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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

3 pensamentos e 1 imagem

"As leis que não protegem nossos adversários não podem nos proteger".
Rui Barbosa

"Se não quiser que os outros saibam, é melhor não fazer".
Provérbio chinês

"É perigoso estar certo quando o governo está errado".
Voltaire


Escola "sem" partido

Semana passada, numa das escolas onde trabalho, flagrei uma curiosa lição deixada na lousa à véspera. A atividade, proposta numa aula de Língua Portuguesa, ordenava a interpretação de um trecho de texto sobre a Graça e a Providência, sem autor identificado. Doutrinação religiosa pode...?!

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Videogame na Escola 6 - Nasceu!

A Viagem do Pegasus, ao contrário da II Estrela da Morte, está completo e inteiramente funcional!!!

O blog oficial já se encontra online, com link para download, e o trailer se encontra no Youtube:


domingo, 4 de dezembro de 2016

Videogame na escola 5 - criando protagonistas

Concluímos essa semana a criação dos protagonistas. Cada turma criou coletivamente uma heroína e um herói.

Acho que foi, de longe, a tarefa mais complicada do projeto. Houve muitos desentendimentos e tumultos em todas as decisões, especialmente quanto a definir a aparência de cada personagem. Muitos alunos apresentaram imensa dificuldade em aceitar e reconhecer a decisão da maioria, e queriam que fossem realizadas novas votações. Parecia reunião de condomínio ou assembleia sindical!

Um grupo de meninas (excelentes alunas, por sinal) me abordou DEPOIS das votações propondo que ELAS pudessem refazer a heroína de sua turma, a pretexto da qualidade ruim da personagem definida pela turma. Expliquei a elas que isso não seria honesto e que numa democracia as coisas nem sempre acontecem do jeito que desejamos, mas nem por isso podemos "consertar" (e concertar) as coisas por baixo dos panos; acho que elas entenderam.

Os nintendistas de plantão também perceberão que tive de convencê-los a alterar o nome de um personagem, para evitar problemas de direitos autorais. De qualquer forma, não gostaria de ter um gorila enfurecido jogando barris na minha cabeça...

Enfim, seguem abaixo os resultados dessa encrenca toda!







O jogo também já tem título (definido por mim, sem democracia nenhuma) e uma imagem de abertura - ilustrada por Hokusai, que é de domínio público...

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

domingo, 27 de novembro de 2016

Labirintos da domesticação

Dedicado ao pequeno Gandalf, em seu oitavo aniversário
 
Como se sabe, o período Neolítico foi marcado pela domesticação de inúmeras espécies de animais, entre as quais o lobo, transformado em "melhor amigo do homem". Como tenho registrado por aqui, venho produzindo um jogo eletrônico com meus alunos de 6º ano, recém-saídos da infância. Nesta sexta-feira ajudei dois alunos a produzirem o seguinte diálogo, imaginado entre os heróis da narrativa e um lobo feroz que devora os animais de um fazendeiro. Conforme eles me ditavam o texto, ia sugerindo pequenos aperfeiçoamentos; a pontuação, obviamente, é minha. Tentei traduzir, de alguma forma, as entonações e meneios que eles expressavam, a começar pelo uivo entoado mais de uma vez...

-AAAAAAAAAAAAUUUUUUUUUUUU!!!!
AAAAAAAAUUUUUU!
-Lobo, saia desse território e pare de perturbar o fazendeiro, senão quem morre é você! Sua família já morreu!
-Vou sai no dia de São Nunca! Até eu comer um cavalo! A carne dele é muito boa!
-Se não vai por bem, vai por mal!!!
-O que vocês vão fazer comigo?
-Você vai ver!
[Pausa: "Peraí, Professor... São dois heróis contra um lobo sozinho? Isso é covardia!" - "Na verdade, são quatro heróis..." - "Ah, não! Quatro contra um é muita covardia! Vamo mudar isso aí!"]
-Tá bom, vou sair...
-O fazendeiro quer um cachorro, e não um lobo...
-Peraí... Eu POSSO ser um cachorro! Não vou comer mais nenhum animal dele... Também vou ajudar a cuidar da fazenda... E se vier um ladrão, dou uma mordida no bumbum dele... E a cueca dele vai aparecer! Vou ser um herói pro fazendeiro!

