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quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Humanos nascemos

 Humanos nascemos. 

Humanos crescemos. 

Humanos tentamos. 

 Humanos erramos. 

Humanos aprendemos. 

Humanos ofendemos. 

Humanos perdoamos. 

Humanos concordamos. 

Humanos discordamos. 

Humanos odiamos. 

Humanos matamos. 

Humanos guerreamos. 

Humanos destruímos. 

Humanos criamos. 

Humanos descobrimos. 

Humanos inventamos. 

Humanos exploramos. 

Humanos trabalhamos. 

Humanos cultivamos. 

Humanos sofremos. 

Humanos choramos. 

Humanos cuidamos. 

Humanos sorrimos. 

Humanos desistimos. 

Humanos fugimos. 

 Humanos resistimos. 

Humanos esperamos. 

Humanos persistimos. 

Humanos agimos. 

Humanos reagimos. 

Humanos mandamos. 

Humanos obedecemos. 

Humanos desobedecemos. 

Humanos sabemos. 

 Humanos ignoramos. 

Humanos mentimos. 

Humanos duvidamos. 

Humanos cremos. 

Humanos dormimos. 

Humanos sonhamos. 

Humanos despertamos. 

Humanos amamos. 

Humanos morremos. 

Humanos renascemos...? 

Humanos perguntamos. 

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Paulo Guedes e o "dilema liberal"

Inflação e hiper-inflação são fenômenos econômicos muito complexos, mas o Liberalismo ortodoxo se apega a explicações muito simplórias.

Segundo o catecismo do Liberalismo Econômico ortodoxo e, mais fortemente, do Neoliberalismo, a culpa da inflação costuma ser atribuída ao governo, especialmente pela emissão de moeda. A "mão invisível" do mercado, por outro lado, seria uma força inerentemente benigna, capaz de alcançar espontaneamente o "preço ótimo" dos produtos e serviços. Nessa visão simplista e reducionista, quase platônica, o Estado seria responsável por todas as mazelas econômicas, por impedir o Mercado de agir livremente.

Na vida real, no entanto, as coisas são muito mais complexas. Embora o Estado seja um agente econômico de imensa importância, há inúmeros outros agentes envolvidos sob o rótulo reificado de "Mercado" - bancos, indústria, comerciantes, agroprodutores, consumidores, entre outros. Parodiando Margaret Thatcher, "there is not such a thing as 'the market'".

No caso específico das dinâmicas inflacionárias, a emissão de moeda certamente pode ser um fator inflacionário, mas está longe de ser o único. A concessão desenfreada de crédito por instituições financeiras, flutuação cambial, bolhas especulativas e outros fatores, isoladamente ou em conjunto, podem contribuir para crises inflacionárias. 

No Brasil, atualmente, estamos vivendo um processo inflacionário agudo, que tem atingido principalmente (mas não apenas) o mercado de alimentos, vulnerabilizando as condições de subsistência dos setores de baixa renda da população brasileira.

Em boa medida isso se deve à desvalorização acentuada do Real no plano cambial, o que tem levado o agronegócio a preferir exportar produtos a abastecer o mercado interno, devido às perspectivas de lucro mais atraentes. Em outros países, especialmente na Europa, há mecanismos legais para impedir esse tipo de situação, visando a segurança alimentar da população. Aqui, tais mecanismos não existem. O abastecimento interno do Brasil depende majoritariamente dos interesses do "Mercado" - interesses fundamentalmente baseados no lucro, deixando considerações humanitárias à margem.

Em circunstâncias normais, boa parte dos economistas liberais brasileiros a essa altura explicaria os problemas recorrendo aos velhos chavões, possivelmente clamando por políticas de austeridade (a grande panaceia liberal nas últimas décadas).

A grande ironia é que agora temos  um ultraliberal ortodoxo como "superministro" da economia, seguindo rigorosamente as recomendações do liberalismo "de cartilha" -não há no momento emissão desenfreada de moeda, uma política de austeridade não- declarada vem sendo praticada e o "Mercado" tem sido beneficiado com todo tipo de desregulamentação ou, lembrando outro ministro, a boiada está passando furiosamente.

A presente situação brasileira é o retrato vivo da falência dos dogmas liberais e neoliberais. Ainda nos anos 90, o historiador liberal e brasilianista Thomas Skidmore afirmava que as elites econômicas brasileiras manuseiam um discurso liberal intelectualmente grosseiro, falacioso, simplório, caricato, ingênuo e, em última instância, deletério para a sociedade brasileira e para a própria economia. 

Uma elite econômica, ainda segundo Skidmore, que clama por medidas ultraliberais e depois reclama quando sofre as consequências das mesmas. A meu turno, acrescento que o povão (aí incluída boa parte da classe média supostamente instruída) aplaude esses discursos que mal compreende e depois sofre no bolso e na carne.

Em 2018 esse povão, incluindo os ignorantes diplomados, elegeu para presidente um sujeito que quase se orgulhava de não entender nada de economia e transferia toda responsabilidade ao guru Paulo Guedes, então apelidado de "Posto Ipiranga".

Guedes, cujas limitações intelectuais ficam patentes a cada vez que abre a boca, herdou de Dilma e Temer uma conjuntura econômica nacional e internacional absurdamente complexa e delicada que acreditava poder sanar aplicando rigorosamente uma cartilha ultraliberal rasteira, idealizada e completamente alienada da realidade.

