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domingo, 1 de janeiro de 2017

Rogue One não precisava de Star Wars (e vice-versa)

Muita gente gostou de Rogue One; algumas pessoas até o consideraram o melhor filme de Star Wars. Eu achei a produção ao mesmo tempo medíocre (enquanto filme) e péssima (enquanto filme da série Star Wars).

Em primeiro lugar, o universo de Star Wars não precisava de Rogue One, que se dedica a explicar (mal) o que não precisava de explicações.

O filme narra o roubo dos planos da Estrela da Morte pela Aliança Rebelde, mencionado no início do Episódio IV, e vai semeando um bocado de contradições e inconsistências pelo meio do caminho. Aponto apenas algumas delas. Logo no início de Uma nova esperança, a princesa Leia censurava Darth Vader por sua violenta abordagem à Tantive IV, uma nave diplomática, enquanto Rogue One mostra a nave recebendo as plantas diretamente, no meio de uma grande batalha espacial. A discreta brecha de segurança na Estrela da Morte sugeria que mesmo os mais poderosos equipamentos possuem seu acidental calcanhar de Aquiles, uma noção bem afinada com a crítica de Lucas à sociedade industrial e à fragilidade dos impérios, enquanto o novo filme "explica" essa falha como algo propositalmente planejado por um cientista dissidente.

Em suma, Rogue One pretende explicar demais, o que pode ser fatal a qualquer fantasia, como bem observava David Mazzuchelli acerca dos quadrinhos: quanto mais realismo se deseja instilar na obra, mais evidentemente irreal parece a premissa original. George Lucas também sabia disso. Conforme nota o cineasta, ninguém precisa saber como "realmente" funciona um hyperdrive - é apenas um equipamento que permite viajar à velocidade da luz, possibilitando que os personagens percorram as distâncias entre planetas. Qualquer explicação (pseudo)científica adicional tornaria hyperdrives, blasters, sabres de luz etc cada vez menos críveis - e não o contrário.


Desde o início, Lucas deu a Star Wars um fundo mitológico, inspirado pela (não muito boa) obra do "mitólogo" Joseph Campbell. Star Wars funciona como um conto de fadas - "A long time ago, in a galaxy far, far away"... O universo criado por Lucas tinha inúmeras e interessantíssimas referências históricas, mas sempre refratadas pelo prisma lendário - "História ouvida à soleira da Lenda", como diria talvez Victor Hugo. Um breve comentário de Gareth Edwards, diretor de Rogue One, mostra sua fatal dificuldade em compreender a premissa: "It's the reality of war. Good guys are bad. Bad guys are good. It's complicated, layered; a very rich scenario in which to set a movie" ["É a realidade da guerra. Caras bons são maus. Caras maus são bons. É complicado, em camadas; um panorama muito rico em que situar um filme"].

Ao contrário do que muita gente fala, o universo criado por Lucas não é tão maniqueísta quanto parece à primeira vista, embora trate a ambiguidade moral de maneira sutil. Afinal de contas, todo mundo sabe que Han atirou primeiro... As próprias mudanças e remendos que Lucas fez em sua obra servem como comentário metalinguístico a essa ambiguidade original. Edwards, pelo contrário, parece pregar essa ambiguidade na testa do espectador a cada instante do filme (com uma marreta).

Han Solo é um personagem "complexo, em camadas" - e, como todas as coisas realmente complexas, isso não fica evidente à primeira vista. Na verdade, Han foi gradativamente evoluindo segundo rumos imprevistos ao longo da produção da trilogia original; descobrimos e desembrulhamos suas "camadas" conforme ele enfrenta inúmeros problemas. Por outro lado, os personagens supostamente complexos de Rogue One querem entregar sua "complexidade" ao espectador embrulhada para viagem desde as primeiras cenas; as tais "camadas" aqui parecem transparentes. O único personagem realmente interessante e intrigante no filme é K-2SO, um robô - e isso diz quase tudo. De resto, como já explorei em outro texto, a obra de Edwards padece do mesmo mal que tantos outros filmes recentes: excesso de personagens e caracterização demasiadamente veemente, resvalando na caricatura.