Depois disso, o lobo vira amigo do fazendeiro e passa a cuidar de seu gado. Me parece um bom mito. Por outro lado, é curioso que essa narrativa tenha partido de dois dos alunos mais problemáticos da turma - um dos quais responsável pelo banzé que relatei poucos dias atrás. No fundo, talvez todo lobo sonhe em se tornar cachorro e ser um herói para o seu fazendeiro. Há, evidentemente, algumas recompensas, como um bolinho de cenoura (receita canina exclusiva) para comemorar 8 anos de idade...

4 heróis e um lobo.

O Marinheiro de Triste Figura

Meu avô era militar. Serviu na Marinha do Brasil durante a II Guerra Mundial. Se alistou voluntariamente em 1942, aos 16 anos, pois achava (talvez embalado pelas matinês) que defender a pátria e combater o nazismo eram deveres. O único super-herói que conhecera nos cinemas catarinenses, sugestivamente, era o Capitão América. Com menos de 20 anos de idade havia matado gente e perdido o movimento de um dos dedos operando uma peça de artilharia.

Ao contrário de sua mãe e de seu irmão, "getulistas" convictos, dizia que Getúlio era apenas um homem frio, calculista e manipulador. Com meu avô aprendi a desconfiar de todos os políticos e líderes, de direita ou de esquerda; sempre me alertou contra políticos e agiotas - se é que existe diferença. Também com ele aprendi a reverenciar figuras como Gandhi e Luther King. Era um homem de guerra que se curvava humildemente perante os homens de paz - talvez como o publicano que se sabe pecador, retratado nos Evangelhos. Ele sempre foi um fã de cinema, e mencionava muitas vezes um filme dos anos 50, cujo título esquecera, que narrava a história de uma prostituta de bom coração; o sabor evangélico me parece emblemático.

Suspeito que em grande medida seu precoce alistamento também fosse motivado por razões afetivas: meu bisavô, então marinheiro do Lloyd Brasileiro, fora convocado à guerra contra sua vontade e participava de comboios. Um bom filho segue voluntariamente o pai por rotas estranhas - e meu bisavô, ao que tudo indica, era um ótimo pai.

Meu avô sempre falou muito do cotidiano militar e tinha hilariantes histórias de caserna, mas nunca gostou de falar sobre situações de combate, e sempre evitava o assunto. Apenas uma vez, com a insensibilidade típica dos adolescentes, consegui arrancar um breve comentário: "Era terrível". Recebeu uma medalha que ainda guardo aqui em casa - uma daquelas peças de bronze que supostamente recompensam a bravura, mas nunca o vi se gabando daquele pedaço de metal. Uma medalha e um ferimento para o resto da vida - eis o que meu avô trouxe de tangível da guerra. Ajudou a sepultar italianos e alemães no fundo do Atlântico, mas jamais o vi proferindo qualquer palavra de ódio aos povos da Itália e da Alemanha. Pelo contrário, admirava o povo da Alemanha reunificada, que sobrevivera à devastação da I Guerra, à tirania de Hitler e à divisão pela Cortina de Ferro, reconstruindo seu país inúmeras vezes.

Às vezes acho que ele trazia uma grande melancolia por conta disso - e, por isso mesmo, me ensinou sempre o valor incomensurável da vida humana, como apenas aqueles que viveram sob a sombra do canhão sabem aquilatar. Meu avô, ao contrário de muitos outros companheiros de armas, era radicalmente contrário à pena de morte e abominava o slogan "bandido bom é bandido morto". Tinha ojeriza aos abusos da Polícia Militar.

Jamais teve armas, embora soubesse manejá-las, pois considerava a posse pessoal de armas uma ameaça à sociedade e, em primeiro lugar, ao próprio dono da arma. "Nunca reaja a um assalto: sua vida vale mais que qualquer dinheiro" - sempre me ensinou desde criancinha. Sempre evitou andar fardado pela rua; hoje é um perigo, mas naquela época era apenas exibicionismo barato. Também criticava o hábito inveterado de dar "carteirada", tão difundido entre os militares de outrora. Ao contrário do Gandola de Jô Soares, meu avô nunca mandou ninguém a canto nenhum. De certo modo, o Waldo militar e o Waldo civil não se confundiam - um equilíbrio difícil de atingir, especialmente naqueles tempos em que a farda trazia prestígio social quase ilimitado.

