É a pandemia abalando os alicerces da civilização judaico-cristã ocidental... Adeus à vergonha e às folhas de parreira!
quarta-feira, 15 de abril de 2020
terça-feira, 14 de abril de 2020
Manifesto Pós-Pandêmico
Sou apenas um professor brasileiro do Ensino Básico e um acadêmico mais que inexpressivo. Sou Nada, talvez Menos-que-Nada. Sou Ninguém e Qualquer-Um ao mesmo tempo.
Estamos trêmulos em nossas casas, apavorados por esse vírus como nossos ancestrais em suas cavernas assustados pelo dentes-de-sabre que rondava. Como o arrogante filho de Dédalo cruzou os ares, nós visitamos a lua - e podemos cair da mesma maneira. Podemos gritar como Ájax em seu rochedo, e ser esmagados pelo mesmo raio. A hybris sempre cobra seu preço.
Em seus dois últimos anos, costumava visitar minha avó todo sábado, e passar o dia com ela e nossa família. Cada um daqueles sábados se tornou uma memória sagrada para mim. Posso lembrar de sua cabeça recostada na poltrona, cochilando depois do almoço. Era belo contemplar o descanso daquela velha cabeça, endurecida pelas batalhas da vida e abatida pelo tempo. Seu ronco suave soava como uma sinfonia. Victor Hugo estava certo quando dizia que há poucas visões mais belas que o sono dos bebês e dos idosos.
Minha avó nasceu em 1926, em Agostinho Porto, um pobre distrito do município de Nova Iguaçu, no Estado do Rio de Janeiro. Ela e seus irmãos costumavam catar carvão do leito da ferrovia, para poupar o carvão necessário para cozinhar em casa - eles colhiam as sobras do "progresso" que passava. Não havia geladeira em casa. Nem rádio, nem TV. Nunca faltou pão à mesa, mas ela já era adulta quando provou pela primeira vez o doce sabor do chocolate. Ela tinha 10 anos quando sua mãe faleceu dando à luz seu irmão caçula. Abandonou a escola para tomar conta da casa e dos irmãos. Eles eram pessoas pobres e trabalhavam duro para sobreviver, mas não era miseráveis. Eles escovavam os dentes com sabão, porque pasta de dente custava muito caro no Brasil, à época. Ela sobreviveu, prosperou e viveu uma longa vida, com seus momentos de alegria e sofrimento.
Quando criança e adolescente eu tinha modestos luxos com que minha avó e seus irmãos sequer podiam sonhar na mesma idade - eu tinha muitos brinquedos, chocolate, livros, quadrinhos, meu próprio toca-fitas... Minha mãe cresceu como uma pessoa de gostos e simples e me esforço para também sê-lo. Trabalho apenas o suficiente para garantir meu sustento e ter algum tempo para minha família, amigos, livros, filmes e games.
Sou uma pessoa realmente fácil de agradar. A verdadeira alegria é gratuita. Contemplar o céu e sentir a brisa em uma noite estrelada é gratuito. Beijar minha esposa é gratuito. Abraçar meu cãozinho é gratuito. Conversar com bons amigos é gratuito. Rir é gratuito. Lembrar de minha avó cochilando é gratuito. Todos esses grandes deleites são gratuitos! Gratuitos! Eles só me custam o precioso Tempo que não negociei por dinheiro.
Tenho esse precioso Tempo disponível, primeiro e sobretudo, porque evito dívidas. O trabalhador moderno está trancado, acorrentado e afogado por dívidas - para supremo deleite de banqueiros e outros predadores financeiros. O viajante do século XVI Jean de Léry comparava banqueiros a canibais comendo a carne e roendo os ossos de órfãos e viúvas - não é má analogia. Para o trabalhador assalariado, o endividamento é vendido como liberdade, mas termina como infindável escravidão. É uma armadilha.
Dívidas. Para quê? Consumo ostentatório para satisfazer insensatos desejos. Uma nova TV, um smartphone bacana, um carrão, uma viagem feita quase exclusivamente para postar fotos em redes sociais. Umas poucas bugigangas descartáveis e alguns dias de lazer que se transformam em meses, se não anos, de dívidas crescentes e esmagadoras. Nada além de chapéus caros para cobrir cabeças vazias e corações famintos.
Mas todos esses luxos têm um preço ainda mais alto. Todas essas TVs, smartphones e carros descartáveis - infelizmente - não crescem em árvores. Pelo contrário, muitas árvores são abatidas para que essas bugigangas sejam fabricadas. Minas são cavadas, vida silvestre é morta, rios são envenenados, ar é poluído para manufaturar todos esses inúteis itens de consumo que cedo ou tarde (geralmente cedo) acabam na lixeira.
Árvores centenárias são mortas para nos dar um mísero smartphone que será descartado seis meses depois. Trocar séculos por meses não é nada esperto. Podemos construir uma fábrica em meses, mas anos são necessários para que uma árvore cresça e prospere a partir de uma pequenina semente. Uma empresa pode falir em meses, mas uma boa árvore irá dar (não vender) oxigênio por anos. Oferecerá sombra para pessoas e abrigo para animais. Poucas coisas nesse planeta são ao mesmo tempo tão valiosas e baratas quanto uma árvore. Mas normalmente não pensamos assim. Uma árvore viva não significa Dinheiro, mas madeira morta, cortada em toras e tábuas, pode atingir um bom preço nos mercados certos.
E assim, precioso Tempo é gasto para matar valiosa Vida. Trocamos tesouros sem preço por mercadoria barata e consumo sem sentido. Que barganha estúpida! No fim das contas, sequer somos primatas muito espertos.
Agora mesmo, há alguns primatas bilionários (e também outros mais pobres) resmungando que deveríamos abandonar a quarentena e desistir de algumas vidas humanas para salvar "a economia" - o que significa sobretudo seus próprios ativos e patrimônios. Esse bilionários estão nos dizendo simplesmente que deveríamos fazer sacrifícios humanos para apaziguar o faminto deus Dinheiro. É uma terrível, grotesca e cínica reencenação dos verdadeiros sacrifícios humanos praticados por culturas de outrora em um contexto real de adoração e devoção. Esse clero capitalista merece o mesmo título dado séculos atrás a seus precursores por Jean de Léry: canibais comendo a carne e bebendo o sangue de órfãos e viúvas. Para tais pessoas, vidas humanas são simplesmente combustível para manter o motor da economia se movendo para lugar nenhum. É, quase literalmente, "cut-throat capitalism", "capitalismo selvagem".
Há algumas décadas cientistas vinham alertando sobre o perigo de "super-vírus" emergindo de florestas devastadas e da redução de habitats de animais silvestres, que tendem a se tornar superpovoados caldeirões para a fermentação de vírus, replicando e sofrendo mutações muitas e muitas vezes, eventualmente originando novas cepas poderosas e mortíferas. Quando se troca árvores por smartphones, a exploração madeireira e a mineração podem favorecer a emergência de semelhantes vírus como subprodutos indesejados. A ação humana em larga escala geralmente traz consequências não-intencionais e imprevisíveis. E as escalas são largas, pois um estômago tem limites, mas contas bancárias não.
A desigualdade social é outra aliada desses vírus. Em muito países e cidades africanos e asiáticos, as pessoas precisam recorrer a "wet markets", "mercados vivos", para comer proteína animal. Esses mercados não conseguem oferecer condições sanitárias adequadas, pois há poucas câmaras frigoríficas disponíveis (quando há alguma). Animais silvestres e domésticos são mantidos vivos nesses espaços confinados e superlotados e abatidos ali mesmo, tornando "wet markets" o ambiente perfeito para a fermentação de vírus, sua circulação entre espécies e subsequente surto. De fato, o COVID-19 começou a se espalhar no "wet market" de Wuhan - e de lá alcançou gente no mundo inteiro - incluindo pessoas ricas nas maiores megalópoles, vestindo ternos caros e comendo as melhores carnes em restaurantes elegantes. O vírus não tem preferências sobre quais humanos predar; ele simplesmente o faz, em qualquer lugar, a qualquer hora, onde possível.
O panorama da situação é relativamente simples. Em poucos anos tivemos epidemias modestas e locais e outras terríveis, como Ebola, SARS, H1N1, e agora o apavorante COVID-19. Se continuarmos destruindo florestas, e pessoas em países pobres continuarem a ter negado seu direito de comer alimentos adequadamente manejados, podemos aguardar mais e mais epidemias e pandemias nos anos e décadas por vir - inclusive mais rápidas e mortíferas. É o material com que se fazem os pesadelos.
Quanto mais devastarmos para consumir, mais forte os riscos ambientais baterão de volta. Quando predamos a natureza, predamos a nós mesmos. Nós fazemos parte da natureza, afinal de contas. NÓS SOMOS CARNE - a filósofa australiana Val Plumwood descobriu isso da pior maneira, sobrevivendo a um ataque de crocodilo. Mas temos dificuldade de aceitar essa realidade auto-evidente, como nota Plumwood:
Como Stanley Milgram propôs décadas atrás, vivemos em um mundo pequeno e ele se tornar menor a cada dia. Partilhamos esse planeta como nossa casa comum. Em uma casa saudável não se pode esperar ter uma bela sala de jantar e uma cozinha imunda e ter boa comida à mesa. Agora mesmo, por assim dizer, Wuhan é a cozinha, a mesa está em Wall Street e COVID-19 está no menu. Devemos cuidar bem de nossa casa inteira, se quisermos viver bem e seguros nela.
