, que fez tremendo sucesso em vários países e da sofisticada e premiadíssima animação Princesa Mononoke, do mestre Hayao Miyazaki, igualmente lançada em 1997.
A belíssima película de Miyazaki, situada em um Japão atemporal, retrata a guerra entre os seres naturais e sobrenaturais da floresta e os humanos da vizinha refinaria metalúrgica. Sem apelar para maniqueísmo ou pieguice, os humanos da refinaria são desclassificados, prostitutas e leprosos arrebanhados pela empreendedora Eboshi-Sama, que lhes proporciona uma vida digna com o suor de seus rostos. Eboshi é pertinaz e intransigente, mas dificilmente uma vilã. Os seres da floresta, a seu turno são variados e conduzem, cada um a seu modo, a guerrilha contra os humanos que invadem e depredam seu espaço. Sen, a brutal e encantadora "Princesa Mononoke" do título, é uma jovem criada por lobos.
Entre as criaturas da floresta se encontram os macacos (mais semelhantes a gorilas que macacos-da-neve), cujos sinistros olhos vermelhos traem uma perversidade que choca aos outros animais. Numa cena memorável, durante uma altercação sobre o destino de um humano desacordado, os honoráveis lobos acusam os símios de perfídia, culminando na gravíssima acusação: "Vocês estão se tornando humanos".
É nesse mesmo limiar entre animalidade e humanidade que encontramos Andross e seus lacaios símios em Star Fox. O que mais me despertou a atenção jogando o título nesses tempos pandêmicos é a obsessão de Andross em criar "bioweapons". Armas químicas e biológicas também estavam na ordem do dia em meados dos 90 - e mais tarde chegaram mesmo a servir de pretexto para a vexaminosa guerra do Iraque. Muitos adeptos de teorias da conspiração hoje também não hesitam em sustentar que o COVID-19 seria uma arma biológica produzida pelo governo chinês - o "chinese virus" ou "Comunavirus".
Jogando no presente contexto pandêmico são ainda mais risíveis as armas biológicas de Andross: em lugar de traiçoeiros microorganismos, o game oferece um elenco de gigantescos monstrengos à Godzilla, que geralmente despertam nos protagonistas uma mistura de indignação, repulsa e compaixão. Matam as inocentes feras artificiais com lágrimas nos olhos, por assim dizer. Em diálogos cujo tom muito lembra a dinâmica dupla Adam West e Burt Ward, os mocinhos se perguntam como Andross ousava fazer tais experimentos.
1997 era logo ali, mas como estamos distantes desse "ecologismo" ingênuo de Star Fox. Mais de duas décadas se passaram, e a catastrofe ambiental se nos mostra muito mais patente - inclusive na pandemia que nos arreganha os dentes. E nós, bichos-primatas como Andross, somos em última análise os "vilões" da trama.
Na abertura do game uma imagem exibe um imenso Andross com expressão gulosa, com ambas mãos estendidas sobre o planeta Corneria, cuja aparência muito lembra a própria Terra. Soa e ressoa familiar.
Como a película de Miyazaki, o game de Miyamoto opõe as forças da "humanidade" e da "natureza", respectivamente representadas pelo antropoide Andross e pelo quarteto de protagonistas - uma raposa, um pavão, um sapo e uma lebre (animais com forte importância no folclore japonês ou na religiosidade xinto).
Essa oposição se desdobra igualmente entre duas polaridades, no binômio Corneria-Venom, implícita no próprio desenrolar da trama; independentemente do trajeto selecionado pelo usuário, o jogo sempre começa com a defesa de Corneria e termina pela tomada de Venom.
Corneria (que provavelmente deriva de "corn") é uma utopia sustentável, onde uma futurista megalópole se integra harmoniosamente ao litoral e à floresta circundantes. A resistência corneriana é organizada pelo General Pepper - um cão, o animal doméstico mais próximo do ser humano.
Pepper, o cão, é uma benigna figura de autoridade, e é também o inimigo mais odiado por Andross. Na abertura, a narrativa do banimento do primata é representada por uma imagem onde metade do rosto Andross se situa em primeiro plano, à esquerda da tela, com expressão raivosa, enquanto Pepper figura da cintura para cima, com o dedo em riste, em segundo plano, à direita.
Desde o nome de Corneria à liderança canina, tudo nos remete ao universo da agricultura e da domesticação, a uma integração benigna entre natureza e engenho humano.
No polo oposto temos o peçonhento planeta Venom, de natureza hostil e estéril, mas sede do império industrial de Andross. Curiosamente, no entanto, a base do maligno Andross e cenário do confronto final não é uma futurista planta industrial, mas um arcaico e sinistro templo decorado com estátuas e relevos simiescos - um estranho contraste entre arcaísmo e modernidade.
Somente jogando nesse contexto pandêmico me dei conta de algo que estava há duas décadas diante de mim. Star Fox 64 (SF 64) compõe uma espécie de díptico com outro projeto de Miyamoto, The Legend of Zelda - Ocarina of Time, lançado em 1998 e desenvolvido simultaneamente a SF 64. Apesar da imensa distância de gênero e temática, ambos games possuem profundas ressonâncias que, imagino, não foram conscientemente trabalhadas por Miyamoto. Apesar do desenvolvimento simultâneo, jamais vi Miyamoto ou quem quer que seja cotejar as duas obras, aparentemente tão dessemelhantes.