Agora rei está nu - e só os inteligentes querem ver.



quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Olhar compassivo

Todos os dilemas sociais ganham dimensões e perspectivas inesperadas quando tentamos enxerga-los com olhos de compaixão. O exercício de imaginar-se no lugar do outro é essencial. 

É necessário ter alguma sim-patia para com todos: o bandido, o policial, o governo, a oposição, o trabalhador, o patrão, a mulher, o homem, o branco, o negro, o homossexual, o homofóbico, o conservador, o iconoclasta, o milionário, o mendigo, o crente, o descrente, o indiferente, o exaltado - cada qual com suas dores, aflições, perplexidades, pavores, angústias, desesperos, carências. 

O sofrimento não escolhe vítimas ou algozes, inocentes ou culpados, oprimidos ou opressores. Todos suam, todos sangram, todos choram. 

Há que se lastimar o linchamento do mendigo e o suicídio do milionário. Há que se chorar cada dor e acolher cada ferido. Há que se prantear especialmente as lágrimas ocultas, invisíveis, incompreensíveis, principalmente aquelas dissimuladas sob frívolos sorrisos. 

Viver fere, nada há mais humano que sofrer e nada nos desumaniza mais que a indiferença perante a dor. Existem misérias e miseráveis de formas variadas, nos lugares mais inesperados. A desventura possui muitas máscaras. Quanta dor cabe num belo dia ensolarado! 

Toda miséria pede misericórdia. 

Precisamos buscar o Eu no Tu, dizia um pensador - e todo Tu é um Eu que sofre. Nenhuma dor humana nos é estranha, mesmo que nos pareça absurda. Todos os sofrimentos são solidários, especialmente entre sofredores que se odeiam. 

Sem buscar compreender o sofrimento alheio, fica muito difícil encontrar soluções para os problemas que enfrentamos juntos.

Pietá, de Michelangelo (detalhe).



A Boa Notícia

Mais de meio milhão de brasileiros mortos. Alguns milhares de menores de idade órfãos. Um massacre que faz Canudos se apequenar. 

Quando penso em outros países, como a Coreia do Sul, que não chegou a três mil óbitos,  me bate um misto de revolta e tristeza por tanto sofrimento desnecessário. 

Mas a boa notícia é que, desde o início da pandemia, o Brasil  fez 40 novos bilionários...

terça-feira, 12 de outubro de 2021

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Zauberflöte

 Toda síntese envolve alguma medida de conciliação. Dialética é alquimia. Apenas ouvidos atentos conduzem a conflagrada orquestra à convergência sublimada. A flauta mágica aceita apenas o sopro do coração.



sexta-feira, 1 de outubro de 2021

"A bandeira é e sempre será do Brasil"

Belo relato do amigo Marcos Passini

- Papai, posso por essa bandeirinha no carro?

É uma bandeirinha do Brasil.

- Não, filho, é melhor não.

- Já sei, é porque todo mundo vai pensar que você é Bolsonaro, né?

Seis anos e já me pondo em saia justa. A resposta é "sim", mas não me entrego tão fácil:

- Não, filho, é porque faz muito barulho quando o carro anda (podia ter pensado numa melhor).

...

Dia seguinte:

- Papai, hoje posso por a bandeirinha?

De novo. A desculpa não colou. 

Quer saber?

- Pode, filho. É a bandeira do nosso país. Ponha onde quiser.

É a bandeira do país onde nasci e que, com todas as mazelas, aprendi a amar. Amar a sua cultura, seus costumes, sua arte, sua comida, essa imensa e bela terra que o compõe. E também seu povo, embora eu esteja um tanto magoado com ele desde 2018.

Então, se alguém me vir por aí com bandeira do Brasil, não se apresse a entender. E lembre que a bandeira é e sempre será do Brasil.



quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Ordem e caos

Algumas notas caoticamente ordenadas: 

-o caos faz parte da existência: não deve ser temido, mas aceito

-aquilo que parece caos muitas vezes é apenas uma ordem que não conseguimos compreender. Um cadáver em decomposição pode parecer desordem, mas a decomposição em si já é um tipo de ordem, inscrita na natureza desde tempos imemoriais.

-de si mesma, a ordem é neutra, apenas uma determinada disposição de coisas mutuamente relacionadas de determinada maneira. A ordem pode, muitas vezes, ser perversa e perversora. Escravidão, inquisição, nazismo, stalinismo não apenas eram ordenados, mas muito ordenados. A mera ordem não exclui a barbárie, e pode mesmo dar à barbárie um poder que o caos jamais lhe daria. Uma horda caótica costuma ser menos perigosa que um Estado genocida. O crime ORGANIZADO é, basicamente, um tipo de ordem.

-é fácil, demasiadamente fácil, perverter a ordem onde ela existe. Quanto mais rígida for essa ordem e mais dependentes dela forem seus integrantes, mais fácil se torna perverte-la. Quanto mais fortemente centralizada for a ordem, mais facilmente pervertida ela pode ser por aquele que venha a ocupar seu centro. Todo tirano almeja ser o centro de alguma ordem.

