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quinta-feira, 17 de março de 2016

Gotas - A tensão da democracia brasileira

Há um golpe em andamento? Não sei dizer ainda, mas tudo isso me deixa muito preocupado...
***
Nesse momento, meu partido se chama DIÁLOGO.

***
Gente, a situação atual exige que abandonemos essa lógica BINÁRIA que vem regendo nossa vivência política. Cuidado com as POLARIZAÇÕES e MANIPULAÇÕES - à direita e à esquerda. Nosso modo de pensar a política precisa AMADURECER, pelo bem da democracia.

***
SE ESSA BRIGA CONTINUAR DESSE JEITO, QUEM PERDE É A DEMOCRACIA BRASILEIRA...
Ainda não sei dizer se a nomeação de LULA foi um ato irresponsável de DILMA, jogando lenha numa fogueira em que todos nós arriscamos a nos queimar. É, no mínimo, uma jogada arriscada e questionável, num momento em que os ânimos se encontram tão acirrados.
Por outro lado, tenho quase certeza de que a atuação de MORO foi ilegal - e digo "quase" só porque eu não sou jurista.

***
Aconteça o que acontecer, evitemos exaltação nos debates. Se deixarmos nossas inclinações políticas abalarem nossas amizades e relações familiares, teremos perdido o mais importante.

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Admitir que o momento é complicado e que não haverá soluções simples ou fáceis é o único meio de encontrarmos as soluções necessárias.
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O momento exige de todos nós humildade para pensar as coisas sem certezas preconcebidas e sem paixões exacerbadas.
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Lembremos o ensinamento de mestre Yoda: o ódio nos conduz ao sofrimento...
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"Vem muita confusão por aí" - é impressão minha ou o Delcídio quer fazer locução para a "Sessão da Tarde"?
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A Nintendo praticamente abandonou o mercado brasileiro há quase um ano e vocês aí preocupados com bobagem, francamente!

O silêncio da guerra

"Outra lição duradoura da história é que é sempre mais fácil promover a guerra que a paz, e mais fácil pôr fim à paz do que à guerra, porque a paz é frágil e a guerra é durável. Uma vez que os primeiros tiros tenham sido disparados, aqueles que se opõem à guerra são simplesmente rotulados de traidores. Todo o debate termina quando os primeiros tiros são disparados, portanto disparar tiros é sempre um modo eficaz de pôr fim ao debate. O silêncio pode não durar por muito tempo, como demonstraram a Guerra de 1812, a Primeira Guerra Mundial, a Guerra do Vietnã e a Guerra do Iraque, todas impopulares, mas há sempre um momento de silêncio forçado quando o debate e a crítica são banidos, e esse momento dá no mínimo uma vantagem temporária aos promotores da guerra".

(Trecho do livro Não-violência: a história de uma ideia perigosa, de Mark Kurlansky; o livro nem é muito bom, mas essa passagem traz reflexões interessantes para o momento atual)

quarta-feira, 16 de março de 2016

Tenhamos ponderação

Não sei o que pensar do momento atual em nosso país.

A situação é imprevisível.

Há muito mais em jogo que alguns partidos ou pessoas.

A situação geral é muito delicada, e devemos evitar qualquer precipitação.


O momento nos exige calma, ponderação, sabedoria e cautela.

Educação na chuva - um relato (16/03/2016)

Acabo de chegar da passeata unificada da educação fluminense, reunindo estudantes, responsáveis, funcionários e professores das instituições estaduais atualmente em greve - SEEDUC, UERJ e FAETEC.

Desci do metrô na estação Largo do Machado por volta de 14:15. Os corredores da estação se encontravam lotados de manifestantes, que se abrigavam da chuva torrencial. Como não gosto de "muvuca", preferi vestir minha capa e sair na chuva, me abrigando sob uma árvore. Alguns grupos se concentravam aqui e ali, sob árvores e marquises.

Alguns minutos depois, algumas pessoas começaram a se reunir diretamente sob a chuva. Resolvi juntar-me a elas. Logo éramos muitos, principalmente depois que alguns estudantes se puseram a circular pelo Largo, entoando canções de protesto.

O entusiasmo dos estudantes era contagioso. Me peguei refletindo sobre quanta coisa mudou nos últimos 3 anos. Durante a greve da FAETEC de 2013, a maioria de meus alunos reclamava, reproduzindo o discurso de que a greve os prejudicava. Em 2016, a esmagadora maioria dos estudantes vem nos apoiando e, mais ainda, organizando suas próprias manifestações.

Por volta de 14:55 a chuva amainou, e uma multidão saiu de dentro do metrô, como um dragão de conto de fadas que saísse intempestivamente de sua caverna. O Largo do Machado ficou apinhado de manifestantes, e alguns minutos depois a manifestação zarpou rumo ao Palácio Guanabara. Estavam presentes não apenas profissionais de educação, mas também representantes de outras categorias.

Éramos muitos. Do meio da passeata, mal se conseguia ver onde ela começava ou terminava. No meio do caminho a chuva retornou com grande intensidade. Estávamos encharcados, mas não desanimados. Eu e um colega nos pusemos a imaginar quantas pessoas mais teríamos sem esse tempo chuvoso; soubemos de pessoas que simplesmente ficaram presas no trânsito e não conseguiram chegar a tempo.

