Honestamente, ando cansado de tanta polarização descerebrada nos debates atuais.
Seja à "esquerda", "direita" ou ao "centro" há pouca disposição para o diálogo, para o questionamento e, ainda mais importante, para o autoquestionamento.
De fato, creio que seria justamente o autoquestionamento a via para nos tirarmos dessas discussões horizontais e rasteiras, bem como nos livrarmos de tantos rótulos vazios.
Não quero estar à "esquerda".
Tampouco quero estar à "direita".
O "centro" me entedia.
Aceito apenas o Alto, nada menos que o Alto.
Prefiro as dores e dúvidas do Cáucaso às banais "certezas" das planícies...
Semper plus ultra!
segunda-feira, 10 de junho de 2013
terça-feira, 7 de maio de 2013
Os vícios do olhar
Há cerca de um mês realizei um "seminário relâmpago" com meus alunos do 1º ano do ensino técnico. O objetividade da atividade era fazê-los experimentar na prática como é feita a pesquisa com fontes primárias. Para tanto, dividi as turmas em grupos; cada um recebeu uma gravura de Debret sobre o Rio de Janeiro à época de D. João VI ou do Primeiro Reinado, acompanhada do texto explicativo redigido pelo próprio Debret. Tratava-se de imagens do cotidiano carioca, com cenas de comércio, festividades religiosas ou profanas, transporte, entre outros temas. Orientados por alguns questionamentos e tópicos, os alunos deveriam analisar suas respectivas fontes e apresentá-las diante da turma.
Como pode-se imaginar, havia inúmeras pessoas negras representadas nessas imagens. Propositadamente eu havia escolhido apenas cenas onde não houvesse personagens negros em situações degradantes de tortura, maus tratos ou humilhações. Além disso, procurei enfatizar aquelas onde eram retratados personagens negros explicitamente identificados como livres nos textos de Debret.
O resultado foi tristemente surpreendente - embora previsível. A maioria dos grupos, ao apresentar para os colegas suas respectivas imagens identificavam esses personagens negros como "escravos", apesar dos textos claramente dizerem o contrário. Em todos os grupos o texto fôra lido, como as explicações dos alunos mostravam. No entanto, a generalização equivocada de que antes da Abolição todas as pessoas negras no Brasil eram escravas falou mais alto.
Obviamente esclareci que nem todos os negros brasileiros dessa época eram cativos, salientando inclusive que em algumas das imagens de Debret eles eram representados desempenhando papéis ativos na vida social.
Não é difícil entender a perplexidade de meus alunos. De fato, desde o início da República o imaginário que vem sendo coletivamente perpetuado corresponde a esses preconceitos. Me parece que particularmente as novelas de época contribuem para esse panorama, com poucas exceções. Pior ainda, muitas vezes essa interpretação do negro como vítima da História em nosso país é enfatizada mesmo por aqueles que defendem os direitos dos afrodescendentes.
Numa perspectiva mais ampla, o episódio me lembra que devemos estar constantemente vigilantes contra os variados vícios do olhar, que também nos induzem a vícios do pensar e, pior ainda, do agir...
Como pode-se imaginar, havia inúmeras pessoas negras representadas nessas imagens. Propositadamente eu havia escolhido apenas cenas onde não houvesse personagens negros em situações degradantes de tortura, maus tratos ou humilhações. Além disso, procurei enfatizar aquelas onde eram retratados personagens negros explicitamente identificados como livres nos textos de Debret.
O resultado foi tristemente surpreendente - embora previsível. A maioria dos grupos, ao apresentar para os colegas suas respectivas imagens identificavam esses personagens negros como "escravos", apesar dos textos claramente dizerem o contrário. Em todos os grupos o texto fôra lido, como as explicações dos alunos mostravam. No entanto, a generalização equivocada de que antes da Abolição todas as pessoas negras no Brasil eram escravas falou mais alto.
Obviamente esclareci que nem todos os negros brasileiros dessa época eram cativos, salientando inclusive que em algumas das imagens de Debret eles eram representados desempenhando papéis ativos na vida social.
Não é difícil entender a perplexidade de meus alunos. De fato, desde o início da República o imaginário que vem sendo coletivamente perpetuado corresponde a esses preconceitos. Me parece que particularmente as novelas de época contribuem para esse panorama, com poucas exceções. Pior ainda, muitas vezes essa interpretação do negro como vítima da História em nosso país é enfatizada mesmo por aqueles que defendem os direitos dos afrodescendentes.
Numa perspectiva mais ampla, o episódio me lembra que devemos estar constantemente vigilantes contra os variados vícios do olhar, que também nos induzem a vícios do pensar e, pior ainda, do agir...
sexta-feira, 3 de maio de 2013
A História segundo Chaves e Prof. Girafales
Diário do Chaves, Roberto Gómez Bolaños
"O Professor Girafales nos contou que a História começou a ser escrita há milhões de anos. Ou seja: já tiveram tempo suficiente para acabar de escrevê-la, não? Porque, nesse ritmo, não vão acabar nunca.
Depois escreveu uma coisa no quadro e mandou que a gente copiasse. Foi isso que eu copiei:
'Devemos estudar História sem gerar sentimentos de ódio; sem espírito de vingança. Não para piorar as coisas, e sim para melhorá-las. Em uma palavra: com Amor.'
E como não entendemos muito bem o que ele queria dizer, depois nos explicou que há livros e professores que, com suas lições de história, o que fazem é nos ensinar a odiar o próximo. Por exemplo: os espanhóis, por terem conquistado o México; os americanos, por terem ficado com a metade do território mexicano; os franceses, por terem nos imposto um imperador que não era daqui etc. Mas isso é muito ruim. Não devemos odiar ninguém.
E, menos ainda, odiar uma pessoa pelo que seus antepassados fizeram de errado. Por exemplo: sabe-se que entre os espanhóis que conquistaram os mexicanos havia de tudo: maus, regulares e bons. Os maus levaram todo o ouro e toda a prata que podiam, além de terem maltratado os índios, que tinham de fugir escondendo-se na mata virgem (aliás, o professor explicou que se chama 'mata virgem' aquela em que o Homem não entrou. Ou seja: depois que chegaram os espanhóis, nem a mata ficou virgem). Mas os bons, por outro lado, defendiam os índios e lhes ensinavam a fazer coisas úteis. Os melhores eram os missionários, que, além de tudo, ensinavam aos índios o que fazer pra manter a alma limpa (os índios, por sua vez, ensinavam aos espanhóis o que fazer pra manter o corpo limpo).
Mas ainda que levássemos em conta só os maus, os espanhóis de hoje não são mais aqueles que nos conquistaram. Portanto, não devemos odiar alguém pelo que seus antepassados fizeram. Ou seja: é como se o Quico se odiasse porque seus pais o fizeram tão feio.
Depois o Professor Girafales nos disse que também não devemos odiar os americanos (que continuam sendo os gringos) por terem tirado a metade do território do México (aliás, Seu Madruga contou que tiraram a melhor parte, ou seja, onde estão as melhores estradas e tudo o mais). Porque o professor disse que não foi culpa só deles, mas também de muitos mexicanos que preferiam lutar entre si a se defender deles. E isso está errado, porque, se entram na sua casa pra roubar, o mais importante é se defender dos ladrões, antes de brigar com seus irmãos.
E, de qualquer jeito, acho que aqueles gringos também não são os mesmos de hoje. Ou seja: é pra rezar e pedir a Deus que os de hoje não sejam piores do que aqueles.
Depois o professor nos explicou a história do imperador que os franceses puseram no México: chamava-se Maximiliano, mas o mais curioso é que não era francês, e sim australiano*. E dizem que ele nasceu na ambulância**, porque era da família dos Absurdos***. Aí, Godines disse que, por outro lado, quem fora francês era Pancho Villa, mas o professor lhe perguntou de onde ele tinha tirado a ideia de que Pancho Villa era francês, e Godines disse que era Francês-co Villa.
Depois a Chiquinha perguntou o seguinte: se Maximiliano não era francês, por que se dizia que era uma invasão dos franceses? E o professor respondeu que quem enviara Maximiliano havia sido o imperador da França, que se chamava Napoleão. Aí a Chiquinha disse que esse ela conhecia, pois tinha ficado muito famoso pela sua pobreza. Mas o professor disse que não, que Napoleão não tinha sido pobre, e a Chiquinha respondeu:
-Mas eu vi que ele andava com uma mão na frente e outra atrás! - (E disse isso rindo, sabe-se lá por quê). E o Professor Girafales lhe disse que em primeiro lugar, ela estava falando de Napoleão Primeiro (e escreveu assim: Napoleão I), e que ele estava se referindo a Napoleão Terceiro (e escreveu assim: Napoleão III). Aí perguntei se não eram a mesma pessoa. E o professor me disse que não. Como é que o primeiro podia ser o mesmo que o terceiro? É que eu achava que eram a mesma pessoa, só que iam colocando tracinhos conforme ele fazia aniversário.
Aí o professor deu um suspiro e pediu que tornássemos a copiar o que estava no quadro.