Agora o mundo está quase completamente sob quarentena. Dessa vez, o meio-ambiente nos bateu tão forte que fomos obrigados a fazer uma amarga e indesejada parada.
Estamos assustados e aborrecidos, mas relatos ao redor do mundo nos dizem que o ar e a água estão mais limpos em vários lugares. Nós somos fortes, mas a natureza é ainda mais forte. Umas poucas semanas de desaceleração estão dando ao meio-ambiente uma chance de curar algumas feridas.
Se quisermos aprender alguma lição de todo este medo e sofrimento é que não apenas nós podemos desacelerar, como nós devemos desacelerar - para nosso próprio bem.
Afinal de contas, estamos sobrevivendo.
Podemos viver e prosperar com muito menos - como fez minha avó.
Podemos ter vidas significativas com menos consumo. Podemos desfrutar todas essas verdadeiras alegrias que são gratuitas - desde que nos concedamos Tempo.
Podemos preencher nossas cabeças com pensamentos significativos e dar adeus aos elegantes, caros e ridículos chapéus. Podemos compartilhar nossos sonhos com nossos filhos e nossos pais. Podemos ter tudo isso que não tem preço e faz nossas vidas valerem a pena.
Agora mesmo, temos a chance de quebrar esse ciclo perverso de consumo, dívida, exaustão e destruição.
Podemos sonhar e pavimentar a estrada para longe desse pesadelo agitado e sem sentido. Podemos construir pontes para um outro futuro, mais brilhante. Podemos escapar da tirania dos números e das metas de produção. Podemos retomar o senhorio sobre nossos insensatos desejos e deixar toda Vida ser vivida e amada.
Não será fácil. Muitos interesses estão em jogo. Temos dentro de nós mesmos essa fome por mais, e mais, e mais.
Deveríamos consumir menos e trabalhar menos.
Deveríamos partilhar mais equitativamente o produto de nossos esforços. Deveríamos reconhecer adequadamente o valor de tantos trabalhadores que são tão essenciais e tão mal pagos. Deveríamos mostrar nossa gratidão e respeito aos lixeiros que mantém nossas ruas saudáveis, aos faxineiros que limpam nossas escolas e hospitais, aos humildes fazendeiros que abastecem nossas mesas e todos aqueles trabalhadores cuja contribuição para nossas vidas é subestimada e mal recompensada.
Deveríamos desafiar os bilionários que ganham tanto e compartilham tão pouco. Eles podem viver com alguns bilhões a menos - e devem fazer isso. Eles precisam de nós muito mais que nós precisamos deles. Devemos ocupar Wall Street de novo e de novo, até que aquele 1% entenda que existimos. Quem eles pensam que são? Somos todos humanos, vivendo e sofrendo nesse planeta que partilhamos.
Deveríamos parar de adorar o deus Dinheiro e apaziguar suas necessidades com sangue.
Devemos nos importar realmente com as pessoas que sobrevivem com dificuldade, perto ou longe.
Devemos reconhecer o verdadeiro e profundo valor do Tempo e da Vida.
Mais que nunca, devemos nos esforçar para construir uma Vida melhor, mas sempre tendo em mente a sabedoria de Martin Luther King:
E também devemos trazer em nossos corações as palavras de Gandhi:
Devemos lembrar o gesto de Rosa Parks - simplesmente se recusando a se levantar num ônibus e permanecendo em seu lugar, ela acendeu uma centelha que pôs em ação o Movimento dos Direitos Civis. Há grande poder nessas simples atitudes de força moral.
É simples de falar, mas muito difícil de fazer, de fato. Há tantas questões e tão poucas respostas.
O problema tem dimensões culturais, políticas e econômicas, todas emaranhadas e muito complexas.
Não é uma questão de dias ou anos, mas de décadas. Contudo, devemos começar agora mesmo.
O dia após a pandemia é o dia em que devemos começar nossa transformação.
Como sugere David Mitchell, somos todos apenas gotículas em um oceano - mas o que é um oceano, senão uma multidão de gotículas? Sejamos esse poderoso oceano.
Solidariamente,
Luiz Fabiano Tavares
Brasileiro, professor, historiador, humano
A versão original desse texto foi publicada em inglês sob o título "Post-Pandemic Manifest"; como dizia Umberto Eco, no mundo atual certas circunstâncias exigem que nos expressemos primeiro em inglês e apenas depois traduzir para nossa língua nativa - daí o procedimento.
Principal e profundamente, sou o pai de dois bebês mortos, Miguel e Luiz Miguel. Aqui ponho minha pele e minha alma em jogo - lhe imploro humildemente para ouvir minha pobre voz.
Das profundezas do sofrimento eu grito para você: ouça o pranto de um pai enlutado. Conheço em carne, sangue, coração e lágrimas os limites da humanidade. Todo o conhecimento da Ciência e o poder da Tecnologia não foram suficientes para salvar meus filhos natimortos.
Somos pouco mais que primatas espertos com delírios de grandeza. Somos crianças brincando com facas, motosserras e armas. Somos tão mortais e frágeis quanto nossos ancestrais paleolíticos, embora nos persuadamos a acreditar que somos semi-deuses.
Agora estamos vivendo em nossa muito própria hora mais sombria. Um miserável, invisível, miscroscópico vírus está rastejando entre nós, espreitando e predando nossa carne com garras e dentes afiados. É necessário muito, muito menos que um tigre ou um tubarão para estraçalhar um ser humano.
Estamos trêmulos em nossas casas, apavorados por esse vírus como nossos ancestrais em suas cavernas assustados pelo dentes-de-sabre que rondava. Como o arrogante filho de Dédalo cruzou os ares, nós visitamos a lua - e podemos cair da mesma maneira. Podemos gritar como Ájax em seu rochedo, e ser esmagados pelo mesmo raio. A hybris sempre cobra seu preço.
O terremoto de Lisboa em meados do século XVIII aterrorizou todos os pensadores do Iluminismo e os fez sonhar com um mundo onde o Homem seria senhor de todas as coisas. Temos vivido para e através desse sonho, e ele se parece cada vez mais e mais com um pesadelo.
Na esteira da Revolução Industrial fantasiamos que a Ciência e a Tecnologia, como uma cornucópia mágica, poderiam nos servir esplendorosos e infinitos prazeres, deleites e entretenimento. Para alguns de nós, realmente fizeram e fazem.
Como Dr. Fausto, aceitamos a barganha mefistofélica, e agora pagamos com nossos corpos, vidas e almas.
Nós barganhamos e negociamos os tesouros mais preciosos que possuímos, Tempo e Vida, por bugigangas descartáveis que rapidamente desfrutamos e ainda mais brevemente esquecemos. Trocamos nosso precioso Tempo para adquirir vãos, banais e efêmeros prazeres que mal preenchem o tédio de nossas vidas. Corremos, corremos e corremos para ganhar medalhas de plástico sem qualquer valor.
Levamos vidas atribuladas e fúteis, realizando conquistas ridículas e vazias. Nossos corações são terrenos baldios. Parafraseando Henri Bergson, quase cem anos atrás, compramos chapéus elegantes para cobrir o vácuo de nossas cabeças.
Comemos, e ainda assim permanecemos famintos. Há uma fome dentro de nós, e uma sede insaciável. Lutamos e agonizamos, torturados por nossos desejos sempre crescentes e insatisfeitos. Vivemos como cães loucos correndo atrás de carros.
Essa fome é tão cruel que nos compele a predar contra nós mesmos e nossa terra, água e ar. Somos predadores insaciáveis, devorando tudo a nossa frente e deixando um rastro de pútridas fezes atrás de nós, até o dia amargo em que precisaremos comer as próprias fezes que deixáramos para trás - e então, finalmente, submergir, nos afogarmos e sufocarmos nestas fezes. E assim, após desperdiçar nosso precioso Tempo, destruímos nossa insubstituível Vida.
Tempo e Vida são tão preciosos pois são únicos. Não há modo de recuperar o Tempo gasto e a Vida perdida. Nenhum cientista, engenheiro, médico, banqueiro, industrial, presidente, rei ou imperador pode devolver meus dois bebês. Eles eram únicos e preciosos, e se foram para sempre. Se foram para sempre, como meu avô, minha avó, meu tio, meu sogro e tantas pessoas que eu amava e ainda amo.
Nós barganhamos e negociamos os tesouros mais preciosos que possuímos, Tempo e Vida, por bugigangas descartáveis que rapidamente desfrutamos e ainda mais brevemente esquecemos. Trocamos nosso precioso Tempo para adquirir vãos, banais e efêmeros prazeres que mal preenchem o tédio de nossas vidas. Corremos, corremos e corremos para ganhar medalhas de plástico sem qualquer valor.
Levamos vidas atribuladas e fúteis, realizando conquistas ridículas e vazias. Nossos corações são terrenos baldios. Parafraseando Henri Bergson, quase cem anos atrás, compramos chapéus elegantes para cobrir o vácuo de nossas cabeças.
Comemos, e ainda assim permanecemos famintos. Há uma fome dentro de nós, e uma sede insaciável. Lutamos e agonizamos, torturados por nossos desejos sempre crescentes e insatisfeitos. Vivemos como cães loucos correndo atrás de carros.
Essa fome é tão cruel que nos compele a predar contra nós mesmos e nossa terra, água e ar. Somos predadores insaciáveis, devorando tudo a nossa frente e deixando um rastro de pútridas fezes atrás de nós, até o dia amargo em que precisaremos comer as próprias fezes que deixáramos para trás - e então, finalmente, submergir, nos afogarmos e sufocarmos nestas fezes. E assim, após desperdiçar nosso precioso Tempo, destruímos nossa insubstituível Vida.
