Newsletter

Sua assinatura não pôde ser validada.
Você fez sua assinatura com sucesso.

Oficina de Clio - Newsletter

Inscreva-se na newsletter para receber em seu e-mail as novidades da Oficina de Clio!

Nous utilisons Sendinblue en tant que plateforme marketing. En soumettant ce formulaire, vous reconnaissez que les informations que vous allez fournir seront transmises à Sendinblue en sa qualité de processeur de données; et ce conformément à ses conditions générales d'utilisation.

sábado, 4 de abril de 2020

Aprendizes e Mestres

Quando um excelente aluno encontra um excelente professor, algo mágico acontece.


Prioridades cariocas

Há alguns anos, assistia a uma emissão do programa do falecido chef Anthony Bourdain onde ele visitava o Rio de Janeiro para conhecer a culinária e a cultura locais. Em dado momento, Bourdain visitava uma favela (Rocinha, se não me engano) e conversava com um idoso morador, que afirmava peremptoriamente:

"A coisa mais importante que se pode ensinar para essas crianças é soltar pipa".

Para um professor suburbano do asfalto, como eu, a declaração soou no mínimo curiosa. Não julgo. Até entendo que a pipa, para muita gente (adulta, inclusive) é um lazer barato, que preenche inofensivamente as horas de ócio e distrai do cansaço da dura labuta diária.

No entanto, tal afirmação é muito reveladora da ordem de prioridades na formação de muitas de nossas crianças e jovens. Por elitista que soe, sabemos muito bem que o cultivo da cidadania plena requer competências muito mais importantes que soltar pipa.

Há poucos minutos, de minha suburbana janela, ouvi um comentário de dois rapazes acerca de um terceiro que bem ressoa a recomendação do velho senhor ao chef estrangeiro:

"Caramba... Ele não sabe jogar bola... Não sabe soltar pipa... Não sabe jogar baralho... Não sabe fazer nada!"

Ainda aqui vemos que a imagem do "incapaz" se define pela carência de competências que tampouco contribuem para o exercício da cidadania: bola, pipa, baralho... Vale comparar com os jovens sul-coreanos que vão para as ruas torcer pelos secundaristas nos dias de processo seletivo para as universidades.

Não é questão de menosprezar a cultura nacional ou carioca, nem de endeusar aos estrangeiros; os sul-coreanos também lidam lá com seus problemas e neuroses.

Ainda assim, esses pequenos instantâneos da vida carioca e brasileira dão bem a dimensão dos desafios sociais e culturais que temos pela frente para que vivamos numa terra de cidadania mais viva e ativa.

Pipas, bolas e baralhos são bacanas, mas, como vaticinava Monteiro Lobato, "um país se constrói com homens e livros".

Livros...


Imago Dei...?

Então Deus disse, "Façamos a humanidade a nossa imagem de acordo com nossa semelhança; e deixemo-los dominar sobre os peixes do mar, e sobre as aves do ar, e sobre o gado, e sobre todos os animais selvagens da terra, e sobre toda coisa rastejante que rasteja sobre a terra" (Genesis 1:26).

Uma montanha de comentários foi devotada a este texto. A que se refere a imago Dei, e que tipo de poder ela inspira e legitima? Qual é o sentido, como o texto à frente elabora, de ser fértil em número e subjugar a terra (1:28)?

As respostas a essas questões têm sido diversas e numerosa. O que eu gostaria de destacar, todavia, é o papel dessa passagem no desenvolvimento de várias ramificações do excepcionalismo humano, e seu emprego para inspirar e garantir a moderna busca por controlar a natureza e arquitetar ["engineer"] a vida. Como historiadores como Peter Harrison e Rémi Brague defenderam, o desejo científico de conhecer o mundo, e a obsessão tecnológica para refazer o mundo, podem ser entendidas como uma variante moderna, frequentemente secular, do desejo de restaurar os seres humanos à sua natureza deificada. Retomar a imago Dei nessa leitura significar adquirir o conhecimento e desenvolver o poder que libera as pessoas do esforço físico que as confronta com os limites e necessidades da vida corporal. Isso as coloca em um caminho para o que ecomodernistas vêm descrevendo como um bom Antropoceno* - um caminho em que catástrofes são engenhosamente evitadas e a criatividade e as liberdades humanas florescem.