Policiais militares nos acompanharam durante todo o percurso. Mais uma diferença: tive a impressão de que eles se encontravam menos tensos e menos hostis em relação aos manifestantes que outras vezes. Em dado momento, a passeata parou por alguns minutos, e pude acompanhar a conversa entre um policial e uma professora. Ele manifestou total apoio ao movimento: "Vocês também estão lutando pela gente"; disse que vários colegas têm participado, à paisana, de manifestações. Fiquei surpreso, mas não tanto: o governo devia ter imaginado o que aconteceria quando mexesse no bolso de seus servidores...


Chegamos ao Palácio por volta das 16:30. Manifestantes acabaram ocupando as duas pistas da Pinheiro Machado. Nem quero imaginar como está o trânsito na Zona Sul!


Me retirei às 17:00, para atender minhas necessidades - ao contrário do que apregoam alguns pós-modernos, ainda não somos "pós-orgânicos". Peguei o metrô e cheguei em casa há cerca de uma hora.


Na próxima seremos muitos, muitos mais...

Educação na chuva! Pezão a culpa é sua!

quinta-feira, 10 de março de 2016

Greve da FAETEC - Impressões (10/03/2016)

A rede FAETEC iniciou sua  greve no dia 2 de março, após uma assembleia extremamente penosa.

Realizada no auditório da Escola Técnica Visconde de Mauá, a assembleia de hoje conseguiu ser ainda mais tensa.

A meu ver, boa parte dessa tensão se deve à postura intransigente e autoritária da direção do SindpFAETEC.

O primeiro momento difícil ocorreu quando a direção concedeu a palavra a um grupo de estudantes, mas tentou cortar as falas abruptamente, alegando que a assembleia pertence à categoria, não aos alunos, que reagiram "invadindo" o palco. Nesse momento, a diretora da mesa, em vez de contemporizar e dialogar, partiu para o enfrentamento, ameaçando suspender sumariamente a assembleia - um gesto de desrespeito a todos os presentes. Sob vaias da base, voltou atrás, permitindo a conclusão da fala dos alunos.

Na primeira assembleia, por sinal, a direção também "pisou na bola" ao solicitar que os estudantes saíssem do auditório no momento da votação.

Ora, é um grave equívoco estratégico marginalizar a participação dos estudantes no movimento, principalmente num país onde a imprensa adora alardear que as greves da educação "prejudicam os alunos". A participação ativa do corpo discente confere grande legitimidade ao movimento e sempre se faz oportuna.

A assembleia prosseguiu um pouco mais calma. Diversas unidades escolares encaminharam propostas para composição de um comando geral de greve, com ampla participação de representantes da base. Todas as falas nesse sentido foram acolhidas com estrondoso aplauso.

No momento da votação, por inúmeras vezes a base bradava "comando, comando", clamando pela votação da proposta mais importante do dia. A direção, todavia, adiou o tema até o final.

Concluída a última votação, a diretora da mesa declarou que a proposta pelo comando geral não seria submetida a votação. Segundo ela, seria ilegal, constituindo a direção sindical a única representação legítima da categoria.

Nesse momento, a exaltação chegou ao ápice. Foi um momento belo e pavoroso.

"Comando, comando"! - bradávamos. Muitos se levantaram e caminharam até o pé do palco. Finalmente, muitos de nós subiram ao palco, e por pouco alguns não foram às vias de fato.

Sempre intransigente, a direção saiu da mesa, desceu do palco e abandonou o auditório, sob os gritos de "golpistas".

Nós, que permanecemos, organizamos uma votação, onde foi aprovado o comando geral de greve.

Certamente foi uma vitória da base, que reafirmou sua soberania na condução da greve. As reais dimensões dessa vitória permanecem imprevisíveis.

Qual será o futuro dessa greve? Cabe à categoria decidir...

P.S.: Um colega corrigiu esse relato, afirmando que o pessoal só subiu no palco DEPOIS que a diretora da mesa declarou a assembleia sumariamente encerrada, enquanto a base gritava pelo comando. Quem sabe?

Quem bate nos professores do Brasil?



Em primeiro lugar, os alunos. As agressões começam em sala de aula. Agressões morais. Agressões verbais. Até agressões físicas.

Na PRIMEIRA SEMANA de aula desse ano um aluno mandou uma colega minha “tomar no c*”. Xingamentos na saída da escola, na rua ou no ponto de ônibus fazem parte da rotina.

Um amigo meu, que trabalha numa daquelas áreas eufemisticamente rotuladas como “de risco”, ouve constantemente os alunos avisando-lhe que “vai rolar o coreto” – uma simpática gíria para “assalto”. Sempre “de brincadeira”.

Ano passado, eu mesmo fui vítima de duas agressões físicas – uma acidental, a outra proposital. A agressão acidental aconteceu quando precisei separar uma briga DENTRO de sala de aula. A agressão proposital foi provocada por um aluno que atirou uma mochila contra meu rosto – “de brincadeira”, é claro. Meu olho ficou doendo por três dias – e não foi “brincadeira”.

Também no ano passado, soube que um aluno puxou uma pistola contra um professor numa escola carioca. Pressionou várias vezes o gatilho - por sorte, a arma não disparou. Não saiu no RJ TV. “Brincadeira”?

Em breve teremos aulas de defesa pessoal nos cursos de licenciatura.

Aulas inteiras são literalmente desperdiçadas solucionando problemas disciplinares que sequer deviam existir.

Por que isso acontece? Por que tanta agressividade? Educar incomoda?

Honestamente, não sei. Só sei que inúmeros estatutos e regimentos nos amarram. As unidades escolares dispõem de pouquíssimos recursos para resolver de modo eficaz esse tipo de situação. Transferir um aluno que não respeita colegas e professores para outra escola é quase tão difícil quanto enviar um explorador a Marte.