Tempo e Vida são tão preciosos pois são únicos. Não há modo de recuperar o Tempo gasto e a Vida perdida. Nenhum cientista, engenheiro, médico, banqueiro, industrial, presidente, rei ou imperador pode devolver meus dois bebês. Eles eram únicos e preciosos, e se foram para sempre. Se foram para sempre, como meu avô, minha avó, meu tio, meu sogro e tantas pessoas que eu amava e ainda amo.
Em seus dois últimos anos, costumava visitar minha avó todo sábado, e passar o dia com ela e nossa família. Cada um daqueles sábados se tornou uma memória sagrada para mim. Posso lembrar de sua cabeça recostada na poltrona, cochilando depois do almoço. Era belo contemplar o descanso daquela velha cabeça, endurecida pelas batalhas da vida e abatida pelo tempo. Seu ronco suave soava como uma sinfonia. Victor Hugo estava certo quando dizia que há poucas visões mais belas que o sono dos bebês e dos idosos.
Minha avó nasceu em 1926, em Agostinho Porto, um pobre distrito do município de Nova Iguaçu, no Estado do Rio de Janeiro. Ela e seus irmãos costumavam catar carvão do leito da ferrovia, para poupar o carvão necessário para cozinhar em casa - eles colhiam as sobras do "progresso" que passava. Não havia geladeira em casa. Nem rádio, nem TV. Nunca faltou pão à mesa, mas ela já era adulta quando provou pela primeira vez o doce sabor do chocolate. Ela tinha 10 anos quando sua mãe faleceu dando à luz seu irmão caçula. Abandonou a escola para tomar conta da casa e dos irmãos. Eles eram pessoas pobres e trabalhavam duro para sobreviver, mas não era miseráveis. Eles escovavam os dentes com sabão, porque pasta de dente custava muito caro no Brasil, à época. Ela sobreviveu, prosperou e viveu uma longa vida, com seus momentos de alegria e sofrimento.
Quando criança e adolescente eu tinha modestos luxos com que minha avó e seus irmãos sequer podiam sonhar na mesma idade - eu tinha muitos brinquedos, chocolate, livros, quadrinhos, meu próprio toca-fitas... Minha mãe cresceu como uma pessoa de gostos e simples e me esforço para também sê-lo. Trabalho apenas o suficiente para garantir meu sustento e ter algum tempo para minha família, amigos, livros, filmes e games.
Sou uma pessoa realmente fácil de agradar. A verdadeira alegria é gratuita. Contemplar o céu e sentir a brisa em uma noite estrelada é gratuito. Beijar minha esposa é gratuito. Abraçar meu cãozinho é gratuito. Conversar com bons amigos é gratuito. Rir é gratuito. Lembrar de minha avó cochilando é gratuito. Todos esses grandes deleites são gratuitos! Gratuitos! Eles só me custam o precioso Tempo que não negociei por dinheiro.
Tenho esse precioso Tempo disponível, primeiro e sobretudo, porque evito dívidas. O trabalhador moderno está trancado, acorrentado e afogado por dívidas - para supremo deleite de banqueiros e outros predadores financeiros. O viajante do século XVI Jean de Léry comparava banqueiros a canibais comendo a carne e roendo os ossos de órfãos e viúvas - não é má analogia. Para o trabalhador assalariado, o endividamento é vendido como liberdade, mas termina como infindável escravidão. É uma armadilha.
Dívidas. Para quê? Consumo ostentatório para satisfazer insensatos desejos. Uma nova TV, um smartphone bacana, um carrão, uma viagem feita quase exclusivamente para postar fotos em redes sociais. Umas poucas bugigangas descartáveis e alguns dias de lazer que se transformam em meses, se não anos, de dívidas crescentes e esmagadoras. Nada além de chapéus caros para cobrir cabeças vazias e corações famintos.
Mas todos esses luxos têm um preço ainda mais alto. Todas essas TVs, smartphones e carros descartáveis - infelizmente - não crescem em árvores. Pelo contrário, muitas árvores são abatidas para que essas bugigangas sejam fabricadas. Minas são cavadas, vida silvestre é morta, rios são envenenados, ar é poluído para manufaturar todos esses inúteis itens de consumo que cedo ou tarde (geralmente cedo) acabam na lixeira.
Árvores centenárias são mortas para nos dar um mísero smartphone que será descartado seis meses depois. Trocar séculos por meses não é nada esperto. Podemos construir uma fábrica em meses, mas anos são necessários para que uma árvore cresça e prospere a partir de uma pequenina semente. Uma empresa pode falir em meses, mas uma boa árvore irá dar (não vender) oxigênio por anos. Oferecerá sombra para pessoas e abrigo para animais. Poucas coisas nesse planeta são ao mesmo tempo tão valiosas e baratas quanto uma árvore. Mas normalmente não pensamos assim. Uma árvore viva não significa Dinheiro, mas madeira morta, cortada em toras e tábuas, pode atingir um bom preço nos mercados certos.
E assim, precioso Tempo é gasto para matar valiosa Vida. Trocamos tesouros sem preço por mercadoria barata e consumo sem sentido. Que barganha estúpida! No fim das contas, sequer somos primatas muito espertos.
Agora mesmo, há alguns primatas bilionários (e também outros mais pobres) resmungando que deveríamos abandonar a quarentena e desistir de algumas vidas humanas para salvar "a economia" - o que significa sobretudo seus próprios ativos e patrimônios. Esse bilionários estão nos dizendo simplesmente que deveríamos fazer sacrifícios humanos para apaziguar o faminto deus Dinheiro. É uma terrível, grotesca e cínica reencenação dos verdadeiros sacrifícios humanos praticados por culturas de outrora em um contexto real de adoração e devoção. Esse clero capitalista merece o mesmo título dado séculos atrás a seus precursores por Jean de Léry: canibais comendo a carne e bebendo o sangue de órfãos e viúvas. Para tais pessoas, vidas humanas são simplesmente combustível para manter o motor da economia se movendo para lugar nenhum. É, quase literalmente, "cut-throat capitalism", "capitalismo selvagem".
Há algumas décadas cientistas vinham alertando sobre o perigo de "super-vírus" emergindo de florestas devastadas e da redução de habitats de animais silvestres, que tendem a se tornar superpovoados caldeirões para a fermentação de vírus, replicando e sofrendo mutações muitas e muitas vezes, eventualmente originando novas cepas poderosas e mortíferas. Quando se troca árvores por smartphones, a exploração madeireira e a mineração podem favorecer a emergência de semelhantes vírus como subprodutos indesejados. A ação humana em larga escala geralmente traz consequências não-intencionais e imprevisíveis. E as escalas são largas, pois um estômago tem limites, mas contas bancárias não.
A desigualdade social é outra aliada desses vírus. Em muito países e cidades africanos e asiáticos, as pessoas precisam recorrer a "wet markets", "mercados vivos", para comer proteína animal. Esses mercados não conseguem oferecer condições sanitárias adequadas, pois há poucas câmaras frigoríficas disponíveis (quando há alguma). Animais silvestres e domésticos são mantidos vivos nesses espaços confinados e superlotados e abatidos ali mesmo, tornando "wet markets" o ambiente perfeito para a fermentação de vírus, sua circulação entre espécies e subsequente surto. De fato, o COVID-19 começou a se espalhar no "wet market" de Wuhan - e de lá alcançou gente no mundo inteiro - incluindo pessoas ricas nas maiores megalópoles, vestindo ternos caros e comendo as melhores carnes em restaurantes elegantes. O vírus não tem preferências sobre quais humanos predar; ele simplesmente o faz, em qualquer lugar, a qualquer hora, onde possível.
O panorama da situação é relativamente simples. Em poucos anos tivemos epidemias modestas e locais e outras terríveis, como Ebola, SARS, H1N1, e agora o apavorante COVID-19. Se continuarmos destruindo florestas, e pessoas em países pobres continuarem a ter negado seu direito de comer alimentos adequadamente manejados, podemos aguardar mais e mais epidemias e pandemias nos anos e décadas por vir - inclusive mais rápidas e mortíferas. É o material com que se fazem os pesadelos.
Quanto mais devastarmos para consumir, mais forte os riscos ambientais baterão de volta. Quando predamos a natureza, predamos a nós mesmos. Nós fazemos parte da natureza, afinal de contas. NÓS SOMOS CARNE - a filósofa australiana Val Plumwood descobriu isso da pior maneira, sobrevivendo a um ataque de crocodilo. Mas temos dificuldade de aceitar essa realidade auto-evidente, como nota Plumwood:
No pensamento ocidental [...] o humano é posto à parte da natureza como radicalmente diferente. Religiões como o Cristianismo então buscam continuidade narrativa para o indivíduo na ideia de um "eu" autêntico que pertence ao reino imperecível acima da esfera inferior da natureza e da vida animal. A alma eterna é a parte real, duradoura e identificadora do "eu" humano, enquanto o corpo é animal e corrompido. [...] Me parece que na cultura de supremacia humana do Ocidente há um forte esforço para negar que nós humanos também somos animais posicionados na cadeia alimentar. Essa negação de que nós mesmos somos comida para outros se reflete em vários aspectos de nossas práticas funerárias. O caixão forte, convencionalmente enterrado bem abaixo do nível de atividade da fauna do solo, e a lápide sobre a tumba, para impedir que qualquer outra coisa nos escave de volta, impede o corpo humano ocidental de se tornar alimento para outras espécies. Filmes e histórias de horror também refletem esse terror profundamente enraizado de se tornar comida para outras formas de vida: horror é o cadáver coberto de vermes, vampiros sugando sangue e monstros alienígenas devorando humanos. Horror e ultraje geralmente acompanham histórias de outras espécies devorando humanos. Até ser picado por sanguessugas, moscas varejeiras ou mosquitos podem provocar vários níveis de histeria. [...] A ideia da presa humana ameaça a visão dualista da supremacia humana na qual os humanos manipulam a natureza de fora, como predadores, mas nunca como presas.
