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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Avaaz - Reunião Global dos Cidadãos de Emergência

Acabo de postar minha contribuição na "Reunião Global" proposta pela Avaaz. A iniciativa visa coletar opiniões para definir os rumos da Avaaz a curto, médido e longo prazo. Participe! Redigi o texto original em inglês, mas posto aqui a tradução em português primeiro:

1) As pessoas deveriam se escutar mais, e conversar. Democracia É diálogo. Todo mundo (ou quase) tem algo em comum. É essencial encontrar essas perspectivas comuns e agir sobre elas nesses tempos de ódio e intolerância.

2) A curto prazo, deveríamos focar em garantir direitos trabalhistas, que estão sob ameaça no mundo inteiro. Isso poderia ajudar a mitigar desigualdades a curto prazo. Deveríamos também lutar por reformas tributárias proporcionais, justas e progressivas, que contribuíram simultaneamente para mitigar a desigualdade e para melhorar as condições ambientais. Também seria importante estimular práticas de deliberação local, coletiva, direta e descentralizada pelas pessoas em pequenas cidades ou nas vizinhanças, em grandes cidades.

3) Em 5 anos, deveríamos conseguir cessar os ataques sobre os direitos trabalhistas. Deveríamos conseguir estabelecer 30 horas semanais de trabalho na maioria dos países em 10 anos, 25 horas semanais em 20 anos. Isso poderia ter um ENORME impacto sobre a democracia, pois as pessoas teriam tempo livre para participar ativamente das decisões. Isso também reduziria o consumo, pois as pessoas teriam mais tempo para interações familiares e sociais significativas. Isso também pressionaria as cadeias de produção, talvez reduzindo os desgastes ambientais.

4) A curto prazo, Avaaz deveria estimular o estabelecimento de redes de cooperação local entre pessoas interessadas em mudança social. Também seria bom se a Avaaz estudasse melhores maneiras para elaborar petições, considerando a legislação específica a cada país, contribuindo para a formulação de petições mais eficazes.




Segue o original em meu inglês rosbífico (equivalente ao italiano macarrônico).


1) People should listen to each other, and talk. Democracy IS dialog. Everybody (or almost) has something in common. To find out this common perspectives and act upon them is paramount at this times of hatred and intolerance.

2) At the short term we should focus on warranting labour rights, wich are under menace worldwide. This could help to mitigate inequalities in the short term. We should also struggle for proportional, fair and progressive tax reformation, which could contribute both to mitigate inequality and to improve environment conditions. It would be also very important to stimulate practices of local, colective, direct and uncentralised decisionmaking by people in small towns and neighbourhoods in big cities.

3) In 5 years, we might be able to shutdown the attacks upon labour rights. We might be able to have just 30 workhours per week in most countries in 10 years, 25 hours per week in 20 years. This could have a HUGE impact upon democracy, as people would have free time to actively participate in decisions. It would also diminish consumption, as people would have time for meaningful familiy, friends and social interactions. It would also put some pressure over production chains, reducing perhaps environmental dammage.

4) In the short term, Avaaz should stimulate local networking among people interested in social change. It would also be good if Avaaz studied better ways to make petitions, considering specific laws in each country, contributing to create more effective petitions.

Videogame na escola 2: imagens de gameplay

Algumas imagens do jogo eletrônico (ainda sem título) produzido com meus alunos do 6º ano. Essas fotos mostram como o jogo será visualizado pelos jogadores. As imagens mostram as ilhas que cada grupo vem elaborando, mas ainda não entramos na fase de acabamento - a maioria das edificações ainda não tem portas e janelas, a maioria das ilhas ainda não tem vegetação etc. Os habitantes também não chegaram ainda... Quanto aos protagonistas, ainda não estão definidos. Esses avatares que aparecem aí são apenas bonequinhos genéricos. Também estou percebendo que a garotada adora castelos - o que diz muito sobre nosso imaginário. Apenas um grupo não botou castelo nenhum na sua ilha; outro grupo, em compensação, queria CINCO! Joãozinho Trinta explica... Outra demanda comum a vários grupos é colocar animais nos cenários, especialmente animais de fazenda - o que também diz muito sobre nosso imaginário. Mais surpreendente é o enorme interesse pela criação de pontes nos cenários - Jung explica?!

Ainda sem título.

Uma ponte.

Navegando.


Um castelo "do Mal"...

...e um castelo "do Bem"!




