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sexta-feira, 21 de abril de 2017

Carta aberta a certo pastor "de direita"

Caro pastor,

há alguns meses suas postagens pagas vêm aparecendo com certa frequência em minha linha do tempo no Facebook, a ponto que não consegui ignorá-las. Ninguém sabe exatamente como funcionam os algoritmos das redes sociais, mas o fato é que seus textos - bastante longos - apareceram em meu mural e eu os li. Considerando que o senhor se deu ao trabalho de escrevê-los e ainda pagou por sua divulgação, creio que seja apropriado apresentar minha opinião a respeito deles. Sou cristão, espírita e historiador, mas pretendo aqui dialogar com o senhor de cristão para cristão, para além de fronteiras confessionais.

Confesso que seus textos são de leitura agradável. O senhor é dono de uma eloquência serena, simples, culta e elegante e me transmite a impressão de ser sinceramente zeloso em relação à religião e honestamente preocupado com os rumos do Brasil, embora lendo seus textos e visitando sua página não tenha sido capaz de determinar com clareza sua denominação, exceto que o senhor mostra pouca simpatia quanto ao neopentecostalismo; concordo, inclusive, com suas acertadas críticas à "teologia da prosperidade". Aqui, inclusive, já vai minha primeira crítica: uma vez que o senhor apresenta suas opiniões enquanto pastor, creio que em benefício da clareza seria necessário que declarasse mais explicitamente seus vínculos institucionais e/ou confessionais, especialmente quando seus textos atingem leitores que, como eu, sequer são protestantes. Nesses tempos de acaloradas discussões virtuais é prudente evitar os efeitos do "fogo amigo".

Por outro lado, me causa algum incômodo perceber a constância com que o senhor insiste sobre temas políticos, especialmente em suas publicações pagas, deixando a impressão de que apresenta mais empenho em participar de polêmicas políticas que em pregar o Evangelho. Entendo perfeitamente que o senhor é pastor e também cidadão, mas me parece que o senhor comete certo equívoco no modo como se expressa sobre a política, que se encontra, até onde entendo, fora da alçada de seu ministério. Creio que antes de falar em política, seja sempre bom descer do púlpito, e não se pronunciar de cima dele. A crer no texto dos Evangelhos, quando tentaram envolver Jesus nas querelas políticas de seu tempo ele pronunciou um alerta aos cristãos de todos os tempos que viriam depois: a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

Por sinal, concordo com o historiador católico Christopher Dawson quando afirma que a mistura entre religião e política costuma ser mais danosa à religião que à política. A política, como bem sabemos, é recheada de armadilhas e voltada para disputas amargas, lidando muitas vezes com interesses e alianças sórdidas, que pouco contribuem para o objetivo maior da religião, que é (ou deveria ser) o encontro com o divino. Há que se guardar o devido distanciamento entre essas duas esferas da vida, para bem de ambas.

Nesse sentido, me preocupa uma temerária e categórica afirmação que encontrei em um de seus últimos textos: "o Cristianismo é de direita". A afirmação é questionável em vários sentidos, tanto políticos, quanto históricos e religiosos/teológicos. Em primeiro lugar, cabe questionar o que seriam "direita" e "esquerda". Como historiador, não gosto muito desses termos, que me parecem binários e anacrônicos demais, e pouco acrescentam à política atualmente. Vejo-os como um refugo da Revolução Francesa que mais nos atrapalha que ajuda.

Por outro lado, esses termos são demasiadamente vagos e ambíguos. O senhor mesmo critica com veemência a dois partidos que considera como "de esquerda", PT e PSDB (pelos quais, diga-se de passagem, não nutro atualmente qualquer simpatia) - uma interpretação muito questionável, à medida que a maioria dos membros e eleitores do PSDB se identifica como "de direita"; muitos deles, por sinal, também se dizem cristãos. Tudo isso só indica quão subjetivos são todos os critérios envolvidos em qualquer taxonomia política. A empregar o duplo critério sugerido pelo senhor, poderíamos afirmar, por exemplo, que um eleitor do PSDB católico, presbiteriano, batista ou metodista que se considera "de direita", na verdade, é "de esquerda" e, mais ainda, não é cristão (visto que "o Cristianismo é de direita"). Confuso, não?


