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quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Às vezes não sei se sou eu que brinco com as palavras, ou se são as palavras que brincam comigo.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

O passado como fábula

"Lembro-me das histórias antigas que me contavam na infância... Histórias de guerreiros e lutas nas montanhas de Ueno... De como era a cidade antigamente... Memórias da Era Edo [1603-1868]... Muitas narrativas e até encenações sobre como meu avô lutou contra Saigo Takamori... E hoje eu estou aqui, lutando numa guerra. Será que um dia eu vou poder contar tudo isso pros meus netos? Sentado sob o sol numa bela varanda... 'Sabia que o vovô já pilotou caças numa guerra?' Quando esse dia chegar, como será que o Japão vai estar? Para mim, aquelas histórias da Era Edo sobre o  meu avô pareciam contos surreais. Talvez nossos netos, ao ouvirem nossas histórias, também irão achar que são coisas de um passado distante..."
Naoki Hyakuta


quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Sem anos de perdão

Fico impressionado com as posturas e atitudes autoritárias de algumas pessoas que andam por aí se apresentando como antifascistas! Dariam inveja ao Salazar... Dragão que combate dragão tem cem anos de perdão?


domingo, 18 de novembro de 2018

Sobre médicos cubanos e responsabilidades

Nosso mais recente embaraço diplomático é complexo. Há várias questões imbricadas. Não adianta apontar heróis e vilões, mas entender as distintas responsabilidades no assunto e suas respectivas consequências. Como não tenho qualquer simpatia pelo regime cubano, pelo PT ou por nosso presidente recém-eleito, me sinto à cavaleira para falar sobre o assunto.

1) O Brasil, como se sabe, é um país de rincões isolados e, historicamente, o Estado brasileiro tem dificuldade em fazer profissionais de serviços básicos chegarem a esses rincões, mesmo com eventuais incentivos. No caso das Forças Armadas uma alternativa é alterar a contagem do tempo de serviço. Por exemplo, um ano de serviço de um militar nesses locais conta como 3. 5 anos contam como 15, permitindo se "aposentar", ou melhor, reformar, mais cedo. No caso dos médicos parece que medidas nesse sentido nunca surtiram o efeito desejado.

2) O programa "Mais Médicos" foi implementado para suprir essas carências. Como não sou especialista em Saúde, não entro nos méritos ou deméritos do programa, que não tenho a devida competência para avaliar. Assinalo apenas o fato de que alguns milhões de brasileiros dependem hoje do programa para atendimento médico básico. O futuro presidente do Brasil deveria estar, antes de tudo, preocupado em garantir e assegurar o devido atendimento a esses cidadãos, de um ponto de vista estritamente pragmático, por uma razão muito simples: ele foi eleito presidente do Brasil, e não de Cuba. Seria legítimo se preocupar com os médicos cubanos, contanto que isso não viesse a comprometer o atendimento aos cidadãos brasileiros.

3) A participação cubana no programa Mais Médicos resulta de um acordo BILATERAL livremente firmado entre dois Estados soberanos, Brasil e Cuba, sob condições que, à época, pareciam legítimas aos mandatários de ambos Estados. Como todo acordo internacional, ele depende que ambas as partes envolvidas respeitem as condições estipuladas. Estando o futuro presidente do Brasil interessado em mudar as presentes condições do acordo, ele deveria faze-lo via NEGOCIAÇÕES com a outra parte, ou seja, resolver o assunto DIPLOMATICAMENTE, através do DIÁLOGO com o Estado cubano.

4) O método de remuneração dos profissionais cubanos no programa realmente é controverso e parece ferir princípios de isonomia da legislação trabalhista brasileira. Nesse sentido, caberia ao futuro presidente questionar a validade do acordo por vias JURÍDICAS. Conforme as autoridades JUDICIÁRIAS brasileiras se posicionassem em relação ao caso ele teria o devido respaldo LEGAL para renegociar o acordo pelas vias DIPLOMÁTICAS, recorrendo inclusive a instâncias de arbitragem internacional, conforme fosse necessário. Deveria, de preferência, fazer isso DEPOIS de tomar posse, de modo CRITERIOSO e com a devida PRUDÊNCIA.