E, portanto, tornei a copiar:
'Devemos estudar História sem gerar sentimentos de ódio; sem espírito de vingança. Não para piorar as coisas, e sim para melhorá-las. Em uma palavra: com Amor.'"
-------
* É óbvio que o Chaves ouviu mal quando o professor disse 'austríaco' (N. do A.).
** O professor deve ter dito que Maximiliano nasceu na "opulência" (N. do A.).
*** Não há dúvida: o professor só pode ter dito "Habsburgos" (N. do A.).
"O Professor Girafales nos contou que a História começou a ser escrita há milhões de anos. Ou seja: já tiveram tempo suficiente para acabar de escrevê-la, não? Porque, nesse ritmo, não vão acabar nunca.
Depois escreveu uma coisa no quadro e mandou que a gente copiasse. Foi isso que eu copiei:
'Devemos estudar História sem gerar sentimentos de ódio; sem espírito de vingança. Não para piorar as coisas, e sim para melhorá-las. Em uma palavra: com Amor.'
E como não entendemos muito bem o que ele queria dizer, depois nos explicou que há livros e professores que, com suas lições de história, o que fazem é nos ensinar a odiar o próximo. Por exemplo: os espanhóis, por terem conquistado o México; os americanos, por terem ficado com a metade do território mexicano; os franceses, por terem nos imposto um imperador que não era daqui etc. Mas isso é muito ruim. Não devemos odiar ninguém.
E, menos ainda, odiar uma pessoa pelo que seus antepassados fizeram de errado. Por exemplo: sabe-se que entre os espanhóis que conquistaram os mexicanos havia de tudo: maus, regulares e bons. Os maus levaram todo o ouro e toda a prata que podiam, além de terem maltratado os índios, que tinham de fugir escondendo-se na mata virgem (aliás, o professor explicou que se chama 'mata virgem' aquela em que o Homem não entrou. Ou seja: depois que chegaram os espanhóis, nem a mata ficou virgem). Mas os bons, por outro lado, defendiam os índios e lhes ensinavam a fazer coisas úteis. Os melhores eram os missionários, que, além de tudo, ensinavam aos índios o que fazer pra manter a alma limpa (os índios, por sua vez, ensinavam aos espanhóis o que fazer pra manter o corpo limpo).
Mas ainda que levássemos em conta só os maus, os espanhóis de hoje não são mais aqueles que nos conquistaram. Portanto, não devemos odiar alguém pelo que seus antepassados fizeram. Ou seja: é como se o Quico se odiasse porque seus pais o fizeram tão feio.
Depois o Professor Girafales nos disse que também não devemos odiar os americanos (que continuam sendo os gringos) por terem tirado a metade do território do México (aliás, Seu Madruga contou que tiraram a melhor parte, ou seja, onde estão as melhores estradas e tudo o mais). Porque o professor disse que não foi culpa só deles, mas também de muitos mexicanos que preferiam lutar entre si a se defender deles. E isso está errado, porque, se entram na sua casa pra roubar, o mais importante é se defender dos ladrões, antes de brigar com seus irmãos.
E, de qualquer jeito, acho que aqueles gringos também não são os mesmos de hoje. Ou seja: é pra rezar e pedir a Deus que os de hoje não sejam piores do que aqueles.
Depois o professor nos explicou a história do imperador que os franceses puseram no México: chamava-se Maximiliano, mas o mais curioso é que não era francês, e sim australiano*. E dizem que ele nasceu na ambulância**, porque era da família dos Absurdos***. Aí, Godines disse que, por outro lado, quem fora francês era Pancho Villa, mas o professor lhe perguntou de onde ele tinha tirado a ideia de que Pancho Villa era francês, e Godines disse que era Francês-co Villa.
Depois a Chiquinha perguntou o seguinte: se Maximiliano não era francês, por que se dizia que era uma invasão dos franceses? E o professor respondeu que quem enviara Maximiliano havia sido o imperador da França, que se chamava Napoleão. Aí a Chiquinha disse que esse ela conhecia, pois tinha ficado muito famoso pela sua pobreza. Mas o professor disse que não, que Napoleão não tinha sido pobre, e a Chiquinha respondeu:
-Mas eu vi que ele andava com uma mão na frente e outra atrás! - (E disse isso rindo, sabe-se lá por quê). E o Professor Girafales lhe disse que em primeiro lugar, ela estava falando de Napoleão Primeiro (e escreveu assim: Napoleão I), e que ele estava se referindo a Napoleão Terceiro (e escreveu assim: Napoleão III). Aí perguntei se não eram a mesma pessoa. E o professor me disse que não. Como é que o primeiro podia ser o mesmo que o terceiro? É que eu achava que eram a mesma pessoa, só que iam colocando tracinhos conforme ele fazia aniversário.
Aí o professor deu um suspiro e pediu que tornássemos a copiar o que estava no quadro.
E, portanto, tornei a copiar:
'Devemos estudar História sem gerar sentimentos de ódio; sem espírito de vingança. Não para piorar as coisas, e sim para melhorá-las. Em uma palavra: com Amor.'"
-------
* É óbvio que o Chaves ouviu mal quando o professor disse 'austríaco' (N. do A.).
** O professor deve ter dito que Maximiliano nasceu na "opulência" (N. do A.).
*** Não há dúvida: o professor só pode ter dito "Habsburgos" (N. do A.).
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Dossiê França Antártica
A quem interessar possa, saiu na revista História Viva desse mês um Dossiê França Antártica, onde se encontra um artigo de minha autoria, "Os egressos da França Antártica". O texto discute as trajetórias de alguns participantes do empreendimento francês na Guanabara após o fim da colônia. Como resumi em um dos parágrafos,
"A França Antártica não foi uma iniciativa isolada, mas parte essencial do desenvolvimento das navegações francesas no Atlântico. Embora tenha sido breve o empreendimento, seus participantes se espalharam pelo mundo, atuando na colonização francesa ou ibérica na América, em lutas religiosas, chegando à Ásia. Nesses anos, a Guanabara foi uma encruzilhada do planeta, entrelaçando vidas na aurora da gloalização".
O dossiê também conta com os textos "O almirante francês da Guanabara", de Vasco Mariz, sobre o cavaleiro de Villegagnon, e o artigo "Os primeiros cariocas", de Dirley Fernandes, a respeito do papel dos índios na França Antártica.
sábado, 27 de abril de 2013
Leituras - "Monstro de Deus", de David Quammen
Depois de uma qualificação e dois artigos, de volta ao velho blog!
Nesse meio tempo, tive oportunidade de ler alguns livros maravilhosos em minhas horas vagas, dentre os quais o interessantíssimo Monstro de Deus, cujo esclarecedor subtítulo em Português é "Feras predadoras: história, ciência e mito". A obra constitui um excelente exemplo do quanto um bom trabalho de divulgação científica, escorado em pesquisa sólida e questionamentos criativos pode oferecer perspectivas intelectuais extremamente instigantes.
David Quammen elabora uma interessante abordagem interdisciplinar, unindo ciências humanas e biológicas para discutir as relações entre as culturas humanas e os grandes predadores ou, como os denomina, os "predadores-alfa", animais capazes de atacar e devorar sozinhos um ser humano, como leões, ursos, crocodilos, tigres, entre outros.
Sua análise explora a temática em diversos sentidos, por exemplo, discutindo as relações entre mitologia e ecologia, explorando as relações entre as feras mitológicas e as interações entre os homens e seus ecossistemas em épocas arcaicas. Para tanto, recorre a textos como a epopeia de Gilgamesh, o Nibelungenlied, a saga de Beowulf ou a Bíblia. Como bem observa Quammen, Humbaba ou Leviatã eram mais que monstros - eram a personificação da fragilidade humana ante uma natureza poderosa e incontrolável, povoada por grandes animais realmente capazes de reduzir indivíduos à condição de refeição... Como sintetiza o autor, "uma morte no trânsito é um infortúnio banal que não choca a consciência pública com a mesma força que um urso homicida, devorador de carne. Uma coisa é estar morto. Outra coisa é transformar-se em carne".
Um dos pontos altos do livro é a discussão do artigo Being Prey ("Ser presa"), da filósofa australiana Val Plumwood, sobrevivente de um ataque de crocodilo em sua juventude:
"'Se a morte ordinária é um horror, a morte nas mandíbulas de um crocodilo é o horror supremo', testemunha Plumwood. Seu horror mais profundo deriva daquelas 'quebras de fronteiras proibidas' que combinam 'decomposição do corpo da vítima com a reviravolta da vitória sobre a natureza e a materialidade que a morte cristã representa. A predação de crocodilos sobre humanos ameaça a visão dualista do domínio humano sobre o planeta no qual somos predadores mas não podemos nunca ser presas. Podemos consumir diariamente outros animais aos bilhões, mas nós mesmos não podemos ser comida para vermes e certamente não carne para crocodilos'".
