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sábado, 6 de outubro de 2018

Pessoas fascinantes e sofridas

-Oi, amigo, você gosta de piada? - me perguntou um morador de rua, quando eu passava.

Tenho costume de falar com moradores de rua, quando não me parecem perigosos. A pergunta era tão atípica que achei que tinha ouvido mal:

-O que o senhor disse?
-Perguntei se você gosta de piada.
-Sim, gosto.
-Então escolhe aí um livro e leva, de presente, tô te dando.

No banco, ao lado, havia uma pilha de surrados livros de piadas. Como recusar presente é desfeita, escolhi um livro do "Casseta & Planeta".

Conversando, ele contou que é técnico em enfermagem formado, mas o desemprego prolongado o forçou a morar na rua. Hoje ele é catador de lixo. Me disse que sempre adorou ler, e guarda todos os livros que encontra pelo lixo. Ao seu lado, havia um grande saco de plástico bem grosso e uma pasta "de carteiro", ambos repletos de livros. Explicou que quando sua biblioteca fica pesada demais para transportar em seu nomadismo urbano ele oferece alguns de presente aos passantes.

Nas horas de tristeza lê a Bíblia ou então livros de humor, para dar boas gargalhadas. Me contou uma piada que lera na véspera. Rimos juntos.

Ao me despedir, rogou que não jogasse o livro fora, que o guardasse como lembrança: "pra quando você pegar esse livro, dizer: 'ih, foi aquele neguinho que me deu esse livro'".

Nos despedimos com um aperto de mão. Virando a esquina, derramei lágrimas de gratidão ao universo por esse inusitado e tocante encontro.

Esse mundo está cheio de gente fascinante e sofrida - que Deus o abençoe!


A cartada petista

A nova cartada da militância petista é dizer que virar voto do Haddad pro Ciro é "divisivo" e elegerá Bolsonaro no 1º turno. Ora, bolas, para vencer no 1º turno, Bolsonaro precisaria ter garantidos pelo menos metade dos votos. Se assim for, tanto faz votar 12 ou 13. Conquanto migrem entre outros candidatos, os votos não elegem Bolsonaro no 1º turno. 

O que está realmente em jogo é o medo do PT não ir para o segundo turno. 

É o mesmo jogo sujo que eles fizeram contra a Marina em 2014, investindo no medo e na polarização contra o PSDB. Repito: votar no Haddad agora é entregar o 2o turno à paixão antipetista e uma vitória tranquila a Bolsonaro. Ainda em 2016 vimos a força do antipetismo nas eleições municipais. O próprio Haddad foi atingido por esse fenômeno em São Paulo. Não nos deixemos fazer mais uma vez reféns da retórica petista do medo. 

É triste ver agora o PT fazendo o papel de Regina Duarte...

Antes que vire crime

Um amigo mais velho que eu, cujo pai foi preso na Ditadura por escrever o que pensava, me contou que mal tem dormido nas últimas noites, com pesadelos sobre suas memórias do pai encarcerado. 

Triste demais. Escrevo isso com lágrimas nos olhos. 

Me lembra também uma outra história, sobre um amigo de minha mãe, que era militar: dizia ele que um dos momentos mais tristes de sua vida foi quando teve de conduzir Ziraldo para prestar depoimento. O cartunista, culpado do grave crime de desenhar, atendeu a porta de pijama. Dizia ele que diante do cartunista vulnerável, inofensivo, desarmado, se sentiu um lixo. 

Escreva, desenhe, pense. Enquanto pode. Antes que volte a ser crime.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

"O problema é que o pessoal que veio colonizar o Brasil era envolvido com política".
Ouvi por aí...

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Acabei de ver uma pessoa citando GANDHI para justificar voto em Bolsonaro. Gandhi! Devo estar com alucinações. Vou dormir.

"Eu sou fascista"

"Meu nome é Adam Susan. Eu sou o líder.

Líder dos perdidos. Governante das ruínas.

Eu sou um homem como qualquer outro.