O desejo de libertar a humanidade de doença, fome, e tanta miséria e labuta é certamente recomendável. Mas o desejo de assumir uma posição deificada no mundo também é supremamente perigoso, pois tão frequentemente resulta na subjugação e instrumentalização de pessoas e lugares. Posto nos termos do texto de Gênesis que nos deu a imago Dei, isso pode levar a presunção, orgulho e poder que eventualmente levam Deus a dizer a Noé: "Eu determinei dar fim a toda carne, pois a terra está repleta de violência" (6:13). Quando as pessoas se elevam acima daquilo que podemos chamar de sua condição "criatural" ["creaturely"], finita e necessitada, como quando elas buscam se isentar do cuidado dos outros e seus lugares, elas também põem em movimento padrões de comportamento que irão inevitavelmente violar os outros e sua capacidade de existir.

Liberdade, neste contexto, significa a emancipação da humanidade das necessidades e cuidados da vida "criatural" conjunta. Esta liberdade busca uma posição autônoma e autárquica no mundo, uma posição em que a liberdade de ser é melhor realizada no poder de estar sozinho e gozar a vida de acordo com os termos de sua escolha individual. A construção da torre de Babel, uma torre que poderia elevar os humanos aos páramos celestes  (11:4), e assim posiciona-los para obliterar a distinção entre o humano e o divino, não foi senão uma precoce expressão do sonho tecno-utópico que nos leva ao Antropoceno.

*Antropoceno - termo proposto e discutido por alguns acadêmicos de diversas disciplinas das ciências naturais e humanas para postular a ideia de que hoje vivemos uma nova era geológica, posterior ao Holoceno, em que o conjunto da ação econômica e tecnológica humana chega a se projetar como uma verdadeira "força da natureza" capaz de alterar severamente a constituição ecológica de nosso planeta.

Can we live in a world without a Sabbath? - Interessante provocação de Norman Wirzba, nesses tempos em que um reles vírus põe em causa a supremacia humana sobre toda a vida planetária; é bem verdade que Gênesis menciona apenas peixes, pássaros, gado, animais selvagens e rastejantes... Teria a esfera microbiana ficado de fora das cláusulas do pacto adâmico?!

Michelangelo e a "Imago Dei" - sem vírus à vista...

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Quem diria...?!


Da diversidade do pensar

Sou socialista desde os 13 aninhos de idade e me deleito lendo bons autores liberais e conservadores. Me sento prazerosamente para conversar com qualquer pessoa educada e interessante, pouco me importando suas opiniões políticas, crenças religiosas, gostos ou desgostos. Só não consigo suportar gente bitolada e grosseira - a estes deixo um polido cumprimento e sigo em frente.

Prefiro sempre a discordância educada e inteligente à tediosa e bovina concordância das opiniões mastigadas e ruminadas. O contato com outras perspectivas me faz mudar, crescer e amadurecer; o cômodo consenso das "panelinhas" nos faz estiolar e murchar, numa eterna e insuportável adolescência.

Prefiro ser heterodoxo e imprevisível em tudo que faço e penso; aqueles que se enganam com minha aparente docilidade cedo ou tarde descobrem que estão diante de um chucro cavalo-de-Przewalski - é possível me seduzir, mas impossível domesticar. Não mordo, mas escoiceio (educadamente) quem tente me encilhar.

Prefiro o crescimento inquietante e desafiador ao pertencimento confortável e conveniente. O horizonte infinito da estepe me atrai mais que a limitadora tranquilidade do pasto...

Cavalo-de-Przewalski - A inquieta besta das estepes

Caos, Ordem e Ilusão



Se eu fosse um teólogo ou filósofo do século XVII, veria aí um maravilhoso emblema de simpatia, afinidade, sintonia ou algo assim... Os pensadores barrocos faziam a festa com esse tipo de coisa... Caos e Ordem são apenas ilusões entrelaçadas numa dança - talvez "meta-ordenada" - que não podemos compreender.