-é extraordinariamente fácil criar algum tipo de ordem social: basta certa truculência direcionada pela volúpia; tal gênero de ordem se baseia amplamente na heteronomia, secundada pela latente ameaça de coerção brutal; por outro lado, construir uma ordem fundamentada na autonomia de seus participantes exige laborioso cultivo de virtudes difíceis de compreender, adquirir e manter.

-toda ordem tirânica depende simbioticamente do caos, real ou fantasiado, para se manter; precisa ter ou inventar inimigos externos e internos que personifiquem o caos, tornando assim defensável e tolerável a própria ordem tirânica

-a ordem pode ser uma ilusão perigosa. Quanto mais complexas e, portanto, ordenadas, as coisas parecem, maior é sua fragilidade potencial. A estabilidade de um sistema qualquer costuma ser inversamente proporcional a sua aparência de solidez.



terça-feira, 28 de setembro de 2021

Eu, meu vizinho e o resto do Brasil

Meu vizinho de frente tem uma visão de mundo quase diametralmente oposta à minha. Nossos apartamentos, separados por menos de dois metros de corredor e com planta especular são quase como dois países diferentes.

Nosso convívio é distante e superficial, mas respeitoso e amável. Jamais tivemos qualquer tipo de altercação. Avalio, inclusive, que ele realizou uma excelente gestão como síndico, alguns anos atrás.  Em certa ocasião, nos unimos e mobilizamos para ajudar um terceiro vizinho que sofrera um acidente doméstico. Em um dos momentos mais dolorosos de minha vida, ele mobilizou membros de sua paróquia para orar por minha esposa e eu.

Somos pessoas muito diferentes, mas não inimigos. A bem dizer, no que tange ao nosso condomínio,  nossos pontos de vista tendem a convergir.

Afinal de contas, somos diferentes, mas não fundalmentalmente diferentes. No fundo, queremos ambos paz, sossego e prosperidade para nossas respectivas famílias. Um teto sobre a cabeça, emprego, comida na mesa, segurança em nossas ruas - em suma, condições dignas de viver. Nossas divergências, a bem dizer, se situam mais acerca dos meios que dos fins.

O mundo ideal para mim certamente seria um inferno para ele - e vice-versa. Mas o mundo não precisa - e nunca será - o ideal para nenhum de nós. Nenhum. Nem para mim, nem para meu vizinho, nem para todo o povo brasilero, muito menos para toda espécie humana. 

Todavia, dentro de nossas divergências, quero crer que nós dois, como todo o povo brasileiro, como toda a humanidade, precisamos abrir mão de nossos mundinhos idealizados e pisar firme no chão do mundo real.

Precisamos nos unir para construir o melhor Brasil POSSÍVEL. Um país minimamente aceitável para todos nós. Um Brasil possível, não um Brasil ideal. Um Brasil onde nossas famílias possam ter paz, sossego e prosperidade, como tanto almejamos. 

A política democrática, "arte do possível", deveria viabilizar isso. Mas, para tanto, é essencial que eu veja meu vizinho como concidadão, não como inimigo. Precisamos reconhecer e aceitar nossas divergências para buscar pacificamente e serenamente nossos pontos de convergência. 

E é exatamente o oposto disso que nós, brasileiros, temos feito ao longo dos últimos anos. Afinal de contas, é muito mais fácil, simples e emocionalmente confortável rotularmos uns aos outros e rompermos todas linhas possíveis de diálogo. Costuma ser mais fácil erguer muralhas no terreno aparentemente sólido de nossas certezas individuais que construir pontes sobre a água, sempre movente, imprevisível, traiçoeira. A solidez, ainda que aparente, nos traz conforto; a fluidez, impetuosa, incontrolável, nos deixa apreensivos, incertos de nós mesmos. 

É necessária boa dose de coragem moral para abrirmos nossas mentes e dialogar. Mas é imperativo abandonar nossas armas e couraças para isso. E cabe a mim a iniciativa de abandonar minhas defesas, se eu quero sinceramente que meu vizinho também abandone as suas. Cabe a cada um de nós romper o círculo vicioso de ofensas e retaliações que tem envenenado o ambiente político de nosso país.

Nenhum de nós é perfeito. Cada um de nós, em alguma medida é responsável pelo cultivo de animosidades e antagonismos que nos trouxe a essa situação insuportável. Cada a um de nós, a seu modo muito peculiar, é parte do problema. Precisamos refletir sobre nós mesmos e mudar algumas de nossas atitudes para que nos tornemos parte da solução. "O Inferno são os outros", mas todos nós somos o outro de alguém. 

Se há nobreza em acreditarmos em nossos ideais, há ainda maior nobreza (e realismo) em compreender que precisamos abrir mão de parte deles para construir uma sociedade um pouco melhor. Um pouco melhor para mim, mas também para meu vizinho. Às vezes, é melhor ser gentil que "vencer" um debate à custa da gentileza. Se a única maneira que encontro para afirmar meu ponto de vista é hostilizando o outro, minha causa já está perdida, pois a hostilidade fecha ouvidos, corações e mentes.

Palavras virulentas e discursos apaixonados são ótimos para políticos que buscam votos a qualquer custo, mas são péssimos para nossas relações cotidianas. E é justamente nas esferas de convívio cotidiano que podemos e precisamos cultivar o diálogo saudável, sem o qual a democracia definha e se desfigura, tomando ares de uma guerra mental que a cada dia nos desgasta emocionalmente e intoxica nossa existência. 