De fato, tornar-se presa é a antítese radical de nossas antropocêntricas ilusões sobre o cosmo - e nosso lugar no cosmo. É assumir um papel que há muito nos recusamos a representar, especialmente em nossa sociedade hedonista, que procura inutilmente expulsar da vida as dimensões de sofrimento. É lembrar humildemente que não somos o centro do universo.
Quammen explora magistralmente as ramificações políticas, econômicas e sociais dessa questão em vários contextos históricos, formando um complexo quadro sobre a importância dos animais em nossas vidas e em nosso imaginário. Um livro indispensável para todos aqueles que se interessam pela ecologia e por nossas relações com o mundo natural.
Nesse meio tempo, tive oportunidade de ler alguns livros maravilhosos em minhas horas vagas, dentre os quais o interessantíssimo Monstro de Deus, cujo esclarecedor subtítulo em Português é "Feras predadoras: história, ciência e mito". A obra constitui um excelente exemplo do quanto um bom trabalho de divulgação científica, escorado em pesquisa sólida e questionamentos criativos pode oferecer perspectivas intelectuais extremamente instigantes.
David Quammen elabora uma interessante abordagem interdisciplinar, unindo ciências humanas e biológicas para discutir as relações entre as culturas humanas e os grandes predadores ou, como os denomina, os "predadores-alfa", animais capazes de atacar e devorar sozinhos um ser humano, como leões, ursos, crocodilos, tigres, entre outros.
Sua análise explora a temática em diversos sentidos, por exemplo, discutindo as relações entre mitologia e ecologia, explorando as relações entre as feras mitológicas e as interações entre os homens e seus ecossistemas em épocas arcaicas. Para tanto, recorre a textos como a epopeia de Gilgamesh, o Nibelungenlied, a saga de Beowulf ou a Bíblia. Como bem observa Quammen, Humbaba ou Leviatã eram mais que monstros - eram a personificação da fragilidade humana ante uma natureza poderosa e incontrolável, povoada por grandes animais realmente capazes de reduzir indivíduos à condição de refeição... Como sintetiza o autor, "uma morte no trânsito é um infortúnio banal que não choca a consciência pública com a mesma força que um urso homicida, devorador de carne. Uma coisa é estar morto. Outra coisa é transformar-se em carne".
Um dos pontos altos do livro é a discussão do artigo Being Prey ("Ser presa"), da filósofa australiana Val Plumwood, sobrevivente de um ataque de crocodilo em sua juventude:
"'Se a morte ordinária é um horror, a morte nas mandíbulas de um crocodilo é o horror supremo', testemunha Plumwood. Seu horror mais profundo deriva daquelas 'quebras de fronteiras proibidas' que combinam 'decomposição do corpo da vítima com a reviravolta da vitória sobre a natureza e a materialidade que a morte cristã representa. A predação de crocodilos sobre humanos ameaça a visão dualista do domínio humano sobre o planeta no qual somos predadores mas não podemos nunca ser presas. Podemos consumir diariamente outros animais aos bilhões, mas nós mesmos não podemos ser comida para vermes e certamente não carne para crocodilos'".
De fato, tornar-se presa é a antítese radical de nossas antropocêntricas ilusões sobre o cosmo - e nosso lugar no cosmo. É assumir um papel que há muito nos recusamos a representar, especialmente em nossa sociedade hedonista, que procura inutilmente expulsar da vida as dimensões de sofrimento. É lembrar humildemente que não somos o centro do universo.
Quammen explora magistralmente as ramificações políticas, econômicas e sociais dessa questão em vários contextos históricos, formando um complexo quadro sobre a importância dos animais em nossas vidas e em nosso imaginário. Um livro indispensável para todos aqueles que se interessam pela ecologia e por nossas relações com o mundo natural.
sábado, 13 de abril de 2013
O robô político
"Quando observamos algum político de segunda na tribuna repetindo de modo mecânico os chavões familiares [...] temos muitas vezes a curiosa sensação de que não estamos vendo um ser humano, mas algum tipo de simulacro [...] E isso não é de forma alguma uma fantasia: o orador que usa esse tipo de fraseologia já avançou muito no sentido de se transformar numa máquina. Os ruídos apropriados saem de sua laringe, mas seu cérebro não está envolvido como estaria se ele escolhesse as palavras por si mesmo. Se o discurso que faz é do tipo que está acostumado a repetir sem cessar, ele talvez quase não tenha consciência do que diz, como acontece quando repetimos respostas numa igreja".
George Orwell
George Orwell
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Uma agradável surpresa!
Ser citado por Mary Del Priore... Não tem preço! Como diria minha amiga Ana Delmas, estou virando zooplâncton!
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Escambo inflacionário
Desde a minha graduação (lá se vão alguns anos...) venho me questionando sobre alguns aspectos curiosos do comércio entre europeus e ameríndios na Alta Idade Moderna. Resumo aqui uma pequena parte desse percurso. Para começar, tomo a liberdade de citar meu primeiro livro (Entre Genebra e a Guanabara) onde algumas dessas questões já apareciam, ainda de modo muito cru:
"Comercialmente, a relação era vantajosa para ambos [franceses e tupinambás], apesar das constantes afirmações de que os índios eram vítimas da astúcia europeia. Mas, enfim, quem enganava quem? Os franceses trocavam com os índios ninharias que lhes pareciam de pouco valor, mas inestimáveis aos indígenas por sua raridade e, em diversos momentos, utilidade, como os instrumentos de metal, determinantes de verdadeiro salto tecnológico, do ponto de vista da eficiência, em seu uso para tarefas antes sumamente trabalhosas. Em contrapartida a esses preciosos bens, cediam aos europeus objetos da mais perfeita inutilidade, sobretudo o pau-brasil, que para eles era apenas madeira como qualquer outra das que encontravam em abundância na mata. Seria fruto de uma interpretação extremamente etnocêntrica ver os indígenas como vítimas de um negócio injusto, tendo em vista que, como muito bem sinalizaram diversos teóricos econômicos, nenhuma mercadoria tem valor comercial intrínseco, sendo este definido única e exclusivamente pelo contexto social em questão.
[...]
Em verdade, podemos até dizer que a relação entre franceses e indígenas era assimétrica, com a vantagem do lado dos últimos. Afinal, a colônia da ilha de Serigipe [núcleo da França Antártica] tinha total dependência de seus aliados para a satisfação das necessidades mais básicas, ao passo que os da terra tinham perfeita autonomia, tendo em vista que tudo que recebiam dos franceses, mesmo os bens mais úteis, era supérfluo".
Essas observações se referiam apenas à experiência da França Antártica (no atual Rio de Janeiro, entre 1555 e 1567). Em minhas leituras mais recentes para a tese tenho encontrado outras situações curiosas em outros pontos da América, sempre ligadas à relação entre franceses e indígenas.
Um desses casos se refere à tentativa francesa de colonizar a Flórida, liderada por Laudonnière entre 1562 e 1565. Nesse breve tempo, o chefe francês tentou forjar desastradas alianças entre tribos locais, da etnia timucua - todas rivais entre si! Cada passo de Laudonnière tornava mais tensa a situação, intensificando os desgastes diplomáticos.
"Comercialmente, a relação era vantajosa para ambos [franceses e tupinambás], apesar das constantes afirmações de que os índios eram vítimas da astúcia europeia. Mas, enfim, quem enganava quem? Os franceses trocavam com os índios ninharias que lhes pareciam de pouco valor, mas inestimáveis aos indígenas por sua raridade e, em diversos momentos, utilidade, como os instrumentos de metal, determinantes de verdadeiro salto tecnológico, do ponto de vista da eficiência, em seu uso para tarefas antes sumamente trabalhosas. Em contrapartida a esses preciosos bens, cediam aos europeus objetos da mais perfeita inutilidade, sobretudo o pau-brasil, que para eles era apenas madeira como qualquer outra das que encontravam em abundância na mata. Seria fruto de uma interpretação extremamente etnocêntrica ver os indígenas como vítimas de um negócio injusto, tendo em vista que, como muito bem sinalizaram diversos teóricos econômicos, nenhuma mercadoria tem valor comercial intrínseco, sendo este definido única e exclusivamente pelo contexto social em questão.
[...]
Em verdade, podemos até dizer que a relação entre franceses e indígenas era assimétrica, com a vantagem do lado dos últimos. Afinal, a colônia da ilha de Serigipe [núcleo da França Antártica] tinha total dependência de seus aliados para a satisfação das necessidades mais básicas, ao passo que os da terra tinham perfeita autonomia, tendo em vista que tudo que recebiam dos franceses, mesmo os bens mais úteis, era supérfluo".
Essas observações se referiam apenas à experiência da França Antártica (no atual Rio de Janeiro, entre 1555 e 1567). Em minhas leituras mais recentes para a tese tenho encontrado outras situações curiosas em outros pontos da América, sempre ligadas à relação entre franceses e indígenas.
Um desses casos se refere à tentativa francesa de colonizar a Flórida, liderada por Laudonnière entre 1562 e 1565. Nesse breve tempo, o chefe francês tentou forjar desastradas alianças entre tribos locais, da etnia timucua - todas rivais entre si! Cada passo de Laudonnière tornava mais tensa a situação, intensificando os desgastes diplomáticos.