É claro que podemos denunciar um estudante por desacato ao servidor no exercício da função (3 a 12 meses de reclusão). Um tanto extremo, não? Nunca fiz isso; não acho que enviar um jovem mal-educado para uma instituição correcional vá de fato “corrigi-lo”.

Ficamos perdidos entre a leniência do Estatuto da Criança e do Adolescente e o rigor do Código Penal.

Depois, somos novamente agredidos pelos responsáveis por esses alunos, que via de regra acham que apenas a escola deve educar seus filhos e, muitas vezes, ainda reclamam quando não toleramos certas “brincadeiras”.

“Ele também é assim em casa”. “Não entendo, ele tem tudo que quer” [sic]. “Não sei mais o que fazer com ele”. Etc. Não surpreende que uma das frases que mais ouvimos de alunos seja: “Eu não respeito nem minha mãe...”!

Muitos responsáveis, aliás, só comparecem à escola para resolver assuntos pertinentes ao Bolsa Família. “Só venho à escola para ganhar presença”, já me disse um aluno.

Também somos agredidos pelo conselho tutelar e pelo juizado de menores, que normalmente não agem em relação aos casos que chegam a essas instâncias - mesmo que envolvam situações domésticas de abandono ou abuso. Ficamos sozinhos diante desses problemas.

Acima de tudo, somos agredidos de todas as formas imagináveis pelas secretarias de educação, que pouco fazem para amenizar os excessos e faltas que nos assaltam. Excesso de alunos em sala de aula. Excesso de “metas” de aprovação. Excesso de projetos mirabolantes e milionários. Excesso de tecnologias revolucionárias que não funcionam por falta de manutenção. Excesso de terceirização. Excesso de contratos temporários. Falta de concursos. Falta de cumprimento à lei de 1/3 da carga horária para planejamento. Falta de pessoal administrativo suficiente nas escolas, especialmente inspetores e coordenadores. Entre carências e excessos, sofre o professor.

Somos agredidos por legisladores cujos projetos visam cercear a autonomia pedagógica.

Somos agredidos pela imprensa que enaltece esses grandes administradores e legisladores, verdadeiros salvadores da pátria (“educadora”) – a mesma imprensa que adora dizer que greves de professores “prejudicam os alunos”.

Somos agredidos por todas as fundações, institutos e ONGs que vampirizam recursos públicos vendendo soluções milagrosas para a educação pública.

Somos agredidos ainda por parte da “inteligência” brasileira. Há cerca de um mês, li uma entrevista de um economista “de aluguel”, “especialista” em educação, afirmando que a escola deve parar de “empurrar responsabilidades” para a família do estudante. Segundo essa sumidade, o único papel da família é dar amor, alimentação e botar o jovem para dormir cedo; o resto é com a escola. Somos agredidos por todos os “intelectuais” que gostam de nos “defender”, mas não gostam de nos OUVIR.

Nessa pátria “educadora”, também somos agredidos pelo governo federal, que não cobra o mínimo de transparência no uso dos recursos transferidos pela União às prefeituras e governos estaduais. É mais fácil entender a Crítica da razão pura que saber exatamente de que maneira são empregadas as verbas do FUNDEB. Esse mesmo governo federal promove a usurpação de recursos da educação pública em benefício de instituições particulares de ensino, através de programas “sociais”, “sócio-eleitorais” ou “sócio-eleitoreiros” – à preferência do freguês, que tem sempre razão. Se não mantivermos olho vivo, esse mesmo governo empregará os rendimentos do pré-sal na promoção da educação... privada. Mas quem precisa se preocupar, depois do despertar da jararaca?

Finalmente, quando ousamos sair às ruas com nossas reivindicações, não faltam spray (in english) de pimenta, lacrimogêneo, balas de borracha e “casse-têtes” (en français). Cortes sumários de salário, sem obedecer aos ritos da lei, também não são impossíveis. Quem sai na chuva...

Somos agredidos pelas direções sindicais, mais preocupadas com a promoção de seus respectivos partidos políticos que com os interesses da categoria.

Somos agredidos pela maioria dos cidadãos, que permanece indiferente a tudo isso, e depois se escandaliza quando uma pessoa é esfaqueada num bairro nobre.

O professor do ensino básico está sempre errado. Sempre é culpa dele.

Alguém fica surpreso que os professores constituam uma das categorias recordistas em licenças médicas no serviço público? No fim das contas, reformulo minha indagação: quem NÃO bate nos professores do Brasil?

sábado, 5 de março de 2016

A vara, o peixe e a hipocrisia brasileira

OBSIMP: Esse texto estava escrito desde o início da semana, não precisa ser lido tendo em mente os acontecimentos de ontem. Mas pode, é claro.

Nos últimos anos, tenho ouvido inúmeras críticas às políticas sociais no Brasil, estribadas num ideal meritocrático, muitas vezes evocando o velho ditado de que é necessário dar a vara, e não o peixe:

"Se você dá um peixe a uma pessoa, ela tem comida para um dia; se você dá uma vara de pescar, ela tem comida para uma vida inteira".


O grande equívoco é achar que no mundo capitalista as coisas são dadas. O peixe é vendido; a vara também é vendida. A diferença é que a vara custa muito mais que o peixe. Pense nos exemplos concretos que você quiser - não é difícil.

Por outro lado, muito se enganam aqueles que defendem o modelo de política social implementado pelo governo PT-PMDB. Essas políticas sociais não deram vara nem peixe.

