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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O Cidadão de Bem

O cidadão de bem espanca (supostos) criminosos até a morte.

O cidadão de bem não gosta de arrastão na praia.

O cidadão de bem ataca o ônibus dos "cidadãos de mal".

O cidadão de bem fuma em espaços para não-fumantes.

O cidadão de bem joga guimbas de cigarro na rua.

O cidadão de bem dirige em alta velocidade e reclama da "indústria da multa".

O cidadão de bem avança os sinais.

O cidadão de bem faz bandalha no trânsito.

O cidadão de bem dirige alcoolizada (só para ir "ali pertinho").

O cidadão de bem puxa arma em briga de trânsito.

O cidadão de bem paga a cervejinha do guarda.

O cidadão de bem é trabalhador, mas ameaça as pessoas em qualquer discussão.

O cidadão de bem desrespeita os professores do filho.

O cidadão de bem mexe com as mulheres na rua, tirando as "moças de família".

O cidadão de bem compra DVD pirata.

O cidadão de bem traz muamba de Miami.

O cidadão de bem sonega impostos.

Tendo o cidadão de bem, quem precisa de criminosos?

Desobediência Civil - o que é, para que serve, como funciona

Quando uma lei ou uma autoridade é injusta e atenta contra nossa consciência, ela deve ser desobedecida. Isso é Desobediência Civil.

Henry-David Thoreau (1817-1862), um dos primeiros pensadores da desobediência civil, era radicalmente contrário à escravidão, e pregava que todo cidadão norte-americano que fosse contrário a essa vil instituição tinha o dever moral de desobedecer ao governo e às autoridades que mantinham essa ordem injusta.

Para Thoreau, só existe verdadeira liberdade quando as pessoas botam suas consciências acima das leis e se recusam terminantemente a obedecer cegamente as leis, uma vez que sabemos que, em sua maioria, as leis são elaboradas pelos poderosos, como forma de defender seus interesses. Assim, o exercício da verdadeira cidadania e da democracia plena passa, necessariamente, pela desobediência civil, ou seja, pela firme disposição a não obedecer às injustiças.

A obediência constitui os fundamentos do poder governamental e, em sentido inverso, a desobediência consciente, que se recusa a aceitar ordens injustas e imorais, constitui a base do poder e da soberania do povo. Nesse sentido, a prática da desobediência civil exige sabedoria e reflexão; precisamos saber o que vamos desobedecer, por que vamos desobedecer e como vamos desobedecer.

A desobediência civil se pauta pelo princípio de não-violência, ou seja, a oposição de uma força moral contra a força bruta. Como dizia Gandhi, a verdadeira força da desobediência civil reside na legitimidade e na justiça da causa defendida, assim como na firme decisão de não descer ao mesmo nível que o agressor, respondendo à violência com uma resistência serena, mas inexorável. Do ponto de vista da não-violência, os fins não justificam os meios; pelo contrário, tanto os fins quanto os meios precisam ser justos.

À medida em que a desobediência civil parte de um imperativo de consciência, não são necessárias muitas pessoas para praticá-la. Basta a atitude firme e consciente de uma única pessoa que se recusa a obedecer a ordens injustas. Foi o caso de Rosa Parks, que em 1954 se recusou a obedecer às leis racistas do estado do Alabama, que exigiam que ela cedesse lugar no ônibus aos passageiros brancos. Um gesto simples de desobediência, sem nenhum manifesto grandioso ou discurso eloquente. Rosa Parks foi encarcerada, mas seu gesto de coragem foi o principal estopim para o Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos, que em apenas 14 anos inspirou milhões de negros a lutar pela igualdade de direitos nos EUA e, nesse período relativamente curto de tempo conseguiu fazer com que fossem extintas todas as leis baseadas na discriminação racial que existiam nos EUA. Não é preciso muito para começar, apenas a força de um exemplo, um único exemplo oferecido por uma pessoa que se recusa a ceder diante da injustiça.



A desobediência civil bota as autoridades diante de um impasse. Só existem três atitudes que o poder instituído pode tomar em relação àquele que desobedece: ignorar, punir ou ceder. No começo, muitas vezes, os gestos de desobediência são simplesmente ignorados.

Depois, quando se tornam incômodos demais, são punidos de diversas formas: agressão verbal, difamação, represálias financeiras (como descontos ou cortes salariais), força bruta (lacrimogênio, spray de pimenta, bala de borracha, cassetete, bala de chumbo etc), encarceramento e, eventualmente, execução. Nessas horas, é difícil se manter fiel ao princípio de não-violência, mas é necessário, caso não desejemos nos tornar algo pior do que aqueles que enfrentamos. É preciso lembrar que aqueles que lutam contra monstros muitas vezes também se tornam monstros, se não tiverem fidelidade a seus princípios. Isso é ainda mais complicado quando consideramos que, às vezes, se faz necessário persistir na resistência firme e não-violenta durante semanas, meses ou até anos. No entanto, como dizia Gandhi, por mais que a violência às vezes pareça rápida, os ódios que ela gera podem se prolongar por décadas ou séculos, criando malefícios que duram muito mais tempo que seus supostos benefícios imediatistas.

Por fim, a desobediência civil eventualmente atinge uma massa crítica em que o número de pessoas unidas pela causa e se torna tão grande e tão forte em sua firme determinação de continuar lutando apesar das represálias, fazendo com que a justiça da causa se torne evidente para todos, que só resta uma alternativa às autoridades injustas: ceder.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A "exquerda" que a direita gosta


Para a "exquerda" (ops, esquerda), a Dilma e/ou o PT sempre estão prestes a executar um brilhante xeque-mate daqui a muitas, muitas, muitas... muitas jogadas...

Os líderes sempre sabem o que fazem, não é verdade? Caso contrário, eles não seriam líderes. O Führer, digo, o líder (eu aqui trocando as línguas, vejam só - deve ser porque eu sou um poliglota elitista da Zona Norte) sempre sabe o que faz.

PMDB? Eduardo Cunha? Alianças estranhas? "Cidadania pelo consumo"? Joaquim Levy? Kátia Abreu? Não, essas coisas não existem, claro que não. Nem pensar! Nem que a vaca tussa! Tudo invenção da imprensa golpista, obviamente, sempre. Apesar da crise. Que crise?

Toda aliança é boa, principalmente quando o líder de infinita sabedoria escolhe. O líder sabe. O líder vê coisas que nós não vemos. Claro que não. O líder sabe que precisa ceder agora, e depois ceder de novo, e então ceder mais um pouquinho - e aí seremos cobertos por aquela gloriosa chuva de bênçãos e conquistas sociais, como o maná que cai dos céus. Porque as soluções sempre vêm de cima. Aleluia!