Eu conduzo o país que amo para fora da desolação do século vinte. Acredito na sobrevivência. No destino da raça nórdica. Eu acredito no fascismo.

Oh, sim. Eu sou fascista. O que é fascismo? Uma palavra. Um termo cujo significado se perdeu no resmungo dos fracos e traidores.

Os romanos inventaram o fascismo. Um feixe de gravetos era seu símbolo.

Um graveto sozinho podia ser partido. O feixe resistiria. Fascismo... Força da União.

Eu acredito na força. Eu acredito na união.

E se a força, a união de propósitos, exige uniformidade de pensamentos, palavras e feitos, que assim seja.

Eu não ouvirei súplicas por liberdade. Sou surdo aos apelos por direitos civis. Eles são luxos. Eu não acredito em luxos.

A guerra escorraçou os luxos. A guerra escorraçou a liberdade.

A única liberdade que resta ao povo é passar fome. A liberdade de morrer... de viver num mundo caótico.

Devo conceder a eles tal liberdade?

Creio que não.

Reservo a mim a liberdade que nego aos outros? Não. Eu me restrinjo à minha cela e sou apenas um servo. Eu, que sou mestre de tudo que posso ver.

Eu vejo a desolação. Contemplo as cinzas. Possuo tanto e tenho tão pouco.

Eu não sou amado, nem de corpo nem de alma. Jamais conheci o murmúrio da ternura. Nunca senti a paz que reside por entre as coxas de uma mulher.

Mas eu sou respeitado. Sou temido. E isso é o bastante..."

Monólogo mental do personagem Adam Susan, da ficção distópica V de Vingança, de Alan Moore e David LLoyd - originalmente publicada em 1981, no Reino Unido, mas sinistramente atual...


Eis que um aluno me entrega um trabalho com diversas cópias toscas da minha rubrica feitas na margem, a lápis. Temos um falsário em formação?

domingo, 30 de setembro de 2018

Alternativa final: Ciro

Desde ANTES do atual processo eleitoral, uma coisa estava muito clara para mim: a pior alternativa para o Brasil nessas eleições seria Bolsonaro; a segunda pior alternativa seria um QUINTO mandato do PT (com Lula, Haddad ou quem quer que fosse).

Minha única certeza desde o princípio era que, no segundo turno, votaria em QUALQUER UM contra Bolsonaro - é imprescindível para a República e a Democracia manter esse homem longe da Presidência.

De resto, não gosto de nenhum dos candidatos disponíveis nessa eleição presidencial, então meu voto fatalmente iria para o "menos pior".

Para todos os efeitos, minhas cartas para o primeiro turno eram Ciro, Marina ou Nulo. Após longa avaliação, cheguei à conclusão que Marina seria a alternativa "menos pior" - infelizmente, as chances de Marina passar para o segundo turno parecem cada vez mais remotas.

Assim sendo, resta-me uma última alternativa VIÁVEL: votar em Ciro, na esperança de tirar Haddad ou (com muita sorte) Bolsonaro do segundo turno.

Tenho muitas ressalvas quanto a Ciro, mas ao menos ele tem um programa de governo consistente e vasta experiência política, inclusive no Executivo. Voto com pouco entusiasmo, mas me parece o menor dos males.

CONCLUSÃO: No primeiro turno, voto em Ciro; no segundo turno, voto em qualquer um contra o Bolsonaro - até no Haddad, se necessário for.


Haddad - Aposta de risco

Todo voto é uma aposta; algumas apostas são mais arriscadas que outras. 

Votar em Haddad é aposta de alto risco, considerando a conjuntura eleitoral: há grande aversão ao PT, e isso favoreceria Bolsonaro contra Haddad no 2o turno. 

Caso eleito, Haddad provavelmente enfrentará forte oposição: governará com grande dificuldade, teremos 4 anos de grave instabilidade e talvez o Brasil chegue a 2022 ainda pior. Haddad será refém do "centrão" mais do que Dilma o foi em seu segundo mandato (que sabemos como terminou) - sem contar que é impossível imaginar qual será a configuração do Congresso após essas tumultuadas eleições. 