Em geral, estimulando uma superficial inclusão social pelo consumo, elas deram aos pobres dinheiro para que eles comprassem seus peixes, enriquecendo ainda mais os donos das varas e das pescarias...

Cada um tem a "jararaca" que merece



"O atentado contra minha vida me deixou cicatrizes e deformidades, mas eu lhes asseguro que minha resolução nunca foi mais forte! Para assegurar nossa segurança e contínua estabilidade, a República será reorganizada no Primeiro Império Galáctico para uma sociedade segura e garantida!"


Não levem a sério demais. Apenas uma comparação bem-humorada de discursos carismáticos...

O pânico dos "defensores da democracia"

"Se amanhã eu disser à imprensa que, tipo, um bandidinho tomará um tiro, ou um caminhão cheio de soldados vai explodir, ninguém entra em pânico, porque é tudo parte do plano. Mas quando eu digo que aquele velho prefeitinho vai morrer... Bem, então todo mundo perde a cabeça!"


Gotas - Lula e a "defesa da democracia"

Ei, você aí, "defensor da democracia", onde você estava em 2013, quando precisamos de você?

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Qual foi a manipulação mais grotesca do dia?
O circo midiático em torno do depoimento de Lula?
Ou o discurso sentimentalóide e apelativo que Lula pronunciou depois?

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Menos polarização, pessoal...

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Quer MESMO apoiar a democracia?
Vá para as ruas lutar junto com os servidores do Estado do Rio.
A solução não virá das urnas - nem em 2018, nem nunca.

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DEMOCRACIA não é FUTEBOL.
Existem muito mais que 2 lados nesse jogo.
Pense como CIDADÃO, não como mero TORCEDOR.

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Tem horas que a política no Brasil me lembra aqueles seriados cinematográficos dos anos 30. Cada episódio termina num "cliffhanger" que parece não levar a lugar nenhum...

***

Se fosse um thriller político, eu diria que o Brasil anda precisando de um roteirista mais coerente, de um diretor mais talentoso e de atores mais carismáticos.

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O dia de hoje me deixa aquela impressão esquisita de que a maioria das pessoas só quer um líder para chamar de seu...

***

Tanto denodo em defender o Lula, tanta indiferença em relação à luta dos servidores do Estado do Rio...
Solidariedades seletivas sempre mostram muito do que realmente pensamos ou sentimos...

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Nos últimos 4 anos não demonstrou nenhum apoio às lutas sociais mais destacadas, mas passou as últimas 24 horas achando que defender o Lula (e o PT) é defender os pobres. Não soa meio PATERNALISTA?!

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Hoje foi o dia em que descobrimos o que "defender a democracia" realmente significa para muita gente...

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Eduardo Paes já declarou que emprestará o Terreirão do Samba para manifestações em apoio ao Lula. Educadores entenderão.

***

Só para encerrar meus desabafos do dia: antes de sair às ruas em defesa do Lula, tente se lembrar que palanques fluminenses ele andou frequentando na última década...

***

Em 2013, Sérgio CABRAL, então e sempre aliado de LULA, nos deu valiosas lições de "defesa da democracia".

***

Pensando melhor, acho que o discurso de Lula hoje foi tão lacrimogêneo quanto as bombas de seu aliado Sérgio Cabral em 2013...

***

Defender a democracia é obrigatório.
Defender o Lula é opcional.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Carta aberta ao Presidente Lula

CARO PRESIDENTE LULA,

eu sou o Luiz, seu xará, professor de História da rede municipal do Rio de Janeiro.

Concordo que hoje o senhor foi vítima de atuação policial e judiciária arbitrária.

Mas quero lhe fazer algumas perguntas simples.

Onde o senhor estava em 2013, quando meus colegas foram brutalmente atacados pela Polícia Militar do Rio de Janeiro, em plena Cinelândia?

Onde o senhor estava em 2014, quando a justiça fluminense e a polícia civil conduziram aquela patética operação de intimidação aos movimentos sociais às vésperas da final da Copa?

Onde o senhor estava quando vários colegas meus, professores e grevistas receberam, naquele fatídico sábado, ligações ameaçadoras e visitas estranhas no meio da madrugada?

Onde o senhor estava naquele dia, em que senti medo de ser preso sem qualquer justificativa?

Onde o senhor estava quando seu ALIADO Eduardo Paes cortou ILEGALMENTE o ponto de milhares de professores grevistas da rede municipal do Rio?

Onde o senhor estava em julho de 2014, quando recebi apenas R$ 48,00 de pagamento, numa represália ilegal por exercer meu direito legalmente constituído de fazer greve?

Onde o senhor estava em agosto de 2014, quando eu e meus colegas descontados e nossas famílias lutamos bravamente para fechar as contas do mês?

Onde, em todas essas ocasiões, estavam o senhor, sua criatura Dilma Roussef, seu Partido "dos Trabalhadores", e sua militância alienada?

Onde?

Me desculpe, Presidente Lula, mas sua indignação tardia, seletiva e interesseira não me comove.

Por favor, nos poupe de se fazer de vítima de uma situação política da qual o senhor e seus "amigos" são, em grande parte, arquitetos.

O senhor "merecia um pouco mais de respeito"? Nós também.

Cordialmente,
LFFT

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Pedro Paulo Funari sobre a História na BNCC

Excelente avaliação. Recomendo a leitura a todos os interessados no debate.