Como Stanley Milgram propôs décadas atrás, vivemos em um mundo pequeno e ele se tornar menor a cada dia. Partilhamos esse planeta como nossa casa comum. Em uma casa saudável não se pode esperar ter uma bela sala de jantar e uma cozinha imunda e ter boa comida à mesa. Agora mesmo, por assim dizer, Wuhan é a cozinha, a mesa está em Wall Street e COVID-19 está no menu. Devemos cuidar bem de nossa casa inteira, se quisermos viver bem e seguros nela.
Agora o mundo está quase completamente sob quarentena. Dessa vez, o meio-ambiente nos bateu tão forte que fomos obrigados a fazer uma amarga e indesejada parada.
Estamos assustados e aborrecidos, mas relatos ao redor do mundo nos dizem que o ar e a água estão mais limpos em vários lugares. Nós somos fortes, mas a natureza é ainda mais forte. Umas poucas semanas de desaceleração estão dando ao meio-ambiente uma chance de curar algumas feridas.
Se quisermos aprender alguma lição de todo este medo e sofrimento é que não apenas nós podemos desacelerar, como nós devemos desacelerar - para nosso próprio bem.
Afinal de contas, estamos sobrevivendo.
Podemos viver e prosperar com muito menos - como fez minha avó.
Podemos ter vidas significativas com menos consumo. Podemos desfrutar todas essas verdadeiras alegrias que são gratuitas - desde que nos concedamos Tempo.
Podemos preencher nossas cabeças com pensamentos significativos e dar adeus aos elegantes, caros e ridículos chapéus. Podemos compartilhar nossos sonhos com nossos filhos e nossos pais. Podemos ter tudo isso que não tem preço e faz nossas vidas valerem a pena.
Agora mesmo, temos a chance de quebrar esse ciclo perverso de consumo, dívida, exaustão e destruição.
Podemos sonhar e pavimentar a estrada para longe desse pesadelo agitado e sem sentido. Podemos construir pontes para um outro futuro, mais brilhante. Podemos escapar da tirania dos números e das metas de produção. Podemos retomar o senhorio sobre nossos insensatos desejos e deixar toda Vida ser vivida e amada.
Não será fácil. Muitos interesses estão em jogo. Temos dentro de nós mesmos essa fome por mais, e mais, e mais.
Deveríamos consumir menos e trabalhar menos.
Deveríamos partilhar mais equitativamente o produto de nossos esforços. Deveríamos reconhecer adequadamente o valor de tantos trabalhadores que são tão essenciais e tão mal pagos. Deveríamos mostrar nossa gratidão e respeito aos lixeiros que mantém nossas ruas saudáveis, aos faxineiros que limpam nossas escolas e hospitais, aos humildes fazendeiros que abastecem nossas mesas e todos aqueles trabalhadores cuja contribuição para nossas vidas é subestimada e mal recompensada.
Deveríamos desafiar os bilionários que ganham tanto e compartilham tão pouco. Eles podem viver com alguns bilhões a menos - e devem fazer isso. Eles precisam de nós muito mais que nós precisamos deles. Devemos ocupar Wall Street de novo e de novo, até que aquele 1% entenda que existimos. Quem eles pensam que são? Somos todos humanos, vivendo e sofrendo nesse planeta que partilhamos.
Deveríamos parar de adorar o deus Dinheiro e apaziguar suas necessidades com sangue.
Devemos nos importar realmente com as pessoas que sobrevivem com dificuldade, perto ou longe.
Devemos reconhecer o verdadeiro e profundo valor do Tempo e da Vida.
Mais que nunca, devemos nos esforçar para construir uma Vida melhor, mas sempre tendo em mente a sabedoria de Martin Luther King:
Mas há algo que devo dizer a meu povo que se encontra no cálido limiar que adentra ao palácio da justiça. No processo de ganhar nosso devido lugar não devemos ser culpados de malfeitos. Não tentemos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da taça da amargura e do ódio. Devemos sempre conduzir nossa luta no elevado plano da dignidade e da disciplina. Não podemos permitir que nosso criativo protesto degenere em violência física. De novo e de novo devemos nos erguer às majestosas alturas de encarar a força física com a força da alma.
E também devemos trazer em nossos corações as palavras de Gandhi:
Eu acredito que lutar contra aquilo que é imoral pressupõe oposição mental e, portanto, moral. Eu procuro neutralizar completamente a espada do tirano, não a trocando por um aço melhor, mas frustrando sua expectativa de encontrar em mim uma resistência física. Ele encontrará em mim uma resistência de alma que escapará à sua força. Tal resistência o ofuscará e forçará que se curve. E o fato de se curvar não humilhará o agressor, mas o enobrecerá.
Devemos lembrar o gesto de Rosa Parks - simplesmente se recusando a se levantar num ônibus e permanecendo em seu lugar, ela acendeu uma centelha que pôs em ação o Movimento dos Direitos Civis. Há grande poder nessas simples atitudes de força moral.
É simples de falar, mas muito difícil de fazer, de fato. Há tantas questões e tão poucas respostas.
O problema tem dimensões culturais, políticas e econômicas, todas emaranhadas e muito complexas.
Não é uma questão de dias ou anos, mas de décadas. Contudo, devemos começar agora mesmo.
O dia após a pandemia é o dia em que devemos começar nossa transformação.
Como sugere David Mitchell, somos todos apenas gotículas em um oceano - mas o que é um oceano, senão uma multidão de gotículas? Sejamos esse poderoso oceano.
Solidariamente,
Luiz Fabiano Tavares
Brasileiro, professor, historiador, humano
A versão original desse texto foi publicada em inglês sob o título "Post-Pandemic Manifest"; como dizia Umberto Eco, no mundo atual certas circunstâncias exigem que nos expressemos primeiro em inglês e apenas depois traduzir para nossa língua nativa - daí o procedimento.
domingo, 12 de abril de 2020
sábado, 11 de abril de 2020
"Tu vai morrer, Corona!"
"Eu tô putão! Eu tô puto contigo, Coronavirus! Eu vou te matar, Corona! Corona filho-da-puta! Tu vai morrer, Corona! Eu tô muito puto!"
De minha janela, acabo de ouvir esses gritos enfurecidos de um passante - ao que tudo indica, um paciente psiquiátrico.
Minha reação imediata foi o riso, mas provavelmente não há graça nenhuma. Antes de tudo, porque esses comportamentos exuberantes costumam ser o extravasamento de um inimaginável sofrimento íntimo.
Difícil imaginar o motivo de tamanha explosão de fúria. Talvez o passante em questão tenha algum ente querido doente ou até tenha perdido alguém. Talvez seja simplesmente reflexo do bombardeio midiático em torno do tema.
Me lembra o interessante livro O homem que se achava Napoleão - Por uma História política da loucura, da historiadora Laure Murat, que se debruçou sobre prontuários de pacientes internados em instituições psiquiátricas francesas durante a Revolução, constatando que muitos deles apresentavam delírios psicóticos relacionados ao contexto político. Um dos casos mais curiosos era de um homem que julgava ter sido guilhotinado e afirmava, contra todas as evidências, não ter mais cabeça.
Apesar de repetitiva (ou talvez por isso) a fala do homem que acaba de passar pelo meu prédio tem nuances muito elucidativas.
Antes de tudo, chama atenção o modo como ele personifica o vírus. Dirige-se a ele como se fosse uma pessoa humana, dotada de intencionalidade. Toma o vírus efetivamente por interlocutor, tratando-o na segunda pessoa.
Aos berros, revela ao vírus sua raiva e sua inequívoca intenção de vingança e de retribuir o malefício: "Eu vou te matar, Corona!" - uma ameaça que projeta sobre o próprio vírus a capacidade de sentir medo.
Creio que Lévy-Bruhl, Bergson, Huizinga e Lévi-Strauss, cada um a seu modo, teriam muito a dizer sobre a triste e curiosa cena passada em minha rua. Certas passagens de La pensée sauvage me vêm à mente enquanto traço essa reflexão. O pensamento "selvagem" dormita no homem "civilizado", e vem à tona na sibilina linguagem dos sonhos, das artes e da loucura.
De certo modo, o passante furioso se faz porta-voz de cada um de nós: estamos "putões" com o Corona, mas nossas cartesianas racionalizações nos impedem de expressar dessa maneira. Que são nossos esforços de criar vacinas e coqueteis antivirais senão essa mesma pulsão vital por matar o Corona? Não é a fé desesperada e irracional de alguns na milagrosa cloroquina um sentimento muito próximo ao do passante em seu delírio?
Espero, sinceramente, que esse homem fique bem e tenha quem o acolha em seu desespero.
De minha janela, acabo de ouvir esses gritos enfurecidos de um passante - ao que tudo indica, um paciente psiquiátrico.
Minha reação imediata foi o riso, mas provavelmente não há graça nenhuma. Antes de tudo, porque esses comportamentos exuberantes costumam ser o extravasamento de um inimaginável sofrimento íntimo.
