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quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Entre mosquitos e canhões

"Todos esses textos são marcados pela cosmovisão do ser existencial. O ser existe no tempo e no espaço e a sua existência caracteriza-se pela atuação hic et nunc do ser que existe. Desse modo, o ser que existe e que expressa a sua vivência existe em um mundo e em um tempo, mundo e tempo existenciais do ser que são o resultado da sua experiência como ser, a qual é transmitida com o auxílio de sistemas de comunicação, dos quais a linguagem é o mais aperfeiçoado. Essa linguagem humana estrutura-se em níveis maiores e menores e um dos níveis maiores é o discurso".

O exuberante trecho acima foi extraído de um artigo acadêmico sobre um antigo livro manuscrito de receitas culinárias. No cômputo geral, o artigo é até honesto no objetivo a que se propõe; questiono, no entanto, a necessidade de malabarismos teórico-filosóficos expostos em alguns parágrafos como o transcrito acima.

Me parece um espécime interessante por oferecer uma demonstração curiosa do quanto alguns trabalhos acadêmicos se perdem em deslocados exercícios de virtuosismo, cuja necessidade me parece muito duvidosa.

Por vezes tenho a impressão que alguns intelectuais, contrariando a sabedoria (supostamente) chinesa, acham que é necessário usar canhões para matar mosquitos. Por sinal, os japoneses costumam dizer que a excelência se caracteriza pelo máximo de resultado com o mínimo de esforço - e não o contrário...

"Não use um canhão para matar um mosquisto", teria dito Confúcio...

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Fazendo as pazes - ou o pragmatismo nosso de cada dia...

Trechos selecionados de esclarecedora entrevista com Luiz Marinho, atual Presidente Estadual do PT em São Paulo:


O PT deve fazer alianças com partidos que apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff?
Veja, nós temos que recuperar bases. A maioria do povo também apoiou o impeachment e nós queremos recuperar a maioria do povo. Não vejo a necessidade de um grande arco de alianças para a candidatura do Lula. Vamos precisar de uma grande aliança para governar, no Congresso. Mas isso pode se dar no processo eleitoral ou pós-eleições. Agora vamos analisar no sentido de ganhar a eleição. Depois se tomam providências sobre composição da base no Congresso.

[...]

Mas isso [alianças estaduais com o PMDB] contraria uma decisão do Diretório Nacional do PT.
Seguramente o diretório vai revisitar esse tema e vai saber trabalhar a complexidade momentânea da política brasileira. Reposicionamentos eventuais podem acontecer, mas não vai ser um "liberou geral". Mas o PT deve permitir aliança com partidos que apoiaram o "golpe" [notem-se as aspas].

[...]

Lula disse que o eleitorado de Dilma se sentiu traído pelas mudanças na política econômica. O senhor concorda com isso?
É um sentimento. Sentimento não se muda. O sentimento do eleitorado realmente foi esse. Em 2014 já tinha muita gente reclamando da Dilma, depois com a história do Joaquim Levy ministro (da Fazenda) de fato se colocou dessa forma.

[...]

A presença dela [Dilma] no palanque de Lula atrapalha?
Se ela não for candidata, não ajuda nem atrapalha.


quarta-feira, 1 de novembro de 2017

"Apenas obedecendo ordens"

"O bom soldado é tão inconsequente quanto uma criança".
T.E. Lawrence

http://acidnrock.blogspot.com.br/2010/06/ordens-sao-ordens.html

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Viável ou não, "amar ao próximo como a si mesmo" me parece o projeto de humanidade mais ambicioso e desejável que se possa imaginar...

domingo, 22 de outubro de 2017

Estamos todos bem

Poema do Fred Oliveira (dedicado a mim - que honra!)

Que eu aprenda na escola o que é a vida
Que eu escolha bem os meus amigos
Que eu saiba de cor cantar o hino
Que eu vá à Igreja aos domingos
Que eu apague a luz do quarto e durma.
Que eu faça a coisa certa
Que eu peça licença ao sair da mesa
Que eu tenha a tabuada na cabeça
E torça para algum dos times
Que eu não quebre o protocolo
E nunca seja inconveniente.
Que eu não brinque com coisa séria
Que eu seja alguém na vida
Que eu não coma carne em dia santo
Que eu não insista nos meus erros
E não deixe para amanhã o que posso fazer hoje
Que eu feche os olhos e diga só coisas bonitas.
Que eu conheça ao menos um trecho da Bíblia
Que eu leia, acredite e jamais duvide
Que eu não entre na briga e nem xingue
Que eu aguente firme apesar de tudo.
Que eu seja comedido na minha ira
Que eu saiba distinguir joio e trigo
Que eu não faça aos outros o que não quero que façam comigo
Que eu não diga à plateia o que sentimos
Que eu consiga um emprego subalterno como os outros da fila.
Que eu me aliste no exército aos 17 anos
Que eu não seja ateu
Que eu ame uma menina e não a um menino
Que eu constitua uma família e tenha muitos filhos
Que eu chore no enterro como todo mundo.
Que eu aceite o que não gosto com um sorriso
Que eu tema o Inferno e queira o Paraíso
Que eu me acostume a demagogiazinha nossa de cada dia
Que eu tenha juízo
E agradeça a Deus o pão à mesa.
Que eu acompanhe o ritmo
E dance conforme a música
Que eu meça as palavras e seja eu mesmo
Que eu fique em casa nos dia de chuva
Que eu viva em paz com a minha consciência.
Que eu pregue um diploma na parede
Que eu cumpra todos os meus compromissos
Que eu não falte com a esmola ao mendigo
Que eu me arrependa dos meus pecados
E me orgulho de ser pobre, honesto e faminto
E se alguém perguntar como estamos
Eu diga: - Estamos todos bem!
 ...................
In: Quase Poesia, de Fred Oliveira
...................
Para Luiz Fabiano Tavares