Os banqueiros gostam do governo? Qual é o problema? Agradar agora é crime?! Você é golpista?! Você é coxinha? Seu golpista! Batedor de panelas de inox! Confesse: você é um racista, homofóbico, que não gosta de ver pobres no aeroporto. Essa é única razão possível para criticar o governo. Não existem outras. Não, não. Você não passa de um cretino preconceituoso que gosta de bater panelas de inox na sua varanda gourmet. Aposto que você é um homem-branco-heterossexual-de-classe-média. Um estuprador em potencial! O seu problema é que você não percebe que esse governo ERRADICOU a miséria em nosso país, excetuando uns poucos mendigos nas grandes cidades. Você não aceita que agora um pobre pode comprar uma televisão de 170 polegadas em 348 parcelas no cartão de crédito. É claro que é isso, só pode ser! Pensa que me engana?!

Somos um país socialista, você ainda não percebeu? É que os líderes são tão espertos que ninguém percebeu ainda a implantação de nosso regime socialista-stalinista-bolivariano-pós-neo-ultra-liberal. Tirando a imprensa golpista.

Na verdade, os líderes são tão estupidamente-puxa-brilhantes que eles manipulam a imprensa golpista, que denuncia de mentirinha o nosso regime socialista-stalinista-bolivariano-pós-neo-ultra-liberal de vanguarda. É tudo um grande teatrinho, seu bobo!

Sábio é o homem que segue seu líder, pois ele é ainda mais sábio. Precisamos do líder para dizer o que é melhor para nós. Amém!

Já tivemos a "Copa das Copas". Em breve, teremos a "Olimpíada das Olimpíadas". Viva! Muda mais! Uau! Puxa! Caramba! Re-uau! Dilmãe!

Ninguém segura esse país. Ele é um país que vai pra frente, devagar e sempre. Ame-o. Ou deixe-o.

Deixe-o, principalmente, se você for da "esquerda que a direita gosta". Deixe-o, se você é um professor de ensino básico, que merece apanhar da PM do Sérgio Cabral, que merece ter seu salário descontado pelo digníssimo prefeito Eduardo Paes. Aqueles, lembra, para os quais o presidente Lula, nosso sapientíssimo salve-salve líder fez campanha eleitoral em 2000 e sempre. Violento é o Beto Richa, apenas. Violência, só do PSDB. Somos UM Rio! Ame-o ou deixe-o.

Cada um recebe o que merece, tirando aqueles que receberam, mas não mereciam, e aqueles que mereciam, mas não receberam.

Brasil. Curta-o, compartilhe-o. Ame-o ou deixe-o. Quem não votou na Dilma, votou no Aécio. É claro!

Em breve, seremos uma PÁTRIA EDUCADORA, talvez até uma pátria educada - pela boa didática do lacrimogênio, do spray de pimenta e do casse-tête (como sou poliglota, prefiro apanhar em bom francês). Vejam os americanos, que amam sua pátria. Eles respeitam sua bandeira. Cada americano é uma bandeira de seu país. A Pátria será educadora, ou não será! Ame a Pátria. Ou deixe-a.

Como dizem os bons camaradas da "vanguarda" sindical, "para ter conquistas, é preciso dar vinte passos atrás, para depois dar mais vinte passos atrás, para depois dar um passo à frente" - ou será que me enganei?! Com passinhos de formiguinha, chegaremos, obviamente, no formigueiro.

O que são 16 anos diante da Eternidade? Tudo virá no tempo de Deus, o Messias está sempre chegando. Para sempre daqui a pouco. A longo prazo, todos estaremos mortos - mas quem se importa? O importante é que temos uma liderança segura, que nos levará ao futuro, onde quer que ele esteja.

Pensando melhor, precisamos cada vez mais de uma "esquerda sem futuro", a esquerda que a direita não gosta...

domingo, 13 de setembro de 2015

Leituras - "O cachorro e seu menino", de Eva Ibbotson

Literatura infanto-juvenil é coisa muito séria. Precisamos oferecer a nossas crianças e jovens obras de boa qualidade, para a formação das pessoas sensíveis e críticas de que nosso mundo tanto necessita.

Nesse sentido, O cachorro e seu menino, da austríaca radicada na Inglaterra Eva Ibbotson, é altamente recomendável, reunindo boa história e escrita sofisticada. A trama é muito simples: Hal é um menino rico, que deseja ardentemente ter um cachorro. No entanto, sua frívola mãe não quer um animal que estrague sua impecável e luxuosa casa. O livro narra as aventuras de Hal para permanecer ao lado de Pintado, seu amigo de quatro patas. A narrativa alterna momentos cômicos, comoventes, melancólicos, irônicos ou ternos, sem jamais pender para o histriônico ou o piegas. Para maiores detalhes, leia o livro!

O que vale destacar aqui é a maestria literária com que Eva Ibbotson desenvolve essa trama tão simples. Com linguagem sutil, delicada e acessível ao público infantil, a autora traça profundas reflexões e críticas sobre a sociedade de consumo e a superficialidade e efemeridade das relações humanas no tempo em que vivemos, sem jamais soar grandiloquente ou entregar ao pequeno leitor uma moral embrulhada para viagem, deixando à criança espaço para pensar por contra própria. Essas críticas são magnificamente conduzidas através dos inúmeros personagens, nobres ou sórdidos, que aparecem ao longo da trama, sempre elaborados de modo convincente, caracterizados através de suas motivações e desejos profundos. A riqueza de caracterização dos personagens quase faz pensar num Tolstói para crianças! Vale também ressaltar que essa postura crítica e irônica da autora jamais se faz de modo cínico, ácido ou mordaz, sempre temperada por boas doses de compaixão, compreensão e bom humor.

Eva Ibbotson faleceu em 2010, aos 85 anos, deixando uma extensa e premiada obra. Fiquei interessadíssimo em conhecer outros livros da autora. Recomendo O cachorro e seu menino para todas as crianças leitoras - inclusive aquela criança que existe dentro de cada adulto!

sábado, 12 de setembro de 2015

Livros queimados e outros atos de barbárie

Extrato do discurso do Capitão Beatty no visionário Fahrenheit 451, clássico de Ray Bradbury, que em 1953 imaginava um futuro onde a função dos bombeiros (firemen) não seria apagar incêndios, mas queimar livros...

"Todo bombeiro, cedo ou tarde, passa por isso. Eles só precisam compreender, saber como as rodas giram. Precisam conhecer a história de nosso ofício. Essa história não é contada para os recrutas, como costumavam fazer. Uma grande lástima. [...] Hoje, só os bombeiros-chefes se lembram disso. [...]

Você pergunta: quando tudo começou, esse nosso trabalho, como surgiu, onde, quando? Bem, eu diria que ele realmente começou por volta de uma coisa chamada Guerra Civil, embora nosso livro de regras afirme que foi mais cedo. O fato é que não tivemos muito papel a desempenhar até a fotografia chegar à maioridade. Depois, veio o cinema, no início do século vinte. O rádio. A televisão. As coisas começaram a possuir massa. [...]

E porque tinham massa, ficaram mais simples. [...] Antigamente, os livros atraíam algumas pessoas, aqui, ali, por toda parte. Elas podiam se dar ao luxo de ser diferentes. O mundo era espaçoso. Entretanto, o mundo se encheu de olhos, cotovelos e bocas. A população duplicou, triplicou, quadruplicou. O cinema e o rádio, as revistas e os livros, tudo isso foi nivelado por baixo, está me acompanhando? [...]

