Se Copa do Mundo fosse motivo para o Brasil estar nessa pindaíba, então a Alemanha, que tem quatro e colocou sete a um no Brasil, não poderia ser a potência econômica da Europa. Se o Brasil parar de gostar de futebol, vai acontecer apenas uma coisa: vai continuar um país subdesenvolvido e alienado como sempre foi, mas sem futebol.
domingo, 10 de junho de 2018
O buraco é mais embaixo
Eis minha vizinhança comemorando até o delírio a vitória do Brasil no amistoso contra a Áustria. Parece que cada um deles ganhou na loteria ou é a mãe do Neymar, ou ambos. Isso é patológico. No entanto, como lembra o filósofo Thales de Oliveira, o buraco é mais embaixo:
sexta-feira, 8 de junho de 2018
quarta-feira, 6 de junho de 2018
A carne e a máquina
"Eu... Sinto ódio pelo homem que projetou esta máquina... O caça Zero é uma aeronave sem igual. Um caça de assento único capaz de voar 1.800 milhas náuticas. Todo esse desempenho é a causa do nosso sofrimento... Voamos por 560 milhas... Lutamos... E voltamos voando por mais 560 milhas... Esse tipo de operação só é possível porque a capacidade do caça Zero permite. Mas que operação é essa que não leva em consideração os homens que pilotam?! Nós não somos máquinas... Somos homens de carne e osso!!"
Naoki Hyakuta
Naoki Hyakuta
domingo, 3 de junho de 2018
O que [NÃO] é o Poder Judiciário?
Antes de tudo, para mim, o Judiciário é uma enigmática esfinge. A Dura Lex é sua máscara; sua voz é uma espessa algaravia de sutilezas técnicas.
Nos últimos meses, o Judiciário anda na berlinda. Os defensores de Lula na mídia "independente" iniciaram uma ampla ofensiva contra o Judiciário; parte da pauta "pegou", despertando justa indignação contra os privilégios da magistratura, numa crítica transversal a tendências ideológicas variadas, desde a extrema direita à extrema esquerda.
Muitas dessa críticas tendem a formular frases como "o Judiciário é isso", "o Judiciário faz aquilo", "o Judiciário pensa assim", "o Judiciário age assado". Tais formulações me parecem um tanto simplórias, à medida que tratam de modo uniforme e homogêneo uma rede institucional tão complexa como o Judiciário.
Para escapar desse tipo de armadilha, talvez seja interessante questionar o que o Judiciário não é. Vejamos.
Em primeiro lugar, ele não é um partido político, nem mesmo um simples apêndice de qualquer partido. Isso não quer dizer que o Judiciário não tenha interesses ou tendências políticas - tais tendências existem, mas creio que são variadas, de acordo com os posicionamentos de cada magistrado e as dinâmicas peculiares de cada região, instância, especialidade. Por outro lado, acho difícil reduzir os problemas políticos do Judiciário à simples dicotomia esquerda-direita (como, aliás, é problemático fazê-lo em quase todos os sentidos). Tenho a impressão de que as clivagens políticas no seio da magistratura tendam muito mais a se articular em torno de problemas jurídicos muito específicos que, a nós leigos, soam quase bizantinos.
Nada disso significa que a magistratura esteja além de quaisquer influências dos partidos políticos que se alternam no poder. Em alguma medida ela existe, mas se faz segundo as complexas condições impostas pelo cursus honorum do Judiciário. Suas hierarquias se formam, por assim dizer, por acumulação estratigráfica, vão se sedimentando e alterando ao longo de décadas. É um poder muito menos volátil que o Legislativo ou o Executivo, formado por lenta decantação; Executivo e Legislativo operam em ritmo muito mais acelerado, a 2,5 rotações por década, por assim dizer. Vale notar, nesse sentido, a visível disparidade entre as trajetórias dos políticos convencionais, repletas de altos e baixos, e as carreiras dos magistrados, que costumam ser uma ritmada ascensão.