Uma fazenda - com cachorro E cavalo.

Uma igreja - com vitrais.


"Pode ter coqueiro dos dois lados da estrada, Professor?"


Brasileiros gostam de neve...

Outra ponte.





Mais uma ponte.







Um cemitério e um fantasma.

Uma deusa antiga, com oferendas de flores.


Um milharal com espantalho.



Uma casa com direito a rachadura na parede, árvores desfolhadas e sepulturas no quintal. Dark.

Na mira do lobo.

"Tipo Frozen".


domingo, 13 de novembro de 2016

Os 10 mandamentos da religião Capetalista

1 - Honrarás o deus Lucrus acima de todas coisas.
2 - Apaziguarás o deus Jurus com sangue humano.
3 - Derramarás sangue alheio em nome da deusa Efitientia.
4 - Colocarás a deusa Proprietas à frente de todas as pessoas.
5 - Cobrarás todos os teus devedores até a última gota de sangue.
6 - Valorizarás apenas aquilo que satisfaz Lucrus.
7 - Governarás por Lucrus, em nome de Efitientia.
8 - Honrarás Jurus antes de todas as necessidades humanas.
9 - Derrubarás as árvores, cavarás a terra, poluirás os ares, mancharás as águas, sob as graças de Lucrus e Efitientia.
10 - Servirás a Mamon, o Pai que está Além e Abaixo.


O carro do Capitalismo...

O Capitalismo poderia ser como um passeio de automóvel. Como se sabe, o motorista prudente pode evitar sustos e perigos desnecessários. Infelizmente, aqueles que estão ao volante teimam em dirigir além dos limites de velocidade. Às vezes também conduzem embriagados pela ganância e pelo poder. Sem falar nos pneus carecas. Daí tantos e graves acidentes... Mas adivinhe: quais passageiros têm airbag...?!

Democracia na Bíblia?!

"No dia seguinte, assentou-se Moisés para julgar o povo; e o povo estava em pé diante de Moisés desde a manhã até o pôr-do-sol. E o seu sogro [Jetro, sacerdote madianita], vendo tudo o que ele fazia com o povo, disse: 'Que é isso que fazes com o povo? Por que te assentas sozinho, e todo o povo está em pé diante de ti, desde a manhã até o pôr-do-sol?' Respondeu Moisés ao sogro: 'É porque o povo vem a mim para consultar a Deus. Quando têm uma questão, vêm a mim. Julgo entre um e outro e lhes faço conhecer os decretos de Deus e as suas leis'. O sogro de Moisés lhe disse: 'Não é bom o que fazes! Certamente desfalecerás, tu e o povo que está contigo, porque a tarefa é muito pesada para ti: não poderás realizá-la sozinho. Agora, pois, escuta o conselho que te darei para que Deus esteja contigo: representa o povo diante de Deus, e introduze as suas causas junto de Deus. Ensina-lhes os estatutos e as leis, faze-lhes conhecer o caminho a seguir e as obras que devem fazer. Mas escolhe do meio do povo homens capazes, tementes a Deus, seguros, incorruptíveis, e estabelece-os como chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinquenta e chefes de dez. Eles julgarão o povo em todo tempo. Toda causa importante a trarão a ti, mas toda causa menor eles mesmos julgarão. Assim será mais leve para ti, e eles levarão a carga contigo. Se assim fizeres, e Deus to ordenar, poderás então suportar este povo, que por sua vez tornará em paz ao seu lugar. Moisés seguiu o conselho de seu sogro, fez tudo o que ele havia dito. Moisés escolheu em todo Israel homens capazes, e estabeleceu-os como chefes do povo: chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinquenta e chefes de dez. Eles julgavam o povo em todo tempo. Toda causa importante, eles a levavam a Moisés, e toda causa menor eles mesmos a julgavam. Depois Moisés deixou o seu sogro voltar, e ele retomou o caminho para o seu país".

Êxodo, 18: 13-27.

OBS (Nota da Bíblia de Jerusalém): "Medida que supõe um povo já numeroso e sedentarizado e atribui a Moisés uma descentralização do poder judiciário que seguramente é bem posterior. Entretanto, o fato de tal medida ser atribuída à intervenção de Jetro pode testemunhar uma influência madianita sobre a primeira organização do povo".