Temos ainda outro grave problema: ao afirmar que "o Cristianismo é de direita" empreendemos uma esquisita reificação dessas categorias políticas, como se elas representassem modelos atemporais, válidos em todas as épocas, lugares e sistemas políticos. Ora, o binômio esquerda-direita sequer existia à época de Jesus... Há quem diga que esse binômio surgiu na França, no âmbito da Assembleia Constituinte, exatamente no dia 11 de setembro de 1789 (depois de Cristo). Esses termos só fazem algum sentido dentro do ambiente político que emerge da Revolução Francesa, e não iríamos muito longe se tentássemos analisar a política dos tempos de Jesus através dessa ótica. Pilatos e Herodes, por exemplo, seriam "de esquerda" ou "de direita"?! Pelas mesmas razões, embora me considere cristão e socialista, discordo completamente daqueles que dizem que Jesus era "de esquerda" ou que ele foi "o primeiro socialista", entre outras pérolas anacrônicas.

Concordo ainda com o anglicano C.S. Lewis quando diz que esse tipo de enquadramento ideológico, para um lado ou para o outro, tende a diminuir a mensagem cristã, reduzindo-a à condição de mero apêndice a uma ou outra ideologia, contrariando talvez as palavras que os Evangelhos atribuem a Jesus: "Meu Reino não é deste mundo".

Enfim, fica uma dúvida importante: ao afirmar num texto divulgado publicamente através de propaganda paga que "o Cristianismo é de direita", o senhor fala como cidadão ou como teólogo? Caso fale como teólogo, ouso dizer que o faz de modo um tanto leviano, à medida que não apresenta qualquer argumentação de ordem teológica ou bíblica para validar essa opinião. Pelo que pude perceber de seus textos e de sua página, o senhor é um pastor sério, então tomo a liberdade de convidá-lo fraternalmente, como recomendava Paulo, a refletir melhor sobre essa conduta específica.

Concluindo, assim como o Pastor Martin Luther King Jr., eu tenho um sonho. Sonho que, apesar de diferenças religiosas, políticas, partidárias ou ideológicas, nós brasileiros possamos aprender a dialogar de modo respeitoso, proveitoso e construtivo. Sonho que nossas diferenças de pontos de vista possam nos enriquecer, e não nos tornar inimigos. Sonho que juntos possamos ouvir uns aos outros, encontrar pontos em comum e avançar na construção de um Brasil melhor para todos nós, homens e mulheres de todas as orientações sexuais, assim como para nossos filhos, netos e bisnetos, um Brasil melhor para as pessoas "de direita" e "de esquerda", para católicos e neopentecostais, ateus e umbandistas, espíritas e presbiterianos, batistas e candomblecistas, agnósticos e metodistas, judeus e testemunhas de Jeová, islâmicos e luteranos, anglicanos e budistas, adventistas e hinduístas...

Em sua linguagem poética e enigmática, Jesus teria afirmado que somos o sal da terra. Já ouvi muitas interpretações interessantíssimas acerca dessa passagem, mas ao escrever esse texto me ocorre mais uma camada de interpretação: o sal bem dosado realça o sabor dos alimentos, enriquece a diferença entre eles, enquanto usado de modo inadequado pode deixar os manjares intragáveis para todos os paladares. Termino esse texto citando uma das passagens mais belas da Bíblia:

E eis que um legista se levantou e disse para experimentá-lo: "Mestre, que farei para herdar a vida eterna?" Ele disse: "Que está escrito na Lei? Como lês?" Ele, então, respondeu: "Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, com toda a tua força e de todo o teu entendimento; e a teu próximo como a ti mesmo". Jesus disse: "Respondeste corretamente; faze isso e viverás". Ele, porém, querendo se justificar, disse a Jesus: "E quem é meu próximo?" Jesus retomou: "Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu no meio de assaltantes, que, após havê-lo despojado e espancado, foram-se, deixando-o semimorto. Casualmente, descia por esse caminho um sacerdote; viu-o e passou adiante. Igualmente um levita, atravessando esse lugar, viu-o e prosseguiu. Certo samaritano em viagem, porém, chegou junto dele, viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximou-se, cuidou de suas chagas, derramando óleo e vinho, depois colocou-o em seu próprio animal, conduziu-o à hospedaria e dispensou-lhe cuidados. No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo: 'Cuida dele, e o que gastares a mais, em meu regresso te pagarei'. Qual dos três, em tua opinião, foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?" Ele respondeu: "Aquele que usou de misericórdia para com ele". Jesus então lhe disse: "Vai, e também tu, faze o mesmo" (Lucas, 10:25-37).

Oro para que todos nós, movidos de compaixão como o Bom Samaritano da parábola, aprendamos a enxergar em cada um nosso próximo, digno de amor, misericórdia e cuidado, para além de quaisquer diferenças ou divergências.

Fraternalmente,
Luiz Fabiano de Freitas Tavares


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