Difícil imaginar o motivo de tamanha explosão de fúria. Talvez o passante em questão tenha algum ente querido doente ou até tenha perdido alguém. Talvez seja simplesmente reflexo do bombardeio midiático em torno do tema.
Me lembra o interessante livro O homem que se achava Napoleão - Por uma História política da loucura, da historiadora Laure Murat, que se debruçou sobre prontuários de pacientes internados em instituições psiquiátricas francesas durante a Revolução, constatando que muitos deles apresentavam delírios psicóticos relacionados ao contexto político. Um dos casos mais curiosos era de um homem que julgava ter sido guilhotinado e afirmava, contra todas as evidências, não ter mais cabeça.
Apesar de repetitiva (ou talvez por isso) a fala do homem que acaba de passar pelo meu prédio tem nuances muito elucidativas.
Antes de tudo, chama atenção o modo como ele personifica o vírus. Dirige-se a ele como se fosse uma pessoa humana, dotada de intencionalidade. Toma o vírus efetivamente por interlocutor, tratando-o na segunda pessoa.
Aos berros, revela ao vírus sua raiva e sua inequívoca intenção de vingança e de retribuir o malefício: "Eu vou te matar, Corona!" - uma ameaça que projeta sobre o próprio vírus a capacidade de sentir medo.
Creio que Lévy-Bruhl, Bergson, Huizinga e Lévi-Strauss, cada um a seu modo, teriam muito a dizer sobre a triste e curiosa cena passada em minha rua. Certas passagens de La pensée sauvage me vêm à mente enquanto traço essa reflexão. O pensamento "selvagem" dormita no homem "civilizado", e vem à tona na sibilina linguagem dos sonhos, das artes e da loucura.
De certo modo, o passante furioso se faz porta-voz de cada um de nós: estamos "putões" com o Corona, mas nossas cartesianas racionalizações nos impedem de expressar dessa maneira. Que são nossos esforços de criar vacinas e coqueteis antivirais senão essa mesma pulsão vital por matar o Corona? Não é a fé desesperada e irracional de alguns na milagrosa cloroquina um sentimento muito próximo ao do passante em seu delírio?
Espero, sinceramente, que esse homem fique bem e tenha quem o acolha em seu desespero.
quarta-feira, 8 de abril de 2020
Cinocracia
Cinocracia - Regime político onde os cães governam o mundo. Uma ideia que valeria a pena experimentar...
domingo, 5 de abril de 2020
Post-Pandemic Manifest
I am not an English speaker.
I am just a brazilian high-school teacher and a less than minor scholar. I am Nothing, even Less-than-Nothing. I am Nobody and Everyman at once.
I am mostly and deeply the father of two dead babies, Miguel and Luiz Miguel. Here I wage my skin and my soul on the game - I humbly beg you to listen my poor voice.
From the depths of sorrow I scream to you: hear the cry of a grieving father. I know in flesh, blood, heart and tears the limits of mankind. All the knowledge of Science and the might of Technology were not enough to save my stillborn children.
We are little more than smart apes with dellusions of grandeur. We are kids playing with knives, chainsaws and guns. We are as mortal and frail as were our Paleolithic ancestors, although we fool ourselves into believing we are demi-gods.
Now we are living and dying through our very own darkest hour. A miserable, invisible, microscopic virus is creeping and crawling among us, sneaking and preying our flesh with sharp teeth and claws. It takes much, much less than a tiger or a shark to tear a human being apart.
We are trembling in our houses, afraid of this vírus, as did our ancestors in their caves of the sabretooth lurking around. As the arrogant son of Daedalus soared the skies, we visited the moon - and we might fall as well. We may shout as Ajax on his rock and be crushed by the same lightining. Hybris always has its price.
The Lisbon earthquake in mid-eighteenth century made all the thinkers of Enlightenment dread and dream of a world where Man would be master of all things. We have been living for and through this dream and it looks more and more like a nightmare.
In the wake of Industrial Revolution we phantasized Science and Technology, like a magical cornucopia, could serve us a dazzling and endless supply of pleasures, delights and entertainment. For some of us, it really did and does.
As Dr. Faust, we accepted the mephistophelic bargain, and now we pay with our bodies, lives and souls.
We bargained and bartered the most precious treasures we hold, Time and Life, for expendable gadgets we soon enjoy and forget even sooner. We trade our precious Time to acquire vane, ludicrous and evanescent pleasures that barely fulfill the boredom of our lives. We run, and run, and run to win plastic medals of no worth.
We live busy and futile lives, accomplishing ridiculous and empty conquests. Our hearts are wastelands. Paraphrasing Henri Bergson, almost one century ago, we buy fancy hats to cover the void of our heads.
We eat, and yet we starve. There is a hunger inside us, and an unquencheable thirst. We struggle and agonize, tortured by our ever growing and unfulfilled desires. We live like mad dogs chasing cars.
This hunger is so cruel that it compells us to prey upon ourselves and our earth, water and air. We are unsatiable predators, devouring everything ahead of us and leaving a trail of putrid feces behind us, until the bitter day we should eat the very feces we once left behind - and then, finally, submerge, drown and choke in those feces. And thus, after wasting our precious Time, we destroy our irreplaceable Life.
Time and Life are so precious because they are unique. There is no way to recover the Time we spent and the Life we lost. No scientist, no engineer, no physician, no banker, no industrialist, no president, no king, no emperor can give back my two babies. They were unique and precious, and they are forever gone. Forever gone, as my grandpa, my grandma, my uncle, my dad-in-law and so many people I held and still hold so dear.
In her last two years, I used to visit my grandma every Saturday, and spend the day along with her and our family. Each of those Saturdays are now sacred memories for me. I can remember her head leaning on the couch, napping after lunch. It was beautiful to comtemplate the rest of that old head, battle hardened and weather beaten. Her soft snoring sounded like a symphony. Victor Hugo was right when he said there are few sights more beatiful than the sleep of the babies and the elderly.
My gradma was born 1926, in Agostinho Porto, a poor village of Rio de Janeiro State. She and her siblings used to gather coal from the railway, to spare the coal needed to cook - they harvested the leftovers of the passing "progress". There was no fridge at home. No radio, no TV. The table never missed bread, but she was an adult when she tasted the sweetness of chocolate for the first time. She was 10 when her mother died giving birth to her younger brother. She left the school to take care of home and siblings. They were poor, hard working people, but not miserable. They brushed their teeth with soap, because toothpaste was then too expensive in Brazil. She survived, she thrived and lived a long life, with its moments of joy and sorrow.
As a kid and teenager I had modest luxuries my grandma and her siblings could not even dream of at the same age - I had many toys, chocolate, books, comic books, my own K7 player... My mother grew to be a person of simple tastes and so I strive to be. I work just enough to earn a living and have some time to my family, friends, books, movies and games.
I am a person really easy to please. True joy is free. Stare the sky and feel the the breeze in a starry night is free. Kiss my wife is free. Cuddle my little dog is free. Talk with good friends is free. Laughter is free. Remember my napping grandma is free. All those great delights are free! Free! They cost me only the precious Time I did not barter for money.
I can afford myself this precious Time, first and foremost, because I avoid debts. The modern worker is locked, chained and drown by debts - for utmost delight of bankers and other financial predators. Sixteenth century traveller Jean de Léry compared bankers to cannibals eating the flesh and chewing the bones of orphans and widows - it is not a bad analogy. For the salaried employee, debt is sold as freedom, but ends like unending slavery. It is a trap.
Debts. What for? Conspicuous consumption to fulfill foolish desires. A new TV, a shiny smartphone, a sleek car, a travel made almost exclusively to post pictures on social networks. A few expendable gadgets and some days of leisure that wind up to months, if not years, of growing and crushing debts. Nothing but expensive hats to cover empty heads and hungry hearths.
But all those luxuries have an even higher price. All those expendable TVs, smartphones and cars - unfortunately - do not grow on trees. Au contraire, many trees happen to be cut for those gadgets to be made. Mines are dug, wild life is killed, rivers are poisoned, air is polluted to manufacture all those useless items of consumption that sooner or later (rather sooner) end up in the garbage.
Centuries old trees are killed to give us a puny smartphone that will be discarded six months later. Trading centuries for months is not smart at all. We can build a factory in months, but years are needed for a tree to grow and thrive from a tiny little seed. An enterprise may go bankrrupt in months, but a good tree will give (not sell) oxygen for years. It will offer shadow for people and shelter for animals. Few things in this planet are at once worthier and cheaper than a tree. But we do not usually think so. A living tree means no Money, but dead wood, cut in logs and planks, can reach a good price in the right markets.
And so, precious Time is spent to kill worthy Life. We trade priceless treasures for cheap merchandise and meaningless consumption. What a stupid bargain! We are not even very smart apes, after all.
Right now, there are billionaire apes (and some poorer, too) grumbling that we should abandon quarantine and hand over some human lives to save "the economy" - wich mostly means their own assets and patrimony. Those billionaires are simply telling us that we should make human sacrifices to appease the hungry god Money. It is a dreadful, pitiful and cynical reenactement of true human sacrifices made by foregone cultures in a real context of worship and devotion. This capitalist clergy deserves the same title given to their precursors centuries ago by Jean de Léry: cannibals eating the flesh and drinking the blood of orphans and widows. For such people, human lives are just fuel to keep the engine of economy moving to nowhere. It is, quite literally, "cut-throat capitalism".