Imagine o quadro. O homem do século dezenove com seus cavalos, cachorros, carroças, câmera lenta. Depois, no século vinte, acelere sua câmera. Livros abreviados. Condensações. Resumos. Tablóides. Tudo subordinado às gags, ao final emocionante. [...]

Clássicos reduzidos para se adaptarem a programas de rádio de quinze minutos, depois reduzidos novamente para uma coluna de livro de dois minutos de leitura, e, por fim, encerrando-se num dicionário, num verbete de dez a doze linhas. Estou exagerando, é claro. Os dicionários serviam apenas de referência. Mas, para muitos, o Hamlet, certamente você conhece o título, Montag; provavelmente a senhora ouviu apenas uma vaga menção ao título, senhora Montag, o Hamlet não passava de um resumo de uma página num livro que proclamava: Agora você finalmente pode ler todos os clássicos; faça como seus vizinhos. Está vendo? Do berço até a faculdade e de volta até o berço; este foi o padrão intelectual nos últimos cinco séculos ou mais. [...]

Acelere o filme, Montag, rápido. Clique, Fotografe, Olhe, Observe, Filme, Aqui, Ali, Depressa, Passe, Suba, Desça, Entre, Saia, Por Quê, Como, Quem, O Quê, Onde, Hein?, Ui! Bum! Tchan! Póin, Pim, Pam, Pum! Resumos de resumos, resumos de resumos de resumos. Política? Uma coluna, duas frases, uma manchete! Depois, no ar, tudo se dissolve! A mente humana entra em turbilhão sob as mãos dos editores, exploradores, locutores de rádio, tão depressa que a centrífuga joga fora todo pensamento desnecessário, desperdiçador de tempo! [...]

A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas? [...] O zíper substituiu o botão e o homem não tem muito tempo para pensar ao se vestir pela manhã; uma hora filosófica e, por isso, melancólica. [...] A vida se torna um grande tombo de bunda no chão, Montag; tudo é pum, rá e uau! [...]

Tirar tudo dos teatros, exceto os palhaços, e instalar nas salas paredes de vidro e nelas fazer passar muitas cores alegres, como confetes, sangue, vinho tinto ou branco. Você gosta de beisebol, não gosta, Montag? [...] Mais esporte para todos, espírito de grupo, diversão, e não se tem de pensar, não é? Organizar, tornar a organizar e superorganizar super-superesportes. Mais ilustrações nos livros. Mais figuras. A mente bebe cada vez menos. Impaciência. Rodovias cheias de multidões que vão pra cá, pra lá, a toda parte, a parte alguma. Os refugiados da gasolina. Cidades se tornam motéis, as populações em surtos nômades, de um lugar para o outro, acompanhando as fases da lua, vivendo esta noite no quarto onde você dormiu hoje até o meio-dia e eu a noite passada. [...]

Agora tomemos as minorias de nossa civilização, certo? Quanto maior a população, mais minorias. Não pise no pé dos amigos dos cães, dos amigos dos gatos, dos médicos, advogados, comerciantes, patrões, mórmons, batistas, unitaristas, chineses de segunda geração, suecos, italianos, alemães, texanos, gente do Brooklyn, irlandeses, imigrantes do Oregon ou do México. Os personagens desse livro, dessa peça, desse seriado de tevê não pretendem representar pintores, cartógrafos, engenheiros reais. Lembre-se, Montag, quanto maior seu mercado, menos você controla a controvérsia! Todas as menores das menores minorias querem ver seus próprios umbigos, bem limpos. Autores cheios de maus pensamentos, tranquem suas máquinas de escrever! Eles o fizeram. As revistas se tornaram uma mistura insossa. Os livros, assim diziam os malditos críticos esnobes, eram água de louça suja. Não admira que parassem de ser vendidos, disseram os críticos. Mas o público, sabendo o que queria, com a cabeça no ar, deixou que as histórias em quadrinhos sobrevivessem. E as revistas de sexo em 3D, é claro. Aí está, Montag. A coisa não veio do governo. Não houve nenhum decreto, nenhuma declaração, nenhuma censura como ponto de partida. Não! A tecnologia, a exploração das massas e a pressão das minorias realizaram a façanha, graças a Deus. Hoje, graças a elas, você pode ficar o tempo todo feliz, você pode ler os quadrinhos, as boas e velhas confissões ou os periódicos profisssionais.

-Sim, mas onde entras os bombeiros nisso tudo? - perguntou Montag.

-Ah - Beatty inclinou-se, varando a rala névoa de fumaça de seu cachimbo. - Nada mais simples e fácil de explicar! Com a escola formando mais corredores, saltadores, fundistas, remendadores, agarradores, detetives, aviadores e nadadores em lugar de examinadores, críticos, conhecedores e criadores imaginativos, a palavra "intelectual", é claro, tornou-se o palavrão que merecia ser. Sempre se teme o que não é familiar. Por certo você se lembra do menino de sua sala na escola que era excepcionalmente "brilhante", era quem sempre recitava e dava as respostas enquanto os outros ficavam sentados com cara de cretinos, odiando-o. E não era esse sabichão que vocês pegavam para cristo depois da aula? Claro que era. Todos devemos ser iguais. Nem todos nasceram livres e iguais, como diz a Constituição, mas todos se fizeram iguais. Cada homem é a imagem de seu semelhante e, com isso, todos ficam contentes, pois não há nenhuma montanha que os diminua, contra a qual se avaliar. Isso mesmo! Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma. Façamos uma brecha no espírito do homem. Quem sabe quem poderia ser alvo do homem lido? Eu? Eu não tenho estômago para eles, nem por um minuto. E assim, quando as casas finalmente se tornam à prova de fogo, no mundo inteiro [...], já não há mais necessidade de bombeiros para os velhos fins. Eles receberam uma nova missão, a guarda de nossa paz de espírito, a eliminação de nosso compreensível e legítimo senso de inferioridade: censores, juízes e carrascos oficiais. Eis o nosso papel, Montag, o seu e o meu. [...]

Você precisa entender que nossa civilização é tão vasta que não podemos permitir que nossas minorias sejam transtornadas e agitadas. Pergunte a si mesmo: O que queremos nesse país, acima de tudo? As pessoas querem ser felizes, não é certo? Não foi o que você ouviu durante toda a vida? Eu quero ser feliz, é o que diz todo mundo. Bem, elas não são? Não cuidamos para que sempre estejam em movimento, sempre se divertindo? É para isso que vivemos, não acha? Para o prazer, a excitação? E você tem de admitir que nossa cultura fornece as duas coisas em profusão. [...]