Um bom 1º de abril per tutti!

terça-feira, 31 de março de 2020

O Fim e o Recomeço

Há quem diga que o século XX só começou após 1918, com o fim da I Guerra Mundial, que sepultou de uma só vez os seculares impérios Otomano, Austro-Húngaro e Russo, entre outras efemérides que mudaram irremediavelmente o curso da geopolítica mundial.

O que veio depois - e ainda anda por aí - todos nós conhecemos (não necessariamente nessa ordem): Anos Loucos, II Guerra Mundial, Guerra Fria, perpétua instabilidade no Oriente Médio, turbulências na América Latina, conturbada "descolonização" na África e na Ásia, industrialização acelerada e (quase) generalizada, intensificação da globalização iniciada por Colombo e Gama, degradação ambiental, aquecimento global, explosão demográfica, crescente hegemonia do tatcherismo neoliberal, exuberante florescimento da cultura consumista e hedonista, o triunfo das máquinas, a comunicação de massas...

O século XX não terminou em 2000, nem começou em 2001; o 11 de Setembro e as guerras que o seguiram, em muitos sentidos, são apenas os últimos suspiros do Império Otomano.

Tenho para mim que o século XX termina apenas agora, em 2020, com essa pandemia onde se cruzam e desfecham tantas questões econômicas, políticas, culturais e ecológicas deixadas em aberto pelo século XX. A pandemia nos põe diante de questionamentos e escolhas que provavelmente nos convidarão a repensar profundamente o modo como temos vivido e nossas prioridades individuais e coletivas. Ao menos os mais sensatos e sensíveis entre nós pararão para refletir.

Que se vá a pandemia; que finalmente comece o século XXI...

Ouroboros - a serpente que morde a cauda - fim, começo e renovação

segunda-feira, 30 de março de 2020

"Tell people something they know already and they will thank you for it.
Tell them something new and they will hate you for it".

sexta-feira, 27 de março de 2020

Neoliberalismo e Pandemia

Essa pandemia derrubou de modo inquestionável a máscara dos neoliberais e ultraliberais. Ficou explícito, transparente e inquestionável que, para muitos deles, senão a maioria, dinheiro vale mais que vidas. Não há sofismas, eufemismos e racionalizações baratas capazes de amenizar isso. Eis, à plena luz do dia, sem escrúpulos e sem vergonha, o fruto amargo da venenosa semente plantada por Pinochet e Thatcher...


quarta-feira, 25 de março de 2020

O "grande" dilema


COVID-19 e os Adoradores de Mamom

Texto do brilhante historiador, percussionista, musicólogo e teólogo Tiago de Souza, de cuja amizade muito me orgulho

Sobre o pronunciamento, sobre a crise pandêmica e sobre a lógica cachaceira do "simbora pra rua meu povo".

Acho que esse texto será curto.

Eu ia participar de uma live ontem, mas o Instagram entrou em colapso antes que nosso sistema de saúde, então... me permitam apresentar meu olhar de historiador sobre todas essas questões.

Pensa aí: o que a explosão do Vesúvio, a Peste Negra, o terremoto de Lisboa, a explosão do Tambora, do Krakatoa, a gripe espanhola tem em comum? Aliás, com relação ao plano de reconstrução, o que nos difere de todas essas crises?

A resposta é simples: em todos os acontecimentos apontados, tanto os indivíduos quanto os governos agiram DEPOIS da tragédia. Eles foram pegos de surpresa. Foi tudo muito rápido. Não havia tempo nem forcas suficientes para lidar com a força da natureza, desde os tremores que sacudiram Lisboa até a ação do bacilo da peste. Contra a natureza não há argumentos.

A cor da baleia em Moby Dick é branca e não e a toa. É a cor da neutralidade.

A natureza não escolhe a quem ceifar.

Nós sim.

Falaremos sobre isso no fim do texto.

Provavelmente você vai me odiar quando chegar lá.