From decades now, scientists have been alerting from the dangers of "super-viruses" emerging from devastated forests and shrinking wildlife habitats, which tend to become overpopulated brewing cauldrons for viruses to replicate and mutate times and times again, eventually giving birth to powerful and deadlier new strains. When you trade trees for smartphones, logging and mining can favor the emergency of such viruses as undesired byproducts. Human action in large scale usually has unintended and unpredictable consequences. And the scales are large, since a stomach has limits, but bank accounts do not.
Social inequality is another ally of such viruses. In many african and asian countries and cities, people must rely on "wet markets" to eat animal protein. Those markets cannot afford to offer proper sanitary conditions, as there are few (if any) fridge chambers available. Wild and domesticated animals are kept alive in those confined and overcrowded spaces and butchered on spot, making wet markets the perfect environment for the brewing of viroses, exchange between species and subsequent outbreak. Indeed, COVID-19 began to spread in the wet market of Wuhan - and from there it reached people all over the world - including rich people in the world greatest megalopolis, wearing expensive suits and eating the finest meats in nice restaurants. The virus is not picky on which humans to prey at; it just do it, anywhere, anytime, wherever possible.
The outline of the situation is relatively simple. In a few years we had minor, local epidemies, and terrible ones, like Ebola, SARS, H1N1, and now dreadful COVID-19. If we keep destroying forests, and people in poorer countries continue to have denied their right to eat properly handled food, we may expect more and more epidemics and pandemics in the years and decades to come - even quicker and deadlier ones. It is the matter nightmares are made off.
The more we devastate to consume, the harder environmental hazards will hit back. When we prey upon nature, we prey upon ourselves. We are nature and nature is us, after all. WE ARE MEAT -australian philosopher Val Plumwood discovered it the hardest of ways, surviving a crocodile attack. But this self-evident reality is hard for us to accept, as Plumwood notes:
As Stanley Milgram proposed decades ago, we live in a small world and it gets smaller every day. We share this planet as our common house. In a healthy house you can't expect to have a pretty dinning room and a filthy kitchen and get good food at the table. Right now, so to speak, Wuhan is the kitchen, the table is at Wall Street and COVID-19 is on the menu. We must take good care of our entire house, if we want to live well and safe in it.
Now the world is almost completely under quarantine. This time, environment stroke us so hard that we were obliged to take an unwilling and bitter halt.
We are scared and annoyed, but reports from around the world tell us air and water are cleaner in many places. We are strong, but nature is even stronger. A few weeks of slowing down are giving the environment a chance of heal some wounds.
If we are willing to learn a lesson from all this fear and suffering, is that not only we can slow down, as we should slow down - for our own good.
After all, we are surviving.
We can live and thrive with much less - as did my grandma.
We can have meaningful lives with less consumption. We can enjoy all those real joys that are free - since we give ourselves Time.
We can fill our heads with meaningful thoughts and part ways with the fancy, expensive and ridiculous hats. We can share our dreams with our children and our parents. We can have all that is priceless and make our lives worth living.
Right now, we have the chance to break this perverse cycle of consuption, debt, exhaustion and destruction.
We can dream and pave the road away from this busy and meaningless nightmare. We can build the bridges to another, brighter future. We can fly away from the tirany of numbers, production goals. We can regain mastery over our foolish desires and let all Life be lived and loved.
It will not be easy. Many interests are at stake. We have within our very selves this hunger for more, and more, and more.
We should consume less and work less.
We should share more equally the product of our efforts. We should rightfully acknowledge the worth of so many workers that are so essential and so underpaid. We should show our gratitude and respect for the garbage men that keep our streets healthy, for the janitors that clean our schools and hospitals, for the humble farmer that supply our tables and all those workers whose contribution to our lives is underestimated and unrewarded.
We should challenge the billionaires that earn so much and share so little. They can live with some billions less - and they must do so. They need us much more than we need them. We must occupy Wall Street again and again, until that 1% understand we exist. Who they think they are? We are all humans, living and suffering in this planet we share.
We should stop worshipping god Money and appeasing his needs with blood.
We must really care about the people that live through hard times, near or far.
We must acknowledge the true and deep worth of Time and Life.
More than ever, we should strive to build a better Life, but Always keeping in mind the wisdom of Martin Luther King:
It is simple to say, but very hard to do, indeed. There are so many questions and so few answers.
The problem has cultural, political and economical dimmensions, all entangled and very complex.
It is not a matter of days or years, but of decades. However, we must begin right now.
The day after the pandemic is the day we must begin to change.
As suggests David Mitchell, we all are only droplets in an ocean - but what is an ocean if not a multitude of droplets? Let us be this powerful ocean.
In solidarity,
Luiz Fabiano Tavares
Brazilian, teacher, historian, human
I am just a brazilian high-school teacher and a less than minor scholar. I am Nothing, even Less-than-Nothing. I am Nobody and Everyman at once.
I am mostly and deeply the father of two dead babies, Miguel and Luiz Miguel. Here I wage my skin and my soul on the game - I humbly beg you to listen my poor voice.
From the depths of sorrow I scream to you: hear the cry of a grieving father. I know in flesh, blood, heart and tears the limits of mankind. All the knowledge of Science and the might of Technology were not enough to save my stillborn children.
We are little more than smart apes with dellusions of grandeur. We are kids playing with knives, chainsaws and guns. We are as mortal and frail as were our Paleolithic ancestors, although we fool ourselves into believing we are demi-gods.
Now we are living and dying through our very own darkest hour. A miserable, invisible, microscopic virus is creeping and crawling among us, sneaking and preying our flesh with sharp teeth and claws. It takes much, much less than a tiger or a shark to tear a human being apart.
We are trembling in our houses, afraid of this vírus, as did our ancestors in their caves of the sabretooth lurking around. As the arrogant son of Daedalus soared the skies, we visited the moon - and we might fall as well. We may shout as Ajax on his rock and be crushed by the same lightining. Hybris always has its price.
The Lisbon earthquake in mid-eighteenth century made all the thinkers of Enlightenment dread and dream of a world where Man would be master of all things. We have been living for and through this dream and it looks more and more like a nightmare.
In the wake of Industrial Revolution we phantasized Science and Technology, like a magical cornucopia, could serve us a dazzling and endless supply of pleasures, delights and entertainment. For some of us, it really did and does.
As Dr. Faust, we accepted the mephistophelic bargain, and now we pay with our bodies, lives and souls.
We bargained and bartered the most precious treasures we hold, Time and Life, for expendable gadgets we soon enjoy and forget even sooner. We trade our precious Time to acquire vane, ludicrous and evanescent pleasures that barely fulfill the boredom of our lives. We run, and run, and run to win plastic medals of no worth.
We live busy and futile lives, accomplishing ridiculous and empty conquests. Our hearts are wastelands. Paraphrasing Henri Bergson, almost one century ago, we buy fancy hats to cover the void of our heads.
We eat, and yet we starve. There is a hunger inside us, and an unquencheable thirst. We struggle and agonize, tortured by our ever growing and unfulfilled desires. We live like mad dogs chasing cars.
This hunger is so cruel that it compells us to prey upon ourselves and our earth, water and air. We are unsatiable predators, devouring everything ahead of us and leaving a trail of putrid feces behind us, until the bitter day we should eat the very feces we once left behind - and then, finally, submerge, drown and choke in those feces. And thus, after wasting our precious Time, we destroy our irreplaceable Life.
Time and Life are so precious because they are unique. There is no way to recover the Time we spent and the Life we lost. No scientist, no engineer, no physician, no banker, no industrialist, no president, no king, no emperor can give back my two babies. They were unique and precious, and they are forever gone. Forever gone, as my grandpa, my grandma, my uncle, my dad-in-law and so many people I held and still hold so dear.
In her last two years, I used to visit my grandma every Saturday, and spend the day along with her and our family. Each of those Saturdays are now sacred memories for me. I can remember her head leaning on the couch, napping after lunch. It was beautiful to comtemplate the rest of that old head, battle hardened and weather beaten. Her soft snoring sounded like a symphony. Victor Hugo was right when he said there are few sights more beatiful than the sleep of the babies and the elderly.
My gradma was born 1926, in Agostinho Porto, a poor village of Rio de Janeiro State. She and her siblings used to gather coal from the railway, to spare the coal needed to cook - they harvested the leftovers of the passing "progress". There was no fridge at home. No radio, no TV. The table never missed bread, but she was an adult when she tasted the sweetness of chocolate for the first time. She was 10 when her mother died giving birth to her younger brother. She left the school to take care of home and siblings. They were poor, hard working people, but not miserable. They brushed their teeth with soap, because toothpaste was then too expensive in Brazil. She survived, she thrived and lived a long life, with its moments of joy and sorrow.
As a kid and teenager I had modest luxuries my grandma and her siblings could not even dream of at the same age - I had many toys, chocolate, books, comic books, my own K7 player... My mother grew to be a person of simple tastes and so I strive to be. I work just enough to earn a living and have some time to my family, friends, books, movies and games.
I am a person really easy to please. True joy is free. Stare the sky and feel the the breeze in a starry night is free. Kiss my wife is free. Cuddle my little dog is free. Talk with good friends is free. Laughter is free. Remember my napping grandma is free. All those great delights are free! Free! They cost me only the precious Time I did not barter for money.
I can afford myself this precious Time, first and foremost, because I avoid debts. The modern worker is locked, chained and drown by debts - for utmost delight of bankers and other financial predators. Sixteenth century traveller Jean de Léry compared bankers to cannibals eating the flesh and chewing the bones of orphans and widows - it is not a bad analogy. For the salaried employee, debt is sold as freedom, but ends like unending slavery. It is a trap.