5) Em lugar de agir com a prudência conveniente a um chefe de Estado responsável, o presidente eleito optou por fazer prematuras provocações EXTRA-OFICIAIS a um Estado soberano, ANTES mesmo de tomar posse, gerando assim um incidente internacional desnecessário, sem passar pelas devidas vias jurídicas e diplomáticas. Ao fazer semelhantes bravatas, não pensou devidamente nos milhões de cidadãos brasileiros que dependem do programa Mais Médicos e dos profissionais cubanos envolvidos no programa. Em suma, agiu de forma pouco RESPONSÁVEL em relação às necessidades objetivas de cidadãos brasileiros que governará a partir de 2019. Ao agir dessa maneira demonstrou inadequado senso de prioridade: seu dever primeiro deveria ser assegurar o atendimento médico à população brasileira, dando à política doméstica a devida primazia sobre a política internacional - DEPOIS de tomar posse, de preferência.

6) Como pode acontecer em incidentes internacionais semelhantes, o Estado soberano de Cuba reagiu de modo duro às imprudentes provocações do futuro presidente do Brasil. Cuba perdeu uma excelente oportunidade de agir com magnanimidade e adotar uma postura conciliatória, o que talvez trouxesse ganhos à sua imagem internacional. No entanto, como Estado soberano, reagiu como lhe aprouve. Podemos questionar ou criticar, mas é um gesto legítimo do ponto de vista da diplomacia, embora questionável do ponto de vista humanitário.

7) A diplomacia é uma arte sutil, e a prudência exige atenção à correlação de forças em jogo em qualquer questão internacional. No caso em apreço, o futuro presidente do Brasil não percebeu (ou não quis perceber) que Cuba detém a vantagem no jogo, pois aparentemente o Brasil necessita dos médicos cubanos mais do que Cuba necessita do dinheiro brasileiro.

8) Restariam ao futuro presidente duas opções. Um pedido de retratação ao Estado cubano, seguido de uma rodada de negociações diplomáticas conciliadoras ou alimentar a tensão, rumo à ruptura definitiva. A primeira alternativa seria aquela mais pragmática e prudente no sentido de assegurar a curto prazo as necessidades dos brasileiros que dependem dos serviços prestados pelos médicos cubanos. Isso exigiria que o presidente eleito pusesse o bem-estar desses brasileiros acima de seu ego.

9) Na prática, o presidente eleito apostou na via conflituosa, oferecendo asilo político aos médicos cubanos - decisão que, além de questionável, teria efeitos práticos incertos para a população que precisa desses médicos. Quantos médicos aceitariam tal asilo? Que medidas práticas o governo brasileiro precisaria tomar para viabilizar isso? Qual seria o impacto orçamentário de tal decisão a curto, médio e longo prazos?

10) O presidente eleito poderia, em se confirmando a ruptura unilateral do acordo por parte de Cuba, recorrer a instâncias de arbitragem internacional, mas tais processos costumam ser tortuosos e demorados - assunto para muitos anos. E a população precisa de médicos AGORA.

11) O futuro presidente tem algum Plano B caso suas arriscadas apostas não se concretizem? Como ele poderá remediar tal inconveniente em seus primeiros meses de governo?

CONCLUSÃO: em minha opinião, o Estado de Cuba reagiu de forma mesquinha, brusca e desproporcional às provocações do futuro presidente do Brasil, no entanto este demostrou pouca responsabilidade ao desconsiderar as consequências que suas provocações poderiam ter sobre o bem-estar de uma porção significativa da população brasileira. Não é o tipo de atitude que se espera de um chefe de Estado cônscio de seus deveres. Em todo caso, há que se aguardar atentamente os próximos capítulos da história.