Queremos todos viver em paz com nossos vizinhos - e todo mundo é vizinho de alguém. 



segunda-feira, 27 de setembro de 2021

O declínio de Cosme e Damião?

Tendo a pensar que a distribuição de doces de Cosme e Damião pode se extinguir, pelo próprio desinteresse dos católicos. 

Em minha família, todos que ofereciam doce já morreram ou, pela idade, não distribuem mais. Os católicos mais jovens não se interessam pela prática - o próprio hábito da promessa, em sentido geral, parece estar desaparecendo do catolicismo popular. Em certo sentido, a dinâmica psicológica subjacente à promessa tem migrado do catolicismo para o neopentecostalismo, embora sob expressões religiosas distintas, desta vez de inspiração veterotestamentária ("jejum de Daniel", vigílias, "subir o monte", entre outras). 

De todo modo, puxando pela memória, no meu círculo familiar havia seis pessoas ou casais que distribuíam doces. Desses, quatro morreram e duas não o fazem mais - de seis para zero. Uma mudança quantitativa drástica que,  penso eu, reflete um quadro social mais amplo. 

Avanço a hipótese de que, hoje, a prática ainda se mantém viva sobretudo entre praticantes de religiões afrobrasileiras - afinal de contas, a festa sempre teve forte conotação "afrocatólica".

Vale ainda lembrar que a própria festa sofreu muitas transformações ao longo do século XX, ao menos nos subúrbios cariocas. As mesas de doces nas residências particulares momentaneamente abertas para estranhos gradativamente perdeu espaço para os saquinhos de doces embalados para viagem e os próprios doces caseiros foram sendo substituídos por guloseimas industrializadas, normalmente adquiridas em comércio atacadista. Os banquetes comunitários também foram se tornando menos comuns, de certo modo "migrando" para as feijoadas de São Jorge. 

Curiosamente, a devoção por Ogum-São Jorge tem crescido nas últimas décadas, enquanto a festa de Cosme e Damião parece minguar.

Mudanças culturais entre gerações, o ritmo cada vez mais acelerado da vida urbana, permutas simbólicas no campo da própria religiosidade, tudo parece contribuir para o deslocamento da Festa de Cosme e Damião enquanto prática social - ainda que não necessariamente à sua extinção. 

Em certo sentido me lembra as reflexões de Peter Burke sobre o "triunfo da quaresma" na Idade Moderna; a religiosidade e a cultura popular sempre se transformam, às vezes drasticamente, em períodos de intensas mudanças sociais. 

Damião, Cosme e Doces

Observações do historiador Fred Oliveira

Hoje, aqui pelo Rio, devido à recusa e grosseria de algumas pessoas (geralmente evangélicas), as pessoas (geralmente católicas) que distribuem doces de Cosme e Damião chegam cada vez mais acanhadas para perguntar se alguém teria interesse em receber um saquinho de guloseimas... 

Até os anos 90 a data ainda produzia um alvoroço, se distribuindo doces e sorrisos entre todos. Era uma felicidade, e mesmo quem não queria (por crença ou gosto diferente) não demonstrava desagrado, levando numa boa, mesmo sem aceitar o doce oferecido, a farra daquela festiva e popular tradição. 

Porém de lá pra cá algo mudou na nossa sociabilidade... 

Atualmente (e já vi ocorrer) algumas pessoas fazem questão de reclamar do oferecimento do pacotinho de doces e outros mesmo falam contra aquela fé... Infelizmente católicos também tratam evangélicos de modo desrespeitoso em relação a outras questões. 

Por causa dessa luta de vetos, ainda se diluirão muitas práticas do costume!



sábado, 25 de setembro de 2021

Sobre a "ocupação" da BOVESPA pelo MTST

Essa semana o MTST "ocupou" a BOVESPA em protesto contra o desemprego, a carestia, a miséria e as profundas desigualdades sociais no Brasil. Segundo as lideranças do movimento, seria uma maneira de fazer ouvir a voz do povo no maior reduto de especuladores financeiros e rentistas no Brasil. Houve quem saudasse o acontecimento como a irrupção do "Brasil Real" na fortaleza da alta finança - óbvio exagero triunfalista.

Não sou contra o protesto, em si, mas não sei se o timing foi bom. Justamente em um momento em que várias entidades ligadas ao mercado estão se manifestando pela democracia e contra Bolsonaro, acho que não foi o instante mais oportuno. Prioridades precisam ser pensadas de acordo com as circunstâncias. Cultivar antagonismos nunca é bom e, em um contexto de acentuada tensão social, pouco contribui para a superação da crise que vivemos. 

Qualquer ação pública precisa ser pensada em termos do impacto intentado. Atos que pregam aos convertidos e geram ruído para com os que estão "de fora" só agravam o isolamento político da esquerda em um momento em que se faz essencial construir pontes.

Há que se levar em conta que vivemos em um país de mentalidade muito conservadora (mais no sentido social que político) e há muita gente apavorada com o "bicho-papão" do comunismo. Não faltou quem, nas redes sociais, identificasse o MTST como "braço terrorista" (sic) do PSOL. 