"Além disso, pelo princípio da diferença, será importante constar do currículo aquilo que é diverso na origem, mas que, hoje, no século XXI, está em relação, como: a história e cultura chinesa, tanto por seu valor em si, como pelo papel da China hoje; o mesmo vale para a Índia, com sua imensa riqueza histórica e cultural, mitológica e ritual; assim, também, as civilizações ameríndias e africanas pré-históricas, pois estão na gênese de parte significativa das concepções de mundo e cultura no Brasil e são  pouco conhecidas. Em todos os temas de interesse universal, deve buscar-se a inclusão dos grupos subalternos, das mulheres, dos comportamentos minoritários, da cosmovisões também minoritárias. A historiografia brasileira sobre a Antiguidade, a Idade Média e a Modernidade tem se destacado, aqui e lá fora, também por estudar esses aspectos, sempre com o apoio das agências de fomento e das universidades. O mais importante, deve ressaltar-se, é que tais conteúdos da História universal devem estar explicitados e detalhados em um currículo, como é o caso em outros países que se preocupam com a inclusão social, de modo que esse conhecimento universal não fique restrito a poucos".

Texto completo

Objetividade, subjetividade e intersubjetividade

Objetividade é importante, subjetividade é mais importante ainda, mas a intersubjetividade é simplesmente ESSENCIAL.

Na maior parte das vezes, aquilo que ilusoriamente tomamos por objetividade não passa de intersubjetividade. Por outro lado, na maior parte do tempo, nossa subjetividade está calcada nas relações que mantemos com outros sujeitos (humanos ou não), constituindo verdadeiramente uma experiência intersubjetiva, por mais sutil que possa parecer essa intersubjetividade. 

No fundo, talvez não existam realmente objetos no sentido próprio do termo, apenas sujeitos de diversas naturezas e as interações entre eles, constituindo um amplo, múltiplo e complexo campo de relações intersubjetivas, dentre as quais algumas se nos afiguram, de modo provisório, efêmero e um tanto arbitrário como relações sujeito-objeto. Isso é particularmente verdadeiro para as ciências humanas e biológicas, mas creio que, com as devidas ressalvas, também se aplique em alguma medida às exatas.

Quem fala sobre Educação Básica no Brasil?

Há décadas a opinião de economistas, burocratas e professores universitários conta mais que a dos professores de ensino fundamental e médio para o desenvolvimento de nossas políticas públicas na educação básica. Por isso mesmo, me parece, a educação básica brasileira permanece à deriva há décadas, perdida em "aventuras" e projetos custosos, ineficientes e até mesmo destrutivos. Já passou da hora de ouvir o que os VERDADEIROS especialistas têm a dizer! O verdadeiro especialista é aquele que conhece profundamente o cotidiano da educação básica, que vive de perto a realidade da escola pública, não aquele que observa de longe.

Todas as opiniões são válidas e muito necessárias, mas existe uma óbvia e profunda assimetria nos diálogos e discursos que se estabelecem acerca do ensino básico em nosso país. Obviamente essa não é a única razão dos problemas vivenciados na educação básica em nosso país, mas eu diria que é, sim, um GRANDE problema. 

Não falo isso por puro "achismo"; trata-se de conclusão derivada de inúmeras experiências profissionais e acadêmicas. Leciono na Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro há 8 anos, e já trabalhei na coordenação de um projeto pedagógico de grande porte no nível central, os Cadernos de Apoio Pedagógico. Há 3 anos trabalho na FAETEC-RJ, uma das ilhas de excelência no ensino público fluminense, onde tenho assistido  a implementação, de cima para baixo, de projetos e políticas que as comunidades escolares não consideram corresponder a seu efetivo interesse, com resultados por vezes deletérios. Além disso, já lecionei em uma universidade particular e em uma federal, como bolsista de doutorado, sem contar com a experiência acadêmica de pós-graduação, em mestrado, doutorado e pós-doutorado. 

O que percebi claramente, transitando por todos esses espaços de reflexão e prática educacional, é que nem todas as vozes são ouvidas da mesma maneira. Existem aqueles que são mais costumeiramente aceitos como sujeitos de discursos sobre a educação (entre os quais burocratas, economistas e professores universitários), enquanto outros são normalmente tidos como objetos desses discursos (os professores do ensino básico). Existe uma nítida hierarquização das opiniões, onde justamente os profissionais mais diretamente envolvidos nas atividades de educação básica parecem ser sistematicamente relegados ao nível hierárquico mais baixo. Isso fica evidente, por exemplo, nas dinâmicas que se configuram no âmbito dos grandes projetos educacionais das redes de ensino básico; basta observar quem bate o martelo e quais opiniões adquirem mais peso nas deliberações - sem falar nas discrepâncias de remuneração...
 
Cabe esclarecer: não estou acusando de forma alguma as PESSOAS na academia de terem essa postura (nem faria sentido, visto que também eu participo das dinâmicas acadêmicas); o problema todo está no conjunto de RELAÇÕES entretecidas historicamente em torno da reflexão sobre as políticas públicas em educação, relações essas que muitas vezes nos ultrapassam, nos envolvem e conferem à nossa ação sentidos que não correspondem plenamente às nossas posturas ou intenções. 

O nó górdio, me parece, é o peso específico que cada opinião ganha nos debates; os "lugares de fala" são normalmente considerados de maneira muito diferenciada, independentemente da formação acadêmica propriamente dita. É uma questão de determinado prestígio associado a determinadas posições; há muitas nuances presentes em gestos, atos e palavras, como se vê, por exemplo, nos cursos de capacitação oferecidos pelas secretarias de educação - é só prestar atenção às pessoas que são escolhidas para falar nesses cursos, e aquelas que são "obrigadas" a ouvir. Se não há aí uma hierarquização de saberes implícita, é uma estranha acumulação de coincidências. 