Muitos consideram Ocarina of Time (OOT) o melhor game de todos os tempos - é quase uma unanimidade; não subescrevo essa opinião, mas concordo sem hesitar que é a melhor obra de Miyamoto Sensei.
Ao contrário da ambientação sci-fi e futurista, OOT é uma fantasia "euromedieval" situada nas terras de Hyrule. O heroi, Link, é personagem genérico (ao contrário do genioso Fox), mas interessa o vilão, Ganondorf - um inescrupuloso feiticeiro, equivalente medieval do cientista louco Andross. Ambos são figuras que ambicionam conhecimento e poder sem limites (integrando o imenso e inesgotável repertório de figuras ficcionais faustianas).
Apesar da aparência europeia, a cosmologia de Hyrule remete sobretudo ao imaginário xintoísta. O mundo é criação coletiva das "Deusas Douradas", Jynn, Nayru e Farore, respectivamente deidades do Poder, da Sabedoria e da Coragem. OOT é o primeiro game da franquia Zelda em que as três figuram com proeminência. As três são retratadas como figuras etéreas e luminosas, com vaga silhueta antropomórfica, nas cores azul, verde e vermelho - ao contrário de outros games da franquia, onde ganham formas humanas bem definidas. A feminilidade do poder criador em Hyrule bem remete à proeminência da poderosa e graciosa Amaterasu no panteão xinto. Após a criação do mundo, as Deusas Douradas se retiram para o etéreo Reino Sagrado, deixando em sua saída a TriForce, um resíduo de sua potência criadora.
A primeira metade de OOT, na infância de Link, gira em torno das maquinações rasputinescas de Ganondorf para obter a TriForce e dominar o mundo. Indigno do poder divino, a TriForce se esfacela em suas mãos. O feiticeiro captura para si o Poder de Jynn, mas a Sabedoria de Nayru é absorvida pela princesa Zelda e a Coragem de Farore é assimilada pelo herói Link.
Com o Poder adquirido, Ganondorf se instala como um tirano e profana os templos de Hyrule, causando desequilíbrios naturais e transtornando as vidas dos povos (ou "raças" - sic) de Hyrule. As florestas ficam repletas de monstros, o vulcão onde vivem os telúricos goron sai de controle, o território aquático dos zora é congelado, o deserto do povo gerudo é tomado por tenpestades de areia, fantasmas poluem o poço do vilarejo Kakariko e assim por diante. Já adulto, Link inicia uma jornada para matar os monstros que infestam os templos da Floresta, da Água, do Fogo, das Sombras, e do Espírito. Conforme a pureza de cada templo é restaurada, partes do mundo começam a se regenerar, gradativamente conduzindo ao confronto final contra o feiticeiro em sua torre. Após o derradeiro embate, a TriForce é restaurada e o equilíbrio é restabelecido nas terras de Hyrule.
Como se sabe, pureza e rituais de purificação são um dos aspectos centrais da religiosidade xinto em suas múltiplas vertentes, desde as periódicas misogi harai, purificações de efeito temporário, geralmente obtidas nos grandes festivais anuais ou momentos cruciais da vida dos indivíduos, ao constante esforço ascético de misogi shugyo, empreendido por muitos indivíduos e bastante enfatizado entre praticantes de artes marciais. O local privilegiado para os rituais de purificação, obviamente, são os santuários, grandes ou pequenos. Nada mais razoável, portanto, que o heroi Link se apresente como um purificador de santuários ou que a batalha final contra o cientista Andross se trave num arcaico templo.
Com fortes elementos animistas, a religiosidade xintoísta pouco diferencia natureza, "sobrenatureza" e, por incrível que pareça, tecnologia - lugares, seres vivos variados e artefatos podem ser imbuídos de shin, espírito ou ser kami, deidades. Kami, por sinal, é um termo polissêmico que bem pode significar "divindade" como "cabeça" ou "autoridade", a depender dos contextos.
Esses elementos figuram de maneiras variadas na rica cinematografia de Miyazaki. O célebre e simpático Totoro é o espírito de uma centenária canforeira sagrada - um meigo espírito-árvore, enfim. No encantador A viagem de Chihiro, a protagonista se vê transportada a um mundo-outro onde acaba forçada a trabalhar numa casa-de-banhos onde os espíritos vão relaxar. Numa das cenas mais importantes e catárticas da animação, Chihiro atende um espírito imundo, disforme, malcheiroso e repelente. Durante o banho, vão saindo do espírito sujeiras variadas, inclusive objetos claramente identificáveis como lixo produzido por seres humanos. Logo se desencadeia uma violenta torrente de imundície, ao fim da qual se revela que aquele repelente espírito era um rio poluído; límpido, aliviado, revigorado e grato, ele flui vigorosamente para fora da casa de banhos. A alegoria de Miyazaki nos fala tanto sobre a presença vibrante do xintoísmo na cultura nipônica quanto escancara a contradição de um povo que polui a natureza que ele próprio imbui de sacralidade.
Para todos os efeitos, esse é um universo de referências onde poluição natural e poluição ritual eventualmente convergem (nem sempre, nem para todos). Andross, o cientista maluco e Ganondorf, o tenebroso feiticeiro, são faces da mesma moeda. Em Lylat ou Hyrule, cada um polui seu cosmos ficcional, com tecnologia amoral ou com magia sombria.