Debts. What for? Conspicuous consumption to fulfill foolish desires. A new TV, a shiny smartphone, a sleek car, a travel made almost exclusively to post pictures on social networks. A few expendable gadgets and some days of leisure that wind up to months, if not years, of growing and crushing debts. Nothing but expensive hats to cover empty heads and hungry hearths.
But all those luxuries have an even higher price. All those expendable TVs, smartphones and cars - unfortunately - do not grow on trees. Au contraire, many trees happen to be cut for those gadgets to be made. Mines are dug, wild life is killed, rivers are poisoned, air is polluted to manufacture all those useless items of consumption that sooner or later (rather sooner) end up in the garbage.
Centuries old trees are killed to give us a puny smartphone that will be discarded six months later. Trading centuries for months is not smart at all. We can build a factory in months, but years are needed for a tree to grow and thrive from a tiny little seed. An enterprise may go bankrrupt in months, but a good tree will give (not sell) oxygen for years. It will offer shadow for people and shelter for animals. Few things in this planet are at once worthier and cheaper than a tree. But we do not usually think so. A living tree means no Money, but dead wood, cut in logs and planks, can reach a good price in the right markets.
And so, precious Time is spent to kill worthy Life. We trade priceless treasures for cheap merchandise and meaningless consumption. What a stupid bargain! We are not even very smart apes, after all.
Right now, there are billionaire apes (and some poorer, too) grumbling that we should abandon quarantine and hand over some human lives to save "the economy" - wich mostly means their own assets and patrimony. Those billionaires are simply telling us that we should make human sacrifices to appease the hungry god Money. It is a dreadful, pitiful and cynical reenactement of true human sacrifices made by foregone cultures in a real context of worship and devotion. This capitalist clergy deserves the same title given to their precursors centuries ago by Jean de Léry: cannibals eating the flesh and drinking the blood of orphans and widows. For such people, human lives are just fuel to keep the engine of economy moving to nowhere. It is, quite literally, "cut-throat capitalism".
From decades now, scientists have been alerting from the dangers of "super-viruses" emerging from devastated forests and shrinking wildlife habitats, which tend to become overpopulated brewing cauldrons for viruses to replicate and mutate times and times again, eventually giving birth to powerful and deadlier new strains. When you trade trees for smartphones, logging and mining can favor the emergency of such viruses as undesired byproducts. Human action in large scale usually has unintended and unpredictable consequences. And the scales are large, since a stomach has limits, but bank accounts do not.
Social inequality is another ally of such viruses. In many african and asian countries and cities, people must rely on "wet markets" to eat animal protein. Those markets cannot afford to offer proper sanitary conditions, as there are few (if any) fridge chambers available. Wild and domesticated animals are kept alive in those confined and overcrowded spaces and butchered on spot, making wet markets the perfect environment for the brewing of viroses, exchange between species and subsequent outbreak. Indeed, COVID-19 began to spread in the wet market of Wuhan - and from there it reached people all over the world - including rich people in the world greatest megalopolis, wearing expensive suits and eating the finest meats in nice restaurants. The virus is not picky on which humans to prey at; it just do it, anywhere, anytime, wherever possible.
The outline of the situation is relatively simple. In a few years we had minor, local epidemies, and terrible ones, like Ebola, SARS, H1N1, and now dreadful COVID-19. If we keep destroying forests, and people in poorer countries continue to have denied their right to eat properly handled food, we may expect more and more epidemics and pandemics in the years and decades to come - even quicker and deadlier ones. It is the matter nightmares are made off.
The more we devastate to consume, the harder environmental hazards will hit back. When we prey upon nature, we prey upon ourselves. We are nature and nature is us, after all. WE ARE MEAT -australian philosopher Val Plumwood discovered it the hardest of ways, surviving a crocodile attack. But this self-evident reality is hard for us to accept, as Plumwood notes:
In Western thinking [...] the human is set apart from nature as radically other. Religions like Christianity must then seek narrative continuity for the individual in the idea of an authentic self that belongs to an imperishable realm above the lower sphere of nature and animal life. The eternal soul is the real, enduring and identifying part of the human self, while the body is animal and corrupting. [...] It seems to me that in the human supremacist culture of the West there is a strong effort to deny that we humans are also animals positioned in the food chain. This denial that we ourselves are food for others is reflected in many aspects of our death and burial practices. The strong coffin, conventionally buried well below the level of soil fauna activity, and the slab over the grave to prevent any other thing to dig us up, keeps the Western human body from becoming food for other species. Horror movies and stories also reflect this deep-seated dread of becoming food for other forms of life: Horror is the wormy corpse, vampires sucking blood, and alien monsters eating humans. Horror and outrage usually greet stories of other species eating humans. Even being nibbled by leeches, sandflies, and mosquitoes can stir various levels of hysteria. [...] The idea of human prey threatens the dualistic vision of human mastery in which we humans manipulate nature from outside, as predators but never prey.
As Stanley Milgram proposed decades ago, we live in a small world and it gets smaller every day. We share this planet as our common house. In a healthy house you can't expect to have a pretty dinning room and a filthy kitchen and get good food at the table. Right now, so to speak, Wuhan is the kitchen, the table is at Wall Street and COVID-19 is on the menu. We must take good care of our entire house, if we want to live well and safe in it.
Now the world is almost completely under quarantine. This time, environment stroke us so hard that we were obliged to take an unwilling and bitter halt.
We are scared and annoyed, but reports from around the world tell us air and water are cleaner in many places. We are strong, but nature is even stronger. A few weeks of slowing down are giving the environment a chance of heal some wounds.
If we are willing to learn a lesson from all this fear and suffering, is that not only we can slow down, as we should slow down - for our own good.
After all, we are surviving.
We can live and thrive with much less - as did my grandma.
We can have meaningful lives with less consumption. We can enjoy all those real joys that are free - since we give ourselves Time.
We can fill our heads with meaningful thoughts and part ways with the fancy, expensive and ridiculous hats. We can share our dreams with our children and our parents. We can have all that is priceless and make our lives worth living.
Right now, we have the chance to break this perverse cycle of consuption, debt, exhaustion and destruction.
We can dream and pave the road away from this busy and meaningless nightmare. We can build the bridges to another, brighter future. We can fly away from the tirany of numbers, production goals. We can regain mastery over our foolish desires and let all Life be lived and loved.
It will not be easy. Many interests are at stake. We have within our very selves this hunger for more, and more, and more.
We should consume less and work less.
We should share more equally the product of our efforts. We should rightfully acknowledge the worth of so many workers that are so essential and so underpaid. We should show our gratitude and respect for the garbage men that keep our streets healthy, for the janitors that clean our schools and hospitals, for the humble farmer that supply our tables and all those workers whose contribution to our lives is underestimated and unrewarded.
We should challenge the billionaires that earn so much and share so little. They can live with some billions less - and they must do so. They need us much more than we need them. We must occupy Wall Street again and again, until that 1% understand we exist. Who they think they are? We are all humans, living and suffering in this planet we share.
We should stop worshipping god Money and appeasing his needs with blood.
We must really care about the people that live through hard times, near or far.
We must acknowledge the true and deep worth of Time and Life.
More than ever, we should strive to build a better Life, but Always keeping in mind the wisdom of Martin Luther King:
But there is something that I must say to my people who stand on the warm threshold which leads into the palace of justice. In the process of gaining our rightful place we must not be guilty of wrongful deeds. Let us not seek to satisfy our thirst for freedom by drinking from the cup of bitterness and hatred. We must forever conduct our struggle on the high plane of dignity and discipline. We must not allow our creative protest to degenerate into physical violence. Again and again we must rise to the majestic heights of meeting physical force with soul force.And we must also keep in our hearts the words of Gandhi:
I believe that fighting against what is immoral presupposes mental and, therefore, moral opposition. I seek to completely neutralize the sword of the tyrant, not by exchanging it for better steel, but by deceiving his expectation of finding in me a physical resistance. He will find in me a soul resistance that will escape his strength. Such resistance will dazzle him and force him to bow. And the fact of bowing will not humiliate the aggressor, but will praise him.We must remember the gesture of Rosa Parks - by simply refusing to stand up in a bus and remaining on her seat, she ignited a spark that put in motion the Civil Rights Movement. There is great power in those simple attitudes of moral strength.
It is simple to say, but very hard to do, indeed. There are so many questions and so few answers.
The problem has cultural, political and economical dimmensions, all entangled and very complex.
It is not a matter of days or years, but of decades. However, we must begin right now.
The day after the pandemic is the day we must begin to change.
As suggests David Mitchell, we all are only droplets in an ocean - but what is an ocean if not a multitude of droplets? Let us be this powerful ocean.
In solidarity,
Luiz Fabiano Tavares
Brazilian, teacher, historian, human
sábado, 4 de abril de 2020
Prioridades cariocas
Há alguns anos, assistia a uma emissão do programa do falecido chef Anthony Bourdain onde ele visitava o Rio de Janeiro para conhecer a culinária e a cultura locais. Em dado momento, Bourdain visitava uma favela (Rocinha, se não me engano) e conversava com um idoso morador, que afirmava peremptoriamente:
"A coisa mais importante que se pode ensinar para essas crianças é soltar pipa".
Para um professor suburbano do asfalto, como eu, a declaração soou no mínimo curiosa. Não julgo. Até entendo que a pipa, para muita gente (adulta, inclusive) é um lazer barato, que preenche inofensivamente as horas de ócio e distrai do cansaço da dura labuta diária.