Vivemos em uma sociedade em que políticos de extrema-direita podem vociferar as piores grosserias e barbaridades sem causar grande comoção, mas em que um protesto pacífico por parte da esquerda logo ganha ares de "ato terrorista". Essa falta de critério - ou melhor, esse critério distorcido - é certamente lamentável, mas é um dado cultural de nossa sociedade com o qual se faz necessário lidar com ponderação e sobriedade.

Esse tipo de protesto satisfaz certo público de esquerda, mas não contribui para um diálogo mais amplo com outros setores da sociedade brasileira - setores muitas vezes desdenhados como "pobre de direita", "classe mérdia" e por aí vai. 

É o eterno problema de boa parte da esquerda brasileira, que se preocupa mais com a perpetuação de uma estética supostamente revolucionária que com a viabilização de programas políticos.

Guilherme Boulos, liderança mais destacada do MTST, me parece um sujeito bem-intencionado, bem articulado, mas muito dado a exageros retóricos que me soam contraproducentes. Alguém que chegou ao segundo turno nas eleições para prefeito da maior cidade do Hemisfério Sul precisa ser mais cuidadoso em suas estratégias de comunicação com o público. Para bem ou para mal, Boulos conquistou uma posição de grande visibilidade na política nacional, e é de se esperar que adquira mais sagacidade política do que tem demonstrado até agora. 

A esquerda brasileira, definitivamente, precisa abandonar a mentalidade de DCE para encontrar meios mais amplos de diálogo com a sociedade brasileira, em toda sua complexidade. O Brasil não se reduz a hashtags e slogans.

Cada vez que alguém usa o termo "burguesia" morre uma fada...



sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Monstruosos moralismos

Eis agora um paladino da moral e dos bons costumes que estupra a neta - depois de outra que matou o próprio marido e um terceiro que espancou uma criança até a morte. "Tutti buona gente".

A pretexto de salvar a "família tradicional brasileira", combater "a roubalheira do PT" e deter "a ameaça comunista", colocamos no poder sociopatas hipócritas da pior índole possível - afinal de contas, "happiness is a warm gun".

Me sinto cada vez mais desgostoso e enojado dessa sociedade cínica, ignorante, grotesca, fanfarrona, delirante, idólatra, fanática e farisaica, "temente a Deus", mas abraçada com o que há de mais diabólico e sinistro - "dragões vomitados do Inferno", para citar os versos de Anchieta.

A caixa de Pandora está aberta e seus horrores não param de sair. O fundo do poço é a última esperança - se fundo houver. 

O cinismo por aqui é tamanho que Medusa admira orgulhosa seu próprio reflexo, moralmente incapaz do pudor da petrificação.



quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Para que servem as estatísticas?

O texto abaixo resulta de uma discussão virtual acerca das supostas tendências ideológicas e preferências políticas dos professores de Humanidades, mas trata mais amplamente da importância das estatísticas (bem como de seus limites) para a compreensão de fenômenos sociais em macroescala. Como estou longe de ser um especialista no assunto, espero que os leitotes tenham isso em mente - e, caso possivel, me sinalizem equívocos implorando por correção. Vale ressaltar ainda que, por se tratar de adaptação de conversa informal, há algumas digressões um tanto pitorescas; o mesmo vale para o uso excessivo da primeira pessoa.


A realidade é opaca para qualquer um de nós. Todos trabalhamos com percepções impressionistas de onde olhamos a realidade. Nenhum ser humano é capaz de ter uma perspectiva total da realidade, como salientava Leibniz (co-criador do Cálculo "newtoniano").


Qualquer espaço amostral é suscetível a falhas, por maior que seja. Isso vale tanto para pesquisas de opinião quanto experimentos de laboratório. É por isso que pesquisadores de ciências naturais geralmente realizam milhares e milhares de vezes o mesmo experimento e, mesmo assim, surgem os famosos "pontos fora da curva", que geralmente correspondem a ocasiões em que algo "deu errado" - uma distração do experimentador, uma falha boba na aparelhagem etc. Um experimento realizado apenas 100 ou 200 vezes tem margem de erro astronômica.


Outro detalhe importante é a POSSIBILIDADE de repetir experimentos, como salientava o hoje pouco lembrado Jean Piaget. Há muitos ramos das ciências naturais que não têm como repetir experimentos. É o caso da meteorologia, da astronomia, astrofísica, etologia etc etc etc. São ciências de observação. Um exemplo: quem estuda predadores em ambiente natural tem raras oportunidades de presenciar um "evento de predação". O que se faz, geralmente, é localizar carcaças de presas, pegadas frescas que indiquem uma perseguição recente (que muitas vezes não resulta em abate), ou fezes do predador - onde se encontram pelos, penas ou indícios microscópicos que permitam identificar quem-comeu-o-que-e-quanto. Obviamente precisa-se de milhares de amostras fecais para ter um panorama acurado da coisa. Da mesma forma, há efemérides astronômicas comuns, frequentes e até previsíveis e outras raríssimas, como supernovas (lembrando que só "vemos" supernovas milhares de anos depois que elas ocorreram).


O mesmo se aplica a fenômenos sociais. Há aqueles corriqueiros e REGISTRADOS, como nascimentos, óbitos, casamentos, divórcios, campeonatos esportivos, eleições e outros relativamente raros, como revoluções, golpes de estado etc.