P.S.: Sugiro algumas leituras relacionadas ao caso, com apreciações distintas do mesmo: uma reportagem do New York Times; uma coluna de Leonardo Sakamoto e as análises dos fact-checkers Lupa e Aos Fatos.
 

sábado, 17 de novembro de 2018

Stan, o Semeador de Mundos

Stan Lee criou os X-Men, mas não o Wolverine. 

Inventou o Homem-Aranha, mas não escreveu A última caçada de Kraven. 

Reinventou Thor e o imaginário popular sobre a mitologia germano-escandinava como apenas Wagner antes dele. 

Criou o Demolidor, mas o "Homem-sem-medo" alcançou sua plenitude dramática e estética nas mãos de Frank Miller. 

Mais que criar personagens e aventuras, Stan Lee semeou ideias que inúmeros artistas cultivaram laboriosamente até darem seus frutos mais maduros e saborosos. Essa é sua verdadeira grandeza: o divino Galactus é o Devorador de Mundos, mas Stan Lee é ainda maior: um Semeador de Mundos. 

A ponte de Bifrost está aberta: boa jornada, Stan, e muito obrigado!

Galactus e o Surfista prateado no traço do francês Moebius, em Parábola, uma das melhores aventuras escritas pelo próprio Stan Lee - que, não à toa, dizia que o Surfista Prateado era sua criação com a qual mais se identificava, embora nunca tenha se tornado um dos personagens mais populares do universo Marvel.

Doutrinação Consumista

As pessoas estão preocupadas com uma doutrinação comunista que não existe, mas deveriam se preocupar com a "doutrinação" consumista - esta sim, muito real - que produz uma juventude mimada, cínica e egocêntrica, incapaz de ouvir "não" e respeitar limites, com valores duvidosos, um hedonismo doentio e um imediatismo patológico, virtualmente incapaz de tolerar frustrações e manter esforços e compromissos de longo prazo. 

Jovens que, cada vez mais, usam pessoas e amam objetos. Enfim, uma juventude barulhenta por fora e acabrunhada por dentro, que comete suicídio com uma frequência cada vez mais assustadora. 

Essa é a "doutrinação" que me preocupa...


Acho o marxismo tedioso, mas o antimarxismo consegue ser ainda mais insípido...

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Tiroteio de cegos

Cegos brigando com cegos pelo direito de guiar outros cegos. Existem pessoas que sofrem uma necessidade patológica de atrair atenção, e existem outras pessoas com uma tendência igualmente patológica de conceder a atenção reclamada pelas primeiras. Melhor ficar longe desse tipo de gente. Em terra de cego, quem tem um olho é inimigo...

Cegos guiando cegos, de Pieter Brueghel (1568)

domingo, 11 de novembro de 2018

Dados econômicos curiosos

Achei essa tabela interessante. Como não sou economista, contador, estatístico ou matemático, não devo ter compreendido muito bem.

Enfim, ela compara dados de endividamento público e privado em proporção ao PIB entre diversos países do mundo entre 2007 e 2014 (no caso brasileiro, entre o segundo mandato de Lula e o primeiro de Dilma).

O Brasil ocupa a 34ª posição na tabela (dívidas em torno de 128% do PIB anual), o que já é curioso: o endividamento global brasileiro nesses 7 anos ficou abaixo de inúmeras outras economias do mundo, com um aumento de apenas 27%. No entanto, podemos observar nas colunas à direita, que esse aumento no endividamento se distribui da seguinte maneira: 3% no setor governamental; 15% no setor empresarial; 9% no setor familiar.

Ou seja, no período em questão, o governo (do PT-MDB!) foi o setor econômico que menos se endividou no Brasil. Por outro lado, o endividamento familiar subiu consideravelmente e, mais importante, o setor empresarial se endividou CINCO VEZES mais que o governo.

Em suma, em que pese toda a funesta corrupção da Era PT-MDB, todos os gastos públicos mal direcionados e n outros fatores que me levam a criticar o PT (e seu siamês MDB), me parece difícil sustentar que o PT (sozinho) "destruiu o Brasil", "quebrou o Brasil" etc.