OBS 2: É curioso notar que os redatores "finais" de Êxodo optaram por situar essa passagem ANTES da recepção dos "10 Mandamentos".


sábado, 12 de novembro de 2016

Fundamentos da religião Capetalista

"O Capetalismo é uma religião fundada na Europa por volta do século XV.

Seu principal patriarca é Jacó Fugger (1459-1525), mas o maior profeta da religião foi Adão Smith, o primeiro a testemunhar a ação providencial da Mão Invisível, como mostra o Novíssimo Testamento. Friedman é seu teólogo mais popular atualmente; ele redigiu a Concordata do Estado Mínimo, ratificada no Segundo Concílio de Wall Street. Uma das mais perigosas heresias capetalistas foi liderada pelo autointitulado profeta João Keynes, mas se encontra hoje em vias de extinção. 

Atualmente o Capetalismo possui inúmeras denominações; as denominações mais comuns no Brasil são Santander, Bradesco e Itaú. O partido brasileiro PMDB sofre constantes acusações de misturar política com a pauta religiosa capetalista, porém sua principal liderança atual segue, na verdade, o Satanismo. 

A religião capetalista adora a Diabólica Trindade composta pelos ídolos Jurus, Lucrus e Efitientia. Nos tempos da Revolução Industrial essas divindades eram apaziguadas pelo sacrifício de criancinhas em minas de carvão, mas a liturgia atual costuma ser celebrada em altares conhecidos como 'caixas eletrônicos', onde são costumeiramente imolados trabalhadores (adultos). Os principais teólogos capetalistas defendem a escravidão por dívidas como prática meritória. O Capetalismo é praticado em templos denominados 'bancos'. 

Existem capetalistas praticantes e não-praticantes: os primeiros costumam ser identificados como 'ricos', enquanto os segundos são conhecidos como 'pobres'. No entanto, muitos 'pobres' costumam se identificar como 'classe média'. A principal peregrinação capetalista é a viagem à Disneylândia; muitos jovens brasileiros costumavam cumprir essa obrigação como rito de passagem, ao completar 15 anos de idade, mas essa prática se torna cada vez menos comum. 

O principal festival capetalista chama-se Natal, data comemorativa derivada de uma religião mais antiga, conhecida como Cristianismo, cujo fundador certa vez teria dito: 'É mais fácil passar o camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus'". 

(Extraído de Marx Wermer, A ética capetalista e o espírito do neoliberalismo)

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Superar o binômio esquerda-direita? Breves notas

- Acho que nesse momento as críticas à esquerda são necessárias e bem vindas, venham de onde quer que venham. Estamos numa encruzilhada, e encruzilhadas são momentos importantes para a reflexão - reflexão que já chega atrasada, inclusive. 

- Quanto à quase-eleição do Freixo, considero que foi vitoriosa em quase todos os sentidos. Esse "quase" tem muitas nuances significativas: mostra que há limitações e desafios, mas também um grande potencial para mudanças. 

- Até 2018 ainda vai acontecer muita coisa no Brasil e no mundo, e acho (ou espero) que o mandato presidencial 2018-2022 será um mandato de apaziguamento e acerto de contas. Até 2020, a esquerda em todos os seus registros (partidário, sindical, estudantil, social etc) pode  e deve se renovar. Muito dependerá do desfecho da Lava-Jato, e das reações que partirão da própria esquerda. A construção futura da memória de Lula e do PT também desempenharão um papel decisivo. Quanto ao PSOL, terá um papel cada vez mais importante nesse panorama, mas acho que não se tornará um "senhor das esquerdas" nos moldes do PT. Espero que também não se entregue ao discurso messiânico e ufanista em estilo petista. Depois do brizolismo e do lulismo, espero que não venha por aí o freixismo... 

- A figura do "trabalhador" precisa retornar vigorosamente à cena política, e o palco privilegiado para essa ação não são os partidos políticos, nem os sindicatos (aparelhados por esses mesmos partidos); acho que as agremiações independentes de trabalhadores podem realizar um importante papel nessa história, desde que não se tornem meros nichos de oposição sindical. O século XXI precisa reinventar o trabalhismo.

- Finalmente, espero que nos próximos anos tenhamos, no mundo inteiro, o vigor cultural necessário para superar de uma vez por todas esse engessado e anacrônico binômio esquerda-direita, que funciona cada vez menos. Não gosto dessa glosa emergente e cada vez mais frequente à esquerda, que tenta vestir os mesmos bonecos como "progressista" e "conservador" - embora me pareça um sinal de transformação que se esboça nessas linguagens. Minha principal crítica ao termo "progressista" é seu cheiro iluminista; os "progressistas" realmente sabem em que direção fica o "progresso"? Como o "progresso" escolhe seus arautos?