Não muito curiosamente, por detalhados que sejam ambos universos sob muitos aspectos, deixam a desejar em relação à política. Em SF64 a figura de autoridade benigna é um general, enquanto em OOT se destaca a princesa Zelda. Ambos games parecem interessados em temas ecológicos em suas dimensões científica e sagrada, mas não política.
Não custa lembrar que no encerramento das Olimpíadas de 2016 a Nintendo cedeu seus direitos intelectuais e suas marcas para que o primeiro-ministro Shinzo Abe emergisse em pleno Maracanã de uma verde manilha de esgoto como Mario, protagonista da franquia Nintendo mais famosa no Ocidente. Muita gente achou a cena fofa, engraçada e simpática - conhecendo Abe, ultraconservador nacionalista que flerta com o autoritarismo e sonha com a reconstituição do Japão enquanto potência bélica, me senti nauseado. Antes viesse fantasiado de Andross ou Ganondorf.
Olhando retrospectivamente, a figura de Abe emergindo dos esgotos virtuais me parece quase emblemática, quiçá como um presságio. Eis que agora, graças à terrível pandemia, os Jogos Olímpicos de Tóquio foram adiados para 2021, enquanto o próprio Abe toma medidas polêmicas e controversas no combate ao COVID-19.
Me pego pensando nas admiráveis figuras de Miyamoto e Miyazaki. Quase ausentes nos games do primeiro, as dimensões políticas da vida (inclusive da ecologia) costumam figurar nas animações do segundo, especialmente no mencionado Princesa Mononoke e no pós-apocalíptico Nausicaa do Vale do Vento.
Mais que falar, Miyazaki faz. Numa época em que trabalhadores da animação japonesa recebiam pagamentos miseráveis, se entregou à luta sindical e, mais tarde, fundou com o amigo Isao Takahata o famoso Studio Ghibli, cujos profissionais são valorizados e bem remunerados.
Em meu confinamento, parti para pilotar minha nave em Lylat e agora pouso no Acre, relembrando a célebre frase de Chico Mendes: "Ecologia sem luta de classes é jardinagem". Mesmo não sendo marxista, concordo com a essência da mensagem de Mendes e Miyazaki - não haverá renovação ecológica sem profundas mudanças sociais, econômicas e políticas em nosso mundo. Não enquanto Abes e outros circularem em nossos esgotos.
COVID-19 está aí para provar.
Somente jogando nesse contexto pandêmico me dei conta de algo que estava há duas décadas diante de mim. Star Fox 64 (SF 64) compõe uma espécie de díptico com outro projeto de Miyamoto, The Legend of Zelda - Ocarina of Time, lançado em 1998 e desenvolvido simultaneamente a SF 64. Apesar da imensa distância de gênero e temática, ambos games possuem profundas ressonâncias que, imagino, não foram conscientemente trabalhadas por Miyamoto. Apesar do desenvolvimento simultâneo, jamais vi Miyamoto ou quem quer que seja cotejar as duas obras, aparentemente tão dessemelhantes.
Muitos consideram Ocarina of Time (OOT) o melhor game de todos os tempos - é quase uma unanimidade; não subescrevo essa opinião, mas concordo sem hesitar que é a melhor obra de Miyamoto Sensei.
Ao contrário da ambientação sci-fi e futurista, OOT é uma fantasia "euromedieval" situada nas terras de Hyrule. O heroi, Link, é personagem genérico (ao contrário do genioso Fox), mas interessa o vilão, Ganondorf - um inescrupuloso feiticeiro, equivalente medieval do cientista louco Andross. Ambos são figuras que ambicionam conhecimento e poder sem limites (integrando o imenso e inesgotável repertório de figuras ficcionais faustianas).
Apesar da aparência europeia, a cosmologia de Hyrule remete sobretudo ao imaginário xintoísta. O mundo é criação coletiva das "Deusas Douradas", Jynn, Nayru e Farore, respectivamente deidades do Poder, da Sabedoria e da Coragem. OOT é o primeiro game da franquia Zelda em que as três figuram com proeminência. As três são retratadas como figuras etéreas e luminosas, com vaga silhueta antropomórfica, nas cores azul, verde e vermelho - ao contrário de outros games da franquia, onde ganham formas humanas bem definidas. A feminilidade do poder criador em Hyrule bem remete à proeminência da poderosa e graciosa Amaterasu no panteão xinto. Após a criação do mundo, as Deusas Douradas se retiram para o etéreo Reino Sagrado, deixando em sua saída a TriForce, um resíduo de sua potência criadora.
A primeira metade de OOT, na infância de Link, gira em torno das maquinações rasputinescas de Ganondorf para obter a TriForce e dominar o mundo. Indigno do poder divino, a TriForce se esfacela em suas mãos. O feiticeiro captura para si o Poder de Jynn, mas a Sabedoria de Nayru é absorvida pela princesa Zelda e a Coragem de Farore é assimilada pelo herói Link.
Com o Poder adquirido, Ganondorf se instala como um tirano e profana os templos de Hyrule, causando desequilíbrios naturais e transtornando as vidas dos povos (ou "raças" - sic) de Hyrule. As florestas ficam repletas de monstros, o vulcão onde vivem os telúricos goron sai de controle, o território aquático dos zora é congelado, o deserto do povo gerudo é tomado por tenpestades de areia, fantasmas poluem o poço do vilarejo Kakariko e assim por diante. Já adulto, Link inicia uma jornada para matar os monstros que infestam os templos da Floresta, da Água, do Fogo, das Sombras, e do Espírito. Conforme a pureza de cada templo é restaurada, partes do mundo começam a se regenerar, gradativamente conduzindo ao confronto final contra o feiticeiro em sua torre. Após o derradeiro embate, a TriForce é restaurada e o equilíbrio é restabelecido nas terras de Hyrule.