Tal complexidade fica evidente, por exemplo, na recente votação do habeas corpus de Lula no STF. Dos seis ministros contrários à petição, cinco foram indicados por Dilma ou pelo próprio Lula, mostrando bem os limites das intervenções político-partidárias no Judiciário.
Legislativo e Executivo no Brasil tendem a funcionar como balcões de negócios, no desavergonhado e por demais explícito toma-lá-dá-cá que tão bem conhecemos. Por outro lado, as tensões do Judiciário me parecem se acertar segundo um ethos menos explicitamente mercadológico, mais aristocrático, mais próximo à lógica das graças, desgraças e mercês da sociabilidade de corte. Talvez seja a instituição mais caracteristicamente "Ancien Régime" em nossa barroca república.
Em certo sentido, é também uma casta, uma corporação coesa contra agentes externos, apesar de suas tensões internas, dotada de uma aguda "consciência de classe" (sensu Mandrou). Por outro lado, seus padrões de recrutamento me lembram - até certo ponto, note-se - a constituição do clero católico pós-tridentino; há ali algo de "eclesiástico" em sua estrutura viva (mas nada de propriamente "religioso", note-se também).
Prosseguindo em nossas apofáticas reflexões sobre o Judiciário, é interessante lembrar que, ao contrário do que sugerem certas opiniões recentes, o Judiciário não é necessariamente o sustentáculo da democracia - não nos iludamos a esse respeito: o Judiciário é antigo demais para isso. Nunca é demais lembrar, com Simone Weil, que as raízes mais remotas de nossas instituições jurídicas estão no Direito Romano, talhado à medida da sociedade escravocrata onde nasceu. Em nosso caso específico, cabe ainda lembrar que o Direito Romano serviu como um importante marco para pensar e administrar a escravidão no Atlântico português.
Até onde sei (mas não sou especialista no assunto), a legislação vigente em terras brasileiras mudou muito e diversas vezes no Brasil, mas tais metamorfoses nunca acarretaram rupturas muito graves no Judiciário, enquanto corporação. Me parece que a magistratura conseguiu fazer transições bastante suaves, talvez demasiadamente suaves, da colônia à Constituição de 1824, do Império à República, atravessando relativamente protegida as turbulências da Era Vargas, da Terceira República e da Ditadura Militar, finalmente adaptando-se, sem tensões excessivas, à Constituição Cidadão de 1988. Constituições e marcos legais vêm e vão, mas a Magistratura permanece, simultaneamente aquém e além do ordenamento jurídico que opera.
Não quero com isso afirmar alguma imobilidade ou imutabilidade do Judiciário, desejo apenas sinalizar que seu regime de mudança e transformação se dá em padrões peculiares, segundo dinâmicas muito próprias. As mudanças se dão no quadro de uma liturgia onde a continuidade é sutilmente enfatizada e as eventuais rupturas são dissimuladas quanto possível, sempre glissando, nunca stacatto.
Em suma, a imagem do Judiciário como guardião da institucionalidade democrática é tardia e recente; faz parte do imaginário da Quinta República e da Constituição de 88, sem raízes profundas na própria tessitura da instituição.
Ao contrário do que se sugere na esfera dos discursos, o Judiciário não existe para a democracia, e nem precisa da democracia para existir. Nada disso, evidentemente, quer dizer que o Judiciário e a magistratura sejam inimigos da democracia; significa apenas que essa relação não é essencial e transparente - e nem muito sólida.
Me parece que uma ampla e profunda reforma do Judiciário é necessária se desejarmos consolidar nossa República em bases mais democráticas a longo prazo. Não penso, todavia, que esse seja o momento mais adequado para tal. No atual clima de polarização ideológica e instabilidade política, com um Executivo e um Legislativo tão desacreditados e carentes de legitimidade moral, tal reforma do Judiciário tenderia a ser catastrófica. Contudo, é um debate extremamente necessário para a próxima década, quando, espero eu, nossas condições se tornem um pouco mais favoráveis.