A esmagadora maioria dos colonos era constituída por militares. Para sua alimentação, dependiam inteiramente das trocas com os indígenas. Nos últimos meses da colônia, desacreditados junto aos líderes timucua, os franceses compravam a peso de ouro seus víveres dos índios cada vez mais exigentes, até se encontrarem inteiramente privados de mercadorias para troca. Em desespero, os franceses se viram forçados a lutar contra os nativos por alimento, atacando e saqueando suas aldeias.
Não seria de todo inadequado dizer que os franceses se viram diante de uma dinâmica comercial inflacionária, em que os indígenas aumentavam significativamente os preços (ou seria melhor dizer o valor?) de suas mercadorias, conscientes do quanto seu fornecimento era extremamente necessário aos europeus. Percebendo sua posição vantajosa nas trocas, os timucua não tardaram a se aproveitar dela - que empresário capitalista faria diferente?
Termino esse já longo texto citando um trecho interessante do relato da segunda viagem de Jacques Cartier ao Canadá, entre 1535 e 1536. Como o anônimo autor do texto observa, os franceses compravam grande quantidade de peixes dos nativos wendak "em troca de pequenas coisas de que se contentavam muito". No entanto, dois indígenas que retornavam da França alertavam seus companheiros, e "lhes diziam e davam a entender que aquilo que lhes dávamos não valia nada e que eles teriam facilmente machados e facas por aquilo que eles nos davam". Taignoagny e Domagaya - os dois índios em questão - incitavam seus compatriotas a inflacionar os preços.
Infelizmente o autor não esclarece o que aconteceu depois; de qualquer forma, o detalhe é precioso, evidenciando o quanto os indígenas estabeleciam estratégias comerciais em seus negócios com os europeus. Curiosamente, o autor censurava a ganância dos wendak, pois "o capitão [Cartier] lhes dera muitos presentes". Nota-se um curioso não-dito: a busca do lucro era aceitável entre os europeus, mas não entre os ameríndios...
Obviamente o tema exige muito cuidado, especialmente no uso de termos como "preço" ou "inflação" em relação a trocas não-monetárias. Pretendo aprofundar essas reflexões em outros trabalhos. No entanto, parece-me muito interessante explorar as possibilidades emergentes do encontro entre sistemas sócio-econômicos inteiramente diferentes, orientados por valores dissonantes. Concluo com outra passagem do relato da viagem de Cartier:
"E [os índios] lhe deram [a Jacques Cartier] de presente vinte e quatro colares de esnoguy [tipo de concha de rio], que é a maior riqueza que eles têm nesse mundo, pois eles a estimam mais que o ouro ou a prata".
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
As mil faces de Jesus
Ainda em clima natalino, mais uma pequena reflexão sobre a figura de Jesus. É difícil afirmar com toda certeza se ele realmente existiu como personagem histórico. No entanto, é certo que ao longo dos séculos foi representado com as mais diversas aparências, refletindo as inúmeras travessias culturais que sua imagem realizou. Vejamos alguns exemplos...
Entre as principais fontes de iconografia paleocristã encontramos as catacumbas de Roma, onde os primeiros cristãos se reuniam. Nelas, é comum a representação de Jesus bastante próxima de um patrício romano, familiar àqueles que produziam essas imagens, bem como aos que as viam. Assim, temos um Jesus vestido - e barbeado - como um membro da elite romana.
Por outro lado, também era comum a assimilação de Jesus a divindades do panteão pagão, como Apolo ou Orfeu - caso da imagem acima. Tais associações não eram gratuitas, sendo bastante sugestivas das permutas entre a cultura romana, o judaísmo e o cristianismo nascente. No caso, o mito de Orfeu envolvia uma viagem de ida e volta ao mundo dos mortos, facilmente identificada à crença na ressurreição de Cristo.
No Império Bizantino a imagem de Jesus se manteve durante muito tempo próxima à iconografia paleocristã.
Embora pouco conhecida no Ocidente, a comunidade cristã da Etiópia é uma das mais antigas do mundo. Ao longo de séculos, desenvolveu suas próprias tradições e convenções para representar a imagem de Jesus. Para os cristãos etíópes, Jesus era evidentemente negro - e, no caso da imagem acima, bastante simpático.
Na Alta Idade Média começavam a se elaborar na Europa Ocidental as convenções que conhecemos melhor, em que Jesus passava a ser representado com traços germânicos, como é o caso nessa representação. Não obstante, havia ainda gande proximidade estilística às tradições paleocristãs e da Igreja Ortodoxa.
No mundo islâmico, Jesus também é reverenciado como um grande profeta. Algumas suratas do Alcorão são dedicadas a ele e sua mãe, Maria. Nessa imagem produzida no âmbito islâmico podemos ver um Jesus quase persa! Os anjos que o carregam com suas asas alegremente coloridas também são interessantíssimos...
No Renascimento encontramos representações que remetem às antigas assimilações entre Jesus e Apolo, acrescentando novas camadas às convergências entre as culturas greco-romana e judaico-cristã...
Ao longo de dois milênios a figura de Jesus foi objeto de inúmeras apropriações e interpretações, nos mais variados contextos culturais e religiosos, espelhando as diversas concepções elaboradas a seu respeito: profeta, deus encarnado, louco, filósofo... Existindo ou não, nos últimos vinte séculos Jesus se tornou uma parte significativa do imaginário humano.
Dedicado ao Igor, co-autor involuntário desse texto
Assuntos relacionados:
Arte,
Cristianismo,
Imagens,
Imaginação,
Mitologia,
Permanências culturais,
Pintura,
Religião,
Top 3 - Cristianismo
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Invenções Natalinas
Atualmente
o Natal é marcado por inúmeras tradições quase inevitáveis entre a maioria das
famílias. No entanto, esses costumes nada têm de fixo e invariável, e mudaram
muito ao longo do tempo. Como já lembrava o saudoso Eric Hobsbawn, a tradição anda sempre ao lado da invenção.
A própria data foi inventada pela Igreja Católica como forma de facilitar a cristianização de povos pagãos que nesse período do ano celebravam festivais religiosos pela chegada do inverno no hemisfério norte, como celtas, germânicos e eslavos. Particularmente, no dia 24 de dezembro era cultuado o Sol Invicto, divindade oriental bastante popular nos últimos séculos do Império Romano. Por outro lado, a Igreja Ortodoxa originalmente comemorava o Natal em 6 de janeiro, o que ainda acontece em alguns países da Europa Oriental.
Por sinal, a julgar pelas características climáticas da Palestina e a crer nas características do relato bíblico, me parece pouco provável que Jesus tivesse nascido naquelas condições em época invernal. Em Belém, geralmente há pelo menos um dia de neve em dezembro - vá se fazer um parto numa estrebaria ou sair com carneiros a pastar num frio desses! Pelo contrário, se tivesse de fazer uma aposta, diria que ele nasceu entre maio e agosto...
Durante séculos, a única tradição natalina realmente relevante em terras católicas (incluindo o Brasil) era a Missa do Galo. Já o Protestantismo rejeitou em seus primeiros tempos a comemoração do Natal como um hábito "papista". No século XIX a situação mudou, quando o Natal foi reinventado em terras reformadas. Boa parte das atuais tradições surgiram nessa época em países com grupos protestantes enraizados, como a Alemanha (árvore de Natal), Inglaterra (troca de presentes) ou EUA (peru).
Essas invenções só se popularizaram no Brasil em meados do século XX, com a industrialização do país e a exposição à cultura norte-americana, sob estímulo do comércio. As pessoas mais velhas de minha família vivenciaram de perto esse processo de transformação. Como minha avó me dizia hoje mesmo, o único hábito natalino em sua família era o consumo de bacalhau na ceia - sem Papai Noel, troca de presentes, árvore...
Mais ainda, as comemorações do Natal ganharam conotações indubitavelmente laicas, particularmente nos países onde não existe uma população cristã significativa. No Japão, por exemplo, é uma data onde os casais costumam trocar presentes e sair para um jantar romântico a dois - mesmo o aspecto familiar dos festejos é ignorado.
Também vale a pena sublinhar a exploração do Natal pelo Capitalismo; dezembro costuma ser o mês com maior índice de vendas. Por uma dessas sutis e infatigáveis mutações da história, o longuíssimo curso dos séculos transformou uma comemoração forjada para o proselitismo religioso em uma festividade laica com consequências econômicas incontornáveis...
Ante o consumismo que impera na época natalina, vale sempre a pena lembrar as palavras atribuídas ao aniversariante: "Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e o caruncho os corroem e onde os ladrões arrombam e roubam, mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça, nem o caruncho corroem e onde os ladrões não arrombam nem roubam; pois onde está teu tesouro aí estará também o teu coração".