Aos 16 anos, num daqueles estúpidos momentos de rebeldia adolescente, eu disse (meio brincando, meio sério) que ele era um assassino - minha avó ficou indignada, enquanto ele apenas abaixou a cabeça com uma indecifrável tristeza, retirando-se da sala minutos depois. "Para chorar?" - hoje me pergunto. Essa imatura e inoportuna piada é provavelmente um dos maiores arrependimentos de minha vida; ainda não consegui me perdoar. Aquele sentido silêncio ainda me dói. Ele poderia ter reagido, recorrido à senioridade. Até um tapa seria aceitável diante de tamanha insolência. Mas ele, definitivamente, não era uma pessoa desse tipo - pelo menos à altura da vida em que o conheci.


Ao contrário de Bolsonaro, que nunca deve ter puxado o gatilho, meu avô jamais comemoraria a morte de Fidel Castro ou de qualquer outro ser humano. 

Meu avô venerava a Marinha do Brasil enquanto "irmandade", e falava do Cruzador Barroso, que buscara nos Estados Unidos com um entusiasmo infantil e um orgulho juvenil. Descrevia o Barroso como uma cidade flutuante. Não digo que o Cruzador tenha sido seu primeiro amor apenas porque já então namorava minha avó. O Barroso representou a Marinha do Brasil na coroação de Elizabeth II, e de seu convés ele saudou a rainha, durante a tradicional cerimônia de revista da frota nas águas de Portsmouth.


Revista da Frota em Portsmouth, 1953; possuo um exemplar desse mapa aqui em casa.

Gostava de histórias de piratas e acho que ficou tão encantado quanto eu quando minha tia me deu uma bela caravela Playmobil; me recordo nitidamente de nós dois brincando sentados no chão. Suas memórias sobre a importante expedição hidrográfica do José Bonifácio mapeando o litoral nordestino eram empolgantes. Dizia com indisfarçável orgulho que conhecia toda a costa brasileira do Maranhão ao Paraná, assim como as tempestades do Golfo do México. Viajara pelo antigo Caribe dos piratas, e talvez tivesse gostado de conhecer a atração imaginada por Walt Disney - gostava de lembrar que assistira Branca de Neve no cinema. Crescera soltando pipas ao vento do mar, nadando na praia e acompanhando o biso em pequenas viagens - algumas das últimas navegações veleiras de longa distância da marinha mercante em nosso litoral. Testemunhei mais de uma vez previsões meteorológicas acuradas proferidas com dias de antecedência, apenas usando o olhar atilado desde a infância.

Meu avô passara quase um ano nos EUA, onde recebera treinamento da marinha americana para atuar como fiel de navio (responsável por armazenagem e estocagem de gêneros variados). Ao contrário de muitos outros fiéis, meu avô nunca se envolveu com corrupção e sempre fez questão de que os praças fossem bem alimentados em "seus navios". Ele conhecia muitas histórias de cambalacho nas forças armadas (algumas delas MUITO engraçadas) e nunca se iludiu acerca da "honestidade" do regime militar. Cresci ouvindo curiosos relatos acerca de fraudes, "pistolões", contrabandos, desvios de verbas e materiais, entre outros comportamentos pouco valorosos. Uma das melhores histórias era sobre um sujeito que reformou a casa inteirinha com material de construção desviado de um estaleiro, levado na surdina, aos domingos (até os gatos pardos acordam tarde no final de semana). Meu avô sabia muito bem que muitos corruptos usam farda e sempre me lembrou disso. Fosse meu avô menos honesto, eu talvez tivesse crescido em algum bairro mais nobre, em lugar de gozar a doce infância que apenas as vilas da Zona Norte garantem.