Mesmo fenômenos comuns são difíceis de analisar. Por exemplo, hoje, na Europa e nas Américas, em média, a duração dos casamentos tem se mantido num patamar inferior a 10 anos. Daí podemos inferir que os casamentos estão cada vez mais curtos - mas apenas na média. Digamos, por exemplo, que um país tenha uma média corrente de 5 anos. Isso não significa que a maioria dos casamentos dura 5 anos; significa que a maioria dura bem menos. Para um casamento de dez anos, há cinco de dois anos; para um de 20 anos, há outros 20 de apenas um; para um de 40, há 80 de seis meses. Ou seja, a média nos induz a uma conclusão tremendamente equivocada. A maioria dos casamentos dura bem menos que 5 anos; uma minoria fica bem acima dos 5. Na prática, a média corresponde a uns poucos casos reais que ficam acima da maioria e muito abaixo de uma minoria.


Isso nos leva à questão da modelagem estatística. O método mais comumente empregado é a um tanto grosseira estatística gaussiana, baseada literalmente em arremessos aleatórios de moedas (foi o modelo adotado por seu criador, Gauss, no século XVII). Aperfeiçoamentos foram surgindo nos séculos seguintes, majoritariamente baseados em jogos de azar - rolamento de dados, embaralhamento de cartas, lances de roleta etc. Diga-se de passagem, essa matemática bastante simples era geralmente produzida por aristocratas ociosos interessados em ganhar apostas em cassinos e mesas de carteado, e não por aristocratas e clérigos ociosos interessados em desvendar os mistérios do universo, como Newton ou Bayes. 


Mas justamente por ser simplória, é uma metodologia sedutora. Não exige muito esforço mental. Dependendo do caso, são contas que qualquer um faz de cabeça - afinal de contas, ninguém pode se dar ao luxo de resolver equações complexas durante uma partida de carteado.  A aplicação indiscriminada da estatística gaussiana é o que Nassim Taleb chama de "falácia lúdica", pois jogos são universos fechados, com começo, meio, fim e resultado claramente definidos. A realidade NÃO é um tabuleiro de xadrez ou um baralho com 52 cartas. A abordagem gaussiana realmente funciona para jogos (há alguns anos criei um modelo gaussiano que uso em partidas de War e funciona razoavelmente), mas jamais serviria para planejar estratégia em uma guerra de verdade. Para isso, é melhor ler Clausewitz (a obra de Sun Tzu, diga-se de passagem, é antiquada e um tanto banal, boa para executivos metidos a general de pijama). Note-se que, a rigor, jogos como xadrez ou War, por fascinantes que sejam, sequer são realmente jogos de estratégia - a rigor, são jogos de tática, segundo a classificação, ainda válida, de Clausewitz. E mesmo Clausewitz, que viveu e escreveu na virada do século XIX, já é antiquado - suas reflexões tomavam por modelo as Guerras Napoleônicas. E, como se sabe, a diferença entre tática e estratégia é que a primeira se se refere a situações em que os oponentes têm à vista as respectivas forças (ou seja, onde a totalidade ou maioria dos dados relevante é conhecida - como em um tabuleiro de xadrez), enquanto a última diz respeito a situações em que os oponentes desconhecem o conjunto das forças e recursos envolvidos, ocultos na tal "névoa da guerra", como diz Clausewitz. Mesmo em jogos de carteado, onde os adversários podem ocultar seus recursos, o número e tipo de cartas que cada um pode ter na mão é limitado e previamente conhecido pelos jogadores, constituindo assim um "desconhecido-conhecido".


Retornando à estatística gaussiana, ela se popularizou imensamente no século XIX e ainda é usada por muitos pesquisadores nas ciências biológicas, assim como em economia, administração, "negócios" etc. Vale notar que, a rigor, a metodologia gaussiana não é totalmente inválida, contanto que seja aplicada apenas a objetos de estudo e conjuntos de dados tratáveis por ela, ou seja, dados que não envolvam variação radical - como altura ou peso de indivíduos, por exemplo; nenhum pesquisador espera encontrar um indivíduo de 15 metros em uma população humana. O grande problema é que ela vem sendo usada de maneira generalizada e indiscriminada, com efeitos muitas vezes desastroso, especialmente na área econômica, onde são possíveis variações extremas - como restaurantes de bairro e grandes franquias mundiais com milhares de unidades, embora em ambos casos se opere no setor de alimentação.


Voltando à questão da duração dos casamentos, outra modelagem estatística seria no campo da "aleatoriedade mandelbrotiana", que comporta inúmeras metodologias, baseadas na "lei de potências" - ou seja, distribuição exponencial. Mandelbrot, como se sabe, é o "pai" da matemática de fractais, ligada ao campo da dita "matemática do caos".


O ideal seria usar um gráfico de colunas, mas vou usar uma imagem mais "palpável". Se em nosso hipotético país cada casamento fosse uma edificação em uma cidade, teríamos milhões de casas térreas, um pouco menos de prédios de dois andares, bem menos com três ou quatro e ainda menos com cinco andares (a tal "média" gaussiana) e então um número cada vez menor de prédios com 6 ou mais andares, talvez um milhão com dez, meio milhão com 20, e, numa queda brusca, umas poucas centenas de prédios com mais de 20 andares. Ou, para usar outra imagem, seria como uma escada com muitos degraus extremanente longos e baixos e poucos degraus curtinhos, mas extremamente altos (10, 20, 30 ou 40 vezes mais altos que os demais).