-  Quanto aos "conservadores", eles estão aí e chegaram para ficar (sempre estiveram, na verdade). Não teremos como subjugá-los (nem seria positivo); resta ouvi-los, tentar compreende-los e estabelecer linhas de diálogo.  

- O mundo anda cada vez mais repleto de muros, e eles não estão em Berlim...

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Carta a um jovem estudante de História, eleitor de Bolsonaro

Rapaz, 

cuidado com as opiniões venenosas que você anda consumindo. Tenho muitos amigos de direita e nunca excluí ninguém por opiniões políticas. Tenho um conhecido que era (talvez ainda seja) petista fanático e o excluí do Face porque ele não respeitava ninguém. Não é o seu caso. Pelo pouco que pude conhecer de você, acho que você é uma pessoa honesta, sincera e de bom coração. Pelas suas postagens, parece que você é um ótimo filho e neto. 

Imagino que você deve ser uma pessoa muito melhor que o Bolsonaro. Bolsonaro, assim como Lula, é um grande manipulador; não há quase conteúdo nenhum por baixo da gritaria de ambos. Não se deixe manipular por discursos passionais e pensamentos estreitos; você me parece ser um cara inteligente, mas acho que ainda tem um longo caminho pela frente como historiador. 

Procure conhecer bons autores de direita - eles existem. Bolsonaro provavelmente não os conhece, mas eles existem. Bolsonaro é um cego guiando cegos; não seja mais um deles. Recomendo começar pelo Christopher Dawson e pelo Otávio Velho. São leituras desafiadoras, mas valerão a pena. Como digo para meus alunos, precisamos de bons historiadores e pensadores de direita e de esquerda - andam em falta em ambos os lados. 

Não excluo você pelas suas opiniões políticas, mas não quero mais partilhar do veneno que você anda consumindo e divulgando. 

Um abraço, fique com Deus e que Clio ilumine os seus caminhos!

Devaneios sobre distrações, reflexos, moedas e um quase-atropelamento

Ontem, por volta de meio-dia, eu aguardava na faixa de pedestres para atravessar a Rua Barata Ribeiro, no cruzamento com Siqueira Campos. Quando o sinal fechou, os carros pararam à minha direita. Iniciei a travessia.

De repente, olhei para a esquerda: uma moto vinha em minha direção, pela contramão! Pânico - uma vaga impressão de perigo iminente. Um átimo de segundo depois, percebi que o veículo era, na verdade, uma bicicleta elétrica. Num infinitesimal intervalo de tempo - sem pensar muito bem, ou talvez pensando bem demais - tomei uma estranha decisão: em lugar de me esquivar, avancei com as mãos estendidas ao encontro da embicicletada besta. Num movimento (felizmente) certeiro fui capaz de agarrar a bicicleta pelo guidon, parando bruscamente o veículo. Senti aguda dor nas palmas das mãos e nos punhos, sugerindo que em situação menos vantajosa o impacto poderia ter provocado até uma fratura.. Felizmente fui mais rápido que o gato E o Quico - e não, eu não olhava para uma moça bem bonita.

Passado o perigo, a raiva - ainda com as mãos agarradas ao guidon, gritei alguns impropérios: "Tá maluco, seu babaca?!"...  O ciclista, de 20 ou 22 anos, simplesmente riu - de desdém, nervoso, alívio... Vai saber! Larguei o guidon e ele partiu a toda, ainda na contramão, enquanto eu gritava mais um desaforo, vagamente homofóbicos ("Viado!"). Dois senhores que também esperavam para atravessar comentaram comigo sobre a falta de responsabilidade e respeito do não-tão-jovem ciclista.

Me acalmei de modo extraordinariamente rápido. Fiz uma breve oração pelo imprudente ciclista. Quando o sinal abriu novamente, atravessei a rua sem maiores incidentes e entrei na estação de metrô Siqueira Campos, onde o bilheteiro me deu um troco repleto de moedas de 10 e 5 centavos, se desculpando; sorri: "Moeda também é dinheiro". Retornaremos a isso.