De qualquer modo, vale sempre questionar, juvenalmente: e quem julga os juízes?
Nos últimos meses, o Judiciário anda na berlinda. Os defensores de Lula na mídia "independente" iniciaram uma ampla ofensiva contra o Judiciário; parte da pauta "pegou", despertando justa indignação contra os privilégios da magistratura, numa crítica transversal a tendências ideológicas variadas, desde a extrema direita à extrema esquerda.
Muitas dessa críticas tendem a formular frases como "o Judiciário é isso", "o Judiciário faz aquilo", "o Judiciário pensa assim", "o Judiciário age assado". Tais formulações me parecem um tanto simplórias, à medida que tratam de modo uniforme e homogêneo uma rede institucional tão complexa como o Judiciário.
Para escapar desse tipo de armadilha, talvez seja interessante questionar o que o Judiciário não é. Vejamos.
Em primeiro lugar, ele não é um partido político, nem mesmo um simples apêndice de qualquer partido. Isso não quer dizer que o Judiciário não tenha interesses ou tendências políticas - tais tendências existem, mas creio que são variadas, de acordo com os posicionamentos de cada magistrado e as dinâmicas peculiares de cada região, instância, especialidade. Por outro lado, acho difícil reduzir os problemas políticos do Judiciário à simples dicotomia esquerda-direita (como, aliás, é problemático fazê-lo em quase todos os sentidos). Tenho a impressão de que as clivagens políticas no seio da magistratura tendam muito mais a se articular em torno de problemas jurídicos muito específicos que, a nós leigos, soam quase bizantinos.
Nada disso significa que a magistratura esteja além de quaisquer influências dos partidos políticos que se alternam no poder. Em alguma medida ela existe, mas se faz segundo as complexas condições impostas pelo cursus honorum do Judiciário. Suas hierarquias se formam, por assim dizer, por acumulação estratigráfica, vão se sedimentando e alterando ao longo de décadas. É um poder muito menos volátil que o Legislativo ou o Executivo, formado por lenta decantação; Executivo e Legislativo operam em ritmo muito mais acelerado, a 2,5 rotações por década, por assim dizer. Vale notar, nesse sentido, a visível disparidade entre as trajetórias dos políticos convencionais, repletas de altos e baixos, e as carreiras dos magistrados, que costumam ser uma ritmada ascensão.
Tal complexidade fica evidente, por exemplo, na recente votação do habeas corpus de Lula no STF. Dos seis ministros contrários à petição, cinco foram indicados por Dilma ou pelo próprio Lula, mostrando bem os limites das intervenções político-partidárias no Judiciário.
Legislativo e Executivo no Brasil tendem a funcionar como balcões de negócios, no desavergonhado e por demais explícito toma-lá-dá-cá que tão bem conhecemos. Por outro lado, as tensões do Judiciário me parecem se acertar segundo um ethos menos explicitamente mercadológico, mais aristocrático, mais próximo à lógica das graças, desgraças e mercês da sociabilidade de corte. Talvez seja a instituição mais caracteristicamente "Ancien Régime" em nossa barroca república.
Em certo sentido, é também uma casta, uma corporação coesa contra agentes externos, apesar de suas tensões internas, dotada de uma aguda "consciência de classe" (sensu Mandrou). Por outro lado, seus padrões de recrutamento me lembram - até certo ponto, note-se - a constituição do clero católico pós-tridentino; há ali algo de "eclesiástico" em sua estrutura viva (mas nada de propriamente "religioso", note-se também).
Prosseguindo em nossas apofáticas reflexões sobre o Judiciário, é interessante lembrar que, ao contrário do que sugerem certas opiniões recentes, o Judiciário não é necessariamente o sustentáculo da democracia - não nos iludamos a esse respeito: o Judiciário é antigo demais para isso. Nunca é demais lembrar, com Simone Weil, que as raízes mais remotas de nossas instituições jurídicas estão no Direito Romano, talhado à medida da sociedade escravocrata onde nasceu. Em nosso caso específico, cabe ainda lembrar que o Direito Romano serviu como um importante marco para pensar e administrar a escravidão no Atlântico português.