A própria data foi inventada pela Igreja Católica como forma de facilitar a cristianização de povos pagãos que nesse período do ano celebravam festivais religiosos pela chegada do inverno no hemisfério norte, como celtas, germânicos e eslavos. Particularmente, no dia 24 de dezembro era cultuado o Sol Invicto, divindade oriental bastante popular nos últimos séculos do Império Romano. Por outro lado, a Igreja Ortodoxa originalmente comemorava o Natal em 6 de janeiro, o que ainda acontece em alguns países da Europa Oriental.
Por sinal, a julgar pelas características climáticas da Palestina e a crer nas características do relato bíblico, me parece pouco provável que Jesus tivesse nascido naquelas condições em época invernal. Em Belém, geralmente há pelo menos um dia de neve em dezembro - vá se fazer um parto numa estrebaria ou sair com carneiros a pastar num frio desses! Pelo contrário, se tivesse de fazer uma aposta, diria que ele nasceu entre maio e agosto...
Durante séculos, a única tradição natalina realmente relevante em terras católicas (incluindo o Brasil) era a Missa do Galo. Já o Protestantismo rejeitou em seus primeiros tempos a comemoração do Natal como um hábito "papista". No século XIX a situação mudou, quando o Natal foi reinventado em terras reformadas. Boa parte das atuais tradições surgiram nessa época em países com grupos protestantes enraizados, como a Alemanha (árvore de Natal), Inglaterra (troca de presentes) ou EUA (peru).
Essas invenções só se popularizaram no Brasil em meados do século XX, com a industrialização do país e a exposição à cultura norte-americana, sob estímulo do comércio. As pessoas mais velhas de minha família vivenciaram de perto esse processo de transformação. Como minha avó me dizia hoje mesmo, o único hábito natalino em sua família era o consumo de bacalhau na ceia - sem Papai Noel, troca de presentes, árvore...
Mais ainda, as comemorações do Natal ganharam conotações indubitavelmente laicas, particularmente nos países onde não existe uma população cristã significativa. No Japão, por exemplo, é uma data onde os casais costumam trocar presentes e sair para um jantar romântico a dois - mesmo o aspecto familiar dos festejos é ignorado.
Também vale a pena sublinhar a exploração do Natal pelo Capitalismo; dezembro costuma ser o mês com maior índice de vendas. Por uma dessas sutis e infatigáveis mutações da história, o longuíssimo curso dos séculos transformou uma comemoração forjada para o proselitismo religioso em uma festividade laica com consequências econômicas incontornáveis...
Ante o consumismo que impera na época natalina, vale sempre a pena lembrar as palavras atribuídas ao aniversariante: "Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e o caruncho os corroem e onde os ladrões arrombam e roubam, mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça, nem o caruncho corroem e onde os ladrões não arrombam nem roubam; pois onde está teu tesouro aí estará também o teu coração".
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Leituras - "V de Vingança", de Alan Moore
Esta semana finalmente consegui adquirir e ler V de Vingança, de Alan Moore e David LLoyd, um dos maiores clássicos dos quadrinhos. Para quem não conhece, a HQ se passa nos anos de 1997 e 1998 - sendo que fôra publicada no início dos anos 80, ou seja, os autores projetavam um futuro próximo.
Felizmente o mundo ao fim dos anos 90 era muito diferente do que Moore e LLoyd imaginavam. O "futuro" apresentado na história é bastante sombrio. No fim dos anos 80, uma terrível guerra nuclear destruíra boa parte do mundo ocidental. Na Europa, apenas a Inglaterra escapara da catástrofe. No entanto, o país se encontrava entregue à desordem e ao caos. Um grupo fascistóide, "Nórdica Chama", chega ao poder, instalando um Estado policial racista, homófobo e repressor, onde toda liberdade é sacrificada em nome da ordem e da segurança.
Eis que surge V, um homem misterioso, cuja máscara lembra Guy Fawkes, que no século XVII tentara explodir o Parlamento no chamado "Gunpowder Plot" (atualmente efígies de Fawkes são destruídas anualmente num rito semelhante à nossa "Malhação do Judas"). V inicia um movimento de contestação, marcado por intervenções literal e simbolicamente "bombásticas" - começando pela explosão do Parlamento.
Seria impossível dar conta da trama complexa com suas reviravoltas, seus ricos personagens e sua contundente análise das relações entre medo, poder e liberdade. A arte de LLoyd é fantástica, dando à trama um clima retrô, quase como um film noir. O texto de Moore é sempre sensacional, especialmente as falas de V. Transcrevo alguns dos belíssimos discursos proferidos pelo personagem. Garanto que após a leitura vocês correrão para as livrarias!
"Não se deve contar com a maioria silenciosa, pois o silêncio é algo frágil. Um ruído alto... e está tudo acabado.
O povo está amedrontado e desorganizado demais. Alguns podem ter tido a oportunidade de protestar, mas foram como vozes gritando no deserto.
O barulho é relativo ao silêncio que o precede. Quanto mais absoluta a quietude, mais devastadoras as palmas.
Nossos governantes não ouvem a voz do povo há gerações, Evey, e ela é muito mais alta do que eles se recordam".
"A anarquia está sola sobre o mundo.
A ordem involuntária gera insatisfação, mãe da desordem, prima da guilhotina. Sociedades autoritárias são como a formação de crostas de gelo. Intrincadas, mecanicamente precisas e, acima de tudo, precárias. Sob a frágil superfície da civilidade, o caos se convulsiona e há locais onde o gelo é traiçoeiramente fino.
A autoridade, quando detecta o caos pela primeira vez em seus calcanhares, fará as coisas mais vis para preservar a fachada de ordem, mas, como sempre, ordem sem justiça, sem amor ou liberdade, não pode deter a derrocada de seu mundo para o holocausto.
A autoridade admite dos papéis: o torturador e o torturado. Ela transforma as pessoas em manequins amorfos que temem e odeiam, enquanto a cultura mergulha no abismo.
A autoridade deforma completamente a educação das crianças, tornando seu amor um arremedo...
O colapso da autoridade permeia o leito, as diretorias, a igreja e a escola. Tudo é mal gerido. A igualdade e a liberdade não são luxos a serem levianamente desprezados. Sem elas, a ordem não pode persistir antes de alcançar grandes profundezas".
"A anarquia deve abraçar o estrondo das bombas e canhões, todavia, deve amar ainda mais a doce música".
"Com a ciência, as ideias podem germinar num leito de teorias, formas e práticas que auxiliam seu crescimento... Mas nós, como jardineiros, devemos estar atentos, porque algumas sementes são de ruína... E os botões mais iridescentes são geralmente os mais perigosos".
"A anarquia ostenta duas faces, a criadora e a destruidora. Destruidores derrubam impérios, fazem telas com os destroços, onde os criadores erguem mundos melhores.
Os destroços, uma vez obtidos, tornam as ruínas irrelevantes. Fora com os explosivos, então!
Fora com os destruidores, eles não têm lugar em nosso mundo melhor. Brindemos a todos os nossos bombardeiros, a nossos bastardos mais desprezíveis e odiosos. Bebamos a sua saúde, e depois não os vejamos mais".
Felizmente o mundo ao fim dos anos 90 era muito diferente do que Moore e LLoyd imaginavam. O "futuro" apresentado na história é bastante sombrio. No fim dos anos 80, uma terrível guerra nuclear destruíra boa parte do mundo ocidental. Na Europa, apenas a Inglaterra escapara da catástrofe. No entanto, o país se encontrava entregue à desordem e ao caos. Um grupo fascistóide, "Nórdica Chama", chega ao poder, instalando um Estado policial racista, homófobo e repressor, onde toda liberdade é sacrificada em nome da ordem e da segurança.
Eis que surge V, um homem misterioso, cuja máscara lembra Guy Fawkes, que no século XVII tentara explodir o Parlamento no chamado "Gunpowder Plot" (atualmente efígies de Fawkes são destruídas anualmente num rito semelhante à nossa "Malhação do Judas"). V inicia um movimento de contestação, marcado por intervenções literal e simbolicamente "bombásticas" - começando pela explosão do Parlamento.
Seria impossível dar conta da trama complexa com suas reviravoltas, seus ricos personagens e sua contundente análise das relações entre medo, poder e liberdade. A arte de LLoyd é fantástica, dando à trama um clima retrô, quase como um film noir. O texto de Moore é sempre sensacional, especialmente as falas de V. Transcrevo alguns dos belíssimos discursos proferidos pelo personagem. Garanto que após a leitura vocês correrão para as livrarias!
"Não se deve contar com a maioria silenciosa, pois o silêncio é algo frágil. Um ruído alto... e está tudo acabado.
O povo está amedrontado e desorganizado demais. Alguns podem ter tido a oportunidade de protestar, mas foram como vozes gritando no deserto.
O barulho é relativo ao silêncio que o precede. Quanto mais absoluta a quietude, mais devastadoras as palmas.
Nossos governantes não ouvem a voz do povo há gerações, Evey, e ela é muito mais alta do que eles se recordam".
"A anarquia está sola sobre o mundo.
