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segunda-feira, 3 de abril de 2017

O poder das fábulas

Texto de La Fontaine, dedicado ao Sr. De Barillon, embaixador da Inglaterra (traduzido por René Ferri)

Será que a hierarquia de um Embaixador permite que ele se rebaixe a escutar contos vulgares? Posso atrever-me a dedicar-vos meus versos e suas amenidades? Não serão considerados sem sentido por vós? Com certeza tendes assuntos mais importantes com que se ocupar do que com as brigas entre a Doninha e o Coelho. Lede minhas Fábulas ou não; mas não permitais que pese toda a Europa sobre nós. Que venham inimigos de todas as partes da Terra, posso entender. Entretanto, que a Inglaterra queira romper a amizade de nossos dois Reis, isso não posso aceitar. Já não é tempo de Luís descansar? Até mesmo Hércules se cansaria se tivesse de combater essa Hidra! Sempre há de aparecer nova cabeça que se levanta para combater seu esforçado braço? Se vossa perspicácia e eloquência puderem acalmar os ânimos e evitar esse golpe, imolarei cem cordeiros em vossos altares: não é pouco para um hóspede do Monte Parnaso. Por enquanto, aceitais esses grãos de incenso; não desconsiderai meus pedidos nem o relato que a vós dedico. O assunto vos convém; não direi mais nada, não permito que insistis em vossos elogios, mesmo que sejam merecidos, pois até a Inveja os cerca.

Em Atenas, cidade frívola e caprichosa, um Orador, que via sua pátria em perigo, correu para a Tribuna. Valendo-se de um discurso tirânico para forçar as vontades de uma república, falou eloquentemente sobre a salvação comum. Não prestavam atenção nele. Apelou às imagens brilhantes que excitam os ânimos dos mais lentos. Falou aos mortos; gritou e se esforçou o quanto pôde. Suas palavras foram levadas pelo vento, ninguém se comoveu. Aquele povo frívolo estava acostumado com os discursos vazios e nem se dignava a escutar o orador. Ocupavam-se de outras coisas: havia até quem ignorasse o discurso para entender às manhas de criancinhas.

Que fez, então, o tribuno? Tomou outro caminho. "Ceres partiu em viagem com a Enguia e a Pomba. Um rio atravessou o caminho; a Enguia, nadando, e a Pomba, voando, chegaram à margem oposta do rio". "E Ceres? O que fez?", perguntou o povo a uma só voz. "O que fez? Encolerizou-se contra vocês. E com razão! Como é possível que se interessem por histórias para crianças e, entre todos os povos da Grécia, sejam o único que não reconhece o perigo que os ameaça? O que deviam me perguntar não é o que Ceres fez, mas sim o que Filipe* faz". E foi assim que a assembleia, subjugada, entregou-se por completo ao Orador, tamanha a eficácia da pequena fábula!

Somos todos atenienses nesse ponto; até eu mesmo, que estou escrevendo essa moral da história. Se vierem a contar-me agora uma fábula nova, vou ouvi-la com todo gosto. Dizem que o mundo é velho, mas temos de entretê-lo e diverti-lo como a um menino.

*Referência ao rei Filipe II da Macedônia (382 a.C-336 a.C.), cujos projetos de expansão imperial visavam à Grécia; o "Orador" mencionado por La Fontaine seria o célebre Demóstenes (384 a.C. -322 a.C.), conhecido por suas Filípicas contra a ameaça macedônia.

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