Situando a discussão num plano mais concreto, algumas redes públicas de ensino contam com muitos profissionais com doutorado e produção acadêmica consistente em todas as disciplinas, mas estes nunca, ou muito raramente, são escalados para trabalhar nessas capacitações. E, convenhamos, ter um doutor inserido na realidade escolar falando sobre o assunto me parece muito mais produtivo numa capacitação do que trazer um doutor que não tem, muitas vezes, experiência alguma no ensino básico. Nada disso quer dizer que haja (necessariamente) uma postura de superioridade por parte dos professores universitários que aceitam participar desse gênero de capacitação; no entanto, independentemente da postura pessoal do professor que ministre a aula ou o curso, a configuração geral de cada curso, e do conjunto de cursos ao longo do tempo e, transversalmente, oferecidos nas diversas disciplinas, caracterizam de forma "estrutural" um conjunto de relações marcado pela premissa (mais ou menos) implícita de que alguns estão "autorizados" a pensar a educação enquanto sujeitos, restando aos outros a posição de objetos. 


Outro exemplo - em publicações voltadas para educação básica, as reportagens costumam enquadrar as opiniões dos profissionais em dois planos muito distintos: geralmente se retratam opiniões de caráter técnico/teórico sendo proferidas por professores universitários e o professor do ensino básico aparece apenas relatando alguma experiência profissional pontual que, de alguma forma, ratifique a perspectiva proposta pela reportagem. Mais uma vez, isso não significa que, necessariamente, o professor universitário entrevistado para a reportagem veja as coisas nesses termos, mas sua opinião será, normalmente, enquadrada pelo jornalista ou pela redação num conjunto de referências de modo que ela ganhe determinada conotação. 

Por sinal, minha reflexão inicial foi motivada justamente por uma entrevista em que um economista "de aluguel", "especialista" em educação, falava com ar profundo e entendido, verdadeiras barbaridades. Enfim, não é uma questão de disputa, até porque todos nós, assim como nossos familiares, ocupamos cada uma dessas posições em um ou outro momento da vida, e  o diálogo é extremamente necessário, útil e construtivo; é um assunto sobre o qual devemos todos cooperar de modo amplo e profundo. No entanto, esse diálogo precisa ocorrer de forma simétrica - e não é isso que acontece, o que muitas vezes causa indignação entre os professores do ensino básico. Pior ainda, temos pouquíssimos espaços onde expressar essa indignação e reivindicar nosso dever de contribuir de verdade para a construção de nossas políticas públicas para a educação básica. Ressalto: essa postura não vem apenas, nem principalmente da "academia" (por sinal, o que é a academia?); esses discursos se articulam em vários espaços e instâncias, como, por exemplo, a imprensa e, principalmente, entre os gestores públicos na área de educação. 

É preciso, de muitas maneiras, não diria restaurar, mas instaurar um diálogo plenamente simétrico.


Me parece que a ampla incorporação das opiniões e anseios de professores, funcionários, alunos e responsáveis do ensino básico aos debates sobre nosso sistema educacional permitiria um imenso salto qualitativo nas políticas públicas de educação básica, fomentando a gestão democrática, descentralizada e eficiente dos recursos materiais, financeiros e humanos disponíveis para os ensinos fundamental e médio. Para que esses recursos sejam empregados de maneira plenamente satisfatória, seria necessário que o maior poder de deliberação sobre seu uso estivesse localizado nas unidades escolares - ou seja, o mais próximo possível do polo de demanda por serviços educacionais de qualidade.

Afinal de contas, que democracia é essa onde a opinião que menos conta é aquela dos principais interessados no assunto?

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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Notas de um historiador a "Uma carta aberta ao Brasil"

Dedicado aos amigos Lahna Barbosa e  Kainã Diniz, que despertaram minha curiosidade sobre o tema


O texto Uma carta aberta ao Brasil, de um tal Mark Manson, autointitulado “autor, pensador e entusiasta da vida” americano, anda circulando na Internet e causando polêmica. Enquanto historiador, traço aqui algumas notas sobre o texto em questão. Minhas anotações ficaram um tanto longas, mas enfim, “textão” contra “textão”. Se vocês tiveram paciência para ler as reflexões de Manson, rogo-lhes boa vontade para acompanhar as minhas. Sigamos por partes.

1 – O texto propriamente dito
Do ponto de vista formal, cabe apenas notar que o texto adota a forma de uma carta endereçada diretamente ao país, artifício retórico que poderia ser interessante, caso o autor o empregasse de forma consistente – o que não acontece: Mason perde o fio da meada, por vezes se dirigindo diretamente ao Brasil, por outras aos brasileiros, rompendo seguidamente a coesão do texto.

Quanto ao conteúdo, o autor articula uma crítica superficial e moralista à “cultura brasileira” (noção vaga e imprecisa), à qual atribui os problemas do Brasil, constituindo o principal obstáculo ao “desenvolvimento” e ao “progresso” do país. Segundo Mason, a "cultura brasileira" fomentaria diversos obstáculos ao progresso, como a corrupção cotidiana, uma suposta vaidade excessiva, falta de compromisso etc. Sempre apelando para o senso comum rasteiro, o “pensador” receita uma genérica “revolução interior” como panaceia para solução de nossos problemas, no melhor estilo literatura-motivacional-e-de-autoajuda.