Após as milhares de mortes, os governos (cada um com sua estrutura específica) realizaram ações de recuperação que iam desde leis feitas a canetadas dentro de carruagens (caso do Marques de Pombal em Lisboa) até planos inteiros de reestruturação econômica. A preocupação IMEDIATA era a vida. Era preciso enterrar os mortos, sim. Era preciso salvar sua própria vida. Sim. Mas era preciso agir para que o prejuízo HUMANO IMEDIATO não fosse pior.

E aqui não se entrava no mérito da economia. Não no curto prazo.

No curto prazo, o que importava era a vida.

Não se comparava Lisboa com Nápoles.

Não se comparava Java com Pompéia.

Não se dizia: "Mas em 1755 fizeram assim e assado, logo, porque quando faço isso em 1883 todo mundo reclama?"

Não se dizia "ninguém reclamou do rei fulano quando ele disse isso... Porque reclamam do meu rei agora?"

A única coisa que importava era diminuir os mortos e ajudar IMEDIATAMENTE a quem precisava.

Pessoal, as pessoas no século XIV (eu escrevi SÉCULO QUATORZE!!!) tinham mais consciência de vida do que nós. Diante da mortandade que assola ao meio dia, diante da peste que anda na escuridão, diante da praga que se aproxima da tenda elas FUGIRAM e depois disso, se preocupavam com a VIDA dos seus.

(Galera, desculpa, o texto vai ser mais longo do que eu imaginava porque a partir do momento eu citei Salmos, uma ideia me ocorreu. Vou falar disso em um minuto).

Quero dizer com isso que a defesa da vida, em detrimento das condições econômicas foi a ponta de lança daquelas pessoas. Observe a História! Enquanto o flagelo acontecia as pessoas NÃO PENSAVAM EM EMPREGOS, não pensavam em ECONOMIA, não pensavam em EMPRESAS.

Enquanto o cavalo amarelo da morte galopava, as pessoas buscavam salvar os seus em primeiro lugar. E depois, assim que o trotar e o bufar do cavalo de demônio diminuía sua marcha, indivíduos tratavam de suas economias e governos estabeleciam planos de contenção e reconstrução.

Sabem de uma coisa?

Todos nós somos IDOLATRAS.

UM BANDO DE ADORADORES DE MAMOM, disfarçados de crentes, de ateus, de espíritas, de umbandistas, de judeus... disfarçados de bolsonaristas e de esquerdistas.

Todos nós estamos preocupados com o amanhã do NOSSO BOLSO, ao invés do amanhã DO NOSSO PRÓXIMO.

O presidente foi dúbio em um momento em que não se poderia ser, foi polêmico quando não deveria ser. E parem de culpar a Globo.

A culpa é do MAMOM que habita nosso coração.

A culpa é do receio do desemprego, da recessão... E eu entendo isso. Mas o que eu não entendo é esse medo DOMINAR a mente de vocês. Dominar a nossa mente. Dominar a nossa cosmovisão. Vocês estão ouvindo?

Não estão?

O barulho de máscaras caindo.

Nossas máscaras de bons costumes.

(A explosão do Krakatoa foi ouvida a mais de 5 mil quilômetros de distância. O barulho das nossas máscaras caindo no chão foi ouvida no céu. Foi ouvida por Deus).

De repente você não sabe o que é Mamom.

Deixe eu contar uma pequena história.

Jesus certa vez estava conversando com as pessoas e, em um dado momento, ele disse:

"Vocês não podem adorar a Deus e a MAMOM ao mesmo tempo...".

Existem pelo menos duas explicações a esse respeito. Na primeira, o termo "mamom", de origem aramaica, servia para designar a soma dos bens terrenos: posses e dinheiro. Não era um deus oficial de qualquer culto pagão, mas se constituía, e ainda se constitui, verdadeiramente, um ídolo universal, pois nos tesouros materiais o homem coloca o coração. Dessa forma, a palavra traduzida para o português como Mamom em algumas bíblias foi especialmente escolhida pelos autores para passar essa ideia de que a riqueza pode ser um senhor, um deus, um alguém que as pessoas seguem e que acaba levando-as para longe de Deus. No texto em que Jesus fala sobre servir a dois senhores (Mateus 6:24) note que Jesus personifica a “riqueza” como se fosse uma pessoa, um “senhor” que poderia ser servido pelas pessoas e não meramente um objeto, bens ou dinheiro que as pessoas têm. Ele faz isso para fortalecer o argumento de que as riquezas podem ser um deus para as pessoas, como se fossem realmente algo com que elas pudessem interagir pessoalmente.