Como se sabe, pureza e rituais de purificação são um dos aspectos centrais da religiosidade xinto em suas múltiplas vertentes, desde as periódicas misogi harai, purificações de efeito temporário, geralmente obtidas nos grandes festivais anuais ou momentos cruciais da vida dos indivíduos, ao constante esforço ascético de misogi shugyo, empreendido por muitos indivíduos e bastante enfatizado entre praticantes de artes marciais. O local privilegiado para os rituais de purificação, obviamente, são os santuários, grandes ou pequenos. Nada mais razoável, portanto, que o heroi Link se apresente como um purificador de santuários ou que a batalha final contra o cientista Andross se trave num arcaico templo.
Com fortes elementos animistas, a religiosidade xintoísta pouco diferencia natureza, "sobrenatureza" e, por incrível que pareça, tecnologia - lugares, seres vivos variados e artefatos podem ser imbuídos de shin, espírito ou ser kami, deidades. Kami, por sinal, é um termo polissêmico que bem pode significar "divindade" como "cabeça" ou "autoridade", a depender dos contextos.
Esses elementos figuram de maneiras variadas na rica cinematografia de Miyazaki. O célebre e simpático Totoro é o espírito de uma centenária canforeira sagrada - um meigo espírito-árvore, enfim. No encantador A viagem de Chihiro, a protagonista se vê transportada a um mundo-outro onde acaba forçada a trabalhar numa casa-de-banhos onde os espíritos vão relaxar. Numa das cenas mais importantes e catárticas da animação, Chihiro atende um espírito imundo, disforme, malcheiroso e repelente. Durante o banho, vão saindo do espírito sujeiras variadas, inclusive objetos claramente identificáveis como lixo produzido por seres humanos. Logo se desencadeia uma violenta torrente de imundície, ao fim da qual se revela que aquele repelente espírito era um rio poluído; límpido, aliviado, revigorado e grato, ele flui vigorosamente para fora da casa de banhos. A alegoria de Miyazaki nos fala tanto sobre a presença vibrante do xintoísmo na cultura nipônica quanto escancara a contradição de um povo que polui a natureza que ele próprio imbui de sacralidade.
Para todos os efeitos, esse é um universo de referências onde poluição natural e poluição ritual eventualmente convergem (nem sempre, nem para todos). Andross, o cientista maluco e Ganondorf, o tenebroso feiticeiro, são faces da mesma moeda. Em Lylat ou Hyrule, cada um polui seu cosmos ficcional, com tecnologia amoral ou com magia sombria.
Não muito curiosamente, por detalhados que sejam ambos universos sob muitos aspectos, deixam a desejar em relação à política. Em SF64 a figura de autoridade benigna é um general, enquanto em OOT se destaca a princesa Zelda. Ambos games parecem interessados em temas ecológicos em suas dimensões científica e sagrada, mas não política.
Não custa lembrar que no encerramento das Olimpíadas de 2016 a Nintendo cedeu seus direitos intelectuais e suas marcas para que o primeiro-ministro Shinzo Abe emergisse em pleno Maracanã de uma verde manilha de esgoto como Mario, protagonista da franquia Nintendo mais famosa no Ocidente. Muita gente achou a cena fofa, engraçada e simpática - conhecendo Abe, ultraconservador nacionalista que flerta com o autoritarismo e sonha com a reconstituição do Japão enquanto potência bélica, me senti nauseado. Antes viesse fantasiado de Andross ou Ganondorf.
Olhando retrospectivamente, a figura de Abe emergindo dos esgotos virtuais me parece quase emblemática, quiçá como um presságio. Eis que agora, graças à terrível pandemia, os Jogos Olímpicos de Tóquio foram adiados para 2021, enquanto o próprio Abe toma medidas polêmicas e controversas no combate ao COVID-19.
Me pego pensando nas admiráveis figuras de Miyamoto e Miyazaki. Quase ausentes nos games do primeiro, as dimensões políticas da vida (inclusive da ecologia) costumam figurar nas animações do segundo, especialmente no mencionado Princesa Mononoke e no pós-apocalíptico Nausicaa do Vale do Vento.
Mais que falar, Miyazaki faz. Numa época em que trabalhadores da animação japonesa recebiam pagamentos miseráveis, se entregou à luta sindical e, mais tarde, fundou com o amigo Isao Takahata o famoso Studio Ghibli, cujos profissionais são valorizados e bem remunerados.
Em meu confinamento, parti para pilotar minha nave em Lylat e agora pouso no Acre, relembrando a célebre frase de Chico Mendes: "Ecologia sem luta de classes é jardinagem". Mesmo não sendo marxista, concordo com a essência da mensagem de Mendes e Miyazaki - não haverá renovação ecológica sem profundas mudanças sociais, econômicas e políticas em nosso mundo. Não enquanto Abes e outros circularem em nossos esgotos.
COVID-19 está aí para provar.
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sexta-feira, 24 de abril de 2020
quinta-feira, 23 de abril de 2020
Breves considerações sobre Slavoj Zisek
Posso estar redondamente enganado, mas considero Zisek uma das maiores fraudes intelectuais do século XXI - simplesmente não consigo levar esse sujeito a sério.