No entanto, tal afirmação é muito reveladora da ordem de prioridades na formação de muitas de nossas crianças e jovens. Por elitista que soe, sabemos muito bem que o cultivo da cidadania plena requer competências muito mais importantes que soltar pipa.
Há poucos minutos, de minha suburbana janela, ouvi um comentário de dois rapazes acerca de um terceiro que bem ressoa a recomendação do velho senhor ao chef estrangeiro:
"Caramba... Ele não sabe jogar bola... Não sabe soltar pipa... Não sabe jogar baralho... Não sabe fazer nada!"
Ainda aqui vemos que a imagem do "incapaz" se define pela carência de competências que tampouco contribuem para o exercício da cidadania: bola, pipa, baralho... Vale comparar com os jovens sul-coreanos que vão para as ruas torcer pelos secundaristas nos dias de processo seletivo para as universidades.
Não é questão de menosprezar a cultura nacional ou carioca, nem de endeusar aos estrangeiros; os sul-coreanos também lidam lá com seus problemas e neuroses.
Ainda assim, esses pequenos instantâneos da vida carioca e brasileira dão bem a dimensão dos desafios sociais e culturais que temos pela frente para que vivamos numa terra de cidadania mais viva e ativa.
Pipas, bolas e baralhos são bacanas, mas, como vaticinava Monteiro Lobato, "um país se constrói com homens e livros".
Livros...
"A coisa mais importante que se pode ensinar para essas crianças é soltar pipa".
Para um professor suburbano do asfalto, como eu, a declaração soou no mínimo curiosa. Não julgo. Até entendo que a pipa, para muita gente (adulta, inclusive) é um lazer barato, que preenche inofensivamente as horas de ócio e distrai do cansaço da dura labuta diária.
No entanto, tal afirmação é muito reveladora da ordem de prioridades na formação de muitas de nossas crianças e jovens. Por elitista que soe, sabemos muito bem que o cultivo da cidadania plena requer competências muito mais importantes que soltar pipa.
Há poucos minutos, de minha suburbana janela, ouvi um comentário de dois rapazes acerca de um terceiro que bem ressoa a recomendação do velho senhor ao chef estrangeiro:
"Caramba... Ele não sabe jogar bola... Não sabe soltar pipa... Não sabe jogar baralho... Não sabe fazer nada!"
Ainda aqui vemos que a imagem do "incapaz" se define pela carência de competências que tampouco contribuem para o exercício da cidadania: bola, pipa, baralho... Vale comparar com os jovens sul-coreanos que vão para as ruas torcer pelos secundaristas nos dias de processo seletivo para as universidades.
Não é questão de menosprezar a cultura nacional ou carioca, nem de endeusar aos estrangeiros; os sul-coreanos também lidam lá com seus problemas e neuroses.
Ainda assim, esses pequenos instantâneos da vida carioca e brasileira dão bem a dimensão dos desafios sociais e culturais que temos pela frente para que vivamos numa terra de cidadania mais viva e ativa.
Pipas, bolas e baralhos são bacanas, mas, como vaticinava Monteiro Lobato, "um país se constrói com homens e livros".
Livros...
Imago Dei...?
Então Deus disse, "Façamos a humanidade a nossa imagem de acordo com nossa semelhança; e deixemo-los dominar sobre os peixes do mar, e sobre as aves do ar, e sobre o gado, e sobre todos os animais selvagens da terra, e sobre toda coisa rastejante que rasteja sobre a terra" (Genesis 1:26).
Uma montanha de comentários foi devotada a este texto. A que se refere a imago Dei, e que tipo de poder ela inspira e legitima? Qual é o sentido, como o texto à frente elabora, de ser fértil em número e subjugar a terra (1:28)?
As respostas a essas questões têm sido diversas e numerosa. O que eu gostaria de destacar, todavia, é o papel dessa passagem no desenvolvimento de várias ramificações do excepcionalismo humano, e seu emprego para inspirar e garantir a moderna busca por controlar a natureza e arquitetar ["engineer"] a vida. Como historiadores como Peter Harrison e Rémi Brague defenderam, o desejo científico de conhecer o mundo, e a obsessão tecnológica para refazer o mundo, podem ser entendidas como uma variante moderna, frequentemente secular, do desejo de restaurar os seres humanos à sua natureza deificada. Retomar a imago Dei nessa leitura significar adquirir o conhecimento e desenvolver o poder que libera as pessoas do esforço físico que as confronta com os limites e necessidades da vida corporal. Isso as coloca em um caminho para o que ecomodernistas vêm descrevendo como um bom Antropoceno* - um caminho em que catástrofes são engenhosamente evitadas e a criatividade e as liberdades humanas florescem.
O desejo de libertar a humanidade de doença, fome, e tanta miséria e labuta é certamente recomendável. Mas o desejo de assumir uma posição deificada no mundo também é supremamente perigoso, pois tão frequentemente resulta na subjugação e instrumentalização de pessoas e lugares. Posto nos termos do texto de Gênesis que nos deu a imago Dei, isso pode levar a presunção, orgulho e poder que eventualmente levam Deus a dizer a Noé: "Eu determinei dar fim a toda carne, pois a terra está repleta de violência" (6:13). Quando as pessoas se elevam acima daquilo que podemos chamar de sua condição "criatural" ["creaturely"], finita e necessitada, como quando elas buscam se isentar do cuidado dos outros e seus lugares, elas também põem em movimento padrões de comportamento que irão inevitavelmente violar os outros e sua capacidade de existir.
Liberdade, neste contexto, significa a emancipação da humanidade das necessidades e cuidados da vida "criatural" conjunta. Esta liberdade busca uma posição autônoma e autárquica no mundo, uma posição em que a liberdade de ser é melhor realizada no poder de estar sozinho e gozar a vida de acordo com os termos de sua escolha individual. A construção da torre de Babel, uma torre que poderia elevar os humanos aos páramos celestes (11:4), e assim posiciona-los para obliterar a distinção entre o humano e o divino, não foi senão uma precoce expressão do sonho tecno-utópico que nos leva ao Antropoceno.
*Antropoceno - termo proposto e discutido por alguns acadêmicos de diversas disciplinas das ciências naturais e humanas para postular a ideia de que hoje vivemos uma nova era geológica, posterior ao Holoceno, em que o conjunto da ação econômica e tecnológica humana chega a se projetar como uma verdadeira "força da natureza" capaz de alterar severamente a constituição ecológica de nosso planeta.
Can we live in a world without a Sabbath? - Interessante provocação de Norman Wirzba, nesses tempos em que um reles vírus põe em causa a supremacia humana sobre toda a vida planetária; é bem verdade que Gênesis menciona apenas peixes, pássaros, gado, animais selvagens e rastejantes... Teria a esfera microbiana ficado de fora das cláusulas do pacto adâmico?!
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| Michelangelo e a "Imago Dei" - sem vírus à vista... |
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sexta-feira, 3 de abril de 2020
FEBEAPÁ 2020
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| Preciso do Stanislaw Ponte Preta para entender essa imagem. Exige tanta maestria semi-ótica que só furando um olho para decifrar. |
quarta-feira, 1 de abril de 2020
Da diversidade do pensar
Sou socialista desde os 13 aninhos de idade e me deleito lendo bons autores liberais e conservadores. Me sento prazerosamente para conversar com qualquer pessoa educada e interessante, pouco me importando suas opiniões políticas, crenças religiosas, gostos ou desgostos. Só não consigo suportar gente bitolada e grosseira - a estes deixo um polido cumprimento e sigo em frente.
Prefiro sempre a discordância educada e inteligente à tediosa e bovina concordância das opiniões mastigadas e ruminadas. O contato com outras perspectivas me faz mudar, crescer e amadurecer; o cômodo consenso das "panelinhas" nos faz estiolar e murchar, numa eterna e insuportável adolescência.
Prefiro ser heterodoxo e imprevisível em tudo que faço e penso; aqueles que se enganam com minha aparente docilidade cedo ou tarde descobrem que estão diante de um chucro cavalo-de-Przewalski - é possível me seduzir, mas impossível domesticar. Não mordo, mas escoiceio (educadamente) quem tente me encilhar.
Prefiro o crescimento inquietante e desafiador ao pertencimento confortável e conveniente. O horizonte infinito da estepe me atrai mais que a limitadora tranquilidade do pasto...
Prefiro sempre a discordância educada e inteligente à tediosa e bovina concordância das opiniões mastigadas e ruminadas. O contato com outras perspectivas me faz mudar, crescer e amadurecer; o cômodo consenso das "panelinhas" nos faz estiolar e murchar, numa eterna e insuportável adolescência.
Prefiro ser heterodoxo e imprevisível em tudo que faço e penso; aqueles que se enganam com minha aparente docilidade cedo ou tarde descobrem que estão diante de um chucro cavalo-de-Przewalski - é possível me seduzir, mas impossível domesticar. Não mordo, mas escoiceio (educadamente) quem tente me encilhar.
Prefiro o crescimento inquietante e desafiador ao pertencimento confortável e conveniente. O horizonte infinito da estepe me atrai mais que a limitadora tranquilidade do pasto...
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| Cavalo-de-Przewalski - A inquieta besta das estepes |
Caos, Ordem e Ilusão
Se eu fosse um teólogo ou filósofo do século XVII, veria aí um maravilhoso emblema de simpatia, afinidade, sintonia ou algo assim... Os pensadores barrocos faziam a festa com esse tipo de coisa... Caos e Ordem são apenas ilusões entrelaçadas numa dança - talvez "meta-ordenada" - que não podemos compreender.
Um bom 1º de abril per tutti!
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