Os negros não gostam de Little Black Sambo. Queime-o. Os brancos não se sentem bem em relação à Cabana do Pai Tomás. Queime-o. Alguém escreveu um livro sobre o fumo e o câncer de pulmão? As pessoas que fumam lamentam? Queimemos o livro. Serenidade, Montag. Paz, Montag. Leve sua briga lá para fora. Melhor ainda, para o incinerador. Os enterros são tristes e pagãos? Elimine-os também. Cinco minutos depois que uma pessoa morreu, ela está a caminho do Grande Crematório, os incineradores atendidos por helicópteros em todo o país. Dez minutos depois da morte, um homem é um grão de poeira negra. Não vamos ficar arengando os in memoriam para os indivíduos. Esqueça-os. Queime tudo, queime tudo. O fogo é luminoso e o fogo é limpo. [...]

Não se pode construir uma casa sem pregos e madeira. Se você não quiser que se construa uma casa, esconda os pregos e a madeira. Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum. Deixe que ele se esqueça de que há uma coisa como a guerra. Se o governo é ineficiente, despótico e ávido por impostos, melhor que ele seja tudo isso do que as pessoas se preocuparem com isso. Paz, Montag. Promova concursos em que vençam as pessoas que se lembrarem da letra das canções mais populares ou dos nomes das capitais dos estados ou de quanto foi a safra de milho do ano anterior. Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com "fatos" que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente "brilhantes" quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia. Todo homem capaz de desmontar um telão de tevê e montá-lo novamente, e a maioria consegue, hoje em dia está mais feliz que qualquer homem que tenta usar a régua de cálculo, medir e comparar o universo, que simplesmente não será medido ou comparado sem que o homem se sinta bestial e solitário. Eu sei porque já tentei. Para o inferno com isso! Portanto, que venham seus clubes e festas, seus acrobatas e mágicos, seus heróis, carros a jato, motogiroplanos, seu sexo e heroína, tudo o que tenha a ver com reflexo condicionado. Se a peça for ruim, se o filme não disser nada, estimulem-me com o teremim, com muito barulho. Pensarei que estou reagindo à peça, quando se trata apenas de uma reação tátil à vibração. Mas não me importo. Tudo que peço é um passatempo sólido".

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Esperando a guerra



Extraído de O sentido da vida (1889), de Édouard Rod

Para que agir? Para que empreender o que quer que seja? E como amar os homens, nesta época conturbada na qual o amanhã não é senão uma ameaça? Tudo isso que começamos, nossas ideias que amadurecem, nossas obras vislumbradas, aquele pouco de bem que teríamos podido fazer, não será carregado pela tempestade que se prepara? Por toda parte o terreno treme sob nossos pés, e nosso horizonte vai se cobrindo de nuvens que não nos serão benéficas. [...] A cada dia pensam-se as probabilidades de guerra do amanhã, e elas, dia-a-dia, tornam-se mais cruéis.
O pensamento retrocede diante de uma catástrofe que aparece no pináculo do século como o término do progresso de nossa era e, contudo, é preciso habituar-se: há vinte anos todas as forças do saber exaurem-se para inventar instrumentos de destruição e dentro em pouco bastarão alguns tipos de canhão para abater um exército; colocam-se em armas, não mais, como antes, milhares de pobres-diabos cujo sangue era pago, mas povos inteiros que estão a ponto de se estrangularem mutuamente; rouba-se deles o tempo (obrigando-os a servir), para roubar-lhes mais seguramente a vida; a fim de prepará-los para o massacre, atiça-se seu ódio, persuadindo-os de que são odiados; e homens dóceis deixam-se lograr, e logo se verão atirando-se uns sobre os outros, com ferocidade de bestas, turbas furibundas de pacíficos cidadãos a quem uma ordem inábil colocará nas mãos o fuzil, sabe Deus por que ridículo incidente de fronteira ou por que mercantis interesses coloniais! Marcharão, como ovelhas ao matadouro, mas, sabendo aonde vão, sabendo que deixam suas mulheres, sabendo que seus filhos sofrerão fome, ansiosos e ébrios pelas sonoras e mentirosas palavras trombeteadas em seus ouvidos. Marcharão sem se rebelar, passivos e resignados, enquanto são a massa e a força, e poderiam, se soubessem entender, estabelecer o bom-senso e a fraternidade, em vez das selvagens práticas da diplomacia. Marcharão, tão enganados, tão iludidos, que acreditarão ser o massacre um dever e pedirão a Deus para abençoar seus apetites sanguinários. Marcharão, pisoteando as colheitas que semearam, incendiando as cidades que construíram, com cantos de entusiasmo, com gritos de alegria, com músicas de festa. E seus filhos erigirão estátuas àqueles que melhor tiverem massacrado!
A sorte de toda uma geração depende da hora em que algum fúnebre homem político der o sinal, que será seguido. Sabemos que os melhores de nós serão forçados e que nossa obra será destruída. Sabemos e trememos de cólera, e nada podemos fazer. Ficamos presos na rede dos gabinetes e das papeladas, cuja destruição provocaria uma agitação por demais violenta. Pertencemos às leis que fizemos para nos proteger e que nos oprimem. Nada somos além de objetos dessa contraditória abstração, o Estado, que torna cada indivíduo escravo em nome da vontade de todos, que, tomados isoladamente, desejariam exatamente o oposto do que serão obrigados a fazer.
Se a geração que deverá ser sacrificada fosse ao menos apenas uma! Mas existem outros interesses em jogo.
Os oradores assalariados, os ambiciosos aproveitadores das más inclinações das multidões e os pobres de espírito, a quem a sonoridade das palavras engana, têm a tal ponto exacerbado os ódios nacionais que a guerra de amanhã colocará em perigo a existência de toda uma etnia: um dos elementos que constituíram o mundo moderno está ameaçado, aquele que será vencido deverá moralmente desaparecer e, qualquer que seja este, se verá uma força aniquilada [...] Se verá uma Europa nova se formando, sobre tais bases, tão injustas, tão brutais, tão sanguinolentas, embrutecida por tão monstruosa mancha, que não pode ser ainda pior do que a de hoje, mais iníqua, mais bárbara e mais violenta.
Assim, cada qual sente pesar sobre si um imenso desencorajamento. Agitamo-nos num beco sem saída, com fuzis apontados para nós de todos os telhados. Nosso trabalho parece o dos marinheiros que executam a última manobra quando o navio começa a afundar. Nossos prazeres assemelham-se aos do condenado a quem se oferece uma iguaria de seu agrado, quinze minutos antes do suplício. A angústia paralisa nosso pensamento, e o maior esforço que ele é capaz de calcular – soletrando os vagos discursos dos ministros, alterando o sentido das palavras dos soberanos, mudando as palavras atribuídas aos diplomatas e que os jornais divulgam desordenadamente: se será amanhã ou depois de amanhã, neste ano ou no próximo, que nos degolarão. De modo que em vão se buscaria na História uma época mais incerta e mais repleta de angústias...