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Meros dados...

Meros dados não são fatos.

Meros fatos não são informação.

Mera informação não é conhecimento.

Mero conhecimento não é sabedoria.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Me engana, que eu gosto!

"Se o Bolsonaro agradou o mercado, nós do PT temos que desagradar o mercado".


Lula - depois de anos agradando o mercado, fazendo lobby para empresas privadas, recebendo favores questionáveis de empresários etc etc etc...



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Veja contra Bolsonaro

Só comprei a revista Veja duas vezes em minha vida. Uma foi em 2016, quando saiu aquela matéria com capa-bomba do Crivella. A outra foi na última semana: confesso que não me aguentei de curiosidade para ler o que a publicação dizia sobre "A ameaça Bolsonaro".

Essa capa, cerca de um ano antes das eleições de 2018, me parece muito significativa: parece que Bolsonaro enfrentará fogo cerrado de todos os lados durante o processo eleitoral. Se isso é bom ou ruim, eu já não sei - especialmente em se tratando de um candidato que faz a linha "falem mal, mas falem de mim".

De resto, o texto traz o costumeiro estilo "vejático", repleto de insinuações nem-tão-sinuosas e uma retórica bem chinfrim. Enfim, não gosto de Bolsonaro, assim como não gosto da Veja...

Deixando de lado a publicação, acho precipitado considerar Bolsonaro como um dos favoritos para 2018 com base apenas na tal pesquisa Datafolha que apresenta 35% de intenções de votos para Lula e 17% para Bolsonaro. Em primeiro lugar, como se sabe, essas pesquisas nem sempre valem grande coisa. Em segundo lugar, creio que até lá Lula estará na cadeia - e não me parece que Bolsonaro tenha muitas chances de captar o potencial eleitoral do petista, que provavelmente será canalizado em favor de um terceiro candidato. Last, but not least, como diz um amigo, os holofotes costumam fazer muito mal à família Bolsonaro. Enfim, na política, ni jamais, ni toujours...

Por enquanto, minhas apostas para o segundo turno de 2018 são Marina e Dória, com vitória da Rede. De qualquer modo, meu voto vai para Chico Alencar...



sábado, 7 de outubro de 2017

Reizinhos mandões

Reflexão do psicólogo Vitor de Moraes:

Uma sociedade em que todos só querem seus direitos é tal como um aglomerado de reis que quer fazer dos seus iguais os serviçais.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Quem é "incompetente"?

Quando Lula qualifica Temer e os seus como "incompetentes", eu me pergunto: por que ele só "descobriu" isso agora? Estaria ele mentindo em todos aqueles comícios em 2010, 2014...?!

Se Lula já sabia que Temer era um "incompetente", apoiá-lo como vice-presidente seria uma fraude. Por outro lado, se Lula não sabia, isso significaria um gesto leviano ("incompetente", talvez).

Lula enche a boca com palavras vazias, como qualquer outro político. Por isso mesmo, não é mito,  lenda ou salvador: é apenas mais um político como outro qualquer.

A não ser que alguém me convença que há algo de sólido em seu incansável palanfrório...

Seria o cosplay do Lula melhor que os de Dória...?! Ou vale só para um lado?!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Transgressão e obediência

A transgressão gratuita é tão perigosa quanto a obediência cega. Muitas vezes uma conduz diretamente à outra.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Utilitarismo, Romantismo ou Vanguardismo?

Extrato de A Nova Ordem Ecológica, do filósofo Luc Ferry

Por trás desse debate [sobre a governança da União Europeia], que todos deveriam poder julgar por si mesmos, uma autêntica questão filosófica ressurgiu: a do estatuto da cultura em uma sociedade de onde as tradições religiosas e, com elas, a transcendência do sagrado por assim dizer se evaporaram. Mas, para avaliar finalmente a questão, seria necessário sair das oposições binárias nas quais querem com frequência nos encerrar: alta cultura literária contra subcultura técnica, tradição contra modernidade, obscurantismo romântico contra universalismo das Luzes, etc. Para muitos de nós, com efeito, o drama da cultura se desenrola nessas alternativas impossíveis.