A ordem involuntária gera insatisfação, mãe da desordem, prima da guilhotina. Sociedades autoritárias são como a formação de crostas de gelo. Intrincadas, mecanicamente precisas e, acima de tudo, precárias. Sob a frágil superfície da civilidade, o caos se convulsiona e há locais onde o gelo é traiçoeiramente fino.
A autoridade, quando detecta o caos pela primeira vez em seus calcanhares, fará as coisas mais vis para preservar a fachada de ordem, mas, como sempre, ordem sem justiça, sem amor ou liberdade, não pode deter a derrocada de seu mundo para o holocausto.
A autoridade admite dos papéis: o torturador e o torturado. Ela transforma as pessoas em manequins amorfos que temem e odeiam, enquanto a cultura mergulha no abismo.
A autoridade deforma completamente a educação das crianças, tornando seu amor um arremedo...
O colapso da autoridade permeia o leito, as diretorias, a igreja e a escola. Tudo é mal gerido. A igualdade e a liberdade não são luxos a serem levianamente desprezados. Sem elas, a ordem não pode persistir antes de alcançar grandes profundezas".
"A anarquia deve abraçar o estrondo das bombas e canhões, todavia, deve amar ainda mais a doce música".
"Com a ciência, as ideias podem germinar num leito de teorias, formas e práticas que auxiliam seu crescimento... Mas nós, como jardineiros, devemos estar atentos, porque algumas sementes são de ruína... E os botões mais iridescentes são geralmente os mais perigosos".
"A anarquia ostenta duas faces, a criadora e a destruidora. Destruidores derrubam impérios, fazem telas com os destroços, onde os criadores erguem mundos melhores.
Os destroços, uma vez obtidos, tornam as ruínas irrelevantes. Fora com os explosivos, então!
Fora com os destruidores, eles não têm lugar em nosso mundo melhor. Brindemos a todos os nossos bombardeiros, a nossos bastardos mais desprezíveis e odiosos. Bebamos a sua saúde, e depois não os vejamos mais".
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Poder e corrupção na França quinhentista
O texto que segue faz parte do segundo capítulo de minha tese de doutorado. A história do almirante Chabot lembra muitas outras que conhecemos bem...
"Em 1541, Philippe Chabot de Brion, almirante de França e governador da Borgonha seria acusado, julgado e condenado por malversação e prevaricação – parte das acusações se relacionava ao exercício do cargo de almirante.
Chabot nascera em uma família de pouca expressão política, da aristocracia da Saintonge. No entanto, em sua infância foi criado junto com Francisco de Angoulême, futuro rei Francisco I, que regulava sua idade; na juventude, tornou-se seu companheiro de armas. Tais circunstâncias foram determinantes de sua posterior ascensão social, alavancada por seu régio companheiro de brincadeiras. Sua participação ao lado de Francisco I na batalha de Pavia foi parte importante desse processo. Segundo Hamon, toda a fortuna e poder posteriormente conquistados por Chabot dependiam quase inteiramente do favor régio – o que também tornava sua posição bastante frágil ante a possibilidade de cair em desgraça.
Como almirante de França, foi um grande incentivador das navegações normandas e da exploração do Novo Mundo. Sob sua proteção foram organizadas três expedições ao Brasil, chegando mesmo a investir 4000 libras e um navio em uma delas. Mantinha estreita ligação com o poderoso armador Jean Ango, a quem logo retornaremos.
Nada disso impedia o almirante de tomar atitudes ambíguas, como mostram os autos de seu processo. Em 1540, motivado por queixas contra Chabot, Francisco I instaurava uma comissão especial para investigar e julgar o seu caso, fora da alçada de qualquer parlamento do reino. A comissão era composta por juízes convocados de diversas partes da França, o que da idéia da mobilização em torno do caso. O conjunto de seu processo é composto por cinco documentos, cuja minuta pode ser atualmente consultada na Bibliothèque Nationale de France.
A quantidade de acusações contra Chabot é impressionante, assim como sua grande variedade, sem falar em sua dispersão por todos os cantos da França. Por exemplo, em 1530 fizera cobranças indevidas aos nobres da Borgonha, supostamente para o resgate do delfim aprisionado na Espanha. Deixou de realizar reparos ordenados pelo rei nas praças fortes da Borgonha, embora tenha recebido o dinheiro correspondente; pior ainda, cobrou impostos de cidades da região com a mesma finalidade. Era igualmente acusado de desvios de verbas destinadas à compra de munição e obras públicas na Borgonha. No Languedoc, cometera irregularidades na venda de cargos públicos, majorando preços - inclusive em alguns parlamentos. Desviara pagamentos de soldados e tomara peças de artilharia pertencentes à coroa para uso pessoal. Venda indevidamente congés para transporte de trigo, “mesmement du temps de la grande famine qui estoit audit pays [Borgonha]”.
Além dessas malversações, era ainda acusado de abusos na administração da justiça. Havia queixas de ter tolerado como governador da Borgonha, “meurtres et homicides” cometidos por pessoas de seu séquito, apesar de ter recebido queixas. Mandou libertar indevidamente um tal Chastenier, preso e condenado pela justiça, que estava na prisão real de Chalons; fez o mesmo com um certo Maschault, e o processo menciona “plusieurs autres cas semblables”. Permitiu que membros de sua criadagem castigassem fisicamente um “pauvre laboureur” que dera uma pedrada em um falcoeiro de Chabot que havia roubado suas galinhas; como sublinham os autos, o caso deveria correr na justiça real, julgado pelos magistrados, pois ninguém devia “se entremesler au faict de la justice ordinaire”. Manteve pessoas em prisão privada por injúrias ditas contra ele. Também usara seus poderes para confiscar terras em benefício próprio, inclusive empregando documentos falsos.
Essa é apenas uma amostra dos desmandos cometidos por Chabot em suas inúmeras atribuições. Havia ainda queixas referentes a seu cargo de almirante de França. Em 1536 e 1537 teria cobrado indevidamente seis libras por cada barco pesqueiro da Normandia – apesar de ter sido instruído pelo rei a não fazê-lo. Para tanto, teria vendido a esses pescadores salvos-condutos, tendo para isso tratado com o almirante de Flandres, sem conhecimento e permissão do rei. Como agravante, existiam acordos prévios entre Francisco I e Carlos V que garantiam a livre circulação dos pescadores em suas costas em tempos de paz".
Ao fim do processo, contrariando a decisão dos juízes, Chabot foi inocentado por ordem direta do rei, em nome dos grandes serviços que outrora havia prestado ao monarca... "Plus ça change, plus c`est la même chose"!
"Em 1541, Philippe Chabot de Brion, almirante de França e governador da Borgonha seria acusado, julgado e condenado por malversação e prevaricação – parte das acusações se relacionava ao exercício do cargo de almirante.
Chabot nascera em uma família de pouca expressão política, da aristocracia da Saintonge. No entanto, em sua infância foi criado junto com Francisco de Angoulême, futuro rei Francisco I, que regulava sua idade; na juventude, tornou-se seu companheiro de armas. Tais circunstâncias foram determinantes de sua posterior ascensão social, alavancada por seu régio companheiro de brincadeiras. Sua participação ao lado de Francisco I na batalha de Pavia foi parte importante desse processo. Segundo Hamon, toda a fortuna e poder posteriormente conquistados por Chabot dependiam quase inteiramente do favor régio – o que também tornava sua posição bastante frágil ante a possibilidade de cair em desgraça.
Como almirante de França, foi um grande incentivador das navegações normandas e da exploração do Novo Mundo. Sob sua proteção foram organizadas três expedições ao Brasil, chegando mesmo a investir 4000 libras e um navio em uma delas. Mantinha estreita ligação com o poderoso armador Jean Ango, a quem logo retornaremos.
Nada disso impedia o almirante de tomar atitudes ambíguas, como mostram os autos de seu processo. Em 1540, motivado por queixas contra Chabot, Francisco I instaurava uma comissão especial para investigar e julgar o seu caso, fora da alçada de qualquer parlamento do reino. A comissão era composta por juízes convocados de diversas partes da França, o que da idéia da mobilização em torno do caso. O conjunto de seu processo é composto por cinco documentos, cuja minuta pode ser atualmente consultada na Bibliothèque Nationale de France.
A quantidade de acusações contra Chabot é impressionante, assim como sua grande variedade, sem falar em sua dispersão por todos os cantos da França. Por exemplo, em 1530 fizera cobranças indevidas aos nobres da Borgonha, supostamente para o resgate do delfim aprisionado na Espanha. Deixou de realizar reparos ordenados pelo rei nas praças fortes da Borgonha, embora tenha recebido o dinheiro correspondente; pior ainda, cobrou impostos de cidades da região com a mesma finalidade. Era igualmente acusado de desvios de verbas destinadas à compra de munição e obras públicas na Borgonha. No Languedoc, cometera irregularidades na venda de cargos públicos, majorando preços - inclusive em alguns parlamentos. Desviara pagamentos de soldados e tomara peças de artilharia pertencentes à coroa para uso pessoal. Venda indevidamente congés para transporte de trigo, “mesmement du temps de la grande famine qui estoit audit pays [Borgonha]”.