A tolice da guerra



“Matar um homem é ser culpado de um crime capital, matar dez homens é multiplicar a culpa por dez, matar cem homens é multiplicá-la por cem. Isso todos os governantes da Terra reconhecem e, no entanto, quando se trata do maior crime – travar a guerra contra outro Estado - , eles o louvam!
É claro que eles não sabem que isso é errado, pois registram tais feitos para serem legados à posteridade; se soubessem que estavam errados, por que desejariam registrá-los e legá-los à posteridade?
Se um homem, ao ver um pouco de preto, dissesse que aquilo é preto, mas ao ver grande quantidade de preto dissesse que é branco, estaria claro que esse homem não podia distinguir preto e branco. Ou, se esse homem provasse algumas coisas amargas e as declarasse doces, ele seria claramente incapaz de distinguir entre doçura e amargor. Portanto, aqueles que reconhecem um pequeno crime como tal, mas não reconhecem a perversidade do maior crime de todos – a guerra contra outro Estado – mas na verdade o elogiam -, não podem distinguir o certo e o errado. Logo, quanto a certo ou errado, os governantes do mundo estão confusos”.
Mozi, pensador chinês do século V a.C.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O louco e o poste

Era madrugada. Um homem vinha caminhando pela rua. Dali a pouco, avistou um sujeito agachado sob a luz de um poste, procurando alguma coisa. Prestativo, se aproximou:

-Está procurando alguma coisa?

-Sim, perdi minhas chaves!

-Deixe-me ajudá-lo.

-Oh, muito obrigado!

Os dois homens procuravam e procuravam, mas... nada. Lá pelas tantas, o sujeito prestativo se dirigiu ao outro:

-O senhor tem certeza de que perdeu suas chaves embaixo desse poste?

-Na verdade, tenho certeza de que não perdi aqui... Mas se já está difícil encontrar aqui na luz, imagina só procurar ali no escuro!

***

Essa é uma velha piada, com várias versões, mas que sugere uma preciosa lição. Há muita escuridão e muitas chaves perdidas por aí. E muitos loucos presos a seus postes...

sexta-feira, 31 de julho de 2015

A "magia" do dinheiro

Extrato de Anatomia da vingança - Figuras  elementares da reciprocidade de Mark R. Anspach

"A fé dos indivíduos no valor do dinheiro é indispensável para o funcionamento do mercado. Os economistas ortodoxos tentam reduzir a economia monetária a uma série de transações contratuais entre pares de agentes individuais. Orléan mostra que esse mecanismo encontra seu limite quando se trata de explicar o próprio dinheiro. Este não é o resultado de um contrato entre indivíduos, só pode ser a expressão de um nível transcendente - mesmo quando se trata do caso de uma transcendência emergente, de uma autotranscendência.

Materializando-se no dinheiro, a autotranscendência do grupo social intervém como mediador nas transações entre indivíduos. E é porque o grupo como um todo é o intermediário de toda transação entre dois indivíduos que essas transações podem parecer independentes umas das outras. Mas, na verdade, participam de um vasto círculo positivo, em que cada um aceita o dinheiro que circula, na esperança de que os outros farão a mesma coisa.

A fragilidade desse círculo aparece claramente cada vez que o dinheiro entra em crise. O círculo positivo transforma-se então em círculo negativo: cada um se recusa a aceitar o dinheiro temendo que os outros façam a mesma coisa. A crença no não valor do dinheiro se autorrealiza com a mesma aparência de fatalidade que a crença em seu valor. Quando falta o "complemento de fé" necessário para a unidade do todo, o dinheiro cai por terra. É a vingança do círculo.

Evidentemente, o círculo não age sempre de forma tão fulminante. Em geral a sua vingança é insidiosa; manifesta-se não pela ruína do dinheiro, mas por uma erosão lenta e progressiva de seu valor - ou, pelo contrário, por um aumento velado desse mesmo valor, que acaba também travando as trocas. Pois, se o dinheiro se torna uma mercadoria demasiadamente rara, os consumidores vão hesitar em gastá-lo. Mas a renda dos consumidores deriva do investimento dos empresários e a renda das empresas decorre do gasto dos consumidores: outro círculo positivo pronto para mudar de orientação assim que a confiança desaparece. Dessa vez, cada um se recusará a dar seu dinheiro temendo que os outros façam a mesma coisa. Os trabalhadores terão medo de comprar se não tiverem certeza de poder encontrar um emprego bem remunerado, e as empresas terão medo de contratar se não tiverem certeza de poder vender seus produtos por um bom preço.

A economia de mercado se baseia enfim na relação circular entre dois princípios muito simples: 1) o dinheiro é obtido na troca de bens; 2) os bens são obtidos em troca de dinheiro. Enquanto a máquina ficar dando voltas, pode-se acreditar que a articulação desses dois princípios é natural. Mas, como acabamos de ver, a máquina pode ficar paralisada de duas formas: ou os agentes temem não obter dinheiro suficiente por seus bens, ou temem não obter bens suficientes por seu dinheiro. O primeiro temor traduz-se pela elevação do desemprego e o segundo, pela alta dos preços. Porém, cada um desses temores é autorrealizador. Depois que se instala, destina-se a se perpetuar. Os círculos viciosos da inflação e do desemprego não são fenômenos marginais ou contingentes. Estes desnudam a circularidade na própria base do sistema".

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Legados

Extrato do livro L`Anthropologie face aux problèmes du monde moderne, de Claude Lévi-Strauss

"Há dois ou três séculos, a civilização ocidental se dedicou principalmente ao conhecimento científico e suas aplicações. Se adotarmos esse critério, faremos da quantidade de energia disponível per capita o índice do grau de desenvolvimento das sociedades humanas. Se o critério fosse a aptidão para triunfar sobre meios geográficos particularmente hostis, os Esquimós e os Beduínos levariam os louros. A Índia soube melhor que nenhuma outra civilização elaborar um sistema filosófico e religioso capaz de reduzir os riscos psicológicos de um desequilíbrio demográfico. O Islã formulou uma teoria da solidariedade de todas as formas de atividade humana: técnica, econômica, social e espiritual, e sabem que lugar proeminente essa visão do homem e do mundo permitiu aos árabes ocupar na vida intelectual da Idade Média. O Oriente e o Extremo-Oriente possuem sobre o Ocidente uma dianteira de vários milênios em tudo que diz respeito às relações entre o físico e o moral, e à utilização dos recursos dessa suprema máquina que é o corpo humano. Atrasados nos planos técnico e econômico, os [aborígenes] Australianos elaboraram sistemas sociais e familiares de tão grande complexidade que para compreendê-los é necessário apelar a certas formas da matemática moderna. Podemos neles reconhecer os primeiros teóricos do parentesco.