Primeiramente, não são duas, mas três concepções filosóficas da cultura que não param de se enfrentar, cada uma pretendendo suplantar as outras duas em uma luta de morte. Podem-se, com os utilitaristas, considerar as obras como sendo "produtos", "mercadorias" que cumprem sua destinação quando, consumidas por um público, elas lhe dão satisfação. É essa visão consumista que os intelectuais críticos denunciam, em parte com razão, como sinal de uma "americanização do mundo". Pode-se em seguida, com os românticos, ver na obra de sucesso a expressão do gênio próprio de cada povo. Cada nação possui seu "espírito", sua "vida", e a língua, as instituições jurídicas e políticas, mas também a cultura em geral são suas manifestações especialmente perfeitas por não deixarem dúvidas quanto a seu rosto imanente. Pode-se por fim, contrariamente ao romantismo, atribuir à obra a tarefa heróica de subverter as formas estéticas do passado, de sair fora, assim como queriam os revolucionários franceses, dos códigos determinantes que constituem as tradições nacionais. Consumo, arraigamento, desprendimento: eis aí as três palavras mestras, as três bandeiras sob as quais se enfrentam ainda hoje os novos cruzados pós-religião. Três perversões possíveis, também: a demagogia do "tudo cultural", que ameaça sempre o utilitarismo, uma vez que o único critério se torna o sucesso, o efeito produzido sobre o público, excluindo qualquer outra unidade de valor. A quada no nacionalismo e no folclore, que espreitam um romantismo estreito. Ele oscila, então, entre a arrogância fascistizante e a falsa humildade do artesanato local. Quanto à ideologia da inovação, ela possui também seu reverso: no vanguardismo, que tanto caricaturou o gesto da liberdade, rebaixando-o à categoria de abstração nua. O conteúdo da arte reduziu-se então a ser tão somente encenação de símbolos da ruptura e da subversão pela subversão.

Os grandes debates sobre a a cultura a que assistimos desde a morte das vanguardas na metade dos anos 1970 nascem com frequência do fato de essas três visões da vida do espírito parecerem inconciliáveis: o vanguardismo, que dominou a "alta cultura" desse século, se opõe de maneira tão decidida ao amor romântico da tradição quanto ao reino cínico do mercado. Quanto ao romantismo, seu ódio ao desarraigamento inerente à cultura moderna só se iguala ao da plutocracia insolentemente exibida pelo mundo liberal. Sem se preocupar com um conflito que opõe a seus olhos o elitismo à desuetude, os defensores da indústria cultural prosseguem tranquilamente a produção de variedades e divertimentos mercantis. Seria preciso, pois, escolher o próprio campo, e como bons intelectuais que somos, com o vigor do desespero separar finalmente o joio do trigo. Uns nos convidam a optar pela inovação, pelo apoio fervoroso à "cultura difícil", mas "corajosa"; outros nos recomendam os valores seguros do patrimônio e dos autores clássicos.

Entre os três momentos da cultura, o desprendimento, o arraigamento e o consumo, é preciso de fato escolher? Não acredito. Pois a mais simples descrição fenomenológica das obras, por nós ditas "grandes", indica claramente serem elas as articuladoras das três instâncias: ao se emanciparem de um contexto que conservam até na inovação, elas conciliam de maneira cada vez mais original o desprendimento e o arraigamento que o vanguardismo e o romantismo isolam e tematizam de modo unilateral. É nessa articulação e somente por causa dela que elas provocam, para nossa maior alegria, a paixão de um espectador - esse prazer estético sem o qual mesmo a cultura mais elevada não valeria sequer uma hora de esforço. Para essa afirmação eu não vejo contraexemplo. Vale para a música como para a pintura, para a grande mesquita de Kairuan como para a Notre-Dame de Paris. Tanto uma quanto a outra pertencem a um contexto histórico e geográfico particular, tanto uma como a outra o transcendem para alcançar um público que ultrapassa de muito longe o dos fiéis aos quais o monumento parecia inicialmente destinado. E é nesse alargamento de horizontes, impossível fora da articulação dos aspectos que se queria separar por motivos ideológicos, que reside a verdadeira grandeza. O cosmopolitismo não se opõe mais aqui ao nacionalismo - mesmo que seja preciso afirmar a supremacia do momento de desprendimento dos códigos herdados sobre o momento da tradição: sem ele não haveria criação nem inovação, e é o rastro do propriamente humano que se evaporaria. É aí, me parece, que reside o verdadeiro perigo ao qual nos exporia uma vitória do ecologismo radical na opinião pública: ao considerar a cultura, à maneira da sociobiologia, um simples prolongamento da natureza, o mundo inteiro do espírito estaria sendo posto em perigo. Entre a barbárie e o humanismo, é à ecologia democrática que compete agora decidir.

domingo, 17 de setembro de 2017