Em suma, fica evidente que, em termos orçamentários, a conduta do setor empresarial foi muito mais temerária que a do governo, e as famílias brasileiras também não cuidaram de suas finanças com muita prudência. No que tange especificamente às finanças familiares, posso afirmar que vi muita gente nos últimos anos gastando como se não houvesse amanhã, esquecendo que a fatura um dia chega e os juros são impiedosos. Vi muita gente viajando mais do que podia, adquirindo automóveis que nitidamente não condiziam com sua renda familiar, trocas de aparelhos eletrônicos demasiadamente frequentes etc.

Enfim, o PT-MDB tem sua parcela de responsabilidade na crise econômica que hoje vivemos, mas não estão sozinhos nessa lambança. É muito fácil conduzir suas finanças pessoais e/ou corporativas de modo pouco responsável por anos e depois jogar TODA a culpa no governo (embora o governo também tenha imensa responsabilidade, obviamente).

Minha avó usava um ditado que se aplica maravilhosamente à presente situação do Brasil: "Em 
casa onde falta pão, todo mundo está errado e todo mundo tem razão" - todo mundo tem direito de reclamar, mas todo mundo tem sua parcela de responsabilidade na situação.

Nunca fui petista, nem pretendo aqui defender o PT, apenas convidar cada um a refletir mais serenamente sobre a situação do Brasil em toda sua complexidade. Cada um tire suas próprias conclusões e vista a carapuça que lhe couber.

De resto, peço aos economistas, contadores, estatísticos ou matemáticos de plantão que me esclareçam nos pontos onde meu raciocínio for inválido ou incompleto.


Ironia eleitoral

Durante o século XIX, as correntes políticas de direita defendiam com unhas e dentes o voto censitário: nada de ralé votando por aí. Por outro lado, o sufrágio universal era uma bandeira levantada por correntes de esquerda (não marxistas). Mais ainda, as sufragistas feministas lutaram muito para estender o direito do voto às mulheres. Resumindo, se você hoje pode votar no Kataguiri, no Frota [!], no Crivella, no Witzel ou no Bolsonaro, agradeça às esquerdas e feministas do passado. 

Não é irônico? 

MORAL DA HISTÓRIA: não demonize a esquerda (ou a direita). Uma democracia saudável depende da diversidade e da variedade de pontos de vista em contínuo diálogo, trazendo suas respectivas contribuições e perspectivas à construção da vida em sociedade. Achar que existem heróis e vilões, que o lado X ou o Y é um mal que precisa ser radicalmente eliminado é matar a própria democracia.


Laura de Mello e Souza poderia lançar uma continuação de "O Diabo e a Terra de Santa Cruz" - "O Diabo e a República Federativa do Brasil"...

Preferências políticas

Fascismo e comunismo são coisas de europeu. A América Latina gosta é de caudilhismo.
Todo o rigor que uso contra meu semelhante, cedo ou tarde, se volta contra mim mesmo.
"O Lula tá preso, babaca"* é uma frase sobre a qual tanto petistas quanto antipetistas deveriam meditar atentamente. Como dizia Carlos V, não se faz guerra aos mortos...

[*pérola de oratória da lavra de Cid Gomes durante o segundo turno das eleições]

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Sobre "vencedores" de debates

A qualidade dos argumentos sempre importa mais que os compromissos ideológicos de seu autor.

A honestidade intelectual - mercadoria tão escassa nos dias correntes - exige que eu reconheça os bons argumentos de meus "adversários" e os maus argumentos de meus "aliados". Esse é o caminho, necessariamente dialético, para a busca da verdade; fora disso, existe apenas o dúbio reinado das falácias, sofismas e eufemismos.

Aquele que deseja unicamente "vencer" debates - e duvido que alguém realmente vença debates - nunca chegará perto de qualquer verdade, até porque, no fundo, não se importa com verdade alguma.