Ele também tinha verdadeiro horror aos abusos de poder cometidos por muitos oficiais e às estúpidas separações estabelecidas entre "praças" e "oficiais" em diversos ambientes militares - por exemplo, nos serviços de saúde da Marinha, onde ainda hoje existem enfermarias e salas de espera separadas (tirando a morgue, pois a morte nivela). Às vezes, quando encontrávamos com velhos conhecidos na rua, eles sempre lembravam que a administração honesta de meu avô garantia boa mesa a TODOS que serviam em "seus navios", ao contrário da maioria das embarcações, onde a mesa dos oficiais sempre era mais farta. Meu avô sabia o que era igualdade e sempre lutou por ela de várias maneiras, com os meios a seu alcance, dentro e fora da Marinha - ao contrário de muitos "esquerdistas" que olham o garçom de cima e regateiam o preço da diarista. Waldo Luiz conhecia os antigos garçons do Amarelinho pelo nome.

Meu avô também era cavalheiro no mais alto grau. Desde pequeno me ensinou a respeitar e admirar as mulheres. Nunca o vi proferindo uma piada sexista ou me induzindo a comportamentos machistas. Nunca mostrou medo de que eu me tornasse "mariquinha" ou me pressionou para ser "machão". Qual Timur, nunca temeu Turandot e seus decretos ao "popolo di Pechino". Aos 4 anos de idade, em plena época dos Super Amigos, ganhei uma Mulher Maravilha de presente dele, o que escandalizou muita gente em minha escola - embora ele ficasse, a seu turno, escandalizado quando minha mãe me deixava lambuzar a cara de maquiagem para brincar de palhaço. Era um romântico em muitos sentidos, como apenas os guerreiros e trabalhadores do mar podem ser - aqueles que, como dizia Jorge Amado, nunca sabem se retornarão vivos da próxima jornada de trabalho. Aqueles que se despedem com beijos demorados que sempre podem ser os últimos. "Sua avó ainda é uma mulher muito bonita, mas ela era ainda mais linda quando jovem". Rio ao me recordar de uma cena que vi sem querer, em certo 1º de Janeiro: um beijo com direito a dentaduras enganchadas!

Com efeito, meu avô foi o último de uma longuíssima linhagem de marinheiros, cujas memórias se perdem na noite dos tempos. Marinheiros de cabotagem, que vagavam entre as vagas e vagalhões de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. Ainda em 2004 pude conhecer um velhinho em Laguna que se lembrava do "Paranaguá Velho" - apelido pelo qual meu bisavô era conhecido naqueles portos. O mais antigo testemunho que persiste dessa gente brava e temerária é uma pequena imagem setecentista de Nossa Senhora dos Navegantes, passada de mão em mão entre as gerações de mulheres do clã Tavares, tão acostumadas a rezar por seus homens submetidos aos caprichos de Iemanjá, Poseidon e todas as forças que, como dizia Homero, sacodem os muros da Terra. Reza a lenda familiar que uma de nossas matriarcas teria chegado de Portugal a Santa Catarina agarrada a um barril, como sobrevivente de um naufrágio. Quando li o Silmarillion não pude deixar de ouvir o eco mítico do mar que banhava as belas proas dos Teleri de Alqualondë como ainda banha os barcos de Laguna. Proas em forma de cisne, diz Tolkien. Sempre choro quando ouço o Cisne Branco. Sempre.

Fui iniciado muito cedo nos remos, no Parque de São Lourenço e no mar de Guarapari. Há dez anos não pego nos remos, mas tenho certeza que bastará sentar e estender as mãos, e os movimentos virão espontaneamente, pois brotam do sangue, dos nervos dos músculos. Deve estar em algum de nossos cromossomos. Sempre percebi que minha escolha por Clio em detrimento de Poseidon foi uma decepção para meu avô, embora ele jamais tenha verbalizado isso, respeitando minha liberdade, sem onerá-la com o peso esmagador de uma antiga tradição familiar. Se o Divo Posido requisitar um de meus filhos ou netos para suas proas, ficarei feliz por restituir o que lhe pertence.