Muitas das críticas são pertinentes, mas o autor as articula de modo completamente isolado e descontextualizado, o que é insustentável em termos de uma análise social séria. Vale ainda ressaltar a arrogante perspectiva adotada pelo texto, o que será analisado a seguir.

2 – As matrizes discursivas
A tal “carta aberta” é tão superficial que mal vale a pena discuti-la. O mais interessante aqui é abordar as matrizes discursivas que a sustentam, o "meta-texto" por trás e para além do texto. Assim, convém analisar o paradigma civilizatório que lhe serve de alicerce, pautado em noções vagas e bastante reificadas de “progresso” e “desenvolvimento”. Ao contrário do que parece, tais ideais não são inerentemente bons ou desejáveis.

Nesse sentido, vale lembrar que no início do século XX a Alemanha e a Áustria eram consideradas duas das nações mais “civilizadas” (equivalente ao atual “desenvolvidas”) do mundo e deram origem a um dos regimes mais bárbaros e perversos da contemporaneidade. De fato, a ascensão do nazismo deixou perplexa e chocada boa parte dos intelectuais europeus de então, que imaginavam que suas sociedades supostamente guiadas pela razão esclarecida estariam imunes a semelhante barbárie, enquanto, pelo contrário, o que se viu foi a instauração de uma brutalidade dotada de eficiência industrial e moderníssimos requintes administrativos, o que, no fundo, choca muito mais que outros atos de violência espontânea e descontrolada, cometidos por gente “ignorante”. Aliás, vale lembrar que foi na super educada e civilizada Viena da virada do século XIX que o Dr. Freud encontrou o grande casulo de neuroses sexuais de onde extraiu sua psicanálise. Por sinal, em minhas poucas viagens fora do Brasil nunca conheci um povo mais educado e polido que o vienense, mas é difícil esquecer que poucas décadas atrás seus antepassados receberam o Führer de braços abertos – ou, mais literalmente, esticados... Também é interessante destacar que os ideais de eugenia e supremacia racial defendidos pelo Nazismo não eram fruto de falta de instrução; pelo contrário, as teorias racistas se apoiavam na ciência da época, com forte inspiração da teoria evolucionista darwinista.

Outro interessante exemplo é o Japão atual. Há pouco comprei um livro do monge budista Kentetsu Takamori; ele lembra que o Japão atualmente proporciona a seus habitantes considerável prosperidade, bons serviços públicos, elevados padrões de consumo e grande conforto material, apresentando baixíssimos índices de miséria ou criminalidade. Apesar disso, milhares de japoneses levam vidas infelizes, esvaziadas de sentido e significado, consumidas por uma estafante rotina de trabalho na juventude e uma tediosa aposentadoria na velhice. Há alguns anos um “manual do suicídio” se tornou best seller em terras nipônicas, elencando inúmeros motivos supostamente razoáveis pelos quais um japonês poderia renunciar à própria vida.

Apelando para uma experiência pessoal, o lugar mais desagradável que já visitei foi Zurique, na Suíça. É uma cidade riquíssima, com elevados padrões de consumo de luxo, mas me pareceu uma cidade absolutamente sem alma e sem coração, onde não se acha uma livraria decente ou um museu interessante, embora se encontrem lojas das maiores grifes internacionais a cada esquina e seja possível avistar um luxuoso carro esportivo a cada 30 segundos. É o tédio consumista levado ao paroxismo. Não à toa, Zurique é hoje uma das capitais mundiais das clínicas de suicídio assistido. Outro exemplo europeu do consumismo avassalador é o Palais Royal, em Paris, que abrigava as melhores livrarias da Europa no século XIX, mas no qual não se encontra mais nenhuma hoje em dia - embora também ali abundem lojas das mais caras e prestigiosas grifes da atualidade. Me parecem sinais curiosos do quanto o tal “desenvolvimento” não é o suficiente para nos oferecer vidas mais ricas e significativas.

Nem me dou ao trabalho de avançar sobre o caso dos Estados Unidos de Manson. Basta ir a qualquer cinema carioca para constatar a franciscana pobreza intelectual, moral e cultural do “desenvolvido” povo americano.

Enfim, nada disso faz do Brasil um lugar melhor, e nossos problemas são muito reais, mas não acho que as nações "desenvolvidas" sejam realmente um exemplo a seguir ou um objetivo a alcançar. Por mais que os deslumbrados turistas brasileiros louvem a fabulosa “educação” do europeu médio, me parece que ruas livres de guimbas de cigarros e pessoas não dando calote no transporte público sejam objetivos civilizacionais muito ralos para ter como modelo e objetivo. Francamente, almejar isso é se contentar com quase nada. Por sinal, quem circula em ruas, bairros e horários menos turísticos de Paris, sabe muito bem que nem todas as localidades são tão limpas e nem todos os parisienses são tão honestos assim - basta passar cinco minutos no "tramway" para verificar quantas pessoas viajam sem validar seus bilhetes. Veja bem, não estamos falando de imigrantes ou refugiados; se trata de “français de souche”, “franceses de raiz”, para usar um termo bem preconceituoso e descortês. Aliás, o turista brasileiro médio ama o Museu do Louvre, mas nunca pôs os pés no Museu Histórico Nacional. O brasileiro "instruído" ama a cultura - desde que ele esteja no exterior e ele possa postar uma selfie com a Gioconda. Aliás, ele nem presta atenção às magníficas Bodas de Caná de Veronese, que estão na parede oposta, na mesma sala.