Acabo de saber que ele já está lançando um livro sobre o COVID-19, o colapso capitalista etc. Rápido no gatilho, como sempre; eis um comunista que sabe faturar no mundo capitalista. E, em terras btasileiras, a Boitempo junto com ele. Um autor oportunista com uma editora igualmente oportunista - parceria perfeita. Por sinal, a julgar pelo preço dos livros, a Boitempo me parece curiosamente desinteressada em ser lida pelo "proletariado". Sequer consigo imaginar um trabalhador que viva de salário mínimo comprando um livro da Boitempo.
A bem dizer, acho que uma boa HQ de Alan Moore vale uns dez ensaios de Zisek - e nem precisa ser um clássico como V de Vingança; pode até ser um daqueles Contos do Robocão, do comecinho da carreira.
Para mim, Zisek já começa perdendo por ser lacaniano; não dá para levar Lacan a sério. Até Lévi-Strauss, que era amigo pessoal de Lacan dizia que não o lia, maroto como sempre, por se confessar "incapaz de entender a obra de Lacan". Além do mais, nunca entendi muito bem a necessidade de evocar a psicanálise lacaniana para ornamentar as platitudes zisekianas.
Acabo de saber que ele já está lançando um livro sobre o COVID-19, o colapso capitalista etc. Rápido no gatilho, como sempre; eis um comunista que sabe faturar no mundo capitalista. E, em terras btasileiras, a Boitempo junto com ele. Um autor oportunista com uma editora igualmente oportunista - parceria perfeita. Por sinal, a julgar pelo preço dos livros, a Boitempo me parece curiosamente desinteressada em ser lida pelo "proletariado". Sequer consigo imaginar um trabalhador que viva de salário mínimo comprando um livro da Boitempo.
A bem dizer, acho que uma boa HQ de Alan Moore vale uns dez ensaios de Zisek - e nem precisa ser um clássico como V de Vingança; pode até ser um daqueles Contos do Robocão, do comecinho da carreira.
Para mim, Zisek já começa perdendo por ser lacaniano; não dá para levar Lacan a sério. Até Lévi-Strauss, que era amigo pessoal de Lacan dizia que não o lia, maroto como sempre, por se confessar "incapaz de entender a obra de Lacan". Além do mais, nunca entendi muito bem a necessidade de evocar a psicanálise lacaniana para ornamentar as platitudes zisekianas.
Pensando melhor, é realmente necessário: platitudes intelectuais só transmitem alguma aparência de relevância quando devidamente ornamentadas, para seduzir aquele tipo de leitor que se encanta por qualquer coisa que lhe soe hermética - exatamente o tipo de pessoa que gosta de citar Wittgenstein ou Lacan a torto e a direito.
Enfim, vejo Zisek quase como uma caricatura do "intelectual engajado". Muita verborragia, pouco conteúdo, repertório de ideias quase monomaníaco, sempre a mesma lenga-lenga. Uma versão melhorada de Marcia Tiburi.
Há que se reconhecer, no entanto, o mérito de Zisek em se tornar o esloveno mais famoso do mundo; só espero, sinceramente, para bem de seu povo, que a Eslovênia tenha gente mais interessante que ele. A vizinha Sérvia ao menos produziu Petkovic, futebolista com ares de pensador, sempre capaz de deixar desconcertados os jornalistas esportivos brasileiros...
quarta-feira, 22 de abril de 2020
Nomes aos bois
Eu abro mão de termos como "esquerda" e "direita", que têm pouca consistência histórica a longo prazo, anacrônicos entulhos da Revolução Francesa que se prestam exatamente à situação criticada na charge abaixo. Essa reificada dicotomia me parece uma ladeira escorregadia rumo ao maniqueísmo. Prefiro dar nomes aos bois: Socialismo, Liberalismo, Conservadorismo, Neoliberalismo, Anarquismo, Comunismo etc. Não sou "de esquerda" nem "de direita": sou socialista e ponto.
terça-feira, 21 de abril de 2020
Quanto vale a vida de um motoboy?
A resposta parece óbvia, mas está longe de sê-lo.
Se perguntarmos ao próprio motoboy, a resposta provavelmente será: não tem preço. A maioria de nós, reles e ingênuos mortais, tenderia a concordar.
Mas há quem discorde.
Para os donos de certa rede de farmácias, por exemplo, cheguei à estimativa de aproximadamente R$ 9,00 ao dia, R$ 63,00 por semana ou R$ 270,00 ao mês.
Como ouso propor semelhante conclusão? Vejamos.
Hoje fiz uma encomenda em uma farmácia da dita rede. Ao telefonar, uma oferta inesperada: máscaras por R$ 3,00. Pedi 15 - quantidade suficiente para minhas raras saídas do apartamento durante a quarentena (só tenho ido até a portaria receber encomendas) e, espero, para não privar outras pessoas de acesso ao item.
Quando minha encomenda finalmente chegou, fiquei surpreso ao notar que o motoboy - mais "moto" que "boy", pois beirava provavelmente os 60 anos - não usava máscara.
Em suma, a farmácia que oferece aos clientes máscaras por R$ 3,00 (com lucro, obviamente) não tem o cuidado de proteger seu próprio profissional com o mesmo recurso. Considerando a qualidade das máscaras, avalio grosseiramente que o entregador precisaria de ao menos três por dia para se proteger adequadamente, daí o cálculo proposto.