Até onde sei (mas não sou especialista no assunto), a legislação vigente em terras brasileiras mudou muito e diversas vezes no Brasil, mas tais metamorfoses nunca acarretaram rupturas muito graves no Judiciário, enquanto corporação. Me parece que a magistratura conseguiu fazer transições bastante suaves, talvez demasiadamente suaves, da colônia à Constituição de 1824, do Império à República, atravessando relativamente protegida as turbulências da Era Vargas, da Terceira República e da Ditadura Militar, finalmente adaptando-se, sem tensões excessivas, à Constituição Cidadão de 1988. Constituições e marcos legais vêm e vão, mas a Magistratura permanece, simultaneamente aquém e além do ordenamento jurídico que opera.
Não quero com isso afirmar alguma imobilidade ou imutabilidade do Judiciário, desejo apenas sinalizar que seu regime de mudança e transformação se dá em padrões peculiares, segundo dinâmicas muito próprias. As mudanças se dão no quadro de uma liturgia onde a continuidade é sutilmente enfatizada e as eventuais rupturas são dissimuladas quanto possível, sempre glissando, nunca stacatto.
Em suma, a imagem do Judiciário como guardião da institucionalidade democrática é tardia e recente; faz parte do imaginário da Quinta República e da Constituição de 88, sem raízes profundas na própria tessitura da instituição.
Ao contrário do que se sugere na esfera dos discursos, o Judiciário não existe para a democracia, e nem precisa da democracia para existir. Nada disso, evidentemente, quer dizer que o Judiciário e a magistratura sejam inimigos da democracia; significa apenas que essa relação não é essencial e transparente - e nem muito sólida.
Me parece que uma ampla e profunda reforma do Judiciário é necessária se desejarmos consolidar nossa República em bases mais democráticas a longo prazo. Não penso, todavia, que esse seja o momento mais adequado para tal. No atual clima de polarização ideológica e instabilidade política, com um Executivo e um Legislativo tão desacreditados e carentes de legitimidade moral, tal reforma do Judiciário tenderia a ser catastrófica. Contudo, é um debate extremamente necessário para a próxima década, quando, espero eu, nossas condições se tornem um pouco mais favoráveis.
De qualquer modo, vale sempre questionar, juvenalmente: e quem julga os juízes?
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| Nossa velha magistratura, nos vivos traços de Debret. |
sexta-feira, 1 de junho de 2018
Coisa séria
O assassinato de Marielle Franco, o incêndio da ocupação em São Paulo, a paralisação dos caminhoneiros... tantos assuntos sérios que logo caíram, caem ou cairão no abismo do esquecimento, nesses tempos de efêmeras indignações... Felizmente, vem aí a Copa do Mundo, assunto realmente sério para as vidas de todos nós...
quarta-feira, 30 de maio de 2018
Morte, vida e luta
"A pessoa pode morrer na hora que quiser. Nós precisamos é lutar para viver".
Naoki Hyakuta
Naoki Hyakuta
quarta-feira, 23 de maio de 2018
Ser música
"People are obscenities. Would rather be music than be a mass of tubes squeezing semisolids around itself for a few decades before becoming so dribblesome it'll no longer function".
Robert Frobisher [David Mitchell, Cloud Atlas]
Eu me sentiria provavelmente contente em ser Crisantemi, de Puccini...
Robert Frobisher [David Mitchell, Cloud Atlas]
Eu me sentiria provavelmente contente em ser Crisantemi, de Puccini...
domingo, 20 de maio de 2018
Venenoso remédio: Monomania econômica
Imagine um médico que prescrevesse o mesmo tratamento para todos os pacientes:
Unha encravada? Antibiótico. Câncer de pele? Antibiótico. Enxaqueca? Antibiótico. Pneumonia? Antibiótico. Hipertensão? Antibiótico. Epilepsia? Antibiótico. Diabetes? Antibiótico. Depressão? Antibiótico. Gastrite? Antibiótico...