A contribuição da África é mais complexa, mas também mais obscura, pois nós apenas começamos a compreender o papel de melting pot que ela desenvolveu no Mundo Antigo. A civilização egípcia é inteligível apenas como obra comum da Ásia e da África. E os grandes sistemas políticos da África antiga, suas contribuições jurídicas, seu pensamento filosófico durante muito tempo oculto aos ocidentais, suas artes plásticas e sua música são outros tantos aspectos de um passado muito fértil. Pensemos enfim nas múltiplas contribuições da América precolombiana à cultura material do Velho Mundo. Em primeiro lugar, a batata, a borracha, o tabaco [sic] e a coca (base da anestesia moderna), que, a diversos títulos, constituem quatro pilares da civilização ocidental; o milho e o amendoim, que revolucionaram a economia africana antes mesmo de serem conhecidos na Europa e, para o milho, de lá se espalhar; em seguida, o cacau, a baunilha, o tomate, o abacaxi, a pimenta, várias espécies de feijões, algodões e cucurbitáceas. Enfim, o zero, base da aritmética e, indiretamente, da matemática moderna, era conhecido e utilizado pelos maias ao menos meio milênio antes de sua descoberta pelos índios que o transmitiram à Europa por intermediação dos árabes. Por essa razão, talvez, o calendário maia era, em época igual, mais exato que aquele do Velho Mundo".

Filosofia do recesso escolar

HIPÓTESE 1: Algumas pessoas não sabem desenvolver argumentos lógicos.

HIPÓTESE 2: As paixões ideológicas distorcem a capacidade de raciocínio das pessoas.

HIPÓTESE 3: Ambas as hipóteses podem se complementar e/ou potencializar.

HIPÓTESE 4: Eu não sei raciocinar logicamente.

HIPÓTESE 5: Considerando correta a hipótese 4, as hipóteses de 1 a 3 devem ser desconsideradas.

HIPÓTESE 6: Considerando correta a hipótese 4, eu poderia ser classificado entre as pessoas que são objeto da hipótese 1.

HIPÓTESE 7:...

HIPÓTESE n: Se eu não estivesse em recesso escolar, não elaboraria esses argumentos estúpidos de forma tão detalhada.

domingo, 26 de julho de 2015

Chapolim, herói subversivo

Apesar de seu cada vez mais estrondoso sucesso mundial, o gênero artístico "super-herói" parece ser um fenômeno exclusivamente ianque. Raramente um super-herói sério produzido fora dos Estados Unidos obtém sucesso. Por incrível que pareça, acho que o Chapolim Colorado é o único grande êxito internacional do gênero criado fora dos EUA, ou pelo menos um dos maiores êxitos - mas, obviamente, não se trata de uma obra séria. Talvez seja, justamente, uma exceção que confirma a regra. Mas como explicar esse êxito? Uma explicação tentadoramente simples é que nós, latinoamericanos, não levamos nossos respectivos países a sério, fazendo sentido que nosso herói seja uma figura picaresca. Contudo, me parece possível explorar mais profundamente o pitoresco personagem.

Para tanto, lancemos primeiro nosso olhar sobre seus equipamentos, a começar pela famosa "marreta biônica". Um martelo de combate é uma arma de natureza violenta e brutal, destinada ao esmagamento de carnes e ossos. No caso de Chapolim, o malho representa uma imagem nitidamente inofensiva, composto de plástico em cores berrantes. Não transmite ideia de peso ou dureza. Parece um brinquedo, pois é, com efeito, um brinquedo. Provoca o riso, evoca certo distanciamento da realidade, e convida o espectador à brincadeira. Ninguém vai se machucar de verdade. Nenhum crânio será esmagado. Uma cabeça realmente contundida provoca medo, piedade, censura, mas um golpe da "marreta biônica" nos faz rir.


Por outro lado, temos a pílula de polegarina (ou nanicolina). Em geral, os heróis buscam instrumentos que os tornem mais fortes e poderosos, que os engrandeçam, ao passo que as pílulas reduzem o Chapolim, tornam-no fraco e vulnerável. Um gato ou um rato tornam-se ameaças temíveis para o encolhido herói. Outra inversão, ou subversão.


Para encerrar a questão dos equipamentos, lembremos a "corneta paralisadora", cujas aparições são raras, porém marcantes. Ao realizar seu efeito paralisante, constitui uma negação do movimento, enquanto as capacidades da maioria dos super-heróis tendem normalmente à ampliação do movimento, como a força do Hulk, a velocidade do Flash ou a capacidade de voo do Superman. Se, em grande medida, os super-heróis constituem pessoas "ampliadas", o Chapolim, pelo contrário, pode ser considerado, em sentidos tanto simbólicos quanto literais, uma pessoa "reduzida".


Os bordões do personagem também são indícios interessantes para interpretá-lo. "Meus movimentos são friamente calculados" e "suspeitei desde o princípio" são frases que geralmente pontuam situações onde se passa justamente o contrário, ou seja, quando Chapolim mostra menos destreza ou perspicácia, onde ele se mostra a antítese do super-herói, desastrado e tolo.

Em muitos episódios, Chapolim é vítima de abusos verbais ou físicos, e reage, encarando o espectador: "Se aproveitam de minha nobreza". O bordão também costuma ser empregado quando o personagem se vê pressionado a agir de determinada maneira. Ambas as situações denotam a vulnerabilidade do protagonista, bem como seu papel muitas vezes passivo, ao contrário do que normalmente se passa nas narrativas de super-heróis - por exemplo, Batman e Superman, dois dos arquétipos máximos desse universo raramente perdem o controle da situação, enquanto Chapolim parece quase sempre ser um joguete das circunstâncias. Por sinal, o herói mexicano muitas vezes não age movido por seus princípios, precisando ser insistentemente coagido, ao que responde com seus clássicos "sim, eu vou..." ou "sim, eu faço..."

Por vezes, o personagem consegue, numa reviravolta, dominar os problemas, pronunciando seu vitorioso "não contavam com minha astúcia". No entanto, é bom salientar que essa astúcia do Chapolim jamais se configura como as hábeis e meticulosas manobras do Batman, mas sempre como fruto de um feliz improviso. É uma astúcia de malandro, de pícaro, não de estrategista.

Em seus atos e palavras Chapolim parece sempre agir às avessas do que se espera de um super-herói. Talvez por isso viva confundindo a sabedoria comum articulada pelos ditados e provérbios, invertendo e distorcendo sua lógica e valores. O caráter confuso e caótico do personagem talvez se expresse em sua forma mais eloquente através do bordão "Palma, palma, não priemos cânico!", subversão extrema dos códigos linguísticos, que também revela o ambíguo código de ética do Chapolim, onde os termos se subvertem: o herói se dispõe a ajudar os vilões, ou pior ainda, põem-se a agredir as próprias pessoas que viera ajudar. Definitivamente, o Chapolim não é confiável.

Por fim, todas essas características parecem convergir para a própria emblemática do personagem. Chapulines são pequenos insetos da América do Norte.



No entanto, há que se ressaltar uma peculiaridade: trata-se de um inseto consagrado a usos culinários, geralmente cultivados para consumo. Sua forma de consumo mais comum é torrado e temperado com sal, alho e suco de lima.