Como muitos brasileiros de sua geração, meu avô tinha pavor do "Comunismo". Movido por esse pavor, temia (um tanto ingenuamente) uma revolução liderada por Jango: Cuba projetava uma longa sombra sobre o imaginário brasileiro daquela época, que apenas agora começa a se deitar. Achando que cumpria um dever, participou do Golpe de 64, "em defesa da democracia", e só tomou consciência da imprudência após a morte de Castello Branco - um atentado, tinha "certeza". 

Mesmo apesar desse arrependimento - ou talvez por conta dele - tinha também "certeza" de que Jango instauraria uma ditadura comunista no Brasil. Jânio - dizia ele - nunca fora comunista, mas também pensara em estabelecer uma ditadura. Ouvi muitas vezes as pessoas de minha família discutirem a natureza das famosas "forças ocultas" - assunto verdadeiramente teológico. Ao fim e ao cabo, meu avô sempre ressaltou que o Golpe fora, na verdade, uma "Contrarrevolução" que salvara o Brasil do perigo vermelho, e que uma ditadura comunista teria sido bem pior que a Ditadura Militar. As culpas e arrependimentos muitas vezes nos induzem ao exercício da História "contrafactual", suponho. Por outro lado, percebo que as conspirações permeavam o imaginário anterior e posterior a 64. Minha avó muitas vezes mencionava em tom cético os muitos boatos que corriam desde o Estado Novo; costumava terminar com uma pausa dramática, complementando com uma frase breve e enfática: "Dizem".

Cresci vendo meu avô berrar "Caudilho! Caudilho!" para a televisão sempre que Brizola aparecia na tela. Acusava o político gaúcho de ser um "demagogo", mas jamais o vi reproduzir o famigerado "Brizola defende bandido" (cuja recente reedição bem conhecemos). Tampouco me recordo de ouvir acusações infundadas sobre corrupção contra o cunhado de Jango. Como Lancelot ou Gauvain, Gernot e Giselher, ele sabia respeitar seus "adversários" na medida certa.

Apesar de todo esse pavor, quando lhe revelei, aos 14 anos de idade, minhas inclinações socialistas, sempre adotou uma postura respeitosa e jamais tentou me demover desse posicionamento. Somente depois de adulto compreendi a grandeza verdadeiramente democrática dessa atitude. Meu avô amava a liberdade, ao contrário de muitos que hoje gritam "golpe" enquanto lamentam a morte do "grande" Fidel. 

Ele realmente amava a democracia, com um amor romântico à la folie, como o Don José de Bizet, que ele tanto apreciava. Como todo romântico, amava platônica e idealmente: uma imagem brilhante e um tanto desencarnada da democracia americana. Afinal de contas, ele morou oito meses em Filadélfia (hoje tombada pela UNESCO), à sombra de William Penn e de Benjamin Franklin, de dois Congressos Continentais e da Constituição Americana, que ele muito admirava. Uma mitologia como tantas outras, comparável àquela que paira em torno de Havana - talvez, quem sabe, até mais real. Acabo de descobrir, graças ao Google, que o nome Philadelphia deriva do grego philos e adelphos, traduzível como "amor fraternal" ou "amizade fraternal". Meu avô provavelmente sabia disso, e imagino que devia apreciar esse nome. Ele também sonhava com um mundo repleto de fraternidade, como ex-católico-"não-praticante" e espírita-"não-praticante" - era um homem bastante espiritual, embora evitasse frequentar instituições religiosas.

Ben Franklin, imagino, teria apreciado a companhia de meu avô, que foi um homem muito "moderno", nos vários sentidos da palavra. Em 1951 trouxera dos EUA uma avançadíssima máquina de escrever portátil Royal (o notebook da época) e uma vitrola e muitos LPs quando a tecnologia ainda nem era comercializada no Brasil. A vitrola se foi muitas décadas atrás, e os discos foram doados à Rádio MEC - quando ouvir Caruso, Callas ou Sumac, talvez seja um desses. A máquina Royal permanece aqui em casa, e ainda uso um belíssimo grampeador Swingline forjado em aço - uma peça brutal, onde se adivinham talvez Le Corbusier e um Streamline tardio.