Aqui já resolvemos parte do problema. Toda média é uma abstração que não retrata fielmente a realidade. Médias são úteis para cálculos simples e grosseiros, mas falham miseravelmente quando se trata de captar a complexidade do real. Isso significa que é ABSURDO falar em "brasileiro médio", "americano médio", "evangélico médio" ou coisas assim. O "fulano médio" é uma abstração matemática. 


Não existe algo como o "professor de História médio", "o professor de humanas médio" ou o "acadêmico médio". Esse tipo de absurdo só existe na cabeça de "cientistas" políticos - como se política fosse "ciência". Ou de economistas, analistas de mercado, sociólogos e outros compradores da "falácia lúdica". Ressalto, todavia, que em todos esses campos há profissionais competentes e talentosos, muitas vezes marginalizados pelos pares, especialmente em áreas que adotam certa "ortodoxia", como é o caso da Economia.


Agora temos outro problema: escalas.


Escalas são algo completamente contraintuitivo, pois somos quase todos criaturinhas com menos de dois metros de altura num planeta cujo ponto mais alto é o Everest. Só conseguimos enxergar o Everest inteiro a muitos quilômetros de distância - aí perdemos os detalhes. Para ver os detalhes precisamos escalar o Everest (e aí não o vemos inteiro) ou usamos um bom telescópio refrator (e também perdemos de vista o Everest inteiro). Falo com conhecimento de causa, pois tenho alguma prática como astrônomo amador. 


Já tive um telescópio refrator razoável e com ele dava para ver até rochas lunares e mesmos distinguir a sombra projetada por elas. Mas há aqui dois problemas. Um deles é que a rocha é tão pequena e a lua tão grande que fica MUITO difícil saber exatamente em que ponto da lua está a rocha avistada. O outro problema é que o sujeito e o objeto estão simultaneamente em movimento. Eu, minha cadeira e meu telescópio estamos acompanhando a rotação terrestre, enquanto a rocha segue a translação lunar, ambas trajetórias a milhares de quilômetros por segundo!


Na prática de observação, o que vejo através de minha lente ocular é uma faixa de paisagem lunar desfilando por alguns minutos até que a lua suma de vista do telescópio, como se fosse uma tomada panorâmica de cinema. Mas na verdade é muito mais complicado que isso. Como sei que minha observação da lua durará pouquíssimo tempo, tenho que saber EXATAMENTE onde fica o pólo sul da esfera celestial (levei meses para descobrir: fica  cerca de 30 graus acima do telhado da casa de meu vizinho), traçar com antecedência uma estimativa da trajetória lunar, calibrar meu telescópio em um ponto específico da trajetória estimada e aguardar cerca de 15 minutos olhando para o vácuo. Se acertei na estimativa, a lua aparecerá por uns dois minutos na minha lente e  - puf! - desaparecerá dois minutos depois. Se errei, tenho que recomeçar tudo do zero. 


Parece tedioso, mas é emocionante como um safári. Fica mais fácil quando se tem um telescópio com tripé de montagem equatorial (melhor ainda com rotação automática), mas é caro. Para o astrônomo pobretão (como eu), o mais barato é um tripé zenital, que dificulta a tarefa. Não que a montagem zenital seja "pior" - ambas são boas, dependendo do que se queira observar. O ideal é ter mais de dois tripés, com montagens e mecanismos diferentes.


Voltando às escalas de observação, nossas  noções costumam ser muito toscas, pois somos algo como micróbios cósmicos, como diria Dr. Manhattan. Geralmente pensamos a diferença entre a Terra e Júpiter como algo como uma bola de futebol ao lado de uma bola de tênis - grave equívoco. A proporção mais adequada é algo como a Terra do tamanho de uma bola de gude e Júpiter como aquelas bolas gigantes do Quico. Comparado ao Sol, Júpiter é como um grão de areia ao lado da bola do Quico e a Terra seria virtualmente invisível.


Um hipotético astrônomo alienígena em Alfa Centauri, usando os mais avançados equipamentos astronômicos que temos hoje teria dificuldade para detectar, a Terra mesmo com um poderosíssimo radiotelescópio. Note-se bem, trata-se aqui de DETECTAR (não "ver") por métodos indiretos como anomalia gravitacional ou desvio de ondas, usando toneladas de cálculos astronômicos. E ainda restaria a dúvida: "isso é MESMO um planeta ou será outra coisa?"


"Observar" estatisticamente fenômenos sociais - como as inclinações políticas dos professores de História - é tão complicado quanto "caçar" a Lua com um telescópio refletor de montagem zenital. É mais como observar uma supernova ocorrida há milhares de anos com um radiotelescópio.


