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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Perfil - Gandhi e a cultura ocidental

Não pretendo apresentar aqui uma biografia desse fantástico personagem, tanto pelo espaço insuficiente quanto por minha incapacidade de tentar algo nesse sentido. O objetivo desse post é apenas traçar pequeno esboço das relações de Mahatma Gandhi com a cultura ocidental, geralmente ignoradas ou esquecidas em favor de suas raízes hinduístas.

Ao contrário do que geralmente se acredita, o pensamento ocidental representa parte importantíssima de sua formação. Nesse sentido, convém lembrar que toda sua instrução formal foi de caráter ocidentalizante, tendo mesmo cursado o ensino superior na Inglaterra, onde se formou advogado. Por sinal, o próprio Gandhi se lamentava de seu conhecimento superficial a respeito de alguns ramos da filosofia hinduísta, como a ioga.

Duas influências devem ser particularmente ressaltadas sob esse aspecto. Uma delas é a do escritor russo Léon Tolstói, cuja leitura foi essencial na formação moral do ativista indiano. Para se ter uma ideia, em 1910, quando fundou uma comunidade de caráter utópico na África do Sul, muito antes de sua militância pela independência indiana, Gandhi a batizou como "Quinta Tolstói". De fato, muito de seu pensamento político, social e econômico (outra faceta pouco conhecida do líder) é tributário à leitura do russo. Aliás, segundo Pierre Meile, um de seus biógrafos já era leitor assíduo de Tolstói dez anos antes de sua primeira leitura do Bhagavad-Gita, um dos mais importantes textos da tradição religiosa hinduísta, como se sabe.

Outra leitura essencial em sua formação foi o pensador americano Henry David Thoreau, verdadeiro criador da noção de resistência passiva, conceito essencial da ação de Gandhi ao longo de toda sua vida política, desde as primeiras manifestações contra a obrigatoriedade do registro de indianos na África do Sul até sua longa luta pela independência da Índia. De fato, o consagrado termo Satyagraha ("busca da verdade") foi inicialmente pensado como "tradução" indiana da ideia de resistência passiva. Obviamente o conceito passou por amplos refinamentos posteriores, enriquecido por afluências de matriz hindu; contudo, seu ponto de partida estava em Thoreau.

Apenas a título de curiosidade, cabe apontar que um dos pensadores indianos mais admirados por Gandhi seria justamente o poeta Rabindranath Tagore, que chegou a qualificar como "o Sol da Índia". Também o genial Tagore entreteve profundas relações com a cultura ocidental, tendo feito estudos na Inglaterra e, ainda mais importante, sendo o primeiro escritor não-europeu a ganhar um Nobel de Literatura.

Certamente não se trata de afirmar que o pensamento de Gandhi era mera tradução "hinduizante" de conceitos ocidentais, como já li anos atrás em certo artigo da revista francesa Historia, o que seria banalizar sua situação de hibridismo cultural. Aliás, me parece que outro dos pilares de sua atuação, a noção de Ahimsa ("não-violência"), deve muito mais a seu contato com a cultura oriental, caminhando nos limites do hinduísmo e do budismo. Contudo, é muito instigante pensar sobre o grande alcance das reflexões que Gandhi pôde propor à cultura do século XX, a partir de sua estratégica posição na encruzilhada de diversas tradições culturais.

Talvez seja bastante produtivo pensá-lo como um indiano educado no seio da cultura ocidental e que, justamente por isso, foi capaz de reencontrar e interpretar a cultura indiana, especialmente hinduísta, de modo tão criativo e produtivo, dando origem a um dos movimentos mais inspiradores da história humana.

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