Liberdade, igualdade, fraternidade - sem saber, acho que meu avô me fez "jacobino". Sem a guilhotina, a seu modo, também ele era um jacobino.

Meu avô era um homem muito corajoso, amoroso, inteligente e generoso, de índole um tanto quixotesca. Contraditório, como todos nós. Errar é humano, e meu avô sempre agiu de modo coerente com suas convicções, equivocadas ou não; de certa maneira, em muitos momentos agiu certo pelos motivos errados. Não era ingênuo, nem cínico, embora tenha sido muitas vezes temerário. Nunca se furtou a participar da vida política de nosso país, e nunca deixou de assumir a responsabilidade por seus equívocos - ao contrário de muitos políticos que nunca sabem ou se lembram de nada. Pouco cedia à tentação do esquecimento. Sempre se posicionou com coragem e sinceridade, e nunca se esquivou covardemente de seus atos ou de suas consequências. A seu modo, meu avô foi um cidadão exemplar. Eu certamente não faria as mesmas escolhas que ele fez, mas certamente tento escolher como ele fez: com dignidade.

Muita gente chorou em seu velório, o que, segundo os chineses, é sinal de uma vida bem vivida. Um velho amigo, residente em São Paulo, veio para o Rio de Janeiro quando soube que ele "baixou enfermaria" no Marcílio Dias, delirante devido à violenta metástase cerebral. Esse velho companheiro de caserna dizia: "Só vou embora quando meu amigo sair desse hospital, saudável ou no caixão". Com efeito, ele só partiu do Rio depois do sepultamento. Acho que essa anedota diz muito sobre quem foi Waldo Luiz Tavares.

Meu avô sempre teve ojeriza a figuras como Castrou ou Médici: apenas ditadores cruéis, embora de lados diferentes das muralhas ideológicas. Apesar de socialista, concordo plenamente com ele. A imagem de todos os tiranos se torna pálida ao lado de pessoas vívidas e vividas como meu avô. Gosto de crer que ele hoje descansa na paz de Deus; se sua alma realmente ainda existir ou for em algum lugar, tenho certeza de que ele deseja o mesmo para Fidel Castro - que Deus o tenha.

A romancista Lian Hearn sugere que atingimos a verdadeira maturidade quando aprendemos a honrar e amar nossos pais embora sejamos capazes de enxergar claramente seus defeitos. Meu avô faleceu há exatamente dezesseis anos e um mês; a cada dia descubro, retrospectivamente, novos motivos para amá-lo. 

De certo modo, acho que esse texto testemunha minha entrada definitiva no mundo dos adultos, saindo finalmente do porto da infância para singrar esse mar aberto que fazia sonhar meus ancestrais. Parece que Ray Bradbury tinha razão: as digitais de nossos antepassados estão marcadas na argila de nosso cérebro...

sábado, 26 de novembro de 2016

Autoconhecimento com Star Wars

Em muitos momentos sou como Luke Skywalker: sonhador, nobre, intuitivo e vagamente hiperativo.

Outras vezes sou como Leia Organa: sabichão, impetuoso, Rebelde, sarcástico e secretamente inseguro.

Às vezes exercito meu lado Han Solo: mal humorado, sacana, um tanto cínico.

Também há a vertente Anakin Skywalker: agressivo, talentoso, vaidoso, ambicioso e tentado pelas sombras. Felizmente, o Jedi sempre retorna...

Também tenho minhas facetas C-3PO, Wicket e R2-D2: resmungão, fofo, infantil e barulhento.

Vivo em busca do meu Yoda anterior, mas me contentaria em chegar a Obi-Wan Kenobi (ou mesmo Qui Gon Jinn).

Na maior parte do tempo sou como Chewbacca: peludo, leal e cheio de vontade de arrancar braços... AAAAAHHHRRRR!!!!

Executando a célebre "Defesa de Tatooine" no Holochess.

Sobre a morte de Fidel Castro

Não vou dizer nada sobre a morte de Fidel Castro, por um bom motivo: não tenho nada a dizer. Mas só isso já é dizer alguma coisa...

Sofrimento e estatísticas

É fácil mentir usando estatísticas, especialmente quando a própria estatística parte de estimativas duvidosas.

