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domingo, 1 de maio de 2011

Leituras - "Cartas de meu moinho", de Alphonse Daudet

Um livro apaixonante, embora pouco conhecido no Brasil. Trata-se de uma antologia de contos do autor do mais conhecido Tartarin de Tarascon, publicada em 1866, sob a forma de folhetins, no jornal L`Événement. Na verdade, Lettres de mon moulin, Cartas de meu moinho, foi o trabalho que lançou sua carreira literária, tendo grande repercussão entre o público francês da época.

O livro se apresenta como conjunto de memórias ficcionais sobre o suposto período em que o autor teria vivido no Sul da França em um moinho desativado, comprado por ele para "seus trabalhos de poesia". Curiosamente, ainda hoje muitas pessoas acreditam que se trate de experiência verídica. Há inclusive um moinho na aldeia de Fontvieille conhecido como "Moinho de Alphonse Daudet", bastante visitado, e que hoje abriga um museu em homenagem ao autor.

Mas vamos aos contos, que são pequenas pérolas literárias, ao mesmo tempo encantadoras e envolventes. As narrativas transportam o leitor a outro tempo, ao cotidiano provinciano da França meridional no século XIX, desfilando diante do leitor personagens pitorescos, paisagens bucólicas e situações que vão desde o humorístico ao melancólico. Seria impossível falar aqui de todos; vou destacar apenas dois de meus favoritos.

O primeiro é "O segredo de mestre Cornille", que conta a história do moleiro Cornille, antigo dono do moinho de Daudet. Trata-se de simpático velhinho inconformado com a substituição dos moinhos de vento pelas máquinas de moagem a vapor. Seu segredo, que ninguém compreende, é de onde sai o trigo que continua triturando em seu moinho, que insiste em rodar... Mas isso não vou contar! É um conto belíssimo, que explora com grande sensibilidade o impacto da industrialização sobre a vida cotidiana das pessoas.

O outro é "As estrelas", que narra em primeira pessoa a paixão de um pastor de ovelhas pela "bela Stéphanette", filha de seu patrão. Um feliz acaso faz com que os dois passem uma noite juntos sob o céu estrelado dos Alpes. Para distrair a moça, o pastor começa a lhe falar das estrelas e de suas histórias, até que a moça dorme com a cabeça apoiada em seu ombro. Além de seu tocante e ingênuo romantismo, a história é muito interessante pelo modo como apresenta um saber astronômico popular, lembrando-nos de uma época em que o conhecimento científico acadêmico ainda não se impunha com a força que conhecemos, ou talvez, em que a Ciência ainda não havia se tornado uma religião...

Por fim, é sempre bom lembrar que, como qualquer obra, não se trata de janela transparente para a cultura popular do século XIX, mas de uma visão refratada através do autor. De qualquer forma, um livro extraordinário.

3 comentários:

Edgard Santos disse...

Este Livro é fascinante. Tenho quatro volumes, entre eles, contos de segunda-feira. Daudet é simplesmente fantásico. Que leitura! Tenho-o inclucive em francês, original. Relei-o sempre.

Nikolas rs disse...

Lí esta maravilha quando tinha meus 14/15 anos... Ler é fantástico. Pena que esta Geração perdeu-se...

Luiz Fabiano de Freitas Tavares disse...

Me parece o contrário. Percebo que meus alunos hoje lêem mais que meus colegas de escola liam 20 anos atrás. Acho que Harry Potter e os livros que vieram em sua esteira são responsáveis por isso. Obrigado por comentar, volte sempre!