Tudo isso me faz lembrar o interessante O desconforto da riqueza, livro do historiador (americano, por sinal) Simon Schama, que explora as múltiplas dimensões da cultura holandesa no século XVII, período em que os holandeses se tornaram a maior potência naval, comercial e financeira da época. Logo no começo do livro, Schama analisa o relato de um inglês residente na Holanda, que comentava um estranhíssimo hábito dos holandeses seiscentistas: limpar cotidianamente a casa, sem que ela estivesse "suja" - para os padrões britânicos, a residência só estaria suja, digamos, quando  o chão estivesse enlameado ou um penico fosse entornado acidentalmente, por exemplo. O texto mostra, nesse simples hábito de higiene, uma disparidade cultural crescente entre holandeses e ingleses de então; a atitude holandesa remetia à nascente disciplina social moderna, composta por valores como decência, austeridade, frugalidade, poupança, trabalho diligente etc.

Por outro lado, curiosamente, Schama aborda uma prática realmente chocante: para puro entretenimento, era comum que os holandeses pagassem uma entrada para visitar prisões, apenas pela "diversão" de xingar, humilhar e debochar dos detentos. Gesto bastante bárbaro, me parece. Mas seria um erro imaginar que as duas atitudes sejam antitéticas. Pelo contrário, são faces da mesma moeda: era uma sociedade que se envaidecia de sua (supostamente) virtuosa disciplina e, por isso mesmo, se imaginava no justo direito de escarnecer cruelmente daqueles que lhe pareciam em condição moral (e social) inferior. Ao longo das Idades Moderna e Contemporânea esse novo modelo civilizatório se espalhou pelo mundo inteiro, se ramificando, diversificando e adquirindo diferentes nuances em cada época e lugar, incorporando variados discursos políticos, econômicos, religiosos, culturais e até raciais. De certo modo, podemos propor que o texto de Manson participa amplamente dessa matriz discursiva, arvorando-se em porta-voz da civilização e do progresso, emitindo retumbantes julgamentos e dando uma paternalista e condescendente bronca n o "povo brasileiro", esse ente abstrato. Para nos ajudar, é claro.

Enfim, precisamos criar nosso próprio paradigma civilizacional, não apenas seguir cegamente um receituário pronto para consumo.  Sigamos à parte final dessa já longa reflexão.

3 – A recepção brasileira do texto
Para fechar, convém indagar as razões pelas quais o texto de Manson encontrou tamanha repercussão entre nós. Em primeiro lugar, como já observou um texto interessante, embora um tanto superficial e recheado de clichês, o discurso de Manson vem ao encontro do que muitos brasileiros já pensavam antes, oferecendo uma ratificação externa a essas opiniões.

Todavia, o problema não é somente esse; a grande questão é: por que tantos brasileiros atribuem valor tão expressivo à opinião de um americano que diz ter morado poucos anos no Brasil? Seria nosso famoso “complexo de vira-lata” atuando? Sem dúvida, mas não apenas.

A chave me parece estar na nacionalidade do autor. É fácil imaginar um contraponto: se um nigeriano, um congolês, um indonésio ou um peruano tivesse escrito uma “carta aberta” expressando os mesmos pontos de vista que Manson, o texto encontraria a mesma ressonância? Me parece que não. Muitos brasileiros perguntar-se-iam: “quem esse nigeriano/congolês/indonésio/peruano pensa que é?!”. As razões são relativamente complexas, mas não é difícil resumi-las: aceitamos ouvir opiniões semelhantes de um americano, um francês, um alemão, um suíço e outros, porque nos relacionamos com esses povos de modo deferente, e, sejamos sinceros, subserviente. Toleramos (e até aplaudimos, curtimos, compartilhamos) o que jamais aceitaríamos de outros. Aliás, é curioso notar que dificilmente um brasileiro criticaria os americanos no tom paternalista, condescendente e sapiencial empregado por Mason. Até utilizaríamos esse mesmo tom – para com nigerianos, congoleses, indonésios, peruanos...

Tudo isso convida a repensar nosso “complexo de vira-lata”. Como quase tudo na vida, esse “complexo” não é algo autossuficiente; ele é relacional, à medida que participa de uma série de relações historicamente estabelecidas entre o povo brasileiro e o restante do mundo. Somos submissos a quem está “acima” e arrogantes com quem está “abaixo”; "vira-latas" para um lado, "rottweiler" para o outro. E isso, no fundo, é ainda mais desagradável – assustador, até – que a versão standard do “complexo de vira-latas”.

Concluindo, nada disso quer dizer que nunca devamos ouvir opiniões estrangeiras. Pelo contrário, muitos estudiosos de diversas nacionalidades e disciplinas contribuíram e contribuem enormemente para pensar o Brasil ou a América Latina, como Claude Lévi-Strauss, Charles Boxer, Stuart Schwartz, Richard Morse, Thomas Skidmore, Serge Gruzinski, Frédéric Mauro, Kenneth Maxwell, Geoffrey Needell, entre muitos outros. Mas uma coisa é dar ouvidos a um intelectual conhecedor de nossa história e de nossos processos sociais; abaixar a cabeça diante das opiniões de um “gringo” leigo e arrogante como esse tal Mark Manson é outra coisa inteiramente diferente..

Luiz F. F. Tavares é professor de História das redes FAETEC-RJ e SME-RJ, doutor em História pela Universidade Federal Fluminense e pós-doutorando em Antropologia Social pelo Museu Nacional