Algum liberal, neoliberal ou ultraliberal de plantão pode alegar que tal gasto prejudicaria a rentabilidade do negócio e que, ao fim e ao cabo, o próprio motoboy seria afetado por tamanha tragédia. Talvez até feche o argumento com uma de suas frases favoritas: "não existe almoço grátis".
A este cavalheiro eu responderia que a Matemática está contra ele, visto que apenas a minha encomenda já passava do valor de R$ 450,00 - o que cobriria, com sobra, as máscaras para o motoboy por mais de um mês. Considerando que o mesmo motoboy já fizera inúmeras outras entregas antes de chegar a minha casa e fará tantas outras amanhã e depois, bem vemos que os estimados R$ 270,00 não hão de fazer tanta falta à empresa no balancete anual. Na pior das hipóteses, considerando oscilações diárias de demanda, podemos supor que o serviço do entregador rende à empresa ao menos dez vezes mais que R$ 9,00 por dia, o que já compensaria o custo da medida de proteção.
Um ultraliberal admirador de Milton Friedman e Ayn Rand me responderia prontamente que o motoboy é "livre para escolher" e que, se quisesse, poderia ele mesmo pagar R$ 270,00 para se proteger - logo, o próprio entregador também age como se sua vida valesse menos que isso.
A esse entusiástico ultraliberal eu perguntaria quanto ganha o dito motoboy por mês. Se forem um ou dois salários mínimos, podemos estipular que esse valor pesaria bastante sobre a renda doméstica do entregador, tornando tal luxo pouco viável, ao passo que não pesaria quase nada sobre a margem de lucro da empresa. Isso, é claro, contando que o motoboy seja assalariado, pois muitos são autônomos remunerados segundo critérios obscuros, que mal sabem quanto (ou se) ganharão no dia seguinte.
A essa altura o estimado ultraliberal apelaria talvez à palavra "meritocracia", julgando que o motoboy simplesmente precisaria se esforçar mais para ter condições de adquirir merecidamente suas próprias máscaras.
Eu então engoliria em seco e escolheria com calma minhas palavras para polidamente sugerir ao prezado ultraliberal que a saúde e a vida de um ser humano talvez (apenas talvez) valham mais que dinheiro e que, por isso mesmo, a "mão invisível" do mercado não dá conta sozinha de atender e prover com justiça e dignidade a todas as necessidades da coletividade humana.
Recorrendo ao repertório habitual, o ponderado ultraliberal talvez responda, citando Thatcher, que "não existe sociedade" e que "justiça", "dignidade" e "necessidade" são apenas conceitos relativos e subjetivos, ao contrário de noções práticas e objetivas como "oferta", "demanda" e o "preço" (não valor) delas decorrente.
Já cansado, eu encerraria minha participação na conversa respondendo ao sapientíssimo ultraliberal que o motoboy pode contrair COVID-19 de qualquer cliente da farmácia e sair distribuindo vírus junto com as encomendas e perguntaria - com um sorriso sarcástico, admito - quantas encomendas o distinto ultraliberal já recebeu de entregadores desprotegidos nas últimas semanas, entre uma e outra videoconferência em seu período de home office...
Depois disso, imagino, nosso amável ultraliberal ficará um tanto pensativo sobre a tosse seca e persistente que vem lhe acometendo nos últimos três dias e talvez pondere mais detidamente sobre a quantidade obscenamente pequena de leitos hospitalares per capita disponíveis no Paraíso capitalista e quantos vouchers seriam provavelmente necessários para lidar adequadamente com uma pandemia (caso tal façanha seja possível).
Será que a saúde e a vida de um ultraliberal valem tanto quanto as de um motoboy? That's the question.
Se perguntarmos ao próprio motoboy, a resposta provavelmente será: não tem preço. A maioria de nós, reles e ingênuos mortais, tenderia a concordar.
Mas há quem discorde.
Para os donos de certa rede de farmácias, por exemplo, cheguei à estimativa de aproximadamente R$ 9,00 ao dia, R$ 63,00 por semana ou R$ 270,00 ao mês.
Como ouso propor semelhante conclusão? Vejamos.
Hoje fiz uma encomenda em uma farmácia da dita rede. Ao telefonar, uma oferta inesperada: máscaras por R$ 3,00. Pedi 15 - quantidade suficiente para minhas raras saídas do apartamento durante a quarentena (só tenho ido até a portaria receber encomendas) e, espero, para não privar outras pessoas de acesso ao item.
Quando minha encomenda finalmente chegou, fiquei surpreso ao notar que o motoboy - mais "moto" que "boy", pois beirava provavelmente os 60 anos - não usava máscara.
Em suma, a farmácia que oferece aos clientes máscaras por R$ 3,00 (com lucro, obviamente) não tem o cuidado de proteger seu próprio profissional com o mesmo recurso. Considerando a qualidade das máscaras, avalio grosseiramente que o entregador precisaria de ao menos três por dia para se proteger adequadamente, daí o cálculo proposto.
Algum liberal, neoliberal ou ultraliberal de plantão pode alegar que tal gasto prejudicaria a rentabilidade do negócio e que, ao fim e ao cabo, o próprio motoboy seria afetado por tamanha tragédia. Talvez até feche o argumento com uma de suas frases favoritas: "não existe almoço grátis".