Além dessas malversações, era ainda acusado de abusos na administração da justiça. Havia queixas de ter tolerado como governador da Borgonha, “meurtres et homicides” cometidos por pessoas de seu séquito, apesar de ter recebido queixas. Mandou libertar indevidamente um tal Chastenier, preso e condenado pela justiça, que estava na prisão real de Chalons; fez o mesmo com um certo Maschault, e o processo menciona “plusieurs autres cas semblables”. Permitiu que membros de sua criadagem castigassem fisicamente um “pauvre laboureur” que dera uma pedrada em um falcoeiro de Chabot que havia roubado suas galinhas; como sublinham os autos, o caso deveria correr na justiça real, julgado pelos magistrados, pois ninguém devia “se entremesler au faict de la justice ordinaire”. Manteve pessoas em prisão privada por injúrias ditas contra ele. Também usara seus poderes para confiscar terras em benefício próprio, inclusive empregando documentos falsos.
Essa é apenas uma amostra dos desmandos cometidos por Chabot em suas inúmeras atribuições. Havia ainda queixas referentes a seu cargo de almirante de França. Em 1536 e 1537 teria cobrado indevidamente seis libras por cada barco pesqueiro da Normandia – apesar de ter sido instruído pelo rei a não fazê-lo. Para tanto, teria vendido a esses pescadores salvos-condutos, tendo para isso tratado com o almirante de Flandres, sem conhecimento e permissão do rei. Como agravante, existiam acordos prévios entre Francisco I e Carlos V que garantiam a livre circulação dos pescadores em suas costas em tempos de paz".
Ao fim do processo, contrariando a decisão dos juízes, Chabot foi inocentado por ordem direta do rei, em nome dos grandes serviços que outrora havia prestado ao monarca... "Plus ça change, plus c`est la même chose"!
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Sobre senhores e escravos
"O homem não é livre nem quando escravo nem quando senhor".
Joaquim Nabuco
Embora a frase de Nabuco se referisse ao contexto específico da escravidão no Brasil, me pergunto o quanto ela tem de universal - ou pelo menos, o quanto se aplica ao nosso presente. Creio que em grande medida, os políticos, magnatas, "celebridades" e demais detentores de poder e influência são eles mesmos vítimas das quimeras banais e vazias com que manipulam as massas. São prisioneiros do consumismo e dos desejos que fomentam; vivem na mesma superficialidade e falta de significado que os demais, sob o azorrague de suas ambições vazias e mesquinhas.
Os senhores rastejam na mesma lama que os escravos, embalados em tristes alucinações de liberdade...
Joaquim Nabuco
Embora a frase de Nabuco se referisse ao contexto específico da escravidão no Brasil, me pergunto o quanto ela tem de universal - ou pelo menos, o quanto se aplica ao nosso presente. Creio que em grande medida, os políticos, magnatas, "celebridades" e demais detentores de poder e influência são eles mesmos vítimas das quimeras banais e vazias com que manipulam as massas. São prisioneiros do consumismo e dos desejos que fomentam; vivem na mesma superficialidade e falta de significado que os demais, sob o azorrague de suas ambições vazias e mesquinhas.
Os senhores rastejam na mesma lama que os escravos, embalados em tristes alucinações de liberdade...
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Direitos humanos no Brasil - uma síntese interessante
Trecho muito interessante de "Uma História do Brasil", do brasilianista Thomas E. Skidmore. Vale esclarecer que os parágrafos a seguir se situam num capítulo sobre o regime militar. Grifos meus.
"Embora a elite tenha sempre preferido ver seu país como fundamentalmente não-violento, esta é uma leitura muito imprecisa da história brasileira. A escravidão, por exemplo, fora baseada na brutalidade física que incluía mutilação, espancamentos impiedosos e execução, e havia se mantido no Brasil até 1888 (o trabalho forçado de índios amazônicos continuou por ainda mais tempo), durando mais do que em qualquer outro lugar nas Américas. No Brasil do início da década de 1960, maus-tratos físicos por parte da polícia eram prática corrente em relação a cidadãos comuns, o que em parte era uma herança da violência que cercava a escravidão. Mas era também inerente à manutenção da sociedade altamente hierárquica que a República brasileira herdara. Desde o início da República em 1889 o governo recorreu repetidamente à declaração de estado de sítio, permitindo, assim, a suspensão das garantias judiciais. Durante os protestos populares contra a vacinação compulsória no Rio em 1904, por exemplo, as multidões eram bombardeadas por artilharias. Mais de trezentos dos detidos foram então deportados, sem nenhum procedimento judicial, para campos distantes no Amazonas. Táticas de internamento semelhantes foram empregadas na esteira da revolta naval de 1910.
Maus-tratos policiais em relação à elite, por outro lado, eram raros, mesmo porque os policiais eram membros das classes que não pertenciam à elite e temiam seus superiores sociais. Exemplos de comportamento diferenciado eram fáceis de encontrar. Qualquer preso que tivesse um diploma de curso superior, por exemplo, tinha por lei (criada pelo Código Penal de 1941) direito a melhores acomodações carcerárias do que os presos comuns. Qualquer membro da elite que tivesse problemas com as autoridades podia contar com rápida ajuda de sua rede de contatos. Um indicador básico da aplicação desigual da justiça era a complacência patente para com criminosos de colarinho branco como trapaceiros da bolsa de valores, que raramente sofriam alguma punição significativa, enquanto os suspeitos comuns podiam geralmente esperar o pior.
Esse sistema de justiça diferenciada era bem entendido por todos os brasileiros. Ele reforçava a estrutura social hierárquica que era fechada mas não impermeável. Quando o Brasil crescia economicamente, sua elite expandia-se, mas essa mobilidade não alterava a hierarquia em si.
A eleite sempre fora capaz de permanecer na ignorância do verdadeiro funcionamento do sistema de justiça criminal, o que mudou com a guinada altamente autoritária em 1968, uma vez que o movimento de guerrilha era liderado principalmente por jovens insatisfeitos da elite, não por trabalhadores. Os nacionalistas radicais militantes, descontentes com o golpe, eram o principal material recrutado para a oposição armada. Muitos deles vinham de organizações de jovens católicos de esquerda e de grupos políticos universitários (predominantemente da elite em sua origem). As forças de segurança interrogavam todos os suspeitos da guerrilha com os métodos que eram normais para criminosos comuns mas não praticados com a elite. Um deles era o pau-de-arara, em que a vítima era pendurada nua numa vara horizontal e submetida a espancamento e choques elétricos. Um outro consistia em submergir a vítima em água suja e disparar uma arma bem sobre sua cabeça quando o corpo vinha à tona. Para casos particularmente difíceis, isto é, quando a confissão ou a prova incriminadora não estava próxima, a eletricidade era aplicada nos órgãos genitais, ouvidos e outros orifícios do corpo. Elite e não-elite tinham o mesmo tratamento. Quando relatos desse tratamento brutal vazavam, as famílias das vítimas da elite ficavam verdadeiramente chocadas. Mesmo filhos de generais enfrentaram o horror da tortura.
Essa repressão indiscriminada fez com que muita gente na elite reconsiderasse seu apoio ao governo militar. A ameaça à segurança justificaria realmente a barbaridade do governo? Eles não haviam imaginado que se chegaria a isso.
Lentamente, as instituições da elite começaram a reagir. A mais bem situada era a Igreja Católica, cujos bispos estavam chocados com os maus-tratos dispensados a membros de seu clero. Mesmo bispos conservadores que haviam endossado entusiasticamente o golpe agora denunciavam a tortura. Uma segunda instituição da elite que reagiu, ainda que lentamente, foi a Ordem dos Advogados do Brasil. Os poucos advogados criminalistas que defendiam prisioneiros políticos e sabiam em primeira mão da tortura tentavam, agora, levar seus colegas à ação. Os advogados, a nata da elite, começaram a descobrir um novo sentido para o domínio da lei. Contudo, nem a Igreja, nem os advogados tinham poder contra os militares. O melhor que podiam fazer era divulgar mensagens discretas entre a elite ou passar informações para amigos no exterior.
Mesmo entre os militares havia sinais de intranquilidade. A maioria dos oficiais aceitara a linha oficial (admitida interna mas nunca publicamente) de que a tortura era usada imediatamente após a prisão para obter informação "quente" que "salvaria" vidas. Mas os torturadores às vezes continuavam seu trabalho por semanas ou mesmo meses depois da prisão da vítima, quando já não havia nenhum propósito tático para tal brutalidade. O comando militar negava de forma categórica qualquer excesso, embora informalmente oficiais deixassem claro que "guerra é guerra". A curto prazo, não havia recurso contra os torturadores; mas havia uma questão mais ampla: se o governo militar terminasse, a elite brasileira reconheceria que a tortura fora de fato a última expressão de um sistema repressivo mantendo a hierarquia social que a beneficiava há tanto tempo?"