A maioria dos super-heróis ou vilões de inspiração animal usa como "totem" alguma espécie grande ou ameçadora: morcego, tigre, carcaju ("wolverine"), lince, leopardo, urso, lobo, tubarão, rinoceronte, águia, falcão, gavião... Mesmo nos casos de pequenos insetos ou artrópodes, trata-se de animais relativamentes agressivos, como aranhas, escorpiões ou vespas. Em uma palavra, os emblemas no universo dos super-heróis remetem normalmente a espécies de predadores. Os chapulines são justamente o contrário, isto é, presas, animais destinados ao consumo e à alimentação humana. Animais que os seres humanos comem, não animais que temem. Retornamos, de certo modo, à imagem da "marreta biônica": uma arma inofensiva, que não inspira medo.

Mais ainda, animais criados em cativeiro, os chapulines são criaturas domésticas, inofensivas dominadas pelo ser humano, enquanto a maioria dos emblemas animais usados no mundo dos super-heróis remete a espécies selvagens, que escapam ao nosso domínio e controle. Não temos um Homem-Cachorro, uma Mulher-Vaca, um Super-Cavalo, um Garoto-Bode ou uma Menina-Ovelha. Tais figuras não inspirariam temor ou respeito, mas riso - como o Chapolim. Sob esse aspecto, a figura da Mulher-Gato parece bastante reveladora: é uma personagem perpetuamente dividida entre o mundo da lei e da justiça e o submundo do crime, tal como os gatos são animais semi-domesticados, imperfeitamente domados e controlados, imprevisíveis, divididos entre o lar e a rua, a meio caminho entre a cultura e a natureza.

Assim, esse pequeno ensaio sobre o Chapolim nos conduz a uma dupla conclusão: é um herói latinoamericano não apenas porque rimos dele, mas porque o associamos a uma série de imagens culturalmente arraigadas, cristalizadas e reificadas acerca da própria América Latina: fraco, tolo, desastrado, passivo, malandro, paralisado, vulnerável, pouco confiável. E assim, o aceitamos como nosso herói, porque consideramos a nós mesmos dignos (apenas?) do riso, da caçoada, do deboche. Parafraseando De Gaulle, não somos "países sérios".

Por outro lado, o contraste entre o Chapolim e os super-heróis "sérios" expõe melhor algumas das raízes desse gênero: o selvagem, o indomável, o  natural, aquilo que não pode ser controlado. Não seria Superman uma verdadeira força da natureza? Fruto de uma cultura industrial, os super-heróis revelam o quanto de "arcaico" ou "primitivo" ainda persiste em nosso espírito, o quanto tais emblemas ainda constituem uma mitologia apelativa a nossas sensibilidades. Como já dizia Lévi-Strauss, o "pensamento selvagem" continua presente entre nós e em nós...

Clio mutilada - Escalas e proporções

Dedico este mal acabado ensaio ao Prof. Guilherme Pereira das Neves,  semeador de interessantes inquietações

Há muitos anos, nós historiadores temos deixado de lado, consciente ou inconscientemente, as "grandes narrativas". As sínteses amplas e ousadas parecem nos intimidar cada vez mais, devido a considerações de caráter teórico, metodológico e, muitas vezes, ideológico. Também não me parecem desprezíveis as pressões de ordem prática, promovidas pelo sistema acadêmico vigente, especialmente as políticas de financiamento à pesquisa.

Muito se tem discutido as escalas de análise, mas a verdade é que optamos por recortes analíticos cada vez menores: regiões geográficas por vezes ínfimas, intervalos de tempo breves (ou brevíssimos), trajetórias individuais, e por aí afora.

Enxergamos cada vez melhor as árvores, mas parece cada vez mais difícil perceber a floresta ("Há floresta?" - perguntariam os pós-modernos de plantão).

Mas, no fim das contas, me pergunto: temos um problema de escala ou de projeção?

Desde o século XVI, nossos primos geógrafos lidam, de modo bastante visceral, com problemática semelhante: como representar adequadamente um planeta esférico e tridimensional sobre um suporte plano (logo, bidimensional)? Essa defasagem de uma dimensão representa tremendo desafio, implicando, grosso modo, na perda de "um terço" da realidade.

Uma maneira relativamente simples de lidar com essa questão consiste no uso de escalas cartográficas relativamente amplas (quanto maior a escala, menor a área representada), onde o fator de distorção é consideravelmente amenizado. Reduz-se o mundo a uma coleção fraturada de cartas locais, cujo cotejo fornece uma imago mundi relativamente inteligível e coerente, mas perdendo-se boa parte de sua coesão. Obtemos uma soma de quadriláteros que jamais chegarão perto da esfera: jogamos fora a curvatura, produzimos uma Terra mutilada, picotada, desconjuntada.

A representação holística e sintética de nosso planeta conduz inevitavelmente à elaboração de projeções variadas, recorrendo a diversos e complexos artifícios geométricos e matemáticos. Ao longo dos últimos séculos a ciência cartográfica desenvolveu e aperfeiçoou inúmeras formas de projeção bidimensional da Terra. Basicamente, cada projeção permite representar de forma acurada e precisa algum aspecto específico da esfera terrestre, preservando e privilegiando determinados ângulos, proporções, formas e dimensões em detrimento de outro ângulos, proporções, formas ou dimensões. Podemos ter representações fidedignas de paralelos, meridianos, continentes, oceanos ou regiões polares, mas nunca de todos ao mesmo tempo. Ainda assim, cada uma dessas projeções fornece uma aceitável impressão de conjunto de nosso planeta. Além disso, o cotejo crítico entre essas diversas projeções nos permite melhor aquilatar o efeito de suas respectivas distorções.

Por outro lado, é importante lembrar que as escalas que privilegiam a representação regional escamoteiam, mas não escapam às problemáticas de projeção - apenas as tornam menos perceptíveis e, portanto, muito mais traiçoeiras. Por menos atenção à floresta, tendemos a olhar as árvores de modo mais descuidado.

Retornemos aos domínios de Clio e à questão das "grandes narrativas": num mundo globalizado, cujas partes se tornam cada vez mais integradas, elas me parecem imprescindíveis. No entanto, como viabilizá-las? Como problematizá-las de modo satisfatório? Creio que um caminho possível seria justamente a escolha e a elaboração conscienciosas do que poderíamos pensar como "projeções historiográficas". Em grande medida, a problemática central das projeções geométricas gira em torno de ângulos, especialmente da determinação de ângulos específicos que permitam transpor e traduzir satisfatoriamente certas características do espaço representado ao suporte desejado. De certa maneira, trata-se de um exercício de distorção controlada, segundo uma perspectiva cuidadosamente selecionada, a servir como fio de Ariadne nos labirintos do espaço.

Nesse sentido, qualquer "grande narrativa" será sempre distorcida a partir de determinada perspectiva - trata-se de contingência incontornável. Por outro lado, tal como sucede em cartografia, as microescalas não evitam ou impedem distorções, apenas as tornam mais difíceis de detectar ou perceber. A partir de minha breve experiência como historiador, tenho a impressão de que a forma mais comum de distorção promovida pelo recurso às "pequenas narrativas" é a perda ou o escamoteamento de uma das dimensões mais essenciais da experiência histórica, a diacronia. Ora, me parece que o predomínio de uma História sem diacronia nos conduz, perdoem-me o exagero, a mutilar Clio. E para que nos servirá Clio mutilada, picotada, desconjuntada?