Primeiramente, pela escala. 18 professores de História, ou 100, ou dez mil são uma amostragem estatisticamente irrelevante. Não dá para fazer isso com uma pesquisa de opinião ou, digamos, contando quantos professores de História seguem Marcelo Freixo no Twitter, nem quantas pessoas seguem a página "Professores de História Marxistas e Militantes" no Facebook, muito menos lendo os comentários que essas pessoas postam ou números de curtidas. Todos esses dados são  qualitativamente interessantes, mas muito limitados e dificilmente pode-se extrapolar que representem fielmente as tendências políticas da maioria dos professores. Ainda estamos presos na perspectiva limitada apontada por Leibniz. Mesmo admitindo que a maioria dos professores se alinhem genericamente com posições políticas consideradas de "esquerda", é muito difícil inferir detalhes de sua adesão a esse campo político, com toda sua variação de qualidade e intensidade. Não se trata de uma população homogênea em que todos partilhem uniformemente das mesmas opiniões gerais e, muito menos, que venham a adotar atitudes idênticas diante de situações e questões específicas. Ainda que se chegasse a uma "média", como discutido antes, essa média, necessariamente abstrata, corresponderia a apenas uma parcela relativamente pequena do conjunto de pessoas reais envolvidas. A bem dizer, se pegássemos aleatoriamente algumas postagens em redes sociais, seria fácil constatar que há grande variedade e discordância entre os membros do grupo em questão.


Em segundo lugar, porque estatísticas consolidadas de fenômenos sociais macro são muito demoradas de coletar e calcular, então o resultado é sempre retrospectivo. Por exemplo, a mídia fala o tempo todo em PIB anual ou PIB trimestral, mas estes dados são apenas provisórios. O cálculo consolidado do PIB  geralmente leva cerca de 5 a 7 anos, então, quando sai, os governantes já não estão mais no poder. Mesmo o resultado consolidado não é "real", só é menos grosseiro. E o detalhe mais importante: entre a estimativa provisória divulgada na mídia e o resultado consolidado a discrepância sempre é enorme (algo na casa dos 30%) e SEMPRE para baixo. Ou seja, o PIB veiculado na mídia sempre é desviado para cima. Se parece maravilhoso é, na melhor das hipóteses, bom; se parece ruim, é péssimo - e se parece péssimo, na realidade, é o fundo do poço.


Para ter uma ideia realmente precisa acerca das inclinações políticas dos professores de História, teríamos que fazer um levantamento exaustivo - um recenseamento oficial ou algo assim. 


Como? O Ministério da Educação poderia abrir um site com um formulário declaratório. Não adiantaria para grande coisa, porque dificilmente alguém se declararia "extremista", já que todo extremista se considera sensato e moderado. O ideal seria um questionário discursivo - inviável, pois seria caríssimo e extraordinariamente demorado fazer algo assim. Restaria fazer um questionário de múltipla escolha. Mas, discursivo ou objetivo, qualquer questionário seria subjetivo - o resultado refletiria apenas os critérios previamente adotados pelos elaboradores do questionário. E, ainda assim, quando todo o trabalho de coleta e análise dos dados fosse concluído, é provável que os professores em questão já teriam mudado suas opiniões, ainda que sutilmente. Muito trabalho e dinheiro gastos para nada.


CONCLUSÃO

De um ponto de vista "empírico cético", é IMPOSSÍVEL ter certezas sobre as tendências políticas do conjunto dos professores de História, professores de humanas, dos acadêmicos de humanas ou o que o valha. O máximo que podemos ter é suspeitas, impressões e opiniões - "achismos", enfim. Mesmo uma ampla pesquisa estatística ofereceria apenas um vago retrato da realidade. Ficar discutindo isso não leva a lugar nenhum. É como um cachorro correndo atrás do rabo.


O melhor que podemos fazer é conviver com a incerteza - o que é incômodo. Como prova o sério, premiadíssimo e justamente reconhecido trabalho de Daniel Kahneman em psicologia experimental, o ser humano, mesmo com a mais refinada erudição e ampla formação acadêmica (o público estudado por Kahneman), tem imensa dificuldade em conviver com a incerteza prolongada. Temos, todos nós, gatilhos emocionais que nos induzem a escolher imediatamente as "certezas" que confirmem nossa visão de mundo, mesmo em questões triviais do cotidiano. Somos escravos de nossos hábitos. 


E a convicção costuma ser inversamente proporcional à reflexão. Nos deixamos guiar principalmente por nossas simpatias e antipatias inconscientes. O contrário disso exige um esforço prolongado de suspensão da certeza, cujo custo emocional costuma ser exasperante para a maioria de nós. No fundo, é basicamente o que Montaigne, La Boétie e Pascal já diziam séculos atrás. Traduzindo grosseiramente Pascal, "o ser humano é um graveto pensante".


Como "graveto pensante", me resigno à incerteza sobre este, como tantos outros assuntos. Minha única certeza absoluta e inegociável quanto a este mundo é que, a longo prazo, todos estaremos mortos. No que tange ao resto, tento sempre permanecer aberto a novos olhares e perspectivas, me dando ao luxo de não ter opiniões formadas sobre inúmeros assuntos.


No que concerne às estatísticas, elas constituem uma ferramenta extremamente válida para a abordagem de fenômenos sociais em escala macro - contanto que tenhamos plena consciência das limitações dessa ferramenta. Não se trata de acreditar ou deixar de acreditar em estatísticas, mas sim de compreender a natureza das diferentes metodologias e abordagens estatísticas e de sua aplicação adequada ao conjunto de dados por estudar.


Ao contrário do que pensava o Chaves do 8, nem tudo é "culpa das estatísticas"... Ou, como dizia certo matemático, os números não mentem, mas os seres humanos usam números para mentir.


Vale lembrar a piada: havia dois homens e um frango assado. Um deles comeu o frango inteiro e, depois, usando estatísticas, convenceu o outro de que ambos haviam comido meio frango...