"Embora a elite tenha sempre preferido ver seu país como fundamentalmente não-violento, esta é uma leitura muito imprecisa da história brasileira. A escravidão, por exemplo, fora baseada na brutalidade física que incluía mutilação, espancamentos impiedosos e execução, e havia se mantido no Brasil até 1888 (o trabalho forçado de índios amazônicos continuou por ainda mais tempo), durando mais do que em qualquer outro lugar nas Américas. No Brasil do início da década de 1960, maus-tratos físicos por parte da polícia eram prática corrente em relação a cidadãos comuns, o que em parte era uma herança da violência que cercava a escravidão. Mas era também inerente à manutenção da sociedade altamente hierárquica que a República brasileira herdara. Desde o início da República em 1889 o governo recorreu repetidamente à declaração de estado de sítio, permitindo, assim, a suspensão das garantias judiciais. Durante os protestos populares contra a vacinação compulsória no Rio em 1904, por exemplo, as multidões eram bombardeadas por artilharias. Mais de trezentos dos detidos foram então deportados, sem nenhum procedimento judicial, para campos distantes no Amazonas. Táticas de internamento semelhantes foram empregadas na esteira da revolta naval de 1910.
Maus-tratos policiais em relação à elite, por outro lado, eram raros, mesmo porque os policiais eram membros das classes que não pertenciam à elite e temiam seus superiores sociais. Exemplos de comportamento diferenciado eram fáceis de encontrar. Qualquer preso que tivesse um diploma de curso superior, por exemplo, tinha por lei (criada pelo Código Penal de 1941) direito a melhores acomodações carcerárias do que os presos comuns. Qualquer membro da elite que tivesse problemas com as autoridades podia contar com rápida ajuda de sua rede de contatos. Um indicador básico da aplicação desigual da justiça era a complacência patente para com criminosos de colarinho branco como trapaceiros da bolsa de valores, que raramente sofriam alguma punição significativa, enquanto os suspeitos comuns podiam geralmente esperar o pior.
Esse sistema de justiça diferenciada era bem entendido por todos os brasileiros. Ele reforçava a estrutura social hierárquica que era fechada mas não impermeável. Quando o Brasil crescia economicamente, sua elite expandia-se, mas essa mobilidade não alterava a hierarquia em si.
A eleite sempre fora capaz de permanecer na ignorância do verdadeiro funcionamento do sistema de justiça criminal, o que mudou com a guinada altamente autoritária em 1968, uma vez que o movimento de guerrilha era liderado principalmente por jovens insatisfeitos da elite, não por trabalhadores. Os nacionalistas radicais militantes, descontentes com o golpe, eram o principal material recrutado para a oposição armada. Muitos deles vinham de organizações de jovens católicos de esquerda e de grupos políticos universitários (predominantemente da elite em sua origem). As forças de segurança interrogavam todos os suspeitos da guerrilha com os métodos que eram normais para criminosos comuns mas não praticados com a elite. Um deles era o pau-de-arara, em que a vítima era pendurada nua numa vara horizontal e submetida a espancamento e choques elétricos. Um outro consistia em submergir a vítima em água suja e disparar uma arma bem sobre sua cabeça quando o corpo vinha à tona. Para casos particularmente difíceis, isto é, quando a confissão ou a prova incriminadora não estava próxima, a eletricidade era aplicada nos órgãos genitais, ouvidos e outros orifícios do corpo. Elite e não-elite tinham o mesmo tratamento. Quando relatos desse tratamento brutal vazavam, as famílias das vítimas da elite ficavam verdadeiramente chocadas. Mesmo filhos de generais enfrentaram o horror da tortura.
Essa repressão indiscriminada fez com que muita gente na elite reconsiderasse seu apoio ao governo militar. A ameaça à segurança justificaria realmente a barbaridade do governo? Eles não haviam imaginado que se chegaria a isso.
Lentamente, as instituições da elite começaram a reagir. A mais bem situada era a Igreja Católica, cujos bispos estavam chocados com os maus-tratos dispensados a membros de seu clero. Mesmo bispos conservadores que haviam endossado entusiasticamente o golpe agora denunciavam a tortura. Uma segunda instituição da elite que reagiu, ainda que lentamente, foi a Ordem dos Advogados do Brasil. Os poucos advogados criminalistas que defendiam prisioneiros políticos e sabiam em primeira mão da tortura tentavam, agora, levar seus colegas à ação. Os advogados, a nata da elite, começaram a descobrir um novo sentido para o domínio da lei. Contudo, nem a Igreja, nem os advogados tinham poder contra os militares. O melhor que podiam fazer era divulgar mensagens discretas entre a elite ou passar informações para amigos no exterior.
Mesmo entre os militares havia sinais de intranquilidade. A maioria dos oficiais aceitara a linha oficial (admitida interna mas nunca publicamente) de que a tortura era usada imediatamente após a prisão para obter informação "quente" que "salvaria" vidas. Mas os torturadores às vezes continuavam seu trabalho por semanas ou mesmo meses depois da prisão da vítima, quando já não havia nenhum propósito tático para tal brutalidade. O comando militar negava de forma categórica qualquer excesso, embora informalmente oficiais deixassem claro que "guerra é guerra". A curto prazo, não havia recurso contra os torturadores; mas havia uma questão mais ampla: se o governo militar terminasse, a elite brasileira reconheceria que a tortura fora de fato a última expressão de um sistema repressivo mantendo a hierarquia social que a beneficiava há tanto tempo?"
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Leituras - "A África explicada aos meus filhos", de Alberto da Costa e Silva
Depois de uma longa ausência provocada pelas obrigações da academia e do magistério, eis que retorno à oficina.
Na última semana li essa interessantíssima obra, para amenizar minha ignorância sobre a história da África; meus alunos agradecem! Trata-se de um belo passeio pela África guiado por um de nossos melhores especialistas na história e cultura desse continente. O livro é estruturado como um diálogo com perguntas e respostas. Embora voltado ao público jovem, é muito esclarecedor para os ignorantes como eu; creio que mesmo os bons conhecedores da história africana encontrem algum proveito na leitura. Além disso, ao final a obra apresenta boas sugestões bibliográficas para aprofundamento do tema.
A abordagem de Costa e Silva é particularmente interessante pela ênfase na diversidade das culturas e da experiência histórica dos povos africanos. Também discute de modo primoroso as relações da África com outros continentes ao longo do tempo pelo Atlântico ou pelo Índico, oferecendo uma perspectiva mais ampla sobre a trajetória africana, notadamente em seus intercâmbios com a América e o Brasil.
Mas o que torna o livro realmente saboroso são os vívidos exemplos apresentados pelo autor em sua vasta erudição. As mais diversas práticas políticas, culturais, sociais, artísticas e econômicas são expostas de modo dinâmico, compondo um vasto retrato da África em suas paisagens e sua gente. Essa vibrante conversa nos faz sentir como se contemplássemos os séculos do continente se desenrolando diante de nossos olhos em suas lutas e conquistas, alegrias e tristezas, glórias e misérias.
Há trechos memoráveis, que deixarei ao leitor o prazer de descobrir. Concluo citando seu lapidar parágrafo final:
"É raro um brasileiro cujos bisavós já viviam no Brasil que não tenha pelo menos um antepassado africano. A África está, portanto, no sangue da grande maioria do nosso povo. E, ainda que disto muitos não tenham consciência, na alma de quase todos".
Na última semana li essa interessantíssima obra, para amenizar minha ignorância sobre a história da África; meus alunos agradecem! Trata-se de um belo passeio pela África guiado por um de nossos melhores especialistas na história e cultura desse continente. O livro é estruturado como um diálogo com perguntas e respostas. Embora voltado ao público jovem, é muito esclarecedor para os ignorantes como eu; creio que mesmo os bons conhecedores da história africana encontrem algum proveito na leitura. Além disso, ao final a obra apresenta boas sugestões bibliográficas para aprofundamento do tema.
A abordagem de Costa e Silva é particularmente interessante pela ênfase na diversidade das culturas e da experiência histórica dos povos africanos. Também discute de modo primoroso as relações da África com outros continentes ao longo do tempo pelo Atlântico ou pelo Índico, oferecendo uma perspectiva mais ampla sobre a trajetória africana, notadamente em seus intercâmbios com a América e o Brasil.
Mas o que torna o livro realmente saboroso são os vívidos exemplos apresentados pelo autor em sua vasta erudição. As mais diversas práticas políticas, culturais, sociais, artísticas e econômicas são expostas de modo dinâmico, compondo um vasto retrato da África em suas paisagens e sua gente. Essa vibrante conversa nos faz sentir como se contemplássemos os séculos do continente se desenrolando diante de nossos olhos em suas lutas e conquistas, alegrias e tristezas, glórias e misérias.
Há trechos memoráveis, que deixarei ao leitor o prazer de descobrir. Concluo citando seu lapidar parágrafo final:
"É raro um brasileiro cujos bisavós já viviam no Brasil que não tenha pelo menos um antepassado africano. A África está, portanto, no sangue da grande maioria do nosso povo. E, ainda que disto muitos não tenham consciência, na alma de quase todos".
Assinar:
Postagens (Atom)