A este cavalheiro eu responderia que a Matemática está contra ele, visto que apenas a minha encomenda já passava do valor de R$ 450,00 - o que cobriria, com sobra, as máscaras para o motoboy por mais de um mês. Considerando que o mesmo motoboy já fizera inúmeras outras entregas antes de chegar a minha casa e fará tantas outras amanhã e depois, bem vemos que os estimados R$ 270,00 não hão de fazer tanta falta à empresa no balancete anual. Na pior das hipóteses, considerando oscilações diárias de demanda, podemos supor que o serviço do entregador rende à empresa ao menos dez vezes mais que R$ 9,00 por dia, o que já compensaria o custo da medida de proteção.
Um ultraliberal admirador de Milton Friedman e Ayn Rand me responderia prontamente que o motoboy é "livre para escolher" e que, se quisesse, poderia ele mesmo pagar R$ 270,00 para se proteger - logo, o próprio entregador também age como se sua vida valesse menos que isso.
A esse entusiástico ultraliberal eu perguntaria quanto ganha o dito motoboy por mês. Se forem um ou dois salários mínimos, podemos estipular que esse valor pesaria bastante sobre a renda doméstica do entregador, tornando tal luxo pouco viável, ao passo que não pesaria quase nada sobre a margem de lucro da empresa. Isso, é claro, contando que o motoboy seja assalariado, pois muitos são autônomos remunerados segundo critérios obscuros, que mal sabem quanto (ou se) ganharão no dia seguinte.
A essa altura o estimado ultraliberal apelaria talvez à palavra "meritocracia", julgando que o motoboy simplesmente precisaria se esforçar mais para ter condições de adquirir merecidamente suas próprias máscaras.
Eu então engoliria em seco e escolheria com calma minhas palavras para polidamente sugerir ao prezado ultraliberal que a saúde e a vida de um ser humano talvez (apenas talvez) valham mais que dinheiro e que, por isso mesmo, a "mão invisível" do mercado não dá conta sozinha de atender e prover com justiça e dignidade a todas as necessidades da coletividade humana.
Recorrendo ao repertório habitual, o ponderado ultraliberal talvez responda, citando Thatcher, que "não existe sociedade" e que "justiça", "dignidade" e "necessidade" são apenas conceitos relativos e subjetivos, ao contrário de noções práticas e objetivas como "oferta", "demanda" e o "preço" (não valor) delas decorrente.
Já cansado, eu encerraria minha participação na conversa respondendo ao sapientíssimo ultraliberal que o motoboy pode contrair COVID-19 de qualquer cliente da farmácia e sair distribuindo vírus junto com as encomendas e perguntaria - com um sorriso sarcástico, admito - quantas encomendas o distinto ultraliberal já recebeu de entregadores desprotegidos nas últimas semanas, entre uma e outra videoconferência em seu período de home office...
Depois disso, imagino, nosso amável ultraliberal ficará um tanto pensativo sobre a tosse seca e persistente que vem lhe acometendo nos últimos três dias e talvez pondere mais detidamente sobre a quantidade obscenamente pequena de leitos hospitalares per capita disponíveis no Paraíso capitalista e quantos vouchers seriam provavelmente necessários para lidar adequadamente com uma pandemia (caso tal façanha seja possível).
Será que a saúde e a vida de um ultraliberal valem tanto quanto as de um motoboy? That's the question.
domingo, 19 de abril de 2020
O homem que ri
Ah! Me tomais por uma exceção! Sou um símbolo. Ó, todos-poderosos imbecis que sois, abri os olhos. Encarno tudo. Represento a humanidade tal qual a fizeram seus senhores. O homem é um mutilado. O que me fizeram, o fizeram ao gênero humano. Lhe deformaram o direito, a justiça, a verdade, a razão, como a mim os olhos, as narinas e as orelhas; como a mim, lhe puseram no coração uma cloaca de cólera e dor, e sobre a face uma máscara de contentamento. [...] Reis, nobres e príncipes, o povo é o sofredor profundo que ri na superfície. Milordes, vos digo, o povo, sou eu. Hoje o oprimis, hoje me vaiais. Mas o futuro é o degelo sombrio. O que era pedra se torna onda. A aparência sólida se transforma em submersão. Um estalar, e tudo está dito.
Fala de Gwynplaine, deformado protagonista de O homem que ri, romance publicado por Victor Hugo em 1869 - cerca de dois anos antes do colapso do Império de Napoleão III, após a derrota na Guerra Franco-Prussiana e seguido pela sanguinolenta revolta popular conhecida por Comuna de Paris.
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quinta-feira, 16 de abril de 2020
Evitando a fadiga - e a pandemia
Outra emblemática imagem do momento presente: a estátua erigida em honra ao carteiro Jaiminho, no Estado de Michoacán, México, sendo higienizada contra o COVID-19.
Como bem sabe a maioria dos latino-americanos de minha geração, o carteiro Jaiminho (ou Jaimito) é um personagem introduzido tardiamente no seriado mexicano Chaves ou, no original, El Chavo del Ocho.
O personagem, encarnado pelo ator Raúl "Chato" Padilla, passou a integrar o elenco após a saída de dois atores e personagens de peso, Ramón Valdés e Carlos Villagrán, que viviam respectivamente Seu Madruga e Quico (ou Don Ramón e Kiko, conforme se prefira).
O bonachão Jaiminho aparece então como o novo carteiro da vizinhança, natural da (então) obscura localidade de Tangamandápio. A característica mais saliente do personagem é seu firme empenho em "evitar a fadiga". A maioria das gags envolvendo o personagem gira em torno de sua lentidão e sua preguiça, que muitas vezes o levam a ser folgado e abusado.