Cerca de meia-hora mais tarde, já no Centro do Rio, relatava o caso a minha esposa durante o almoço, refletindo sobre nossos curiosos processos mentais. Em primeiro lugar, destaco a costumeira sensação de dilatação do tempo ante o perigo, em que tudo parece acontecer mais devagar, num outro ritmo, quase fora do próprio tempo.

Por outro lado, em um intervalo incomensuravelmente pequeno saltei da distração à máxima concentração. "Vi" uma moto, mas logo corrigi o equívoco; baseado nessa correção, tomei uma decisão inteiramente contraintuitiva e um tanto arriscada ("atacar" o veículo, e não fugir dele), cujos resultados se provaram satisfatórios, apesar da dor imediata. Tudo isso - visão, identificação, correção, deliberação, ação, dor - se passou de modo absolutamente consciente, sem emergir ao nível do raciocínio verbal em NENHUM momento. Sem recorrer à verbalização, agi com inteira racionalidade; a seguir, passado o perigo, me entreguei a uma explosão verbal inteiramente irracional, e mesmo preconceituosa. Mais curioso ainda, passei rapidamente desse estado de intensa irritação a uma profunda calma. Em tudo isso parecem perceptíveis as influências tanto de meu incipiente treinamento em Aikido e minhas recentes incursões no campo da meditação budista e da espiritualidade teresiana - disciplinas mentais que tendem a se tornar uma "segunda natureza", modificando reflexos e reações. Com efeito, se o episódio tivesse ocorrido dois anos ou mesmo alguns meses atrás, passaria uma semana resmungando irritado contra o ciclista barbeiro.

Terminado o momento introspectivo e o almoço, saímos pela Saara a fazer compras de material de artesanato. [Intervalo publicitário: bazar em dezembro.] Numa das lojas, a simpática senhora chinesa ao caixa, fluente em português, indagou se tinha troco para facilitar. Catei algumas moedas na minha carteira. "Essa moeda não vale", respondeu ela sorrindo, devolvendo uma enferrujada moeda de cobre. Não eram 5 centavos de real; eram 5 cêntimos de euro, cunhados na Espanha! Eu e minha esposa também rimos do equívoco. Logo deduzi que a moeda viera de algum turista distraído que pagar o metrô em Copacabana. A comerciante chinesa recomendou que a guardasse, para "dar sorte". De fato, a sorte chegara antes da moeda!

Como não lembrar de Dukheim, que usa a circulação de moeda como exemplo de um fato sociológico coercitivo? ...não se pode pagar na Saara com moeda europeia! No entanto, a distração abre brechas à coerção social, como pode acontecer numa movimentada estação de metrô ou num cruzamento de ruas. A moeda estrangeira passou em contrabando, assim como meu homofóbico xingamento, não-tão-estrangeiro, burlando a consciência através da desatenção ou da irritação. Dinheiro e ofensas são linguagens: fluem da sociedade para nós, e de nós de volta para o mundo. Às vezes, como lembrava Freud, lapsos podem acontecer... "Orai e vigiai", dizia Jesus.

De volta à rua, conversávamos sobre o incidente que reunira três continentes através de um turista, um bilheteiro e um passageiro distraídos e uma atenta comerciante chinesa da Saara, fluente em português e "dinheirês". Um ciclista imprudente, uma moeda "na contramão". Uma bicicleta tomada por moto, 5 cêntimos tomados por centavos. Duas infrações legais ocasionadas por equívoco e distração, sanadas pela concentração instantânea e pela rapidez de reação. Talvez, como eu, a comerciante tenha sido tomada, num primeiro instante, por uma vaga sensação de estranhamento, logo compreendida e finalmente verbalizada. Dois episódios curiosos passados em poucas horas, iluminando as fronteiras fluidas, ambíguas e efêmeras entre percepção, consciência e linguagens...

Acho que ando lendo Bergson demais.

P.S.: Há alguns meses um aluno meu respondia a um colega: "Viado não é xingamento; isso é homofobia". Preciso aprender mais com meus estudantes. Melhor, aliás, é não xingar ninguém...