Por exemplo, acabo de ler que talvez 1 milhão de mulheres francesas sejam vítimas de violência sexual ou doméstica por ano. Acho que está muito majorado. Se fosse verdade, em 30 anos TODAS as mulheres francesas teriam sido vitimadas. Tendo a duvidar.

Enfim, UMA única mulher violentada ou agredida já é grave suficiente para mim; não vejo necessidade de recorrer a exorbitâncias estatísticas para ficar indignado com a situação. Pelo contrário, tentativas de quantificar o sofrimento humano muitas vezes me escandalizam. Para uma mulher estuprada, pouco importam os números. A dor infinita, multiplicada por 2, 5, 10 ou um milhão, permanece infinita em qualquer caso. É questão de intensidade, não de quantidade. Os historiadores nunca chegaram a uma estimativa confiável dos mortos no massacre de São Bartolomeu - ainda assim, não há dúvidas sobre sua monstruosidade.

Por sinal, "gravis" em latim significa "pesado". De fato, acho que a oposição peso versus quantidade sugere uma maneira relevante para pensar o problema - ou "ponderar" sobre ele.

Enfim, um país onde apenas uma mulher fosse estuprada por ano seria certamente menos pior que um país onde isso ocorresse com um milhão; ainda assim, seria uma insuportável dose de sofrimento.
 
Está lançada a polêmica...

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Videogame na Escola 4 - O peso da indisciplina estudantil

Hoje, pela manhã, dava prosseguimento ao projeto com uma das turmas envolvidas. Estamos na fase criação coletiva dos protagonistas. O cronograma de hoje previa a elaboração dos gráficos de dois protagonistas, uma votação para decidir o título do jogo e atividades independentes em grupos.

Doce ilusão.

Tudo correu bem durante os primeiros 15 ou 20 minutos: a turma participava interessada e motivada. Nesse momento entrou (atrasado, como sempre) um estudante bastante problemático e indisciplinado, que faz de tudo em sala de aula - excetuando participar das atividades propostas. Vindo de outra escola, apresenta sérios problemas de convivência desde o início do ano letivo, desrespeitando cotidianamente colegas e professores. Ao que tudo indica, ele não apresenta quaisquer transtornos psiquiátricos ou distúrbios cognitivos: é apenas um jovem mal educado e largado pela família.

Enfim, a entrada do garoto feriu de morte a minha aula. Gritos, batuques, provocações a colegas, brincadeiras inoportunas. As constantes interrupções que se fizeram necessárias quebraram completamente o ritmo da atividade proposta, ao mesmo tempo que três outros estudantes aderiam ocasionalmente ao tumulto, agravando a situação.

As atividades planejadas não foram desenvolvidas; sequer conseguimos concluir a primeira delas! UM aluno conseguiu prejudicar cerca de 20 colegas, inutilizando dois tempos de aula (custeados pelo contribuinte carioca, convém lembrar).

O caso - tristemente comum - ilustra os apuros do professor da rede pública. Ao que tudo indica, o único pleno sujeito de direitos na atual escola pública é o mau aluno. Seu direito de estar na escola (para quê?) está acima do bem e do mal. Acima, inclusive, do direito de seus colegas a uma educação de qualidade. Acima também do dever do professor de oferecer atividades pedagógicas consistentes e construtivas.

Obviamente não digo que esse aluno deve ser sumariamente expulso da educação pública. No entanto, de nada adianta tê-lo na escola APENAS como fator de perturbação, prejudicando a aprendizagem de inúmeros colegas. Alunos como esse, de fato, precisam de muitas coisas:

1) Limites - o que se torna difícil com um regimento escolar leniente, baseados em questionáveis e rasas interpretações do Estatuto da Criança e do Adolescente, que parecem esquecer que também o estudante interessado tem direito à educação - direito esse que lhe é cotidianamente usurpado. Também se torna difícil com um conselho tutelar completamente ausente e ineficiente.

2) Recursos humanos - mais inspetores e coordenadores pedagógicos, para começar; uma escola com mais de mil alunos não tem como funcionar satisfatoriamente com menos de 10 profissionais de apoio - que dirá com 6...