Tal profissional seria uma ameaça à vida de seus pacientes e objeto de ridículo perante a comunidade médica. Inconsequente e ineficaz, esse infame maníaco dos antibióticos seria reles charlatão, digno da pena de Molière. Seria conveniente que o conselho de medicina cassasse o registro desse imprudente esculápio.
Ora, um médico sério e consciencioso sabe que convém escolher o tratamento adequado conforme as
circunstâncias, que podem ser muito variadas. Suas prescrições precisam considerar não apenas o diagnóstico do paciente, como também sua faixa etária, massa corporal, histórico médico familiar, interações medicamentosas, estágio de evolução da enfermidade, entre inúmeros outros fatores.
O mesmo tipo de discrição convém a qualquer tipo de profissional, que precisa ser capaz de distinguir as especificidades de cada situação antes de deliberar o curso de sua ação. Infelizmente, em toda categoria profissional costumam existir os "monomaníacos", apegados a determinados métodos que consideram infalíveis e adequados a toda e qualquer circunstância, sem maiores considerações.
No caso específico da economia, encontramos hoje em dia muitos profissionais vitimados por semelhante patologia. É o caso de muitos (não todos, evidentemente) economistas liberais e neoliberais que prescrevem indiscriminadamente um infalível receituário "ortodoxo", verdadeira panaceia capaz de curar todos os males que afligem a economia: máxima desregulamentação em todos os setores, redução drástica das atividades estatais, radical corte de despesas governamentais, privatização generalizada de serviços públicos.
Tais charlatães deixam assim de considerar as especificidades dos "pacientes", e não deveria espantar que muitos morram da cura, como temos visto mundo afora desde a era Pinochet-Thatcher.
Tais "médicos" se esquecem de considerar que cada país tem suas peculiaridades históricas, geográficas, demográficas e culturais. O que funciona no Japão talvez não funcione no Equador e no Zimbábue. Aquilo que é necessário no Brasil talvez não o seja na Suécia ou no Uzbequistão. Algo viável em Madagascar talvez seja impossível no Canadá ou na Nova Zelândia. Da mesma forma, algo que funcionava nos anos 80 talvez não seja desejável hoje.
Também não é incomum que esses economistas desconsiderem grosseiramente as peculiaridades de cada setor de atividade. Não é razoável supor que as condições de operação sejam idênticas em ramos tão variados como indústria automobilística, abastecimento de água, agropecuária, educação, geração de energia, telecomunicações, saúde, indústria farmacêutica, entretenimento, saneamento básico, mineração...
É igualmente comum que tais ideólogos da economia menosprezem diferenças de escala que saltam aos olhos. Aquilo que funciona para o profissional autônomo não é necessariamente a melhor opção para a empresa familiar, para um negócio local ou para a multinacional. É evidente que as dinâmicas operacionais de um consultório médico, de uma mercearia, de uma rede de livrarias ou de uma companhia aérea de porte mundial precisam ser diferenciadas.
Concluindo, como já foi dito, nem todos os economistas liberais ou neoliberais padecem de semelhante "monomania", mas é sempre necessário prestar atenção a seus discursos e examiná-los criticamente, especialmente quando eles se põem a prescrever medidas para a saúde econômica coletiva: afinal de contas, qualquer remédio, quando mal administrado, pode se tornar veneno...
quinta-feira, 17 de maio de 2018
Tedioso mundo humano?