Na outra possível interpretação, "Mamom", em maiúscula no início, seria um deus da Mesopotâmia e que simbolizava o dinheiro.

A parte qualquer discussão histórico-linguistica-teologica, pense:

Qual é a preocupação IMEDIATA de alguém que mesmo diante do que está acontecendo na Itália e na Espanha diz: "Vamos voltar pra rua! O Brasil não pode parar!"

Resposta:

MAMOM.

Repito:

MAMOM.

Novamente.

MAMOM.

Nossas mentes e corações estão corroídos pela riqueza, pelo dinheiro, pela preocupação com a economia, pela preocupação com o bolso. E o demônio - o mestre dos disfarces, o paladino da caozagem, o Rambo da lorota, o samurai da enganação, o Beethoven das estripulias - faz você pensar:

"Mas se o país quebrar vai morrer muito mais gente!"

Vai. Vai sim. Concordo.

Mas... O problema do seu argumento é justamente... o "VAI". Futuro. E o hoje? Como podemos salvar vidas HOJE?

E hoje? E daqui a duas semanas? E em abril? Como pode o ser humano ignorar o fato da letalidade da doença e só pensar em emprego... Quando pessoas podem realmente morrer a curto prazo? Lembrem-se dos exemplos anteriores! Do Vesúvio a Gripe espanhola, primeiro se cuidava dos vivos e depois se pensava no amanhã. E após a tragédia, se fazia aquilo que Pombal falou para o rei de Portugal: "enterramos os mortos, cuidamos dos vivos".

"Ah cara... Mas isso só mata velho".

Cala-te, demônio!

Na Bíblia (esse livro tão mal interpretado por nós) está escrito: "devem primeiro aprender a cumprir os seus deveres religiosos, cuidando da sua própria família. Assim eles pagarão o que receberam dos seus pais (...) pois Deus gosta disso”. (1 Timóteo 5:4).

E também está escrito em Levítico 19:32: “Diante dos cabelos brancos te levantarás, e honrarás a face do ancião, e temerás o teu Deus".

Miseráveis que somos!

Assassinos!

Deixa eu te perguntar: nós aprendemos com nossos pais que idoso pode ser deixado a morte? Foi isso que José fez com Jacó? Foi isso que Rute fez com Noemi? Foi isso que Jesus fez com Maria?!

Então, pensem bem antes de abrir a boca para dizer "mas e a economia..."

MAMOM bate palmas para vocês. As moedas tilintam de tesão pelas suas almas.

Isso... Pense mais no Paulo Guedes e menos em Jesus.

Isso... adore seu investimento e ignore a mortandade do Corona.

Isso... Se preocupe com seu emprego, mesmo que o custo dele seja a morte de alguém... Mesmo que indiretamente.

Isso.

Vamos fazer a dança macabra rumo a nossa perdição como nação, como povo, como espécie. Celebremos de mãos dadas a nossa decadência diante do próximo. Vamos mostrar pra todo mundo que os camponeses do século XIV eram mais prudentes do que nós somos. Vamos mostrar que os javaneses que se revoltaram contra o sistema que os abandonou depois da explosão do Krakatoa são mais coerentes do que nós.

Vamos mostrar que somos, como no filme do Thomas Hanks (e que ninguém viu) "matadores de velhinhos".

Vamos dançar até cairmos exaustos.

Exaustos e sorridentes com as trinta moedas de prata que Mamom nos dá.

Trinta moedas de prata.

Eis aí o custo do meu "É só uma gripezinha".

Trinta moedas.

Antes meu emprego do que mais um velho no mundo.

Que lógica infernal...

Trinta.

Eis aí o preço que italianos e espanhóis estão pagando.

Bora pra rua meu povo!

É tempo de carnaval.

É tempo de Mamom.

Tiago de Souza