Gotas: Trump, Pezão etc

Os americanos elegeram MAIS UM canalha como presidente. Acontece periodicamente. NÃO é o fim do mundo. Menos, pessoal, menos...
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-Professor, eu não sou de igreja, MAS tenho terno...
(Organizando uma peça de teatro com os alunos do fundamental).
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-Professor, eu não sou de igreja, MAS tenho terno...
(Organizando uma peça de teatro com os alunos do fundamental).
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Olhando o Brasil de 2016, me pergunto: as decantadas "conquistas sociais" foram só uma "marolinha"? O que havia de real nessa miragem? Que cachaça nós tomamos para acreditar nela? Em qual alambique ela foi destilada? Finalmente: o que faremos depois da ressaca...?
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Acho que meu passaporte não tem carimbo suficiente para me preocupar TANTO ASSIM com Trump, Brexit etc... Minha preocupação maior no momento é: a FAETEC paga meu salário desse mês?! Parafraseando uma aluna, "a intelectualidade brasileira sofre de muita falta de alienação..."
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Agora tenho certeza: o Um Anel FOI forjado no Estado do Rio... Contudo, em lugar de Duas Torres, temos dois palácios: Guanabara e Tiradentes... Estamos entre Pezauron e Picciaruman...
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O faro de um bom historiador vale por todos os algoritmos do Facebook. Ginzburg explica...
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Recado de Tears for Fears para os servidores do Estado: "Shout! Shout! Ready or not..."
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Caro colega servidor fluminense: eis uma boa hora para renovar suas convicções políticas e sociais...
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"Baderneiros" gritam "Uh, é Bolsonaro" na ALERJ. Entendeu?!
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Chore, porque o choro une. Sonhe, porque o sonho desperta. Ria, porque o riso ousa. Bata à porta, bata à porta...

Videogame na escola: registros de um experimento

Primeiras imagens do jogo eletrônico que estou desenvolvendo com duas turmas de 6º ano na Escola Municipal Quintino Bocaiúva. Trata-se de um jogo de aventura em gênero RPG, em que os personagens viajam entre diversas ilhas. Cada ilha, com sua respectiva forma de governo, atividade produtiva, forma de trabalho, clima e paisagem é elaborada por um grupo de no máximo 6 alunos. O projeto emprega a plataforma gratuita RPG Maker VX Lite.

Ilha Mederlândia (sic)

Ilha dos Enigmas

Ilha Sky

Ilha dos Monstros

Ilha de Konoha

Ilha King Kong

imperadores, Povos e Poetas

Apesar de nabucodonosor, herodes, nero, gengis khan, torquemada, napoleão iii, hitler, stalin, pinochet, thatcher e tantos outros, o Sol nunca parou de nascer, as Estrelas nunca pararam de brilhar e a Lua nunca cessou suas perpétuas transformações. Há Forças maiúsculas, apesar das pessoas minúsculas.

Existiram Sócrates, Jesus, Gandhi... Houve Bonaparte e houve bonaparte. As nuvens bloqueiam os Astros, mas não podem destrui-los. trump, temer, pezão, crivella... apenas nuvens. O Povo é um Vento que sempre volta a soprar. O Povo, dizia Victor Hugo, é um Oceano cujas marés, cedo ou tarde, afogam todos os tiranos. 

napoleão iii, "o pequeno" foi eleito em 1848 e cometeu seu golpe de Estado em 1851, mas foi escorraçado em 1870. O imperador sob sua coroa tremia ante a voz do Exilado sobre seu Rochedo. 

Amanhã haverá amanhã - e depois de amanhã, também: enquanto houver Povo, enquanto houver Profeta, enquanto houver Poeta, enquanto houver Pranto, enquanto houver Riso, enquanto houver Coração... Enquanto houver pesares, haverá Apesares... Enquanto houver nós, haverá Nós - e desataremos... 

A Semente desce à Terra para germinar - e enquanto houver Sementes, haverá Flores e aguardaremos os Frutos.

Breve diálogo sobre a calamidade fluminense

Taxista: Vai pra onde?

Eu: Vou pra Copacabana, mas como o Estado ainda não me pagou, pode me deixar no metrô de Maria da Graça.

Taxista: Eita, o pessoal fez a maior confusão lá na ALERJ.

Eu: Pois é. Tá brabo...

Taxista: Não concordo com isso...

Eu: Também sou contra todo tipo de violência...


Taxista: ...pra mim, tinham que quebrar o Palácio Guanabara! O "negócio" todo tá vindo de lá...!


Eu: É... Bem...


CONCLUSÃO: o pessoal quer ver sangue... Os governantes deviam temer 1789, mas o povo devia temer 1793... Estaremos no caminho da Vendeia...?! Sempre preferi Gandhi a Guevara...