A não ser que Haddad no poder opere milagres, as eleições de 2022 tenderão a ser ainda mais marcadas por candidaturas de viés autoritário: Bolsonaro pode voltar ainda mais forte...

P.S.: Caso o segundo turno infelizmente venha a ser Haddad x Bolsonaro, obviamente fico com o menor dos males - voto em Haddad. Mas apenas no segundo turno, fique bem claro.


Bolsonaro: Eterna gratidão

Devemos ser eternamente gratos ao Capitão Jair Bolsonaro pelos serviços que presta à República Federativa do Brasil. Bolsonaro escancarou à luz do dia, com clareza e nitidez, as tremendas limitações da democracia no Brasil. Graças a ele podemos ver com absoluta acuidade os espectros de autoritarismo que ainda nos rondam e ameaçam nossa frágil democracia. Fica o desafio para todos os cidadãos, instituições, partidos e políticos: o que podemos e devemos fazer nas próximas DÉCADAS para consolidar, aprofundar e plenificar nossa democracia? Supondo, é claro, que nossa democracia sobreviva à presente conjuntura...

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Equações brasileiras

Versão petista (Ensino Médio):

Prosperidade coletiva (2002/2012) = PT+Lula+Dilma

Versão completa (Universidade):

Prosperidade coletiva (2002/2012) = (Mercado internacional favorável × 1.000)+ efeitos tardios do Plano Real+Lula+PT+PMDB+centrão fisiológico+Mensalão+"pactos de governabilidade"+Dilma+Temer+máfia de empreiteiras+Cabral+Paes+"legado da Copa"+"legado olímpico"+etc+etc+etc

Diagnóstico

Você percebe que a educação pública vai mal quando um dos MELHORES alunos de uma turma de oitavo ano escreve "América Centrau".

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Azul contra azul

Tudo que digo tem múltiplos sentidos.
Teço meus tapetes apenas para puxá-los depois.
Sou mosca-aranha, capturada na própria teia.
Sou como o macaco que devora onças.
Meu rosto sempre esconde uma máscara.
Minhas mentiras são absolutamente verdadeiras, e minhas realidades inteiramente sonhadas.
Sujeito, porque objeto; objeto porque suspeito.
Sou nuvem e rio; bota e estrada; sol, chuva e arco-íris.
Azul contra azul, vejo as estrelas atrás do sol.
Vejo apenas o nascer do sol que se põe.
Todos os meus sentidos têm múltiplos dizeres.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Indexando

Coisas que se lê na Internet: "Não li o livro, pois não sou obrigada. Leio apenas o que me agrada, ao contrário dessa gente que elogia autores consagrados mesmo sem ter lido". Como se houvesse mérito maior em criticar uma obra sem lê-la que em elogiá-la sem lê-la.

O direito de não ler qualquer livro é incontestável, mas seria uma gentileza poupar a terceiros o dissabor de ler uma crítica literária politicamente engajada sobre uma obra não-lida - sem qualquer fundamento, portanto.

"Não li, não gostei, mas acho inaceitável que tal livro exista, pois supostamente viola os sacrossantos preceitos de nossa iluminada militância". Alguns grupos ditos "progressistas" possuem uma lógica realmente inquisitorial...

domingo, 16 de setembro de 2018

Tempos indecentes

É difícil ser uma pessoa decente em tempos tão indecentes. É difícil proteger o coração das emoções violentas que nos assediam e proteger nossa mente de todos os pensamentos de ódio que nos assaltam. Que não nos faltem as forças morais para resistir ao turbilhão que nos arrasta. Que nenhum de nós se torne apenas mais um no meio das multidões enfurecidas. Que coração e mente se preservem serenos, generosos, fortes e esperançosos. Que nessa caótica maré possamos ser rochedos seguros para aqueles que precisam de nosso apoio.