Sendo a arte da projeção uma questão de selecionar ângulos, parece-me que o principal problema na elaboração de uma "grande narrativa" é a escolha de uma perspectiva capaz de nos guiar pelos labirintos do tempo - um fio de Ariadne. Como ditam os princípios da projeção, tal escolha implica em determinar o que desejamos ganhar através da "grande narrativa", mas também o que estamos dispostos a perder em seu processo de formulação.

Minhas primeiras reflexões em torno dessa questão datam de 2012, quando escrevi meu terceiro livro, A ilha e o tempo, dedicado à história dos 400 anos da cidade de São Luís do Maranhão. Agora me dou conta de que o "tempo" foi meu labirinto, enquanto a "ilha" me serviu como fio de Ariadne. Concebi esse trabalho segundo um duplo artifício: narrar a história de São Luís a partir de uma perspectiva global, simultaneamente narrando a história do mundo a partir de uma perspectiva ludovicense, promovendo um jogo de reflexos e refrações, a partir da experiência de diversos personagens que vivenciaram São Luís ao longo de seus 400 anos.

Para tanto, me inspirei particularmente na noção matemática de fractalidade, entre outros modelos vagamente inspirados pelas ciências exatas. Tais ruminações renderam uma espetacular madrugada de diálogo com meu "irmão" Kainã, jovem físico de grande perspicácia - na verdade, essa instigante tertúlia interdisciplinar vem, desde então, suscitando inúmeros questionamentos acerca de diversas problemáticas ontológicas, bem como sobre as múltiplas possibilidades de diálogo entre as ciências humanas e exatas.

Durante boa parte do século XX os historiadores buscaram ferramentas nas ciências exatas, especialmente na Estatística, com a finalidade mais ou menos explícita de alcançar novos patamares de objetividade científica. Essa abordagem rendeu resultados consideráveis em determinadas áreas, especialmente na história da economia e da demografia, mas hoje muitos olham com desdém para essa historiografia dita "serial". Por sinal, me parece que o colapso dessa abordagem corresponde, em grande medida, ao desenvolvimento do ceticismo acerca das "grandes narrativas".

Havia implícita nesse modelo, creio eu, uma concepção estritamente "denotativa" da Matemática e de seus recursos de modelação da realidade. Penso que talvez seja o momento de retomar o diálogo historiográfico com as ciências exatas, sobre novas bases, especialmente buscando na linguagem matemática um potencial "conotativo", não capaz de ancorar objetivamente a História no concreto, mas de ampliar nossas possibilidades de abstração em torno da experiência histórica, inspirando novos olhares, capazes de formular "grandes narrativas" de modo criativo e inovador - algo como uma "hermenêutica matemática" (ou uma "retórica matemática"), capaz de expressar ou sintetizar as experiências do ser humano no tempo através dessa linguagem cujas potencialidades, literalmente, tendem ao infinito.

Por que não?

Esse texto só existe devido a inúmeras pessoas, especialmente minha esposa, Priscila, verdadeira co-autora de A ilha e o tempo, meu ex-orientador e sempre amigo, Rodrigo Bentes Monteiro, o embaixador Vasco Mariz, o Prof. Sebastião Moreira Duarte, o Dr. Luís Mário Duarte, os "irmãos" Kainã e Igor, e os amigos Roger Marques e Fred Oliveira, entre outros companheiros de jornada e de lutas.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Quem oprime?

Hoje, em sala de aula, um aluno deu vários tapas nas nádegas de uma colega. Ela reclamou, solicitando minha intervenção

Detalhes: o aluno em questão é negro, bastante pobre e é tratado pela família com grande descaso, frequentando a escola com roupas encardidas, por vezes exalando odores característicos de falta de higiene. A aluna pertence ao sexo feminino (obviamente), é branca e parece ter condição social e familiar consideravelmente melhor que a do menino; pela linguagem que anda por aí, poderíamos dizer que ela goza de "privilégios".

Educadamente, solicitei INÚMERAS vezes ao aluno que parasse de agredir sexualmente a colega e que a tratasse com o devido respeito, mas precisei falar com rispidez para que ele finalmente atendesse. Discuti brevemente a questão ("você gostaria que fizessem isso com a sua mãe, etc"), mas creio que minhas ponderações "entraram por um ouvido e saíram pelo outro".

Meu aluno é oprimido ou opressor? Ou desempenha ambos os papéis? E a aluna, branca, de classe média baixa, "privilegiada" - oprimida ou opressora? E eu, professor, homem-branco-heterossexual-de-classe-média, tentando ensinar o menino a respeitar as mulheres, tal como me ensinara meu avô (homem-branco-etc), sou opressor?

É muito fácil criar rótulos e estereótipos. Difícil mesmo é lidar com a complexidade da realidade.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Violência e poder

Trecho do livro A história do mundo em 100 objetos, de Neil MacGregor



Etiqueta da Sandália do rei Den (c. 2985 a.C.)

"Esta pequena etiqueta é a primeira imagem de um governante na história da humanidade. É impressionante, e talvez um tanto desanimador, que, já nos primórdios, o governante queira ser mostrado como comandante-chefe, conquistando o inimigo. É assim que, desde os tempos antigos, o poder é projetado por imagens, e há qualquer coisa de perturbadoramente familiar nisso. Em suas formas simplificadas e sua calculada manipulação de escala, lembra, estranhamente, uma charge contemporânea.

O trabalho do fabricante de etiquetas era, porém, muito sério: fazer seu líder parecer invencível e semidivino e mostrar que Den era o único homem capaz de garantir aquilo que os egípcios, como todo mundo, queria de seus governantes - lei e ordem. Dentro dos domínios do faraó, esperava-se que todos obedecessem e assumissem uma clara identidade egípcia. A mensagem em nossa etiqueta de sandália é que o preço da oposição era alto e doloroso.

Essa mensagem é transmitida não apenas na imagem, mas também por escrito. Há alguns hieróglifos primitivos arranhados no marfim que nos dão o nome do rei Den e, entre ele e o inimigo, as terríveis palavras 'eles não devem existir'. Esses 'outros' serão destruídos. Todos os truques de propaganda política selvagem já estão aqui: o governante calmo e vitorioso em contraste com o inimigo estrangeiro, derrotado, desfigurado. Não sabemos quem é ele; no entanto, uma inscrição do lado direito da etiqueta diz o seguinte: 'A primeira oportunidade de derrotar o leste'. Como o solo arenoso sob as figuras eleva-se à direita, já se sugeriu que o inimigo vem do Sinai, a leste.

[...]

É uma estratégia desalentadoramente familiar. Conquista-se apoio total dentro do país dando atenção especial às ameaças externas, mas as armas necessárias para esmagar o inimigo também servem para cuidar dos adversários internos. A retórica política da agressão estrangeira é respaldada pelo controle interno enérgico".