Tudo isso nos leva à questão inicial: Rogue One não precisava de Star Wars. É apenas um filme de guerra espacial "realista" [sic] que poderia ser situado em qualquer outra galáxia distante. Nesse sentido, é uma obra que reúne os piores "erros" encontrados em outras obras do chamado "universo expandido". Em outra ocasião posso enumerar alguns deles; por aqui, basta uma síntese: o grande equívoco é achar que Star Wars é apenas um universo ficcional, e não um determinado cânone estético.

Há pouco tempo li as primeiras histórias em quadrinhos de Star Wars, produzidas nos anos de 1977 e 1978, logo depois do lançamento do primeiro filme, desenhadas por Howard Chaykin, um dos artistas mais populares da época. Os criadores visivelmente não haviam compreendido a proposta de Lucas - desenvolveram apenas uma série de narrativas protagonizadas por Luke, Han e Leia, mas estritamente aparentadas a outras tantas ficções científicas da época. Não perceberam, por exemplo, que os figurinos de Star Wars tendiam mais ao "histórico" que ao "futurista", assim como não entenderam que o design das naves e tecnologias do filme se afastava significativamente de outras obras do gênero.

É exatamente o que se passa com Rogue One: os personagens, temas, tramas, padrões narrativos e a própria trilha sonora destoam do cânone estético de Star Wars. A abordagem, principalmente, destoa das melhores obras de Star Wars produzidas em inúmeras mídias. Rogue One pretende - pretensiosamente, por assim dizer - ser um filme "sério", enquanto a obra de Lucas tangencia inúmeros temas relevantes, sem jamais se levar excessivamente a sério. O riso é parte vital de Star Wars. C-3PO, R2-D2, Chewbacca e até o recente BB-8 são carismáticos e cativantes porque são engraçados. O riso rompe barreiras entre universos, dando vida àquela galáxia distante. Não à toa o engraçadíssimo pastiche-paródia William Shakespeare's Star Wars é delicioso, enquanto muitos dos livros "sérios" do universo expandido são soporíferos. É claro que isso nem sempre dá certo, como comprova o tão odiado Jar Jar Binks.

Um contraponto pode ser interessante aqui. Em 2015 os irmãos Wachowski lançaram a curiosa fantasia espacial Jupiter ascending, que descreveram como uma mistura de Star Wars com O Mágico de Oz. Embora a aventura não se situe no universo de Lucas, traz uma abordagem muito mais fiel a sua estética que Rogue One. Nesse sentido, vale notar que uma tensão mal resolvida percorre todo o filme de Edwards: por um lado, contém um excesso de referências à saga, piscando para o espectador como se sofresse de um tique nervoso; por outro, busca ostensivamente romper com a estética de Lucas, se afirmando como algo novo. Isso fica muito claro na cena em que, para efeito cômico, a protagonista Jyn ordena silêncio ao droid K-2SO, interrompendo o bordão repetido em todos os filmes anteriores por personagens variados, "I have a baaaad feeling about this".

Obviamente é válido e legítimo produzir diversas abordagens sobre o universo de Star Wars, como já acontece há décadas no universo expandido; há muito tempo passei da idade de ser purista com esse tipo de coisa. Toda a questão consiste em avaliar quão satisfatórios são os resultados - o que, evidentemente, depende de gostos e perspectivas. Minha opinião sobre Rogue One é simplesmente que "the Force is not strong with this one".

Concluindo, há quem diga que George Lucas seguia uma receita de bolo. Na minha opinião, isso diz menos sobre a obra do cineasta que sobre a ignorância culinária daqueles que endossam esse parecer. Qualquer pessoa experimentada em forno e fogão sabe que a receita é apenas o ponto de partida. Alterações sutis na quantidade e proporção dos ingredientes, no movimento de mistura ou na temperatura e tempo de cozimento trazem resultados significativamente diferentes. É por isso que cada um dos episódios produzidos por Lucas tem sabor próprio. Mesmo O Império contra-ataca e A vingança dos Sith são agridoces de maneiras muito diferentes. Rogue One precisava de mais açúcar e menos carbonite...

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