Interessante provocação do filósofo Thales de Oliveira
Há pessoas literárias e outras literais; algumas livres, enquanto outras, apenas libertinas. Existem os verdadeiramente amantes e os que não passam de amadores. Os apaixonados e os passionais. O mundo humano produz uma quantidade exígua das primeiras. Mas é pródigo em nos mostrar ilimitados exemplos das segundas. É por isso que o mundo humano é um pouco entediante.
quarta-feira, 16 de maio de 2018
Lados
O lado bom das redes sociais é que qualquer pessoa pode manifestar sua opinião; o lado ruim das redes sociais é que qualquer pessoa pode manifestar sua opinião...
quinta-feira, 10 de maio de 2018
quarta-feira, 9 de maio de 2018
Oportunismo e Predação
Todo predador é um pouco oportunista; todo oportunista é um pouco predador. Quanto maior o oportunismo, pior a predação. Mas quem oferece as oportunidades, senão a própria presa? O predador só precisa ser mais forte que a presa mais fraca. A presa mais fraca é aquela que, geralmente por descuido, oferece mais oportunidades. O predador mais forte é aquele que domina de dentro a própria mente da presa, induzindo-a a oferecer por si mesma as oportunidades de predação. Os predadores realmente poderosos não possuem garras ou dentes, preferindo palavras e imagens; capturam suas presas pelos olhos e pelos ouvidos. Quem deseja sobreviver, precisa se tornar rigorosamente inoportuno, rechaçando assim todos os oportunistas.
domingo, 6 de maio de 2018
200 anos de Marx - O que comemorar?
Não me entusiasmo nem um pouco com as comemorações dos 200 anos de nascimento do autor de "O Capital".
Marx era um homem inteligente e erudito e, evidentemente, teve algumas ideias muito interessantes - como as noções de mais-valia, alienação e fetiche, por exemplo. No entanto, enquanto reflexão sistemática, a meu ver, o marxismo não se sustenta em pé. O central modelo de "modo-de-produção" é de um reducionismo pavoroso; a "luta de classes" como principal motor da História é um delírio messiânico, e a noção de "consciência de classe" resvala várias vezes na desonestidade intelectual.
Além disso, também acho que o pensamento de Marx tinha nuances extremamente perigosas - marxistas e simpatizantes me parecem subestimar gravemente as tendências autoritárias presentes no discurso do pensador. A noção de "ditadura do proletariado" me causa asco, não importando os sofismas com que se tente maquiar a coisa. As sementes do mais sombrio stalinismo já estavam latentes no discurso de Marx desde o começo.
Nada disso significa que o proponente do "materialismo histórico" seja irrelevante. Muito pelo contrário, é, evidentemente, uma das figuras intelectuais mais relevantes e influentes da História. Seu legado estimulou muitos pensadores brilhantes, especialmente entre aqueles que não o seguiam de modo ortodoxo. Como tal, deve ser lembrado, mas também deve ser analisado criticamente, com respeito, mas sem religiosa reverência. A meu ver, a maior homenagem que se pode prestar a um pensador é criticá-lo conscienciosamente.
Não precisa ser demonizado, como quer a direita, mas tampouco deve ser colocado sobre um pedestal, como faz a esquerda.
Por sinal, já passou da hora de que os movimentos de esquerda superem o legado de Marx, cujos limites são evidentes. Que se aproveite do pensador aquilo que serve, e o resto, que seja deixado para trás, com o devido desapego. A esquerda do século XXI precisa, com urgência, parar de buscar o colo paternal de Marx, como um eterno porto seguro.
Existem outros horizontes a explorar.
quinta-feira, 3 de maio de 2018
Na hora das lágrimas
O desastre de São Paulo é, antes de tudo, muito triste. Em grande medida, é um retrato ao absurdo do drama cotidiano que é o problema habitacional em nosso país. Todavia, até que haja maiores esclarecimentos sobre as circunstâncias do ocorrido, que parecem bastante nebulosas e complexas, vamos evitar a politização excessiva do fato, especialmente a politização eleitoreira.
Me parece que é, inclusive, uma questão de respeito e solidariedade com as próprias vítimas, cujo sofrimento não deve ser simplesmente apropriado e instrumentalizado por agendas políticas que lhes são estranhas, em favor da polarização que ora devasta o Brasil. O caso TEM dimensões políticas, mas elas podem (e talvez devam) esperar.
Que, nesse momento doloroso, possam ao menos chorar em paz. Que o sofrimento humano venha antes e acima das paixões políticas, nunca o contrário.
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