Um dos maiores feitos de Jaiminho foi, sem sombra de dúvida, fazer com que milhões de espectadores descobrissem a existência de Tangamandápio. Em tempos anteriores à Internet, muito se especulava sobre a real existência da localidade. O fato é que o lugarejo não apenas existe como há alguns anos erigiu uma estátua em homenagem ao personagem e seu intérprete, em gratidão pelo renome internacional que trouxe ao povoado. Por sinal, o mero fato de que a pandemia, saindo de Wuhan, tenha chegado a um "fim-de-mundo" latino-americano como Tangamandápio é muito emblemático do mundo hiperconectado em que vivemos.
A bem dizer, Jaiminho é um personagem um tanto apagado e nunca parei para refletir mais detidamente sobre ele em minhas meditações chavológicas. A imagem acima e o contexto de pandemia e quarentena, no entanto, me convidam a pensar melhor sobre Jaiminho, o carteiro.
Com seu ar pacato e imperturbável, Jaiminho é um verdadeiro subversivo. Para evitar a fadiga, burla as normas dos Correios e mesmo o decoro comum - sem jamais se mostrar agressivo ou raivoso (afinal de contas, a raiva também cansa).
É interessante notar que um dos adereços do personagem é sua bicicleta. Uma escolha de figurino brilhante, pois Jaiminho jamais a usa. Na verdade, o carteiro oculta da empresa de correios o fato de que não sabe andar de bicicleta - o que acarretaria em sua demissão, como explica aos demais personagens em diversas ocasiões. Desse modo, Jaiminho arrasta sempre consigo sua inútil bicicleta, oferecendo oportunidades para várias gags.
Vale refletir melhor sobre a relação entre Jaiminho e sua bicicleta. O veículo serviria para que o carteiro, atendendo às urgentes necessidades da sempre apressada modernidade, executasse seu trabalho com maior rapidez, mas é precisamente o contrário que ocorre - longe de auxiliar, a bicicleta se torna um estorvo, um fardo adicional que acaba atrasando o trabalho de Jaiminho.
Desse modo, a singela bicicleta acaba encarnando todas as traquitanas e bugigangas modernas que, em teoria, deveriam simplificar a vida, mas a tornam apenas mais complicada. A bicicleta de Jaiminho é um pouco como tantos sistemas informatizados atabalhoadamente introduzidos tanto pela iniciativa pública quanto privada que, longe de facilitar a vida dos profissionais, só reduzem sua eficiência e os distraem de tarefas mais importantes.
A pesada pasta carregada por Jaiminho também convida a refletir. Quanto daquela correspondência, tão penosamente transportada pelo carteiro, é realmente relevante? Faz pensar nos megabytes de e-mails e mensagens que recebemos e emitimos diariamente, drenando nosso tempo, muitas vezes a troco de nada.
Pensando bem, em muitos aspectos, a figura de Jaiminho ressoa em outra modulação muitos dos temas que perpassam a caracterização de Seu Madruga. Apesar das disparidades de temperamento, o pacato carteiro tem muito em comum com o explosivo malandro-biscateiro-faz-tudo. O zeloso empenho do tangamandapiano em evitar a fadiga ecoa a madruguiana sabedoria: "Não existe trabalho ruim - ruim é ter que trabalhar".
Aprofundando o paralelo, tanto Madruga quanto Jaiminho pertencem ao universo de figuras deliberada ou involuntariamente marginalizadas da modernidade, por deserção ou inadaptação. Madruga é o malandro da periferia urbana, pouco letrado, sobrevivendo às margens do emprego formal. Jaiminho é o homem egresso do interior, de um lugarejo rural como Tangamandápio à selva urbana da Cidade do México.
Sua mansidão no falar é muito característica de tantos interioranos transplantados à pressa louca da cidade grande. Me lembra um bocado meu antigo e querido barbeiro, Seu Virgílio, que já conheci sexagenário. Viera em sua juventude de Tupaciguara, lugarejo de Minas Gerais, para viver nos subúrbios do Rio de Janeiro; depois de tantos anos, perdera o sotaque mineiro, mas não a fala mansa.
Embora muito laborioso, Seu Virgílio trabalhava sem pressa, com esmero e, mais importante, com uma conversa inteligente e agradável, em prosa mansa e vivaz, transmitindo uma serenidade e uma alegria de viver revigorantes. Sua humilde barbearia era um oásis de tranquilidade nesse mundo inquieto e ansioso.
Para evitar a fadiga do leitor, encerro por aqui esse texto, com um convite: que a pandemia e a quarentena que ora experimentamos nos ajudem a viver um pouco mais como Jaiminho, com menos pressa e sofreguidão, no ritmo de Tangamandápio...
Dedico esse texto ao meu amigo Fernando, que me enviou a imagem acima.
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Enquanto isso, na Baía de Guanabara...
É uma pena que apenas uma tragédia humanitária de dimensões terríveis consiga parar - momentaneamente - nosso predatório estilo de vida... O momento nos convida a refletir e repensar nossos valores e prioridades enquanto coletividade humana.
A Mata-Atlântica contra-ataca
Parece que esse vídeo foi gravado em um prédio na Gávea. Animais sobreviventes da Mata Atlântica exploram territórios que outrora integravam a floresta que hoje mal existe.
Podemos e precisamos desacelerar.
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