3) Atendimento especializado - psicólogo e, principalmente, assistente social que atue CONTINUAMENTE junto à família.

4) Reprovação -  exatamente, a "palavrinha com R". É simplesmente inadmissível que um aluno de 12 anos chegue ao 6º ano analfabeto funcional e sem qualquer noção de regras de convívio; a vinculação das taxas de aprovação ao cálculo do IDEB é evidentemente parte do problema (cortesia do governo Lula).

5) Incentivos sociais adequados - que tal se benefícios como Bolsa Família (muito necessários, por sinal) não fossem condicionados apenas à presença do estudante na escola; por exemplo, se a família tivesse obrigação de comparecer periodicamente à escola?

Por outro lado, esse tipo de situação joga por terra clichês como "o aluno é indisciplinado porque a escola não é divertida, estimulante etc". O que mais seria possível fazer para "estimular" e "divertir" esse estudante?

Em suma, a escola precisa ser uma solução para esse tipo de aluno. Enquanto faltarem aos professores e demais profissionais da educação recursos como os mencionados, esses estudantes permanecerão como um estorvo para a escola e um empecilho à educação dos colegas, fragilizando o direito universal à Educação.

E aí, nem o mais inovador projeto pedagógico dá conta do recado...

"Tô chegando pra acabar com a aula!!!"

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Para que servem os estereótipos?

Estereótipos podem ser bem usados pelo escritor, desde que se saiba bem com que finalidade. Usar estereótipos abre possibilidades muito interessantes no campo da narrativa propriamente dita. Me parece que o problema todo é: o escritor usa os estereótipos ou os estereótipos "usam" o escritor? Quem está "no comando" da situação? Para narrativas cômicas ou satíricas, por sinal, o estereótipo pode ser uma ferramenta maravilhosa.

Os já clássicos filmes da franquia De volta para o futuro são um ótimo exemplo de narrativa brilhante elaborada a partir de estereótipos. Doc Brown é apenas um "cientista maluco" e Marty McFly é o clássico "adolescente inseguro que tenta parecer descolado". Os personagens secundários são apenas valentões, garotas românticas, nerds, o inspetor durão da escola, o bandido do Velho Oeste... e tudo funciona maravilhosamente! 

Por outro lado, essa obsessão recente por "personagens profundos" muitas vezes se torna uma receita para a "xaropada"...

domingo, 20 de novembro de 2016

Roleta bizantina

Toda semana uma mão invisível gira a roleta para decidir qual polêmica nos ocupará como questão de vida ou morte nos dias seguintes.

Nesses momentos, me pego gritando incansável e desesperadamente: "Playstation! Playstation! Playstation!"...

Constantinopla é aqui...

Fim de festa

Texto do amigo Fred Oliveira

Um ano atrás tava todo mundo junto: PMDB, PT, PP, entre outros. Se fingir de desentendidos agora e falar da crise e da roubalheira como algo que surgiu nos últimos meses é endossar patifaria. Basta passear pela net que nas fotos e reportagens estavam todos juntos rindo dos bobos que os aplaudem enquanto sangravam dinheiro público para particulares e propina lavada para políticos e dirigentes partidários. Sem falar da incompetência e da má gestão da coisa pública, cuja evidência mais eloquente está aí por todos os lados! Mas tem gente nesse país de torcida que ainda aplaude e cria inimizades para defender político... Triste tudo isso!

Lula e Cabral - Para não esquecer

"Votar em Sérgio Cabral é quase uma obrigação moral, ética, política. É um compromisso de honra pra quem quer garantir um futuro melhor para os nossos filhos, para os nossos netos, para aqueles que a gente ama, porque esse homem já provou que é um homem de bem, que é um homem que gosta do Rio e que é um homem que tem competência pra fazer as coisas que outros não fizeram. Por isso, meu companheiro Sérgio, se eu não tivesse que votar em São Paulo, eu iria transferir o meu título pra votar em você pra governador do Rio de Janeiro".

Lula, em comício na Cinelândia em 16 de julho de 2010 (transcrição e grifos meus).

Dilma, Temer, Picciani, Paes, Lindbergh: ótimas companhias...